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Ser dialógico é não invadir, não manipular, é não sloganizar. Ser dialógico é
empenhar-se na transformação constante da realidade. Esta é a razão pela qual, sendo
o diálogo o conteúdo da forma de ser própria à existência humana, está excluído de
toda relação na qual alguns homens sejam transformados em “seres para o outro” por
homens que são falsos “seres para si”. É que o diálogo não pode travar-se numa
relação antagônica. O diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados
pelo mundo, o “pronunciam”, isto é, o transformam, e, transformando-o, o humanizam
para a humanização de todos (FREIRE, 1983, p. 43).
Dos encontros amorosos do diálogo, em que é permitido a cada indivíduo manifestar a
sua opinião e, assim, participar dessa comunicação dialógica, estabelece-se uma relação não
mais de emissores e receptores, como se conhece a partir da teoria do modelo de Lasswell5 –
“quem, diz o quê, através de que canal, com que efeito?” (WOLF, 2009, p. 29, grifo do autor)
–, mas uma relação dialógica entre interlocutores. Paulo Freire (1983, p. 69) cita a educação
como um exemplo dessa relação de interlocução quando afirma que “a educação é
comunicação, é diálogo, na medida em que não é a transferência do saber, mas um encontro de
sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados”.
O sentido, portanto, é um produto do diálogo, seja por meio do diálogo interno que
acontece no pensamento de cada indivíduo através de signos da mesma matéria que as palavras,
de acordo com a teoria do dialogismo peirceano (SANTAELLA, 2004), ou na relação entre
falante e ouvinte, como descreve a teoria do dialogismo bakhtiniano:
O sentido não está armazenado nas consciências individuais, como em um depósito
estável e petrificado, mas na relação, nos interstícios entre o falante e o ouvinte, que
só se definem nas trocas recíprocas que estabelecem pelo discurso que escolhem entre
os discursos disponíveis. Sentido, portanto, é linguagem em movimento, diálogo
(SANTAELLA, 2004, p. 168).
Para que haja sentido, ou para que haja a “significação dos significados”, como afirma
Freire (1983), é preciso que exista liberdade, aceitação e compreensão. Trata-se de um processo
de troca, onde a “comunicação é a ‘co-participação de Sujeitos no ato de conhecer’” (LIMA,
2001, p. 55, grifo do autor) ao passo que, do lado oposto, aquilo que Freire chama de extensão
é concebido como “transmissão, transferência e invasão” (LIMA, 2001, p. 55). Invasão, pois
não há aí o processo de ouvir o outro, apenas a transmissão de um para um, ou de um para
muitos, ou seja, uma relação dominante de quem espera impor a sua verdade aos demais.
O diálogo deve ser, portanto, não um ato de tomar parte, mas um fazer parte. “Daí que
sua participação no sistema de relações camponeses-natureza-cultura não possa ser reduzida a
5 Lasswell desenvolveu um modelo de comunicação unidirecional onde uma mensagem parte de um emissor
para um receptor e, por meio de um canal, proporciona um determinado efeito.