
transmitiam uma sensação de poder e hierarquia e um misto de
admiração e assombro não raro ligado ao termo religioso. (p. 20)
Ainda elencados por SANTOS (2022), estão também o caráter sombrio e mórbido que
essas construções acabavam por ressaltar, por se voltarem para construções de igrejas, onde
se desenvolvia uma forma de cultuação ao macabro da morte, à obsessão pelo sofrimento,
relacionados portanto aos martírios cristãos (p. 21). É a partir desses pensamentos de
inferioridade humana e grandiosidade da natureza, dessa iconicidade mórbida, que já se
podem perceber pequenos resgates de uma ambientação medieval que se tornaria, anos mais
tarde, o que conhecemos atualmente como literatura gótica.
Por volta do século XVIII, a obra inicial O Castelo de Otranto (1764), de Horace
Walpole (um dos pais da literatura gótica), trouxe à luz elementos de um resgate medieval em
suas ambientações, tornando-se tendência não somente no que viria a se tornar a literatura
gótica, mas também no movimento do Romantismo, que surgiria algumas décadas mais tarde.
As obras mais célebres do momento seguiam o modelo colocado por SANTOS (2022) como
sendo dulce et utile, em referência à Ars Poetica de Horácio, cujo intuito era entreter o seu
leitor, ao mesmo tempo que lhe devia educar, sendo que “O efeito pretendido era, sobretudo,
didático: a obra de arte deveria aperfeiçoar o homem, enobrecê-lo, comunicando, por meio da
ficção, o que é bom e belo” (p. 23). Sendo assim, quando Walpole traz, nos primórdios de O
Castelo de Otranto, a cena catastrófica da morte de Conrado, às vésperas de casar-se com
Isabella, o autor já cria um certo abismo entre aquilo que se era esperado de uma obra
literária para os padrões da época e o que ele estava disposto a trazer, uma vez que não é
possível encontrar ensinamento didático sobre o fim trágico da obra
Walpole vai desenvolver a sua história inserindo elementos que se tornariam
posteriormente inerentes a quaisquer obras de caráter gótico, tais como o medo, a morte, o
terror, os crimes cometidos, as aparições (ou também alucinações) e, seguindo o próprio
título do romance, a presença icônica de castelos abissais, sombrios e lúgubres que reforçam
o sentimento já elencado na arquitetura gótica: a pequenez humana. Mais tarde, O Castelo de
Otranto e o próprio Horace Walpole serviriam como inspirações para autores e obras que
adentrariam também o cânone da literatura gótica, tais como Mary Shelley, ao escrever o seu
grande sucesso de terror científico Frankenstein (1818); as Irmãs Brontë ao escreverem seus
famosos romances como O Morro dos Ventos Uivantes (1847), de Emily Brontë e Jane Eyre
(1847), de Charlotte Brontë; e até mesmo Bram Stoker, criador do mais icônico e conhecido
vampiro da contemporaneidade, Drácula (1897).