
PERTO DE TI, MATAS. LONGE DE TI, EU MORRO
substância - até porque descoúecia totalmente o que eÍa -, a F.C. optou por
experimenLá-la, passando, a partir desse ponto, a inclú-la no seu dia-a-dia. Para tal
contribuiu, de acordo com a informante, o conhecimento que, nessa época e à luz das
circunstâncias, tinh6 disponível sobre drogas ilícitas: por um lado, a rela@o que havia
estabelecido com o haxixe, que não era problemática; por outro, a informação que lhe
fora prestada pelo cônjuge, que a heroína seria idêntica ao haxixe. Além destas razões,
acrescentaríamos uma oufra, proveniente de um plano mais abrangente: a visão
dominante sobre as drogas, que, na esteira de atitudes repressivas e à luz de
pressupostos meraÍrente morais, tende a gerar, ao nível do senso comum, perspectivas
de abordagem uniforrres sobre as substâncias psicoactivas ilícitas, tornando-as similares
ao nível dos efeitos, características, etc.
Assim, na sequência de um processo de valoração positiva - apesar de não ter gostado
dos efeitos iniciais - da experiência que foi encetando com heroína" a F.C. começou a
acompanhar o seu cônjuge nos coÍlsumos. No entanto, admite que, não obstante o pó tet
sido imediatamente integrado no quotidiano, esta maúz de uso não se prendeu,
inicialmente, com sintomas ou tensões associados à ressaca, mas antes com uma
identificação que resultou dos efeitos percepcionados:
F.C.: Fumei e pronto, aquilo até me soube mal nesse dia. Foi horrível, vomitei, não gostei, não sei
quê. Mas, sinceramente, ao outro dia, pronto, já fumei com ele [ex-marido] (...).
Pedro Machado: A F.C. não tinha qualquer informação sobre o que era a heroína?
F.C.: Nada, nada, nada. Isso, para mim, era tudo chinês, a sério. Tanto é que apanhei o meu ex-
marido a fumar e, não sabendo o que era aquilo, perguntei-lhe. «o que é que é isso?». E ele
justificou-se, pronto, não me disse que era heroína. Disse que era droga, mas que era uma droga
como o clarro. Pronto, não me quis estar a explicar. Não me quis estar a dar explicações, com
ceÍteza. Claro que não, não é? Mas ele já sabia perfeitamente o que era, tinha sido drogado. Ele,
aos treze anos, já se injectava. Portanto, ele sabia o que era. Quem não sabia, era eu. E eu acreditei
perfeitamente no que ele disse. Para mim, é assim, não me sentia dependente de charro, fumava.
Fumei e pensei mesmo... Mas, realmente, a realidade é bem diferente. Não tem nada a ver. (...) É
assim, desde a primeira vez que fumei, que não gostei muito e não sei quê, e no segundo dia e por
aí fora. ai, aí, eu já queria! Já queria! Não era porque sentisse ressaca, porque eu não sentia
ressaca. Ah, mas queria fumar porque sentia-me muito bem com aquilo. Não é? Até... Também,
claro...Sentia-me bem, claro que fumava! É tógico (entrevista à F.C.).
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