Divisão do Trabalho e Circuitos da Economia Urbana em Londrina – PR. PDF Free Download

1 / 338
0 views338 pages

Divisão do Trabalho e Circuitos da Economia Urbana em Londrina – PR. PDF Free Download

Divisão do Trabalho e Circuitos da Economia Urbana em Londrina – PR. PDF free Download. Think more deeply and widely.

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA HUMANA
Divisão do Trabalho e
Circuitos da Economia Urbana em Londrina – PR.
Edilson Luis de Oliveira
Tese apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Geografia Humana do
Departamento de Geografia da
Faculdade de Filosofia Letras e
Ciências Humanas da Universidade de
São Paulo para obtenção do título de
Doutor em Geografia.
Área de concentração: Geografia
Humana.
Orientadora: Prof.ª Dra. Maria Laura Silveira.
São Paulo
2009
II
DEDICATÓRIA
Meus pais, Luís e Maria Francisca, deram-me a vida e ensinaram-me que lutar por
ela e desejá-la são tão essenciais quanto respirar. Minha companheira Lilian Deróbio
me apoiou e incentivou a enfrentar os desafios e reveses e comemorou comigo a
generosidade da vida. A eles dedico esse trabalho.
III
AGRADECIMENTOS
À Prof.ª Dra. Maria Laura Silveira, que, durante os anos de convivência,
muito contribuiu para meu amadurecimento intelectual e profissional com
a ética, paciência e generosidade que caracterizam sua conduta
profissional.
Ao Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Londrina
pelo apoio material e acadêmico durante o período de elaboração da tese.
Ao Programa de Pós-Graduação do Departamento de Geografia da
Universidade de São Paulo pela oportunidade de realizar o curso de
Doutorado.
Ao Prof. Dr. Elvio Martins Rodrigues pelas discussões no Grupo
Geografias do Contemporâneo” e pelas sugestões e críticas que pautaram
a elaboração da Tese.
Aos colegas do Grupo “Geografias do Contemporâneo” por compartilharem
leituras e experiências de trabalho acadêmico.
À grande amiga, Prof.ª Dra. Ângela Katuta, pelos longos diálogos e ricas
sugestões que muito ajudaram na elaboração da Tese.
Aos alunos Pedro, Guilherme, Igor, Juliana, Raquel e Sílvia, do curso de
Geografia da UEL, que me ajudaram em diferentes momentos do trabalho
de campo.
IV
OLIVEIRA, Edilson Luis de. Divisão do trabalho e circuitos da
economia urbana em Londrina PR. 2009. 338 f. Tese (Doutorado)
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São
Paulo, São Paulo, 2009.
RESUMO
O objetivo central desta tese é analisar as transformações da economia
urbana londrinense, particularmente de seu circuito inferior, à luz das
variáveis que caracterizam o período atual, o período da globalização.
Para tanto, dividimos a presente tese em duas partes. Na primeira,
analisamos as sucessivas modernizações efetivadas em Londrina e as
transformações na divisão territorial do trabalho que redundaram em
diferentes especializações produtivas a partir da década de 1930. Na
segunda parte, analisamos a organização e o funcionamento de três
atividades do circuito inferior da economia urbana: o pequeno comércio
estabelecido no Camelódromo de Londrina, o serviço de Mototáxi e o
serviço de Entregas Urbanas realizado por motoboys.
As conclusões a que chegamos revelam que, no período atual, a dinâmica
do meio construído é um dado fundamental da economia urbana. Os
fluxos que se efetivam a partir das atividades investigadas envolvem a
redefinição dos papéis de intermediação que caracterizam Londrina como
uma cidade média da Região Concentrada.
O circuito inferior atual apresenta diferenças importantes em relação
àquele que se formou em Londrina ao longo dos anos 1970, tais como: as
trajetórias dos trabalhadores no mercado de trabalho, a importância dos
processos migratórios do campo para a cidade, as escalas de ação de cada
circuito, suas formas de integração, entre outras. Estas diferenças são
conseqüências das modernizações na economia urbana inerentes à
expansão e difusão espacial do meio técnico-científico-informacional.
Palavras-chave: Economia urbana. Londrina. Meio técnico-cientifico-
informacional.Divisão Territorial do Trabalho. Circuito Inferior.
V
OLIVEIRA, Edilson Luis de. Labor division and circuits of urban
economy in Londrina PR. 2009. 338 f. Tese (Doutorado) Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São
Paulo, 2009.
ABSTRACT
The central objective of this thesis is to analyze the transformation of the
urban economy Londrina, particularly to its lower circuit in the light of
variables that characterize the current period, the period of globalization.
To this end, we have divided this thesis into two parts. At first, we analyze
the successive modernization that happened in Londrina and the changes
in the territorial division of labor that resulted in different productive
specializations from the 1930s. In the second part, we analyze the
organization and operation of three activities of lower circuit of the urban
economy: the small business set out in Camelódromo of Londrina, the
Moto Táxi service and service performed by Urban Delivery couriers.
The conclusions reached show that in the current period, the dynamics of
the built environment is a fundamental element of the urban economy.
The flows that happen based on the investigated activities involve the
redefining of intermediation roles that featuring Londrina city as medium
town in the Concentrated Region of Brasil
The contemporaneous lower circuit shows major differences when it
compares with the lower circuit formed in Londrina in the 1970s, like
these: the trajectories of workers in the labor market, the importance of
migration from the countryside to the city, the scales of action of upper
and lower circuits, its forms of integration, among others. These
differences are consequences of modernizations in the urban economy.
Besides, they’re inherent at expansion and spatial diffusion of technico-
scientific-informational milieu.
Keywords: Urban Economy. Londrina. Technico-scientific-informational
Milieu. Lower Circuit. Territorial Labor’s Division. Upper Circuit. Lower
Circuit.
VI
Lista de Gráficos
Gráfico 1 – Londrina: evolução das populações urbana e rural, 1950 a 1970
Gráfico 2 – Londrina: evolução do n.º de estabelecimentos da Indústria,
Comércio e Serviços, 1950 a 1970.
Gráfico 3 – Londrina: PEA por setores de atividade, 1960 a 1970.
Gráfico 4 – Londrina: evolução da telefonia fixa, 1960 a 1990.
Gráfico 5 – Microrregião Homogênea de Londrina: evolução da área colhida
das lavouras temporárias, 1970 a 1980.
Gráfico 6 – Londrina: evolução das populações urbana e rural, 1960 a 2000.
Gráfico 7 – Londrina: evolução da PEA por setores de atividade, 1960 a 2000
Gráfico 8 – Londrina: crescimento relativo da população urbana e da PEA em
atividades urbanas, 1970 a 2000.
Gráfico 9 – Londrina: evolução dos estratos de renda, 1970 a 2000
Gráfico 10 – Londrina: n.º de estabelecimentos da indústria de
transformação, 1960 a 1985
Gráfico 11 – Londrina: pessoal ocupado na indústria de transformação,
1960 a 1985
Gráfico 12 – Londrina: atividades de serviço selecionadas, 1974 a 1993
Gráfico 13 – Brasil: índice médio de desemprego total em seis Regiões
Metropolitanas, 1998 a 2008
Gráfico 14 – Brasil: percentual de municípios com presença do serviço
de Moto Táxi por Macrorregião, 2005 e 2008
Gráfico 15 – Brasil: variação do rendimento médio real dos assalariados em
seis Regiões Metropolitanas, 1998 a 2008.
Gráfico 16 – Brasil: pessoas em domicílios abaixo da linha da pobreza,
1977 a 2007
Gráfico 17 – Londrina: equipamento domiciliares nas residências dos
trabalhadores do circuito inferior, 2008
Gráfico 18 – Londrina: rendimentos líquidos dos trabalhadores nas três
atividades, 2008
Gráfico 19 – Grau de escolaridade dos trabalhadores do Camelódromo
Gráfico 20 – Grau de escolaridade dos proprietários dos mototaxistas
Gráfico 21 – Grau de escolaridade dos motoboys
Gráfico 22 – Londrina: mototaxistas segundo tipos de corridas
.......... 53
............ 54
.......... 55
.......... 66
.......... 70
.......... 78
.......... 81
.......... 82
.......... 83
.......... 96
.......... 96
......... 105
......... 132
......... 159
......... 181
......... 181
......... 210
......... 213
......... 227
......... 227
......... 227
......... 242
VII
Lista de Figuras
Figura 1 – Estrada Vicinal no Distrito da Warta, 1957 ................................ 30
Figura 2 – Vila da Fraternidade: abertura de rua, 1986 ................................ 58
Figura 3 – Camelódromo de Londrina, 2006 ............................... 140
Figura 4 – Primeiro Camelódromo de Londrina, 1997 ............................... 143
Figura 5 – Primeiro Camelódromo de Londrina, 1997 ............................... 143
VIII
Lista de Mapas
Mapa 1 – Norte do Paraná: áreas de colonização dirigida e não dirigida
Mapa 2 – Paraná: situação dos terás adquiridas pela CTNP e sistema viário,
1957
Mapa 3 – Rede de estradas vicinais do entorno regional de Londrina, 1938
Mapa 4 – Londrina: croquis da planta inicial da cidade
Mapa 5 – Londrina: localização de algumas Vilas, 1957
Mapa 6 – Aglomeração urbana não-metropolitana de Londrina: evolução da
população urbana, 1960 – 1991
Mapa 7 – Norte do Paraná: áreas com ganhos e perdas de população,
1970 a 1991
Mapa 8 – Londrina: distribuição das áreas industriais – CILOS
Mapa 9 – Brasil: distribuição do Serviço de Moto Táxi por Região, 2005/08
Mapa 10 – Londrina: distribuição das Centrais de Moto Táxi, 2008
Mapa 11 – Londrina: distribuição das Centrais de Moto Táxi e setores
censitários com mais de 20% de responsáveis por domicílios
com rendimentos de até 2 sal. mínimos, 2008.
Mapa 12 – Londrina: porte das centrais por n.º de mototaxistas, 2008.
Mapa 13 – Londrina: distribuição dos trabalhadores do Camelódromo, 2008
Mapa 14 – Londrina: distribuição dos mototaxistas, 2008
Mapa 15 – Londrina: distribuição dos motoboys, 2008
Mapa 16 – Londrina: distribuição dos trabalhadores do circuito inferior
e setores censitários com mais de 20% de responsáveis por
domicílio com
rendimento de até 2 salários mínimos, 2008.
Mapa 17 – Londrina distancia relativa das Centrais ao Centro Principal.
Mapa 18 – Fluxos de mercadorias vendidas no Camelódromo de Londrina,
2008
Mapa 19 – Paraná: municípios de procedência dos compradores de
mercadorias do Camelódromo de Londrina, 2008.
Mapa 20 – Londrina: representação esquemática dos fluxos principais e
secundários do Moto Táxi, 2008.
Mapa 21 – Londrina: representação esquemática dos fluxos principais das
Entregas Urbanas, 2008.
Mapa 22 – Norte do Paraná: municípios que recebem corridas dos
motoboys pelo menos uma vez por semana, 2008.
Mapa 23 – Norte do Paraná: municípios que recebem corridas dos
mototaxistas pelo menos uma vez por semana, 2008.
.......... 17
.......... 18
.......... 30
.......... 36
.......... 57
.......... 79
.......... 80
.......... 89
........ 159
........ 166
........ 169
........ 171
........ 205
........ 207
........ 208
........ 209
........ 244
........ 260
........ 261
........ 265
........ 266
........ 268
........ 269
Lista de Tabelas
Tabela 1 – Principais Agroindústrias da região de Londrina, 2007.
Tabela 2 – Caracterização das três maiores empresas de Entregas
Urbanas, 2008,
Tabela 3 – Trabalhadores (as) do circuito inferior em Londrina:
caracterização quanto ao gênero, 2008.
Tabela 4 – Trabalhadores (as) do circuito inferior em Londrina:
caracterização quanto as faixas etárias, 2008.
Tabela 5 – Migrantes, não-migrantes no circ. inferior - Londrina, 2008.
Tabela 6 – Participação dos trabalhadores autônomos no mercado
formal de trabalho, 2008.
Tabela 7 – Tempo de trabalho na atividade por conta própria, 2008.
Tabela 8 – Mototaxistas: funções anteriores e escolaridade, 2008.
Tabela 9 – Proprietários do Camelódromo: funções anteriores e grau de
Escolaridade, 2008.
Tabela 10 – Motoboys: funções anteriores e escolaridade, 2008.
Tabela 11 – Camelódromo: origem das mercadorias, 2008.
Tabela 12 – Tipos de empresas que solicitam o serviço
de Mota Táxi, 2008.
Tabela 13 – Motoboys que realizam entregas em outros municíp., 2008.
Tabela 14 – Municípios que recebem entregas por Motoboys
de Londrina, 2008.
Tabela 15 – Propriedade da motocicleta utilizada nas entregas
Urbanas, 2008.
Tabela 16 – Valor da prestação dos financiamentos, 2008.
............74
..........175
......... 203
......... 204
......... 217
......... 218
......... 219
..........223
......... 224
......... 224
......... 237
......... 248
......... 253
......... 253
......... 254
......... 255
X
SUMÁRIO
Introdução.................................................................................................. 1
PARTE I
ECONOMIA URBANA E DIVISÃO DO TRABALHO ........................................ 13
CAPÍTULO 1
A formação de Londrina e o berço rural de sua economia urbana ............. 14
1.1 – A formação de Londrina e de seu entorno regional ....................................... 16
1.1.1 – A importância do conhecimento prévio na escolha das áreas adquiridas pela
Companhia de Terras .................................................................................... 20
1.1.2 – Estratégias, seletividade e adequação às conjunturas na produção do arranjo
espacial de Londrina e seu entorno regional ..................................................... 25
1.1.3 – A produção da cidade e da situação de Londrina no contexto regional norte-
parananense ................................................................................................ 35
1.2 - A Cafeicultura e a economia urbana em Londrina ......................................... 41
1.2.1 – A Cafeicultura e o contexto da formação do circuito superior embrionário . 43
1.2.2 – A Cafeicultura e o contexto da formação do circuito inferior embrionário ... 53
1.2.3 – Os elementos dispersos de um circuito inferior embrionário .................... 56
CAPÍTULO 2
As transformações da economia urbana de Londrina no período técnico-
científico ................................................................................................... 61
2.1 – As condições para o pleno desenvolvimento dos circuitos da economia urbana 61
2.1.1 – A primeira fase de difusão do meio técnico-científico-informacional no
Paraná e em Londrina .................................................................................... 62
2.1.2 – As novas especializações produtivas: a expansão das lavouras temporárias
mecanizadas ................................................................................................ 70
2.1.3 – As novas especializações produtivas: agroindústrias e cooperativas ......... 73
2.1.5 – A rápida expansão e a diversificação do meio construído......................... 85
2.2 – Os circuitos da economia urbana em Londrina no período técnico-científico. .... 94
2.2.1 – Circuitos e produção ........................................................................... 95
2.2.2 – Circuitos e consumo ........................................................................... 99
CAPÍTULO 3
O período atual e as transformações na dinâmica dos circuitos .............. 108
3.1 – Uma breve caracterização do período atual ................................................ 108
3.2 – A expansão do meio técnico-científico-informacional e a contextualização de
Londrina como cidade média ............................................................................ 111
3.3 – As modernizações atuais e as repercussões sobre o circuito superior da economia
urbana ........................................................................................................... 116
3.4 – O período atual e o circuito inferior da economia urbana .............................. 121
3.4.1 – Algumas considerações sobre o período atual: desemprego, pobreza e
rupturas ..................................................................................................... 122
XI
PARTE II
A REESTRUTURAÇÃO DOS CIRCUITOS .................................................... 129
CAPÍTULO 4
A racionalidade do circuito inferior no período atual .............................. 130
4.1 – Racionalidade hegemônica e circuito inferior ............................................... 130
4.2 – A caracterização do Camelódromo de Londrina ........................................... 140
4.2.1 – A gênese do Camelódromo de Londrina ............................................... 143
4.3 – A gênese do Moto Táxi ............................................................................. 158
4.3.1 – A localização, distribuição e caracterização das Centrais de Moto Táxi ..... 166
4.4 – Entregas Urbanas: empresas e motoboys................................................... 173
CAPÍTULO 5
Trabalho, pobreza e circuito inferior no período atual ............................ 177
5.1 – Transformações no mundo do trabalho e a dinâmica do empobrecimento relativo
..................................................................................................................... 177
5.2 – Formas de resistência e enfrentamento da pobreza no período atual: a
diversidade de abordagens ............................................................................... 188
5.3 – A caracterização dos trabalhadores do circuito inferior da economia urbana em
Londrina ........................................................................................................ 202
5.3.1 – As características de gênero, faixas etárias e estado civil ....................... 203
5.3.2 – Localização, distribuição e caracterização dos domicílios ........................ 205
5.3.3 – Renda mensal, jornadas e vínculos de trabalho ..................................... 213
5.4 – As razões da entrada e da permanência dos trabalhadores nas atividades do
circuito inferior exercidas por conta própria ........................................................ 217
5.5 – Trajetórias dos trabalhadores do circuito inferior no mercado de trabalho e
escolaridade ................................................................................................... 223
CAPÍTULO 6
O circuito inferior na divisão do trabalho: aceleração contemporânea,
horizontalidade e articulação de escalas ................................................ 229
6.1 – A aceleração contemporânea e a circulação de mercadorias e pessoas em
Londrina ........................................................................................................ 229
6.2 – Circuito inferior e horizontalidade .............................................................. 234
6.2.1 – O Camelódromo: complementaridade e cooperação .............................. 236
6.2.2 – O Moto Táxi: fluxos intraurbanos, constrangimentos do meio construído e
formas de cooperação .................................................................................. 242
6.2.3 – Motoboys e entregas urbanas: complementaridade e fluxos intraurbanos 251
6.3 – As escalas da ação no circuito inferior ........................................................ 256
6.3.1 – O Camelódromo e a articulação de diferentes escalas ............................ 257
6.3.2 – Mototaxistas e motoboys: horizontalidades e verticalidades na circulação de
mercadorias no entorno de Londrina .............................................................. 262
CONCLUSÕES .......................................................................................... 271
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................. 288
ANEXO – QUESTIONÁRIOS ................................................................................ 303
Introdução
O objetivo central dessa Tese é analisar as transformações
da economia urbana londrinense, particularmente de seu circuito inferior,
à luz das variáveis que caracterizam o período técnico-científico-
informacional.
Um período é um instrumento de análise para geografia. A
periodização resulta da identificação de variáveis e eventos cujo
significado e duração podem ser demarcados, interpretados e
espacialmente contextualizados pelas relações entre processos, funções e
formas diversas, incluindo as formas espaciais (SANTOS, 1992).
A integração entre variáveis, eventos, processos, funções e
formas estabelece entre eles diversos graus de coerência e coesão que
auxiliam na definição da periodização. A cada novo período a coerência e
a coesão anteriores podem se desmanchar (SILVEIRA, 2004). Por outro
lado, a situação atual depende de influências e condições herdadas dos
períodos precedentes.
O período atual, período técnico-científico-informacional, é
marcado por variáveis como a informação e suas várias manifestações (as
consultorias, as cotações das bolsas, a propaganda, as possibilidades
presentes nos lugares, entre outras), a crescente aproximação entre
ciência e técnica, a constituição de redes de diversos tipos que influenciam
as formas de sociabilidade e de articulação entre os lugares.
Essas variáveis combinam-se a eventos como inovações
técnicas e organizacionais que, por sua vez, incidem sobre a qualidade e a
quantidade dos empregos e ocupações, sobre o ritmo e as escalas da
circulação, da produção e do consumo, enfim, sobre o modo de vida,
particularmente, o modo de vida urbano.
As maneiras como esse conjunto de variáveis, eventos e
processos se combinam nos lugares fazem com que o período atual
também se caracterize pela coexistência entre novas e velhas formas de
estabelecer a coerência e a subordinação entre os circuitos da economia
2
urbana. Os circuitos se reestruturam, adquirem novas feições, ensejam a
realização de novos processos e a perpetuação de outros, dão existência a
novas formas e fazem reviver formas consideradas superadas.
A sucessão dos períodos promove a superposição de
diferentes divisões do trabalho e, por meio delas, as influências e
condicionamentos de períodos anteriores incidem sobre o período atual.
Os circuitos são expressões da superposição das divisões do trabalho nos
lugares.
A formação e a reestruturação dos circuitos se fazem em
sintonia com as transformações na divisão territorial do trabalho. No Norte
do Paraná a dinâmica e a sucessão da inserção regional na divisão do
trabalho na escala nacional e na escala mundial foram decisivas para a
formação e a transformação da economia urbana londrinense. Ao longo da
pesquisa procuramos compreender o modo como as transformações da
cidade e do território ligadas às diversas divisões do trabalho se
combinaram para criar as condições para a formação e reestruturação dos
circuitos e de seu entrelaçamento.
Na primeira parte do trabalho a divisão territorial do
trabalho é uma categoria central para a organização da periodização
adotada e para a análise da formação dos circuitos em Londrina. Na
segunda parte a análise da coerência e das formas de entrelaçamento,
competição e subordinação entre os circuitos é o objetivo que
perseguimos.
Como manifestações da superposição de diferentes divisões
do trabalho em Londrina, as quais são viabilizadas pela diversidade,
fragmentação e articulação do meio construído, os circuitos se revelam,
eles próprios, expressão fiel dos conflitos e contradições que marcam o
cotidiano nas cidades médias da Região Concentrada.
O tema dos circuitos da economia urbana se reveste de
especial importância nesse momento em que, as conseqüências do projeto
neoliberal dos anos 1990 estão impressas na paisagem urbana com a
multiplicação dos trabalhadores ditos informais”, com o recrudescimento
3
das dívidas sociais e a produção de novas formas de empobrecimento e de
instabilidade.
O debate sobre a segmentação da economia urbana em
países subdesenvolvidos não é novo, mas nem por isso deixou de ser
atual. Segundo Milton Santos (1979) a formação dos circuitos da
economia urbana é inerente aos processos de modernização
desencadeados nos países subdesenvolvidos após a Segunda Grande
Guerra. As condições geográficas, econômicas e políticas próprias às
formas da divisão de trabalho, social e territorial, nos países
subdesenvolvidos foram transformadas de maneira específica pelos
processos de modernização. Como conseqüência o processo de
urbanização se acelera, reforçando a concentração de renda e gerando a
segmentação da produção e do consumo, que está na base da existência
dos circuitos. A presença dessa segmentação é estrutural e funcional ao
desenvolvimento do próprio capitalismo nos países do Terceiro Mundo.
A existência dos circuitos da economia urbana está
relacionada com a especificidade do espaço nos países subdesenvolvidos.
Essa especificidade deriva do fato de que os elementos que constituem o
espaço são os mesmos que estão presentes em outros países, mas o
modo como se combinam nos países subdesenvolvidos é diferente
(SANTOS, 1979, p.15). Para explicitar essa especificidade Milton Santos
insiste em quatro pontos fundamentais.
O primeiro deles é que, os países subdesenvolvidos se
“organizam e reorganizam em função de interesses distantes, e mais
freqüentemente na escala mundial (SANTOS, 1979, p.15). Essas forças
de transformação emanadas do exterior atingiam o território em pontos
específicos e não se difundiam pelo território com facilidade,
permanecendo relativamente concentradas.
O segundo ponto é uma decorrência direta do primeiro, uma
vez que a seletividade peculiar aos processos de modernização tinha como
resultante o fato de que as variáveis modernas não são acolhidas todas
ao mesmo tempo nem têm a mesma direção (SANTOS, 1979, p.15), o
4
que tornava o espaço nos países subdesenvolvidos, instável e
descontínuo, do ponto de vista da modernização. Produção moderna e
consumos modernos, por exemplo, difundiram-se de forma desigual e
combinada pelo território brasileiro afetando a formação do sistema
urbano, especialmente a configuração de suas Metrópoles.
O terceiro ponto indica a complexidade que se forma nos
lugares graças à multipolarização a que estão submetidos. Nas palavras
do autor temos o seguinte: o espaço dos países subdesenvolvidos é
igualmente multipolarizado, ou seja, é submetido e pressionado por
múltiplas influências e polarizações oriundas de diferentes níveis de
decisão” (SANTOS, 1979, p.15).
O quarto ponto dizia respeito às enormes disparidades de
renda e à sua expressão regional diferenciada, que nos países
subdesenvolvidos tinha implicações fortes sobre o acesso dos indivíduos a
um grande número de bens e serviços. Trazendo a discussão da
concentração de renda para um plano geográfico Milton Santos apontava
que “O nível de renda também é função da localização do indivíduo, o qual
determina, por sua vez, a situação de cada um como produtor e
consumidor”. (SANTOS, 1979, p.15)
No contexto da teoria dos circuitos da economia urbana a
afirmação da especificidade do espaço dos países subdesenvolvidos revela
com clareza a necessidade de considerar as múltiplas escalas envolvidas
na produção dos lugares, dialogando com as teorias sobre a dependência
1
,
de maneira que o componente espacial, particularmente, o processo de
urbanização, também fosse considerado.
1
diferentes enfoques e argumentações sobre a questão da dependência na América Latina. Alguns autores
discutiram o tema, compondo um amplo debate que se tornou emblemático nos anos 1960 e 1970 em relação às
alternativas para o desenvolvimento econômico na região. Podemos citar a título de exemplo:
CARDOSO, Fernando H. e FALETO, Enzo. Dependência e desenvolvimento na América Latina. Rio
de Janeiro: Zahar, 1973.
FURTADO, Celso. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.
GUNDER FRANK, André. Acumulação dependente e subdesenvolvimento. São Paulo: Brasiliense,
1980.
SANTOS, Theotonio dos. A Teoria da Dependência: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2000.
5
A teoria dos circuitos também propõe uma crítica frontal ao
dualismo, concepção muito difundida nos anos 1960 e 1970 acerca da
economia, da sociedade e da urbanização dos países subdesenvolvidos.
Milton Santos afirmava que o principal problema da
concepção dualista presente em diversas teorias da modernização
2
era
sua forma parcial e fragmentada de abordar a realidade. Privilegiando as
formas modernas de produção, e tratando as atividades não-modernas
como resíduos destinados a simplesmente desaparecer, essas teorias
concebiam o processo de modernização de forma linear e análoga a
processos naturais nos quais o amadurecimento varreria as formas
tradicionais de produção e consumo da cena econômica. Tratava-se
apenas de uma questão de tempo e de atraso histórico.
A idéia central das concepções dualistas, a de que entre
atividades modernas e tradicionais haveria situações de conflito e de
confronto, era explicitamente considerada pelo autor como equivocada,
em face das condições históricas e geográficas dos anos 1970. De uma
maneira taxativa, Santos (1979, p. 43) afirmou: “Assim o dualismo:
os dois circuitos têm a mesma origem, o mesmo conjunto de causas e são
interligados”.
É oportuno retomar esses aspectos atinentes à teoria dos
circuitos tendo em vista que as concepções dualistas, apesar de seu
anacronismo e equívocos teóricos, costumam reaparecer de forma sub-
reptícia nos debates atuais sobre a formalização dos informais, sobre
empreendedorismo e outros dessa natureza. Tidas como práticas de “boa
governança” as formas de controle e fiscalização draconianas sobre as
atividades classificadas como informais são requisitos para que esta ou
aquela cidade possa se inserir em circuitos globais de acumulação de
capital, habilitando-se assim a receber investimentos e outras concessões.
2
Dentre os autores que defendiam esse ponto de vista temos: GERMANI, Gino. Política y Sociedad en una
Época de Transición. Buenos Aires: Paidos, 1962 e HAGEN, Everett E. Theory of Social Change: how
economic growth begins. Homewood (Illinois): Dorsey Press, 1962.
6
Em resumo, as atividades informais o definidas e tratadas como signos
do atraso que, como tais, devem ser modernizadas.
A teoria dos circuitos indica que a cidade em países
subdesenvolvidos como o Brasil deve ser entendida como uma totalidade
resultante da articulação de dois subsistemas: o circuito superior e o
inferior, cuja existência e funcionamento estão diretamente relacionados
com o modo particular de realização do consumo e da produção
comandados pela grande indústria. Dessa forma, fica patente a
contemporaneidade do fenômeno dos dois circuitos em relação ao período
da modernização tecnológica
3
, que se caracteriza pelo peso e importância
crescentes da ciência e da tecnologia cuja produção é comandada por
gigantescas empresas multinacionais e pelo Estado, pela
internacionalização mais profunda da economia e por uma característica
que, para o autor, tem grande importância para a especificidade do
ordenamento espacial dos países subdesenvolvidos: a difusão em escala
mundial da informação e do consumo.
Esses argumentos deixam claro que não é possível falar em
circuitos da economia urbana para explicar a urbanização brasileira, por
exemplo, no século XIX ou no início do XX, pois as relações próprias à
disseminação do consumo e da informação, à integração do território
nacional por meio de uma intensa circulação de pessoas, mercadorias e
informações não se fazia presente.
Milton Santos (1979, p.67 a 94) caracteriza o circuito
superior, identificando as atividades que o integram: o comércio e a
indústria urbanos e modernos, o comércio de importação e exportação, a
indústria de exportação, os bancos, atacadistas e transportadores.
Identifica também os consumidores, ou o público, ligado a esse circuito.
3
O período atual diferencia-se nitidamente dos precedentes por sua capacidade nova de revolucionarização.
Pela primeira vez na história dos países subdesenvolvidos, duas variáveis elaboradas no centro do sistema
encontram uma difusão generalizada nos países periféricos. Trata-se da informação e do consumo a primeira
estando a serviço do segundo cuja generalização constitui um fator fundamental de transformação da
economia, da sociedade e da organização do espaço”(SANTOS 1979, p. 28).
7
Como nos diz o próprio autor, uma característica comum a
todas essas atividades é que elas são “capital intensivas”, ou seja, têm na
tecnologia, na organização burocrática e no acesso ao crédito bancário sua
base comum. Destacou ainda dois outros aspectos do circuito superior: a
forte presença de oligopólios, a exemplo de algumas empresas
multinacionais, e o favorecimento por parte do Estado, particularmente na
oferta de infraestruturas, subsídios fiscais, reserva de mercados, etc. Tais
aspectos são definidores da relação entre as atividades dos dois circuitos e
de cada um dos circuitos com o território.
Por sua vez o circuito inferior é composto pelas atividades
não-modernas, “intensivas em trabalho” e de pequeno porte, o que
abrange um amplo leque: comércio varejista, artesãos, pequenas
fabricações, serviços, especialmente o trabalho doméstico, transportes
autônomos, entre outros (SANTOS, 1979, p. 147 a 203). Esse circuito se
relaciona com as condições de vida da população pobre em meio à
economia urbana moderna
4
A urbanização e a modernização da economia produzem as
condições que permitem que o circuito inferior se instale. O circuito
superior é uma conseqüência direta da modernização tecnológica e o
circuito inferior, uma conseqüência indireta (SANTOS, 1979, p. 29). A
concentração de pessoas pobres nas grandes cidades será criadora de
uma demanda que o circuito superior, com sua lógica própria, o
atenderá. Essa demanda será tanto por bens e serviços como por
ocupação, se possível por empregos, por habitação, transporte, lazer, etc.
O circuito inferior que não se restringe ao setor terciário,
com o qual costuma ser confundido, inclui também formas artesanais de
produção. Seu fundamento principal, no entanto, é a associação entre
concentração de renda, consumos modernos e a ausência total ou parcial
de sistemas de proteção social. Frente a essas formas de escassez que
4
As condições de evolução da economia moderna e o enorme peso de uma população urbana com baixo nível
de vida, que não para de aumentar com a chegada maciça de migrantes vindos do campo, acarretam a existência,
ao lado do circuito moderno, de um circuito econômico não-moderno, que compreende a pequena produção
manufatureira, freqüentemente artesanal, o pequeno comércio de uma multiplicidade de serviços de toda
espécie.”(SANTOS, 1979, p. 155).
8
penalizam os mais pobres o circuito inferior se constitui como uma forma
de “perpetuar a pobreza” (SANTOS, 1979, p.203). Essa é a função que lhe
cabe e que possibilita entender a racionalidade do circuito inferior nas
cidades dos países do Terceiro Mundo.
A esses fundamentos soma-se o fato de que o consumo
crescente de produtos modernos por uma população pobre faz nascer uma
série de novas atividades no circuito inferior.” (SANTOS, 1979, p. 200).
Conclui-se, portanto, que a modernização do consumo se
configura como uma força importante na definição e articulação entre os
circuitos
5
. Trazendo essa discussão para o presente Maria Laura Silveira
(2004, 2009) considera que, dentre as variáveis que caracterizam o
período atual
6
, estão: as finanças e a expansão do crédito e a
intensificação do consumo que redundam em uma crescente exigência de
fluidez territorial por parte dos atores hegemônicos, especialmente os que
se organizam a partir da cidade e que repercutem sobre o cotidiano e o
modo de vida urbano.
A intensificação do consumo e da circulação, em conjunção
com outros processos inerentes ao período atual como o desemprego
crônico e as formas renovadas de produção de pobreza urbana, incidem
sobre a dinâmica dos circuitos, especialmente do circuito inferior. Essa é a
base sobre a qual se multiplicam os trabalhadores com motocicletas,
camelôs e camelódromos nas cidades brasileiras.
Em Londrina a recente recuperação do nível de emprego, ou
seja, a modesta redução do desemprego no país, não parece ter sido
suficiente para diminuir o contingente de trabalhadores submetidos a
jornadas extenuantes de trabalho e que não contam com perspectivas
5
“O papel do consumo, à semelhança do terciário, não tem sido suficientemente considerado. P. Sweezy (1973,
p.1) observa que n’O Capital Marx não analisou nem discutiu o papel do impacto tecnológico sobre o consumo
e, através deste, sobre a acumulação e o desenvolvimento social. vinte anos do fim do século XIX, não podia
Marx atribuir a essa variável o papel que ela assumiu com a revolução tecnológica e a rápida difusão de
inovações. Por outro lado, a acumulação não é exclusivamente dependente da produção, visto como o
consumo se transformou num instrumento tão importante, que ele próprio acarreta um processo de produção que
se torna posteriormente autônomo.” (SANTOS, 1982, p.12)
6
O período atual é também um sinônimo para o processo de Globalização e/ou Mundialização da economia e da
sociedade.
9
futuras de participar de sistemas de previdência social. Esses
trabalhadores atuam principalmente na esfera da circulação e do consumo
e respondem pela ampliação do contingente de trabalhadores por conta
própria e dos que estão inseridos em relações de trabalho enviesadas
como os motoboys.
Observando a dinâmica dos circuitos da economia em
Londrina notamos que a convergência entre a intensificação da circulação
e do consumo, o desemprego e as baixas remunerações de muitos
empregos formais aliados à fragmentação, os constrangimentos e a
diversidade do meio construído propiciaram a reestruturação dos circuitos
e a constituição de novas formas de entrelaçamento entre eles.
A relação entre a cidade e a divisão do trabalho
concretizada nos circuitos, mediada pelas transformações no meio
construído, foi uma escolha pertinente para a análise da economia urbana
londrinense. A fragmentação e a diversidade do meio construído na cidade
foram fundamentais para a compreensão da formação e funcionamento
dos circuitos, particularmente do circuito inferior no período atual.
Para discutir essas questões realizamos o trabalho de campo
a partir de 2007 e o concluímos em 2008. Como instrumento básico do
levantamento de dados, elaboramos questionários que foram aplicados a
diferentes categorias de trabalhadores envolvidos em atividades do
circuito inferior e/ou circuito superior marginal:
a) proprietários e funcionários do Camelódromo de Londrina;
b) mototaxistas e centrais de Mototáxi;
c) empresas de entregas urbanas e motoboys.
A investigação pretendeu, sobretudo, caracterizar os
trabalhadores e as atividades. A caracterização dos trabalhadores foi
constituída por uma parte relativa aos dados pessoais, dados do domicílio
do trabalhador e de sua relação com o mercado formal de trabalho em
Londrina. Na parte referente às atividades, buscamos conhecer suas
características básicas, tais como equipamentos utilizados, público
10
atendido, faturamento, principais despesas, jornadas de trabalho, entre
outras.
Quando a situação permitiu, os questionários foram
acompanhados de conversas mais longas, na forma de entrevistas o
estruturadas, as quais nos permitiram recolher muitas informações
adicionais para caracterizar as atividades e os trabalhadores envolvidos.
Vale ressaltarmos que, particularmente no caso dos
motoboys e mototaxistas, a realização das entrevistas e a aplicação dos
questionários foram dificultadas pelo ritmo do trabalho dessas pessoas.
Por vezes, os questionários foram interrompidos por chamadas e entregas
e ficaram incompletos. Na medida do possível, retornávamos ao local para
complementá-los e, quando isso não foi viável, substituímos o material
inconcluso por novas conversas e novos questionários.
Ao todo, foram aplicados 207 questionários a trabalhadores
das três atividades e mais 35 questionários às Centrais de Moto Táxi. Com
alguns deles a aplicação do questionário se transformou em entrevista, na
medida em que houve possibilidade de aprofundar a conversa e saber
mais sobre o entrevistado. Entrevistamos também o presidente da ONG
responsável pela gestão do Camelódromo em 2007, o Sr. Nilson Gonzáles
e o Prefeito Nedson Micheleti, que esteve à frente do executivo municipal
durante a constituição do Camelódromo e a regulamentação do serviço de
Moto Táxi. Foram realizadas ainda três entrevistas específicas com
proprietários das empresas Vai-Vem, Sol Motoboys e Terceiriza, as
maiores empresas de entregas urbanas de Londrina em 2007/2008.
A definição do número de questionários obedeceu a critérios
estatísticos e, para tanto, contamos com o auxílio do Departamento de
Matemática Aplicada da Universidade Estadual de Londrina. O número
mínimo de questionários para cada atividade, considerando uma margem
de erro de 8%, foi determinado da seguinte maneira: 80 questionários
deveriam ser aplicados nos estabelecimentos do Camelódromo, 34 para as
Centrais de Moto Táxi, 72 para os mototaxistas e 52 para os motoboys
das empresas de entregas urbanas.
11
Distribuímos os questionários aplicados aos mototaxistas e
às Centrais de forma proporcional entre as zonas norte, sul, leste, oeste e
central, o que resultou em um número maior de questionários e
entrevistas na zona central da cidade. Procuramos também, fazer uma
distribuição dos questionários aplicados no Camelódromo entre os dois
pavimentos do edifício e, no caso dos motoboys, entre as três empresas
que visitamos.
A partir dessas informações construímos um banco de dados
que permitiu a elaboração das tabelas, mapas e argumentos que
apresentamos ao longo do trabalho, sobretudo na segunda parte, onde
analisamos o circuito inferior em Londrina no período atual. Por sua vez, a
primeira parte trata da formação da economia urbana londrinense.
A primeira parte é composta de três capítulos. O capítulo 1
aborda a formação de Londrina e de seu entorno regional no contexto do
empreendimento imobiliário efetivado pelo capital inglês no Norte do
Paraná. Procuramos destacar a composição do arranjo espacial regional
em função das conjunturas das décadas de 1930 e 1940, para
discutirmos, em seguida, como a cafeicultura paranaense deu contornos
específicos a esse arranjo e definiu a possibilidade de formação de uma
economia urbana dinâmica em Londrina.
No capítulo 2, buscamos apresentar as transformações na
divisão de trabalho na escala local a partir de meados dos anos 1960. Tais
mudanças são decorrentes das modernizações que incidiram sobre a base
urbana e regional construída pela cafeicultura no Norte do Paraná, as
quais conformaram a emergência de novas especializações produtivas.
Esse momento tem especial importância, pois se consolidaram as bases
para o pleno desenvolvimento dos circuitos da economia urbana
londrinense. Apresentamos o circuito superior e o circuito inferior a partir
de atividades ligadas ao consumo e à produção que se desenvolveram na
cidade em sintonia com as novas especializações produtivas e a dinâmica
do meio construído.
12
No capítulo 3, discutimos o período atual em Londrina e as
transformações recentes na economia urbana londrinense associadas às
consequências do advento do projeto neoliberal no Brasil nos anos 1990.
O projeto neoliberal marcou a ruptura do padrão de integração social
construído a partir da Segunda Guerra Mundial. Enfatizamos as
consequências sobre o emprego e o empobrecimento relativo de grande
parte dos trabalhadores, tema retomado na segunda parte do trabalho.
Na segunda parte do trabalho, nossas atenções se dirigem
para análise do circuito inferior em Londrina a partir da caracterização de
três atividades: o pequeno comércio estabelecido no Camelódromo de
Londrina, o serviço de Mototáxi e o serviço de Entregas urbanas. No
capítulo 4, discutimos os conflitos e as complementaridades entre a
racionalidade hegemônica que se manifesta por meio do circuito superior
e as contra-racionalidades (SANTOS, 2008) as quais se manifestam nas
atividades do circuito inferior tomadas para investigação. Discutimos a
formação das atividades, sua organização e funcionamento.
No capítulo 5, aproximamos mais a análise das questões da
produção da pobreza no período atual e dos discursos sobre as formas de
enfrentar as dificuldades que o período atual impõe à reprodução do modo
de vida dos que vivem de seu trabalho. Procuramos caracterizar os
trabalhadores e o trabalho nas atividades do circuito inferior em Londrina.
No capítulo 6, nossa atenção se volta para os fluxos e as
escalas da ação nas atividades do circuito inferior. Buscamos desvendar as
formas de cooperação e competição entre as atividades do próprio circuito
inferior e entre o circuito inferior e o superior em Londrina. Identificar
algumas relações entre Londrina e outras cidades que têm base nos fluxos
e no funcionamento das atividades investigadas também foi um dos
objetivos do capítulo. Em resumo procuramos analisar o circuito inferior
em Londrina a partir de três atividades fortemente ligadas à expansão dos
consumos e da circulação, processos que se ligam às modernizações
características do período atual e que estão na base da reestruturação dos
circuitos em Londrina, especialmente do circuito inferior.
13
PARTE I
ECONOMIA URBANA E DIVISÃO DO TRABALHO
14
CAPÍTULO 1
A formação de Londrina e o
berço rural de sua economia urbana
No Brasil a existência e o funcionamento dos circuitos da
economia urbana são correlatos à constituição e a expansão do meio
técnico - cientifico, processo complexo que preside a passagem do uso do
território a partir dos diversos complexos agro-exportadores para o uso
comandado por uma economia urbano-industrial. Essa transformação
ampla na forma predominante do uso do território implicou, por exemplo,
na transição da chamada urbanização pretérita para uma nova
urbanização (SANTOS 1996).
Sobretudo no período pós-guerra, a nova urbanização
acompanhou a crescente unificação e integração material do território e
do mercado. Essa integração e a intensificação da divisão territorial do
trabalho permitiram um formidável aumento dos intercâmbios e das
articulações inter-regionais gerando uma verdadeira rede urbana nacional
(CORREA, 2001, p. 101), cuja integração, interna e externa contribuiu e
contribui pesadamente para a perpetuação e a produção de novas formas
de desigualdade e escassez.
A nova urbanização, cuja expressão mais destacada é a
formação dessa rede urbana nacional unificada, comandada pelas
necessidades de reprodução do núcleo urbano-industrial paulista enseja o
nascimento de novas especializações produtivas regionais e a redefinição
do papel das existentes, com forte impacto nos conjuntos urbanos mais
antigos e também sobre o as redes urbanas regionais em formação.
Com a Revolução de 1930 a política de valorização do café
favorável à cafeicultura paulista foi praticamente abolida. A ascensão do
novo padrão de acumulação centrado na produção industrial e no trabalho
assalariado urbano passou a exigir um novo papel para as exportações do
café, que deveriam gerar divisas e sustentar a capacidade importadora
necessária ao esforço de industrialização. Houve também a ampliação
15
crescente do consumo de alimentos e de outros “bens de salário”, alguns
deles, a partir de então, produzidos industrialmente. Essas novas
condições favoreceram o desenvolvimento da cafeicultura norte-
paranaense, que desde os anos 1920 estava se desenvolvendo no
chamado Norte Pioneiro (BRAGUETO, 1996, p. 111, 112; PADIS, 1981,
p.116 e 117).
A cafeicultura esteve diretamente ligada à origem dos
circuitos da economia urbana em Londrina. Mas, as condições para o
desenvolvimento da cafeicultura na região só estiveram plenamente ativas
a partir de meados dos anos 1940, quando baixam os estoques de café no
Brasil e o comércio mundial é paulatinamente retomado. Londrina, que
nasce no contexto de um gigantesco empreendimento imobiliário, começa
a ser construída no início dos anos 1930, em plena transição entre o meio
técnico da circulação mecanizada e dos inícios da industrialização e o meio
técnico científico (SANTOS e SILVEIRA, 2001) e antes que o cultivo do
café pudesse voltar a oferecer rendas elevadas.
Os anos 1930, durante os quais Londrina e sua região
começam a se estruturar, constituem um momento muito particular em
que o Brasil está convulsionado pelas transformações políticas e pelos
impactos da grande depressão, o que terá conseqüências para o arranjo
espacial da região e, conseqüentemente, para os circuitos da economia
urbana londrinense.
Torna-se necessário, portanto, fazer uma breve digressão
sobre o contexto e as características da fase de montagem do arranjo
espacial
7
de Londrina e de seu entorno regional. Dessa forma entendemos
que é possível precisar as ligações entre o arranjo espacial e a forma e
conteúdo dos circuitos em Londrina, no momento em que a cafeicultura se
tornou a atividade hegemônica, momento que se estenderia até os anos
1960.
7
A fase da montagem é a das primeiras localizações e do sistema de distribuição dessas localizações, que leva
ao surgimento da extensão, reunindo num só ato três dos princípios lógicos – localização, distribuição e extensão
– da ação geográfica, tudo orientado na prática da seletividade.” (MOREIRA, 2007, p. 82)
16
1.1 – A formação de Londrina e de seu entorno regional
Construída a partir de 1929, a cidade de Londrina foi
concebida no contexto de um gigantesco empreendimento imobiliário
promovido por capitais ingleses
8
. Londrina tornou-se município autônomo
em 1934 e após 75 anos, reúne uma população de 497.833 habitantes
segundo as estimativas do IBGE para 2007. A cidade está situada na
região Norte do Paraná, distante cerca de 380 km de Curitiba e 560 km de
São Paulo.
Além do empreendimento imobiliário inglês que deu origem
a Londrina,
boa parte da região Norte do Paraná foi alvo de diversas
experiências de colonização dirigida
9
. Contudo, o empreendimento
imobiliário levado a cabo pelos capitais ingleses destacou-se frente às
demais experiências de colonização dirigida. As razões para esse destaque
são as dimensões das áreas adquiridas e as características do arranjo
espacial efetivado pela Companhia de Terras. A localização e a posição de
Londrina nada têm de aleatórias; resultam desse contexto histórico e
tiveram forte influência sobre a formação da cidade e de sua economia
urbana.
8
A partir de meados dos anos 1920 a Companhia de Terras do Norte do Paraná (CTNP), subsidiária da Paraná
Plantations, adquiriu do Governo do Parauma área total de 515 mil alqueires, contendo manchas de solo de
alta fertilidade natural. Após a compra dessa vasta área de terras a oeste do Rio Tibgai, e antes mesmo de iniciar
suas atividades na região, a Companhia de Terras tratou de adquirir também o trecho da “Estrada de Ferro São
Paulo - Paraná”, que interligava a localidade de Cambará PR à ponta do ramal da Sorocabana em Ourinhos
SP.
Ainda em 1929, em plena crise provocada pela quebra da bolsa de Nova Iorque, a Companhia de Terras deu
inicio a construção de Londrina, que abrigaria sua sede no Brasil. Tratou de organizar os trabalhos de abertura de
estradas, demarcação dos lotes rurais que seriam postos à venda e também dos primeiros núcleos urbanos.
Iniciou também intensa propaganda voltada tanto a potenciais compradores estrangeiros quanto aos colonos de
fazendas de café do interior paulista (CANCIAN, 1977).
9
Nadir Cancian (1977, p.132) explica que, no Paraná, a colonização dirigida foi praticada por diversas
companhias nacionais e estrangeiras a partir do início do século XX. Esses gigantescos empreendimentos
imobiliários geraram intensos negócios com a terra, os quais permitiram relativo enriquecimento ao Estado,
lucros elevados aos grupos que investiram na especulação imobiliária e a possibilidade de antigos colonos de
ascenderem à condição de proprietários, formando uma pequena burguesia. A prática da colonização dirigida
dependia da demarcação prévia das terras pelo Estado, da construção de meios de comunicação e transporte, da
venda de terras e de seu efetivo povoamento. Assim, no entorno das terras compradas pela companhia inglesa,
havia outras iniciativas semelhantes, como as colônias de Primeiro de Maio e Sertanópolis, conduzidas por
empresários nacionais e as colônias de Uraí e Assai, implantadas por empresas japonesas.
17
Mapa 1
Norte do Paraná: Áreas de colonização dirigida e não dirigida
Fonte: Adaptado do mapa Colonização do Norte do Paraná,
Nice Lecocq Müller (2007, p.33)
A forma e o conteúdo do arranjo espacial da região
colonizada pela Companhia de Terras do Norte do Paraná (CTNP)
10
tiveram significativa importância para o desenvolvimento posterior do
Norte do Paraná e da cidade de Londrina.
A influência do arranjo espacial sobre a dinâmica do
desenvolvimento regional se deve a uma combinação de fatores. O
primeiro deles foi a dimensão dos lotes rurais comercializados pela
Companhia de Terras que resultou na expressiva presença de pequenas
propriedades em uma área de solo fértil e clima úmido. O segundo foi a
localização e distribuição de pequenos núcleos urbanos (os patrimônios)
nas proximidades das pequenas propriedades rurais.
10
As origens de Londrina no contexto da colonização dirigida das terras do Norte do Paraná foram analisadas
por diversos artigos de geógrafos publicados entre os anos 1930 e 1950, como por exemplo: A zona pioneira do
Norte-Paraná de Pierre Monbeig de 1935; O problema das frentes pioneiras no estado do Paraná de Lysia
Bernardes em 1953; Aspectos da geografia urbana de Londrina de Neyde Prandini em 1954; Contribuição ao
estudo do Norte do Paraná de Nice Lecocq Müller em 1956. Esses e outros artigos importantes sobre o Norte
do Paraná foram recentemente resgatados na coletânea organizada por Márcia Siqueira de Carvalho e Tânia
Maria Fresca, lançada em 2007 e intitulada Geografia e Norte do Paraná: um resgate histórico”.
18
o terceiro é a rede viária, que incluía estradas vicinais
que estabeleciam a conexão entre as propriedades rurais e os
patrimônios, a ferrovia e as rodovias principais ao longo das quais foram
localizados os núcleos urbanos. Esse conjunto, além dos patrimônios, era
composto também por cidades maiores como Londrina e, posteriormente,
Maringá, Cianorte e Umuarama onde se concentraram as frações
superiores dos circuitos de comercialização da produção rural e de
abastecimento de toda população da região.
A rede viária, especialmente a ferrovia, juntamente com
outros meios de comunicação, possibilitou uma forte articulação da região
em formação aos centros dinâmicos da economia nacional e aos portos de
Santos e Paranaguá.
Mapa 2
Paraná: situação das terras adquiridas pela CTNP
e sistema viário - 1955
Fonte: Yamaki (2003, p.72)
A distribuição dos núcleos urbanos, a sua interligação por
meios modernos de transporte e comunicação, a hierarquia de suas
funções e as características do meio construído tiveram importância
fundamental na formação da rede urbana regional (FRESCA, 2004).
19
Essa combinação de fatores foi decisiva para a inserção do
Norte do Paraná na divisão territorial do trabalho nas escalas nacional e
internacional. Londrina, por ser um ponto privilegiado da articulação das
três escalas, isto é, a escala local ou regional, nacional e internacional,
que caracterizaram a inserção do Norte do Paraná na divisão territorial do
trabalho, tornou-se o mais importante e dinâmico centro urbano de toda
região (NAKAGAWARA, 1972).
20
1.1.1 A importância do conhecimento prévio na escolha
das áreas adquiridas pela Companhia de Terras
O processo de montagem do arranjo espacial (MOREIRA,
2007) nas áreas adquiridas pela Companhia de Terras foi orientado por
diversas informações sobre o potencial econômico da região. Entretanto,
todo esse processo nada tem de idílico
11
. É preciso evitar a (con)fusão
ideológica que, via de regra se faz, ao tomar o empreendimento
imobiliário da Companhia de Terras como matriz do progresso e da
transformação de toda região (TOMAZI, 1997). Esse tipo de fusão
ideológica acaba por reduzir a complexidade e a diversidade das práticas
espaciais subjacentes à configuração desse recorte territorial, tanto no
plano objetivo como no plano subjetivo
A esse respeito destaca-se a argumentação de Tomazi
(1997) que enfatiza a necessidade de desmitificar o que ele denomina “O
discurso Norte do Paraná e de caracterizar o processo que se intensifica
nos anos 1920 como processo de (re)ocupação. A (re)ocupação implica
destacar que no “Sertão do Tibagi”, antes da implantação de colônias,
havia presença de diversos grupos de ocupantes como: caboclos que
praticavam agricultura itinerante, safristas, posseiros e grupos indígenas.
Havia também terras griladas. O importante é ressaltarmos que o novo
uso do território inerente à inserção da região na divisão territorial do
trabalho no período técnico científico gerou inúmeros conflitos com esses
grupos que foram espoliados e deslocados pelo avanço das frentes
pioneiras.
Tratar esse momento da montagem do arranjo espacial
como (re)ocupação é, portanto, encontrar o lugar específico das ações da
Companhia de Terras no contexto complexo da produção social do espaço
norte-paranaense e de sua integração ao meio técnico-cientifico que se
11
toda uma produção de teses historiográficas e sociológicas que fazem a crítica dos discursos
apologéticos sobre a região Norte do Paraná e sobre Londrina. Essa produção, a título de exemplo, pode ser
representada pelos trabalhos de José Joffily (1985), Sonia Adum (1991), Miguel Arias Neto (1993) e Nelson
D.Tomazi (1997). Esses trabalhos descortinam a importância da dimensão simbólica ligada especialmente à
ocultação das tensões, conflitos e a luta pela hegemonia na região.
21
expandiu velozmente no Sul e Sudeste do Brasil a partir de meados da
década de 1940 .
A respeito dos objetos e ações diretamente relacionados à
Companhia de Terras salientamos os seguintes aspectos: o conhecimento
prévio e estratégico do meio natural e das dinâmicas territorial e
econômica brasileiras
12
, as práticas espaciais ensejadas e a necessidade
estratégica de adequá-las às conjunturas, nacional e mundial, conferindo
aos dirigentes da Companhia de Terras aquele “saber estratégico”, em
geral apanágio de minorias dirigentes de que fala Yves Lacoste (1988,
p.41).
A aquisição dos direitos sobre a ferrovia que estabeleceria a
ligação de Londrina e seu entorno regional com Santos e a Cidade de São
Paulo exemplifica com clareza a importância do conhecimento prévio que
orientou as escolhas dos dirigentes da Companhia de Terras,
especialmente do Sr. Simon Fraser, também denominado Lord Lovat.
Em 1924, antes de adquirir as terras em que implantaria o
empreendimento, Simon Fraser esteve no Norte do Paraná a convite de
fazendeiros de origem paulista radicados na região e interessados na
melhoria da posição de suas terras, por meio do acesso ao transporte
ferroviário. Esses fazendeiros haviam iniciado uma ligação ferroviária
Cambará-PR e Ourinhos-SP, ponto terminal da estada de ferro Sorocabana
desde 1908. Havia, portanto, pleno conhecimento das reais possibilidades
técnicas de produzir a localização das terras do norte do Paraná, a partir
12
Quanto ao conhecimento prévio e estratégico da dinâmica econômica e territorial nacional, Tomazi (1997,
p.185,186) faz menção a uma viagem realizada por Thomas P. Bigg-Whitter relatada em um livro publicado em
1875 em Londres: “Pioneeiring in South Brazil” , que em 1876 levaria seu autor a realizar uma conferencia na
Real Sociedade Geográfica de Londres, falando sobre o vale do Rio Tibagi. Esse inglês teria sido o primeiro a
propor uma ferrovia partindo da região de Ourinhos-SP, atravessaria o Para e chegaria ao Paraguai. O
investimento em ferrovias que atravessassem zonas produtoras de matéria prima e gêneros agrícolas era, de fato,
muito coerente com as projeções inglesas para a América do Sul, na condição de receptora de capitais ingleses e
fornecedora de uma variada gama de produtos tropicais aos mercados europeus, gerando fluxos nos quais
financiamentos, seguros e fretes eram controlados pelo capital financeiro inglês. Informações minuciosas sobre a
topografia, potencialidade agrícola, quantidade de madeira e recursos hídricos estavam ao alcance de Simon
Fraser, fundador da CTNP e seus sócios, por meio da documentação da “Paraná and Mato Grosso Survey
Expedition”.
22
da construção de uma ferrovia que a interligaria às já existentes na região
da Alta Sorocabana no Estado de São Paulo
13
.
Segundo Tomazi (1997) é bastante plausível supor que, de
início, a ferrovia fosse o investimento mais atrativo para os ingleses.
Nesse caso, o interesse dos ingleses pelo empreendimento imobiliário, de
que resultou a construção de Londrina, de mais de 60 cidades no Norte do
Paraná e de milhares de propriedades rurais, seria relativamente
secundário.
O importante nessa questão é frisar que o uso do território
no contexto do empreendimento inglês se pautou por um amplo
conhecimento prévio das possibilidades oferecidas pela região. Isso trouxe
conseqüências específicas para a produção do arranjo espacial como, por
exemplo, associar a viabilidade da ferrovia com o abastecimento dos
habitantes da região e com o escoamento da produção rural, inclusive a
intensa extração de madeira decorrente da progressiva ocupação da área
em que viria a atuar.
Por último, mas não menos importante, há a estreita ligação
entre o governo provincial do Paraná e os latifundiários instalados na
região e interessados na elevação da renda da terra que a moderna
acessibilidade proporcionada pela ferrovia lhes traria (PAYES, 1984).
Segundo Florestan Fernandes (1987), o aparelhamento do país no
contexto da montagem de uma economia nacional capitalista e
dependente sob o controle de elites políticas diretamente relacionadas ao
complexo agrário exportador, reforçou o imperialismo e a inserção
subordinada na divisão internacional do trabalho. À medida que se
efetivava a integração brasileira ao mercado internacional, também
13
Em seu livro José Joffily (1985) argumenta que durante os anos 1920, no período do Governo Arthur
Bernardes, o Estado brasileiro solicitou empréstimos volumosos à casa bancária Rotschild. Para avalizar um
desses empréstimos, que acabou não se efetivando, os Rotschild solicitaram um extenso e detalhado relatório
sobre as condições econômicas do país e suas potencialidades. Os encarregados de produzir esse relatório
deveriam ter amplo acesso a todos os documentos e informações que solicitassem. A equipe foi batizada com o
nome de Missão Montagu. O Sr. Simon Fraser, o Lord Lovat, que mais tarde articularia a criação da
Paraná Plantations e da CTNP fazia parte dessa equipe como técnico em agricultura e reflorestamento.
23
cresciam internamente as pressões para a eliminação de fatores que
encareciam a produção agrícola
14
.
No Paraná, a construção do aparelho burocrático do Estado
local e da capacidade de ação sobre sua parcela do território exigia
recursos financeiros muito além daqueles gerados pela pecuária, pelo
tropeirismo e pela atividade ervateria, concentradas no sul do Paraná e
nos Campos Gerais. Decorre daí a política de concessão de terras para a
colonização empreendida por empresas particulares que gerava renda
para o estado sem qualquer ônus (CANCIAN, 1977, p.116) e a
possibilidade real da Companhia de Terras adquirir um grande volume de
terras a baixo custo e em condições de pagamento muito favoráveis
15
.
Tomazi (1997, p. 190) revela que pouco antes de a
Companhia finalizar a aquisição das terras no “sertão do Tibagi”, ou seja,
em maio de 1926, o governo provincial paranaense recebera um
empréstimo e bancos ingleses no valor de sete milhões e duzentos mil
dólares para fazer frente a divida acumulada do Estado e para investir no
porto de Paranaguá, também alvo do interesse inglês.
Outro episódio emblemático da relação estreita entre o
Estado e a Companhia de Terras se deu quando da proibição de plantio de
novos cafeeiros em todo território nacional por meio do decreto federal
n.º 19.688 de fevereiro de 1931. Logo após esse evento os diretores da
Companhia de Terras reuniram-se em Cambará com o interventor Mario
Tourinho e discutiram a possibilidade de que esse decreto não atingisse
o Paraná, intento que rapidamente lograram conseguir (TOMAZI, 1997,
14
No caso de São Paulo vale lembrar a política de imigração subvencionada pelo governo provincial associada à
expansão das ferrovias no contexto do que Santos e Silveira (2001) denominaram “mecanização do território”
que contribuíram para aceleração da “produção de fazendas de café” no oeste paulista, como negócio altamente
lucrativo e que induziu a superprodução e as crises na comercialização do produto (MARTINS, 1979). No
Paraná a fragilidade financeira do governo provincial e o peso das elites radicadas nas produções do sul do
estado faziam recair sobre os fazendeiros paulistas instalados no chamado Norte Pioneiro as pressões da
incorporação dessa área ao mercado internacional. O principal obstáculo era a ausência de transporte moderno
capaz de realizar a renda diferencial propiciada pela maior fertilidade natural dos solos do Norte do Paraná.
15
em diversos trabalhos sobre a região e sobre a Londrina a descrição da seqüencia das compras e o mapa
das terras adquiridas pela CTNP: Bragueto (1996); Padis (1984) apenas como exemplos e em mais uma
infinidade de artigos, álbuns comemorativos, sites sobre Londrina, etc. Os famosos 515.017 alqueires ou
1.246.341 ha adquiridos entre 1925 e 1927 devem ser acrescidos de mais 250.000 alqueires ou 605.000 ha
recebidos como subsídio oficial por conta da construção da ferrovia, sobre cujo destino pouco se sabe.
24
p.210). Dessa forma a companhia criava condições para que a cafeicultura
se tornasse uma possibilidade concreta de viabilização de seu
empreendimento, sobretudo da ferrovia.
25
1.1.2 Estratégias, seletividade e adequação às
conjunturas na produção do arranjo espacial de Londrina e
seu entorno regional
Uma vez definida a localização das áreas sob o controle da
Companhia de Terras por meio da aquisição e demarcação das mesmas e
pela efetivação do projeto de expansão da ferrovia, cabe ressaltarmos o
aspecto da distribuição das cidades e propriedades rurais na área
colonizada.
A Companhia de Terras promoveu uma repartição das terras
sob seu domínio em milhares de pequenas propriedades rurais cujo
tamanho aumentava a partir das vizinhanças com os núcleos urbanos.
Além disso, determinou a criação de núcleos urbanos com diferentes
tamanhos ao longo das principais vias de penetração nas suas terras.
Essas vias eram a ferrovia e uma rodovia principal que lhe
era paralela. A construção dessas vias levou em consideração as
dificuldades impostas à circulação pela alta pluviosidade típica do clima
subtropical da região. Por isso, foram construídas na parte mais elevada
do relevo, no caso, o espigão que divide as bacias dos rios Ivaí e
Paranapanema.
Se por um lado esses aspectos apontam para a existência
de um planejamento anterior para o processo de (re)ocupação das áreas
sob domínio da Companhia de Terras, a definição do tamanho dos lotes
rurais que seriam comercializados deveu-se muito mais à conjuntura
adversa dos anos 1930.
O empreendimento visava à produção dos lotes urbanos e
rurais como mercadorias. O caráter “planejado” da definição dos
tamanhos e da distribuição das parcelas de terra de uso rural é objeto de
discussão
16
. Pierre Monbeig ao comentar a preponderância da pequena
16
Nelson D. Tomazi (1997) chega a conjecturar que os trabalhos de Pierre Mombeig sobre as frentes pioneiras
no Paraná, teriam sido a origem da idéia de que o planejamento seria a marca distintiva do empreendimento da
CTNP e que somente a posteriori isso teria se tornado argumento recorrente no contexto do que Tomazi
denomina “O discurso Norte do Paraná”. No entanto, desde o inicio da objetivação do empreendimento, que foi
primeiro definido em um mapa detalhado, a escolha do eixo de penetração principal ao longo do qual foram
situados núcleos urbanos, estava definida. O que se discute portanto, é a funcionalidade que esse arranjo adquiriu
26
propriedade e, com ela, da policultura, aponta que isso não se devia a
fatores como as condições de solo ou influências étnicas, relativas à
grande presença de imigrantes no início dos anos 1930, posto que
nenhum desses fatores impediria a formação de grandes propriedades. O
autor enfatizava que, no caso de Londrina, se tratava de uma organização
nova, um grande empreendimento capitalista, e assim indagava:
É ainda necessário não esquecer que se trata de uma organização
nova da colonização como um financiamento de typo novo: o
grande emprehedimento de typo capitalista; e sendo assim, não
acha elle levado por sua estructura, pelas suas ltiplas ligações,
pela somma de seus interesses a favorecer o retalhamento do solo
entre um grande número de possuidores? (sic) (MONBEIG, 2007,
p.9).
Em outra obra o mesmo autor é ainda mais enfático acerca
de como as companhias de colonização tiveram de se adaptar à
conjuntura recessiva dos anos 1930, em função daqueles que poderiam se
interessar por sua mercadoria:
[...] Faz-se o loteamento quando um comerciante procura tirar
proveito, vendendo o melhor possível a mercadoria que possui e
que, no presente caso, é a terra. Como sempre, o negociante
procura simplificar seu trabalho e oferecer aos seus clientes
eventuais algo que possa atraí-los, satisfazê-los. As grandes
companhias que fazem o loteamento das glebas são levadas
então, antes de tudo, a considerar as necessidades e
possibilidades da clientela; é na mediada que tomam
conhecimento destas possibilidades e satisfazem estas
necessidades que elas realizam um verdadeiro trabalho de
colonização. A clientela é composta de chefes de família de
recursos modestos. O antigo assalariado de uma fazenda, o
colono, pode fazer umas parcas economias; o imigrante que
acabou de desembarcar, o conta com um pecúlio muito
grande[...] Em conseqüência, as terras que esses pioneiros podem
comprar e cultivar, devem ter dimensões limitadas (MONBEIG,
1957, p.116).
As dificuldades econômicas trazidas pela grande depressão
parecem ter levado a Companhia de Terras a considerar mais
detalhadamente quem poderia se constituir como demanda solvável para
essa mercadoria, bem como as condições de sua rápida realização.
Conforme Tomazi (1997, p.219), até meados dos anos 1940, mais de
a partir da Segunda Guerra e que decorre das táticas de realização da renda fundiária inerente à valorização dos
lotes urbanos e rurais e que, em parte, escaparam as possibilidades de controle da CTNP.
27
90% das 10.061 propriedades vendidas foram pagas a vista, indicando
que os compradores possuíam algum recurso financeiro. A venda de
pequenas propriedades também estaria associada à viabilização da
ferrovia
17
.
Outro argumento, ligado ao tipo de trabalho requerido para
a montagem do arranjo espacial da região é apresentado por Payes
(1984, p.74)
Antes da crise de 1929, o capital inglês compreendeu que o triunfo
do seu negócio imobiliário (que começou em 1930) devia realizar-
se com base em pequenos lotes agrícolas, a serem vendidos a
pequenos a futuros produtores de mercadorias,[...]
Todavia isso, não significa que candidatos capitalistas por áreas
relativamente grandes, o pudessem adquirir terras da CTNP. A
intenção explícita era favorecer e apoiar o pequeno proprietário,
sem, porém, afastar o de maiores recursos. Significava sim, que
os pretendentes a produtores simples de mercadorias se
submeteriam, com menores pressões e no ritmo esperado e
necessário ao investimento total; ás condições de acesso e
exploração da terra. Lembremos que nos referimos a uma zona de
fronteira agrícola, que requeria um grande dispêndio de trabalho,
onde os futuros compradores realizariam manualmente tarefas
altamente rudes e desgastantes, como o desbravamento, por
exemplo, sustentados apenas em pequenos recursos monetários e
na própria força de trabalho familiar.
A Companhia de Terras realizava esforços consideráveis
para atrair imigrantes de toda Europa ao seu empreendimento. Nadir
Cancian (1977, p.147) que estudou os fichários da Companhia nos quais
havia indicações detalhadas sobre cada comprador, constatou que, entre
1930 e 1938, preponderavam os compradores estrangeiros, sobre os
nacionais, e, no geral, a quase totalidade dos compradores eram
lavradores.
A seletividade (MOREIRA, 2007), ou em outros termos, a
intencionalidade possível na definição dos objetos geográficos que
comporiam o arranjo espacial, recaiu, portanto, sobre as pequenas
17
Arias Neto (1993, p. 24) indica que um engenheiro alemão de sobrenome Nixdorf, chegou a Londrina por
volta de 1932, convidado pelo ministro alemão para estudar a criação de uma colônia alemã nas terras da CTNP.
Esse engenheiro teria aconselhado um vice-presidente da Paraná Plantations em visita ao empreendimento, a
considerar a venda das terras a pequenos lavradores de modo a criar para a ferrovia uma maior quantidade de
fretes e de passageiros a partir de povoados e cidades vizinhas.
28
propriedades
18
e sobre potenciais compradores que ansiavam ter seu
próprio pedaço de terra, a ponto de enfrentar as duras condições dessa
empreitada.
A partir de 1939, com o início da guerra, o fluxo de
imigrantes se reduz drasticamente e entre os compradores de lotes da
Companhia agora figuravam colonos do Norte Pioneiro e do interior
paulista. A conjuntura que desde 1937 havia reduzido as exportações
brasileiras de café de 18 milhões de libras esterlinas para pouco menos de
15 milhões em 1939 (CANCIAN, 1977, p.162), gerou uma crise profunda
que ameaçava o setor cafeeiro, afastando os bancos e até mesmo
especuladores e intermediários do comércio do café. Tal situação afetou
duramente as grandes propriedades, inclusive as instaladas no Paraná,
nas quais os investimentos na formação de cafezais e em todo
equipamento, edificações e pessoal necessários à etapa beneficiamento,
exigiam retornos monetários maiores
19
.
Outro aspecto apontado por Antonio Mungüia Payes (1984)
é que, com a entrada em operação dos novos trechos da Ferrovia Paraná-
São Paulo construídos pela Companhia inglesa a partir de 1928 e a
liberação de colonos das fazendas paulistas e do Norte Pioneiro, teve início
o que ele denomina de “rush” populacional em direção às terras do Norte
Novo.
Em 1930 havia apenas uma ou duas dezenas de pessoas
ligadas à Companhia de Terras na área do patrimônio Três Bocas, gleba
onde seria iniciada a construção de Londrina, além de posseiros e caboclos
radicados muito nas áreas ao sul adjacentes às terras da Companhia.
Apenas dez anos depois, por ocasião do Censo de 1940, havia por volta de
18
Nadir Cancian (1977, p.158) transcreve um depoimento de Mister Thomas, ex-diretor da CTNP residente em
Londrina, que, sobre o período de meados dos anos 1930, afirmou: O tipo de gente de quem se podia esperar a
compra de terras não possuía dinheiro ou se dispunha de um pouco, não encontrava razão para confiar nas
circunstâncias dos tempos”. A isso some-se a intensa propaganda promovida pela companhia no exterior
indicando que se pretendia promover a re-ocupação da região com imigrantes, estratégia que foi inviabilizada
pela Segunda Guerra.
19
Cancian (op.cit, p.272) oferece uma rica e interessante comparação quanto aos investimentos em edificações,
equipamentos e pessoal nas microrregiões do Norte Pioneiro e do Norte Novo de Londrina. No chamado Norte
Pioneiro o cultivo do case concentrava em grandes propriedades, nas quais os investimentos em maquinário e
pessoal indicam que as etapas de beneficiamento e classificação do produto eram internas as fazendas.
29
75 mil pessoas no então município de Londrina, dentre os quais 10.531
pessoas na sede do município: a cidade de Londrina.
A ferrovia, elemento fundamental desse deslocamento,
relativo à prática da tecnificação (MOREIRA, 2007, p.84) ensejada pela
Companhia de Terras, foi, segundo Payes (1984, p.66), não apenas o
meio mais utilizado para chegar à região, mas, em certas épocas, a das
chuvas, o único possível, pois as estradas ficavam intransitáveis. Logo, ao
redefinir a localização e a acessibilidade de suas terras, a Companhia de
Terras viabilizava sua efetiva ocupação.
O crescimento da população do Norte do Paraná como um
todo chamou a atenção dos geógrafos da época. Entre os censos de 1920
e 1940 o Estado absorveu meio milhão de novos habitantes (550.565
hab.) sobre uma população 685.711 hab., um crescimento de 80,2%, a
taxa de crescimento mais elevada do país inteiro à época (BERNARDES,
2007, p.63).
As regiões do Paraná em que se verificou o maior
crescimento foram justamente o norte e o oeste do Estado, em que o
crescimento regional foi de 100%.
Para evitar a dispersão e o isolamento do habitat rural que
produzia a Companhia de Terras projetou e iniciou a construção de uma
densa rede de estradas vicinais. A importância dessa rede de estradas
estava justamente em seu poder de aumentar a densidade da população
regional. A esse respeito Marx (1998, p.407) assegurava que:
Constitui condição material para a divisão de trabalho na
manufatura o emprego ao mesmo tempo de certo número de
trabalhadores . De maneira análoga, a divisão do trabalho na
sociedade depende da magnitude e da densidade da população,
que corresponde à aglomeração de operários numa oficina. Mas
essa densidade é algo relativo. Um país relativamente pouco
povoado, com meios de transporte desenvolvidos, possui uma
população mais densa do que um país mais povoado com escassos
meios de transporte [...]”
30
Mapa 3
Rede de estradas do entorno regional de Londrina, 1938
Fonte: Yamaki (2003, p.62,63).
Figura 1
Estrada Vicinal no Distrito da Warta - 1957
Fonte: Arquivo do Museu Histórico de Londrina
Autor: Oswaldo Leite
31
De acordo com Nice Lecoq. Müller (2007, p.69) entre 1929 e
1935 estavam abertas 3.615 Km de estradas. Durante a chamada fase
inglesa da Companhia, entre 1925 e 1944, foram abertos seis cleos
urbanos: Londrina (1929/30), Cambé (1930), Arapongas (1935), Rolândia
(1935), Mandaguari (1937) e Apucarana (1938). Esses núcleos foram
conectados inicialmente pela estrada principal.
A rodovia precedeu a ferrovia como técnica incorporada ao
território e com ela multiplicaram-se carroças e caminhões. Em 1937
havia, em Londrina, 148 caminhões e camionetas e 474 carroças
(ASSOCIAÇÃO COMERCIAL e INDUSTRIAL de LONDRINA, 2007, p.6). A
ferrovia Chegou a Londrina e a Cambé em 1935, a Rolândia em 1939, a
Apucarana em 1943, a Maringá em 1954 e a Cianorte em 1973
(BRAGUETO, 2007, p.35)
A densidade do arranjo espacial crescia à medida que se
estendia a infraestrutura e, com ela, a valorização. Em 1930/31, quando
iniciou suas vendas e a intensa propaganda, o preço do alqueire era de
400 mil is. Em pouco mais de dez anos havia dobrado, atingindo o valor
de 800 mil réis 1941/43, ao longo de uma conjuntura fortemente
recessiva. Durante esse período a Companhia vendeu mais 100 mil
alqueires, pouco mais de 20% da área sob seu controle.
Com a constituição da municipalidade em Londrina em
1934, a conservação das estradas abertas no município, que antes cabia à
Companhia de Terras, passou a ser incumbência da nova Prefeitura. O
novo município teve então que, ao longo do tempo, equipar-se para as
novas tarefas, criando inclusive normatização específica para esse fim,
como as contribuições de melhoria
20
. O ônus da manutenção do arranjo
espacial, no entanto, não foi pago apenas por meio de impostos; houve
também a participação direta em turmas de trabalho para a conservação
das estradas.
20
A Lei n.º 15 de 24 de julho de 1936 definia em seu artigo segundo a criação da referida taxa, que era de 3 mil
réis por alqueire destinados a construção, reconstrução e conservação de estradas de rodagens e vicinais
(LINARDI, 1995. p. 124).
32
A conservação das estradas rurais tornava-se um problema
realmente sério para toda área a ser colonizada, em virtude da
destruição das estradas ou “picadas”, nas estações chuvosas.
Enquanto o poder local não organiza sua “patrulha mecanizada” a
prática da conservação das estradas rurais e construção eventual
de pontes era resolvida através de mutirão, envolvendo a Cia de
Terras, o poder local e os proprietários rurais (RAZENTE, 1984,
p.219)
Uma vez constituído o arranjo espacial definido pela
Companhia de Terras passou a exigir mais e mais trabalho para que a
artificialidade das formas necessárias às funções esperadas pudesse
manter-se e suportar os novos usos: o da terra roxa como objeto de
trabalho e dos lotes urbanos e rurais como mercadorias. Quando o ônus
dessa manutenção começou a se tornar pesado, a Companhia de Terras
transferiu os encargos exigidos pelas novas formas espaciais ao poder
público sem, contudo, perder o controle, isto é, o poder de decidir
21
.
Assim a companhia tinha sob seu controle toda a área do município que se
estendia até as barrancas do Rio Paraná a oeste, e do Rio Paranapanema
a norte e a noroeste. Os primeiros desmembramentos nessa área
ocorreram a partir de 1943, quando a Companhia de Terras estava
transferindo suas propriedades a grupos financeiros nacionais
22
.
O controle monopólico pode ser avaliado pelo conjunto de
empresas e serviços administrados por membros da Companhia de Terras
ou que estavam sob se domínio direto.
Além disto, estão sob seu controle direto ou indireto através das
propriedades da CTNP, da Companhia Ferroviária São Paulo
Paraná (como vimos, empresa do mesmo grupo), da Prefeitura
Municipal (dirigida por Davids dos escritórios da CTNP) e mesmo
de empresas particulares pertencentes a membros de seu “staff
diretor”, o serviço de transportes (ferrovias, carroças, charretes,
jardineiras), o abastecimento de água e luz, as comunicações
telefônicas e telegráficas (implantados em vários povoados do
município nos escritórios da própria CTNP ou nas casas comerciais
21
Segundo Miguel Arias Neto (1993) entre 1935 e 1940 a CTNP assegurou o controle monopólico sobre sua
área de concessão porque conseguiu que o Sr. Willie Davids que era diretor da CTNP se tornasse,
simultaneamente, Prefeito de Londrina, evitando assim possíveis conflitos de interesse com a nova
municipalidade
22
Os representantes desses grupos eram conhecidos capitalistas paulistas como: Gastão Vidigal, Gastão
Mesquita Filho, Arthur Bernardes Filho e Irmão Soares Sampaio. Uma série de transações posteriores absorveu
as parcelas acionárias pertencentes a Bernardes e aos Irmãos Sampaio que passaram às mãos dos grupos
Matarazzo e Sulamérica, culminando com o controle acionário por parte dos Vidigal do grupo Mercantil de o
Paulo e dos Mesquita, proprietários do jornal O Estado de São Paulo. (BRAGUETO, 1996)
33
de seus agentes e representantes), além é claro, do veículo de
comunicação escrita mais importantes da época, o Paraná Norte,
formador da opinião pública local. (ARIAS NETO, 1993, p.64).
A descrição de Miguel Arias Neto também indica a densidade
da infraestrutura presente no conjunto do empreendimento. Os núcleos
urbanos e principalmente Londrina foram dotados de abastecimento de
água, energia elétrica, telefonia e telégrafo aumentando a densidade
técnica (SANTOS, 2004) de todo arranjo espacial, fazendo avançar o meio
técnico-científico e viabilizando a estruturação da economia urbana.
O capital investido pela Companhia de Terras na
modernização da ferrovia, na construção das vias principais rodovia e
ferrovia e das estradas vicinais, nas redes locais de telégrafo e telefone,
foi remunerado pela efetiva valorização dos lotes ou datas, rurais e
urbanas e pelo volume de vendas realizado. Esse processo de acumulação
permitiu aos ingleses e seus sucessores nacionais uma ampla, vantajosa e
lucrativa recuperação desses investimentos
23
. A Companhia, ao direcionar
o processo de produção do arranjo espacial nas terras sob seu controle,
soube manobrar de modo a obter vantagens econômicas significativas
ampliadas pelo conjunto do trabalho social implicado na produção do
espaço.
Pierre George (1969, p.92) nos lembra que, para o
geógrafo, o trabalho é primordialmente o “criador de paisagem e do
movimento cotidiano que caracteriza geograficamente uma região, uma
cidade, um porto, um eixo de circulação” e que esta ação criadora guarda
especificidades conforme se analisa sua duração:
Em escala secular ou pelo menos nos limites de tempo de uma
geração, o trabalho cria uma paisagem. Em escala cotidiana,
impõe o que se denominou um ‘estilo de vida’ que é ao mesmo
tempo uma realidade geográfica, etnológica e sociológica.
(GEORGE, 1969, p.93)
23
Durante a fase inglesa da CTNP, segundo Nadir Cancian (1977) a companhia obteve, apenas com a venda de
lotes rurais, uma receita total de 75 mil contos de réis. A esse montante somam-se mais os 52 mil contos de lucro
relativos à operação da ferrovia lançados em seu balanço de 1944 (TOMAZI, 1997, p.220) e ainda os milhares
de “datas”(lotes) urbanas espalhadas no conjunto das cidades criadas nessa fase, cujo valor total não foi possível
verificar.
34
À medida que avançavam as infraestruturas redefinia-se a
localização das áreas estruturadas, conferindo-lhes centralidade,
especialmente para a nascente cidade de Londrina, que paulatinamente
expressava em sua paisagem o rápido desenvolvimento da divisão social
do trabalho. Esse desenvolvimento foi profundamente influenciado pela
configuração específica do habitat rural e pelas relações intensas entre
meio rural e núcleos da rede urbana norte-paranaense em formação
(FRESCA, 2004, p.49).
35
1.1.3 A produção da cidade e da situação de Londrina no
contexto regional norte-parananense
A posição de Londrina na parte mais oriental das terras
adquiridas pela Companhia de Terras foi definidora de sua função
primeira: a de sediar os escritórios de vendas e o comando do processo
de produção do arranjo espacial de toda área pertencente à Companhia
24
.
O sitio escolhido atendeu as características da topografia e
da drenagem locais, proporcionando abundância de água.
Essa localização do tio de Londrina está ligada não somente à
topografia, mas principalmente ao problema da água e à
drenagem local. De fato, quando pela primeira vez se penetrou na
região, estabeleceu-se o local da construção da cidade um pouco a
leste do atual tio, nas proximidades das nascentes do rrego
das Pedras. Feito depois o reconhecimento da região, verificou-se
que mais no alto do espigão nasciam vários córregos, resolvendo-
se, então, localizar a cidade nesse local, uma vez que, quer a
topografia quer a presença abundante da água tornavam o sítio
mais favorável. (PRANDINI, 2007, p.89)
A cidade foi, então, construída sobre o espigão que a
atravessa na direção sudeste-noroeste e apresenta uma altitude média de
600m. Foi justamente nessa parte mais elevada da cidade que se
reservaram lugares para a Igreja, a Prefeitura, o Fórum, o comércio e as
residências dos funcionários mais importantes da Companhia de Terras,
definindo assim o Centro Principal e algumas áreas residenciais.
O plano urbano original de Londrina é um clássico tabuleiro
de xadrez, para o qual se previa o assentamento de aproximadamente 20
mil pessoas (ASARI e TUMA, 1978, p.65).
24
“Assim graças a dois fatores conjugados: - o fator geográfico, isto é: a posição geográfica privilegiada no
coração dessa riquíssima região agrícola; e ao fator histórico, isto é: o fato de ter sido o marco inicial e a sede de
onde se dirigiria a colonização dessa região, Londrina estava de antemão destinada a ter um rápido
desenvolvimento e uma importância ímpar na região.” (PRANDINI, 2007,p.88)
36
Mapa 4
Londrina: croquis da planta inicial da cidade
Fonte Yamaki (2003, p.43)
A forma escolhida, a despeito de sua aparente simplicidade,
respondia à necessidade de articulação de todo o conjunto em escala
regional.
O tabuleiro de xadrez obedecia a uma padronização de quarteirões
e vias de acesso aos lotes individuais com 12 metros de largura.
As quadras tinham 110 metros de comprimento, divididas em 20
ou 24 lotes urbanos. A forma da cidade é marcada,
principalmente, pela penetração das vias de acesso regionais. A
rodovia e a ferrovia são os componentes principais do sistema
viário, devendo a primeira desenvolver-se pelo espigão central,
hoje Av. Paraná (ADUM, 1991, p.110).
Ao sul da ferrovia, se desenvolveram o Centro Principal e os
bairros com melhores condições urbanas, que abrigaram as elites locais.
Ao norte surgiram as Vilas, ou melhor, uma boa parte delas. As Vilas se
multiplicaram após 1937, ano em que teve inicio o loteamento da Vila
Casoni, um dos primeiros transbordamentos do meio construído em
relação ao quadrilátero original projetado pela Companhia. A partir do
momento em que a conexão ferroviária se completou e que,
37
simultaneamente, ocorreram as primeiras colheitas de café, a construção
da cidade ganhou impulso considerável
25
.
O controle que a Companhia de Terras exercia sobre o
espaço regional se repetia em relação ao meio urbano. O comprador de
lotes urbanos tinha que obedecer a um simulacro de código de posturas
definido no contrato de compra e venda, ou escrituras de compra e venda
(ADUM, 1991, p.111). Proibia-se, por exemplo, a permanência de ranchos
de palmito por mais de um ano, obrigando o proprietário a construir
edificações de madeira ou alvenaria a partir daí. Outro item era a
obrigatoriedade de permitir a execução de serviços, como canalização de
água, esgoto e luz nas condições estabelecidas pelas concessionárias
determinadas pelos poderes estaduais e municipais.
Em resumo, a associação entre Prefeitura e Companhia,
expressa na figura do Diretor Prefeito, desenvolveu diversas ações
visando à rápida consolidação do meio construído. Essa consolidação
atendia aos interesses da Companhia de Terras, sobretudo em razão da
valorização dos lotes urbanos e do efeito positivo que o desenvolvimento
da cidade trazia para os negócios com os lotes rurais. Londrina era a
porta de entrada e uma espécie de “cartão de visitas” da Companhia
para os viajantes e potenciais compradores dos lotes à venda.
Em meados dos anos 1940 todos os lotes do quadrilátero
previsto pelo plano urbano estavam vendidos e a cidade contava com
3708 edifícios
26
. A população urbana segundo o Censo de 1940 era de
33.707 habitantes e representava 50% da população total do
município
27
. Em 1950, eram mais de 6.000 edificações, incluindo
25
Os números sobre as edificações variam conforme a fonte, mas giram em torno de 700 a 800 edificações em
1935 e 2224 prédios segundo o Censo de 1940.
26
Ao que tudo indica esse número não incluiu as construções na área suburbana onde estavam incluídas as Vilas.
As Vilas se multiplicaram simultaneamente a essa consolidação e valorização dos lotes situados no quadrilátero
e, em 1947, já existiam 53 Vilas em Londrina.
27
Segundo dados do IBGE – Censos de 1940 e 1950a população urbana triplicou passando de pouco mais de
10 mil pessoas em 1940 para mais de 30 mil em 1950, fazendo com que, em menos de 20 anos Londrina
passasse a ser a terceira maior cidade do estado, superada apenas por Ponta Grossa e Curitiba. O município de
Londrina, porém sofrera redução em seu contingente passando de 75296 hab. em 1940 para 66581 em 1950
devido aos desmembramentos de Mandaguari e Apucarana, ambos com mais de 50 mil habitantes Isso evidencia
a velocidade e a intensidade da ocupação do meio rural do Norte do Paraná com base na pequena e média
propriedades ao longo da década de 40 e, conseqüentemente, a formação de mercado consumidor importante.
38
edifícios de vários andares. Os números indicam o rápido desenvolvimento
da construção civil na cidade. Considerando o crescimento do número de
edificações em alvenaria, em torno de 42% na área urbana, a existência
de 96 edifícios de 2 andares e de 3 edifícios de 8 andares em construção
(PRANDINI, 2007, p.95), podemos dizer que essa atividade iniciava seu
processo de industrialização. Simultaneamente, persistiam atividades
artesanais de construção, a exemplo das casas de madeira erguidas
rapidamente nas Vilas
28
.
No início dos anos 1950, a Companhia de Terras, então sob
a administração de representantes de grandes grupos econômicos
nacionais, não exercia um rígido controle sobre a expansão do meio
construído. A cidade crescia rapidamente. Tentativas de disciplinar e
manter sob controle a expansão urbana foram realizadas pela Prefeitura
por meio da elaboração de legislação,
29
que incidiu principalmente sobre a
atividade dos loteadores e especuladores imobiliários em geral.
Entre as maiores preocupações, estava a necessidade de
recursos para expandir os serviços e equipamentos urbanos. Serviços
como o de abastecimento de água, saúde e limpeza urbana, menos
dinâmicos em sua expansão, de manutenção custosa e operação delicada,
foram iniciados pela Companhia e, até o final dos anos 1940, transferidos
ao poder público municipal (LINARDI, 1995, p. 123).
Por outro lado serviços como os de transporte rodoviário
intermunicipal e energia elétrica tiveram tratamentos diversos. Os
serviços de transporte rodoviário intermunicipal de cargas e passageiros
foram transferidos para empresários locais, que prosperaram a ponto de
28
Domingos Casoni que iniciou o loteamento que deu origem à Vila Casoni e que construiu várias casas de
madeira em Londrina, define o perfil dos moradores: “Não eram pessoas exigentes quanto a conforto,
provavelmente acostumadas a um cotidiano de pouco conforto e muito esforço. O individuo comprava a data e
queria um lugar para ele morar. Não havia tantas exigências. [...] Fazia uma casa de 6 por 6 (metros) e dividia
em cruz, quatro modos. Abria-se uma porta aqui e outra lá, uma cozinha, uma sala e dois quartos. E só. No
nosso caso era uma sala, um quarto e uma cozinha. Assim chamava de bico-de-pato, um puxadinho, uma meia-
água.” ((IPAC-PML, 1987, p.23)
29
Um exemplo foi a promulgação da Lei 133de 1951, cuja elaboração foi solicitada ao escritório do ex-prefeito
paulistano o engenheiro Prestes Maia.
39
se transformarem em uma das maiores empresas desse ramo em termos
nacionais
30
.
O abastecimento de energia elétrica, cuja concessão, foi
obtida do governo estadual em 1933, foi repassado em 1936 a dois
diretores da Companhia de Terras: Gastão Mesquita Filho e Rolan Davis. A
produção de energia elétrica fora iniciada a partir de equipamentos
movidos a diesel. Com o acentuado aumento da demanda ao longo dos
anos 1940, teve inicio a construção de usinas hidrelétricas próximas à
cidade: Usina Três Bocas em 1941 e a Usina Apucaraninha em 1948.
Paralelamente houve a contínua expansão dos equipamentos a diesel. A
produção e a distribuição da energia elétrica em Londrina permaneceram
no âmbito da iniciativa privada até meados dos anos 1970, quando esses
serviços foram estatizados (RAZENTE, 1984, p.233).
A Companhia também cedeu diversas áreas para construção
de hospitais, aeroporto, escolas e para a instalação de outros órgãos das
administrações municipal, estadual e federal. O aeroporto, que nos anos
1950 contava com 40 vôos diários, foi importante elemento na ligação
com Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. Ao longo dos anos 1950 e 1960
os fluxos de passageiros e o número de pousos e decolagens do aeroporto
colocavam-no entre os de maior movimento no país (NAKAGAWARA,
1972).
A telefonia, presente na cidade desde 1932, expandiu-se a
partir de 1945, com a formação da Companhia Telefônica Paranaense
31
.
Essa empresa ampliou os equipamentos e a capacidade das linhas,
permitindo o crescimento do número de telefones na cidade a partir de
1947. Entretanto, a expansão da oferta de linhas telefônicas em Londrina
não acompanhou a demanda (KROETZ, 1982, p.52). Essa carência de
telefones ensejou a criação de uma empresa municipal: a SERCOMTEL,
30
É o caso da Viação Garcia, empresa com sede em Londrina que, atualmente, está entre as 10 maiores
contribuintes na arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS) no município.
31
Segundo Linardi (1995, p.158) o contrato foi assinado com a ITT – International Telephone and Telegraph que
atuava no setor de telefonia Brasil por meio de sua subsidiária a Radional e que havia realizado a implantação do
serviço de chamadas interurbanas entre Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. É possível que a Companhia
Telefônica Paranaense fosse de fato mais um braço da ITT no Paraná.
40
que assumiu a operação das linhas instaladas e expandiu o número de
linhas e telefones na cidade a partir de 1968. Sob o controle da
SERCOMTEL, a rede telefônica em Londrina cresceu de forma acelerada
32
.
A expansão das infraestruturas, particularmente das redes,
equipamentos e serviços urbanos foram fatores importantes para o
processo de centralização que permitiu a Londrina exercer papel de
comando e de intermediação entre a rede urbana regional e centro
industrial e financeiro do país, São Paulo.
Com expressão desse processo de centralização, Londrina
adquiriu, ao longo de suas primeiras décadas de existência, uma “situação
geográfica favorável(SPÓSITO, 2001, p.627), redefinida em função das
novas conjunturas, mas, sobretudo, mantida e reforçada. As novas formas
de inserção de Londrina na dinâmica territorial nacional, construídas a
partir dessa situação geográfica favorável, foram particularmente
influenciadas pela formação de um diversificado circuito superior da
economia urbana.
32
O número de telefones em operação mais do que dobrou em apenas um ano, saltando de 2.900 em 1968 para
7.130 em 1969 (LONDRINA, 1987, p. 26).
41
1.2 - A Cafeicultura e a economia urbana em Londrina
A cafeicultura paranaense se consolidou ao longo da década
de 1940, quando os preços internacionais do café se elevaram
significativamente, a industrialização nacional atingiu patamares mais
elevados de integração setorial e um novo cenário internacional começou
a se formar. Claudio R. Bragueto (1996) sintetiza a ligação entre o
desenvolvimento da cafeicultura na região de Londrina e as novas
condições do período e da urbanização brasileira:
É neste contexto, marcado pelo deslocamento do eixo econômico
para o setor industrial, porém, com o setor cafeeiro representando
papel fundamental na geração de divisas para o país, logo,
demandando e recebendo um tratamento diferenciado no que se
refere às políticas econômicas, que a Microrregião Geográfica de
Londrina vai ser incorporada como uma frente pioneira da
expansão cafeeira, se integrando organicamente a São Paulo, e se
constituindo também em fornecedor de produtos alimentares e
produtos industrializáveis àquele pólo nacional, assim como se
convertendo em um importante mercado para os seus produtos
manufaturados. (BRAGUETO, 1996, p. 116)
A inserção de Londrina na divisão de trabalho se manteve
em seus traços básicos definidos, em boa mediada, pelo arranjo espacial
produzido no contexto do processo de colonização dirigida. No entanto,
essa inserção ganhou outra dimensão, outra espessura. Essa nova
dimensão se expressou nos novos fluxos e fixos ligados à cafeicultura, a
qual, como forma concreta da especialização regional que caracterizou o
Norte do Paraná entre meados dos anos 1940 e meados dos anos 1960,
foi determinante para a constituição dos embriões dos circuitos da
economia urbana em Londrina.
É importante frisarmos que, localmente, por conta da
fertilidade natural do solo, da estrutura agrária e das relações de
produção vigentes, a cafeicultura significava um conjunto de práticas no
âmbito da pequena produção mercantil: em especial o uso do solo agrícola
e técnicas de cultivo intensivas em mão-de-obra e a comercialização de
parcelas expressivas dessa produção. Ao longo de quase três décadas,
houve estreita associação entre o cultivo do café e o de milho, feijão,
42
arroz, e outros gêneros agrícolas, geralmente denominados “culturas
intercalares”. O conjunto da produção regional era realizado em pequenas
propriedades que contavam com pouco ou nenhum recurso técnico.
As pequenas explorações, conseqüentemente as pequenas e
médias propriedades, dado o pouco capital de que seus
proprietários dispunham não conseguiam realizar o suficiente para
a montagem de quaisquer aparelhamentos ou máquinas de
beneficiamento (CANCIAN, 1977, p. 270, 271).
O baixo grau de tecnificação associado à pequena
propriedade foi um dos fatores responsáveis pela densidade de relações
entre pequenos produtores mercantis e uma verdadeira rede de
intermediários urbanos que, a partir dos anos 1950, estabeleceu vínculos
com grandes firmas exportadoras e grupos industriais instalados em
Londrina (PAYES, 1984). Essa divisão de trabalho na escala local, interna
à cafeicultura norte-paranaense, produziu efeitos consideráveis sobre a
estruturação do circuito superior da economia londrinense.
43
1.2.1 A Cafeicultura e o contexto da formação do circuito
superior embrionário
Do ponto de vista da circulação do excedente econômico
gerado pela produção agrícola, as cidades, em especial Londrina,
abrigavam várias ações inerentes ao processo de valorização do café e
assim realizavam a captura urbana da renda agrícola. Nakagawara (1972,
p.88) que analisou os papéis de Londrina como centro regional no período
de maior expansão da cafeicultura, explicita esse processo:
O produtor de café entrega, geralmente, seu produto em ‘coco’ ao
‘maquinista’ ou a uma cooperativa que o beneficia, padroniza, e
entrega às firmas exportadoras. Dependendo de certas
contingências do mercado, o café é entregue, depois de
beneficiado e padronizado ao IBC. De acordo com os estímulos de
preços ou solicitação do mercado, o café, após ser beneficiado,
passa muitas vezes por processos de “liga”, padronização e
seleção com o emprego de balões de liga e máquinas seletoras
eletrônicas, num processo complexo que envolve grande mero
de operações comerciais que se constituem em fator de grande
dinamismo da fase de comercialização desse produto.
Também Linardi (1995,p.105) insiste que na região havia
uma intensa participação urbana no processo de comercialização da
produção agrícola. A autora destaca a relação entre pequenos produtores
e maquinistas e também as relações dos primeiros com comércio e
serviços locais:
O acesso ao centro comercial era necessidade vital do pequeno
produtor desta região, pois contrariamente ao grande produtor de
grandes safras, que as comercializava em grandes centros, como
São Paulo e Santos, esses pequenos agricultores levavam suas
safras para as cidades, onde as vendiam para os intermediários
no caso, os maquinistas que por sua vez as vendiam nas cidades
maiores, para representantes de casas exportadoras. Em geral o
pequeno produtor também gastava suas economias naqueles
mesmos centros urbanos, comprando o necessário para completar
os itens básicos de sua subsistência.
A mesma situação é descrita por outro autor, Payes:
Uma vez colhido e seco, o café era armazenado nas tulhas, quando
então o produtor simples, juntamente com o parceiro dirigiam-se
às várias empresas que realizavam o beneficiamento, chamadas
comumente de maquinistas que se instalaram desde a segunda
metade dos anos 30 no Norte do Paraná. Referimo-nos ao pequeno
maquinista local, que radicou nos patrimônios e pequenas cidades
por excelência e que representou o primeiro intermediário na
44
cadeia de comercialização do café, embora nas décadas de 30 e
40, também adquirí-se o excedente de mantimentos. Com efeito, a
produção agrícola era inicialmente canalizada por estes
maquinistas que negociavam com milhares de produtores simples,
parceiros, empreiteiros, colonos, etc. espalhados pelo Norte do
Paraná, notadamente no Norte Novo e Norte Novíssimo (PAYES,
1984, p.113).
O café passava por vários intermediários até ser exportado
o que fazia subir seu preço. Os pequenos produtores se viram enredados
numa trama de intermediações urbanas, a qual lhes drenava parte
significativa dos excedentes gerados em suas pequenas propriedades
33
.
Sujeitos aos imprevistos provocados pelas geadas e tendo que arcar com
as parcelas de pagamento de sua propriedade ou as da compra de uma
nova data
34
, os pequenos produtores o contavam com acesso a crédito
nos bancos. Os que pretendiam realizar alguma benfeitoria em sua casa,
nas edificações de seu tio ou que fossem atingidos por algum imprevisto
recorriam aos maquinistas que exerciam também a função de
fornecedores de empréstimos ou intermediários no contato com os
bancos
35
. Como contrapartida dessa intermediação o lavrador ficava
comprometido com o maquinista por meio de notas promissórias. Quando
ia negociar sua colheita, o lavrador se via submetido a um determinado
maquinista que fazia uso de sua posição vantajosa na hora de combinar
os preços
36
.
33
A descrição de alguns procedimentos das primeiras etapas de comercialização das safras pode esclarecer um
pouco essas relações. Para efetivar a compra o maquinista recebia uma amostra do café que passava por duas
provas: peso ou a “renda” e a classificação da bebida. A primeira prova correspondia a operação de estabelecer
quanto uma saca de café em coco renderia em termos de café beneficiado. Retirava-se uma amostra de 100 g que
passava pelas operações de beneficiamento (descascar e limpar o grão) e que ao final era novamente pesada. Em
média uma saca de 40 Kg de café em coco rendia de 18 a 22 Kg de café beneficiado (PAYES, op. cit., p. 114). A
segunda prova consistia em torrar alguns grãos e produzir um pouco de bebida para verificar o sabor e a
ocorrência ou não de algum problema. A partir daí havia a negociação sobre o preço do lote de café, sobre o qual
incidia o imposto sobre vendas e consignações e também o “carreto”, ambos por conta do produtor. Os
problemas apareciam quando havia discordância quanto ao preço, especialmente em relação a questão da renda,
pois essas informações eram facilmente manipuladas pelos maquinistas. Mas para os pequenos produtores não
havia muitas opções. Poderiam até procurar outros maquinistas, mas, muitas vezes essa opção não existia. Havia
outros vínculos entre maquinistas e produtores que impediam esse grau de liberdade, a exemplo dos
adiantamentos e o aval à empréstimos que atrelavam os produtores a determinados compradores.
34
Nome local dado a lotes de terra de pequenas dimensões.
35
“Os maquinistas realizavam adiantamentos e, principalmente, se apresentavam como avalistas nos pedidos de
empréstimo encaminhados por eles junto aos bancos particulares” (PAYES, 1984, 115).
36
Outra estratégia usada pelos maquinistas era fixar os preços de compra da safra antecipadamente, no momento
da tomada do empréstimo. Assim poderiam embolsar quantias razoáveis em função das eventuais altas de preços
do café no momento de venda de seus próprios estoques para atacadistas.
45
Por sua vez, os pequenos maquinistas que estabeleciam
relações de subordinação com os pequenos produtores, também
passavam por dificuldades ao negociar com as grandes empresas
atacadistas situadas em Londrina ou Maringá, ou até mesmo com o
Instituto Brasileiros do Café (IBC). Apenas as grandes empresas tinham
possibilidades de acesso às infraestruturas de exportação (locais de
armazenagem nos portos, acesso a vagões de carga nas composições
ferroviárias, etc.). Também mantinham certo controle sobre os
equipamentos e estruturas de classificação dos cafés. Uma classificação
mais detalhada permitia ganhos maiores na comercialização, ao separar o
produto de melhor qualidade. Vender o produto de melhor qualidade no
momento certo e nas quantidades exigidas pelos compradores
internacionais era fonte de lucros adicionais paras as grandes empresas.
Com os preços em alta e a reestruturação da economia
mundial, diversas firmas de grande porte ligadas ao comércio de produtos
agrícolas se instalaram em Londrina de onde comandaram a
comercialização e o transporte desses produtos.
Londrina é hoje importante centro de comércio, sendo que suas
relações comerciais são feitas quase exclusivamente com o
Paulo. em Londrina, importantes firmas comerciais e
representantes de firmas de o Paulo que compram café, arroz,
feijão, milho, algodão, mamona, etc. e, depois de beneficiá-los,
vendem-nos a grandes firmas de São Paulo. (BERNARDES, 1945,
p. 28 apud PAYES, 1984, p.107)
Ao longo dos anos 1950 empresas como a American Coffee
and Tobaco, Anderson Clayton, SANBRA, Almeida Prado, Neumann Gepp,
Braswey S/A entre outras, instalaram-se em Londrina onde concentravam
os grandes negócios em torno da produção regional. Segundo
Nakagawara (1972) Londrina era então o maior centro de comercialização
de produtos agrícolas do Paraná e o Norte do estado era a região
responsável pela maior parte da produção agrícola: café, algodão, menta,
rami, etc. O principal produto, porém, era o café.
46
Estão instaladas em Londrina grandes compradores e exportadores
desse produto. O maior volume de negócios é feito pelas empresas
exportadoras radicadas em Londrina, com matriz em Santos, São
Paulo, Rio de Janeiro e Vitória, muitas vezes, empresas de
estrutura comercial internacional, comercializando vários produtos
em diversos países do mundo. (NAKAGAWARA, 1972, p.87)
No final dos anos 1960 a cidade contava com 25 filiais de
grandes empresas exportadoras. A presença dessas empresas, associada
à importância dos fluxos inerentes à cafeicultura, suscitou a constituição
de novas infraestruturas, a expansão das existentes e ampliação das
atividades econômicas de um modo geral. Um bom exemplo foi a
implantação de terminais do sistema Telex na cidade, no final dos anos
1960. Em virtude da dependência do conhecimento das cotações na bolsa
de Nova Iorque para a comercialização do café, as empresas exportadoras
empregavam o sistema telex de comunicação, para efetivar seus negócios
(NAKAGAWARA, 1972, p.123).
Além das empresas estrangeiras havia mais de 15
maquinistas
37
que compravam e vendiam café e mais 150 corretores
inscritos no sindicato de corretores
38
de café, dos quais 100 residiam na
cidade. A renda gerada pelo café passou a permitir um fluxo monetário
mais intenso na região. Diversos bancos vieram se instalar em Londrina
desde 1937, quando a Caixa Federal inaugurou sua filial e foi logo seguida
pelo Banco Noroeste. No inicio dos anos 1950 o Norte do Paraná reunia
mais de 60% das 157 agências bancárias do Estado e Londrina, com 11
agências, era a cidade norte-paranaense com maior concentração desses
estabelecimentos
39
. Nos anos 1970, o número de agencias bancárias na
cidade subira para 26, fazendo com que Londrina permanecesse como a
37
Segundo Zucker (1989, p.40) 16 maquinistas estavam instalados em Londrina nos anos 1950. Alguns deles
eram nomes conhecidos na cidade por atuarem em outros negócios também tais como bancos, industrias, hotéis,
construção de edifícios, etc. Alguns exemplos seguidos do ano de instalação na cidade: José Bonifacio e Cia –
1937; Barros e Filho – 1941; A. Maluf – 1945; Simões e Martins e Cia – 1946; Mariucci e Fernandes – 1947;
Neman Sahão – 1948; Felix Ralto – 1950.
38
Segundo Nakagawara (1972) os corretores se reuniam na “pedra” local situado na esquina das avenidas Para
e Rio de Janeiro no Centro de Londrina, onde ocorriam especulações em torno do café e também do preço das
terras.
39
No final dos anos 1940 estavam presentes na cidade bancos de atuação nacional e internacional como: Banco
do Brasil, Banco Brasileiro de Descontos, Banco de São Paulo, Banco do Comércio e Indústria de São Paulo, e o
Banco Brasileiro para a América do Sul.
47
segunda cidade do Estado com mais agências, superada apenas por
Curitiba.
Além do número expressivo de agências os fluxos bancários
eram volumosos. No início dos anos 1950, a filial da Caixa Federal na
cidade era responsável por 57% dos depósitos e aplicações de todo
Paraná. O departamento de crédito da agência do Banco do Brasil estava
entre os mais ativos do país, sendo superado apenas por São Paulo,
Santos e Porto Alegre (LINARDI, 1995, p. 145).
Os maiores financiamentos destinavam-se à comercialização
do café. A safra de café, comercializada nos meses de julho e agosto,
trazia para cidade recursos consideráveis e as exportadoras requeriam
empréstimos para comprá-la. A movimentação bancária crescia nesses
períodos e os maiores negócios no comércio e na cidade em geral eram
também feitos nessa época. Em menor escala, isso também ocorria com a
safra de algodão e trigo. Segundo Nakagawara (1972, p.133) “em termos
globais, cerca de 55% dos empréstimos se destinaram para à atividade
agrícola, sendo o restante distribuído entre comercio, indústria e outras
atividades.”
No final dos anos 1960, a cidade havia se tornado um
importante centro de decisões bancárias abrigando inspetorias regionais.
As inspetorias regionais exerciam funções de orientação das agencias
quanto a funcionários, operações de crédito, suprimento de caixa,
constituindo uma descentralização relativa da autoridade da matriz
(NAKAGAWARA, 1972, p.129).
O rápido crescimento da cidade passou a exigir serviços
mais complexos tanto àqueles ligados as atividades rurais, a exemplo da
agência e depósitos do IBC, a sede regional da Central de Classificação de
Algodão e diversos classificadores de cereais, como também de serviços
de informação, radiodifusão, médico-hospitalares, clínicas, escolas e
universidades.
A trajetória do jornal Folha de Londrina que se transformou
em um “verdadeiro representante da indústria da comunicação através da
48
contratação de jornalistas profissionais e adquirir equipamentos de última
geração” (ARIAS NETO, 1993, p.201) indica as possibilidades inerentes ao
dinamismo da economia e do modo de vida urbanos.
O jornal e as nove emissoras de rádio, bem como a
emissora de televisão instaladas na cidade até meados dos anos 1960,
viabilizaram-se economicamente, em boa medida porque souberam
explorar as possibilidades de divulgação e propaganda decorrentes da
diversidade de atividades que constituíam a economia urbana de Londrina
e também da região (ARIAS NETO, 1993).
Os serviços de saúde também ganharam projeção com a
multiplicação de hospitais e clínicas particulares com profissionais
especializados. No final dos anos 1960 havia em Londrina 8 hospitais com
906 leitos, ou seja, 3 leitos para cada 1.000 habitantes. Quanto aos
médicos havia cerca de 200, das mais diversas especialidades
(NAKAGAWARA, 1972, p.237). As clínicas especializadas eram
responsáveis pela atração de pessoas em volume superior ao dos
hospitais. Havia 4 laboratórios, sendo que um deles, o instituto de
patologia do Norte do Paraná, possuía equipamentos de ultima geração,
encontráveis em algumas capitais brasileiras (NAKAGAWARA, 1972,
p.239). Esse laboratório analisava material recolhido de Cornélio Procópio
à Apucarana, ou seja, em um raio de 70 km ao redor de Londrina.
A elevação do padrão médico e do crescimento da influência
de Londrina estava ligada à criação do curso de medicina na Universidade
Estadual de Londrina (UEL) em 1967.
A instalação de clínicas ou de unidades de atendimento
especializadas e de laboratórios de análises clínicas atestam o
melhoramento da técnica médica de Londrina. A Universidade
Estadual de Londrina, através do seu curso médico instalado em
1967, é em parte responsável pela elevação do padrão médico.
Hoje, é possível falar em equipes médicas especializadas em
Londrina, nas seguintes especializações: equipes de coração
(cirurgia cardio-vascular), ortopedia, nefrologia, neurocirurgia,
pediatria, obstetrícia e ginecologia, otorrinolaringologia,
oftalmologia e gastroenterologia. (NAKAGAWARA, 1972, p. 242)
49
Como podemos ver, a cidade ampliou sua centralidade
derivada, inicialmente, de todo conjunto de atividades que constituíam os
circuitos de produção, beneficiamento, classificação, estocagem,
transporte e comercialização do café. Ao longo do tempo o processo de
concentração de infraestruturas, a exemplo da ferrovia, das estradas
asfaltadas, da telefonia, telégrafo, telex que materializavam as conexões
com o centro dinâmico da economia brasileira e com mundo, reforçaram a
polarização que Londrina exercia sobre um vasto espaço regional. Essa
polarização incrementou os fluxos de pessoas, mercadorias e dinheiro que
se dirigiam para Londrina e fez com que outros serviços e atividades
crescessem e ganhassem importância.
Um exemplo claro é o do desenvolvimento de forte aparato
comercial e de serviços ligado aos fluxos de viajantes. Segundo Prandini
(2007, p.108) havia 70 estabelecimentos do tipo pensões, hotéis e
restaurantes de todas as categorias com um movimento extraordinário,
justificado pelas mais de 5.000 pessoas em transito diários pelas ruas da
cidade. As casas atacadistas “com filiais em diversas cidades a oeste de
Londrina” (PRANDINI, 2007, p.107) também revelavam a importância da
cidade em termos regionais.
Algumas firmas comerciais de Londrina, principalmente as
pequenas e localizadas nas áreas suburbanas ou rurais são bons
clientes. Os compradores que residem fora de Londrina são
geralmente pequenos comerciantes, estabelecidos em vilas,
povoados ou cidades. Em caso de emergências as grandes firmas
de Londrina também se abastecem nesses atacadistas[...]
O auge do comércio atacadista de Londrina foi durante a década
de 50 até o início de 60. Tem havido uma regressão relativa em
termos de volume de vendas, coincidindo esse fato com o
melhoramento ou a pavimentação das estradas que servem as
cidades mais populosas que se alinham em torno do espigão de
penetração por São Paulo. Com o melhoramento das estradas e
linhas de ônibus mais freqüentes para a capital paulista, houve
também uma entrada gradativa e crescente dos viajantes das
firmas paulistas, oferecendo os produtos a menor preço e
diretamente da fonte produtora. (NAKAGAWARA, 1972, p.68)
Segundo Nakagawara (1972) os maiores atacadistas em
Londrina eram empresas provenientes de São Paulo e outros estados, tais
como: J. Alves Veríssimo, Dias Pastorinho, Dias Martins, Importadora São
50
Marcos e Importadora São Remo. O impulso dado à economia urbana
londrinense pela produção de café atraiu novos empreendimentos
comerciais varejistas para Londrina
40
. É o caso da família Fuganti que,
vinda de Rio Grande do Sul, havia acumulado experiência no comércio em
cidades que, a exemplo de Londrina, mantinham intenso relacionamento
comercial com São Paulo. Em 1946, a empresa da família foi
reorganizada, abrigando filhos e netos do fundador e diversificando seus
empreendimentos.
Ao suceder o pai, o comendador Julio Fuganti deslocou 90% dos
bens e lojas da sociedade para o Norte do Paraná. A firma
progrediu extraordinariamente e chegou a constituir os seguintes
estabelecimentos: Plenogás Fuganti (usina de engarrafamento e
entrega de s), Plenolar Fuganti (móveis e utilidades
domésticas), Supermercado Fuganti, S. A. Mercantil,
Administradora e Imobiliária, Cia Agrícola Pecuária Irmãos Fuganti,
Transportes Rodobrás S. A. (transporte de gás entre Santos e
Londrina), e Rotec S. A. concessionária FNM e DKW (adquirida
em 1970); distribuídas por diversos municípios do Paraná, como:
Londrina, Apucarana, Arapongas, Rolândia, Maringá e Curitiba. A
firma foi chamada de “símbolo do comércio londrinense” com a
abertura da Distribuidora de Gás Plenogás em 1955 e a Imobiliária
Fuganti em 1959, além de outros empreendimentos (BLUM, 2006,
p.71).
A diversificação do campo de ação do capital dessa família é
indicativa das possibilidades e do dinamismo econômico gerado tanto pela
nova conjuntura do país no pós-guerra como pelos efeitos combinados da
cafeicultura e do arranjo espacial na região de Londrina. No caso da
família Fuganti, o capital comercial originário do varejo, expandiu-se para
o fornecimento de gás, transporte, produção agropecuária, especulação
imobiliária com lotes rurais e urbanos, ampliando a divisão social do
trabalho na cidade e na região e os nexos entre cidade e campo e entre
cidades na conformação da rede urbana regional.
A intermediação na distribuição de bens e serviços exercida
por Londrina em relação ao conjunto de cidades da região deixa evidente
40
O Comércio varejista em Londrina se desenvolveu de forma acentuada desde meados dos anos 1930. Nesse
período a cidade já contava com grandes estabelecimentos comerciais como: a loja da família Dequech, as Casas
Pernambucanas, a Casa Combate entre outras que vendiam uma grande variedade de itens. Nesse período o
comércio varejista atendia, sobretudo, a demanda local dos pequenos proprietários que iam se instalando, assim
como as necessidades dos primeiros moradores da cidade.
51
a centralização dos fluxos econômicos na cidade (NAKAGAWARA, 1972).
Essa centralização e as necessidades de consumo de um número
crescente de comerciantes, profissionais liberais, funcionários públicos,
funcionários mais graduados da Companhia de Terras sustentavam a
sofisticação do terciário instalado na cidade. O salão de chá
41
instalado no
edifício da casa Fuganti é um exemplo da sofisticação permitida pela
dinâmica da economia urbana:
A Casa de Chá estava instalada em um amplo salão de cores
claras, móveis finíssimos, luminárias de cristal, com fundo musical
clássico. Bebia-se sucos, refrescos, refrigerantes, sque (menos
cerveja), chá da Índia, chá mate e café. As tortas e bolos eram
preparados por uma senhora alemã e os sorvetes eram preparados
por um sorveteiro recém chegado da Itália. No período vespertino
o salão era freqüentado por senhoras da sociedade e a noite, por
gerentes de banco, médicos e homens de negócio. A revista O
Globo de Porto Alegre chegou a publicar uma reportagem dizendo
que “no meio da sujeira e do tinha um salão de ca altura de
uma capital” (IPAC, 1995, p. 236,237).
A Casa Fuganti tinha feições de loja de departamentos
relativamente precoce. Nos seus três pavimentos estavam distribuídos
setores diversos que reuniam produtos como: roupas masculina e
feminina, perfumes, tecidos, armarinho, móveis, prataria e
eletrodomésticos (fogões, geladeiras, máquinas de lavar), além de
mercearia e da venda de gás liquefeito (BLUM, 2006, p.73). O conjunto de
dados que a descrição desse estabelecimento permite reunir, mostra a
complexidade da nascente economia urbana de Londrina.
Analisada do observatório particular da estruturação dos
circuitos da economia urbana, fica patente que Londrina viabilizou a
reunião e a combinação de diferentes tipos de trabalho e de
trabalhadores: da sofisticação da doceira alemã e do sorveteiro italiano à
simplicidade dos entregadores com carroça, dos ajudantes de cozinha e de
limpeza, dos vendedores e vendedoras, entre outras. Todas essas formas
de trabalho foram diretamente subordinadas à reprodução de capitais,
nesse caso de tipo mercantil, que encontraram na cidade e na região
oportunidades de valorizarem-se.
41
A implantação de um salão de chá parece indicar certa influência da cultura britânica na cidade.
52
A função comercial de Londrina se destaca não pelo seu
equipamento, como principalmente pela variedade e qualidade dos
produtos a venda. Verifica-se dia a dia, maior especialização do
comércio londrinense, desde produtos das primeiras necessidades
até aos mais sofisticados (NAKAGAWARA, 1972, p.54).
Consoante Nakagawara (1972), a maioria dos 4.500
varejistas existentes em 1970, havia se instalado na cidade nos anos
1950, ou seja, no período de maior dinamismo da cafeicultura.
53
1.2.2 A Cafeicultura e o contexto da formação do circuito
inferior embrionário
A rigor durante o período da cafeicultura, é muito difícil e
até mesmo impróprio apontarmos a existência de um circuito inferior
orgânica e sistematicamente entrosado na economia urbana em Londrina.
É possível apenas fazer referência a alguns elementos dispersos,
verdadeiros embriões, que ainda não tinham condições plenas de
desenvolvimento.
Um dado fundamental para essa argumentação é a
proporção da população rural que até os anos 1960 abarca mais de 40%
da população de Londrina. Essa proporção começa a se modificar de
forma mais acentuada entre os anos 1960 e 1970, quando a cafeicultura
deixa paulatinamente de ser a principal atividade da região.
Gráfico 1
Londrina: evolução das populações rural e urbana, 1950 a 1970
51,2 48,8
57,5
42,5
71,6
28,4
0,0
10,0
20,0
30,0
40,0
50,0
60,0
70,0
80,0
1950 1960 1970
POP URBANA (%) POP RURAL (%)
Fonte: IBGE, Censos Demográficos.
Durante o período da cafeicultura a economia urbana
londrinense se desenvolveu a partir de uma base rural, composta por
pequenos produtores, colonos, parceiros e toda gama de relações de
produção implicadas no cultivo do cae de outros produtos associados.
Essa base rural era complementada por uma intrincada teia de relações
entre pequenos maquinistas, grandes exportadores, fazendeiros
envolvidos em diversas etapas do processo de comercialização e
54
valorização do café (beneficiamento, classificação, armazenagem, etc.),
que constituíam a parcela urbana da divisão do trabalho local. Mantendo
relações diretas e indiretas com essa parcela urbana da cafeicultura
estavam os bancos, o comércio, a especulação imobiliária, os serviços e
as demais atividades urbanas.
A indústria começou a crescer em Londrina partir dos anos
1960, período em que ocorre o maior número de implantações de
indústrias na região, voltadas não somente para um mercado regional,
mas também para o mercado nacional e externo(CESÁRIO, 1978, p.41).
Até então a cidade contava apenas com as máquinas de beneficiar
cereais, algumas oficinas de conserto de caminhões e automóveis e
pequenas produções artesanais de instrumentos agrícolas e de materiais
de construção.
Gráfico 2
Londrina: evolução do número de estabelecimentos
da indústria, comércio e serviços, 1950 a 1970
0
200
400
600
800
1.000
1.200
1.400
1.600
1950 1960 1970
Instrias Comércio Varejista Servos
Fonte: IBGE, Censos Econômicos.
Além de um pequeno número de estabelecimentos, a
participação das atividades industriais, associada à grande participação da
agropecuária e extrativismo na composição da população economicamente
ativa indica que, até o inicio dos anos 1970, a dinâmica da reprodução
social ainda estava muito ligada ao meio rural. Essa situação começou a
mudar com a modernização da agricultura e a intensificação das
migrações rural-urbanas, no final dos anos 1960.
55
Gráfico 3
Londrina: população economicamente ativa por
setores de atividade
42
, 1960 e 1970
12,3
43,5
44,2
16,0
31,6
52,4
0%
10%
20%
30%
40%
50%
60%
70%
80%
90%
100%
1960 1970
Atividades Industriais Agropecria e Extrativismo Outras Atividades
Fonte: IBGE, Censos Demográficos
A formação do circuito inferior depende das demandas não
atendidas de uma numerosa população pobre com rendimentos
insuficientes e/ou intermitentes concentrada nas cidades, combinada à
difusão de relações salariais e à formação de classes médias.
Em Londrina, até o final dos anos 1960, quase metade da
população economicamente ativa estava concentrada no meio rural,
mesmo considerando que o terciário representasse uma parcela
importante das oportunidades de trabalho o dinamismo econômico da
região ainda era proveniente do meio rural
43
. A hipótese de que as
condições para a formação do circuito inferior em Londrina ainda não
estavam plenamente atuantes até os anos 1960 pode ser fundamentada
não pela ausência de pessoas com carecimentos, mas pela dispersão a
que estavam submetidos os pobres, que ainda não eram marcadamente
urbanos
44
.
42
O item atividades industriais inclui construção civil, serviços industriais de utilidade pública e a indústria de
transformação. O item outras atividades inclui atividades terciárias privadas e públicas
43
Esse argumento pode ser verificado indiretamente pelo enorme impacto que a introdução da soja, do trigo e da
mecanização e a expansão da pecuária produziram sobre a população rural, provocando sua drástica redução e
desmantelando relações de trabalho rurais como o colonato e a parceira.
44
Segundo Quícoli (1984, p.26) que estudou a formação da Vila Nova situada na porção norte do Centro
Principal de Londrina, essa Vila era o local de residência de operários da Companhia de Terras e de diversos
carroceiros. Inicialmente os terrenos onde a Vila Nova se formou eram destinados às chácaras que forneceriam
hortifrutigranjeiros para os moradores da cidade. Na prática boa parte desses terrenos foi alugada como pasto
56
1.2.3 Os elementos dispersos de um circuito inferior
embrionário
A concentração de riqueza em Londrina trazida pela
cafeicultura se fez acompanhar da intensificação do processo de
urbanização. A partir dos anos 1950, a população urbana superou
ligeiramente a população rural. Essa diferença foi ainda maior no início
dos anos 1960
45
. Na medida em que a concentração da população na
cidade crescia, aumentavam também as expressões da pobreza e da
miséria no meio urbano.
O movimento da cidade era fervilhante, e o espetáculo da
modernidade era registrado de maneira incansável pelos jornais,
livros comemorativos, discursos, etc. Um censo seguia o outro
sempre marcando o crescimento dos números do progresso;
edificações, meros de passageiros, movimento da rodoviária, do
aeroporto, da produção de café, etc., salientando sempre o
crescimento e a riqueza da “cidade menina”...
Todo esse movimento do “moderno” e do “progresso” mostrava
um dos lados da questão. A seu lado caminhava a “barbárie”.
Junto dos prédios modernistas, uma profusão de novos bairros
periféricos, sem nenhuma infraestrutura, bem como a proliferação
de espaços decaídos da cidade, causavam um “mal-estar na
civilização”. A contrapartida dos marcos arquitetônicos modernos
era, portanto, a grande quantidade de homens que chegava e se
alojava em espaços periféricos, ou se amontoava em espaços
“decaídos”.
Os números que se contavam, no caso, eram os a “barbárie” de
mendigos por metro quadrado, vadios, prostitutas, prostíbulos,
pocilgas, pobreza, etc. (ADUM, 1991, p.158-162).
Outra expressão da pobreza em Londrina eram as Vilas.
Segundo Neide Prandini (2007, p.94) em 1947 havia 53 Vilas em Londrina
que eram um problema urbanístico para a cidade”. Essas extensões
irregulares do meio construído não possuíam as mesmas condições da
parte da cidade construída pela Companhia de Terras. O traçado era
irregular e faltavam a infraestrutura e os equipamentos urbanos: redes de
água, luz, esgoto, escolas, postos de saúde. Mas, as datas (lotes)
para animais de trabalho da Companhia. Assim conviviam numa mesma parte da cidade a Vila, os terrenos
destinados ao pasto dos animais e algumas chácaras. Os carroceiros da Vila Nova aproveitavam os pastos
alugados pela Companhia para tratar de seus animais e parte dos terrenos das chácaras para tratar dos animais
que puxavam suas carroças (QUICOLI, 1984, p.33). Com esses animais realizavam transportes de todo tipo e
fazia até mudanças, transportavam principalmente pessoas e mercadorias que chegavam à estação de trem.
45
Conforme nos mostra o gráfico 1.
57
localizadas nas Vilas eram mais baratas e, portanto, mais acessíveis do
que aquelas situadas em outros loteamentos da cidade.
Em meados dos anos 1950 havia 88 vilas espalhadas pela
periferia de Londrina, especialmente nas zonas norte e oeste (LINARDI,
1995, p.186). No final dos anos 1960, além das Vilas ocorre a
multiplicação de favelas, como a da Vila Fraternidade, Vila do Grilo e do
Pito Aceso que indicavam o agravamento progressivo da questão da
pobreza na cidade.
Mapa 5
Londrina: localização de algumas Vilas, 1958
Fonte Yamaki (2003, p.43)
58
Figura 2
Vila da Fraternidade: abertura de rua - 1968
Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina.
Autor Oswaldo Leite
Os embriões do circuito inferior aparecem nas formas pelas
quais os moradores das Vilas e Favelas de Londrina enfrentavam o desafio
de sobreviver na cidade. Os estudos sobre a Vila Casoni são mais
detalhados e oferecem mais informações sobre o modo como seus
moradores se inseriram na economia urbana nascente de Londrina. Em
alguns depoimentos temos os seguintes relatos:
Antigamente não existia caminhão, tudo era carroça [...] Os
antigos falavam: ‘Vai na Vila dos carroceiros’ (era a Vila Casoni e
arredores) Depoimento do Sr S. R.
Eu vim para cidade, [...] eu fui trabalhar numa copa de hotel,
fui ajudante de cozinha, fui cozinheiro, depois garçom, depois
arrumei serviço no banco. Era solteiro. Aí fui procurar outro
serviço. Entrei como pintor da Viação Garcia, pintando parede.
Depois fui violeiro. La no predinho da Sta Catarina inauguramos
um dupla, era Louro Prata e Pingo D’água. P. 39 Depoimento do
Sr. P. M
“[...] eu fui o primeiro garapeiro de Londrina. O primeiro carrinho
de garapa quem teve fui eu. Eu vendi pastel em Londrina, eu
vendi pipoca, eu fui engraxate, fui carregador de mala, fui
agenciador de pensão.[...] Nós ganhávamos naquela época 2 mil
59
réis por cada freguês que nós conseguíamos para o hotel”
Depoimento do Sr. M. P. R.
Eu acho que tinha quinze anos costurava pra fora no corte
(costura). Quando eu fui aprender no corte eu ia pegando
roupas de colegas, roupinhas de crianças.[...] Depois de casada eu
continuei costurando muito. Tenho muita freguesia. Levanto muito
cedo, as cinco da manhã, faço o serviço de casa depois pego a
costura.” Depoimento da Sra. M. R. S. (IPAC, 1987, p. 33 a 40)
As próprias Vilas passaram a oferecer algumas
oportunidades para que aparecessem atividades econômicas voltadas para
a população pobre. As Vilas mais próximas do centro ganharam, com
certa rapidez, alguma estrutura, dando origem a pequenos núcleos
comerciais, onde alguns estabelecimentos do tipo bares, empórios ou
mercearias se instalaram. Formavam-se, assim, pequenos
empreendimentos comerciais, movidos pelo trabalho familiar, que
floresciam com o aumento da população dos bairros e sua estruturação
46
.
O principal jornal da cidade também registrava a expansão
do comércio ambulante, atividade típica do circuito inferior, e diretamente
ligada às dificuldades da população pobre.
Nossa cidade foi invadida por uma onda de mascates, entrados no
país como imigrantes destinados à lavoura. O fisco permite que
exerçam a atividade de mascates, que deles recebem taxas e
impostos, dando-lhes os respectivos alvarás. O próprio fisco auxilia
tais elementos a burlarem a legislação da imigração. Vieram como
lavradores e agora são mascates e o fisco endossa a burla. A quem
apelar? (apud ARIAS NETO, 1993, p. 163).
A estação rodoviária e seu entorno eram locais preferenciais
para a atuação desses trabalhadores, ligados ao comércio ambulante. Sua
presença incomodou as autoridades municipais que em meados dos anos
1950 restringiram sua atuação naquele local (ARIAS NETO, 1993).
Ao longo das décadas de 1950 e 1960 os contrastes entre a
concentração da riqueza e pobreza em Londrina foram se acentuando e
tornando mais complexa e contraditória a formação da economia urbana.
Ao lado da paulatina formação de um dinâmico circuito superior movido
46
A pavimentação da Vila Agari, local de madeireiras, por exemplo, se daria no final dos anos 1960,
minimizando problemas como a poeira e o barro na época das chuvas. O primeiro posto de saúde somente em
1977 (NANTES, 2003)
60
pela cafeicultura, foram se constituindo formas embrionárias e dispersas
de enfrentamento das situações de pobreza e insegurança a que estavam
submetidos aqueles que não estavam diretamente inseridos nas
atividades econômicas que compunham a inserção de Londrina na divisão
territorial e social do trabalho.
61
CAPÍTULO 2
As transformações da economia urbana de Londrina no
período técnico-científico
2.1 As condições para o pleno desenvolvimento dos
circuitos da economia urbana
Os anos 1970 representam o início de um novo período para
a economia urbana londrinense. Ao longo da década a dinâmica
econômica da cidade sintetizou as complexas transformações decorrentes
do processo de difusão do meio técnico-científico-informacional incluindo a
modernização da agricultura, a industrialização e a intensificação da
urbanização.
Como resultado dessas transformações tanto o circuito
superior como o circuito inferior passaram a se sustentar em
determinações internas ao meio urbano, reduzindo progressivamente a
dependência das dinâmicas do meio rural. As condições para estruturação
e desenvolvimento dos circuitos da economia urbana tornaram-se plenas
e maduras, na medida em que, como conseqüência dos processos
elencados, a população, o trabalho e os trabalhadores tornaram-se
predominantemente urbanos e o meio construído e as principais
atividades econômicas ganharam novos conteúdos.
Analisar a economia urbana londrinense, levando em conta
as repercussões dessas modernizações requer que se considere sua
imbricação com outras escalas, pois, como nos lembra Maria Laura
Silveira (2004, p.61): “A dinâmica da cidade somente pode ser
compreendida à luz da dinâmica do território”. Com base nessa premissa
analisaremos as alterações na inserção de Londrina e do Paraná na divisão
territorial do trabalho que resultaram da expansão do meio técnico-
científico, da modernização da agricultura, da industrialização e
urbanização em Londrina e no Norte do Paraná.
62
2.1.1 A primeira fase de difusão do meio técnico-
científico-informacional no Paraná e em Londrina
Na escala do território nacional, os anos 1970 foram
marcados pela primeira fase de construção e difusão do meio técnico-
científico-informacional. Descrevendo os períodos por meio dos quais se
propõem a explicar a sucessão de usos do território brasileiro, Milton
Santos e Maria Laura Silveira nos dizem que:
O terceiro grande período é a construção e a difusão do meio
técnico-científico-informacional. Cabe, todavia, diferenciar uma
primeira fase, um período técnico-científico que, no Brasil dos anos
70, caracterizou-se, entre outros aspectos, por uma revolução das
telecomunicações. É sobretudo nesse momento que, ultrapassando
o seu estágio de pontos e manchas, o meio técnico realmente se
difunde. Mas o novo meio geográfico (técnico-científico-
informacional) permanece circunscrito a algumas áreas. (SANTOS
e SILVEIRA, 2001, p.28)
Londrina e seu entorno regional são participantes
importantes dessa primeira fase de difusão do meio técnico-científico a
partir dos anos 1970. Representam também pontos importantes no
processo de interiorização da urbanização. A construção de rodovias
conectando o Sul e o Sudeste do país, assim como os aeroportos, usinas
elétricas, rede telefônica com capacidade para realizar interurbanos são
exemplos de eventos que aproximaram Londrina e o núcleo industrial
paulista desde os anos 1950, fazendo com que o Norte do Paraná
passasse a integrar a Região Concentrada (SANTOS e Silveira, 2001,
p.42).
Uma das diferenças que marcam o início de um novo
momento no Paraná é que, a partir dos anos 1970, se fizeram sentir as
conseqüências do projeto paranaense de desenvolvimento.
O projeto paranaense, também chamado de “modelo paranaense”,
centrava forças no papel do Estado como promotor do
desenvolvimento. Em outras palavras, enquanto em nível nacional
o Estado assumiu a tarefa de conduzir a economia após 1930 e
reforçou tal tarefa nas cadas subseqüentes, fazendo
investimentos que criavam condições para a produção e
reprodução do capital pelo caminho da industrialização; no Paraná,
o estado assumiu de maneira mais efetiva essas funções nos
anos 1960 (FRESCA, 2004, p.170)
63
A intenção das novas elites que haviam chegado ao poder
nos anos 1960
47
era industrializar o Paraná como forma de modificar sua
inserção subordinada na divisão territorial do trabalho como fornecedor de
gêneros agrícolas e evitar as perdas que o Estado sofria com essa
condição (FRESCA, 2004, p.169). Na prática essa intenção se traduziu na
criação de uma série de empresas estatais que coordenaram vultosos
investimentos realizados na integração do território paranaense e na
expansão de diversas redes cnicas: rodovias, produção e distribuição de
energia elétrica, telefonia e saneamento básico.
Nessa perspectiva, podemos dizer que a produção do meio
técnico-científico e o aumento de sua densidade técnica são formas pelas
quais o Estado contribuiu diretamente para a formação e o
desenvolvimento do circuito superior da economia urbana em Londrina,
especialmente a implantação de indústrias modernas.
A criação de infraestrutura é uma maneira de financiar
indiretamente (e às vezes diretamente, em função do vel de
corrupção dos planificadores e dos funcionários) a implantação de
indústrias modernas. Sem dúvida, é necessário distinguir as
infraestruturas indispensáveis à modernização de um Estado
daquelas que são criadas com o objetivo deliberado de atrair
investimentos. Mas, nos dois casos, os resultados são mais ou
menos os mesmos. (SANTOS, 1979, p.130)
O projeto paranaense de desenvolvimento, alardeado
inicialmente como uma forma de fazer avançar o desenvolvimento no
Estado, sofreu os constrangimentos da época, tendo que se adequar aos
objetivos das políticas federais de desenvolvimento dos governos
47
“A condução de Ney Braga à chefia do Poder Executivo, em 1961, personificando o Paranismo, irá significar
a revisão do papel do Poder Executivo estadual visando estabelecer um processo de mudança na forma de
acumulação, de rural para industrial-urbano. [...] Com Ney Braga a intervenção estatal visa, sobretudo, criar e
expandir as condições gerais de produção o que implicava na revisão da estrutura governamental e na ênfase da
atividade planejadora dentro dos corpos da administração publica. Nesse sentido, os municípios paranaenses
passam a contar com órgãos de promoção do desenvolvimento urbano (SANEPAR, FAMEPAR e COHAPAR) e
o desenvolvimento industrial com uma poderosa instituição de financiamento: a CODEPAR (1962). O principal
instrumento de ação é o Fundo de Desenvolvimento Econômico (FDE) instituído com recursos tomados de
poupança interna ao Paraná na forma compulsória sobre o Imposto de Vendas e Consignação (IVC), com
recursos contabilizados fora do Orçamento do Estado, o que dava à CODEPAR uma grande autonomia e
flexibilidade de decisões. A aplicação de recursos do Fundo recaiu prioritariamente sobre a criação de
infraestruturas para o desenvolvimento econômico, o que vale dizer, produção de energia elétrica,
telecomunicações e transportes” (RAZENTE, 2003, p.43).
64
autoritários pós-1964. Tânia M. Fresca (2004, p.172) explica as
conseqüências das adequações sofridas pelo projeto de desenvolvimento
paranaense.
Por essas adequações o projeto foi direcionado para o grande
capital de qualquer origem, em detrimento do pequeno e médio
capital local e se deslocou da substituição de importações para a
tese da complementaridade (AUGUSTO, 1978, p.222) na ótica da
divisão territorial do trabalho em nível nacional
O caso da energia elétrica é emblemático nas
transformações que os investimentos estatais proporcionaram. A
fragmentação do sistema de produção e distribuição de energia provocava
freqüentes racionamentos e interrupções do serviço
48
. Com a criação da
Companhia Paranaense de Energia Elétrica (COPEL) em 1954 e o aporte
de recursos estaduais e federais provenientes das taxas de eletrificação,
do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e da Eletrobrás
teve início uma fase de vultosos investimentos na construção do sistema
elétrico estadual (COPEL-UFPR, 1994).
Os primeiros alvos das ações da COPEL foram os sistemas
de produção de energia, com a construção de hidrelétricas e
termoelétricas, e as linhas de transmissão, que foram ampliadas ou
construídas
49
. A ampliação da capacidade de geração
50
e a racionalização
e integração territorial da rede de transmissão, conectada com a de outras
unidades da federação, praticamente eliminaram os racionamentos e as
constantes interrupções do fornecimento de energia no Estado.
A disponibilidade de insumos como a energia elétrica
mostrou-se fundamental tanto para a industrialização, como para a
intensificação da urbanização no Paraná.
48
Até meados dos anos 1960 o Paraná não possuía um sistema estadual integrado e era abastecido por diferentes
empresas privadas e formas de produção e distribuição: empresas autoprodutoras, geradores a diesel comprados
pelas prefeituras, empresas de energia elétrica com áreas de atuação restritas, a exemplo da Empresa de Energia
Elétrica de Londrina pertencente a sócios da CMNP e da Cia de Força e Luz do Paraná, pertencente a um grupo
financeiro norte-americano (COPEL-UFPR, 1994, p.95)
49
Além de usinas como a termelétrica de Figueira, próxima à Londrina, também foram construídas linhas de
transmissão e estações de distribuição que garantiram o abastecimento regular de todo Norte do Paraná (COPEL
– UFPR, 1994)
50
A potência instalada sob controle da Companhia de Energia Elétrica do Paraná (COPEL) mais do que dobrou
entre 1960 e 1970, passando de 147.714 kW em 1960, para 354.000 kW em 1970 (COPEL-UFPR, 1994, p.110)
65
De fato, se existe alguma relação entre eletrificação e fomento à
indústria, ela parece ser clara apenas no período seguinte quando
aí, sim, em função da abundância de energia, um número
considerável de empresas i se transferir e/ou ampliar suas
atividades no Paraná (COPEL – UFPR, 1994, p114)
Outra rede técnica de fundamental importância na
redefinição da inserção paranaense na divisão territorial do trabalho foi a
de telecomunicações. No Paraná, até meados dos anos 1960, havia um
mosaico de redes, sistemas e empresas de telefonia. A criação da
Companhia de Telecomunicações do Paraná (TELEPAR) em 1963 deu início
a profundas transformações na rede de telecomunicações paranaense.
A partir de 1968, a TELEPAR começou a construir uma rede
de centrais de telefonia para a realização de ligações interurbanas com
base em novas tecnologias
51
. Essas centrais foram interligadas à rede
nacional implantada pela Empresa Brasileira de Telecomunicações
(EMBRATEL) na montagem do sistema de discagem direta à distância -
DDD. A construção da rede paranaense se deu progressivamente a partir
de diversas rotas de interligação. As centrais da rota norte-sul foram as
primeiras a serem construídas, interligando cidades como Paranaguá,
Curitiba, Ponta Grossa, Londrina e Maringá, e começaram a operar em
1970 (LAUDES, [1971?], p. 94).
A situação da telefonia em Londrina é bastante particular. O
serviço fora municipalizado em 1964 com a criação da Companhia
Municipal de Telecomunicações de Londrina (SERCOMTEL) e, com isso, a
telefonia se desenvolveu de forma acelerada em Londrina e municípios
vizinhos. O desenvolvimento da telefonia e, como veremos a seguir,
também dos sistemas de saneamento básico proporcionaram condições
relativamente favoráveis para o desenvolvimento urbano de Londrina, se
comparadas com outras regiões do país. Tais redes atendiam aos
reclamos dos atores principais da economia urbana, mas também
favoreceram uma parcela considerável da população urbana.
51
Tratava-se do sistema de microondas que permitiu a formação do sistema DDD no Brasil. Curitiba, após a
entrada em funcionamento das estações da EMBRATEL foi a primeira cidade do Paraná a se integrar ao novo
sistema. A interiorização das centrais de microondas ficou a cargo da TELEPAR. (LAUDES, 1971)
66
Gráfico 4
Londrina: evolução da telefonia fixa, 1960 - 1990
0
10.000
20.000
30.000
40.000
50.000
60.000
70.000
1960 1965 1970 1975 1980 1985 1990
N de TELEFONES em SERVIÇO
Fonte: Perfil Londrina, 1986 e 1993
Além das conexões estaduais, a central da rede de
microondas, construída pela TELEPAR em 1970, permitiu que Londrina
fosse a quarta cidade brasileira a integrar o sistema DDD (KROETZ, 1982,
p.72). Assim como ocorrera com a energia elétrica, após a formação do
sistema estadual, o serviço de telefonia fixa em Londrina apresentou
expansão da oferta superior a da demanda. A regularidade dos serviços e
a disponibilidade de telefonia e energia elétrica tiveram papel decisivo
para as transformações da economia urbana londrinense.
No tocante ao saneamento básico, desde a década de 1930,
com a promulgação do Código das Águas (Decreto n.º 24.643, de julho de
1934), os serviços privados nesse setor foram paulatinamente absorvidos
pelo Estado, que passou a ter poder de fixar as tarifas. De maneira geral,
os serviços de saneamento básico ficaram a cargo das prefeituras ou
governos estaduais, que criaram seus departamentos de água e esgoto.
No Paraná, no contexto da efetivação do projeto paranaense”, foi criada
uma empresa de economia mista para cuidar do saneamento básico: a
Companhia de Saneamento do Paraná (SANEPAR).
O objetivo era reduzir os déficits de atendimento em todo
Estado. O grau de precariedade dos sistemas de saneamento pode ser
avaliado pelo trecho a seguir, retirado da mensagem do poder executivo
enviada à Assembléia Legislativa, por ocasião da criação da empresa.
67
A situação do Paraná no concernente à água e esgoto é bastante
precária. Apenas 8,3% da população é servida por rede de
abastecimento de água, e apenas 4,1% é servida de rede de
esgotos. Das 221 sedes municipais, 13 possuem ambos os
serviços, e 37 somente o de água. Das 20 cidades mais populosas
do Estado (segundo o censo de 1950), apenas 11 possuem
serviços de água satisfatórios. (SCHUSTER, 1994, p.144)
No plano federal, a política de financiamento da
infraestrutura de saneamento básico contou com recursos do Banco
Nacional da Habitação (BNH) na composição do Plano Nacional de
Saneamento – PLANASA
52
a partir de 1971 (IPEA, 1995).
Não cabe aqui aprofundar a discussão sobre a política
centralizadora do regime militar e sua conhecida leniência para com as
necessidades de infraestrutura ligadas à reprodução da maioria da
população. O que queremos enfatizar é a distribuição dos recursos
federais alocados no Plano Nacional de Saneamento, os quais foram
direcionados prioritariamente à sustentação financeira das Companhias
Estaduais de Saneamento Básico (CESB), promovendo assim, a
centralização administrativa no setor (IPEA, 1995, p. 105). No Paraná os
recursos federais foram repassados à SANEPAR, a quem coube executar
as ações previstas pelo planejamento federal (SCHUSTER, 1994).
Com essa política, a qual limitava o acesso das prefeituras
aos recursos federais, muitos departamentos municipais ficaram
inviabilizados, visto que os recursos gerados pelas tarifas pagas pelos
usuários não eram suficientes para fazer frente às necessidades de
expansão dos sistemas na velocidade imposta pela urbanização.
Em Londrina, o forte crescimento urbano impunha a
necessidade de investimentos nos sistemas conexos de tratamento,
adução e distribuição da água e também de coleta e tratamento de
52
Durante a ditadura militar a elaboração das políticas federais que incidiram sobre temas diretamente ligados à
reprodução da sociedade como um todo e, especialmente dos trabalhadores, baseou-se em formas de
financiamento com recursos obtidos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). O FGTS, principal
fonte dos recursos do antigo Sistema Financeiro da Habitação (SFH) é uma forma de poupança forçada retirada
compulsoriamente dos salários e, em menor proporção e de forma mais branda, também dos empresários. Vale
ressaltar, portanto, que particularmente, o financiamento da expansão da habitação e do saneamento básico ao
longo dos anos 1970 e início dos anos 1980 se fez à custa do fundo público construído com a poupança forçada
imposta aos trabalhadores. (IPEA, 1995)
68
esgoto. Essa necessidade levou o município a assinar contrato de
concessão desses serviços com a SANEPAR em 1973.
Com a adesão ao Plano Nacional de Saneamento a
SANEPAR obteve acesso a linhas de financiamento que sustentaram a
expansão da empresa até o início dos anos 1980 (SCHUSTER, 1994,
p.156). A SANEPAR que, em 1972, atendia apenas 16 municípios, passou
a atuar em 264 municípios em 1985, incluindo Londrina. Com essa
expansão cresceu também o aporte de recursos financeiros provenientes
das tarifas pagas pelos usuários.
O problema do abastecimento de água em Londrina foi
relativamente solucionado pela SANEPAR a partir de 1977 com a
construção do Sistema Tibagi”
53
. Atualmente, segundo a Prefeitura de
Londrina
54
, 98% da população do município têm acesso ao abastecimento
de água por rede geral e 75% conta com ligações ao sistema de esgoto.
Assim como no caso da energia elétrica, as redes de saneamento básico
atuais foram implantadas pelo Estado e foram fundamentais para a
estruturação das cidades e a vida cotidiana que elas suportam.
O setor de transportes também foi alvo da atuação do poder
público no contexto do projeto paranaense. Nesse caso, o objetivo era
promover a integração territorial do Paraná e melhorar as condições de
circulação em todo o Estado. Os investimentos possibilitaram a melhoria
das principais rodovias do Norte do Paraná: a BR 369, que liga a região a
São Paulo, e a BR 376, que vai de Apucarana a Ponta Grossa. Essas
rodovias estavam totalmente concluídas e asfaltadas no início dos anos
1970 (FRESCA, 2004, p. 173).
A partir de então Londrina e seu entorno regional passaram
a ter melhores possibilidades de ligação não apenas com Ponta Grossa e
Curitiba, por meio da “Rodovia do Café” (BR 376), mas também com
Cascavel, no sudoeste do Paraná e outras regiões do Estado. A circulação
53
O Sistema Tibagi é formado pelo conjunto de estações de tratamento, redes de adução e distribuição de água
que capta água para o abastecimento de Londrina no Rio Tibagi que atravessa parte do munípio de Londrina.
54
Para essas informações utilizamos a publicação da Prefeitura de Londrina denominada Perfil Londrina,
2007”.
69
interna e a integração territorial paranaenses melhoraram
substancialmente.
A disponibilidade de energia elétrica, serviços de
telecomunicações, saneamento básico e de rede rodoviária contribuíram
para o desenvolvimento de novas especializações produtivas que
alteraram a inserção do Estado e da cidade na divisão territorial do
trabalho. A nova inserção se configurou por meio da formação de
agroindústrias e da expansão das lavouras mecanizadas de soja e trigo.
As novas especializações do trabalho na escala regional visavam o
fornecimento de matérias primas para indústria química (óleos vegetais
brutos), de produtos alimentares (óleos vegetais refinados e trigo para os
moinhos) e o consumo produtivo de insumos industriais, máquinas e
equipamentos agrícolas.
70
2.1.2 As novas especializações produtivas: a expansão
das lavouras temporárias mecanizadas
Segundo Cláudio R. Bragueto (1996) a nova inserção da
microrregião homogênea de Londrina na divisão territorial do trabalho,
promovida pela modernização da agricultura, se realiza a partir de dois
movimentos distintos e conexos, ocorridos a partir dos anos 1960.
O primeiro desses movimentos é a reestruturação da
cafeicultura paranaense, por meio da introdução de novas exigências
técnicas e de produtividade, como, por exemplo, o adensamento dos
cafezais, o plantio em curvas de nível e o uso de insumos industriais. Por
conta dessas exigências técnicas, feitas pelos órgãos de fomento
55
, houve
fortes impactos nas bases sobre as quais se estabeleciam as relações de
produção na cafeicultura, afetando especialmente a manutenção das
culturas intercalares constituídas por lavouras temporárias como: arroz,
feijão e milho. O segundo movimento é a expansão de novas lavouras
temporárias, como a soja e o trigo, ao longo dos anos 1970.
Gráfico 5
Microrregião Homogênea de Londrina: evolução da área colhida das lavouras
temporárias, 1970 a 1980 (%).
0%
20%
40%
60%
80%
100%
1970 1975 1980
Soja Trigo Milho Outros
Fonte: Bragueto (1996, p.185)
55
Bragueto (1996, p.183) explica que com a criação do Sistema Nacional de Crédito Rural em 1965 essas
exigências passaram a condicionar o acesso aos financiamentos.
71
A expansão da soja, que paulatinamente, substituiria
56
os
cafezais e assumiria a condição de nova especialização produtiva regional
ao lado das agroindústrias, se fez em consonância com a difusão de uma
nova base técnica para a produção rural.
Entre 1970 e 1975 ocorreu um aumento de 47% no mero de
estabelecimentos que utilizam adubos químicos na região de
Londrina. O uso de defensivos também cresceu significativamente
e atingiu em 1985 a 79% dos estabelecimentos.
Em 1970 ainda era grande número de produtores que utilizavam
em seu estabelecimento apenas força humana. Apenas 51%
utilizava força animal ou mecânica em seus estabelecimentos,
sendo que havia predomínio da força animal, pois somente 14%
declararam utilizar força mecânica. A partir da década de 80 a
situação se inverte. Em 1985, mais de 76% dos estabelecimentos
utilizavam algum tipo de força nos trabalhos agrários que não a
humana, e em especial ocorre o predomínio da força mecânica em
64% dos estabelecimentos. Ou seja, sem vida a Microrregião
Geográfica de Londrina é uma das regiões do Brasil onde o
processo de generalização da tecnificação do campo se deu de
forma mais intensa e a rapidez, intensidade e tipo de tecnologia
implementada, via política agrícola, foi a principal responsável
pelas profundas transformações na estrutura fundiária e nas
relações de trabalho ocorridas na região a partir de 1970
(BRAGUETO, 1996, p. 229).
Essas reestruturações trouxeram o aumento da área média
dos estabelecimentos, a redução do número de parceiros e colonos e o
aumento do número de assalariados (bóias frias) e intensificaram as
migrações rural-urbanas
57
. Também houve mudanças no perfil dos
produtores rurais.
No período 1970-80, formou-se no Paraná, e isso vale também
para a microrregião de Londrina, uma camada de médios
produtores tecnificados formada em sua maioria de proprietários
fundiários (BRAGUETO, 1996, p.231).
Essa última mudança tem interesse especial para a
discussão sobre a economia urbana, por sua ligação com novos tipos de
consumo produtivo e com a formação de agroindústrias na região. Isso
porque, com o advento das agroindústrias, foram alterados os papéis
56
“Ou seja, fundamentalmente a substituição das lavouras permanentes pelas lavouras temporárias, lavouras
estas que foram altamente incentivadas via crédito e quase que totalmente mecanizáveis em todas as etapas do
processo produtivo, assim como pela ampliação das pastagens plantadas, de maior produtividade, em detrimento
das pastagens naturais” (BRAGUETO, 1996, p. 221).
57
Ao longo dos anos 1970, em todo Paraná, mais de 1 milhão de pessoas deixaram a zona rural. O Norte do
Paraná contribuiu com nada menos que 90% desse contingente. (IPARDES, 1983, p.12)
72
urbanos e, com eles, também a forma da divisão local de trabalho em
relação ao período da cafeicultura.
Os produtores que passaram a operar sobre a nova base
técnica promoveram a ampliação da escala de produção e o aumento da
produtividade do trabalho nas propriedades rurais. Nessas novas
condições os esquemas de comercialização próprios a cafeicultura se
tornaram inadequados. As cadeias de comercialização se estreitaram
eliminando vários elos, levando ao desaparecimento gradativo dos
diversos agentes envolvidos no processo. Isso afetou as pequenas cidades
que abrigavam maquinistas, corretores de café, caminhoneiros que
reuniam diversos lotes de café dos pequenos produtores e os
transportavam para as cidades e que também transportavam esses
produtos das cidades menores paras as maiores
58
. As indústrias
processadoras e as cooperativas passaram a desempenhar esses papéis
no caso da soja e do trigo, comprando a produção e se encarregando do
transporte.
Os personagens da trama que se desenvolve com a nova
especialização produtiva, ou seja, a produção de soja, trigo e o
crescimento das agroindústrias e cooperativas, são, portanto, cada vez
mais urbanos. Dentre os novos personagens urbanos destacamos a massa
de migrantes rurais que acorreu para cidades como Londrina ou Maringá,
intensificando nelas as atividades do circuito inferior. Destacamos também
as agroindústrias processadoras de soja, trigo e outros cereais produzidos
no Norte do Paraná e também as cooperativas de produtores rurais,
personagens que apontavam para uma nova configuração do circuito
superior da economia urbana.
58
Um aspecto desses efeitos pode ser apreciado pela redistribuição da população na região entre 1970 e 1991,
representada no “Mapa 7. áreas com ganhos e perdas de população”, neste mesmo capítulo.
73
2.1.3 – As novas especializações produtivas: agroindústrias
e cooperativas
Uma das principais alterações na inserção do Paraná e,
particularmente de Londrina, na divisão territorial do trabalho no período
técnico-científico foi a industrialização viabilizada pelas infraestruturas
produzidas, ampliadas e reorganizadas pela ação do Estado, além de
outros incentivos. Conforme apontamos, houve discrepâncias entre os
objetivos e as pretensões anunciadas pelos planejadores e a configuração
concreta da industrialização no Paraná, no âmbito do projeto paranaense
de desenvolvimento.
Embora em nível estadual a dimensão política do projeto fosse
alterar o seu papel de agrícola para industrial, o que se assistiu foi
o encaminhamento de maior integração à economia brasileira, não
pela industrialização, como fora pensada, mas por uma
agroindustrialização extremamente articulada às demandas do país
e do mercado internacional. Foram processos principiados nos
anos 1960, efetivados nos anos 1970, quando a modernização da
agropecuária foi concretizada no Paraná (FRESCA, 2004, p.173).
A industrialização do Paraná, que fora pensada inicialmente
como substituição das importações de produtos industriais de São Paulo,
transformou-se em uma economia complementar de tipo industrial, com
forte acento na modernização da agricultura e em sua integração vertical
com a agroindústria. Essa mudança de rota pode ser explicada tanto pela
interferência do regime militar quanto pela conivência das elites locais.
(AUGUSTO, 1978; RAZENTE, 2003)
No Brasil, a partir de 1967, instaura-se de forma mais
evidente a estratégia de diversificação das exportações, as quais passam
a incluir, de forma crescente, produtos manufaturados, redefinindo assim
a inserção do país na divisão internacional do trabalho. Essa nova inserção
atendia os interesses do Estado autoritário pós-1964, sobretudo em
relação à aceleração do processo de industrialização e ao enfrentamento
de seus pontos de estrangulamento. Propiciava também a contínua
abertura de oportunidades de investimento para o capital estrangeiro, que
74
reduziu sua capacidade ociosa ao participar da exportação de
manufaturados (FURTADO, 1972, p.39).
A política de diversificação das exportações possibilitou o
incremento da agroindústria
59
e a expansão das lavouras mecanizadas de
soja e trigo no Norte do Paraná, fragmentando a região
60
por meio da
constituição dessas novas especializações produtivas.
A presença de matérias primas como a soja e o leite ligados
à expansão de pastagens e de lavouras temporárias que substituirão o
café em determinadas áreas do Norte do Paraná possibilitaram a
implantação de uma série de agroindústrias. Essas empresas, as quais,
em geral, eram de grande porte, concentraram-se no chamado “eixo
Londrina–Maringá” que nada mais é do que o conjunto de municípios
situado ao longo das vias de penetração principais (ferrovia e rodovia)
projetadas pela Companhia de Terras. As empresas processadoras,
sobretudo as que lidavam com esmagamento da soja e derivados do leite,
localizaram-se preferencialmente nas cidades médias do interior do Estado
de maneira a combinar as vantagens de localização oferecidas por essas
cidades com a proximidade com áreas fornecedoras de matérias primas.
Tabela 1
Principais Agroindústrias no entorno regional de Londrina, 2007.
AGROINDÚSTRIAS LOCALIZAÇÃO
Braswey S/A Indústria e Comércio. Cambé
Comércio e Indústrias Brasileiras Coinbra S/A. Londrina
Cooperativa Central Agro-Industrial Ltda. Londrina
Big Frango Indústria e Comércio de Alimentos Ltda. Rolândia
Fonte: TABELA..., 2007
59
As agroindústrias são aquelas que processam a matéria prima de origem agropecuária e florestal e também as
que fornecem máquinas, equipamentos e insumos utilizados nas atividades rurais. Em Londrina nos anos 1970
havia uma série de agroindústrias tais como: Fábrica de óleos da CAC; unidade de esmagamento de grãos da
Anderson Clayton; Braswey; Ultrafértil, Adubos Copas; Fertiplan; Cia Cacique; Ca Marrisol, entre outras
(NAKAGAWARA, 1972)
60
A cafeicultura havia conferido certa homogeneidade à região. A soja e o trigo se desenvolveram nas áreas em
que as condições ecológicas, tais como solo e relevo compatível com mecanização, permitam alta produtividade.
Assim áreas de solos arenosos ou de relevo acidentado foram dominadas pela pecuária e por outros cultivos.
75
Conforme indicamos no início do capítulo, no período
técnico-científico, as principais transformações na economia urbana de
Londrina estiveram relacionadas à industrialização e à modernização da
agricultura. Em conseqüência desses processos as agroindústrias e
cooperativas de produtores rurais representam uma parte dos novos
conteúdos do circuito superior londrinense, evidenciando a sintonia desse
circuito com a divisão territorial do trabalho em suas diversas escalas.
Vale lembrar que, segundo Milton Santos (1979) o circuito
superior se define como um conjunto de atividades econômicas diversas
que são intensivas em capital, isto é, atividades em que o capital é o
elemento preponderante e determinante e que, além disso, possuem:
organização burocrática, acesso a crédito e à propaganda, grande volume
de negócios e, na maioria dos casos, íntima relação com o comércio
exterior. Essas características se aplicam as agroindústrias e cooperativas
de produtores rurais que se desenvolveram no Paraná nesse período. Tais
empresas contaram com forte apoio financeiro e técnico dos governos
militares
61
.
Para redefinir e racionalizar a ação das cooperativas,
evitando seu enfraquecimento por meio da concorrência, o governo
federal criou normas
62
para definir suas formas de organização e
funcionamento, adequando-as às necessidades inerentes ao processo de
modernização da agricultura. Essa forma de organização estabeleceu o
controle social e político sobre o movimento cooperativista no Brasil, à
semelhança de outras experiências na América Latina, e estabeleceu um
padrão empresarial de gestão das cooperativas, visando: a sua
rentabilidade, à profissionalização de seus gestores e à viabilização de
61
Nos anos 1960 havia diversas cooperativas de produtores de café, que no Norte do Paraná eram geralmente
comandadas por grandes produtores e lhes serviam de apoio para realizar exportações sem utilizar a
infraestrutura do IBC ou das empresas estrangeiras (CARVALHO, 1991). A maioria dessas cooperativas não
resistiu a reforma bancária de 1965 e as posteriores mudanças de moeda.
62
O principal instrumento normativo desse período foi a Lei n.º 5.764, de 16 de dezembro de 1971, que exigia
um número mínimo de 20 sócios para a constituição de uma cooperativa e sua filiação a uma entidade estadual, a
Organização Estadual de Cooperativas (OCE) e outra federal, a Organização das Cooperativas Brasileiras
(OCB).
76
todo projeto de modernização da agricultura paranaense (PAULINO, 2003,
p.165). Dessa maneira, surgiu a Organização das Cooperativas do Paraná
(OCEPAR), que passou a atuar como fomentadora da relação entre
cooperativas e produtores direcionando essas relações no sentido da
montagem de complexos agroindustriais, especialmente os complexos
relacionados à soja e ao trigo.
As cooperativas agropecuárias passaram a atuar como
empresas orientadas pelos imperativos do mercado distanciando-se dos
princípios da ajuda mútua e gestão compartilhada. Sua principal
vantagem em termos de mercado é permitir aos cooperados, sobretudo
aos produtores rurais mais capitalizados e organizados em padrões
empresariais, uma redução do número de intermediários tanto em relação
ao seu consumo produtivo, quanto ao que se refere ao armazenamento e
comercialização da produção.
A força dessas organizações se multiplicou nos anos 1970
por conta de sua atuação como intermediárias na concessão dos créditos
distribuídos pelo Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) à agricultura
voltada à exportação
63
. No Norte do Paraná, a presença de pequenos e
médios produtores de aves, leite, milho e principalmente de soja e trigo se
mostrou “solo fértil” para constituição de grandes cooperativas
agropecuárias
64
. Essas empresas tornaram-se responsáveis por receber,
armazenar, transportar e vender a produção dos cooperados, além de
viabilizar a compra dos insumos.
63
Segundo Pereira e Lugnani (1991) o volume de crédito destinado às atividades agrícolas do Paraná, abarcou
20% do total nacional. Analisando o período de 1973 a 1985 os autores demonstraram que o montante de crédito
concedido girou em torno de 70% do valor da produção agrícola do Paraná e em alguns anos o valor do crédito
ultrapassou os 70%, chegando a ser igual (100%) ao valor da produção. Concentrou-se o maior volume de
crédito em produtos ligados à balança comercial: soja e trigo, e que sustentavam a demanda de insumos
industriais e máquinas, intensificando os conteúdos de ciência e tecnologia no meio rural como é próprio do
processo de modernização.
64
Segundo Souza et.alli (2007) o Paraná possui hoje: 1 Confederação, 7 Centrais Agropecuárias, 2 Federações,
1 Central de Crédito Rural e 203 cooperativas. Quatro ramos de atividades dominam o setor. Em primeiro lugar
está a Cooperativa Agropecuária, com 60 cooperativas e 92.796 associados; em segundo, a Cooperativa de
Crédito Rural, com 30 cooperativas e 50.707 associados. As cooperativas respondem em média por 50% do
Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) no estado e 15% do PIB estadual e reúnem mais de 90 mil
cooperados a maioria proprietários de até 50 há de terra.
77
A partir de meados dos anos 1980, e principalmente nos
anos 1990
65
, algumas cooperativas se transformaram em grandes
agroindústrias produtoras de óleo de soja, farelo, rações, sucos
industrializados e derivados do leite.
65
Segundo Lugnani e Marandola (2001) em 1998 cerca de 40 cooperativas paranaenses obtiveram recursos do
Programa de Revitalização de Cooperativas de produção Agropecuária – RECOOP, que disponibilizou créditos
para custear a modernização dos parques industriais das cooperativas.
78
2.1.4 – A intensificação do processo de urbanização
Conforme nos mostra o gráfico a seguir, em Londrina, a
partir de 1970, o processo de urbanização se acelera.
Gráfico 6
Londrina: evolução das populações urbana e rural, 1960 a 2000
(n.º de pessoas)
0
50.000
100.000
150.000
200.000
250.000
300.000
350.000
400.000
450.000
1.960 1.970 1.980 1.991 2.000
Pop. Urbana Pop. Rural
Fonte: IBGE, Censos Demográficos.
O processo de substituição da cafeicultura por lavouras
temporárias mecanizadas reduziu a proporção de mão de obra rural em
toda a região. A combinação entre novas formas de cultivar o café, o
aumento do uso de insumos industriais e a redução da prática das
culturas intercalares afetaram as relações de produção na cafeicultura. Em
virtude da desestruturação das relações de produção na cafeicultura, da
redução da área plantada com café e da expansão das lavouras
temporárias mecanizadas, formou-se uma numerosa população excedente
que, desalojada dos sítios e fazendas, migrou para os centros urbanos e
para outras áreas de fronteira agrícola.
Parte do contingente de trabalhadores expulsos do meio
rural pelo processo de modernização dirigiu-se às cidades onde havia
maior concentração das forças produtivas no contexto do Norte do Paraná.
Londrina, por ser na época uma das cidades do Norte do Paraná
onde as forças produtivas estavam mais desenvolvidas, ofereceu
condições para a imediata incorporação, pelo sistema produtivo,
79
de uma parcela da força de trabalho recém-imigrada. São as
indústrias de transformação, principalmente de produtos agrícolas,
a construção civil, o comércio diversificado, os bancos, o setor
publico em geral, escolas e serviços de saúde que se constituíram
em fontes de trabalho para esses migrantes (ALVES, 1991, p.63).
A concentração do capital de fato precedeu a concentração
da população
66
. As cidades próximas a Londrina, guardadas as devidas
proporções, passaram por um processo semelhante; também tiveram sua
população urbana aumentada. Por outro lado, no mesmo período, grande
parte dos municípios do Norte do Paraná apresentou baixo crescimento
demográfico ou até mesmo perdas de população, principalmente no meio
rural.
Mapa 6
Aglomeração não-metropolitana de Londrina:
evolução da população urbana, 1960 a 1991 (n.º de pessoas)
Fonte: IBGE, Censos Demográficos
66
Para Jean Paul Gaudemar (1977) a mobilidade do trabalho designa uma disponibilidade crescente que faz
parte de um processo abrangente no qual os homens se tornam mais e mais disponíveis para utilização
compulsória de sua força de trabalho nos moldes capitalistas e o deslocamento espacial é uma face desse
processo.
80
Mapa 7
Norte do Paraná: áreas com ganhos e perdas de população, 1970 a 1991
(n.º de pessoas)
Fonte: IBGE, Censos Demográficos
Como nos mostra o Mapa 7, cidades dias do Norte do
Paraná como Londrina e Maringá tiveram os maiores ganhos de população
no período. Centenas de pequenos municípios perderam população ou
ficaram estagnados
67
.
Com a redistribuição da população forma-se uma nova
configuração regional na qual a polarização exercida por Londrina e
Maringá é reforçada com o crescimento demográfico acelerado. A
urbanização não apenas se intensificou, mas também se concentrou nas
cidades médias, que ampliaram o seu porte, diferenciando-se mais
profundamente dos outros municípios da região.
O aumento da população urbana foi acompanhado pela
predominância do trabalho em atividades urbanas e da contínua redução
da mão de obra empregada no campo.
67
“Os pequenos núcleos urbanos cujas atividades, especialmente as comerciais, visavam atender a numerosa
população rural presente no espaço regional antes da modernização da agricultura, tiveram um declínio
econômico e populacional desde então. Por outro lado, núcleos urbanos considerados centros ou capitais
regionais passaram a concentrar novas atividades e a receber parte da população vinda daqueles pequenos
núcleos urbanos.” (ENDLICH, 1999, p.901)
81
Gráfico 7
Londrina: evolução da PEA por setores de atividade, 1960 a 2000 (%).
43,5
12,3
44,2
32,0
16,5
51,5
14,0
25,0
61,0
8,4
23,4
68,1
0%
20%
40%
60%
80%
100%
1960 1970 1980 1991
ATIVIDADES TERCIÁRIAS
ATIVIDADES INDUSTRIAIS
ATIVIDADES AGROPECUÁRIAS E EXTRATIVAS
Fonte: IBGE, Censos Demográficos.
Comparando os valores no período entre 1960 e 1980
observa-se que o percentual de trabalhadores na agropecuária em 1980
se reduziu a um terço do valor de 1960, enquanto o percentual da PEA
nas atividades industriais
68
dobrou no mesmo período. Esse período
corresponde ao momento de maior expansão das lavouras temporárias
mecanizadas. As atividades terciárias que absorviam em 1960
praticamente o mesmo percentual de trabalhadores que a agropecuária
passaram a representar mais da metade dos trabalhadores do município
em 1980. As tendências de aumento do percentual de trabalhadores em
atividades terciárias e de redução dos trabalhadores em atividades
extrativas e agropecuárias se mantiveram entre 1980 e 1991. A diferença
ficou por conta das atividades industriais mais duramente afetadas pelas
crises dos anos 1980, a chamada “década perdida”.
68
Devido às diferenças na metodologia dos Censos Demográficos de 1960, 1970, 1980 e 1991 fizemos os
seguintes ajustes:
No conjunto ATIVIDADES TERCIÁRIAS” estão incluídas as seguintes atividades: o comércio de
mercadorias, prestação de serviços, transporte e comunicações, atividades sociais, administração
pública e outras atividades.
No conjunto “ATIVIDADES INDUSTRIAIS” estão incluídas as seguintes atividades: indústria de
transformação, construção civil e serviços industriais de utilidade pública ou outras atividades
industriais conforme a denominação de cada Censo.
82
Esses dados revelam que uma das bases para o pleno
desenvolvimento dos circuitos da economia urbana se consolidou: o
trabalho e os trabalhadores em Londrina tornam-se
predominantemente urbanos.
O crescimento relativo da população economicamente ativa
ligada às atividades urbanas, isto é, o aumento percentual do número de
pessoas trabalhando em atividades urbanas, se manteve sempre superior
ao crescimento relativo (aumento percentual) da população urbana no
município, em todo o período entre 1970 e 2000. A década de 1970 se
destaca como momento em que a PEA urbana teve seu maior
crescimento, quase que dobrando de tamanho em relação aos valores de
1970.
Gráfico 8
Londrina: crescimento relativo da população urbana e da PEA em atividades
urbanas, 1970 a 2000 (%).
63,4
82,3
37,4
65,1
18,2
36,5
0,0
10,0
20,0
30,0
40,0
50,0
60,0
70,0
80,0
90,0
1970 - 1980 1980 - 1991 1991 - 2000
POPULAÇÃO URBANA PEA URBANA
Fonte: IBGE, Censos Demográficos.
A velocidade de expansão das ocupações urbanas reflete
tanto o grande crescimento da população urbana, quanto a nova inserção
de Londrina na divisão territorial do trabalho, que desmantelou a divisão
local de trabalho constituída no período da cafeicultura. A cidade passa a
ser o lócus de uma produção industrial diversificada e, simultaneamente,
assume funções de intermediação mais amplas, em relação ao período da
cafeicultura, como espacial do consumo produtivo rural e do consumo
83
final da população urbana da própria cidade e municípios vizinhos.
Londrina reafirmou, assim, sua condição de cidade média no contexto da
Região Concentrada.
É preciso termos em conta não apenas o caráter relativo
desse crescimento, mas também os números absolutos, pois estes
envolvem dezenas de milhares de pessoas e trazem a efetiva ampliação
das necessidades próprias ao modo de vida urbano. Ao longo de um
período de trinta anos, entre 1970 e 2000, a PEA urbana de Londrina se
multiplicou por 4, passando de 54 mil para 224 mil pessoas. Segundo
Baudrillard (2007, p.65) “Assim como a concentração industrial origina o
aumento constante de bens, também a concentração urbana suscita a
eclosão ilimitada das necessidades”. Além de seu crescimento quantitativo
a população urbana se diferenciou em termos de estratos de renda.
Gráfico 9
Londrina: evolução dos estratos
69
de renda, 1970 a 2000 (n.º de pessoas).
0
20.000
40.000
60.000
80.000
100.000
120.000
1980 1991 2000
Até 2 salarios nimos Mais de 2 a 5 salários mínimos
Mais de 5 a 10 sarios mínimos Acima de 10 salarios nimos
Fonte: IBGE, Censos Demográficos.
O gráfico evidencia o crescimento contínuo dos estratos de
renda a partir de dois salários mínimos. Evidencia também a formação de
um contingente de pessoas com rendimentos entre dois e cinco salários
mínimos que cresceu de maneira acelerada. É importante registrarmos
também o crescimento contínuo dos que ganhavam acima de cinco
69
Trata-se do rendimento médio dos responsáveis por domicílios particulares permanentes
84
salários, o que corresponde, grosso modo, ao crescimento da classe
média.
A distribuição dos estratos no ano 2000 indicava uma cidade
em que o conjunto de pessoas com rendimentos acima de dois salários
cresceu mais do que o de pessoas que auferiam ganhos inferiores a dois
salários; estrato que declinou ligeiramente nos anos 1990, mas seguiu
sendo o mais numeroso.
O tamanho do grupo que aufere rendimentos de até dois
salários mínimos se aproxima de um contingente de 100 mil pessoas. Por
sua magnitude, esse dado pode ser considerado fundamental para a
existência dos circuitos, particularmente do circuito inferior.
De fato, nos países subdesenvolvidos, a magnitude do crescimento
demográfico urbano tem um papel relevante sobre o mercado. Se
os pobres, pela precariedade de suas rendas, têm uma demanda
menos freqüente, o seu número sempre crescente, traz consigo
um efeito de compensação. Se estivessem espalhados pelo
território ou, mesmo, subdivididos em pequenas aglomerações, os
custos de distribuição da produção do que consomem seriam muito
mais elevados. As maiores cidades reduzem esses custos para
todas as firmas e esse fato é mais relevante para as empresas
não-hegemônicas. (SANTOS, 1994, p. 103)
A coexistência de diferentes estratos de renda merece
destaque porque aponta a existência de outro elemento importante na
estruturação dos circuitos: a formação de segmentos que, em função de
seu poder aquisitivo, demandarão as atividades do circuito superior, os
que demandarão as atividades do circuito inferior e de uma classe média
que transitará entre eles.
Outro processo importante do período técnico-científico pós-
1970 em Londrina foi a expansão e diversificação do meio construído. O
meio construído reflete as desigualdades e a diferenciação entre as
classes sociais e a complexidade da economia urbana; discutiremos essa
questão a seguir.
85
2.1.5 A rápida expansão e a diversificação do meio
construído
Considerando os dados censitários, entre 1970 e 2000, a
população urbana cresceu a uma razão de aproximadamente 9.000 novos
habitantes por ano, saltando de 163.528 hab. em 1970 para 433.369 hab.
em 2000. As conseqüências na área construída da cidade não demoraram
a se fazer sentir. A área urbana construída, que era de 34,6 Km
2
em 1970,
se amplia e em 1999 atinge a marca de 114,53 km
70
, possibilitando um
forte desenvolvimento da construção civil e das atividades do mercado de
imóveis, e de todos os problemas inerentes à urbanização acelerada
(OLIVEIRA e FRESCA, 2005, p.60).
A expansão do meio construído, sua fragmentação e
diversidade são fatores importantes para o pleno desenvolvimento dos
circuitos da economia urbana. Uma concepção de meio construído
adequada à discussão dos circuitos deve levar em conta a determinação
social desse elemento urbano, particularmente a complexidade de seus
valores de uso e de troca e as conseqüências disso para a economia
urbana.
Marx insiste en que no debemos confundir el capital fijo con el
capital inamovible (los barcos y las locomotoras son capital fijo
aunque se mueven, mientras que algunos elementos del capital
circulante, como la energía hidráulica, tienen que usarse in situ).
Sin embargo, tenemos que considerar la “función especial” que
desempeña el capital fijo bajo el capitalismo en general y en la
economía de las naciones en particular. Una porción del fondo de
consumo (viviendas, parques, etc.)
Esto nos leva a la concepción de un ambiente construido que
funciona como un vasto sistema de recursos creado por los seres
humanos, que comprende valores de uso cristalizados en el paisaje
físico, que se pueden utilizar para la producción, el intercambio y
el consumo. Desde el punto de vista de la producción, estos
valores de uso pueden considerarse como precondiciones
generales de la producción y como fuerzas directas dentro de ellas.
(HARVEY, 1990, p.258)
70
Os dados sobre a área urbana construída foram obtidos da pesquisa do grupo IMAP/UEL Evolução da área
urbana construída de Londrina, 1987 a 1993.
86
Segundo Harvey (1990) sob o modo capitalista de produção
os diversos elementos que compõe o meio construído se convertem em
mercadorias, só que dotadas de propriedades muito específicas.
Considerados puramente como mercancías, los elementos del
ambiente construido exhiben ciertas características peculiares. La
inmovilidad en el espacio significa que una mercancía no puede
moverse sin que se destruya el valor cristalizado en ella. Los
elementos del ambiente construido tienen la posición o ubicación
espacial como un atributo fundamental, en vez de incidental […]
Además, la utilidad de determinados elementos depende de su
ubicación en relación con otros, las tiendas, casas, escuelas, y
fábricas deben estar razonablemente próximas entre . Toda la
cuestión del orden espacial del ambiente construido tiene que ser
considerado entonces; la decisión de dónde poner un elemento no
se puede divorciar de donde están los otros.
Entonces, el ambiente construido tiene que ser considerado como
una mercancía mixta, completa y geográficamente ordenada
(HARVEY, 1990, p.238).
Os interesses dos diversos mercados e atividades
econômicas que se formam a partir do meio construído podem entrar em
rotas de colisão ou compor alianças para benefício mútuo. O mercado
imobiliário e a construção civil, interessados no valor de troca do meio
construído, podem confrontar-se com os interesses individuais e coletivos
voltados para o seu valor de uso.
As prerrogativas dos proprietários de grandes áreas urbanas
podem colidir com o capital industrial que requer essas áreas para
implantar suas unidades de produção na cidade. Esse foi um dos fatores
que moveu a Prefeitura de Londrina a criar as áreas industriais (CILOS),
como parte da política de incentivo à industrialização.
No tocante às alianças, o mais comum é que capitais de
diferentes procedências se interessem pelos ganhos que a produção do
meio construído lhes possibilita. Em virtude de o ambiente construído, ou
meio construído como preferimos chamar, ser em parte um bem público
e, em parte, um bem particular, as ações em torno do meio construído
requerem a participação efetiva e/ou a intermediação do Estado.
No capitalismo, via de regra, cabe ao Estado fazer a
coordenação dos diversos interesses, atuando na mediação dos conflitos e
minimizando os efeitos das contradições que sejam potencialmente
87
perigosas para a estabilidade do modo de produção. A ação do Estado
também possibilita processos de valorização e desvalorização das parcelas
do meio construído. As atribuições das prefeituras, tais como estabelecer
zoneamentos, regulamentar as construções e autorizar a abertura de
loteamentos têm a capacidade de definir, por exemplo, as áreas da cidade
em que a verticalização pode ocorrer, ou a construção de um Shopping
Center, de um conjunto habitacional ou de um parque. As ações do poder
publico municipal podem alterar, portanto a composição de uma dada
área da cidade e com isso confirmar, estabelecer ou frear as tendências
de valorização e desvalorização.
A dinâmica da economia urbana londrinense, redefinida pela
urbanização acelerada e concentrada, pela industrialização e pelas
transformações na divisão territorial do trabalho, passou a requerer
ajustes em relação ao meio construído. A industrialização, principalmente,
teve grande impacto na expansão físico-territorial de Londrina por meio da
criação de áreas especificamente destinadas a essa atividade. A primeira
área industrial criada na cidade foi o Parque das Indústrias Leves (CILO I),
aprovado pela Prefeitura em 1969. Foram deslocadas para essa área
muitas indústrias antes localizadas na zona leste da cidade as quais, com
a expansão da área central, tornaram-se vizinhos indesejáveis.
No inicio dos anos 1980, o CILO I havia incorporado 63
empresas, que empregavam 1840 pessoas (RAZENTE, 1984, p.290 a
293). Essa área industrial e posteriormente a implantação de uma central
de abastecimento, o CEASA, produziram alguns efeitos na expansão de
Londrina na direção leste, aproximando-a cada vez mais de uma efetiva
conurbação com Ibiporã. Alguns conjuntos habitacionais, a exemplo do
conjunto Lindóia e do Mister Thomaz, acompanharam a tendência gerada
pela implantação do CILO I e estenderam a periferia da cidade na direção
leste.
O CILO II, com 242 mil m
2
, foi implantado a partir de 1973
e deu prosseguimento à política de transferência de empresas de outras
partes da cidade. Situado na zona oeste da cidade, na saída para o
88
município de Cambe, essa área industrial reforçou a tendência
estabelecida por algumas grandes empresas de se implantarem junto a BR
369, e proporcionou o incremento do processo de conurbação entre
Londrina e Cambe. A implantação do CILO II favoreceu o incremento da
ocupação de vários loteamentos próximos, dando origem a bairros
populosos, como Jardim Bandeirantes e o Jardim Leonor.
Essa mesma parte da cidade, a zona oeste, receberia ainda
o CILO III, onde se localiza a empresa Cacique de café Solúvel,
intensificando ainda mais expansão da cidade na direção de Cambé. No
início dos anos 1980, os CILOS II e III, abrigavam respectivamente, 15 e
22 empresas em funcionamento.
Ao sul da cidade, o CILO V, assim como as outras áreas
industriais, atuou com um extensor urbano consolidando a expansão da
cidade nessa direção juntamente com o conjunto habitacional denominado
Cafezal e vários bairros derivados de loteamentos populares: Jardim
Franciscato, Perobal, Parque das Indústrias, etc. A ocupação intensiva da
zona sul é mais recente (anos 1990) do que a expansão para as zonas
norte e oeste.
No início dos anos 2000 os quatro CILOS reuniam 80% das
269 indústrias que usufruíram das benesses da política de incentivo a
industrialização, a qual destinou mais de 2 milhões de m
2
de área urbana
para uso industrial (RAZENTE, 1984, p.299).
89
Mapa 8
Londrina: distribuição das áreas industriais – CILOS, 2008
Fonte: Prefeitura de Londrina.
Observação: o CILO IV foi construído em área que atualmente pertence ao
município de Tamarana e por isso não consta do mapa.
90
A distribuição dessas áreas na cidade foi um fator de
intensificação da segregação socioespacial, na medida em que, sua
localização em áreas periféricas reforçou a tendência de afastamento dos
segmentos de baixa renda do Centro Principal. No entorno dos CILOS,
formaram-se bairros derivados, principalmente, de loteamentos populares
e de conjuntos habitacionais. Lentamente essas áreas foram adquirindo
estrutura e se consolidando por meio de equipamentos de consumo
coletivo e, assim, nucleando futuras expansões que seguiriam o padrão de
ocupação definido pela associação entre os CILOS loteamentos
populares – conjuntos habitacionais.
Se as zonas leste, oeste e sul tiveram sua paisagem
caracterizada pela presença dessas áreas de concentração industrial
associadas a loteamentos populares e conjuntos habitacionais, a
estruturação da zona norte da cidade foi marcada pela reunião de diversos
conjuntos habitacionais que, ao longo do tempo, adquiriam identidade
própria – a região dos cinco conjuntos
71
.
A formação da zona norte foi profundamente influenciada
pela política habitacional do início dos anos 1970 que, com recursos
federais do Banco Nacional da Habitação (BNH), possibilitou à COHAB de
Londrina construir 32 conjuntos habitacionais e 11.600 unidades
residenciais entre 1970 e 1980, a maior parte deles na zona norte
(OLIVEIRA e FRESCA, 2005, p. 107). Surgiu, desse modo, uma nova
referência urbana na periferia da cidade, um novo vetor de crescimento
permitindo que a cidade absorvesse parte significativa da massa de
migrantes que acorreu a Londrina. Apenas a título de exemplo, segundo o
Censo demográfico de 1980, nada menos que 60% da população de
Londrina (183.227 hab.) era de migrantes.
Além dos conjuntos habitacionais a expansão horizontal de
Londrina foi alimentada pela produção de loteamentos lançados no
mercado pela iniciativa privada tanto para as classes médias quanto para
71
O novo setor da cidade construído a partir do ano de 1977 foi assim denominado por ser constituído de cinco
conjuntos habitacionais que são os seguintes: Ruy Virmont Carnascialli, Milton Gavetti, Parigot de Souza I e II,
João Paz e Semiramis B. Braga contendo milhares de unidades habitacionais.
91
as pessoas com menores rendimentos. Na década de 1970, foram
aprovados 96 loteamentos, boa parte deles lançados no mercado a partir
de 1975, coincidindo com a modernização da agricultura e o período de
intensa migração. (OLIVEIRA E FRESCA, 2005, P.62). As loteadoras e as
construtoras que se multiplicaram na cidade nesse período são parte
importante do circuito superior de Londrina
72
.
A partir dos anos 1980, Londrina conheceu também uma
rápida expansão vertical. Na conjuntura recessiva da cada de 1980, a
construção de edifícios se revelou um grande negócio. O processo de
verticalização parece ter se difundido pelas cidades médias do interior do
país nos anos 1980.
A evolução do crescimento da produção imobiliária vertical nos
anos de 1980, ampliando no interior do Estado de São Paulo
(Sposito, 1991a) uma forma de habitat urbano tipicamente
metropolitano, pode ser considerado o primeiro movimento
significativo na direção da realização dos interesses fundiários e
imobiliários nas cidades médias, em termos de mercado e de
mudanças das práticas socioespaciais. Do ponto de vista das
relações centro periferia, a "onda" da verticalização fez reforçar
o paradigma que orientou a expansão territorial e a estruturação
urbana das cidades médias, pois esse produto imobiliário -o
apartamento- foi vendido associado a uma localização central,
entendida aqui em seu sentido mais amplo, qual seja o das áreas
que mais próximas ao centro de comércio e serviços são as melhor
equipadas com infraestrutura, equipamentos e serviços urbanos.
(SPÓSITO, 2004, p. 131)
As características do processo de verticalização no interior
paulista descritas por Maria Encarnação B. Spósito (2004) se aplicam à
Londrina. A massa de altos edifícios construídos na cidade está
concentrada nas proximidades do Centro Principal. Essas áreas
valorizadas desfrutam de todos os equipamentos, serviços e
infraestruturas que compõem o valor de uso e de troca do meio
construído.
Mark Gottdiener (1993, p.245) afirma que a ”atividade
imobiliária reflete o papel do espaço tanto como fonte de criação quanto
de realização de mais-valia”, argumentando que os interesses em torno
72
Uma das construtoras formada a partir de capitais locais, a Plaenge, atualmente realiza operações no mercado
imobiliário de outras unidades da federação e até no exterior, construindo edifícios no Chile.
92
do meio construído crescem e se diferenciam na medida em que a
produção do espaço se constitui em possibilidade de criar riqueza nova, e
não apenas se apropriar da riqueza em circulação. Dessa forma seria útil
distinguir grandes empreendedores e incorporadores imobiliários de
construtores eventuais ou especuladores que atuam no mercado fundiário
urbano.
A abordagem de Gottdiener (1993) contribui para a
interpretação da formação de grandes grupos de investidores que
realizam grandes operações imobiliárias atuando sobre o valor de uso
complexo das parcelas do meio construído, tendência que se verifica em
Londrina.
A força dos capitais reunidos em grandes fundos de
investimento imobiliário possibilita que áreas desvalorizadas da cidade,
mas que são dotadas de boa localização”, guarnecidas com
infraestruturas e equipamentos urbanos possam, em curto período de
tempo, passar a abrigar novos usos e objetos como edifícios residências
de alto padrão associados a shopping centers, escritórios entre outros.
73
A construção e incorporação de edifícios são, portanto,
negócios lucrativos a ponto de atrair vultosos capitais. Isso é fato também
para cidades dias como Londrina. A inflação acelerada e os sucessivos
planos de estabilização dos anos 1980
74
e seus congelamentos de preços
de salários tiveram para a construção civil um impacto diferente daquele
que se verificou em outros ramos.
Mas a presença de elevadas taxas de inflação na primeira metade
dos anos 1980 criou até certo ponto, condições favoráveis para a
construção civil. Como? Tendo em vista que mês a mês alteravam-
se preços dos insumos necessários à construção do prédio, podia-
se realizar as compras antecipadamente cujos preços seriam
mantidos, mas os valores das mensalidades/prestações pagas
pelos consumidores eram corrigidos. Acrescente-se ainda a
possibilidade de aplicações no mercado financeiro o overnight
que permitia a correção do dinheiro/capital em veis elevados.
73
Uma operação desse tipo vem sendo anunciada em Londrina no âmbito do chamado Projeto Marco Zero, que
irá valorizar toda um setor muito próximo ao Centro Principal que abrigava indústrias e moradias de pessoas
pobres.
74
Apenas a título de exemplo, vale lembrar que nos anos 1980 foram criados os Plano Cruzado, Plano Bresser e
plano Verão, todos voltados para o controle da inflação.
93
Criava-se um volume de dinheiro/capital que, até certo ponto,
dava às construtoras condições favoráveis para fazer os
investimentos (OLIVEIRA e FRESCA 2005, p. 136).
Em Londrina o resultado dessa conjuntura favorável à
construção civil foi a intensa verticalização. Entre 1971 e 1996, 1334
edifícios foram construídos na cidade. Mais da metade deles (51%) era de
edifícios de apenas 4 pavimentos. Os edifícios entre 5 e 14 pavimentos
abarcaram 39% do total. O uso residencial predominou 55% dos
edifícios. O uso misto (comercial e residencial) abarcou 27% dos edifícios
construídos no período (OLIVEIRA e FRESCA, 2005 p.129 a 140).
Nos anos 1990, o processo de expansão da cidade ganhou
novos conteúdos, refletindo a complexidade da estrutura social da cidade.
Dentre esses conteúdos, estão os loteamentos fechados também
chamados de condomínios fechados. Esses empreendimentos residenciais
que se concentraram na região sudoeste da cidade, são voltados
principalmente para segmentos da população que detém alto poder
aquisitivo e para classe média alta.
Os conteúdos sociais e econômicos da periferia urbana das cidades
médias começam a se redesenhar, em meados de 1980, com as
primeiras iniciativas de implantação de loteamentos fechados
nessas cidades, mas, de fato, vão se instaurar, de forma mais
plena, no decorrer dos anos de 1990, quando aumenta o número
desses loteamentos e o de pessoas que passam a viver neles,
que essa se torna a nova forma de habitat, sucedendo a "onda" da
verticalização e se constituindo num fenômeno associado aos
segmentos de alto e médio poder aquisitivo, a exemplo do que
havia se iniciado, em diferentes cidades latino-americanas, a partir
dos anos de 1960 (SPÓSITO, 2004, p. 131).
Como pudemos ver, a partir dos anos 1970, Londrina passa
por um contínuo processo de expansão físico-territorial no qual se
combinaram a intensa verticalização e a expansão horizontal, os quais,
por sua vez, realimentaram o processo de ampliação da área urbana.
94
2.2 Os circuitos da economia urbana em Londrina no
período técnico-científico.
A premissa básica da teoria dos circuitos da economia
urbana é que estes são produto de sucessivos processos de modernização
(SANTOS, 1979, p.25). As manifestações das modernizações não são as
mesmas em todos os lugares. A cidade de Londrina e parte da região
Norte do Paraná foram constituídas no contexto de um amplo e complexo
processo de modernização que produziu um arranjo espacial regional e
uma divisão de trabalho muito particulares (como vimos no capítulo 1).
A cafeicultura paranaense, inserida na dinâmica da
industrialização tardia em um país subdesenvolvido, propiciou uma
intensa acumulação e concentração de riquezas e recursos em Londrina.
No contexto dessa primeira modernização o berço da economia urbana
era o meio rural.
A partir dos anos 1970, sobre as modernizações anteriores
incidem outras modernizações e formas de repartir o trabalho, com suas
técnicas e necessidades próprias. Constituídas no período da cafeicultura,
entre as décadas de 1940 e 1960, a cidade e sua economia urbana
incorporaram, a partir dos anos 1970, novas bases e novos conteúdos.
Até esta parte do trabalho procuramos discutir a constituição dessas bases
a partir das modernizações que se sucederam em Londrina.
Cabe agora analisar os conteúdos, isto é, os circuitos
propriamente ditos. Para tanto, analisaremos a estruturação dos circuitos
em relação a duas variáveis: a produção e o consumo em Londrina.
95
2.2.1 – Circuitos e produção
As modernizações do período técnico-científico pós-1970
redefiniram a produção em Londrina e no seu entorno regional. Como
discutimos, as novas especializações produtivas trouxeram para economia
urbana londrinense as agroindústrias, as cooperativas e outras
manifestações da divisão de trabalho hegemônica
75
. A nova divisão do
trabalho, associada às transformações no meio construído e à urbanização
intensa e concentrada, criaram as bases para o desenvolvimento dos
circuitos em Londrina, especialmente de um robusto circuito superior que
passou a ser composto também pelas agroindústrias e cooperativas.
Analisando a industrialização de Londrina e municípios
vizinhos a partir da composição do valor adicionado, Cláudio R. Bragueto
(2007) identifica os ramos mais importantes nos anos 1970.
Os ramos mais importantes são aqueles que se vinculam ao setor
agropecuário, em que a modernização da agricultura propiciou a
instalação na região de grandes grupos agroindustriais. Dessa
forma, a indústria de produtos alimentares, têxtil e química, que
em 1975 geravam 77,8% do valor adicionado da indústria do
Aglomerado Urbano-Industrial de Londrina, em 1985 ampliaram a
participação para 84% (BRAGUETO, 2007, p.98)
No contexto das atividades industriais, além das
agroindústrias, as principais manifestações da produção no interior da
trama dos circuitos da economia urbana de Londrina foram as indústrias
produtoras de bens de consumo não duráveis (alimentos e vestuário) e a
construção civil. Nesses ramos, existem diferentes divisões do trabalho.
Com as transformações da cafeicultura a partir de meados
dos anos 1960 vários capitais aplicados naquela atividade foram
deslocados para outras atividades como a especulação imobiliária, a
construção civil, o comércio e a indústria. O número e a diversidade
desses capitais se expressa nos gêneros industriais que foram se
configurando e expandindo em Londrina.
75
A título de ilustração vale lembrar a criação de duas instituições de pesquisa em Londrina: o Instituto
Agronômico de Paraná (IAPAR) em 1972 e a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias especializada na
pesquisa da soja (EMBRAPA_soja) em 1976.
96
Gráfico 10
Londrina: número de estabelecimentos da indústria de transformação, 1960 a
1985
0
100
200
300
400
500
600
700
1960 1970 1975 1980 1985
Estabelecimentos
Fonte: IBGE, Censos Econômicos.
Gráfico 11
Londrina: pessoal ocupado na indústria de transformação, 1960 a 1985
(n.º de pessoas)
0
2.000
4.000
6.000
8.000
10.000
12.000
14.000
16.000
1960 1970 1975 1980 1985
Pessoal Ocupado
Pessoal Ocupado
Fonte: IBGE, Censos Econômicos.
Os novos estabelecimentos, alguns de grande porte,
redefinem o uso do solo e a distribuição dos fluxos no interior da cidade.
Novas formas de intermediação
76
ligadas á produção industrial reforçam a
centralidade adquirida por Londrina no período da cafeicultura. Com o
76
Um exemplo é a compra de maquinário e insumos em São Paulo e a ampliação de mercado que as indústrias
em Londrina realizam ao vender produtos paras regiões de avanço da fronteira agrícola como o Mato Grosso do
Sul e também o oeste do Paraná a partir dos anos 1970 (NAKAGAWARA, 1972)
97
aumento do pessoal ocupado na indústria as relações de trabalho
assentadas no assalariamento foram se tornando predominantes.
Nakagawara (1972, p.107) analisando a expansão das
indústrias em Londrina, afirma que, a partir dos anos 1960, verificou-se a
presença de grandes indústrias cujos produtos alcançavam o mercado
nacional e internacional, como a Companhia Cacique
77
de Café Solúvel, a
Londrifarma do ramo farmacêutico, a Herbitécnica e a Fertiplan que
produziam insumos agropecuários, e a cofres Barão. Nos anos 1970 e
1980, outras empresas locais também prosperaram como Indúsfrio que
fabrica equipamentos de refrigeração e a Indrel que fabrica equipamentos
para laboratórios e hospitais. No entanto, essa não é a única manifestação
da divisão de trabalho na industrialização de Londrina.
Outra pesquisadora que se interessou pela expansão da
atividade industrial em Londrina é Ana Maria Chiarotti Almeida (1980,
p.43). A autora mostra, em termos quantitativos, a predominância das
empresas de pequeno porte na indústria de transformação. Mais da
metade das empresas existentes no início dos anos 1970, isto é, 56%
delas, empregavam até 10 pessoas. Outros 30% empregavam de 10 a 50
pessoas, dessa forma, 86% das indústrias eram micro ou pequenas
empresa (ALMEIDA, 1980, p. 44).
Ana Cleide C. Cesário (1978) que estudou as indústrias
implantadas no CILO 1 (Parque das Indústrias Leves), confirma a
predominância das micro e pequenas empresas naquela área industrial.
Sobre a organização interna dessas empresas, esclarece:
77
A Cia cacique foi fundada no final do ano de 1959 por Horacio Sabino Coimbra e outros sócios. O Sr.
Coimbra era também sócio do Banco Nacional do Paraná e Santa Catarina juntamente com Aderbal Ramos da
Silva, deputado federal e político muito influente em Santa Catarina e presidente da Casa Bancária Hoepcke.
Segundo o professor Evaldo Pauli A firma Hoepcke fora representante de diversos bancos de outras praças,
mesmo estrangeiras, desde os tempos da Província. Tais eram Banco Alemão Transatlântico (Rio de Janeiro),
Banco Germânico; Bank of London and South America Ltd (Rio de Janeiro). Criada a Casa Bancária Hoepcke
Ltda., esta transformou-se, em 1952, no Banco Nacional do Paraná e Santa Catarina, sede em Londrina (PR),
com a participação também de outros grupos financeiros, e capital de 200 milhões de cruzeiros.” Vale ressaltar
a precoce presença de capital financeiro de origem regional, formado pela aliança com capital bancário
estrangeiro no período em que as economias regionais mantinham vínculos fortes com as economias de
capitalismo maduro por meio das exportações de gêneros agrícolas e matérias primas.
98
Como vimos o, pequeno empresário se movimenta dentro de um
quadro do qual temos algumas características. Dirige empresas
com baixo índice de burocratização, com características familiares,
com número reduzido de empregados numa estrutura hierárquica
notadamente simples (CESÁRIO, 1978, p.84).
As empresas analisadas por Cesário (1978) vendiam seus
produtos no mercado regional, realizavam poucas inovações e, apenas
algumas empresas maiores, faziam algum tipo de propaganda de suas
atividades. Essas características estariam em sintonia com as formas de
participação das empresas no mercado.
Pelo fato de as empresas pertencerem a um processo industrial
novo o londrinense voltadas paras áreas menos dinâmicas da
produção industrial, cobrindo setores de consumo não atendidos
pela indústria mais desenvolvida, parece-nos ser este tipo de
organização consentâneo em relação ao processo como um todo
(CESÀRIO, 1978, p.79).
Essas análises revelam o circuito inferior e o circuito
superior marginal no contexto da industrialização de Londrina. As
empresas instaladas no Parque das Indústrias Leves CILO 1
apresentam praticamente todas as características de empresas do circuito
inferior, até mesmo a mão de obra empregada era composta
predominantemente de migrantes recém chegados da zona rural, com
pouca ou nenhuma qualificação (CESARIO, 1978, p. 82). Em síntese a
modernização da economia urbana de Londrina pela via da
industrialização criou as condições para o desenvolvimento e a
articulação dos circuitos em Londrina.
99
2.2.2 – Circuitos e consumo
No que tange aos circuitos da economia urbana, vale
ressaltarmos que o consumo e a circulação, considerando a importância
que guardam para a reprodução ampliada do capital e da sociedade como
um todo, respondem por parte significativa das atividades e do trabalho
urbano.
O tema do consumo remete, via de regra, às discussões
sobre a formação da sociedade de consumo de massa nos países do
Primeiro Mundo como um dos pontos nevrálgicos da reestruturação
capitalista após a grande crise de 1929. Em seus aspectos básicos, a
constituição das sociedades de consumo é parte do advento do
Capitalismo Monopolista
78
. Também a urbanização intensiva tem papel
decisivo nesse processo. No período pós-guerra, a disseminação do
consumo de massa nos países desenvolvidos se fez de forma entrelaçada
ao planejamento estatal e à internacionalização da economia capitalista
por meio da expansão da empresas multinacionais.
Uma vez consolidada, a sociedade de consumo, ir
siamesa do consumo de massa, impôs novos comportamentos em relação
à posse e ao uso dos bens. Na sociedade dos produtores” a durabilidade
e as possibilidades de recuperação eram propriedades valorizadas dos
bens de consumo (BAUMAN, 2008, p.44). Numa sociedade em que o
consumo se encontra ligado à noção do efêmero a lógica própria à
sociedade dos produtores foi subvertida. As famílias que, em meio à
massificação do consumo, tornaram-se unidades de consumo passaram a
ser submetidas à exposição permanente de técnicas de persuasão social
como a propaganda
79
.
78
O advento do consumo de massa não seria possível sem as tecnologias oriundas da Segunda Revolução
industrial e as transformações que provocaram nos transportes e nas comunicações.
79
Esse é o sentido principal do conceito de indústria cultural segundo Theodor Adorno e Max Horkheimer:
“O cinema, o rádio e as revistas constituem um sistema. Cada setor é coerente em si mesmo e todos o são em
conjunto. [...] Os interessados inclinam-se a dar uma explicação tecnológica da indústria cultural. O fato de que
milhões de pessoas participam dessa indústria imporia métodos de reprodução que, por sua vez, tornam
inevitável a disseminação de bens padronizados para a satisfação de necessidades iguais. O contraste técnico
entre poucos centros de produção e uma recepção dispersa condicionaria a organização e o planejamento pela
direção. Os padrões teriam resultado originalmente das necessidades dos consumidores: eis por que são aceitos
100
A difusão da sociedade de consumo de massa para os países
do Terceiro Mundo se fez por meio de processos de modernização
incompletos (SANTOS, 2005). Essa difusão desencadeou ciclos de intenso
crescimento econômico e transformação de hábitos e valores cotidianos,
mas não internalizou nos países subdesenvolvidos a correspondente
melhora e universalização nas formas de atendimento as necessidades de
saúde, educação, habitação, transporte coletivo, entre outras. Mas,
principalmente, o trouxe para a maioria dos trabalhadores ganhos
salariais compatíveis com os novos patamares de produtividade
alcançados pelo trabalho.
No Brasil a forte concentração da renda e a difusão limitada
do consumo às classes médias são aspectos característicos da
modernização incompleta por meio da qual se implantaram no país certos
elementos de uma sociedade de consumo de massa nos anos 1970.
A modernização dos consumos se manifestou em Londrina
através de uma intensa sofisticação dos serviços e das atividades
comerciais, incluindo as empresas que vendem máquinas e equipamentos
para as novas especializações produtivas de Londrina e região. Essa
sofisticação reflete uma primeira fase de intensificação do consumo que
fica mais ou menos restrita às classes médias.
As transformações da base produtiva regional e do arranjo
espacial com a urbanização concentrada trouxeram à tona as
necessidades inerentes às novas formas de consumo produtivo. As
estratégias das empresas comerciais frente às novas necessidades
reforçaram a tendência de concentração nas maiores cidades do Paraná,
dos ramos comerciais que vendiam máquinas, aparelhos e equipamentos
sem resistência. De fato, o que o explica é o círculo de manipulação e da necessidade retroativa, no qual a
unidade do sistema se torna cada vez mais coesa. O que não se diz é que o terreno no qual a técnica conquista
seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade. A
racionalidade técnica é hoje a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade
alienada de si mesma. Os automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o todo e chega o momento em que
seu elemento nivelador mostra na própria injustiça à qual servia. Por enquanto, a técnica da indústria cultural
levou apenas à padronização e á produção em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a lógica da obra e
a do sistema social. Isso, porém, não deve ser atribuído a nenhuma lei evolutiva da técnica enquanto tal, mas á
sua função na economia atual” (ADORNO, HORKHEIMER, 1985, p. 114)
101
agrícolas, industriais, comerciais e de uso técnico e profissional. Nos anos
1980, as cidades com mais de 100 mil hab. reuniam mais de 40%
estabelecimentos varejistas e 83% dos estabelecimentos atacadistas
desses ramos comerciais (IPARDES, 1983).
Em Londrina a presença de empresas que comercializam
máquinas e equipamentos agrícolas pode ser notada a partir de meados
dos anos 1970 acompanhando a expansão da soja e do trigo na região. Há
pelo menos oito empresas diferentes que vendem tratores, máquinas e
implementos agrícolas que atuam na cidade desde os anos 1980
80
.
Do ponto de vista das empresas que atendem ao consumo
cotidiano dos habitantes, as transformações são marcantes. Diversas
redes comerciais vêem juntar-se às Casas Pernambucanas, instalando-se
na cidade no período pós-1970
81
: Casas Buri, Lojas Americanas, Hermes
Macedo, Riachuelo, Lojas Arapuã, Armarinhos Paulista, A Exposição. Lojas
tradicionais” de Londrina como as casas Fuganti e Viscardi, passaram a
se organizar como supermercados, forma moderna de organização do
comércio varejista que se multiplicou na cidade. A rede Peg Pag, uma das
pioneiras no sistema de autoserviço no Brasil, implantou-se no Shopping
Com-Tour, inaugurado em 1973 (PINTAUDI, 1987, p.44).
O próprio Shopping Com-Tour que tinha como lojas mais
importantes o supermercado Peg Pag
82
e as Lojas Brasileiras, era uma
inovação importante no circuito superior da cidade. Constituía um
empreendimento imobiliário capaz de influir na estruturação urbana,
definindo o conteúdo de vetores de ocupação e/ou de edificação do meio
construído. Pintaudi (1987, p.32) indica que, até o final dos anos 1970, os
shopping centers do país estavam concentrados em apenas cinco cidades:
São Paulo, Salvador, Belo Horizonte, Brasília e Londrina. Como se pode
80
Com base na pesquisa de Ronqui (1990, p.46) sobre a comercialização de máquinas agrícolas em Londrina
verificamos pela lista telefônica e internet quais empresas elencadas pela autora ainda comercializam esses
equipamentos na cidade atualmente. Encontramos oito empresas, são elas: Nortrac Bavária; Transparaná,
Mayrink Goes; Paranámotor, Cacol, Giamack, Agril e Máquinas Pereira.
81
Conforme a publicação da Prefeitura de Londrina “Dados estatísticos de Londrina, 1974. Londrina: Secretaria
de Planejamento, 1974. (31 p.)
82
O supermercado Peg Pag vindo de São Paulo seria adquirido pelo Grupo Pão de Açúcar no final dos anos
1970 e passaria se chamar supermercado Jumbo.
102
notar, Londrina era a única cidade em que havia um shopping e que não
era uma capital.
A tendência do comportamento espacial de supermercados e
shopping centers de convergirem para um mesmo local se reforçou nos
últimos anos. As questões de status, a possibilidade de encontrar diversos
produtos e lojas em um lugar, o estacionamento e outras facilidades
contribuíram para a junção espacial dos empreendimentos, reduzindo
custos e reforçando a atratividade.
A importância atual dos supermercados é assinalada por
Santos e Silveira (2001, p.150) no trecho que segue:
Os supermercados são, hoje, elos fundamentais nas cadeias de
distribuição e produção, pois participam das diversas instâncias,
criando marcas, agindo como oligopsônios em algumas produções,
modificando calendários de pagamentos e comandando assim uma
importante parcela do comércio varejista. O mero de
supermercados cresceu 7,8 vezes entre 1966 e 1976 (997 lojas e
7.800 lojas, respectivamente). Em 1998 eram 51.500
supermercados mostrando em 22 anos um crescimento de 6,8
vezes. Hoje eles respondem por 85% do abastecimento nacional
de produtos de grande consumo e por 655 mil empregos.
O número de supermercados em Londrina, entre 1974 e
1993, cresceu mais de 300%, passando de 15 para 65 estabelecimentos
83
(LINARDI, 1995, p.66). Esse crescimento resultou da incorporação à
economia urbana de diversos pequenos supermercados, evidenciando
assim a convivência de capitais mercantis de diferentes expressões
também nas atividades ligadas ao consumo. Concomitantemente, também
foram implantados alguns hipermercados em Londrina, acentuando a
segmentação da economia urbana. É o caso dos hipermercados do Grupo
Muffato, de Cascavel, em 1975, e da rede Condor, no início dos anos 1980
(SILVA, 2006, p.91 e BLUM, 2006, p.78).
Nos anos 1990, na esteira dos supermercados locais e das
redes nacionais, ocorreu a implantação de um estabelecimento da rede
multinacional francesa Carrefour dentro do recém-inaugurado Shopping
83
Os dados apresentados por Maria Cecília Nogueira Linardi (1995) referem-se a tabela 4 de sua tese de
doutorado e foram obtidos em levantamento feito pela autora com base nas listas telefônicas do município.
103
Catuaí. Mais uma vez, hipermercados e shopping center convergiram para
uma mesma localização na cidade, especializando funcionalmente certos
pontos do meio construído.
William Ribeiro da Silva (2006) que estudou a centralidade e
a estruturação urbana em Londrina e Maringá afirma que em Londrina:
Considerando as duas lógicas urbanas analisadas, just in time e
sobrevivência, são absolutamente imbricadas numa relação que
compõe a totalidade, pois, temos, no aumento da complexidade da
estruturação urbana, uma ampliação significativa das contradições
do modo de produção, acirrando as diferenças que passam a se
expressarem por meio de novas centralidades. (SILVA, 2006,
p.239)
Identificamos o que Ribeiro da Silva (2006) denomina como
lógica do just in time e lógica da sobrevivência com os circuitos superior e
o inferior respectivamente. O sistemas de ação do circuito superior
obedecem aos imperativos do just in time, sinônimo de fluidez territorial e
de tempos rápidos, próprios ao processo de globalização (SANTOS, 2004).
No circuito inferior predominam os tempos lentos, as formas de ação
baseadas nos recursos locais, especialmente o meio construído e a
presença numerosa dos pobres. Contudo, é o entrelaçamento dos circuitos
que faz com que a totalidade do meio construído, isto é, toda a cidade,
seja espaço da economia urbana. Esse argumento é decisivo, pois dessa
forma, o meio construído, em sua diversidade, torna-se capaz de revelar
os circuitos, particularmente o circuito inferior
84
.
De forma semelhante ao que ocorrera no comércio, houve a
ampliação quantitativa e qualitativa de diversos serviços, com destaque
para os setores de saúde e educação. José Arthur Rios (1980) pesquisador
do IBGE que auxiliou a elaboração do planejamento urbano na cidade nos
anos 1980, observou a sofisticação dos serviços que acompanharam os
bairros onde residiam segmentos da classe média e outros ainda mais
abastados.
Outro fator importante foi a diversificação do comércio e o
aparecimento de atividades terciárias destinadas a servir à classe
84
Essa discussão também se aproxima daquela elaborada por Roberto Lobato Correa (1995) acerca da
articulação e fragmentação que caracterizam o espaço urbano.
104
média emergente: institutos de beleza, ginástica, terapia de várias
naturezas, escritórios, clínicas, boutiques, ao lado de mansões.
Essa invasão terciária é nítida na Avenida Higienópolis[...] (RIOS,
1980, p. 10).
Em meados dos anos 1980, a publicação Perfil do Município,
da Secretaria Municipal de Planejamento de Londrina, descrevia os
serviços de saúde e educação do município da seguinte forma:
Londrina é um pólo regional de bens e serviços, destacando-se
por seu atendimento médico (12 hospitais com 1508 leitos
1986), educacional (282 escolas, incluindo 6 de 3.º grau com
87.958 alunos na educação regular 1987), sistema de
transportes, comunicações e infraestrutura. (LONDRINA, 1986,
p.17)
Maria Cecília N. Linardi (1995, p.67) e José Humberto
Tavares (2001, 147) que estudaram aspectos gerais da atividade de
serviços em Londrina, ressaltam a importância dos autônomos e sua
divisão entre os que possuíam formação superior, os que apresentavam
qualificação de nível médio e os que detinham pouca ou nenhuma
qualificação. Mais uma vez a segmentação é registrada. O último grupo,
mais numeroso, abrangia 74% dos 25 mil autônomos registrados na
prefeitura em 1998, segundo Tavares (2001). Os de nível médio
representavam 14% e os que detinham formação superior, somavam 11%
do total. Para Linardi (1995), os números relativos ao pessoal com
formação de nível médio e superior, refletiam a necessidade de mão-de-
obra com certo grau de especialização.
Linardi (1995) apontou o crescimento das atividades de
serviços ligadas às finanças e às necessidades técnicas e burocráticas das
empresas
85
.
85
O gráfico 12 revela a crescente participação das atividades de serviços na economia urbana londrinense a
partir dos anos 1980, indicando inclusive o inicio do processo de difusão das novas técnicas inerentes ao meio
técnico científico informacional, como as empresas de processamento de dados e lojas para artigos de
informática.
105
Gráfico 12
Londrina: atividades de serviços selecionadas, 1974 a 1993
0
50
100
150
200
1974 1984 1993
Lojas de Artigos para Informática
Financeiras
Empresas de Processamento de Dados
Ancias de Propaganda e Publicidade
Seguros Gerais
Agencias Bancárias
Escritórios de Contabilidade
Fonte: Maria Cecília Linardi (1995, p.69)
Em paralelo à ampliação e sofisticação das atividades
ligadas ao consumo ocorreu a contínua ampliação do meio construído,
que, nas áreas periféricas abrigava o pequeno comércio, os serviços
pessoais, enfim o terciário banal. Essas atividades dispersas pela cidade,
presentes também na área central, são muito mais difíceis de analisar, de
revelar suas minúcias e desvelar seus processos e, como demonstrou
William Ribeiro da Silva (2006), também produzem centralidade e
participam do processo de estruturação e reestruturação da cidade
86
(SPÓSITO, 2007).
A expansão do meio construído é simultaneamente a
possibilidade de segmentação das atividades de consumo. À diversidade
do meio construído acaba por corresponder à diversidade que caracteriza
as atividades de consumo dos circuitos. Em Londrina, no período técnico-
86
Segundo Maria E. Beltrão Spósito (2007) é preciso atentar para a diferença entre reestruturação urbana e
reestruturação da cidade:
“Tenho chamado de estruturação ou reestruturação urbana as dinâmicas e processos atinentes aos espaços
regionais e/ou ocorridos no âmbito das redes urbanas; como estruturação ou reestruturação da cidade,
compreendo dinâmicas e processos que ocorrem na escala intra-urbana. Assim, procuro articular duas escalas
geográficas, distinguindo-as, mas objetivando considerar as múltiplas determinações que entre elas se
estabelecem.”
106
científico pós-1970, a formação de centros de bairros é o registro mais fiel
da segmentação das atividades de consumo no contexto da economia
urbana. Descrevendo a zona norte de Londrina, William R. da Silva (2002,
p. 122) diz o seguinte:
De inicio, por se tratar de uma área popular, portanto, de
moradores que possuem uma menor mobilidade devido as
dificuldades de transporte, os estabelecimentos comerciais e
prestadores de serviços que foram se instalando, eram de
propriedade dos moradores locais, que os abriam nas frentes de
suas casas, buscando abastecer a população com produtos de
primeira necessidade, principalmente, alimentos.
Ao longo do período, principalmente a Avenida Saul Elkind,
tornou-se o núcleo a partir do qual se formou o primeiro subcentro de
Londrina (SILVA, 2002). As dinâmicas do meio construído e dos circuitos
se misturam. A formação do subcentro na zona norte, que se iniciou com
atividades do circuito inferior ligado ao consumo, foi paulatinamente
alterada pela valorização que o próprio circuito inferior, juntamente com a
melhoria dos equipamentos públicos e infraestruturas, ajudou a
consolidar: “Porém, na medida que houve a implantação de infraestrutura,
a área foi sendo valorizada, e houve a instalação de filiais dos
estabelecimentos do Centro Principal de Londrina” (SILVA, 2002, p122).
O desenvolvimento da zona norte de Londrina é
emblemático das relações entre a estruturação da cidade e a dinâmica do
período técnico-cientifico pós-1970, no qual a intervenção do Estado nas
questões fundamentais da habitação, do transporte e da urbanização em
geral, associada à expansão do emprego e de relações salariais, foram
essenciais para a integração ao modo de vida urbana, de milhares de
migrantes rurais expulsos pela modernização do campo.
O circuito inferior e o circuito superior se aproximaram na
zona norte de Londrina compondo o subcentro nucleado na Avenida Saul
Elkind. Coexistem naquela parte da cidade atualmente um camelódromo,
um hipermercado do Grupo Mufatto, lojas de redes comerciais instaladas
no Centro Principal da cidade e nos shopping centers, agências bancárias
107
e uma grande variedade de estabelecimentos comerciais e de serviços
populares.
Aos domingos uma enorme feira invade essa que é a
principal Avenida da zona norte. Nessa feira, misturam-se a venda de
gêneros alimentícios pelos próprios produtores rurais, feirantes
tradicionais que adquirem suas mercadorias no Ceasa e uma infinidade de
barracas que vendem produtos eletrônicos, DVD de filmes e Shows,
artesanato e diversas outras coisas.
Os circuitos da economia urbana convivem e se reforçam
entrelaçados pela contigüidade que o meio construído lhes impõe. Isso
ocorre com intensidade na zona norte. Dificilmente esse nível de interação
seria possível em outra parte de Londrina. Os conjuntos habitacionais, a
difusão das infraestruturas, a presença de uma numerosa população
pobre, definem os contornos dessa convivência. Essa situação particular
resultou da dinâmica própria da primeira fase de expansão do meio
técnico-cientifico em Londrina, mas atualmente o quadro é outro.
Nos anos 1990 a ruptura provocada pelas crises, pelo
projeto neoliberal e pela intensificação do processo de globalização trouxe
importantes transformações para a dinâmica da economia urbana
londrinense. Os circuitos superior, inferior e superior marginal serão
redefinidos e reestruturados com o advento do período atual.
108
CAPÍTULO 3
O período atual e as transformações na dinâmica dos
circuitos
3.1 – Uma breve caracterização do período atual
O período atual se caracteriza pela expansão do meio-
técnico científico-informacional e pelas transformações na divisão social e
territorial do trabalho em suas diversas escalas. As variáveis que
contribuem para completar essa caracterização são, entre outras, as
seguintes: a relação estreita entre ciência e técnica, a informação, as
finanças, a diversificação e intensificação dos consumos, o entrelaçamento
das redes em termos organizacionais e técnicos, o desemprego crônico,
uma nova forma de produzir a pobreza e o empobrecimento relativo, as
formas da cooperação/competição entre empresas, as relações entre
mercado e Estado
87
.
Nos anos 1990, uma segunda fase de difusão do meio
técnico científico-informacional aumentou a densidade técnica do meio
construído em Londrina (SANTOS, 2004). Como resultado dessa expansão
a economia urbana londrinense incorporou-se às correntes da
globalização.
A ciência, a tecnologia e a informação estão na base mesma de
todas as formas de utilização e funcionamento do espaço, da
mesma forma que participam da criação de novos processos vitais
e da produção de novas espécies (animais e vegetais). É, também,
a informatização, ou antes, a informacionalização do espaço. A
informação tanto está presente nas coisas como é necessária à
ação realizada sobre essas coisas. Os espaços assim requalificados
atendem sobretudo aos interesses dos atores hegemônicos da
economia e da sociedade, e assim são incorporados plenamente as
correntes da globalização (SANTOS,2005, p.148)
87
Segundo Silveira (2005, p.192) “As bases normativas da moderna divisão do trabalho renovam as relações
entre Estado e mercado, aproximando o pêndulo mais de uma cooperação e menos de uma disputa. Desenham-
se pontos e áreas propícios à ação de uma firma global que, agindo de forma independente ou amiúde em
parceria com oligopólios nacionais, metamorfoseia os imperativos da sua micro economia em políticas
macroeconômicas da nação [...]”
109
Para analisar as transformações da economia urbana no
período atual, é preciso, mais uma vez, levar em conta a dinâmica do
território e a caracterização de Londrina como uma importante cidade
média da Região Concentrada.
Os novos papéis de intermediação que as cidades acolhem
com o processo de globalização
88
e com a expansão do meio técnico-
científico-informacional são de fundamental importância para a
estruturação e reestruturação dos circuitos.
Em Londrina, os diferentes tipos de fluxos, como, por
exemplo, os fluxos que têm como suporte redes de alta tecnologia e os
fluxos de pessoas e mercadorias que se realizam a partir de trabalho
extenuante de trabalhadores com moto, remetem a diferentes atores,
diferentes possibilidades de ação e a divisões de trabalho que se
encontram e se sobrepõem.
As combinações entre esses fluxos distintos atuam como
modernizações que estruturam e reestruturam os circuitos da economia
urbana, criando novas atividades modernas e atividades novas, mas que
não são modernas. Tais atividades se entrelaçam no cotidiano da cidade.
Um motoboy contratado como terceirizado junto a uma empresa de
entregas urbanas complementa o trabalho e aumenta a produtividade de
uma empresa que produz softwares para clientes no exterior.
Empregamos o termo reestruturação no sentido da criação
de novas atividades e/ou a extinção de alguma atividade, redefinindo
assim os contornos de cada circuito, o que resulta em ampliação das
atividades que integram cada circuito. Também as mudanças de conteúdo
com a incorporação de novos objetos e ações às atividades que
existiam, podem ser consideradas no contexto da reestruturação dos
circuitos da economia urbana.
88
Segundo Spósito et..alli (2007a, p.40) “Assim, é provável que, paralelamente à manutenção dos papéis
regionais das cidades médias,de elos entre as cidades maiores e menores, a partir de fluxos de natureza
hierárquica, tenham se estabelecido novos papéis, desenhados por fluxos de outros tipos, orientados por
dinâmicas de complementaridade ou de concorrência entre cidades da mesma rede ou de redes urbanas
diferentes.”
110
A proposição dessas noções remete às formulações de
Edward Soja (1993).
A reestruturação, em seu sentido mais amplo, transmite a noção
de uma “freada”, senão de uma ruptura nas tendências seculares,
e de uma mudança em direção a uma ordem e uma configuração
significativamente diferentes da vida social, econômica e política.
Evoca, pois, uma combinação seqüencial de desmoronamento e
reconstrução, de desconstrução e tentativa de reconstituição,
provenientes de algumas deficiências e perturbações nos sistemas
de pensamento e de ação aceitos. A antiga ordem está
suficientemente esgarçada para impedir os remendos adaptativos
e convencionais e exigir, em vez deles, uma expressiva mudança
estrutural (SOJA, 1993, p.193 e 194)
A concepção de Edward Soja (1993) refere-se a uma escala
que abarca sociedade como um todo e a períodos históricos mais longos.
O que pretendemos, nesse caso, é apenas fazer uma aproximação entre a
concepção de reestruturação proposta por Edward Soja (1993) com a
noção de reestruturação dos circuitos, adequando as escalas à reflexão
sobre o fenômeno dos dois circuitos na contemporaneidade.
Interessam-nos, particularmente, as indicações de Edward
Soja (1993) quanto ao sentido de mudança em direção a uma ordem e
uma configuração significativamente diferentes da vida social” como
conteúdos dos processos seqüenciais de desmoronamento e reconstrução
decorrentes de perturbações na ordem vigente que estão implícitos no
conceito de reestruturação. Interessam-nos menos o sentido de freada e
ruptura a que o autor parece condicionar os processos de mudança social.
A intenção é refletir sobre as conexões e relações concretas
entre as reestruturações na divisão do trabalho e na rede urbana com as
reestruturações nos circuitos. O ponto de onde parte o olhar que constrói
a análise é o interior da cidade, é o meio urbano.
111
3.2 A expansão do meio técnico-científico-
informacional e a contextualização de Londrina como
cidade média
O aumento da fluidez territorial criou as bases para que
novos usos do território se instalassem e se difundissem para além das
grandes metrópoles, produzindo transformações importantes nas cidades
médias brasileiras. Silveira (2004a, p.3) afirma que:
[...] la intensa urbanización, la reorganización del Estado y de la
economía, la monetarización de la economía y de la sociedad que
se va completando, los agregados de ciencia y técnica e
información a la vida social y al territorio, y la diversificación y
profundización de los consumos son datos nuevos del período, que
alteran la naturaleza del espacio em que los circuitos de la
economia urbana se desarollan. Hoy, las metrópolis surgen como
la sede de comandos vinculados a actividades modernas, pero al
mismo tiempo como el principal escenario de actividades de
aglomeración menos capaces de movilidad espacial, o más
capaces de florecimiento local asociadas al circuito superior
marginal y al circuito inferior de la economía urbana.
El importante aumento de las ciudades millonarias y de las
grandes ciudades medias (alrededor de medio millón de
habitantes) permite la diversificación y la densificación de la
división del trabajo. Cuanto mayores y más populosas las
ciudades, mas capaces son de abrigar una extensa gama de
actividades y de contener una lista mayor de profesiones (Santos y
Silveira, 2001), autorizando una mayor complejidad de los
circuitos de la economía urbana en el período actual.
As novas condições do período permitiram que houvesse
uma relativa desconcentração da atividade industrial, que as migrações se
tornassem mais difusas no território, que redes de diversos tipos
redefinissem fluxos materiais e imateriais, modernos e não modernos,
contribuindo para o desenvolvimento de novas especializações produtivas
que se somam às anteriores, produzindo superposição de divisões de
trabalho (SANTOS, 2004, p.135).
Tais eventos geram novas autorizações, novas
possibilidades para a ação, que se tornam mais evidentes quando se
compara o período atual com meados dos anos 1970, quando Milton
Santos publicou seu trabalho sobre os circuitos da economia urbana.
112
Àquela altura, o autor indicava que, com exceção dos casos
em que o Estado atuava diretamente, promovendo a industrialização,
havia dificuldades para que investimentos geradores de modernas
indústrias produtoras de bens de consumo, redes comerciais ou
prestadores de serviços modernos fossem atraídos para as chamadas
cidades intermediárias
89
.
As cidades médias, por sua vez, eram atingidas em sua
capacidade de comando da vida de relações com seu entorno regional pela
progressiva integração do território por meio de redes de transporte e
pela concentração da atividade industrial nas grandes metrópoles,
redundando na invasão dos mercados das cidades médias por produtos
fabricados alhures.
Milton Santos (1979, p.244) enfatizava que as cidades que
ele denominava como intermediárias, eram fortemente afetadas pela
difusão do consumo, tolhidas em suas possibilidades de desenvolvimento
pela exacerbada concentração econômica e demográfica nas metrópoles
nacionais e sofriam a ausência de atividades fabris do circuito superior e
uma limitada presença de atividades comerciais e de serviços modernos.
Essa descrição não é mais possível nos dias atuais, pois suas bases foram
claramente alteradas pelas sucessivas modernizações que se verificaram
nas últimas décadas.
No período atual, cresce o número de cidades médias as
quais abrigam empresas multinacionais e importantes concentrações de
modernas atividades industriais, comerciais e/ou de serviços. A
modernização do campo, a partir de meados dos anos 1960, permitiu que
concentrações de agroindústrias e indústrias de produtoras de insumos se
constituíssem no interior do país, redefinindo a distribuição regional da
produção agrícola e industrial. O próprio Milton Santos (1996) ao discutir
a urbanização brasileira nos alerta para essas mudanças profundas do
89
Em meados dos anos 1970, a respeito das cidades intermediárias, Milton Santos (1979, p. 243), afirmava que:
“Com efeito, no atual período tecnológico, a cidade regional, chamada ainda de cidade média”, torna-se cidade
intermediária. Seu poder de comando e sua influência sobre a região diminuem e ela se torna, cada vez mais, um
relé da metrópole.”.
113
território. Tecendo algumas considerações sobre as cidades médias no
período atual, Milton Santos e Maria Laura Silveira nos dizem que elas
são:
[...] pontos de interseção e superposição de verticalidades e
horizontalidades. Elas oferecem os meios para o consumo final das
famílias e administrações e o consumo intermediário das
empresas. Assim, elas funcionam como entrepostos e fábricas, isto
é, como depositárias e como produtoras de bens e de serviços
exigidos por elas próprias e por seu entorno. (SANTOS e
SILVEIRA, 2001, p. 280)
O novo contexto do desenvolvimento das cidades médias
vem sendo alvo de um amplo debate. Uma parte desse debate está
voltada para a discussão do conceito de cidades médias. Spósito (2001)
indica a necessidade de incrementar o debate sobre as cidades médias no
contexto contemporâneo da urbanização brasileira. A autora aponta para
a trajetória da noção de cidades médias, fortemente calcada em critérios
demográficos, úteis, é bem verdade, como parâmetros para identificar
esses “novos objetos”, porém insuficientes para aprofundar o debate. A
autora propõe, então, algumas indicações para que se possa passar da
noção a um conceito mais profícuo, em torno do qual a discussão possa se
aprofundar.
Para Sanfeliu e Torné (2004) o conceito de cidades médias
está paulatinamente sendo substituído pelo de “ciudades intermedias”.
El adjetivo intermedio/intermediario, cuyo empleo se inició en los
medios académicos a mediados de los ochenta, dilata el significado
de la denominación a la que sustituye: ciudad media (GAULT, M,
1989; BOLAY, J.C., et alt., 2003). La dimensión, la talla
demográfica y la extensión física eran las variables que
contribuían, mayormente, en la delimitación/definición de ciudad
media, variables que actualmente se consideran demasiado rígidas
y estáticas. Por el contrario, intermedio/intermediario introducen
tres nuevas dimensiones:
añaden la idea de que el potencial e importancia de la ciudad no
dependen tanto de su talla demográfica como del modo en que
esta se articula con el resto de elementos del sistema: la
capacidad de crear relaciones y tejer una red, así como las
características de las mismas.
dan valor e introducen aspectos más dinámicos y estratégicos
que incorporan nuevas posibilidades para la autoafirmación, el
reforzamiento de la ciudad-región y la apertura/consolidación a
otros niveles: regional, nacional e, incluso, internacional.
114
suponen la sustitución del sentido estático y notablemente
jerarquizado que otorgaban las teorías s clásicas al concepto de
sistema urbano por una nueva idea más abierta, dinámica e
interactiva[…]
No Brasil o debate sobre as cidades médias apontou
caminhos semelhantes, especialmente no que concerne à inserção dessas
cidades na divisão do trabalho em suas várias escalas. Também
acrescentou a necessidade de se discutirmos como essa inserção
repercute sobre os processos de estruturação e reestruturação da cidade,
ou seja, sua incidência na escala intra-urbana (SPÓSITO, 2007).
Analisando as cidades médias no Estado de São Paulo, Maria
E. Beltrão Spósito (2004) sugere critérios para definir melhor o conceito
de cidades médias:
[...] o que se compreende como cidades médias pode ser
considerado no plano conceitual e a partir de uma análise que
contemple a situação geográfica da aglomeração ou centro urbano
que a constitui, seus papéis econômicos regionais, suas relações
intermediárias entre cidades pequenas e metrópoles, bem como
seus papéis político-administrativos (SPÓSITO, 2004, P.127).
Acompanhando os critérios propostos podemos identificar
Londrina como uma cidade média. Essa identificação é possível em função
de sua situação geográfica, tanto no que se refere à distância física das
Regiões Metropolitanas de Curitiba e São Paulo, quanto por seus papéis na
divisão territorial do trabalho, que, como vimos, desde o período da
cafeicultura, conferiram à cidade um poder de polarização sobre seu
entorno regional que se reforçou ao longo do tempo.
A segunda fase de expansão do meio técnico-científico-
informacional, a partir dos anos 1990, e o alargamento da região
concentrada por meio dos mais diversos tipos de redes, da urbanização
intensa e da desconcentração da industrialização, que atinge de forma
seletiva algumas áreas do território, vêm permitindo uma redefinição e
uma ampliação do número e das características das cidades médias. O
conceito de cidade média não deve, portanto, ser tomado de maneira
estática.
115
Nesse amplo contexto de determinações, não se trata de classificar
as cidades médias como se pode classificar as de porte médio por
seu tamanho demográfico, mas de avaliar continuamente seus
papéis numa divisão regional do trabalho que se encontra em
período de rápidas transformações, redefinindo continuamente o
próprio conceito de cidade média. Assim sendo, a aplicação do
conceito de cidade média a uma cidade ou aglomeração urbana é
sempre relativa no tempo e no espaço (SPÓSITO, 2004, P.127).
No caso de Londrina, a atualização de sua condição como
cidade média, reflete os novos papéis de intermediação que a cidade
adquiriu com a implantação de novas atividades produtivas e de consumo
na última década. A imbricação entre as atividades desenvolvidas no
período anterior, anos 1970 e 1980, com as novas atividades permite falar
na presença de divisões de trabalho sobrepostas que se articulam no
território a partir de diversas combinações entre verticalidades e
horizontalidades (SANTOS, 2004).
A complexidade da economia urbana aumenta na proporção
em que essas combinações se multiplicam. Esse dado do período atual
redefine as formas de subordinação, complementaridade e competição
entre os circuitos da economia urbana.
116
3.3 As modernizações atuais e as repercussões sobre o
circuito superior da economia urbana
A partir de meados dos anos 1990, novas modernizações
incidiram sobre Londrina e, com elas, vieram novas especializações
produtivas. Essas transformações não se fizeram no vazio; elas se
realizaram a partir das condições herdadas do período anterior, os anos
1970 e 1980.
As infraestruturas para o fornecimento de energia,
saneamento básico e telefonia não estavam saturadas e apresentavam
boa disponibilidade até o início dos anos 1990. O número de telefones
fixos, por exemplo, cresceu continuamente. Em 1988 havia mais de 50 mil
telefones fixos instalados e em 2002 atingiam a cifra de 160 mil telefones.
Os novos sistemas técnicos agregaram-se aos anteriores aumentando o
conteúdo de ciência e tecnologia incorporado ao meio construído.
A telefonia móvel está presente na cidade desde 1991
graças à empresa pública local (SERCOMTEL). Em 1995 havia em Londrina
20 mil aparelhos celulares que, desde então, cresceram continuamente,
atingindo em 2003, a marca de 70 mil celulares operados pela empresa
local (BRAGUETO, 2007, p.72).
A modernização que a Companhia Paranaense de Energia
elétrica (COPEL) fez em seus sistemas internos de controle e
administração da geração e distribuição da energia elétrica deu origem a
uma extensa rede de fibras óticas que interligou as principais cidades do
estado à Curitba. Essa rede, combinada com a rede de fibras óticas
instalada pela TELEPAR (FRESCA, 2004, p.236), permitiu uma nova escala
para a circulação de informações, imagens, ordens, dados de diversas
empresas constituídas em rede, cuja topologia pôde ser mais facilmente
ampliada em todo Paraná graças às disponibilidades e facilidades criadas
pelas redes de fibras óticas
90
.
90
Segundo informa a própria COPEL em seu sitio na Internet estão entre os usuários conectados a sua rede as
seguintes empresas: Sercomtel, Claro, Vivo, GVT, Brasil Telecom, Embratel, TIM, Impsat, Oi, Intelig, Nextel,
Geodex entre outras.
117
As novas tecnologias de comunicação e informação, a
exemplo da convergência entre computadores, softwares, telefonia,
transmissão de imagens e pacotes de dados permitiram que novas redes
técnicas fossem criadas e, com elas, também novos serviços como, por
exemplo, os que atendem a grandes empresas e bancos, o Renpac e o
Transdata. Conforme José H. Tavares (2001, p.196) esse serviços
estavam em operação em Londrina em meados dos anos 1990.
Um dos dados novos do período é a privatização da
produção das infraestruturas. Diversos serviços, como a telefonia, a
energia elétrica e a operação de rodovias e ferrovias, passaram ao
controle da iniciativa privada. Empresas globais que atuam no setor
escolheram cidades médias para instalar seus centros de comando. É o
caso da Global Telecom em Londrina (FRESCA, 2004). Também a
multiplicação dos pedágios alterou as condições de circulação encarecendo
pequenas viagens, reforçando algumas dificuldades para a economia de
cidades pequenas e repercutindo nas relações e fluxos entre essas cidades
e cidades médias como Londrina. A forma como os pedágios distribuem-se
no Paraná, penalizando as pequenas cidades, dá-nos uma indicação de
como, no período atual, por conta do projeto neoliberal, o papel do Estado
foi redefinido para abrir caminho ao mercado e as preocupações com o
território como um todo passaram para segundo plano.
Os novos sistemas técnicos criaram condições para que
diversas empresas dos setores de comunicação e informática se
instalassem ou se desenvolvessem em Londrina, formando um Arranjo
Produtivo Local (APL) de Tecnologia da Informação a partir de 2006
91
.
Entre as empresas de tecnologia da informação de Londrina
predominam empresas que empregam menos de 10 trabalhadores
92
, o
que não significa que não sejam empresas dinâmicas do ponto de vista do
91
Segundo informações do sítio do APL de Ti de Londrina (www.apltilondrina.com.br), havia na cidade, em
2004, 149 empresas do setor de informática das quais 83 no ramo de processamento de dados. A maioria era de
microempresas. Fogem a essa caracterização duas empresas criadas no período anterior, ou seja, antes de meados
dos anos 1990, que são a Mabtec e a Exactus, que empregam respectivamente, 35 e 87 pessoas e sua atuação
abrange o mercado nacional. Outras empresas menores também têm se revelado dinâmicas como a LINT criada
pro empresários locais que atende sobretudo empresas Transnacionais.
92
Segundo informações do sitio do APL Ti de Londrina.
118
seu faturamento. Além de empregar poucas pessoas o novo setor é
bastante seletivo no que se refere às qualificações exigidas para
contratação da força de trabalho. Os conhecimentos em informática e
eletrônica são fundamentais para o candidato que disputa uma dessas
vagas.
Outro aspecto importante de algumas empresas desse setor
são suas conexões verticais com a cidade e a região. Uma grande
empresa indiana, a Satyam, se instalou na cidade em 2008. A empresa
emprega 30 profissionais e trabalha com o desenvolvimento de softwares
e suporte aos produtos que comercializa. A empresa pretende dobrar o
faturamento atual de U$ 15 milhões por ano e seus clientes são
principalmente empresas norte-americanas
93
.
A empresa indiana, ao que parece, manterá poucas relações
com as outras atividades da economia urbana de Londrina. Apoiada nas
novas redes técnicas suas conexões principais serão com os EUA e a
Índia. Essa parece ser uma característica do circuito superior que as novas
especializações produtivas que estão se configurando na cidade estão
reforçando e aprofundando: a verticalidade (SANTOS, 2004).
Além das empresas também as universidades têm papel
importante no desenvolvimento desse setor. A Universidade Estadual de
Londrina tem o curso de Ciências da Computação, e a Universidade
Federal Tecnológica do Paraná, criada recentemente também forma
profissionais na área de Tecnologia da Informação, compondo assim
círculos de cooperação (SANTOS e SILVEIRA, 2001). Tais círculos
reforçam a presença desse novo ramo da produção na cidade.
Ao longo dos anos 1990, o circuito superior da cidade
incorporou novos componentes como resultado da política de atração de
investimentos praticada pela Prefeitura. O trecho a seguir identifica
algumas das novas empresas presentes na cidade.
93
Informações disponíveis em <<http://portal.rpc.com.br/jl/geral/conteudo.>> acesso em julho de 2009.
119
Empresas instaladas em outras regiões transferiram suas sedes
para o município, aproveitando as oportunidades existentes, a
exemplo da Dixie Toga, Itap-Bêmis, Atlas, entre outras.
Além disso, empresas como a Milênia Agro Ciências, Allvet
Química, Lavanderia Clarear, Hussmann Thermoking instaladas
no município, ampliaram suas instalações e atividades, gerando
empregos, riqueza e desenvolvimento local, criando oportunidades
para outras empresas menores, como clientes, fornecedores ou
terceirizados. Em 2003, a cidade ganhou outra multinacional, a
Ingersoll-Rand, maior fabricante de compressores de ar para uso
industrial no mundo, trocando o Rio de Janeiro por Londrina. A
instalação da Ingersoll-Rand representou investimentos de R$ 10
milhões e gerou 35 empregos diretos. Desde outubro, a unidade
exporta para a Colômbia e espera, até 2005, abastecer também os
mercados do Chile, Argentina e Uruguai. Para isso, a multinacional
pretende dobrar o tamanho da estrutura implantada na cidade,
nos próximos cinco anos. A região de Londrina também está
recebendo, especificamente em Cambé (13 km a oeste de
Londrina), a Hexal, que é a segunda maior fabricante de
medicamentos genéricos da Alemanha. Está presente em 42 países
e será a primeira do setor a funcionar no Paraná.
(LONDRINA/CODEL, 2004, p.22)
A presença de multinacionais do setor de embalagens como
a Dixie-Toga indica o aumento da complexidade da economia urbana
londrinense por meio de algumas das complementaridades que se
estabelecem entre as empresas do circuito superior. Exemplo disso é que
o principal cliente da Dixie-Toga em Londrina são as lojas da cadeia de
lanchonetes MacDonald’s instaladas na cidade.
Os ramos de embalagens e plásticos vêm crescendo nos
últimos anos e podem ser considerados indicadores da diversificação e
consolidação do processo de industrialização da cidade. A presença desses
ramos redefiniu a estrutura do circuito superior ligado à produção em
Londrina com a incorporação de ramos industriais mais intensivos em
tecnologia (BRAGUETO, 2007)
Pelo lado das atividades ligadas ao consumo a construção do
Shopping Catuaí se apresenta como um evento significativo. A
constituição de mega-empreendimentos, aqueles que superam a casa dos
50 mil m
2
e exigem fortes disponibilidades de infraestrutura, de área e em
geral são capitaneados por fundos que reúnem diversos tipos de capital
(OLIVEIRA, 1996) está em sintonia com a dinâmica do período atual. A
construção do Shopping Catuaí, inaugurado em 1990, envolveu
120
investimentos da ordem de 55 milhões de dólares e reuniu desde capitais
locais, oriundos da construção civil, a bancos e fundos de investimento
(SILVA, 2006, p.120). Além disso, mobilizou o poder público, que
reestruturou o sistema viário no entorno do Shopping, ampliando a
acessibilidade à área de concentração dos loteamentos e condomínios
fechados de alto padrão.
Desde sua inauguração o Shopping Catuaí passou por duas
ampliações indicando a lucratividade desse tipo de estratégia de
incorporação imobiliária em Londrina. Além do Catuaí há o Shopping Royal
Plaza construído no Centro Principal da cidade e inaugurado em 1999.
Apesar de contar com uma área construída menor e um número menor de
lojas, também produziu impactos significativos na área em que foi
implantado. Os arredores do Royal Plaza também passaram por um
processo de valorização, ainda que muito mais modesto do que o
verificado nos arredores do Catuaí.
A construção de mega-empreendimentos na cidade não se
restringe aos shopping centers. Estão previstos investimentos do Grupo
Sonae em mais um Shopping a ser construído no Centro Principal. O novo
centro comercial, cuja inauguração está prevista para 2011, faz parte de
um novo mega-empreendimento denominado projeto marco zero” que
deverá incluir também edifícios residenciais e comerciais.
Os novos elementos da economia urbana, tanto aqueles
ligados ao consumo como os ligados à produção, revelam um maior grau
de internacionalização do circuito superior em Londrina. Essa tendência
está em sintonia com o processo de globalização. O circuito superior que
repercute fielmente as transformações na divisão hegemônica do trabalho
se torna mais complexo e menos integrado às divisões de trabalho locais.
121
3.4 O período atual e o circuito inferior da economia
urbana
O circuito inferior em Londrina, a partir dos anos 1990,
passou por um processo de reestruturação com a incorporação de novas
atividades intimamente vinculadas as dinâmicas do período e à
configuração do meio construído. Na raiz das novas atividades estão o
desemprego e a nova configuração da pobreza no período atual.
O desemprego crônico é uma das variáveis do período atual
que tem implicações importantes na dinâmica do circuito inferior
londrinense. Para muitos trabalhadores o desemprego se transforma em
condição quase permanente, especialmente quando a função que
exerceram por longos períodos deixa de existir. Para enfrentar a
desocupação e o nivelamento por baixo das remunerações oferecidas nos
postos de trabalho formais, parte significativa desse contingente vai se
abrigar nas atividades do circuito inferior. A partir dos anos 1990,
multiplica-se na cidade o número de pessoas que trabalham como
camelôs, autônomos em geral, motoboys, cabelereiros, manicures e
mototaxistas
94
.
Embora não existam dados para indicar quantitativamente a
expansão do circuito inferior, é possível claramente afirmar que houve
reestruturação desse circuito em Londrina, com a incorporação de novas
atividades. A reestruturação do circuito inferior em Londrina é resultante
das novas configurações assumidas pelo circuito superior na cidade no
período atual. A desvalorização de formas tradicionais de comércio e
serviços, o rebaixamento do valor do trabalho e os novos perfis das
atividades modernas em relação à quantidade e à qualificação dos
trabalhadores que empregam, são produtoras de reestruturação e
expansão do circuito inferior. A discussão sobre a dinâmica atual do
circuito inferior londrinense é o objetivo da segunda parte do trabalho.
94
Os dados dos Censos Demográficos de 1991 e 2000 mostram que, comparando o item posição na ocupação, o
número de pessoas ocupadas não remuneradas cresceu 59%, o número de pessoas que trabalhavam por conta
própria cresceu 23% e número de empregados cresceu 13%.
122
3.4.1 Algumas considerações sobre o período atual:
desemprego, pobreza e rupturas
As condições da economia urbana no período atual
favorecem a constituição de relações de produção nas quais a exploração
do trabalho se intensificou em grande medida. Assim, situações como
jornadas de trabalho de 12 horas diárias durante 6 dias por semana, as
quais pareciam superadas ou tornadas residuais pela expansão da
sociedade salarial e pelo advento do Estado do Bem Estar Social
95
, voltam
a ocorrer com certa freqüência.
Marcio Pochmann (1999, p.15) afirma que a partir de
meados dos anos 1980 houve uma quebra do padrão sistêmico de
integração social”, que se difundira pelo planeta no período pós-guerra.
Essa percepção vem acompanhada de argumentos que indicam
claramente um sentido de perda, principalmente a perda da estabilidade e
de direitos sociais. O conceito de precarização sintetiza a leitura do
contexto histórico que está subjacente aos argumentos de Marcio
Pochmann.
O contexto histórico da difusão do padrão sistêmico de
integração social no período pós-guerra também corresponde à
consolidação do Capitalismo Monopolista e à sociedade de consumo. Esse
período foi analisado por muitos autores, particularmente pelos críticos da
sociedade industrial, como os diversos autores da chamada “Escola de
Frankfurt”.
Herbert Marcuse (1979, p. 31 e 32) construiu o conceito de
homem unidimensional”, para criticar justamente as conseqüências da
integração do individuo às sociedades de consumo de massa. Para
Marcuse (1979) o sujeito integrado à sociedade de consumo perde
liberdade potencial que as condições técnicas poderiam lhe proporcionar
95
Segundo Sonia Draibe (1990, p 3) O Estado do Bem Estar Social (Welfare State) se expressa na organização
e produção de bens e serviços coletivos, na montagem de esquemas de transferências sociais; na interferência
pública sobre a estrutura de oportunidades de acesso a bens e serviços públicos e privados e, finalmente, na
regulação da produção e distribuição de bens e serviços sociais privados.”
123
para obter em troca uma pseudossegurança, mais próxima da morte do
que a vida. A contrapartida do consumo era o conformismo.
No Brasil o padrão sistêmico de integração social
(POCHMANN, 1999), assim como outras modernizações, foi importado e
implantado de forma incompleta e conservadora, aprofundando as
coerções do capital sobre o trabalho
96
, disciplinando-o por meio da
formação de um gigantesco exército industrial de reserva. No Terceiro
Mundo a produção do conformismo se apoiou mais na violência do que nas
promessas do consumismo. Talvez essa trajetória ajude a explicar a
ênfase dada ao que se perdeu, àquilo que, mesmo sem ter se completado,
foi interrompido pelo projeto neoliberal dos anos 1990.
Apesar das considerações que necessariamente relativizam
as eventuais qualidades e positividades do tal padrão sistêmico de
integração social no contexto brasileiro, é oportuno assinalar que, durante
o período de sua vigência, houve sinais de redução nos níveis de pobreza
e miséria
97
. Essa redução resultou da combinação entre expansão do
trabalho assalariado, especialmente na indústria, acelerado crescimento
econômico e algumas ações elementares no âmbito do Estado do Bem
Estar Social, ainda que sob o regime ditatorial.
Os limites dessa discussão são evidentes; trata-se da
relação entre sobrevivência, emprego e consumo como parâmetros do
conceito de pobreza urbana. Não pretendemos ir muito além dessas
questões. A discussão que objetivamos gira em torno da reprodução social
em seus contornos básicos, tema que, nos países subdesenvolvidos,
requer atenção continuada.
96
Refiro-me, sobretudo, ao período da Ditadura Militar em que modificações na legislação trabalhista, como a
implantação do FGTS, aumentam a rotatividade da força de trabalho, o fundo público gerado com retiradas
compulsórias dos ganhos dos assalariados financia a construção da infraestrutura urbana por meio do Sistema
Financeiro da Habitação e, principalmente, a livre organização sindical e as greves são reprimidas com violência
e prisões.
97
“Em um contexto de liberalização dos intercâmbios e de fortalecimento do mercado financeiro, as
desigualdades entre a renda do trabalho e a do capital se acentuaram, as vezes fortemente. As desigualdades, em
termos de renda do trabalho, entre trabalhadores qualificados e não qualificados também aumentaram na maioria
dos países durante os últimos dez ou quinze anos. A pobreza, nos países do Terceiro Mundo, após ter recuado
nas economias que passaram por um crescimento muito elevado estão voltando a crescer, mesmo que
modestamente, e mesmo erradicando sua forte inflação, reaparece junto com a eclosão da crise asiática, em
1997, e a expansão do desemprego na América Latina.” (SALAMA, 1999, p.21)
124
As relações entre as rupturas e reestruturações dos anos
1990, e a dinâmica do empobrecimento tem grande importância para a
análise da reestruturação dos circuitos da economia urbana. Milton Santos
(2008, p.69 a 71) argumenta que os países subdesenvolvidos, entre eles
o Brasil, conheceram três formas de pobreza: pobreza residual ou
“incluída”, pobreza marginal e a pobreza estrutural globalizada
98
. A
primeira forma caracterizava-se por situações locais e localizadas de
pobreza, inadaptadas aos processos mais gerais de mudança. Entretanto,
não era algo que tivesse a condição de se generalizar, de se difundir pelo
território (SANTOS, 2008).
Na segunda forma, que corresponderia ao contexto de
vigência do padrão sistêmico de integração social, o fenômeno da pobreza
era algo indesejável que se pretendia superar, ainda que por meio de
medidas tecnocráticas. A pobreza era medida por meio de índices, era
objeto de preocupação por parte do Estado e considerada como algo
possível de ser solucionado no âmbito do desenvolvimento, da trajetória
que completaria a difusão do padrão de integração social. Essa
perspectiva, a da pobreza marginal, estimulava a tomada de medidas, em
países subdesenvolvidos, visando estabelecer formas de luta contra a
pobreza à semelhança do que acontecia em países desenvolvidos e países
socialistas.
A criação de empregos formais
99
, isto é, vínculos de
trabalho acompanhados de alguns direitos e de possibilidades de contar
com cobertura previdenciária, e a manutenção das políticas
macroeconômicas que lhes davam sustentação, podem ser colocadas no
plano do combate às situações de miséria e, ao mesmo tempo, de uma
ampla reprodução dos contingentes de pobres urbanos no Brasil. A
formação do mercado urbano de trabalho a partir da década de 1930, e
particularmente após os anos 1950, foi acompanhada do florescimento de
98
Trataremos dessa terceira perspectiva no capítulo 4.
99
Segundo Marcio Pochmann (1999, p.68) entre 1940 e 1980 a cada 10 ocupações geradas, 8 eram assalariadas,
sendo 7 delas com registro em carteira.
125
uma variada gama de atividades e ocupações no âmbito do circuito
inferior da economia urbana.
O circuito inferior foi simultaneamente uma conseqüência e
a possibilidade da reprodução ampliada da pobreza urbana, que se
revelou bastante funcional ao processo de acumulação de capital de base
industrial. Podemos dizer que essa tese foi demonstrada pela teoria dos
circuitos e pela “Critica da razão dualista” de Francisco de Oliveira. Cada
um a seu modo. A teoria dos circuitos procurou desvelar as relações entre
a modernização e as formas encontradas pelos pobres nas cidades para
melhorar sua condição material.
No período de vigência do padrão sistêmico de integração
social no Brasil, entre os anos 1940 e 1990, a conjugação do processo de
estruturação do mercado nacional de trabalho com a formação de um
diversificado circuito inferior da economia urbana, permitiu alguns
avanços em relação à questão da sobrevivência nas cidades,
especialmente em relação à conquista de um cotidiano menos instável.
A situação mudou nos anos 1990, com a chegada ao poder
das coalizões que implementam políticas neoliberais
100
. O cotidiano se
tornou instável, ameaçado pelo desemprego e pelo empobrecimento. Em
Londrina o projeto neoliberal provocou uma crise de grandes proporções
que se manifestou em diversas frentes.
Nos anos 1990, houve um aumento significativo de
ocupações irregulares de áreas urbanas: construção de abrigos precários
e barracos em áreas de fundos de vale, ocupação com habitações
precárias em áreas públicas e particulares. Simultaneamente, foram
drasticamente reduzidos os investimentos na produção de habitações
populares, após a falência do Sistema Financeiro da Habitação nos anos
1980.
100
As políticas neoliberais podem ser caracterizadas por um conjunto de medidas macroeconômicas, tais como:
contração da emissão de moeda, elevação da taxa de juros básicos, redução de impostos sobre as rendas mais
elevadas, desregulamentação do mercado de trabalho, desregulamentação do comércio externo,
desregulamentação do mercado financeiro, redução da participação do Estado na economia pelo enxugamento
dos gastos sociais e privatizações de empresas estatais, entre outras.
126
Um dos eventos mais expressivos dessa ruptura foi a
constituição do assentamento urbano situado na zona sul de Londrina
denominado União da Vitória. O assentamento reunia cerca de 1.400
famílias que, auxiliadas por instituições da sociedade civil, e após um
processo de negociação e muita pressão por parte dos assentados sobre a
Prefeitura, começou a ser regularizado em 1985.
O bairro Jardim União da Vitória ao longo do tempo se
integrou totalmente ao meio construído. Apesar de contar com
infraestruturas básicas (água, luz, transporte, escola) o bairro tem uma
paisagem que revela grandes carências. As casas são pequenas (40m,
60m) e estão localizadas em área de forte declividade. Em geral são
inacabadas e misturam partes construídas em alvenaria com expansões
improvisadas.
O processo de integração desse bairro e da população que
ele abriga difere em muito daquele que se verificou nos bairros que se
formaram a partir de conjuntos habitacionais na zona norte. Apesar de
haver enfrentado situações muito duras de carência e dificuldade para
obter infraestrutura completa e equipamentos urbanos (ALVES, 1991), os
bairros da zona norte revelam em sua paisagem um contexto de
integração à cidade menos excludente e precário.
A ruptura que o assentamento União da Vitória representa
em relação a política habitacional e ao conjunto de políticas públicas dos
anos 1970 e 1980, se acentuou ao longo dos anos 1990. No final dos anos
1980 existiam em Londrina 15 ocupações urbanas irregulares. Ao longo
dos anos 1990 surgiram mais de 40 ocupações irregulares, abrangendo
cerca de 50 mil pessoas, ou seja, 10% da população urbana (OLIVEIRA e
FRESCA, 2005, p. 119).
De forma semelhante ao que ocorrera com a política
habitacional as opções feitas no âmbito do projeto neoliberal penalizaram
severamente os empregos. Segundo Pochmann (2001, p.102) nos anos
1990 o desemprego deixou de ser um problema que atingia algumas
pessoas e passou a ser um fenômeno de massa, generalizando-se pela
127
PEA e se alastrando para todas as regiões do país. Entre 1989 e 1999 o
desemprego cresceu 280%.
Ao longo desse processo de expansão do desemprego
aumentam as exigências que incidem sobre os que se candidatam às
vagas abertas. O novo analfabetismo imposto pelo sistema técnico
informacional limitou as possibilidades de milhares de trabalhadores,
inclusive daqueles que possuíam alguma escolaridade.
Em Londrina as indústrias alimentícias e de vestuário são as
que detêm o maior número de estabelecimentos e o maior volume de
empregos, no contexto da indústria de transformação. Esses setores
foram bastante atingidos pela abertura indiscriminada do mercado interno
às importações e contribuíram para que, no final dos anos 1990 o
desemprego na cidade se tornasse um problema generalizado. As novas
empresas que a política de atração de investimentos da Prefeitura trouxe
para a cidade são empresas que, do ponto de vista da contratação de
força de trabalho, não foram suficientes para sequer minimizar o
problema do desemprego.
As transformações do circuito superior se deram no sentido
de substituir empresas mais intensivas em trabalho por empresas que
operam a partir de uma composição orgânica de capital mais elevada. As
novas empresas, como a Atlas Schindler, têm processos automatizados de
produção que requerem um número limitado de trabalhadores
qualificados. Essa característica se repete em relação a Dixie-Toga e à
Milenia. Os novos atores do circuito superior ligado à produção absorvem
menos trabalho vivo do que aqueles que compunham o circuito superior
nos anos 1970 e 1980
101
.
Outra face do problema do desemprego é que ele pressiona
para baixo as remunerações ao aumentar a competição pelos postos de
trabalho. Essa conjuntura bastante desfavorável aos trabalhadores é
101
O fechamento da unidade industrial da Coinbra e a transferência das atividades para Ponta Grossa causou o
desemprego de centenas de trabalhadores na cidade. A unidade dessa agroindústria que fora comprada da
Anderson Clayton empregava mais gente do que os novos estabelecimentos.
128
agravada pela intensificação da competição que a abertura e
desregulamentação do mercado produziu.
A competição mais intensa afetou as pequenas empresas do
circuito superior marginal em Londrina. Em geral são empresas que
realizam operações intermediárias de processos produtivos de empresas
maiores. Um exemplo são as facções da indústria de vestuário e pequenas
confecções que produzem roupas e também realizam tarefas específicas
para grandes indústrias.
Para não perder os grandes clientes essas empresas são
pressionadas a reduzir suas margens e achatam os salários dos
funcionários ou passam a atuar na informalidade. Essa tendência incide
sobre uma situação que não era muito confortável; em geral, as
pequenas e microempresas pagam salários menores do que as médias e
grandes.
Segundo as estatísticas do IBGE, é substancial a diferença
observada entre as remunerações nas grandes e nas pequenas
empresas. Este Instituto verificou que, nas empresas com até 10
empregados, a remuneração média é de 3,25 salários nimos,
enquanto que nos estabelecimentos com 11 pessoas, ou mais,
esta média sobe para 5,1 SM. Ou seja, os salários ou
remunerações das pequenas empresas são, em média, 60%
inferiores aos dos outros estabelecimentos. (MALAGUTI, 2000,
p.82)
A competitividade, palavra de ordem do período atual, por
mecanismos diversos, acaba por incidir sobre as remunerações dos
trabalhadores das pequenas empresas, uma das principais fontes de
emprego em Londrina. A associação entre desemprego e baixas
remunerações é determinante para o processo atual de produção da
pobreza.
Em ntese a reestruturação do circuito inferior em Londrina
é uma decorrência das variáveis do período atual, dentre elas,
especialmente o desemprego, as baixas remunerações e a produção
estrutural da pobreza. Tais variáveis atuam de forma combinada com as
transformações do circuito superior da economia urbana londrinense.
129
PARTE II
A REESTRUTURAÇÃO DOS CIRCUITOS
130
CAPÍTULO 4
A racionalidade do circuito inferior no período atual
4.1 – Racionalidade hegemônica e circuito inferior
A teoria dos circuitos da economia urbana requer que se
compreenda a cidade a partir de uma visão totalizadora.
A cidade é uma totalidade, feita de coisas e pessoas, de objetos e
relações, de formas e ações, num movimento desigual e
combinado, numa dinâmica de cooperação e conflito. [...] Se a
consideração do meio construído como uma totalidade é um
partido de método, é preciso olhar, ao mesmo tempo, os sistemas
de ações ou, em outros termos, ver a cidade como um conjunto,
solidário e contraditório de divisões de trabalho. Suas funções mais
modernas, aquelas que norteiam sua inserção na atual divisão
internacional do trabalho hegemônica, não podem ser confundidas
com a cidade ela própria. [...] A cidade não é apenas o reino das
grandes corporações e dos grandes bancos, o reino do circuito
superior (SANTOS, 1975), mas também o lugar do trabalho não-
especializado, das produções e serviços banais, das ações ligadas
aos consumos populares aquelas necessidades criadas pelo
nosso tempo mas cuja resposta não é dada pela economia
hegemônica. (SILVEIRA, 2004, p.60)
As relações de subordinação e interdependência entre os
circuitos possibilitam a análise do modo como, em suas diversas escalas,
convivem e interagem na cidade a divisão de trabalho hegemônica e as
divisões de trabalho não-hegemônicas.
No período atual a divisão do trabalho hegemônica ligada ao
circuito superior realiza, por meio de verticalidades
102
, a integração da
cidade a um espaço de fluxos constituído por redes (SANTOS, 2008,
p.106). A divisão do trabalho hegemônica apresenta características
específicas em face da dinâmica do período atual, especialmente as
determinações emanadas da economia global. Milton Santos (2008)
afirma que a divisão do trabalho progressivamente deixou de ser
102
“As verticalidades podem ser definidas, num território, como um conjunto de pontos formando um espaço de
fluxos. [...] O sistema de produção que se serve desse espaço de fluxos é constituído por redes um sistema
reticular –, exigente de fluidez e sequioso de velocidade. São os atores do tempo rápido, que plenamente
participam do processo, enquanto os demais raramente tiram todo proveito da fluidez” (SANTOS, 2008, p.106)
131
produzida de forma relativamente espontânea e passou a ser objeto de
intencionalidades guiadas por parâmetros científicos e que “por isso a
consideramos uma divisão do trabalho administrada e é movida por um
mecanismo que traz consigo a produção de vidas sociais e disseminação
da pobreza numa escala global” (SANTOS, 2008, p.73).
A relação entre a divisão do trabalho hegemônica e a
disseminação da pobreza passa pelo desemprego crônico
103
. Desse modo,
pobreza e desemprego são produtos da racionalidade hegemônica
manifestada nos lugares.
O desemprego aberto mundial cresceu de forma acelerada
nos anos 1990, abarcando parcelas cada vez maiores da população
economicamente ativa em diversos países
104
. Essa nova onda de
desemprego resulta das transformações na divisão internacional do
trabalho decorrentes da forma desigual e combinada que caracterizou a
difusão das novas tecnologias de informação e comunicação e a
reformulação dos processos globais de acumulação de capital coordenado
por grandes corporações globais, incluindo o crescimento da mobilidade
territorial dos investimentos e a constituição de empresas em rede
(POCHMANN, 2001, p.29 e 30)
No Brasil, assim como em outros países da América Latina,
o aumento do desemprego se apresenta com gravidade ainda maior, uma
vez que, incide sobre um contexto social em que persistem formas
tradicionais de superexploração do trabalho, expressas no subemprego e
nos baixos rendimentos da população ocupada, as quais convivem com
sistemas de proteção social incompletos e desiguais.
Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e
Estudos Socioeconômicos (DIEESE), que realiza a pesquisa mensal de
emprego e desemprego (PESQUISA EMPREGO E DESEMPREGO, 1984-), o
103
Vamos nos deter mais sobre essa relação no capitulo 4.
104
Em 1996 o Relatório da OCDE sobre o desemprego estimava que o tamanho da PEA mundial fosse de 2,5
bilhões de trabalhadores dos quais 35% estavam em situação de desemprego e/ou subempregados. Nos países
membros da OCDE havia 34 milhões de desempregados e a taxa de desemprego tendia a se estabilizar em torno
de 10%. (POCHMANN, 1999, p.37 e 38).
132
desemprego total
105
cresceu de forma acentuada no Brasil a partir de
meados dos anos 1990
106
e, nos últimos anos, mostrou tendência de
queda. No entanto, até 2008, ainda permanecia em patamares superiores
a 10% da PEA.
Gráfico 13
Brasil: índice médio de desemprego total em seis
Regiões Metropolitanas, 1998 a 2008.
0,0
2,5
5,0
7,5
10,0
12,5
15,0
17,5
20,0
22,5
25,0
1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008
Taxa média de desemprego total (%)
Fonte: DIEESE, Pesquisa Emprego e Desemprego.
As repercussões desse novo contexto amplamente
desfavorável ao trabalho se fizeram sentir, por exemplo, no aumento da
competição entre os trabalhadores, na redução da atividade sindical e na
necessidade de readequação das habilidades dos trabalhadores para que
acompanhem as constantes mudanças nos processos de produção e
também na esfera da circulação.
Em Londrina, trabalhadores ligados ao setor de transportes
que trabalhavam na classificação, embalagem e armazenamento de
produtos em grandes transportadoras foram substituídos por sistemas
automatizados de classificação e armazenamento a partir do
desenvolvimento de softwares específicos e de novas formas de
105
A metodologia empregada pelo DIEESE na PED mede o chamado desemprego total, isto é, o desemprego
aberto e também o desemprego oculto, que inclui situações de trabalho esporádicas (bicos) e não remuneradas,
entre outras.
106
“Segundo dados de 1999, o desemprego aumenta em todo país. Na Região Metropolitana de São Paulo
atingia 1,726 milhão de pessoas, isto é, 19,9% da sua população economicamente ativa (eram 12,2% em 1985,
um total de 819 mil pessoas)” (SANTOS e SILVEIRA, 2001, p.219)
133
organização dos armazéns
107
. Após passar anos executando uma mesma
função, esses trabalhadores têm agora de enfrentar um mercado de
trabalho local no qual, para obter salários semelhantes aos que tinham
antes, precisariam atender aos requisitos de novas ocupações como as de
operadores de telemarketing e outras funções ligadas às tecnologias da
informação e comunicação.
Essa situação afeta, principalmente, trabalhadores que não
são especializados, cuja escolaridade atinge no máximo o ensino médio. A
rapidez com que as novas habilidades aprendidas, especialmente
conhecimentos básicos de informática e de processos produtivos
específicos, se tornam descartáveis ou insuficientes para concorrer a um
novo posto de trabalho aumenta a vulnerabilidade e a instabilidade que
permeia o cotidiano de quem busca um novo emprego.
Entre as resultantes dessa dinâmica está a expansão do
excedente estrutural de trabalhadores que, ao longo do tempo, adquiriram
certa especialização em função de sua inserção no mercado de trabalho e
que passaram a condição de desempregados por conta das sucessivas
conjunturas desfavoráveis. A saída para muitos desses trabalhadores
descartados do mercado formal de trabalho é se estabelecer em uma
atividade por conta própria.
Ao mesmo tempo, no contexto da divisão de trabalho
hegemônica, surgem novas profissões, a exemplo dos operadores de
telemarketing e dos profissionais de tecnologias da informação, ligadas
aos novos processos de produção e circulação apoiados em novos objetos
técnicos (SANTOS e SILVEIRA, 2001, p.220). A presença desses
contingentes de trabalhadores especializados, ainda que não sejam tão
numerosos quanto os trabalhadores sem especialização, amplia as
atividades ligadas ao consumo e a circulação de mercadorias e
informações e a fragmentação do meio construído.
Por um lado a ampliação do consumo e da circulação de
informações associada à fragmentação do meio construído possibilita a
107
Conforme entrevista com o Sr. S. mototaxista da Central Rota 99.
134
coexistência de diferentes divisões de trabalho. Por outro, cria as
condições para a subordinação das atividades do circuito inferior aos
ritmos e demandas das atividades hegemônicas.
Um aspecto da diferença entre as divisões de trabalho está
na formação de uma especialização das atividades por cima e uma
especialização de atividades por baixo” (SANTOS, 2004, p.324).
A especialização das atividades por cima, no âmbito do
circuito superior, atende a objetivos e interesses distantes, muitas vezes
determinados a partir do exterior e tem como premissa básica a
competitividade e a lucratividade máximas, enquanto a especialização das
atividades por baixo tem raízes locais e, em geral preconiza a manutenção
das condições de vida alcançadas. As especializações das atividades “por
cima” se dão, portanto, em sintonia com as verticalidades e com a
reestruturação do circuito superior. As especializações das atividades “por
baixo” dialogam com as horizontalidades.
O par dialético das verticalidades são as horizontalidades
108
e sua ligação com o cotidiano. As divisões do trabalho criadas a partir das
necessidades dos que sofrem as conseqüências da racionalidade
hegemônica, especialmente o desemprego, mantêm com as
horizontalidades um vínculo genético.
Nas grandes cidades, sobretudo do Terceiro Mundo, a precariedade
da existência de uma parcela importante (às vezes a maioria) da
população não exclui a produção de necessidades, calcadas no
consumo das classes mais abastadas. Como resposta, uma divisão
de trabalho imitativa, talvez caricatural, encontra as razões para
se instalar e se reproduzir. [...]
Essas metamorfoses do trabalho dos pobres nas grandes cidades
cria o que, em um outro lugar (Santos, 1991), denominamos de
“flexibilidade tropical”. uma variedade infinita de ofícios, uma
multiplicidade de combinações em movimento permanente,
dotadas de grande capacidade de adaptação, e sustentadas no seu
próprio meio geográfico, este sendo tomado como uma forma-
conteúdo, um híbrido de materialidade e relações sociais.
(SANTOS, 2004, p.324)
108
“As horizontalidades são zonas de contigüidade que formam extensões contínuas. [...] O espaço banal seria o
espaço de todos: empresas, instituições, pessoas; o espaço das vivências. Esse espaço banal, essa extensão
continuada, em que os atores são considerados na sua contigüidade, são espaços que sustentam e explicam um
conjunto de produções localizadas, interdependentes, dentro de uma área cujas características constituem,
também, um fator de produção.” (SANTOS, 2008, p.109)
135
A racionalidade hegemônica não é, de fato, a única
racionalidade presente no meio urbano, mas é a que os atores
hegemônicos pretendem impor como a única válida, como o único critério
de avaliação da cidade e do urbano que ela abriga. Suas exigências de
fluidez e velocidade, intimamente associadas às verticalidades, aos
objetos geográficos que as sustentam e às normas que autorizam usos
hegemônicos da cidade, constituem parâmetros de um discurso que,
unilateralmente, desqualifica as especializações inerentes às divisões do
trabalho das quais participam as atividades do circuito inferior.
Rotuladas como irracionais, perigosas e indesejáveis as
especializações geradas no âmbito da flexibilidade tropical e do circuito
inferior são hostilizadas: vendedores ambulantes que carregam consigo
algumas cópias o autorizadas, consideradas ilegais e por vezes mal
feitas de filmes e músicas são quase que automaticamente considerados
extensão do crime organizado e assim estigmatizados como “ajudantes de
bandidos”, o uso de parte do fundo público na criação de camelódromos é
desperdício de dinheiro e motiva ações na justiça, o reconhecimento da
profissão de mototaxista é taxada de imediato como “carnificina”
independentemente do tamanho da cidade e das condições e normas para
prestação desse serviço.
A ideologia que permeia esses discursos age como de
costume: propõe meias verdades como se inteiras fossem, afasta a
gênese e a leitura estrutural das condições políticas, sociais e econômicas
que produzem esses trabalhadores como excedentes aos sistemas de
produção hegemônicos e que simultaneamente os absorve, conferindo-
lhes funcionalidade como informais, ilegais e, sobretudo, como trabalho
vivo e barato, por que expurgado de direitos sociais.
As horizontalidades, pois, além das racionalidades picas das
verticalidades que as atravessam, admitem a presença de outras
racionalidades (chamadas de irracionalidades pelos que desejam
ver como única a racionalidade hegemônica). Na verdade, são
contra-racionalidades, isto é, formas de convivência e de regulação
criadas a partir do território e que se mantêm nesse território a
despeito da vontade unificação e homogeneização, características
136
da racionalidade hegemônica pica das verticalidades. (SANTOS,
2008, p.110)
A situação é complexa. atritos, conflitos mais ou menos
intensos e também formas de cooperação entre a racionalidade
hegemônica e as contra-racionalidades, entre as especializações por cima
e por baixo”. A dinâmica do período atual desautoriza concepções
dualistas, que sempre teimam em reaparecer, a exemplo das que
subjazem às interpretações reducionistas que empregam de forma rígida
conceitos como setor informal e informalidade. Tampouco cabe falar do
famoso “inchaço do terciário, como anomalia que se manifesta em
relação a processos normais de desenvolvimento, nos quais certa noção
de equilíbrio é sempre retomada.
A crítica a esse tipo de interpretação foi elaborada por
trabalhos seminais como a “Crítica à Razão Dualista” de Francisco de
Oliveira. Analisando o processo de desenvolvimento brasileiro entre 1930
e 1970 o autor apontava que a expansão do terciário, especialmente o
terciário banal, constituía-se em uma espécie acumulação primitiva
apoiada no intenso processo de migração rural-urbano.
No processo de sua expansão, sem contar com magnitudes prévias
de acumulação capitalística, o crescimento industrial forçosamente
teria que centrar sobre a empresa industrial toda a virtualidade da
acumulação propriamente capitalista; sem embargo, ela não
poderia dar-se sem apoio de serviços propriamente urbanos,
diferenciados e desligados da unidade fabril propriamente dita, as
chamadas “economias externas”. Era tal a carência desses
serviços, que a primeira onda de industrialização assistiu à
tentativa de autarquização das unidades fabris, processo que logo
seria substituído por uma divisão de trabalho para além dos muros
da fábrica. Logo em seguida, com a continuidade da expansão
industrial, esta vai compatibilizar-se com a ausência de
acumulação capitalista prévia, que financiasse a implantação dos
serviços, lançando mão dos recursos de mão de obra,
reproduzindo nas cidades um tipo de crescimento horizontal,
extensivo, de baixíssimos coeficientes de capitalização, em que a
função de produção sustenta-se basicamente na abundancia de
mão-de-obra. (OLIVEIRA, 2003, p.55)
O autor enfatiza ainda que houve a criação de uma grande
gama de formas de produção artesanais, como oficinas de reparação de
todos os tipos e também de serviços de consumo individual cuja
participação cresceu no emprego total do país, a partir da década de
137
1940. Seu argumento principal é o de que esses serviços do terciário
banal são adequados e funcionais à acumulação capitalista.
Não é estranha a simbiose entre a “moderna” agricultura de frutas
e hortaliças e outros produtos de granja com o comércio
ambulante? Qual é o volume de comércio de certos produtos
industrializados o grifo é proposital tais como lâminas de
barbear, pentes, produtos de limpeza, instrumentos de corte, e um
sem-número de pequenos objetos, que é realizado pelo comércio
ambulante das ruas centrais de nossas cidades? Qual é a relação
que existe entre o aumento da frota de veículos particulares em
circulação e os serviços de lavagem de automóveis realizados
braçalmente? Existe alguma incompatibilidade entre o volume
crescente de produção automobistica e a multiplicação de
pequenas oficinas destina à re-produção dos veículos? Como
explicar que todos os tipos de serviços de consumo pessoal
cresçam mais exatamente quando a indústria recupera seu
dinamismo na criação de empregos e quando todo um processo se
cristaliza conforme os resultados do Censo Demográfico de 1970
numa distribuição de renda mais desigual? Esses tipos de
serviços, longe de serem excrescência e apenas depósito do
“exército industrial de reserva”, são adequados para o processo de
acumulação global e da expansão capitalista e, por seu lado,
reforçam a tendência à concentração de renda. (OLIVEIRA, 2003,
p. 58)
A teoria dos circuitos apresenta conclusões semelhantes, no
entanto sua perspectiva em relação à cidade é mais ampla, por que
voltada para a compreensão da cidade como uma totalidade. O circuito
inferior, por exemplo, não se resume ao terciário, incluindo também
atividades de fabricação (SANTOS, 1979). Na teoria dos circuitos a
intenção fundamental é revelar como, na economia urbana tanto as
atividades intensivas em capital, ditas modernas, quanto as atividades em
que o trabalho é abundante e o capital escasso, encontram seu lugar.
Dessa forma, a teoria dos circuitos pôde elucidar como, por meio do
circuito inferior, muitos migrantes recém-chegados às metrópoles,
encontraram condições de sobreviver e até mesmo obter alguma
prosperidade.
Contudo, outro ponto em que a funcionalidade do
terciário banal mudou em relação aos anos 1970, trazendo novos desafios
para as pesquisas sobre a cidade. não se trata de gerar economias
externas inexistentes, que supririam as lacunas inerentes a uma
acumulação de capital centrada na indústria e profundamente desigual em
138
suas componentes setoriais e regionais. A situação atual desafia as teorias
sobre a cidade a refletir e analisar os modos como, se renovam as formas
de produção pobreza.
Milton Santos, referindo-se ao período atual, afirma que a
pobreza atual difere daquela dos anos 1970 e a denomina de “pobreza
estrutural globalizada” (SANTOS, 2008, p.73). Essa atualização da
produção da pobreza ocorre em conjunção com a expansão do meio
técnico-cientifico-informacional, com a intensificação dos consumos e da
circulação.
Analisando a conjuntura própria das cidades do Terceiro
Mundo nos anos 1970, Milton Santos apresentava uma dada
caracterização dos pobres ligados ao circuito inferior.
Os pobres, na visão de nosso estudo, são aqueles que não têm
acesso, de modo regular, aos bens de consumo corrente
considerados como nimo indispensável numa certa sociedade.
Muito raramente têm acesso ao crédito institucional e representam
o essencial da clientela dos pequenos estabelecimentos comerciais
ou artesanais, que oferecem crédito pessoal a taxas usurárias.
Trata-se em geral dos não empregados e dos subempregados, mas
também dos assalariados que recebem muito pouco (SANTOS,
1979, p.38).
É possível indagar tanto sobre a permanência como sobre as
transformações dessas características. O acesso a certos bens de consumo
atingem, atualmente, também os mais pobres, por meio da forte
expansão do crédito. No lado das permanências, notamos que taxas
usurárias nos empréstimos pessoais continuam a existir, apenas não são
mais apanágio de comerciantes locais ou agiotas, e sim de grandes
corporações financeiras.
Outra transformação essencial está no reforço e
intensificação da instabilidade no emprego. Para além do desemprego
crescente, a possibilidade de permanecer em um mesmo emprego por
períodos mais longos é menor hoje do foi que nos anos 1970
(POCHMANN, 2001). Assim o cotidiano se torna mais ameaçado e instável.
139
O empobrecimento relativo no período atual está ligado ao
hiperconsumo
109
que se sustenta nos processos de: financeirização
(expansão do crédito e muito mais), de redefinição das relações entre
produção e consumo e de criação de mecanismos e necessidades ligadas à
diferenciação social que têm, na posse e nos modos de usar certos bens e
serviços, os seus corolários.
Participa também do empobrecimento relativo e da
desvalorização do trabalho e das atividades não-modernas a perda de
capacidades para, por exemplo, ter acesso a ocupações (não apenas
empregos) cercadas de prestígio e dotadas de melhor remuneração.
Impõe-se a nós questão de se, em face das características
do período atual, a teoria dos circuitos, especialmente o conceito de
circuito inferior, oferece possibilidades realmente heurísticas de
interpretação da dinâmica de atualização da pobreza urbana.
Oferecer alguns elementos que, a partir de uma analise
teórica e empírica centrada no circuito inferior de Londrina, permitam
construir uma resposta positiva a essa questão é a tarefa que nos
colocamos. Analisamos a seguir a estruturação e o funcionamento de
algumas atividades do circuito inferior que se desenvolveram a partir do
final dos anos 1990, quando o desemprego e o empobrecimento relativo
moveram milhares de trabalhadores a constituir novas inserções na
divisão social do trabalho.
109
Essa ligação entre empobrecimento e hiperconsumo (LIPOVETSKY, 2007) não se faz apenas pelo
endividamento das múltiplas prestações e saldos não quitados dos cartões de crédito, mas se refere também às
formas de participação social mediadas por redes sociais que exigem a posse de equipamentos e serviços que não
estão acessíveis à grande maioria, como internet móvel, acesso em banda larga entre outros. Além disso, o
consumo é uma arena em que as questões simbólicas, prestígio e inserção social, não podem ser esquecidas.
140
4.2 – A caracterização do Camelódromo de Londrina
O Camelódromo de Londrina reúne aproximadamente 260
pequenos estabelecimentos comerciais. Predominam o comércio varejista
de artigos de vestuário e acessórios, com 25% dos estabelecimentos, e o
comércio varejista de discos, CD, DVD e fitas com 21% dos
estabelecimentos.
Inaugurado em janeiro de 2003, o Camelódromo de
Londrina está situado na área central da cidade, na esquina das ruas
Sergipe e Mato Grosso. Os proprietários dos estabelecimentos estão
diretamente envolvidos na atividade diária e, além deles, em 44% dos
estabelecimentos trabalham mais uma pessoa e em 29% dos
estabelecimentos dois ou mais funcionários. Dessa forma, em cada dez
estabelecimentos, sete têm no mínimo um funcionário trabalhando.
Contando também o pessoal administrativo, de segurança e limpeza
estimamos que o Camelódromo de Londrina seja responsável pela geração
de empregos diretos, ocupação diária e renda para mais de 800 pessoas.
Figura 3
Camelódromo de Londrina, 2006
Fonte: Londrix, disponível em
<<http://www.londrix.com/noticias.php?id=18297>>
Acesso em 15 de julho de 2008.
141
Os estabelecimentos do Camelódromo de Londrina utilizam
diversos equipamentos em suas operações cotidianas. Os dados do
trabalho de campo
110
nos permitiram constatar que parte dos
estabelecimentos do Camelódromo são usuários de equipamentos e
serviços modernos. O telefone fixo está presente em 68% dos
estabelecimentos; no entanto, poucos informaram utilizar o telefone em
suas vendas, apenas 8 estabelecimentos, o equivalente a 10% dos
entrevistados.
Mais da metade dos estabelecimentos, 52%, dispõem de
máquinas de cartão de débito das bandeiras Visa e Master, permitindo aos
clientes o uso de cartões bancários nos pagamentos. A presença de
cartões de crédito obedece exatamente à mesma distribuição. Os mesmos
estabelecimentos que disponibilizam para os clientes o uso de cartão de
débito, também o fazem com os cartões de crédito e utilizam os mesmos
equipamentos para isso. Também aceitam cartões de crédito tanto pela
bandeira Visa quanto pela bandeira Master.
O uso do computador é pouco freqüente. Em 85% dos
estabelecimentos não computador. Dentre os 12 estabelecimentos que
possuem computador estão os que vendem e recondicionam celulares e
produtos eletrônicos. São esses estabelecimentos que fazem uso mais
freqüente desse equipamento.
Também uma loja que vende camisetas estampadas com
motivos ligados ao Rock e a Cultura Pop que faz uso do computador nas
vendas de seus produtos, principalmente para divulgá-los, obter
informações atualizadas e atender as solicitações dos clientes.
O uso da Internet segue a mesma distribuição dos
computadores, isto é, são os mesmos estabelecimentos que utilizam
computadores e que também utilizam a Internet. Apenas 10% dos
estabelecimentos possuíam todos os equipamentos: máquinas para cartão
de débito e crédito, computador e telefone fixo.
110
Trabalho de campo realizado entre 2007 e 2008. Conforme indicamos na introdução, por meio desse trabalho,
colhemos informações nas quais nos baseamos para confeccionar mapas, tabelas, etc., bem como entrevistas e
relatos. Nesta tese, será indicado como Trabalho de campo e o ano base dos dados tabulados.
142
Os estabelecimentos do Camelódromo de Londrina recebem
a maior parte dos pagamentos em dinheiro e a vista. A venda com uso de
cheques pré-datados ocorre principalmente nos estabelecimentos que
vendem produtos eletrônicos, suprimentos para informática e artigos de
vestuário (bolsas e roupas), mas não é freqüente.
O aprofundamento da unicidade técnica e a intensa
monetarização da vida cotidiana viabilizada pelas várias formas que o
dinheiro assume são processos que estão presentes nas atividades do
circuito inferior. Esses elementos participam da reestruturação e
atualização do circuito inferior em face das características do período
atual. No entanto, é importante destacarmos que as características
fundamentais das atividades que permitem considerá-las como parte do
circuito inferior não são alteradas. Os estabelecimentos do Camelódromo
ainda atendem a um público composto de assalariados que ganham
pouco, apresentam uma organização burocrática muito incipiente, utilizam
trabalho familiar, são dependentes das dinâmicas do circuito superior,
tanto pelo lado da aquisição das mercadorias, quanto pelo lado das
vendas, entre outras características.
143
4.2.1 – A gênese do Camelódromo de Londrina
Inicialmente seus ocupantes eram provenientes de dois
locais distintos que se constituíram a partir de meados dos anos 1990 e ao
longo da primeira cada do século XXI, período em que se intensificaram
os conflitos entre camelôs, prefeitura e entidades da sociedade civil em
Londrina.
O primeiro local foi o antigo Camelódromo, improvisado em
instalações precárias na calçada da Avenida Leste-Oeste, próximo ao
Museu padre Carlos Weiss (museu histórico de Londrina) de onde vieram
94 camelôs para o atual Camelódromo.
Figuras 4 e 5
Primeiro Camelódromo de Londrina, 1997
Fonte: Arquivo Folha de Londrina.
O primeiro Camelódromo, situado na Avenida Leste-Oeste
começou como uma longa fileira formada por cerca de noventa barracas,
cada uma medindo aproximadamente 1,5 metro de largura. A construção
desse ajuntamento de camelôs começou no final de 1995, durante a
administração do Prefeito Luiz Eduardo Cheida. A precariedade dessa
primeira instalação ficava patente em dias de chuva e vento nos quais a
atividade ficava praticamente paralisada e algumas mercadorias
estragavam.
Como condição para manter a interlocução com a Prefeitura,
os trabalhadores do Camelódromo tiveram que abrir micro empresas
transformando-se em pessoas jurídicas, exigência posta pelo executivo
municipal para ocupar um espaço no Camelódromo. Constituíram também
144
a Associação do Camelódromo de Londrina (ACAL). Essa Associação
passou a representar os camelôs na reivindicação de melhorias para o
Camelódromo, que aos poucos foram sendo implantadas. Em dezembro
de 1997, dois anos após o início das atividades no Camelódromo da
Avenida Leste-Oeste, o local foi reformado e uma cobertura metálica
passou a proteger todo o conjunto das intempéries. As barracas foram
redistribuídas, formando duas fileiras, uma de frente para a outra, de
modo a criar uma espécie de galeria. O custo das obras, cerca de R$ 20
mil na época, foi repassado aos camelôs, que pagaram parcelas de R$
200,00 (BARONI,1997).
Essa forma de remediar “o problema dos camelôs” não foi
suficiente para conter o avanço do comércio ambulante na cidade. Em
paralelo com o crescimento acelerado do número de trabalhadores
desempregados crescia também o número de vendedores ambulantes que
se abasteciam com produtos obtidos nas cidades paraguaias de Guairá e
Ciudad del Este.
Também as transformações em Foz do Iguaçu e Ciudad del
Este, a partir do final dos anos 1980, com a passagem do comércio ligado
ao turismo de compras para o comércio praticado, em escala crescente,
pelos chamados sacoleiros (PERIS e LUGNANI, 2003, p.94) contribuíram
para o crescimento acelerado do número de camelôs
111
.
Desde o início dos anos 1990, o agravamento das crises
política e econômica resultantes do turbulento período em que o país foi
submetido ao (des)governo do presidente Collor de Melo fez com que o
problema do desemprego, grave a partir de meados dos anos 1980, se
tornasse crônico. Além das transformações técnicas e organizacionais
111
Até os anos 1980 Ciudad del Este era freqüentada majoritariamente por pessoas que faziam turismo em Foz
do Iguaçu e que complementavam seus passeios com compras na cidade do país vizinho. O término das obras de
Itaipu criou um enorme desemprego na região. Ao mesmo tempo, a convergência entre o aparecimento de novos
produtos eletrônicos como o videocassete, aparelhos de som, walkman, e mais tarde dos equipamentos digitais e
de informática, entre outros, e a conjuntura nacional de grande inflação, valorização do dólar e desemprego
favoreceram o início do chamado comércio de sacoleiros. Na região, os desempregados das obras da
hidrelétrica passaram a atuar como laranjas, aqueles que realizam o transporte das mercadorias adquiridas pelos
sacoleiros, que, por sua vez, são as pessoas de outras cidades e estados que vão a Foz e Ciudad del Este para
comprar diversos tipos de produtos para revende-los em seus locais de origem.
145
pelas quais passavam as empresas, especialmente as indústrias, a
desorganização da produção promovida pela abertura indiscriminada da
economia nacional às importações e o confisco das poupanças inerentes
ao chamado Plano Collor, contribuíram para o agravamento do
desemprego em todo país e para a multiplicação de pessoas envolvidas
com o comércio ambulante e outras atividades ditas “informais”.
No Paraná, no final dos anos 1990, estimava-se que havia
mais de 900 mil pessoas trabalhando por conta própria, acompanhando o
processo de empobrecimento concomitante ao de desmontagem do
mercado de trabalho formal.
PR tem 900 mil no trabalho informal
Pesquisas feitas pela Fundação Getúlio Vargas mostram que
quanto menor a renda domiciliar, maior é a taxa de
informalidade
Para o economista e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas
(FGV), Marcelo Cortes Neri, o mercado de trabalho informal e a
pobreza caminham juntos. Ele apresentou ontem dados de
pesquisas feitas pela FGV que mostram que quanto menor a renda
domiciliar, maior é a taxa de informalidade. [...] No Paraná 900
mil pessoas que trabalham por conta própria.
‘‘A informalidade é o principal problema do mercado de trabalho do
Brasil’’, afirmou o pesquisador. Ele disse que no Brasil sempre
houve uma preocupação muito grande com o desemprego e os
trabalhadores informais nunca receberam muita atenção. ‘‘O
segmento informal não é pobre de renda, mas também pobre
de políticas’’, considerou (FÉLIX, 2001).
A situação precária desse grande contingente de
trabalhadores repercutiu diretamente nas cidades paranaenses. No início
dos anos 2000, em diversas cidades médias do Paraná, tais como Campo
Mourão, Cascavel, Maringá, Ponta Grossa e principalmente Londrina as
ruas e calçadas próximas aos locais de grande fluxo diário de pessoas
foram sendo progressivamente ocupadas por ambulantes e suas barracas.
Assim, intensificaram-se os conflitos entre camelôs, comerciantes,
pedestres, prefeituras e outros grupos sociais.
Os Camelódromos, locais de concentração dos ambulantes,
multiplicaram-se nas cidades médias paranaenses
112
como respostas à
112 Entre 1998 e 2000 as manchetes dos jornais indicam com alguma clareza a presença crescente do comércio
ambulante e a intensa difusão de Camelódromos nas principais cidades do Paraná:
146
crise do emprego e da ocupação que pesava como uma sombra sobre a
sobrevivência dos trabalhadores menos qualificados. Em Londrina,
segunda maior cidade do Paraná, a situação de desemprego também se
mostrava crítica. Os jornais da época registraram o problema.
Região de Londrina tem 101 mil sem trabalho, diz estudo.
Prévia de pesquisa da UEL aponta desemprego de até 15%
na cidade
Prévia de uma pesquisa realizada pelo professor de sociologia da
Universidade Estadual de Londrina (UEL), João Batista Filho,
aponta 101 mil desempregados na microregião de Londrina.
Somente no município, o professor calcula que, entre 10% a 15%
da população, esteja desempregada atualmente.
‘‘O número considera, além dos trabalhadores parados, aqueles
que sobrevivem de bicos e a o-de-obra especializada que não
arranja emprego em sua área, submetendo-se a trabalhar em
qualquer função para não morrer de fome’’, diz Batista. (LOPES, C.
1998).
Atividades responsáveis por grande parte do emprego e da
ocupação na cidade como a construção civil, a indústria têxtil e a de
confecções, sofreram duros golpes na nova conjuntura, marcada pela
retração dos investimentos blicos e do financiamento para habitação e
Campo Mourão – 1998
Prefeitura teme aumento de ‘camelôs’. Autorização para os ambulantes é fornecida sob critérios rígidos
para garantir a organização do setor.
A Prefeitura de Campo Mourão está preocupada com a possibilidade de aumento do número de
‘‘barraqueiros’’ e vendedores ambulantes pelas ruas da cidade. Reuniões com os cerca de 50 vendedores que
têm autorização para trabalhar em barracas padronizadas estão sendo realizadas.
(SAUER, 1998)
Cascavel – 1999
Camelódromo perde a freguesia
As lojas dos camelódromos de Cascavel, que foram 500, hoje estão praticamente desertas. Muitas
fecharam as portas. A alta do dólar gerou uma séria crise para o comércio de produtos importados.
(PEGORARO, 1999)
Maringá – 1999
Comércio ambulante - Emissão de licença é suspensa
A emissão de novas licenças para vendedores ambulantes de Maringá foi novamente suspensa por causa do
excesso de pessoas trabalhando nas ruas da cidade. É a segunda vez em dois anos que a prefeitura suspende
os alvarás para ambulantes. (ZANATA, 1999)
Ponta Grossa – 2000
Eleito vai desocupar praça tombada
Uma das mudanças da administração de Péricles de Holleben Mello (PT), prefeito eleito de Ponta Grossa,
no próximo ano, será no camelódromo da cidade. Localizado na Praça João Pessoa, ao lado do terminal
central de ônibus urbano, o camelódromo reúne atualmente cerca de 150 vendedores ambulantes. A proposta
de Péricles é retirar as barraquinhas desse local e abrir a possibilidade dos camelôs trabalharem em outros
pontos da cidade. (CERVI, 2000)
147
pelo aumento da concorrência de produtos importados, especialmente os
produtos chineses.
No comércio e nos serviços, o desemprego também cresceu,
induzido pela inflação acelerada, pelas trocas de moeda e pela recessão.
Em face dessa conjuntura continuou a crescer o número de trabalhadores
que se transformou em camelôs, moto taxistas e outras atividades ditas
“informais”. Em razão disso, tornou-se imperiosa a necessidade de ocupar
um lugar na cidade e criar condições para que as novas atividades
pudessem resistir. Acirraram-se os conflitos.
No caso dos camelôs, os conflitos derivavam de diversas
situações. Por exemplo, o uso de espaços públicos na área central como
calçadas, ruas, praças e o próprio calçadão causando reclamação de
pedestres, comerciantes e a intervenção da Prefeitura.
Camelôs continuam sem local definido
Nova reunião foi marcada para hoje porque não houve
acordo; ambulantes não querem voltar para praça por falta
de segurança
Representantes dos vendedores ambulantes da Praça Rocha
Pombo deverão se reunir hoje, às 10 horas, com o presidente da
Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), Gustavo
Santos, para tentar chegar a um acordo sobre o local que os
camelôs vão ocupar no centro da cidade. Ontem eles participaram,
junto de outros representantes de órgãos municipais e Polícia
Militar, de reunião no gabinete do prefeito Jorge Scaff (PSB). O
encontro durou aproximadamente três horas, mas terminou sem
que se chegasse a uma solução definitiva (LEÃO, 2000).
Os lojistas, diretamente afetados pela concorrência e pelo
menor preço das mercadorias oferecidas pelos ambulantes, também se
mobilizavam em face do crescimento contínuo desses novos atores
urbanos.
Comerciantes de Londrina pedem saída de camelôs
Permanência dos trabalhadores informais em frente aos
estabelecimentos comerciais estaria acarretando prejuízos,
dizem os proprietários
Um grupo de comerciantes da Avenida São Paulo e Rua Professor
João Cândido, em Londrina, se reuniu ontem com o presidente da
Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), Wilson
Sella, para reivindicar a saída de mais de 240 camelôs que ocupam
as calçadas das duas ruas. Segundo os comerciantes, a
permanência dos trabalhadores informais em frente aos
148
estabelecimentos comerciais afasta os clientes acarretando
prejuízos para os proprietários (GOUVEIA, 2001).
Também havia conflitos entre os próprios camelôs, entre
aqueles estabelecidos e os recém-chegados, entre os que haviam
conquistado um ponto de vendas no Camelódromo da Avenida Leste-
Oeste e os que se multiplicavam nas calçadas do Terminal Urbano Central.
Havia ainda conflitos com o Ministério Público e a Polícia Federal, pelo fato
de que muitas mercadorias eram adquiridas no Paraguai sem passar pelos
devidos trâmites legais.
TRABALHO ARRISCADO
Camelôs tentam driblar fiscalização
Um dia depois do arrastão feito pela Polícia e a Receita Federal,
ambulantes retornaram às ruas para comercializar mercadorias
Vendedores ambulantes que comercializam mercadorias
contrabandeadas - cigarros, relógios, óculos, calculadoras, flores
artificiais, entre outras - nas proximidades do Terminal Urbano de
Londrina estavam revoltados ontem com o arrastão realizado na
véspera pela Polícia Federal e Receita Federal. A ação foi
determinada pela Procuradoria da República de Londrina, que
atendeu representação da Companhia Municipal de Urbanização
(Comurb) e Associação dos Camelôs de Londrina (Acal).
Vários ambulantes perderam as mercadorias, mas nem assim
desistiram de voltar às ruas ontem. [...]‘‘Qualquer coisa eu saio
correndo com a caixa’’, disse, alegando que se perder a
mercadoria, não tem como comprar outra. ‘‘Nosso dinheiro está
todo investido aqui.’’ Ela trabalha junto com o marido e afirmou
que o dinheiro conseguido com as vendas - de R$ 20,00 a 30,00
por dia - é para sustentar os três filhos do casal.[...]
Outra ambulante, indignada, dizia: ‘‘O delegado Morel (chefe da
Polícia Federal em Londrina) falou não mais fazer arrastões, mas
hoje cedo pegaram a mercadoria de uma pessoa. Aqui todo
mundo é pobre e desempregado. Achei um absurdo a Polícia
Federal ficar aqui pegando coisa de pouco valor, como tiara e
escova de cabelo, cadeado, batom’’ (LEÃO, 1999).
A dimensão e a intensidade dos conflitos cresceram entre
1999 e 2001, período em que novas e maiores levas de trabalhadores
desempregados que passaram a atuar como camelôs, reocuparam ruas e
calçadas da área central liberadas pelo deslocamento de outros
ambulantes para o Camelódromo da Avenida Leste-Oeste.
A partir de meados do ano 2000, em plena campanha
eleitoral realizada após a cassação do Prefeito Antonio Bellinati,
paulatinamente tomou corpo a proposta de um novo e maior
149
Camelódromo para a cidade. Os jornais da época registraram o início dos
debates sobre a criação de um novo Camelódromo com 250 barracas que
deveria abrigar os vendedores de lanches e todos os 200 ambulantes que
trabalham no quadrilátero central formado pelas avenidas São Paulo, Rio
de Janeiro e ruas Sergipe e Professor João Cândido” (RODRIGUES, 2000)
A partir de outubro do ano 2000, após várias idas e vindas,
cresceram as polêmicas sobre a presença e o destino dos ambulantes no
centro principal de Londrina. A iniciativa desses trabalhadores de ocupar e
permanecer na Praça Rocha Pombo, patrimônio histórico da cidade,
tombado desde meados dos anos 1970, provocou reações enérgicas do
poder público. Em dezembro do mesmo ano a Promotoria do Meio
Ambiente entrou com uma ação civil pública contra o Prefeito, o diretor da
Companhia Municipal de Transito e Urbanismo (CMTU) e o representante
dos camelôs e presidente da Associação dos Vendedores de Produtos
Nacionais e Importados (AVPNI), responsabilizando-os por danos ao
patrimônio público e exigindo a desocupação da praça.
Os ambulantes deslocaram-se novamente para as ruas
adjacentes ao Terminal Urbano, concentrando-se na Rua São Paulo. A
efervescência do momento político da cidade abriu o espaço político para
a ascensão de novos atores. Com a vitória do candidato do Partido dos
Trabalhadores (PT), Nedson Michelleti, nas eleições municipais de 2000,
novas perspectivas de enfrentamento da questão dos camelôs seriam
efetivadas.
Segundo o Prefeito Nedson Micheleti
113
ao iniciar seu
primeiro mandato em 2000, encontrou um quadro de desordem e
desorganização social no qual se incluíam o crescimento das ocupações
urbanas, um grande número de camelôs ocupando as calçadas da região
central e a expansão do moto taxi sem regulamentação efetiva da
atividade.
113
As informações do relato que elaboramos sobre a atuação do executivo municipal na constituição do
Camelódromo de Londrina, foram colhidas em entrevista gentilmente cedida pelo prefeito Nedson Michelleti em
17 de dezembro de 2008.
150
Com relação aos camelôs a primeira providência da
Prefeitura foi cadastrar os ambulantes concentrados nas imediações
Terminal Urbano Central identificando aqueles que estavam diretamente
empenhados na atividade comercial de forma regular e contínua. Segundo
o Prefeito Nedson Micheleti:
O cadastramento foi rigoroso e foi efetuado no nome de cada
pequeno comerciante, evitando a permanência de pessoas que
vendiam mercadorias pertencentes a terceiros e que não tinham
uma relação direta com a prática comercial. Evitamos também que
aqueles que eventualmente usavam o espaço do camelódromo
para outras práticas como o jogo, fossem desistindo de ficar
naquele local, seja por que não se adaptaram à nova situação,
uma vez que trabalhavam para terceiros, seja por que sua
atividade passou a ser dificultada e vigiada pelos próprios camelos
que se regularizaram e que não queriam ter problemas com a
fiscalização. Assim o número total de camelos diminuiu.
Os representantes dos ambulantes intensificaram o diálogo
como a nova administração municipal em torno da proposta de constituir
um novo Camelódromo
114
.
Para viabilizar o novo Camelódromo a Prefeitura estabeleceu
uma estratégia de ação na qual, após o cadastramento, o passo seguinte
foi a interdição e a desafetação do uso público de um trecho da Rua São
Paulo entre o Terminal urbano e o Museu Histórico onde foi
provisoriamente construído um conjunto de 220 barracas padronizadas.
Esse novo ajuntamento que concentrou os ambulantes da região central,
congelando o número desses trabalhadores, permitiu à prefeitura um
dimensionamento mais claro do novo Camelódromo.
Dessa forma, a partir de meados de 2001, um segundo
agrupamento de camelôs, ainda maior que o do primeiro Camelódromo,
114
Em meados de 2001 os representantes dos camelôs procuraram a administração municipal para apresentar
sugestões para a realocação do comércio ambulante na região central, conforme indica a reportagem a seguir:
Os camelôs do centro de Londrina querem instalar um centro comercial popular com espaço para atividades
culturais no terreno público localizado entre o Pronto Atendimento Infantil (PAI) e a Supercreche, na Rua
Benjamin Constant. Esta é a única grande área pertencente à Prefeitura, situada no miolo da região central de
Londrina. [...] Agora a Associação dos Vendedores Ambulantes da Rocha Pombo sugere que seja construído no
local uma espécie de shopping popular, nos moldes do Mercado Modelo de Florianópolis (SC). Na quarta-feira
Manoel Barbosa, presidente da associação, apresentou a idéia para o presidente da CMTU, Wilson
Sella.[...]Sella diz que endossa a idéia dos camelôs, mas o local onde este espaço será instalado ainda não foi
definido. Desde que assumiu a CMTU, quatro meses, a solução para os camelôs está em estudo”.
(PELLEGRINO, 2001)
151
passou a funcionar no referido trecho da Rua São Paulo reunindo 220
camelôs em barracas de 1,5 m de largura. Essa nova concentração
constituiu o segundo local de origem da grande maioria dos camelôs que
foram para o novo Camelódromo de Londrina na esquina das Ruas Mato
Grosso e Sergipe.
Paulatinamente o executivo municipal estreitou as relações
com os representantes das associações dos camelôs, especialmente os
que eram representados pela Associação de Vendedores de Produtos
Nacionais e Importados da Praça Rocha Pombo (AVPNI) que contava com
mais de 150 associados. Essa associação deu origem a uma Organização
Não governamental: a ONG Canaã, que mais tarde seria responsável pela
administração do novo Camelódromo.
O Prefeito Nedson relatou que a essa altura, isto é, após o
cadastramento e concentração dos ambulantes nas instalações provisórias
da Rua São Paulo, a Prefeitura havia traçado o plano de constituir um
novo Camelódromo e nele reunir os camelôs do primeiro Camelódromo e
também os do novo ajuntamento provisório.
Conforme Micheleti, a intenção era conduzir os camelôs
cadastrados a um imóvel em que pudessem se organizar coletivamente.
Para tanto, foram feitas visitas e contatos com outras prefeituras como as
de Florianópolis, Curitiba, Cascavel, Foz do Iguaçu e outras do interior de
São Paulo, que haviam realizado iniciativas semelhantes, criando espaços
destinados a abrigar os ambulantes, retirando-os das ruas. Constataram
problemas trazidos para a administração municipal nos modelos
encontrados.
Nessas visitas, a equipe percebeu que, onde os
Camelódromos foram implantados em imóveis públicos, havia uma rie
de restrições e entraves administrativos que traziam complicações
indesejáveis para a administração municipal tais como: licitações
freqüentes, fiscalização e normatização do uso, manutenção, etc. Do lado
dos camelôs esses entraves poderiam encarecer sua atividade ou limitá-la
e, assim, esses Camelódromos tendiam a se esvaziar e os camelôs a
152
voltar para as ruas. Por isso, o executivo municipal foi definindo uma série
de parâmetros para dar forma ao novo Camelódromo:
O espaço para o Camelódromo deveria ser privado.
Assim não caberia diretamente à prefeitura a
regulação da atividade interna e não haveria
necessidade de licitação decorrente de contratos de
uso dos espaços com duração específica, entre outras
medidas legais;
O contrato de aluguel não poderia ser celebrado em
nome da prefeitura. Os camelôs deveriam formar
associações ou entidades coletivas para gerir o
empreendimento e a prefeitura atuaria por meio de
convênios com essas entidades dando suporte legal e
financeiro a algumas de suas ações.
Com base nesses parâmetros, ficou acertado que a
prefeitura auxiliaria a associação encarregada da administração do novo
Camelódromo, arcando com os aluguéis durante os primeiros 24 meses.
Para isso, a administração municipal apoiou-se na lei municipal de
incentivo as empresas
115
.
Na prática, a configuração do novo Camelódromo de
Londrina ganhou seus contornos ao longo do ano de 2002. Os protestos e
contraposições dos tradicionais adversários políticos da administração do
Prefeito Nedson, a exemplo da Associação Comercial e Industrial (ACIL),
subiram de tom das críticas à medida que o novo camelódromo se
configurava. O Ministério Público foi insistentemente acionado e
prontamente se mobilizou, convocando as Policias Federal e Civil, que
realizaram investidas sucessivas em 2002 e recolheram grande parte das
mercadorias comercializadas pelos camelôs.
Os próprios camelôs que segundo o Prefeito, antes eram
dominados pelo político Antonio Belinati, também se voltaram contra a
Prefeitura e temiam se afastar do terminal urbano. Com muito custo
115
Lei Municipal 9988 de 2006 e Lei 4320 de 1964.
153
reconheceram alguns pontos positivos nas iniciativas da Prefeitura
segundo Micheleti.
A situação era complexa e a Prefeitura contava com poucos
apoios políticos para essa empreitada. Aos poucos, conforme
vislumbraram melhores possibilidades de se fixar no comércio com a
regularização de suas atividades, parte dos camelôs aliou-se ao Prefeito
Nedson, apoiando fortemente sua reeleição em 2004.
A organização interna do novo Camelódromo foi definida
pela Prefeitura Municipal ao longo de 2002, período em que o diálogo com
os representantes dos camelôs foi se tornando mais freqüente e por vezes
mais tenso. A estrutura adotada baseou-se na necessidade de abrigar os
316 camelôs então cadastrados pela Companhia Municipal de Urbanização
(COMURB). No plano do executivo municipal a forma do novo
camelódromo seria a de um espaço privado gerido pelos próprios camelôs
e apenas incentivado pelo poder público. O arcabouço legal foi o mesmo
que permitia à Prefeitura fazer concessões e apoiar a implantação de
novas empresas no município. Após rias especulações, idas e vindas, o
Executivo municipal e os representantes dos camelôs definiram o local
para o novo camelódromo, um edifício de 2 andares, onde funcionara uma
fábrica de móveis.
De início a localização suscitou muitas dúvidas nos camelôs
temerosos de se afastar do Terminal Urbano. No entanto, para muitos, as
novas condições eram muito superiores àquelas em que trabalhavam. O
novo camelódromo foi internamente adaptado com construção de 316
boxes, isto é, pequenos espaços padronizados medindo 2 metros de
largura e comprimento variável, entre 1,5 e 2 metros
116
.
O custo da reforma que adaptou o local para que fosse
ocupado pelos camelôs foi bancado pela Prefeitura. Também ficou definido
que durante os primeiros 24 meses o aluguel do imóvel seria pago pelo
116
“No novo Camelódromo estão previstas 316 bancas, sendo que 146 funcionarão no primeiro andar e outras
170 unidades no térreo. O projeto contempla também, no pavimento superior, a praça de alimentação. [...] Os
boxes terão dois metros de largura e comprimento variável, entre dois metros (184 boxes), 1,8 metro (115 boxes)
e 1,5 metro (17 boxes).” (ESPÍNDOLA, 2002)
154
município. Segundo o Prefeito Nedson tratava-se de, durante um prazo
determinado, criar condições para incubar atividade e torná-la o mais
formal possível, sem que a Prefeitura ficasse permanentemente
responsável pelo empreendimento.
Em janeiro de 2003 os camelôs se transferiram do antigo
Camelódromo da Avenida Leste-Oeste e das instalações improvisadas da
Rua São Paulo para o Camelódromo de Londrina na Rua Mato Grosso,
esquina com a Sergipe. A administração do novo Camelódromo ficou a
cargo da ONG Canaã, uma Organização Não Governamental criada a partir
das associações que representaram os camelôs desde meados dos anos
1990: a Associação do Camelódromo de Londrina (ACAL) criada pelos
camelôs instalados no antigo Camelódromo e a Associação dos
Vendedores de Produtos Nacionais e Importados (AVPNI) formada pelos
camelôs concentrados na Rua São Paulo.
O auxílio da Prefeitura nos dois primeiros anos foi
fundamental para que o empreendimento pudesse se firmar. Desde então,
o formato que o Camelódromo de Londrina assumiu foi imitado e se
reproduziu na cidade. A reunião de grande quantidade de pequenos
comerciantes oferecendo mercadorias diversas em um mesmo local,
dividindo custos de manutenção como água, luz, telefone, aluguel, etc.,
gera condições concretas para a sobrevivência desses empreendimentos,
ainda que os resultados comerciais sejam, na maioria dos casos, bastante
modestos: um faturamento bruto mensal de R$ 5.447,00
117
em média, no
caso do Camelódromo de Londrina.
Essa informação foi a mais difícil de obter em relação ao
trabalho de campo no Camelódromo, apenas 63 estabelecimentos
informaram o seu faturamento, alguns de forma aproximada. O maior
valor informado foi de R$ 27.000,00 em um estabelecimento que
comercializa diversos produtos eletrônicos e o menor informado foi de R$
1.500,00 em uma loja que vende DVDs.
117
A média foi calculada com base nas informações de 61 estabelecimentos, desprezando assim as duas
informações discrepantes referentes ao maior e menor valor informados.
155
A perspectiva de enfrentar o desemprego, a grande
rotatividade de mão de obra praticada pelas empresas e ainda encontrar
alguma prosperidade, fez multiplicar empreendimentos semelhantes ao
Camelódromo de Londrina:
Camelôs comemoram crescimento da atividade
A atividade de camelô cresce a cada dia em Londrina e, segundo
apurou a reportagem numa consulta informal realizada ontem,
garante renda mensal de, no mínimo, R$ 800 por pessoa. Legais
ou ilegais, os vendedores que conseguiram se estabelecer nos
camelódromos da cidade sentem-se satisfeitos com seus negócios
e dizem que o “mercado” está em expansão.
E os negócios devem crescer ainda mais com a inauguração do
novo camelódromo, no coração da cidade, na antiga Galeria do
Cine Augustus. A previsão é de que a partir de 5 de outubro pelo
menos pequenos 300 boxes iniciem as atividades. (FRAZÃO, 2006)
O empobrecimento e a instabilidade do cotidiano, que se
tornaram crônicos com o desemprego e a queda nos valores médios das
remunerações pela oferta superabundante e concentrada de força de
trabalho, continuaram a mover mais e mais pessoas, homens e mulheres,
para a vida de camelôs. Por conta dessa possibilidade e de toda a
ideologia do negócio próprio, insuflada pelo desemprego e também pelas
baixas remunerações oferecidas a funções acessíveis àqueles que não
possuem condições de disputar as minguadas funções mais bem
remuneradas, multiplicaram-se os camelódromos na cidade.
Em Londrina há, atualmente, até mesmo o aproveitamento
específico de imóveis centrais que foram reformados de maneira a se
assemelharem ao novo Camelódromo e que se tornaram negócios
imobiliários nos quais, cada pequeno Box, é alugado por valores iniciais
que variam conforme a posição dentro do edifício, variando de R$ 540,00
a 900,00 (valores de 2007, quando um dos negócios estava sendo
inaugurado). Esse é o caso da Galeria Benjamin, edifício de 2 andares
situado na Rua Sergipe, em frente ao Terminal Urbano, destinado a
abrigar pequenos estabelecimentos comerciais semelhantes aos do novo
Camelódromo.
156
Alguns camelôs antes instalados no novo Camelódromo, por
exemplo, resolveram eles mesmos iniciar outro Camelódromo bancando o
aluguel do edifício, sua adaptação, regularização e administração. Assim
em meados de 2006 surgia o Camelódromo Central, situado em pleno
calçadão da Avenida Paraná prevendo abrigar até trezentos novos
pequenos comerciantes. Também na Avenida Saul Elkind, zona norte da
cidade, subcentro definido pela concentração de atividades comerciais e
de serviços um espaço oraganizado com características semelhantes as do
Camelódromo de Londrina foi construído. É o “Camelódromo Cincão”,
nome que é uma referência aos cinco conjuntos habitacionais construídos
no final dos anos 1970 e que deram origem à estruturação de toda aquela
parte da cidade.
O Camelódromo não se reproduziu apenas como forma – no
sentido de modelo. O próprio Camelódromo, por suas condições de
funcionamento interno e entrosamento com o meio, impôs certa
seletividade sobre aqueles que poderiam atuar nele. Assim muitos dos que
vieram das ruas, dos dias agitados de confrontação e de esperança em
um novo modo de trabalhar e de viver foram aos poucos sendo expulsos
pela dinâmica da propriedade privada e do mercado que determinaram os
limites da permanência.
Algumas entrevistas indicaram que as características
pessoais e a trajetória de cada um influíram sobre a permanência ou não
no Camelódromo de Londrina. Algumas pessoas que haviam se adaptado
à rua temiam que o novo empreendimento fracassasse e que a perda
fosse além de suas possibilidades, temiam que o movimento de clientes
não fosse suficiente para sustentar o empreendimento. Alguns tiveram
dificuldades em gerir o negócio e venderam seu ponto, mas continuaram a
trabalhar no mesmo estabelecimento como assalariados. Outros
preferiram alugar o box e passaram a trabalhar no Camelódromo como
assalariados de amigos e parentes que também possuíam um box.
Alguns alugaram o box que lhes foi destinado e procuraram
adquirir outros, passando a explorar os aluguéis desses estabelecimentos.
157
Para Edmilson Gonzáles, um de nossos entrevistados e que
à época, em meados de 2007, era presidente da ONG Canaã, restariam
como proprietários dos estabelecimentos comerciais do Camelódromo,
cerca de 20% das pessoas que participaram do momento de embate e de
transferência da rua para o novo local. O entrevistado apontou ainda um
perfil um pouco diferente entre os que estavam batalhando nas ruas” e
os que hoje permanecem no Camelódromo. Segundo Gonzáles
As pessoas que estão hoje tiveram alguma experiência no
comércio antes. Ou como vendedores de lojas, ou vendedor
externo, ou gerente de loja, caixa e até dono de pastelaria. É um
pessoal que ao se ver desempregado ou quebrado, resolveu se
arriscar e diante de oportunidade de ter um lugar aqui no
Camelódromo tratou logo de começar a trabalhar.
Gonzáles relatou também que: O inicio, especialmente os
dois primeiros anos, foram muito difíceis e houve muita inadimplência, até
que as coisas fossem se ajeitando”. Nesse período (os dois primeiros
anos) muitos camelôs deixaram o Camelódromo repassando o
estabelecimento a outros como dissemos.
158
4.3 – A gênese do Moto Táxi
Ao longo dos anos 1990, multiplicaram-se nas metrópoles
brasileiras e também em muitas cidades do interior do país formas de
transporte denominadas de clandestinas, informais ou até mesmo ilegais.
Conforme Mamani (2004) as estimativas do governo davam conta de que,
no final dos anos 1990, haveria cerca de 40 mil veículos como vans,
kombis, pick-ups cobertas envolvidos no transporte informal pelo Brasil
afora. Entretanto, por se tratar de atividade informal, os dados não são
precisos. O fato é que, apesar de toda repressão, essas modalidades de
transporte não cessaram de se multiplicar no país a partir de meados dos
anos 1990.
Segundo a Associação Nacional de Transportes Urbanos
(1997) em maio de 1997, havia modalidades de transporte informal em
26 capitais e em 18 cidades de porte médio. O período entre 1995 e 1997
em especial parece ter sido marcado por uma acelerada proliferação
dessas iniciativas espalhadas por todo o país, dentre as quais se inclui o
Moto Táxi.
Segundo o IBGE
118
, em 2008, o serviço de Moto Táxi
estava amplamente difundido em todo território nacional, com presença
em nada menos que 52% dos municípios brasileiros. Nesse conjunto
destacam-se os municípios com população entre 50 e 100 mil habitantes,
dentre os quais se verifica o maior percentual de municípios com essa
atividade (69%). O serviço de Moto Táxi aparece com menos freqüência
nas Regiões Sul e Sudeste e está presente em mais de 70% dos
municípios das Regiões Norte, Nordeste e Centro oeste.
118
“Em 52,7% dos municípios, serviço de transporte por mototáxi. Percebe-se maior presença deste serviço
naqueles com mais de 50 000 a 100 000 habitantes, 69,0%. Nos municípios com mais de 20 000 a 50 000
habitantes, essa proporção é de 64,3.%” (Perfil dos Municípios Brasileiros 2008, p.58)
159
Mapa 9
Brasil: distribuição do serviço de Moto Táxi por Região – 2008
Fonte: IBGE, Perfil dos Municípios 2008
Gráfico 14
Brasil: percentual de municípios com presença
do serviço de Moto Táxi por Macrorregião, 2005 – 2008.
79 88
72 76 71 72
23 29
14 17
0
10
20
30
40
50
60
70
80
90
NORDESTE NORTE CENTRO
OESTE SUDESTE SUL
2005 (%) 2008 (%)
Fonte: IBGE, Perfil dos Municípios 2008
160
A rápida difusão do serviço de Moto Táxi está ligada à
convergência de pelo menos três processos distintos: o desemprego, as
baixas e baixíssimas remunerações dos postos de trabalho disponíveis à
maioria dos trabalhadores menos qualificados e a necessidade crescente
de mobilidade no meio urbano.
O momento em que o desemprego se alastrou pelo país
coincide com a expansão dos transportes alternativos no país. Além do
crescimento do desemprego, as transformações na estrutura produtiva
implicaram, para muitos trabalhadores menos qualificados, a perda de
perspectivas de recuperação de um emprego formal, tornando a
desocupação um problema crônico.
No período atual, além do desemprego crônico, as baixas
remunerações de muitos empregos formais, sobretudo na Construção Civil
e nos Serviços, impuseram às pessoas a procura por alguma forma de
ocupação e renda. Nesse sentido, o Moto Taxi passou a ser uma
alternativa de ocupação que permitiu a cerca de 500 mil trabalhadores em
todo Brasil
119
, afastarem no curto prazo, os fantasmas do desemprego,
das remunerações muito baixas e da instabilidade que acarretam. Esse
fato, aliado à periferização da população de baixa renda, afastada dos
centros e subcentros das cidades em que se concentram as oportunidades
de emprego e ocupação, ampliou ainda mais as demandas não atendidas
por mobilidade por parte de um enorme contingente de pessoas
concentradas em áreas urbanas de diferentes dimensões.
A mobilidade urbana, entendida como o deslocamento diário
da população, é um fenômeno que tem como causa a crescente
separação geográfica entre os diversos lugares de atividade e os lugares
de residência(GEORGE, 1983, p.190). Há, portanto, aspectos relativos à
dinâmica interna das cidades que interferem na expansão das
modalidades ditas “informais” de transporte e dos conflitos que essa
expansão tem gerado.
119
As informações são de Robson Alves presidente da FENAMOTO, Federação Nacional dos Motoboys e
Mototaxistas (AGÊNCIA ESTADO, [2009?]).
161
Esses fatores de ordem local combinam-se às
transformações macroestruturais, alimentando a expansão dos
transportes alternativos, bem como com sua velocidade de propagação.
Os contextos urbanos diferenciados por trás dessa expansão são
importantes para a análise da questão. Embora, existam aspectos comuns
como a legislação nacional de trânsito, os conflitos de competência
legislativa sobre o tema dos transportes e a premência da necessidade por
mobilidade que caracteriza o modo de vida urbano, outras variáveis
que afetam a questão e que requerem uma análise mais contextualizada.
São variáveis como: a estrutura urbana, as dimensões da cidade em
termos físicos e demográficos, a intensidade da segregação sócioespacial,
a disponibilidade e a eficiência do transporte público, a dinâmica
econômica e social da cidade, a força política e as alianças que os
trabalhadores do Moto Táxi conseguem ou não fazer, entre outras.
Em geral, nas cidades brasileiras, as dificuldades de
mobilidade são determinadas pelas deficiências e pelo custo do transporte
coletivo, pelas longas distâncias a percorrer para ter acesso às áreas
centrais, escolas, hospitais ou indústrias e pela impossibilidade de se
deslocar com rapidez, ocasionada pelo tráfego lento ou pela demora e
pelos trajetos das linhas de ônibus.
A circulação interna nas cidades, especialmente as maiores,
torna-se intensa à medida que mais e mais fluxos de diversas naturezas
se concentram e convergem para o meio urbano. A grande prioridade
dada ao uso do automóvel na organização dos fluxos urbanos em
detrimento de outras formas de deslocamento, especialmente dos
pedestres, (YAZIGI, 2000, p.282), acompanha o ritmo da urbanização, a
intensificação dos consumos e a expansão das classes médias.
Contudo, para os que não têm condições de possuir um
carro, a imobilidade relativa se torna real e cresce proporcionalmente às
deficiências do transporte público. Frente a essas deficiências e à
necessidade de se deslocar pela cidade, muitas pessoas se dispõem a
enfrentar os riscos de andar na garupa de uma moto.
162
A alternativa oferecida pelo Moto Taxi é a que mais se
aproxima do transporte individual proporcionado pelo automóvel, pois
oferece um deslocamento ágil e atende de forma individualizada às
necessidades de deslocamento das pessoas.
O aumento do número de motocicletas nas cidades
brasileiras, sobretudo as grandes e médias, é um dado que pode ser
constatado pela velocidade com que nos últimos dez anos cresceu a
produção interna desse bem. Segundo a Associação Brasileira dos
Fabricantes de Motocicletas, Motonetas, Bicicletas e Similares
(ABRACICLO), entre 1998 e 2007, a produção de motociclos no Brasil
mais do que triplicou, passando de 475.725 unidades para 1.734.349
unidades. A frota de motociclos se expandiu em todas as grandes regiões
do país, e respondia por 21% da frota nacional no inicio de 2007.
Essa rápida difusão parece estar aliada às possibilidades que
a motocicleta oferece como transporte individual de custo relativamente
baixo, se comparado ao de um automóvel. Ademais, existem facilidades
para a compra desse bem, como os financiamentos e os consórcios, as
duas principais formas de compra segundo a ABRACICLO. Contam
também seu consumo de combustível menor que de outros veículos
destinados ao transporte individual, à manutenção e é claro sua agilidade
e desempenho nos congestionamentos urbanos.
Esse contexto de expansão do consumo de motocicletas no
país, aliado a necessidades crescentes de mobilidade e transporte público
insuficiente, possibilitou a expansão do serviço de Moto Táxi. Segundo
Fonseca (2005, p.56):
Independentemente do tamanho das cidades, o moto táxi surge
como alternativa informal, clandestina, a um transporte coletivo
precário ou mesmo inexistente. Apresentando vantagens como
rapidez e preços reduzidos, ele atende, sobretudo às demandas
das classes de renda mais baixa, ao aliviar o peso do “transporte”
em seu orçamento doméstico e ao garantir acesso a lugares não
atendidos por ônibus, seja pela falta de pavimentação ou violência
desses lugares, seja pela baixa lucratividade que oferece às
empresas formais.
Além de preços mais reduzidos, o serviço de moto táxi apresenta
uma vantagem em comparação a outros serviços de transporte
alternativo, como o de vans e kombis: a exclusividade do
163
atendimento. Diferentemente destas modalidades de transporte,
que têm percursos e horários determinados e operam com
“lotada”, o moto táxi se estrutura como um serviço personalizado,
variando seus itinerários, preços e a formas de pagamento de
acordo com o cliente.
Discordamos da autora quanto à generalização de algumas
afirmações, tais como: Independentemente do tamanho das cidades, o
moto táxi surge como alternativa informal, clandestina, a um transporte
coletivo precário ou mesmo inexistente”. Em Londrina e Cascavel, no
Paraná, e em diversas cidades do interior paulista, o Moto Táxi encontra-
se amparado por legislação municipal, atuando em toda cidade e não
apenas em áreas desprovidas de infraestrutura urbana. Ademais, em
Londrina pelo menos, o transporte por ônibus apresenta condições
razoáveis de funcionamento.
De qualquer forma, fica evidenciado que, é na brecha das
demandas não satisfatoriamente atendidas da população mais pobre e
distante das áreas centrais que as atividades do circuito inferior, a
exemplo do Moto Taxi, encontram as oportunidades para se desenvolver.
Em diversos municípios brasileiros como Camocim e Sobral
no Ceará, em Lins e Franca em São Paulo essa nova atividade se
manifestou por volta de 1997 e 1998 (CAVECHINI; SOUZA; PAGANOTTI,
2004, p.1). Em Londrina as primeiras notícias sobre a novidade também
datam de 1997.
A Companhia Municipal de Urbanismo (Comurb) pretende entregar
até o final do mês para a Câmara de Vereadores, parecer técnico
sobre o trabalho das empresas de moto-táxi.[...] Atualmente,
quatro empresas de moto-táxi de Londrina estão trabalhando
graças a uma liminar concedida pela Justiça (CUNTO, 1997).
Em Londrina, assim como no caso do Camelódromo, a
consolidação da atividade se deu por meio de embates entre diversos
atores sociais: mototaxistas, Prefeitura, sindicato de taxistas e empresas
de ônibus do transporte coletivo municipal. A situação foi se agravando a
partir de 1997 com o rápido aumento do número de pessoas envolvidas
na atividade. Inicialmente, ainda em 1997, a Câmara Municipal rejeitou a
regularização do novo serviço levando os mototaxistas a produzir ruidosas
164
manifestações no centro de Londrina
120
. Apenas três Centrais empresas
que recebem as chamadas solicitando as corridas e acionam os
mototaxistas conseguiram decisões liminares da justiça e podiam
funcionar com algum amparo legal
121
.
A organização dos mototaxistas foi fundamental para
reverter essa situação. No final de 1998, a recém-formada Associação
Moto Taxi Norte do Paraná, representando mais de 700 mototaxistas de
Londrina, propôs um projeto de Lei de autoria popular para o qual
recolheram milhares de assinaturas (HORTA, 1998).
Como resultado desse esforço, o projeto de Lei que previa a
criação dos serviços de Moto Taxi e Moto Entrega em Londrina, tramitou
pela Câmara Municipal ao longo de 1999, e foi assinado pelo então
Prefeito Antonio Belinati em janeiro de 2000, ano de intensa disputa
política e eleitoral
122
.
De modo semelhante ao que ocorrera com os camelôs, a
situação dos mototaxistas chegaria a uma condição relativamente
estável do ponto de vista legal com a regulamentação do serviço,
realizada durante a administração do Prefeito Nedson Micheleti a partir de
2001. De acordo com o Prefeito Nedson,
123
no caso dos mototaxistas, foi
mais fácil chegar a um acordo, uma vez que a Lei 8.052
124
, criada na
administração anterior, fornecia base legal para atuação dessa categoria.
Também porque as resistências à nova atividade haviam diminuído.
120
Os jornais da época registraram os protestos da nova categoria: Os moto-taxistas fizeram ontem pela manhã
uma passeata em protesto contra a decisão da Câmara de Vereadores que, na sessão de anteontem, retirou
definitivamente de pauta o projeto que regulamenta o serviço na Cidade. Revoltados também com o parecer
contrário da Companhia Municipal de Urbanização (Comurb) ao projeto, os manifestantes fizeram uma pausa
em frente à Prefeitura. ‘‘Queremos trabalhar. Queremos trabalhar’’, gritavam.” (MORAIS, 1997).
121
Apenas as Centrais Londrina Zona Norte (que não existe mais com esse nome), Lindóia e Solução,
atualmente as duas maiores Centrais da cidade operavam com base em liminares ou sentenças do tribunal de
justiça. (HORTA, 1998)
122
Os Mototaxistas procuraram tirar proveito da acirrada disputa eleitoral e apresentaram o projeto em um
momento em que as disputas políticas na cidade estavam acirradas com a possibilidade de cassação do então
Prefeito Antonio Belinati, que acabou ocorrendo no ano 2000. O processo de cassação e as disputas a ele ligadas
acabaram por atrasar a regulamentação da Lei
Nº 8.052 de 4 de janeiro de 2000.
123
Conforme entrevista com o Sr. Prefeito Nedson Micheleti em 17 de dezembro de 2008.
124
A Lei 8.052 de janeiro de 2000 sofreu alterações., a última delas em 27 de dezembro de 2002 quando foi
alterada pela Lei 9.020, sancionada pelo Prefeito Nedson Micheleti.. Essa nova Lei definiu um número máximo
de 1.000motocicletas ativas no serviço de Moto Taxi e um número máximo de 60 centrais em toda cidade.
165
Os taxistas, por exemplo, perceberam que o novo serviço
atendia a um público de menor poder aquisitivo e os que podiam pagar
por uma corrida convencional de táxi não se dispunham a andar na
garupa de uma moto. Os proprietários de empresas de ônibus por sua vez
tentaram impedir a legalização da atividade alegando a insegurança desse
tipo de transporte e os prejuízos que esse tipo de concorrência traria. No
entanto, rapidamente o Moto Táxi foi adotado pela população.
A partir de 2001, a Prefeitura, por meio da Companhia de
Municipal de Urbanização e Transportes (CMTU), estabeleceu as normas
125
para a atuação dos mototaxistas que concretamente se integraram ao
cotidiano de Londrina.
125
Dentre as normas que definem o Serviço de Moto taxi temos as seguintes determinações:
Para o condutor: ter Carteira de Habilitação categoria “A”, curso de formação para condutor de
veículo mototáxi, atestado médico, com avaliação física e psicopedagógica, certidão de antecedentes
criminais, apólice de seguro de responsabilidade civil e facultativo, carta de apresentação e vínculo
junto à uma Central e alvará de motorista autônomo.
Para o veículo: a moto deve ter o Certificado de Registro de Veículo licenciado no Município de
Londrina em nome do autorizado, a motocicleta deverá ter tempo de uso máximo de 05 anos, potência
mínima de 125 cilindradas e máxima 250 cilindradas, sendo vedado o tipo “trail”, a motocicleta será
vistoriada e então será fornecida a autorização para emplacamento categoria “ALUGUEL” junto ao
DETRAN-PR. e a moto poderá ter no máximo 7 anos de uso.
Uma vez cumpridas as determinações, o mototaxista recebe o Certificado de Condutor de Moto Taxi com
validade periódica, o que o obriga a revalidação semestral dessa permissão.
166
4.3.1 A localização, distribuição e caracterização das
Centrais de Moto Táxi
Elemento de inserção do serviço de Moto Taxi na estrutura
urbana, as centrais estão presentes em praticamente todos os quadrantes
da cidade, mas um número maior delas na região central: cerca de 20
centrais ou 42% do total.
Mapa 10
Londrina: distribuição das Centrais de Moto Taxi, 2008
Fonte: Trabalho de campo, 2008
167
A localização e a distribuição das centrais de Moto Taxi em
Londrina nada tem de aleatória; elas derivam exatamente da ordem
espaço-temporal que caracteriza o meio construído, melhor dizendo, o
meio geográfico em Londrina. Um dado primordial dessa distribuição é
que, mesmo nas centrais localizadas no Centro Principal de Londrina, os
imóveis ocupados são de baixo valor locativo
126
e estão situados em áreas
menos valorizadas. A exceção fica por conta da Central Rota 99, uma das
maiores da cidade, que ocupava um terreno alugado na Av. Higienópolis,
nas proximidades do lago Igapó. Recentemente essa Central se mudou
para novas e melhores instalações na mesma avenida, em endereço muito
próximo ao anterior.
Todavia, os dados mais importantes dessa distribuição se
referem às centrais espalhadas pelos bairros da cidade. O primeiro deles é
que, de um modo geral, elas ocupam imóveis situados nos centros de
bairroou em avenidas de grande fluxo, onde alguma concentração de
pequenos estabelecimentos comerciais, grandes empresas de autopeças,
oficinas de conserto de caminhões, entre outros.
A proximidade com essas empresas, combinada com os
fluxos de pessoas que procuram esses locais, possibilita o contato com as
centrais e mototaxistas. Em todas as entrevistas que realizamos essa
condição, a do contato cotidiano, foi citada como base da conquista de
clientes e da construção de relações de confiança, que permite ao donos
de diversos tipos de lojas: um pet shop”, um mercadinho, uma
floricultura, uma farmácia isolada ou um açougue, solicitarem a um
determinado mototaxista que faça, por exemplo, serviços bancários.
A proximidade permite também a conquista de passageiros
que se tornam clientes freqüentes, os quais não temem andar na garupa
da moto por adquirir confiança em seu condutor. Essas pessoas acabam
por solicitar também outros serviços, como apanhar uma chave que se
126
Ainda que não tenhamos levantado essa informação de maneira sistemática, vale ressaltar que o aluguel não
foi mencionado como a principal despesa das Centrais, e sim o telefone. Além disso, com base nas entrevistas e
questionários aplicados nas 35 Centrais visitadas apuramos que o meio valor pago de aluguel era de R$ 1.500, 00
em uma Central situada na Av. Leste-Oeste bem próxima ao Terminal Urbano Central. Em 2008, nas Centrais
localizadas nos bairros os valores variavam entre R$ 500,00 e 800,00
168
esqueceu, pegar algum documento em outra cidade, enfim uma variada
gama de situações.
O segundo dado é que as centrais se localizam nas
proximidades de bairros em que concentração de responsáveis por
domicílios com ganhos dios de até 2 salários mínimos. Considerando
também as indicações dos bairros de onde as centrais recebem mais
chamadas, foi possível constatarmos que, sobretudo nas centrais
espalhadas pelos bairros, são as pessoas que vivem em famílias com
menores rendimentos os principais usuários desse serviço, o que reforça
sua caracterização como atividade do circuito inferior.
O terceiro aspecto, o qual reforça os anteriores, é a
ausência de centrais no setor sudoeste de Londrina, que, grosso modo,
pode ser delimitado como a parte da cidade que se estende na direção sul
e sudoeste, entre a Universidade Estadual Londrina, o Shopping Catuaí e o
Lago Igapó. Essa parte da cidade reúne diversos condomínios fechados,
alguns bairros elitizados como o Jardim Bela Suíça e a Gleba Palhano,
local de recente e veloz processo de verticalização com edifícios de padrão
médio e alto, que se expressam no valor do metro quadrado construído, o
qual supera a casa de R$ 2.000,00.
Nessa área, além da concentração de pessoas com
rendimentos médios e elevados (acima de 5 salários mínimos), a própria
configuração do meio construído constitui obstáculo à instalação das
centrais, uma vez que nos bairros citados, não se verifica a presença de
centros de bairro característicos como em outras partes da cidade. Vale
lembrar, no entanto, que demandas para corridas realizadas pelos
mototaxistas.
As concentrações de estabelecimentos comerciais e de
serviços nas avenidas da parte sudoeste da cidade ou em outros
logradouros, em geral, são pertencentes ao circuito superior ou superior
marginal e sua ligação com a circulação intra-urbana é muito mais
próxima dos automóveis particulares que, são objetos comuns, entre as
classes médias que os freqüentam.
169
Mapa 11
Londrina: distribuição das Centrais de Moto Táxi e setores censitários com no
mínimo 20% de responsáveis pelo domicilio com rendimentos de até 2 S.M.
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000 e Trabalho de Campo, 2008
O vínculo dos mototaxistas com a central é estabelecido por
lei como condição para o exercício da atividade. O mototaxista paga ao
proprietário da central uma diária referente a um período de 12 horas
que, no início de 2008, variava de R$ 5,00 a R$ 10,00, de acordo com os
equipamentos disponibilizados, como o rádio, por exemplo.
Em 19 centrais, ou seja, em 54% das centrais
entrevistadas, o proprietário também é mototaxista. Nas centrais maiores
170
com mais de 20 mototaxistas os proprietários se dedicam apenas à
administração da Central.
Em uma das centrais encontramos uma forma totalmente
diversa dessa organização predominante, pois os mototaxistas eram todos
assalariados com o devido registro em carteira e jornada de 6 horas
diárias em cinco dias da semana. As motos pertenciam aos donos da
central que também determinavam o ritmo da atividade, procurando
otimizar os trajetos e o uso do combustível.
Em 49% das centrais o início das atividades se deu mais
de 08 anos, portanto praticamente coincidem com o inicio da atividade na
cidade. Na quase totalidade das centrais ocorre o pagamento de aluguel.
Essa despesa é, em geral, inferior aos gastos com telefone que se
constitui numa das maiores despesas no orçamento dessas pequenas
empresas. Quanto aos clientes, o transporte de passageiros é
fundamental na sobrevivência da atividade, embora a importância da
prestação de serviços a empresas e particulares seja crescente.
Considerando o total das centrais visitadas identificamos a
criação de 46 postos de trabalho para funcionários que trabalham como
secretários (as) das centrais, dos quais 60% sem carteira assinada.
Quanto ao número de mototaxistas as centrais visitadas reúnem um total
de 537 trabalhadores autônomos.
As centrais variam muito em relação ao porte.
Consideramos dois critérios nessa classificação: o número de mototaxistas
e o numero de viagens diárias. As menores centrais possuem apenas 05
mototaxistas e realizam uma dia de 30 corridas por dia e se localizam
nas zonas sul e leste da cidade. As duas maiores possuem 40 e 55
mototaxistas, realizam mais de 100 corridas diárias. Localizam-se na área
central.
171
Mapa 12
Londrina: porte das Centrais por n.º de mototaxistas, 2008
Fonte: Trabalho de Campo, 2008
Em todas as centrais o transporte de passageiros é parte
importantes das corridas diárias. Amesmo naquelas centrais em que os
entrevistados declararam que o atendimento a empresas respondia pela
maior parte das corridas solicitas à central, o transporte de passageiros
correspondia a no mínimo 40% das corridas. Em 2008, o menor valor
cobrado por corrida era de R$ 4,00, praticado principalmente por centrais
172
novas situadas na periferia que lutavam por construir sua clientela. Esse
valor de R$ 4,00 se devia, portanto, a disputas entre as centrais.
Nas centrais mais antigas e estruturadas, o valor mínimo
era de R$ 6,00, considerado como o mínimo necessário para atender a
todas as exigências da Prefeitura e da legislação vigente. O valor de R$
5,00 era divulgado como “promocional” por parte de algumas centrais,
próximas às que praticavam o valor de R$ 4,00, como forma de “enfrentar
a concorrência desleal”.
A imensa maioria das corridas solicitadas às centrais
localizadas nos bairros se destina à área central da cidade. Naquelas
situadas no Centro Principal, muitas corridas também têm como destino a
própria área central da cidade. São solicitações para ir a bancos, órgãos
públicos, cartórios, escritórios de advocacia, consultórios, hospitais que
também localizados na área central. Porém, no caso dessas centrais
ainda um número considerável de viagens, cerca de 55% do total médio
de corridas por dia, que têm como destino os bairros, especialmente os
Cinco Conjuntos na Zona Norte, o Shopping Catuaí, as Universidades e
Hospitais da cidade.
Ao longo de pouco mais de uma década de existência o
serviço de Moto Táxi em Londrina se espalhou e se enraizou em todas as
partes da cidade. No início de 2008, quando finalizamos a pesquisa de
campo sobre essa atividade, havia em Londrina mais de 750
mototaxistas
127
e aproximadamente 50 centrais de Moto Taxi.
Considerando as flutuações e aqueles que ainda não regularizaram sua
atividade junto ao órgão oficial, o número de mototaxistas em Londrina
alcança facilmente a casa dos 1.000 trabalhadores.
127
Segundo dados da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanismo (CMTU) havia em Londrina no inicio de
2008 750 mototaxistas cadastrados naquele órgão. Em nossa pesquisa verificamos que um fluxo constante de
entrada e de saída de pessoas na atividade e que o número real de mototaxistas trabalhando é superior ao de
cadastrados na CMTU. Muitos trabalhadores m dificuldades em apresentar de imediato e de uma vez todos
os requisitos exigidos para regularização, especialmente em relação ao Certificado de Registro do Veículo
(CRV). Com isso o processo de obtenção do alvará pode levar algum tempo, o que não impede esses
trabalhadores de dar entrada no pedido de alvará e começar a atuar.
173
4.4 – Entregas Urbanas: empresas e motoboys
Segundo dados da Federação Nacional dos Motoboys e
Mototaxistas (FENAMOTO), circulam no Brasil, aproximadamente dois
milhões de motoboys
128
. Os motoboys se multiplicaram por todo país nos
últimos 20 anos, acompanhando a dinâmica da urbanização brasileira e a
intensificação da circulação intra-urbana. Presentes nos mais diversos
tipos de empresas esses trabalhadores garantem a circulação ágil de
mercadorias de pequeno volume, documentos e informações,
materializando fluxos e reduzindo os constrangimentos da distância e dos
entraves do trânsito urbano.
Ser proprietário da moto, principal instrumento de trabalho,
é condição básica para que a maior parte dos motoboys consiga exercer
essa profissão. Em Londrina, constatamos a existência tanto de motoboys
que trabalham como autônomos, como a de motoboys que são
assalariados contratados por empresas de entregas urbanas. Esta última
forma de atuação foi a mais freqüente entre os motoboys que
responderam aos questionários.
Atualmente em Londrina existem pouco mais de uma
dezena de empresas de entregas urbanas
129
. No entanto, a maior parte
delas é de diminutas dimensões. Algumas se reduzem apenas a três ou
quatro pessoas que, juntas, atendem às solicitações esporádicas de
128
O presidente da Federação Nacional dos Motoboys e Mototaxistas (FENAMOTO) que defendeu a aprovação
do Projeto de Lei 6302/02 em audiência pública na Comissão de Transportes e Viação da Câmara Federal
“afirmou que o serviço é regulamentado em cerca de 3.500 municípios e que, em todo o País, dois milhões de
pessoas atuam como motoboys e outros 800 mil como moto-taxistas.” (SINDICATO DOS
MOTOCICLISTAS PROFISSIONAIS DO RS, 2009. grifo nosso)
Ainda sobre o número de motoboys no país, o sítio do Jornal O Estado de São Paulo a seguinte informação:
“Segundo o relator da proposta, senador Expedito Júnior (PR-RO), existem atualmente no Brasil cerca de 2,5
milhões de motoboys e mototaxistas, que trabalham na completa informalidade.” (AGÊNCIA ESTADO,
[2009?], grifo nosso).
129
A base dessa informação foi um levantamento nas listas telefônicas da cidade em meados de 2008. Nesse
levantamento feito nas paginas amarelas e nas listas disponíveis na internet encontramos 14 empresas: Ciclo
Motoboys, Coiote Entregas Rápidas Ltda, Entregas Rápidas, Linexpress, Pacto entregas, Robson W Magro, RP
Central de Entregas e Telecomunicações, Sol Motoboys, Tele Entregas Rápidas, Terceiriza, Transmoto, Vai e
Vem Entregas Rápidas, Via Rápida Express e Vinícius Damião Munhoz. Entre setembro e outubro de 2008,
entrevistamos os proprietários das três maiores empresas de entrega urbana de Londrina em número de
empregados: Vai Vem, Sol Motoboys e Terceiriza. Sobre as demais empresas obtivemos apenas algumas
informações gerais
174
clientes conquistados na base do contato pessoal e da confiança. Por
vezes, as sedes dessas empresas são as residências dos proprietários e
não há qualquer estrutura administrativa.
Não informações consistentes sobre o número total de
motoboys na cidade, mas, segundo considerações dos três proprietários
das empresas de entregas urbanas entrevistados, esse número, em 2008,
pode ser estimado como algo que se enquadra na faixa de 1000 a 1300
trabalhadores.
Segundo o proprietário da Vai-Vem, a maior empresa de
entregas urbanas da cidade, o ramo é relativamente novo em Londrina,
tem aproximadamente entre 10 e 11 anos e, nesse período, muitas
empresas fecharam e outras encolheram drasticamente. A instabilidade e
a concorrência parecem ter afetado duramente a sobrevivência desse tipo
de empresa.
As empresas maiores como a Sol Motoboys, Vai e Vem,
Terceiriza, Tele Entregas e a Transmoto funcionam em locais definidos
onde alguns motoboys se reúnem diariamente para receber instruções
sobre as entregas que irão fazer, para atender alguma chamada de
urgência ou para cobrir as faltas de colegas alocados em algum cliente.
Essas empresas estão situadas na área central da cidade.
Para poder funcionar satisfatoriamente as empresas
elencadas no parágrafo anterior tem que contar com certo grau de
organização interna. As tarefas administrativas não ficam todas por conta
do proprietário que se dedica ao contato com os clientes, às negociações
dos contratos, às decisões sobre contratação de novos entregadores.
funcionários encarregados de receber as solicitações de clientes,
estabelecer rotas para os entregadores, determinar as substituições dos
faltosos, controlar os gastos com combustível, as ajudas de custo e a
administração de pessoal.
175
Tabela 2
Caracterização das três maiores empresas de
entrega urbana de Londrina, 2008.
Empresas
N.º de funcionários
Administrativos
Entregadores
Vai e Vem Entregas
Rápidas 7 68
Sol Motoboys
5 56
Terceiriza
5 35
Fonte: Trabalho de campo, 2008.
As empresas de entregas urbanas atendem exclusivamente
outras empresas e instituições da cidade. A lista é diversificada e abrange
empresas com as mais variadas necessidades em relação à circulação
intra-urbana. São empresas que necessitam fazer circular documentos,
contratos, convites ou outras formas de divulgação de eventos, a exemplo
de cartórios, bancos, agências de publicidade, seguradoras, financeiras,
escolas, hotéis. Outras empresas, como laboratórios e consultórios de
dentistas, necessitam adquirir materiais específicos ou coletar amostras
para exames clínicos. ainda necessidades mais comuns com as de
restaurantes que entregam marmitas, farmácias, pizzarias, lojas de
autopeças, entre outras
130
.
As empresas de entregas urbanas possibilitam economia de
custos para as empresas que as contratam, colocando-se assim em
relação de terceirização que retira da empresa cliente as tarefas relativas
à distribuição de documentos, informações e mercadorias. Essa estratégia
também atua na redução potencial do tempo de rotação de mercadorias e
serviços. Ao assumir a forma de serviço contratado, a gestão das faltas de
entregadores e outras situações imprevistas ficam à cargo das empresas
de entregas urbanas que têm de garantir a continuidade do serviço.
Apesar de não se caracterizarem como empresas em que
predomina o trabalho familiar e de haver certos níveis hierárquicos
internos, indicando uma incipiente organização burocrática, as empresas
130
Voltaremos a esse tema no capítulo cinco
176
de entregas urbanas são, essencialmente, intermediadoras de força de
trabalho para tarefas próprias à circulação intra-urbana.
Não dependem da aquisição de volumes consideráveis de
capital constante para atuarem como intermediárias na contratação de
trabalhadores, muito pelo contrário, tirando certas precauções como as
que envolvem a segurança dos locais onde funcionam, essas empresas
não requerem muito mais que alguns computadores, telefone e outros
equipamentos comuns de escritório para funcionar bem.
As motocicletas, as quais constituiriam a parte do capital
que exige maior desembolso, devem ser providenciadas pelo próprio
trabalhador. As empresas possuem algumas motos e outros veículos,
como automóveis chamados de utilitários, que são adaptados para
entregas de volumes um pouco maiores. Esses veículos e motos são para
usos esporádicos e para cobrir situações imprevistas, como no caso de
panes repentinas nas motos dos entregadores ou solicitações de entregas
que fogem ao cotidiano dos contratos e das solicitações das empresas
clientes.
De um modo geral queremos dizer que o fator principal da
ação das empresas de entregas urbanas é o trabalho árduo e extenuante
dos entregadores, ou seja, essas empresas atuam fundamentalmente
como fornecedoras de mão de obra. Além disso, m uma forte
dependência do mercado local. Como em Londrina convivem empresas de
diferentes tipos, tamanhos e composições orgânicas de capital, as quais
solicitam os serviços das empresas de entrega urbana, constatamos que
clientela das entregadoras pertence tanto ao circuito superior, como ao
circuito superior marginal e até ao circuito inferior. As entregadoras m
como clientes, desde multinacionais até pequenas escolas, videolocadoras,
entre outras.
Esses critérios nos levam a considerá-las, no caso das três
maiores entregadoras, como empresas situadas entre o circuito superior
marginal e o circuito inferior da economia urbana.
177
CAPÍTULO 5
Trabalho, pobreza e circuito inferior no período atual
5.1 – Transformações no mundo do trabalho e a dinâmica
do empobrecimento relativo
Em Londrina, a formação e a estruturação das atividades do
circuito inferior analisadas neste trabalho são, para os trabalhadores
diretamente envolvidos, meios de luta para minimizar os efeitos danosos
da instabilidade e da precarização a que se vêem submetidos. Em países
como o Brasil a sobrevivência é, naturalmente, parte substancial desse
esforço, entretanto não esgota seu significado; uma existência mais digna
se coloca como um horizonte possível. Esta busca remete à questão da
pobreza e dos pobres urbanos no período atual.
A situação de pobreza, e sua dinâmica histórica em países
subdesenvolvidos, é um dos motores do florescimento e das
transformações do circuito inferior, que por sua vez, possui, com a
pobreza, uma relação complexa: o circuito inferior é simultaneamente um
perpetuador da pobreza” (SANTOS, 1979), e a possibilidade que se
coloca para os pobres urbanos de reduzir a insegurança, a precariedade e
a exclusão. Logo, a caracterização da pobreza no período atual pode ser
revelada pelo circuito inferior
En el período actual, el circuito inferior revela la existencia de una
pobreza estructural, es decir, no marginal u ocasional sino una
“producción científica, globalizada y voluntaria de la pobreza”
(SANTOS, 200:72). En otras palabras, hoy el empleo y el salario
se reducen por la creciente racionalización de la sociedad y del
territorio. […]En la medida en que ese proceso de racionalización
se globaliza, también lo hacen sus consecuencias y sus productos,
como la pobreza. Si en el discurso es considerada como un hecho
indeseable, en la práctica la pobreza es necesaria al
funcionamiento de un sistema regido por nexos financieros
(SILVEIRA, 2008, p.1476).
O processo de racionalização da sociedade e do território
sublinhado por Maria Laura Silveira (2008) é, como nos diz a própria
178
autora, orientado pela busca da competitividade e se expressa na difusão
de sistemas técnicos automatizados e na adoção de normas destinadas a
substituir ou reduzir o trabalho humano. Além do desemprego crônico que
resulta da substituição ou redução do trabalho humano, outro resultado
que contribui para ampliação da pobreza é o processo precarização do
trabalho.
O processo de precarização percorre algumas das áreas de
emprego estabilizadas muito tempo. Novo crescimento dessa
vulnerabilidade de massa que, como se viu, havia sido lentamente
afastada. Não nada de “marginalnessa dinâmica. Assim como
o pauperismo do culo XIX estava inserido no coração da
dinâmica da primeira industrialização, também a precarização do
trabalho é um processo central, comandado pelas novas exigências
tecnológico-econômicas da evolução do capitalismo moderno.
(CASTEL, 1998, p.526)
A precarização se expressa na intermitência do trabalho, na
perda de direitos, na seguridade social restrita e na intensificação do
trabalho por vezes associada a condições insalubres e perigosas. A
profundidade das transformações trazidas pelo desemprego e pela
precarização a partir dos anos 1990 deve ser avaliada levando-se em
conta que, no Brasil, houve um processo restrito de fixação dos
trabalhadores na chamada sociedade salarial
131
(LAUTIER, 1987).
No contexto da sociedade salarial a relação salarial não é
apenas retribuição a uma tarefa, ela assegura o acesso a subvenções
extratrabalho (doenças, acidentes, aposentadoria) e permite uma
participação ampliada na vida social: consumo, habitação, instrução e até
mesmo, a partir de 1936, lazer” (CASTEL 1998, p.416). No Brasil o
desenvolvimento das forças produtivas, no âmbito do processo de
industrialização tardia, promoveu o assalariamento que, entre 1940 e
1980 tornou-se o principal vínculo de trabalho.
131
“De certa forma, toda vez que a população trabalhadora parecia ganhar força (e maioria no legislativo ou no
executivo), o autoritarismo foi sistematicamente utilizado pelos interesses econômicos e políticos contrários a
esse movimento, a fim de bloquear as brechas de avanços sociais possíveis. [...]
Nessas condições, o projeto de sociedade salarial não se completou, e o mercado de trabalho funcionou com
enorme excedente de mão-de-obra e diversas formas de ocupações não-assalariadas, precárias e marginalizadas
do sistema de proteção social no interior do mercado de trabalho. Mesmo com a ampliação considerável do
assalariamento no Brasil, que passou de aproximadamente um quinto do total dos ocupados no fim da década de
1930 para cerca de dois terços em 1980, o mercado de trabalho manteve-se extremamente heterogêneo.”
(POCHMANN, 2008, p.119)
179
Ainda que incompleta, a tendência de estruturação do mercado de
trabalho se deu em função da rápida ampliação dos empregos
assalariados, sobretudo daqueles com registros formais, da
redução relativa das ocupações por conta própria e sem
remuneração e do desemprego.
A comparação entre os anos 1940 e 1980 permite observar que,
para cada 10 ocupações geradas, 8 foram assalariadas, sendo 7
com contrato formal e uma sem contrato.
As ocupações por conta própria, dos trabalhadores sem
remuneração e dos empregadores representaram apenas 20% do
total dos postos de trabalho criados no mesmo período. Assim, a
taxa de assalariamento no Brasil foi de 66% do total das
ocupações, enquanto na década de 1930 não ultrapassava os
20%. (POCHMANN, 2004, p.24)
A difusão da relação salarial abarcou diversos tipos de
trabalhadores, tornando-se um fator de redução da heterogeneidade no
interior da divisão do trabalho e de disseminação da expectativa de
vínculos de trabalho duradouros
132
. Porém, com o advento da
reestruturação produtiva e da acumulação flexível, conceitos empregados
para designar o conjunto de transformações que interrompeu a trajetória
de construção da sociedade salarial no Brasil e em diversos outros países
na década de 1990, os vínculos de trabalho se tornaram instáveis.
Na América Latina e, especialmente no Brasil, a partir dos
anos 1980, uma intensa redefinição do processo de reprodução social
que até então se assentava no emprego como um dado fundamental do
padrão de integração social. A reestruturação neoliberal dos anos 1990
impôs uma racionalidade pautada na elevação do nível de competitividade
das economias nacionais e na redefinição da atuação do Estado.
Feita a reestruturação nos países centrais, ainda que de maneira
incompleta, as Empresas Transnacionais
133
necessitavam agora
reestruturar seus sistemas na periferia. Para isso, porém, se
defrontavam com Estados nacionais soberanos, que poderiam
obstaculizar seus intentos e contavam com um poder maior, o de
seus próprios Estados nacionais ou blocos, como a CEE, por
exemplo. [...]
Para atingir seus objetivos, os países centrais impuseram aos
países devedores as chamadas políticas neoliberais,
transplantando para periferia um conjunto de mudanças
institucionais, produtivas, comerciais e financeiras, como as que
132
“A consolidação da condição salarial, como já foi sublinhado, deveu-se ao fato de que assalariar um pessoa
tinha, cada vez mais, consistido em prender sua disponibilidade e suas competências a longo prazo – isto contra
uma concepção mais rude da condição de assalariado que consistia em alugar um indivíduo para executar uma
tarefa pontual.” (CASTEL, 1998, p.517)
133
Substituímos a sigla ETs, originalmente utilizada pelo autor, por “Empresas Transnacionais”
180
haviam implantado em seus próprios países, e que consistiam,
resumidamente, em diminuição do papel do Estado, privatizações,
desregulamentações e abertura comercial. O discurso ideológico
utilizado para isso foi o de que chegara a hora da periferia
modernizar-se, igualando-se ao primeiro mundo. (CANO, 2000,
p.32)
A nova onda de modernização propagada a partir das
transformações tecnológicas e da vigência do modelo neoliberal produziu
efeitos devastadores sobre o mercado de trabalho formal, com implicações
sobre o processo de empobrecimento. O economista Marcio Pochmann
(1999, p.17) afirma que a difusão de inovações tecnológicas e
organizacionais implantadas em um cenário de baixas taxas de
crescimento gerou maior heterogeneidade social. Essa heterogeneidade
pode ser identificada pela instabilidade dos vínculos e pela precarização
das condições de trabalho, associadas às elevadas taxas de desemprego.
Em síntese, o mercado de trabalho após 1980, registrou o
agravamento da pobreza e da indigência. Isto representa uma
rápida inversão da tendência verificada entre 1950/80 quando
gradualmente foi registrada a diminuição dos índices de pobreza
nos meios urbano e rural. As novas formas de exclusão no
mercado de trabalho, com o desemprego aberto, ocupações
atípicas e precarização nas condições e relações de trabalho
complementam o cenário de dificuldades nos países latino-
americanos (POCHMANN, 1999, p. 54,55).
A relação entre desemprego, precarização e expansão da
pobreza passa pelo fato de que, na América Latina, para a grande maioria
das famílias, os rendimentos provêm exclusivamente do trabalho, seja na
forma de emprego, seja na forma de alguma outra ocupação (SALAMA,
1999, p.28). No Brasil, as transformações impostas pelas políticas
neoliberais redundaram em forte redução da participação do trabalho na
renda nacional. Os rendimentos oriundos do trabalho que representavam
50% da renda nacional em 1980 passaram para 36% em 2002
(POCHMANN, 2004, p.30).
Com o aumento acelerado do desemprego na década de
1990, além da perda da principal fonte de renda para muitos
trabalhadores, houve queda na renda média dos trabalhadores brasileiros
181
que estavam empregados. Apesar de alguma recuperação os patamares
atuais ainda estão abaixo do que alcançaram há dez anos.
Gráfico 15
Brasil: variação do rendimento médio real dos assalariados em seis regiões
metropolitanas, 1998 a 2008 (em reais de 2008)
R$ 0,00
R$ 200,00
R$ 400,00
R$ 600,00
R$ 800,00
R$ 1.000,00
R$ 1.200,00
R$ 1.400,00
R$ 1.600,00
MÉDIA (R$) 1.388 1.352 1.292 1.273 1.242 1.123 1.135 1.134 1.174 1.206 1.254
1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008
Fonte: PESQUISA EMPREGO E DESEMPREGO, 1984-.
Gráfico 16
Brasil: pessoas em domicílios abaixo da linha da pobreza, 1977 a 2007
(milhões)
38,3
46,9 48,3
56,5 50,7 54,6
41,8
0
10
20
30
40
50
60
1977 1982 1987 1992 1997 2002 2007
Fonte: FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS, 1960-.
As considerações e avaliações sobre o número de pessoas
pobres e a dinâmica do empobrecimento são importantes, pois indicam a
tendência de aumento ou redução global da pobreza. Todavia, é preciso
ressaltar que, geralmente, essas avaliações partem de critérios
182
quantitativos e estatísticos como o número de pessoas que vivem com
ganhos da ordem de um ou dois dólares por dia. O empobrecimento
relativo fica assim escamoteado pela alarmante expansão da miséria e dos
números absolutos da pobreza.
Para Milton Santos (2008, p.59) ser pobre não é apenas
ganhar menos do que uma soma arbitrariamente fixada; ser pobre é
participar de uma situação estrutural, com uma posição relativa inferior
dentro da sociedade como um todo”. O autor arremata dizendo que essa
condição, a de empobrecimento relativo, atinge um número cada vez
maior de pessoas. que distinguir também entre os miseráveis e
pobres.
O exame do papel dos pobres na produção do presente e do futuro
exige, em primeiro lugar, distinguir entre pobreza e miséria. A
miséria acaba por ser a privação total, com o aniquilamento, ou
quase, da pessoa. A pobreza é uma situação de carência, mas
também de luta, um estado vivo, de vida ativa, em que a tomada
de consciência é possível. (SANTOS, 2008 p.132)
Segundo Amartya Sen (2000, p.110), para se tornar
realmente heurístico, o conceito de pobreza deve ser interpretado como
privação de capacidades, ampliando assim seu alcance para além da
ligação umbilical entre pobreza e baixa renda. Dessa forma, outras
condições como idade, papéis sexuais e até a localização poderiam
atenuar ou intensificar a condição de pobreza de um grupo. Analisando o
desemprego como fator ligado à pobreza até mesmo em sociedades
afluentes o autor nos diz:
A presença de níveis elevados de desemprego na Europa (cerca de
10 a 12% em muitos dos principais países europeus) implica
privações que não são bem refletidas pelas estatísticas de
distribuição de renda. Com freqüência se tenta fazer com que
essas privações pareçam menos graves, argumentando que o
sistema europeu de seguridade social (incluindo o seguro-
desemprego) tende a compensar a perda de renda dos
desempregados. Mas o desemprego não é uma deficiência de
renda que pode ser compensada por transferências do Estado (a
um pesado custo fiscal que pode ser, ele próprio, um ônus
gravíssimo); é também uma fonte de efeitos debilitadores muito
abrangentes sobre a liberdade, a iniciativa e as habilidades dos
indivíduos. (SEN, 2000, p.35)
183
As argumentações de Amartya Sen e Milton Santos sobre o
empobrecimento relativo permitem perceber com mais clareza como o
desemprego pode afetar não apenas a renda dos trabalhadores, mas de
acordo com sua idade, por exemplo, pode afetar suas possibilidades
quanto ao futuro e disparar formas de luta criativas ou conformismo. A
flexibilidade tropical pode ser um indicador de como racionalidades que
não se coadunam com a racionalidade hegemônica podem, a partir da
cidade, aflorar e produzir a esperança.
As atenções do mundo acadêmico foram guindadas pela
efervescente e ruidosa manifestação da acumulação flexível e da
flexibilização das relações de trabalho. Sua incidência sobre contextos e
conjunturas particulares, a exemplo de países subdesenvolvidos e
industrializados como o Brasil, no entanto, não parece ter tido a mesma
sorte. Menos ainda a análise do meio urbano como fator de resistência e
de viabilização de alternativas.
David Harvey aponta que, no interior da “acumulação
flexível
134
o mercado de trabalho conhece uma profunda reestruturação
tornando-se volátil. A expressão dessa volatilidade é, sobretudo, a
“aparente redução do emprego regular em favor do crescente uso do
trabalho em tempo parcial, temporário ou subcontratado(HARVEY, 1992,
p.143). Trata-se da flexibilização das relações de trabalho, expressão
geralmente empregada para enfatizar a ruptura dos padrões de
normatização das relações trabalhistas ligados aos contratos coletivos sem
prazo determinado, que predominaram como normas pactuadas das
relações entre capital e trabalho nos países centrais, no período entre os
anos 1950 e meados dos anos 1980.
134
A acumulação flexível, como vou chamá-la, é marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo.
Ela se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de
consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de
fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação
comercial, tecnológica e organizacional. A acumulação flexível envolve pidas mudanças de padrões do
desenvolvimento desigual, tanto entre setores como entre regiões geográficas, criando, por exemplo, um vasto
movimento no emprego no chamado “setor de serviços” , bem como conjuntos industriais completamente novos
em regiões até então subdesenvolvidas[...] Ela também envolve um novo movimento que chamarei de
“compressão espaço-tempo” no mundo capitalista [...]” (HARVEY, 1992, p. 140)
184
No contexto da reestruturação produtiva dos anos 1990,
Robert Castel (1998, p.517) distingue, na relação capital-trabalho, a
flexibilidade interna da flexibilidade externa. A flexibilidade interna está
ligada à necessidade de treinar o pessoal contratado diretamente pela
empresa, criando trabalhadores polivalentes capazes de enfrentar as
novas situações que, a todo o momento, surgem no processo de trabalho
em razão de sua ligação mais estreita com a esfera do consumo. A
flexibilidade externa seria exemplificada pela subcontratação,
terceirização, etc. Tanto num como noutro caso, ocorre a eliminação dos
que são considerados incapazes de se adaptar as novas demandas
impostas pelas novas tecnologias e formas de organização.
Ampliando seu comentário sobre a flexibilidade interna
Robert Castel aponta conseqüências para os mais jovens e para os que
estão envelhecendo:
Quando, no contexto da busca da “flexibilidade interna”, a
empresa entende adaptar as qualificações dos trabalhadores às
transformações tecnológicas, a formação permanente pode
funcionar como uma seleção permanente.
O resultado é a invalidação dos “trabalhadores que estão
envelhecendo”, demasiado idosos ou não suficientemente
formados para serem reciclados, mas jovens demais para se
beneficiarem da aposentadoria. [...]
Mas a empresa falha igualmente em sua função integradora em
relação aos jovens. Elevando o vel das qualificações exigidas
para a admissão, ela desmonetariza uma força de trabalho antes
mesmo que tenha começado a servir. Assim jovens que vinte
anos teriam sido integrados sem problemas à produção acham-se
condenados a vagar de estágio em estágio ou de um pequeno
serviço a outro. (CASTEL, 1998, p.519)
Cabe indagarmos: os lugares onde esses processos ocorrem
não contribuem para torná-los diversos, produzindo modificações em suas
estruturas?
Milton Santos (1994, p.79) ao discutir sobre como a cidade
resiste aos produtos da racionalidade hegemônica, a exemplo da
flexibilização dos vínculos de trabalho, do desemprego e da precarização,
sugere não perder de vista “flexibilidade tropical” que nas grandes cidades
do Terceiro Mundo atenua a crise. Usando de certa ironia, Milton Santos
aponta que, dada a diversidade do meio construído nas grandes cidades,
185
especialmente a existência de áreas desvalorizadas, abre-se a
possibilidade de que as pessoas participem da dinâmica da divisão do
trabalho, criando inserções que lhes permitem resistir às conseqüências
da racionalidade hegemônica.
Nesse sentido, de forma combinada, ocorre a tendência de
expansão da racionalidade hegemônica, especialmente a desvalorização
do trabalho, e a tendência de expansão do circuito inferior da economia
urbana. Além disso, a expansão, ou reestruturação do circuito inferior, é
movida também pelo crescimento da heterogeneidade social e pelas novas
formas de escassez que atingem também as classes médias.
No Brasil, a flexibilização das relações de trabalho aprofunda
um problema que existia de forma crônica: a rotatividade da mão de
obra. No período atual ocorre a intensificação da volatilidade dos vínculos
de trabalho, inclusive para setores que haviam atingido certa estabilidade,
alguns deles, redutos da classe dia
135
. Com a volatilidade dos vínculos
de trabalho, inerente ao processo de racionalização da sociedade e do
território, a heterogeneidade social se aprofunda, tornando-se mais
complexa e mais ligada à emergência de novos processos de
empobrecimento. Para Cecília Cariola e Miguel Lacabana, em face das
transformações aceleradas no mundo do trabalho, a pobreza se tornou
mais heterogênea e se difundiu na sociedade.
A fines de la década de los noventa nos encontramos frente a
nuevos fenómenos sociales que van más allá de la pobreza
estructural. La pobreza se extendió a sectores medios con otra
cara, o más bien sin cara, en una forma poco visible, escondida en
el ámbito doméstico y diluida territorialmente en diversas áreas de
la ciudad. […]
Pobreza estructural y nueva pobreza tienen algunos rasgos en
común, y los sujetos inmersos en estas situaciones desarrollan
algunas relaciones y prácticas similares, pero constituyen
fenómenos sociales cualitativamente distintos que alcanzan a
135
São transformações que ocorreram nas grandes empresas privadas tais como: a terceirização, a redução de
postos intermediários de chefia e coordenação decorrentes da adoção de novas tecnologias e de novas formas de
gestão e organização da produção. A formação de redes de empresas por meio da subcontratação multiplicou as
formas de uso indireto de mão-de-obra, transformando ex-funcionários em autônomos, consultores, prestadores
de serviços, etc. Processos semelhantes ocorreram no âmbito do setor público com as privatizações de estatais e
a contratação de pessoal terceirizado com contratos de trabalho por tempo definido para serviços prestados por
órgãos públicos.
186
grupos sociales diferentes y diversos. Mientras los sectores
populares tendieron a estancarse dentro de la zona de exclusión y
profundizaron sus condiciones de pobreza estructural diferenciando
grupos que van desde la pobreza extrema a la moderada, los
sectores medios transitaron por distintos niveles de vulnerabilidad
asociados a los diversos procesos de exclusión o de inclusión
parcial.
Los sectores medios de nuevos pobres han compartido con los
pobres estructurales el deterioro de sus condiciones de empleo e
ingresos y desarrollaron prácticas adaptativas similares para
enfrentarlo, como las referidas a la incorporación extensiva al
mercado de trabajo, la generación de autoempleo, la
reorganización doméstica y el ajuste del consumo. (CARIOLA e
LACABANA, 2004)
As classes médias brasileiras acostumadas a desfrutar das
melhores oportunidades de trabalho e a participar com certo grau de
exclusividade das possibilidades de consumo abertas pelo milagre
econômico dos anos 1970, viram-se de forma mais ou menos repentina no
meio do turbilhão. O empobrecimento e a experiência da escassez batem
as portas da classe dia (SANTOS, 2008, p.137). Para os pobres a
situação se agrava, vivemos um momento em que a pobreza resulta de
“um sistema de ação deliberada e se deve tanto a expansão do
desemprego quanto à redução do valor do trabalho (SANTOS, 2008,
p.72).
Essas observações nos colocam diante do desafio de
analisar tanto as formas de enfrentamento da pobreza que redundam em
criação de atividades caracterizadas como trabalho por conta própria
quanto à manutenção e criação de empregos formais, isto é, com registro
em carteira, mas que são mal remunerados. Em muitos casos, esses
empregos são caracterizados por aspectos como jornadas de trabalho
extenuantes, resultantes da combinação de ocupações assalariadas com
ocupações por conta própria e pela necessidade de os trabalhadores
providenciarem seus próprios instrumentos de trabalho.
Para os trabalhadores do circuito inferior os parâmetros e
exigências postas para contratação em atividades do circuito superior,
quando definidas pelos critérios da flexibilização e da racionalidade
hegemônica, transformaram-se em barreiras muito difíceis de transpor.
Para um mototaxista, com mais de 35 anos, casado ou divorciado, com
187
ensino fundamental completo e que se dedica a atividade mais de 5
anos não muitas perspectivas de voltar a participar do chamado
mercado formal de trabalho. Parafraseando Robert Castel (1998) diríamos
que esse trabalhador enfrenta a invalidação por envelhecimento. É preciso
enfatizar que, como alerta o autor, o outro lado dessa invalidação é que o
trabalhador ainda não pode se aposentar. Uma das conseqüências disso é
que, em geral, a possibilidade de conseguir uma aposentadoria por suas
próprias contribuições fica indefinidamente adiada pelas urgências do
cotidiano
136
.
Um motoboy com 23 anos de idade, ensino médio completo
cursado em escolas públicas, embora disponha do tão decantado registro
em carteira e, teoricamente desfrute de uma condição menos insegura,
também não conta com melhores perspectivas quanto ao futuro. Esses
jovens enfrentam um nível razoável de dificuldade para encontrar um
posto de trabalho no mercado formal com remuneração semelhante ou
superior à que obtém como entregadores, graças às jornadas de trabalho
extenuantes a que se submetem.
Para complicar um pouco mais a volatilidade os persegue
como uma sombra. Como motoboys, a manutenção de sua
empregabilidadedepende da possibilidade de trocar periodicamente, às
suas expensas, a motocicleta usada por outra mais nova. Esses aspectos
particulares iluminam, de certo modo, a heterogeneidade que resulta do
processo de empobrecimento apontada por Cariola e Lacabana (2004).
136
Foi possível verificar durante o trabalho de campo que 75% dos mototaxistas entrevistados não recolhiam
regularmente as taxas necessárias para manter o registro como contribuinte da Previdência, apenas 25%, isto é,
19 entrevistados recolham essas taxas regularmente.
188
5.2 Formas de resistência e enfrentamento da pobreza
no período atual: a diversidade de abordagens
No período atual, a resistência ao empobrecimento e ao
sofrimento humano decorrentes da crise do assalariamento e do chamado
setor organizado do mercado de trabalho, produz novas formas de criar
ocupações e gerar renda e reafirma antigas. Acompanhando essa
dinâmica convivem novas e antigas abordagens.
Algumas digressões sobre essas abordagens se fazem
necessárias para situar a teoria dos circuitos no contexto dos debates
sobre as formas de enfretamento desse período de crise que afeta
duramente a dinâmica da reprodução social.
As abordagens sobre o setor informal, por exemplo,
conhecem um renovado vigor e interesse. O conceito de setor informal
teve sua origem nos anos 1970, no âmbito da Organização Internacional
do Trabalho (OIT). Um marco da elaboração do conceito de setor informal
foi o relatório sobre emprego e renda elaborado no Kenya, em 1972, o
qual, segundo Cacciamali (1982, p. 12), serviu de base a outras pesquisas
semelhantes realizadas na África e na América Latina.
Inicialmente o conceito de setor informal abarcava uma rie de
atividades urbanas caracterizadas a partir do estabelecimento produtivo.
O limite da informalidade era dado pela maneira como a produção era
organizada e pela posição relativa da atividade frente ao conjunto das
atividades produtivas. Em geral e complementarmente essas atividades
eram consideradas como de “baixa produtividade e como atividades que
se desenvolviam à margem da legislação e nas franjas do mercado”
(THEODORO, 2000, p. 7). Essa perspectiva de análise, construída em uma
instituição oficial, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), visava a
criar condições de intervenção em relação ao problema do subemprego e
ao da pobreza. Entendidos como anomalias do processo de
desenvolvimento, esses problemas constituíam uma espécie de mau
funcionamento local da teoria do desenvolvimento, na medida em que, no
189
mesmo período, o processo de industrialização ensejava no Brasil e em
outros países da América Latina elevados níveis de crescimento do
produto interno bruto. O autor enfatiza esse aspecto do conceito de setor
informal ao dizer que este.
[...] constitui um marco importante, muito menos pela sua
capacidade explicativa vis-à-vis à realidade do Terceiro Mundo,
mas principalmente por justificar e avalizar uma nova postura
institucional face ao problema do subemprego. É a idéia de setor
informal que vai servir de base para a ação institucional em
termos de políticas de apoio. A abordagem em termos do setor
informal é essencialmente uma perspectiva de intervenção
institucional, abrindo um novo campo de ação do Estado. As
particularidades da noção de setor informal começam na própria
forma como se deu sua concepção. Segundo Lautier (1994), trata-
se de um caso único: um conceito forjado no interior de uma
instituição executiva e que a seguir invade os meios acadêmicos.
Isso explicaria em parte sua fragilidade teórica, expressa
notadamente na dificuldade em se encontrar uma definição
universalmente aceita da qual falava Tokman. (THEODORO, 2000,
p.7)
Mario Theodoro acrescenta ainda que, apesar de ser um
conceito teoricamente frágil, o setor informal se mostrou
ideologicamente forte. Ao se difundir, esse conceito permitiu a reunião e
a aplicação de recursos consideráveis, a montagem de redes de
pesquisadores e instituições de pesquisa etc.(THEODORO, 2000, p. 9).
Cacciamali (1982, p. 17) explica que é preciso reconhecer
algumas nuances em relação ao conceito de setor informal, produzidas
pelo deslocamento do critério de forma de organização da produção e
pela centralidade dada aos critérios de renda e vínculo jurídico.
No âmbito da América Latina, o debate com as outras correntes
de interpretação, a exemplo da teoria da marginalidade e da teoria da
dependência, que se acercavam do mesmo fenômeno criou condições para
que o conceito de setor informal ganhasse outras colorações, tornando-se
bastante plural. Cacciamali (1982) sugere que, na América Latina, duas
interpretações concorrentes acerca do setor informal se estabeleceram. A
primeira, ligada ao Programa de Renda e Emprego para América Latina e
Caribe (PREALC) da OIT, considerava que o setor informal abarcava todas
as atividades de baixo nível de produtividade, os trabalhadores
190
independentes, com exceção feita aos profissionais liberais, e as empresas
muito pequenas ou não organizadas.
A novidade ficava por conta da explicação da origem do setor
informal, ligada ao padrão capitalista de desenvolvimento na região,
fortemente atrelado ao processo de substituição de importações e que
gerava poucos empregos. Isso, aliado ao forte crescimento demográfico,
criava um elevado excedente de mão-de-obra que se auto-empregava
para sobreviver. Permanecia nesse caso uma forte associação entre
pobreza-migração-setor informal (CACCIAMALI, 1982, p. 19-20).
O formalismo dessas concepções era em parte contrabalançado
pelo fato de alguns expoentes dessa abordagem, como Paulo Renato
Souza (1980) e Vitor Tokman (1978), defenderem que o setor formal e o
informal participavam de um mesmo mercado, enfatizando que o último
se colocaria numa posição hierarquicamente inferior em função da
heterogeneidade estrutural da economia capitalista. Embora destacando-
lhes as múltiplas ligações, esses autores não deixam vidas acerca da
separação entre os dois setores e sobre o caráter provisório de muitas
atividades do setor informal (atividades marginais). Chegam, assim, a
proposições de que apenas as atividades funcionais que compõem o setor
informal deveriam receber algum apoio do Estado, uma vez que elas
seriam capazes de alguma expansão a curto e médio prazos (SOUZA,
1980).
O contraponto dessas reflexões elaboradas ao longo dos anos
1970 era evidentemente a expansão das relações de produção
tipicamente capitalistas, processo tido como inexorável na forma como se
apresentava então. O assalariamento aparecia como possível substituto
das atividades por conta própria. Nada mais enganoso.
A segunda abordagem apontada por Cacciamali (1982) refere-se
a autores do campo marxista. Essa abordagem, denominada pela autora
como “subordinada”, coloca em pauta a perspectiva da totalidade, na qual
qualquer visão dual da realidade deve ser substituída por uma
compreensão em que as diferentes manifestações das relações de
191
produção não sejam isoladas. Sendo assim, a questão da subordinação
aparece como forma de explicar o setor informal, colocando mais peso na
explicação das interdependências entre ele e o setor formal.
A caracterização do setor informal passa então a se fazer a partir
da ausência da relação assalariada e da não separação entre proprietários
dos meios de produção e trabalhadores. Nessa conceituação o setor
informal passa a ser composto por trabalhadores por conta própria,
unidades de produção com base familiar, ajudantes e empregados
ocasionais que trabalham para esses grupos. A subordinação do setor
informal ao formal dar-se-ia principalmente pelo acesso restrito do
primeiro a matérias-primas, tecnologia, créditos etc.
Essa abordagem trouxe novamente certa centralidade à
produção como critério de definição do setor informal. Nesse contexto a
existência do setor informal também é tida como precária, pois estaria
continuamente submetida à expansão capitalista em suas variadas
escalas. O setor informal seria criado, destruído e recriado ao sabor das
variações conjunturais dessa expansão.
Os modelos teóricos que sustentam as diferentes abordagens
acerca do conceito de setor informal guardam certa semelhança em
relação àquilo que desconsideram. Nas duas abordagens identificadas por
Cacciamali (1982), a importância da heterogeneidade das atividades
classificadas como integrantes do setor informal, a diversidade de relações
que elas mantêm entre si e com as atividades tidas como formais e a sua
enorme variação em relação aos contextos nacionais e regionais não são
consideradas, nem mesmo de forma secundária.
Em alguns casos, as abordagens descritas buscam compreender
as atividades extremamente heterogêneas do setor informal a partir de
uma perspectiva da totalidade; no entanto, esbarram na necessidade de
estabelecer classificações genéricas e abrangentes e abusam de
procedimentos de abstração que eliminam a consideração da
particularidade, do movimento e da história em nome de uma razão
técnica e de comparações internacionais. Dessa forma a pasteurização do
192
conceito encaixa-se nas exigências das agências internacionais e atende
os requisitos de uma racionalidade voltada à intervenção e ao
planejamento. Essa racionalidade busca na generalidade dos conceitos
suas bases de sustentação, ainda que concretamente seja bloqueada pela
diferença substantiva de significação das formas de interdependência
entre os recortes artificiais do formal e do informal no espaço e no tempo.
Outro complicador é a associação imediata entre pobreza e setor
informal, tão cara às propostas de políticas estatais de intervenção no
mercado de trabalho. O trabalho de Cacciamali (1982) faz críticas
veementes a essa associação e procura dar um fundamento mais
elaborado ao conceito de setor informal urbano. Estudando a cidade de
São Paulo, a autora apresenta argumentos empíricos para demonstrar que
as atividades do setor informal podem ser dinâmicas e atendem um
público variado, que não se compõe apenas da fração mais pobre da
população. Da mesma forma, as atividades que compõem o setor informal
não são conduzidas necessariamente por migrantes recém-chegados às
grandes cidades, como faziam crer certas versões do conceito de setor
informal. As barreiras à entrada e os conhecimentos exigidos para o
sucesso dessas atividades indicam que são necessários requisitos que os
migrantes e os jovens não poderiam atender.
Por outro lado, no mercado formal de trabalho inúmeras
funções que remuneram de forma muito precária aqueles que as
desempenham. Trabalhadores braçais da construção civil, dos serviços de
limpeza e ajudantes gerais nas indústrias, por exemplo, foram e são
funções mal remuneradas, e, por isso, integram o contingente de pobres
presente nos grandes centros urbanos que está associado ao setor formal
e não apenas ao setor informal. Com essas contribuições a autora oferece
elementos que permitem discutir a separação e a classificação das
atividades como parte de setores bem definidos, com destaque para a
associação imediata e inconsistente que se faz entre migrantes, pobreza,
ilegalidade e setor informal.
193
Face à dinâmica recente que as transformações no padrão de
uso e remuneração da força de trabalho (POCHMANN, 1999) instauraram
nos países latino-americanos, em especial no Brasil, o tema do setor
informal voltou à cena com muita força tanto na dia como nos debates
acadêmicos.
Em seu interessante estudo sobre as relações entre o Estado e o
setor informal no Brasil, Theodoro (2000, p. 12) aponta que nos anos
1980 o setor informal deixou de ser visto como algo transitório e passou a
ser entendido como uma resposta permanente da força de trabalho em
relação a sua sobrevivência. Em resumo, nos anos 1980 o debate sobre a
intervenção estatal na questão do setor informal passava paulatinamente
do status de questão técnica para o de questão social”. Segundo
Theodoro (2000, p. 14-15), nos anos 1990 o setor informal viria a ser
analisado sob a perspectiva neoliberal ou, como ele diz, de forma
subsidiária. Nesse contexto, as políticas sociais focadas que foram
colocadas em prática passaram a destinar, de forma seletiva e numa
perspectiva individualista, recursos na forma de microcrédito como forma
de apoiar empresários do setor informal.
Alguns autores têm preferido falar em informalidade como um
conceito diferente do de setor informal, na medida em que ela seria capaz
de abarcar outras especificidades do contexto latino-americano (LAUTIER,
1994). Dessa forma, o conceito de informalidade seria mais abrangente
que o de setor informal (MALAGUTI, 2000).
Em texto mais recente, Cacciamali (2000, p. 163) enfatiza o que
ela denomina processo da informalidade”, no qual o termo “informal” se
refere a um processo de mudanças estruturais em andamento na
sociedade e na economia que incide na redefinição das relações de
produção, das formas de inserção dos trabalhadores na produção, dos
processos de trabalho e de instituições [...]”. Dessa maneira a autora
procura uma forma de diferenciar sua abordagem de enfoques
reducionistas presentes em estudos que adotam conceitos restritos de
194
informalidade e de setor informal, já que associados apenas ao fenômeno
do assalariamento ilegal, ou ao descumprimento das normas legais
137
.
O uso do critério da legalidade de forma unilateral tende a tornar
praticamente equivalentes o setor informal e as formas de assalariamento
ilegais, por exemplo. Isso possibilita que a separação entre formal e
informal seja mensurada pela posse ou não de carteira de trabalho
assinada, pela existência ou não de contratos de terceirização ou de
franquia, entre outros parâmetros. Contudo, tais dados, geralmente não
são analisados numa perspectiva histórica nem avaliados em seu
conteúdo específico frente a uma dada conjuntura. Assim ao classificar um
conjunto de atividades como informais mediante critérios rígidos, essas
concepções tendem escamotear as ilegalidades e a precarização das
relações de emprego que crescem em instituições e empresas formais
acima de qualquer suspeita (MALAGUTI, 2000).
O próprio mercado de trabalho é tomado, na perspectiva
neoclássica, como um efeito das várias qualidades e quantidades
implicadas nas questões de oferta e demanda de mão-de-obra. As
análises assim constituídas baseiam-se em mensurações derivadas da
construção de diversos tipos de índices e no uso da teoria dos jogos,
enfatizando o poder de escolha e discriminação de empresas e indivíduos,
com pouca ou nenhuma consideração acerca das coerções estruturais da
economia capitalista.
Em resumo, aspectos fundamentais como as implicações das
relações entre formalidade e informalidade sobre as atividades do
chamado setor informal ficam, na melhor das hipóteses, em segundo
137
Cacciamali (2000, p. 154) indica, de forma expressa, que a associação entre setor informal e assalariamento
ilegal é equivocada e aponta o trabalho de T. Merrick (1976), Employment and earnings in the informal sector
in Brazil: the case of Belo Horizonte, como um exemplo desse equívoco. Em trabalhos mais recentes a
evidência dessa associação é mais sutil. Contudo o setor informal continua a ser tratado como uma
decorrência das flutuações da oferta e da demanda de postos de trabalho e não como uma conseqüência e um
dado estrutural do processo de acumulação capitalista. Pautados em modelos econométricos e em sofisticada
parafernália estatística os autores afeitos a essa abordagem pretendem que o setor informal seja analisado na
perspectiva da livre escolha por parte de trabalhadores e empresas que optam, ou não, por integrar o setor
informal, mediante cálculos racionais de custos, possibilidades e capacidades de diversas naturezas. Em seu
texto Informalidade no mercado de trabalho brasileiro: uma resenha da literatura, Gabriel Ulyssea (2006)
oferece uma ampla lista de autores que, a partir de abordagens empíricas, constroem perspectivas de análise
acerca do setor informal que contemplam os elementos apontados acima.
195
plano. Assim não é possível perceber que existem relações de produção
que se estruturam de modo a criar certa continuidade entre os chamados
setores formal e informal
138
e tampouco insistir na existência de uma
bipolaridade entre formal e informal na economia urbana.
No capitalismo a diferenciação entre formalidade e informalidade
é de natureza econômica, social e política e não apenas legal. A
ilegalidade é mais conseqüência do que causa e, portanto, não define por
si a existência do chamado setor informal. Em resumo, pode-se dizer
que uma trajetória do conceito de setor informal que indica, ao menos
para determinados usos do conceito, a necessidade de precauções se a
intenção for a construção de análises acerca da economia urbana, das
cidades e da urbanização que não se limitem à caracterização das
atividades e dos vínculos de trabalho como legais ou ilegais, essas novas
dualidades que fragmentam a compreensão do urbano.
A economia solidária é outra abordagem que ganhou
renovado vigor nos últimos anos. Diferentemente da teoria dos circuitos
que se propõem a construir explicações para a dinâmica da economia
urbana capitalista e para a formação dos circuitos como processos
inerentes a esse modo de produção, a Economia Solidária se configura
como uma proposta política que visa uma alternativa ao capitalismo.
Partindo de uma origem mais remota, o cooperativismo
proposto pelos socialistas utópicos
139
, a economia solidária seria uma
forma de organização econômica alternativa, isto é, formas de
organização das trocas e da produção que apontam a possibilidade de
construção de outro modo de produção. Suas características centrais tais
como a posse coletiva dos meios de produção, a autogestão e as decisões
138
Malaguti (2000, p. 101) apresenta diversos argumentos para demonstrar que essa oposição entre um setor
formal e outro informal é no mínimo sujeita a muitos questionamentos. Dentre os argumentos do autor estão, por
exemplo, estudos de caso que revelam a coexistência e a complementaridade entre formalidade e informalidade
tanto em grandes empresas, como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), como no caso de funcionários
públicos que vendem produtos alternativos em seus respectivos locais de trabalho.
139
Segundo Paul Singer (2002) a economia solidária teve origem no cooperativismo, entendido como reação à
disseminação da pobreza e ao desemprego no início do século XIX em decorrência das transformações trazidas
pela Revolução Industrial. Entre os pensadores que elaboraram propostas de organização econômica com base
no cooperativismo estariam Robert Owen, Charles Fourier e Saint Simon.
196
coletivas vão de encontro à premissa da igualdade entre os trabalhadores
dos empreendimentos solidários.
Nós costumamos definir economia solidária como um modo de
produção que se caracteriza pela igualdade. Pela igualdade de
direitos, os meios de produção são de posse coletiva dos que
trabalham com eles essa é a característica central. E a
autogestão, ou seja, os empreendimentos de economia solidária
são geridos pelos próprios trabalhadores coletivamente de forma
inteiramente democrática, quer dizer, cada sócio, cada membro do
empreendimento tem direito a um voto. Se são pequenas
cooperativas, não nenhuma distinção importante de funções,
todo o mundo faz o que precisa. Agora, quando são maiores,
necessidade que haja um presidente, um tesoureiro, enfim,
algumas funções especializadas, e isso é importante, sobretudo
quando elas são bem grandes, porque uma grande parte das
decisões tem que ser tomada pelas pessoas responsáveis pelos
diferentes setores. Eles têm que estritamente cumprir aquilo que
são as diretrizes do coletivo, e, se não o fizerem a contento, o
coletivo os substitui. É o inverso da relação que prevalece em
empreendimentos heterogestionários, em que os que
desempenham funções responsáveis têm autoridade sobre os
outros. (SINGER, 2008, p.289)
Para Singer (2008, p. 290) a importância da economia
solidária estaria na clara indicação de que a alienação no trabalho que
caracteriza as empresas capitalistas não seria inevitável. A recuperação de
capacidades permitida pelos desafios de gerir a própria empresa, em geral
na forma de cooperativas, seria um ganho inestimável para os
trabalhadores educados no capitalismo que os acostuma a pensar que são
menos aptos do que aqueles que os comandam. As falências de empresas
que passam a ser administradas pelos empregados e são reconstruídas
em bases solidárias demonstram que existem outras possibilidades. De
forma semelhante, os clubes de troca apontam para inovações, como a
criação de meios de circulação específicos e destinados a viabilizar formas
de intercambio solidárias.
De acordo com os dados do Sistema Nacional de
Informações em Economia Solidária (SIES) do Ministério do Trabalho e
Emprego, no Brasil, o número de empreendimentos de economia solidária
cadastrados passou de aproximadamente 2.000 empreendimentos no
inicio dos anos 1980 para 21.859 empreendimentos cadastrados em 2008,
envolvendo mais de 1,5 milhão de pessoas. O Paraná contava com 1404
197
empreendimentos solidários e, em Londrina, havia 61 grupos cadastrados
no Programa Municipal de Economia Solidária (PMES), criado em 2005.
Em 2008, dentre os 61 grupos, 42 estavam produzindo
140
e outros 19
estavam em processo de formação, envolvendo, ao todo, cerca de 300
pessoas.
Em Londrina os grupos cadastrados no PMES recebem um
amplo incentivo. A fragilidade da organização dos grupos transparece nas
ações que a Prefeitura realiza para subsidiar as atividades da economia
solidária. Em Londrina o PMES fornece local para “incubar” as atividades
de alguns grupos no inicio produção e comercialização dos produtos. São
desenvolvidas ações de assessoria aos empreendimentos econômico-
solidários como o acompanhamento aos grupos de geração de trabalho e
renda. No dia a dia os grupos são visitados e recebem suporte e
capacitação necessários para organizar a produção e, principalmente, para
o aperfeiçoamento na área de gestão, uma vez que se trata de uma forma
diferente de organização do trabalho: o trabalho na perspectiva da auto-
gestão.
também ações de fomento que podem ser efetivadas a
partir do momento que os grupos se organizam e adquirem uma
identidade, desenvolvendo um objetivo comum e decidindo o que vão
produzir. O programa auxilia financeiramente a superar as dificuldades
para adquirir a matéria prima e alguns equipamentos básicos para iniciar
a produção. Existe a previsão de que após 2 anos os grupos passem a não
depender do auxilio direto do PMES. No entanto, como o programa teve
início em 2005, e como cada grupo tem ritmos diferentes de consolidação,
é possível que diversos grupos necessitem de um período maior de
atenção intensiva por parte dos técnicos do PMES.
Apesar do crescimento do número de empreendimentos e
da importância dessas iniciativas no enfrentamento da crise que se abateu
sobre o mercado de trabalho, problemas na estruturação de muitas
140
Dos 42 grupos em fase produção em Londrina, 14 dedicavam-se a produtos alimentares, 12 a artesanato, 6 a
itens de vestuário, 4 a salões de beleza, 2 a reciclagem de resíduos sólidos, 2 a flores e outros 2 dedicados a
marcenaria e instrumentos musicais.
198
cooperativas que na verdade são apenas empresas capitalistas disfarçadas
como empreendimentos econômico-solidários.
Pochmann (2004, p.31) argumenta que, apesar da
necessidade de reconhecer as oportunidades geradas pela economia
solidária, essas iniciativas enfrentam limitações. Na ausência de um
conjunto amplo de políticas públicas que auxilie a viabilização dos
empreendimentos os limites da economia solidária podem ser resumidos
em cinco lacunas: a ausência de regulação pública para definir o estatuto
da economia solidária, de um padrão de financiamento apropriado, de
redes de produção e intercambio técnico, de inclusão dos
empreendimentos em políticas voltadas para o comércio exterior e de
inserção da produção dos empreendimentos econômico-solidários nas
compras do setor público.
As iniciativas econômicas ligadas à economia solidária são
relativamente recentes e é possível que seu amadurecimento revele de
fato sua capacidade emancipatória. Observando os grupos que estão sob o
acompanhamento do PMES em Londrina verificamos, contudo, que
uma forte dependência das várias formas de auxílio oferecidas por esse
programa público.
Durante a entrevista com o Prefeito Nedson Micheleti o
assunto dos programas relativos à economia solidária e ao microcrédito
foram abordados. O Prefeito fez então um comentário revelador: O
público que é atendido pela economia solidária é muito diferente daquele
do Moto Táxi ou do Camelódromo. Esse pessoal tinha uma disposição
diferente de ir pro tudo ou nada. O pessoal da economia solidária precisa
de mais apoio.”
O próprio titular da Secretária Nacional de Economia
Solidária, Paul Israel Singer, reconhece a necessidade de intervenção do
199
poder público para possibilitar a superação das dificuldades da economia
solidária
141
.
O que nos parece importante nessas observações é que as
atividades realizadas no âmbito da economia solidária requerem subsídios
técnicos, financeiros, comerciais, entre outros. Para atender a esses
requisitos em sua totalidade se fazem necessárias políticas públicas
sustentadas a médio e longo prazo com recursos relativamente
abundantes.
As abordagens sobre as formas de enfrentamento e
resistência às transformações no mundo do trabalho e à expansão da
pobreza no período atual, que se apóia no conceito restrito de setor
informal, assim como a análise sobre o desenvolvimento recente da
economia solidária, guardam diferenças substantivas em relação à teoria
dos circuitos da economia urbana.
Na teoria dos circuitos, forte ênfase na necessidade de
acompanhar a dinâmica histórica da pobreza como condição de não cair
nas armadilhas do dualismo e suas versões atualizadas (MONTENEGRO,
2006). Um exemplo dessa atualização está nas abordagens que dividem
de forma sumária as atividades econômicas em formais e informais,
identificando e restringindo o setor informal à ilegalidade e a pobreza.
Oblitera-se o fato de que, ao reproduzir ocupações mal remuneradas,
mesmo com registro em carteira e vínculos formais de trabalho, o que
seria o equivalente do setor formal nessa abordagem, também se
expande a pobreza e se cria oportunidades para situações de ilegalidade.
141
Infelizmente, muitas das cooperativas formadas por trabalhadores sofrem de escassez de capital e insuficiente
acesso aos mercados, de modo que se vêem forçados a competir sacrificando seus próprios membros, embora
isso em geral ocorra apenas nos primeiros tempos. [...]
Para enfrentar esses problemas, nosso projeto de lei prevê um programa de fomento, de apoio às cooperativas de
trabalho. É o Programa Nacional de Fomento ao Cooperativismo do Trabalho (Pronacoop), em que primeiro dá-
se um prazo para que a cooperativa se adapte e passe a garantir os direitos trabalhistas para os seus cios.
Durante esse prazo, as cooperativas receberão assistência do governo para atingir plena suficiência econômica,
necessária para cumprir a legislação. Elas receberão apoio para oferecer mercadorias ou serviços de mais
qualidade, além de também terem acesso a crédito, tecnologia etc. Não temos nenhum interesse de ter uma
economia solidária miserável, muito pobre. Mas essa é a realidade da economia solidária no Brasil hoje
(SINGER, 2008, p.291).
200
Ainda em relação à concepção de setor informal é
necessário questionar a própria idéia da existência de setores econômicos,
que ainda empregamos correntemente mais ou menos nos mesmos
moldes em que Colin Clark (1940) os definiu.
A classificação em setores compreende uma grande abstração da
economia que esconde o uso diferente do território pelos agentes.
Atividades que teoricamente participariam de um mesmo “setor”
apresentam, em realidade, conteúdos bastante diferenciados em
termos de organização, de capital e de poder de interferência na
organização do espaço. (MONTENEGRO, 2006, p.46)
Na análise da economia solidária o que se propõe é a
construção de outro modo de produção, contudo a questão da
dependência do fundo público constituído no âmbito do Estado capitalista
permanece. A subvenção do Estado parece ser decisiva para sobrevivência
da economia solidária.
Na teoria dos circuitos, a subordinação das atividades
econômicas ligadas aos pobres se em relação ao setor dinâmico da
economia, o circuito superior. A participação do Estado é reduzida e as
relações entre os circuitos se constroem no âmbito do mercado. Essa
questão coloca uma diferença constitutiva entre, por exemplo, as
atividades do circuito inferior e os empreendimentos da economia solidária
em Londrina. Por sua estruturação e funcionamento, o circuito inferior não
se coloca como outro modo de produção e tampouco como criação de
possibilidades emancipatórias. Todavia, nem por isso deixa de revelar o
dinamismo e a luta dos que se vêem em posição estruturalmente
subordinada contra as mazelas das políticas neoliberais e da globalização,
esse outro nome para designar o período atual.
O que se revela com clareza na abordagem dos circuitos da
economia urbana são os dinamismos da pobreza e sua capacidade de
criar trabalho(SILVEIRA, 2004, p.70). A análise do entrelaçamento dos
circuitos, ou seja, das relações entretecidas no âmbito de cada circuito e
entre os circuitos superior, inferior e superior marginal, aponta tanto
processos de subordinação como a criatividade e a capacidade de resistir
201
que é engendrada pelas pessoas atingidas de forma mais contundente
pelo desemprego e pelo empobrecimento.
De maneira igualmente importante essa análise contribui
para o entendimento de como o meio construído e a cidade como um todo
participam do entrelaçamento dos circuitos. A cidade ela própria se torna
meio de trabalho, no sentido marxiano do termo, e não apenas para as
atividades hegemônicas, mas em especial para o circuito inferior. A
dimensão do lugar ganha destaque na compreensão de como se produzem
a resistência e a busca de um cotidiano menos incerto e inseguro.
O circuito inferior em seu entrelaçamento com a cidade é
também produtor de economia que se fundamenta no trabalho vivo e de
dinamismos que se ligam ao modo de vida urbano.
Para discutir melhor e aprofundar esses argumentos
analisaremos a seguir as características dos trabalhadores do circuito
inferior em Londrina, procurando identificar suas especificidades e
relacioná-las às transformações que ocorreram na divisão do trabalho no
período atual.
202
5.3 A caracterização dos trabalhadores do circuito
inferior da economia urbana em Londrina
Uma das diferenças significativas do circuito inferior no
período atual é que os indivíduos que o compõe não são, como nos anos
1970, migrantes recém-chegados à cidade, com pouca escolaridade e
pouco adaptados ao modo de vida urbano. Cabe então indagarmos:
Quem são os trabalhadores do circuito inferior envolvidos nas três
atividades pesquisadas?
Onde residem?
Com se inserem no modo de vida urbano?
Com base na caracterização desses trabalhadores
procuramos estabelecer algumas relações entre os dados observados e a
dinâmica própria à cada atividade e as variáveis que definem o período
atual.
203
5.3.1 – As características de gênero, faixas etárias e estado
civil
Considerando as três atividades em conjunto, isto é, o
Camelódromo, o Moto táxi e as Entregas Urbanas sete em cada dez
trabalhadores são homens. Dentre as 56 mulheres (27% do total), nada
menos que 53 delas trabalhavam no Camelódromo de Londrina. As outras
três mulheres eram mototaxistas das seguintes Centrais: Líder na área
central, Cincão da zona norte e Titan da zona sul. Entre os motoboys não
encontramos nenhuma “motogirl”.
O cotidiano dos trabalhadores com moto exige uma
combinação de esforço físico e resistência, combinação essa requerida
para suportar tanto a exposição às intempéries quanto as extenuantes
jornadas de trabalho no Moto Taxi e nas Entregas Urbanas, no entanto,
nada disso é empecilho para participação das mulheres nessas atividades.
De qualquer forma, o que se constata é que as mulheres são maioria no
Camelódromo (proprietárias e funcionárias) e os homens predominam
largamente nas atividades que envolvem o uso da moto como instrumento
de trabalho.
Tabela 3
Trabalhadores (as) do circuito inferior em Londrina:
caracterização quanto ao gênero, 2008.
Gênero
Atividades do Circuito Inferior
Camelódromo
Moto Táxi
Entregas
Urbanas
Total
N.º de
Pessoas
%
N.º de
Pessoas
%
N.º de
Pessoas
%
N.º de
Pessoas
%
Masculino
28
35
71
96
52
100
151
73
Feminino
53
65
3
4
0
0
56
27
Total
81
100
74
100
52
100
207
100
Fonte: Trabalho de campo, 2008
A maioria dos trabalhadores do circuito inferior é de jovens
(57,6%), são pessoas que têm até 30 anos de idade. Se considerarmos a
faixa até 40 anos, período em que os trabalhadores estão em plenas
condições de atividade, o percentual sobe para 80%.
204
Tabela 4
Trabalhadores (as) do circuito inferior em Londrina:
caracterização quanto as faixas etárias, 2008.
Faixas de idade (anos)
N.º de
Pessoas
%
17 a 20
16
7,7
21 a 30
103
49,9
31 a 40
46
22,2
41 a 50
28
13,5
51 a 63
11
5,3
Sem informação
3
1,4
Fonte: Trabalho de campo, 2008
Entre os homens 57,5% tem até 30 anos e entre as
mulheres o percentual é de 80%. A maioria dos trabalhadores é de
pessoas casadas 53% do total. Se considerarmos também os
divorciados e separados o percentual sobe para 63%. Os solteiros
correspondem a 37%.
Observando cada atividade nota-se que o maior percentual
de solteiros aparece dentre os trabalhadores do Camelódromo (49%)
superando ligeiramente o de casados (48%). No Moto táxi e nas Entregas
Urbanas predominam os casados com percentuais de 57 e 54% do total
de entrevistados, respectivamente. A maioria dos trabalhadores das três
atividades está ligada a uma família na qual tem papel central como
responsável.
205
5.3.2 Localização, distribuição e caracterização dos
domicílios
A localização e distribuição dos trabalhadores das três
atividades pesquisadas em Londrina estão representadas nos mapas a
seguir
142
. O primeiro deles mostra a distribuição dos proprietários e
funcionários do Camelódromo de Londrina.
Mapa 13
Londrina: distribuição dos domicílios trabalhadores do Camelódromo, 2008
Fonte: Trabalho de campo, 2008
142
O número de trabalhadores representados no mapa (64 pessoas) é menor do que o de entrevistados (81). A
diferença ocorre por conta da perda de informação (pessoas que não indicaram o endereço) e para evitar a
identificação das pessoas.
206
A maioria dos trabalhadores do Camelódromo reside na
zona leste e na área central da cidade, contrastando com a zona sul com
apenas 2 trabalhadores. Na área central ocupam bairros situados ao norte
da antiga ferrovia que, historicamente, abrigaram a população pobre de
Londrina. Há ainda 13 trabalhadores espalhados na zona norte e outros 13
na zona oeste. Essa distribuição é significativa porque revela que a grande
parte dos trabalhadores do Camelódromo reside em “bairros populares”
muitos deles formados a partir de conjuntos habitacionais construídos nos
anos 1970 e 1980
143
.
No mapa a seguir, o padrão de distribuição dos locais de
residência dos mototaxistas também acompanha a localização dos bairros
populares da cidade, sobretudo os que se formaram ou se consolidaram
nos anos 1970 e 1980. A zona norte se destaca com a maior parte dos
pontos cartografados
144
e a área central é a menos representativa em
relação aos locais de residência dos mototaxistas do que para os
trabalhadores do Camelódromo. As zonas leste e sul também abrigam um
número razoável de mototaxistas, os quais, tal como ocorre com os
trabalhadores do Camelódromo, também residem em bom número em
bairros formados a partir conjuntos habitacionais
145
.
De forma semelhante ao que ocorre na distribuição dos
trabalhadores do Camelódromo na cidade, alguns mototaxistas também
143
Na área os trabalhadores se concentram na Vila Nova e outros bairros próximos da Avenida Leste-Oeste,
antiga linha do trem. Historicamente os bairros situados ao norte da ferrovia, especialmente as Vilas que se
formaram, abrigaram a população pobre da cidade. apesar de constituírem atualmente espaços de relativa
valorização, ainda guardam esse conteúdo social. Na zona oeste os trabalhadores se concentram no jardim
Leonor e no extremo oeste da cidade no Jardim Olímpico e no Conjunto Avelino Oliveira, sendo que estes dois
últimos são bairros resultantes de expansão relativamente recente (anos 1990) e reúnem majoritariamente
população muito pobre. Na zona leste destacam-se os Conjuntos Mister Thomas e adjacências, mais próximos da
zona norte, e o Conjunto Ernani Moura Lima, próximo do Hospital Universitário. Na zona norte, onde foi
construída boa parte dos conjuntos habitacionais de Londrina, os trabalhadores do Camelódromo estão
distribuídos em diversos conjuntos como, por exemplo, o Parigot de Souza mais a oeste, o Conjunto Ruy
Virmont Carnascialli nas proximidades do autódromo e os Conjuntos Maria Cecília, Semíramis e Aquiles
Stenghel que são parte dos chamados Cinco Conjuntos.
144
Foram representados 49 locais de residência dos 74 mototaxistas entrevistados. A zona norte abriga 21 locais
de residência.
145
Na distribuição dos locais de residência dos mototaxistas os conjuntos das zonas norte e leste, já mencionados
na analise da distribuição dos trabalhadores do Camelódromo, se repetem: Cinco Cojuntos, Parigot de Souza,
Vivi Xavier, Ernani Moura Lima, Mister Thomas, etc. Aparecem como novidade os conjuntos habitacionais da
zona sul: Cafezal I e II, Conjunto Roseira e Conjunto Parque das Industrias e ainda alguns bairros de expansão
relativamente recente (anos 1990) como Jardim Franciscato e o Jardim Joana.
207
residem em bairros afetados pela pobreza de forma mais intensa. É o caso
do Jardim União da Vitória, bairro situado no extremo sul de Londrina e
que resultou de um processo de ocupação nos anos 1990.
Mapa 14
Londrina: distribuição dos domicílios dos mototaxistas, 2008
Fonte: Trabalho de campo, 2008
O próximo mapa indica a distribuição dos locais de
residência dos motoboys
146
. O padrão de distribuição se repete. A zona
norte abriga, nesse caso, mais da metade dos locais de residência e área
central tem apenas uma ocorrência. As zonas sul e leste vêm a seguir em
número de pontos cartografados. A identificação dos locais de residência
146
Foram representados 43 locais de residência de 52 motoboys entrevistados.
208
novamente coincide com os conjuntos habitacionais e bairros resultantes
de expansão relativamente recente
147
.
Mapa 15
Londrina: distribuição dos domicílios dos motoboys, 2008.
Fonte: Trabalho de campo, 2008
Para um melhor entendimento da relação entre a
distribuição dos locais de residência dos trabalhadores do circuito inferior
e sua inserção na estrutura e no modo de vida urbanos, produzimos um
mapa em que procuramos correlacionar essa distribuição com as faixas de
rendimento da população como um todo.
147
Destacamos nesse caso o Jamile Dequech no extremo sul da cidade, bairro que também resultou de processos
de ocupações no final dos anos 1990 e inicio dos anos 2000. Situado em local de topografia movimentada esse
bairro, assim como os do extremo oeste da cidade é afetado pro situações de extrema pobreza e exclusão. Na
zona norte outro ponto indica situação semelhante. É o assentamento Jardim são Jorge situado na parte mais a
oeste da zona norte, opondo-se e alinhando-se com os Cinco Conjuntos.
209
Mapa 16
Londrina: Distribuição dos trabalhadores do circuito inferior
e setores censitários com no mínimo 20% de responsáveis por domicílio com
rendimentos até 2 sal. mínimos, 2008.
Fonte: Censo Demográfico 2000, Atlas Ambiental de Londrina e
Trabalho de campo, 2008
210
A distribuição dos trabalhadores das três atividades
analisadas coincide, de forma aproximada, com a distribuição dos setores
censitários em que mais de um terço dos responsáveis pelo domicílio
com rendimentos de até 2 salários mínimos (IBGE, 2000). Essa
informação confirma a relação entre a localização da parcela da população
que conta com menores rendimentos e domicílios nos quais, os
trabalhadores do circuito inferior, contribuem diretamente para o sustento
das famílias. O circuito inferior concorre, portanto, para amenizar o
empobrecimento, auxilia a resistir à perda progressiva da capacidade de
encontrar trabalho e, assim, contribui para que pelo menos se consiga
manter o que foi conquistado, como a casa, os equipamentos domiciliares,
etc., que são parte da base material do cotidiano.
As políticas de habitação dos anos 1970 até meados dos
anos 1980, apesar de todo contexto autoritário e de suas insuficiências,
produziram certos resultados em Londrina. Como vimos os trabalhadores
das três atividades pesquisadas se localizam, em muitos casos, nos
conjuntos habitacionais construídos nesse período, ou em bairros
populares surgidos de loteamentos abertos nos anos 1990. Esse contexto
de oferta de residências modestas repercute no fato de que nada menos
que 59% dos trabalhadores do circuito inferior declararam morar em casa
própria. O aluguel pesa no orçamento doméstico de 27% dos
entrevistados e apenas 14% declararam morar com os pais.
Gráfico 17
Londrina: equipamentos domiciliares nas residências dos trabalhadores do
circuito inferior, 2008. (%)
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
Acesso a Internet
Automóvel
Microcomputador
Telefone Fixo
DVD
Celular
Refrigerador
Televio
Fonte: Trabalho de campo
211
Os domicílios dos trabalhadores do circuito inferior possuem
os equipamentos básicos que correspondem à vida urbana no contexto
atual. As condições materiais dos domicílios dos trabalhadores nas três
atividades estudadas revelam a luta pela conquista do cotidiano.
Conforme Amélia Damiani (1993) o cotidiano é mais do que uma ordem
imposta, compreende também ”no plano subjetivo, uma organização de
vida assegurada”. A autora complementa afirmando que o cotidiano está
ligado à busca de alguma segurança no que diz respeito às necessidades
do dia a dia.
Quando o banal do dia a dia, como se alimentar, vestir-se, alojar-
se, locomover-se, produzir, faz parte da vida de forma segura.
Com esses tempos, atividades e espaços conquistados de maneira
que parece definitiva. É a ordem diária da segurança material.
Tendo cotidiano se dorme em paz (DAMIANI, 1993, p.20).
O desemprego, especialmente quando prolongado, faz
crescer a insegurança e ameaça a continuidade do cotidiano que foi
alcançado a duras penas e ao longo de gerações. Manter o cotidiano
significa muitas vezes lutar para não cair na invalidação por
envelhecimento ou no descarte prematuro (CASTEL, 1998).
Manter o cotidiano conquistado implica também acompanhar
as transformações técnicas que despejam sobre nossas cabeças novos
objetos e com eles, novas possibilidades e necessidades. Os novos objetos
técnicos, como o telefone celular, se fazem mais presentes no cotidiano
dos trabalhadores do circuito inferior do que o telefone fixo ou o
automóvel. O celular não é somente um objeto de desejo, é também
fundamental no trabalho de mototaxistas e motoboys. A possibilidade de
comprar equipamentos usados e renová-los e de obter uma linha pré-
paga facilitam a difusão desse equipamento. A combinação entre
televisores e DVDs permite dispor de formas de lazer que não se
restringem à programação das emissoras de televisão aberta.
Outra dimensão implicada na presença marcante de alguns
equipamentos nos lares dos trabalhadores do circuito inferior é a difusão e
a intensificação do consumo que, no Brasil, se estende para além das
classes médias nos anos 1990, atingindo também as classes menos
212
favorecidas, mediante forte expansão do crédito (SANTOS e SILVEIRA,
2001, p.229).
A combinação resultante desse conjunto de características
indica que, no período atual, os atores do circuito inferior diferem
substantivamente daqueles que nos anos 1970 enfrentavam a vida nas
regiões metropolitanas, como migrantes recém-chegados desprovidos de
condições materiais que pudessem favorecer o acesso ao cotidiano.
Naquele momento, a esperança ficava por conta de conseguir um
emprego na indústria, incluindo a construção civil, organizar a vida,
conseguir uma casa, criar os filhos. Ou ainda, após passar algum tempo
como empregado registrado em alguma empresa, usar os recursos da
rescisão contratual para iniciar um pequeno negócio por conta própria.
No período atual, a situação dos trabalhadores do circuito
inferior parte de um cotidiano ameaçado. A contrapartida negativa da luta
pela manutenção desse cotidiano tem sido a precarização das condições
de trabalho que se expressa nos riscos (assaltos, acidentes, etc.), na
ausência de acesso à seguridade social e nas jornadas de trabalho
extenuantes a que estão submetidos esses trabalhadores.
213
5.3.3 – Renda mensal, jornadas e vínculos de trabalho
A renda líquida mensal obtida nas atividades do circuito
inferior varia conforme a atividade. Os menores rendimentos mensais
148
são auferidos pelos que são empregados. Considerando apenas os ganhos
na atividade principal os funcionários do Camelódromo ganham, em
média, R$ 557,00 e os motoboys R$ 626,00
149
.
Os ganhos líquidos médios mensais dos trabalhadores por
conta própria são um pouco maiores. Os mototaxistas ganham, em média,
R$ 855,00
150
e os maiores ganhos são auferidos pelos pequenos
comerciantes do Camelódromo, R$ 1.614,00.
Gráfico 18
Londrina: rendimentos líquidos declarados pelos trabalhadores nas três
atividades, 2008. (n. de Pessoas)
R$ 0,00
R$ 250,00
R$ 500,00
R$ 750,00
R$ 1.000,00
R$ 1.250,00
R$ 1.500,00
R$ 1.750,00
R$ 2.000,00
R$ 2.250,00
R$ 2.500,00
R$ 2.750,00
R$ 3.000,00
R$ 3.250,00
1 15 29 43 57 71 85 99 113 127 141 155 169 183 197
Fonte: Trabalho de campo, 2008
Observação: No eixo (x) estão representadas cada uma das pessoas que
informaram seus ganhos. Foram desprezados o maior e o menor valor declarados. As
informações de 8 entrevistados foram descartadas por serem incompletas ou
inconsistentes.
148
Conforme a Lei Federal 11.709, de 19.06.2008 o valor do salário mínimo era de R$ 415,00, e no Paraná
segundo a Lei Estadual 15826 o menor salário mínimo era de R$ 527,00, pago aos trabalhadores da
agricultura e o maior era de R$ 548,00 pago aos técnicos de nível médio.
149
Os ganhos totais dos motoboys são muito variáveis. diversas situações: ganhos com horas extras, ajudas
de custo, ganhos com taxas de entrega que variam conforme a distância e o tipo de entrega. Além disso, 42% dos
motoboys trabalham em um emprego registrado e tem outra atividade como bico: pizzarias, farmácias pequenas
nos fins de semana, lanchonetes, lojas de autopeças etc. Os ganhos totais dos motoboys são, em média,
aproximadamente R$ 950,00.
150
Em menor proporção do que os motoboys, alguns mototaxistas, 25% do total, exercem uma segunda atividade
além do Moto Táxi, tais como: vigilantes, entregadores em farmácias, lanchonetes e pizzarias, vendedores e
garçons.
214
Alguns motoboys, mototaxistas e funcionários do
Camelódromo
151
complementam os rendimentos com alguma outra
atividade nos fins de semana, o popular bico, ou até mesmo um emprego
formal noturno. No caso dos proprietários de estabelecimentos do
Camelódromo os ganhos variam conforme o tipo de produto vendido.
A grande maioria dos entrevistados, isto é 73% do total
(151 pessoas), ganham menos de R$ 1.000,00 por mês. Considerando as
três atividades, a renda média dos trabalhadores é de R$ 840,00.
Para obter esses rendimentos as jornadas de trabalho são
variadas. Os motoboys que trabalham apenas em um emprego (58%)
costumam fazer horas extras. A jornada básica é de 8 horas diárias de
segunda a sexta feira. O trabalho começa entre oito e nove da manhã e
termina entre quatro e seis da tarde, com intervalos regulares para
almoço e lanche. As horas extras começam após as seis da tarde e
prolongam a jornada até as dez ou onze da noite. As jornadas diárias
chegam a superar 12 horas diárias.
Os motoboys que tem duas ocupações trabalham até cinco
ou seis da tarde e, especialmente nos fins de semana, trabalham
entregando lanches, pizzas e remédios. Nesse caso as jornadas podem se
estender aos 7 dias da semana, com durações variadas.
Os mototaxistas trabalham seis dias por semana cumprindo
jornadas de 10 a 12 horas diárias. As jornadas diárias começam entre
sete e oito da manhã e terminam entre as sete e oito da noite, sem
intervalos regulares. Em geral descansam entre uma corrida e outra e
almoçam rapidamente em algum momento entre as onze da manhã e as
duas da tarde, conforme o ritmo das corridas.
Os mototaxistas que têm duas ocupações começam mais
cedo, por volta das sete da manhã, e param por volta das quatro da
tarde. Retomam o trabalho após as seis da tarde e a duração da segunda
151
Dentre essas três atividades os percentuais de pessoas que declararam ter uma segunda atividade variam de
17% para os funcionários do Camelódromo até 42% no caso dos motoboys.
215
jornada varia conforme a atividade e o dia da semana. Nesse caso as
jornadas totais também ultrapassam 12 horas diárias.
Em compensação aos menores rendimentos os funcionários
de estabelecimentos do Camelódromo são os que cumprem jornadas
menos extenuantes. A grande maioria (72%) trabalha seis dias por
semana das nove da manhã às seis da tarde, com intervalos regulares
para almoço e lanche.
Os proprietários cumprem os mesmos horários dos
funcionários, que sem os intervalos. Além disso, viajam para comprar
novas mercadorias, inclusive nos fins de semana. Quanto aos vínculos de
trabalho e as contribuições para aposentadoria a situação também é
diferenciada conforme a atividade.
No Camelódromo ocorrem duas situações típicas. Em 64%
dos estabelecimentos trabalham o proprietário(a) sozinho(a) ou com a
ajuda de mais uma pessoa. Em parte desses estabelecimentos, a ajuda
vem de um parente do proprietário(a) aproximando-se da situação de
trabalho familiar e, nos demais, a ajuda vem de pessoas contratadas. Em
36% dos estabelecimentos, duas ou mais pessoas além do
proprietário, em geral, com vínculos formais de trabalho e registro em
carteira.
Entre os proprietários que concederam entrevista e
responderam ao questionário (34 pessoas) 60% recolhe as taxas e
tributos para aposentadoria.
A quase totalidade dos motoboys entrevistados (91%) é
empregada formal de empresas de entregas urbanas. Essa atividade
exemplifica o modo como as baixas remunerações em empregos formais
também estimulam a informalidade. Trabalhadores com vínculos de
trabalho formais procuram bicos e outras atividades sem registro em
carteira para complementar os rendimentos e fazer frente às necessidades
do modo de vida urbano. O aspecto positivo fica por conta de que, com o
vínculo formal, esses trabalhadores mantêm contribuições para
216
aposentadoria e acesso a direitos trabalhistas como garantias de renda
em caso de acidente de trabalho, férias e décimo terceiro salário.
O circuito inferior, por outro lado, não se resume a vínculos
de trabalho informais ou à ajuda de parentes e pessoas próximas. As
Centrais de Moto Taxi e os estabelecimentos do Camelódromo empregam
50 pessoas com registro em carteira, o que corresponde a 54% dos
postos de trabalho gerados nessas duas atividades.
A situação de vulnerabilidade é marcante no Moto Táxi.
Dentre os 74 entrevistados, 61 pessoas (82%) declararam sem hesitar
que, em caso de acidentes, doenças ou outras necessidades particulares
não dispõem de nenhuma cobertura. Os rendimentos cessam de imediato
e as obrigações continuam e se acumulam, fica-se ameaçado, por
exemplo, de perder o instrumento de trabalho: a moto, uma vez que a
maioria paga religiosamente as parcelas do financiamento usado para
adquirir esse bem. O seguro recolhido mensalmente cobre apenas casos
de invalidez permanente e morte.
Apenas 26% dos mototaxistas recolhem contribuições para
aposentadoria e nem todos o fazem de forma contínua. Somente dois
entrevistados conseguem manter seguros contra acidentes pessoais e em
apenas uma das trinta e cinco Centrais visitadas encontramos
mototaxistas que são assalariados formais.
O circuito inferior é, portanto, bastante heterogêneo quanto
às situações de informalidade e precarização dos nculos de trabalho.
Classificações rígidas e niveladoras, a exemplo das que empregam o
conceito restrito de setor informal, mais ocultam do que elucidam a
dinâmica própria da pobreza na cidade capitalista e da luta contra o
empobrecimento.
217
5.4 As razões da entrada e da permanência dos
trabalhadores nas atividades do circuito inferior
exercidas por conta própria
Conforme dissemos, a geração de trabalhadores que
atualmente está nas atividades do circuito inferior não é composta de
migrantes recém-chegados à cidade como nos anos 1970 e 1980. Pouco
mais da metade dos 207 entrevistados, isto é, 54% deles, nasceu em
Londrina; e a grande maioria nasceu no Paraná, especialmente em
municípios da região norte, somando 83% do total. Notamos que se trata
de pessoas que estão inseridas há algum tempo no modo de vida urbano.
O cotidiano desses trabalhadores, em razão das
modernizações que a cidade acolheu, torna-se instável pela ameaça de
não conseguir emprego ou ocupação, pela ameaça de ser levado à
condição de supranumerário (CASTEL, 1998).
Tabela 5
Migrantes, não migrantes no circuito inferior - Londrina, 2008.
Tempo de residência
em Londrina (anos)
N.º de
Pessoas
%
MENOS DE 1 1 0,5
1 a 2 7 3,4
3 a 5 10 4,8
6 a 10 11 5,3
11 a 15 13 6,3
16 a 20 23 11,1
MAIS DE 20 63 30,4
SEMPRE MOROU 79 38,2
TOTAL 207 100,0
Fonte: Trabalho de campo, 2008.
Antes de conseguir um estabelecimento no Camelódromo de
Londrina ou trabalhar como mototaxista, atividades em que as pessoas
atuam como trabalhadores por conta própria, a quase totalidade dos
entrevistados teve uma ocupação no mercado formal de trabalho com o
devido registro em carteira.
As atividades analisadas indicaram que, em Londrina, nas
duas últimas décadas, a instabilidade, minimizada em períodos anteriores
218
pela expansão da relação salarial, tornou-se crescente, a ponto de
projetar sobre o cotidiano urbano uma sombra de preocupação.
Tabela 6
Participação dos trabalhadores autônomos
no mercado formal de trabalho, 2008
Trabalhou com carteira
assinada antes da atividade
atual?
N.º de Entrevistados Totais
SIM
% NÃO
%
Proprietários de
estabelecimentos no
Camelódromo
29 85,3 5 14,7 34 100
Mototaxistas 67 90,5 7 9,5 74 100
Total 96 88,9
12 11,1
108
100
Fonte: Trabalho de campo, 2008
Observação: A questão sobre a posse de carteira assinada em atividades anteriores
foi respondida pelos trabalhadores que potencialmente perderam seus vínculos formais
de trabalho. Não responderam a essa questão os funcionários do camelódromo (47
entrevistados) e os motoboys que, em sua totalidade, possuem registro em carteira (52
entrevistados).
A instabilidade manifesta-se na intermitência da ocupação e
da renda e na insuficiência desta última. Objetivamente, as informações
fornecidas pelos entrevistados indicam que suas trajetórias no mercado
formal de trabalho foram compostas de muitas atividades, quase sempre
de baixa remuneração e que, uma das causas de sua passagem para o
comércio ambulante e o trabalho autônomo no moto taxi, foi o
desemprego.
Em Londrina, assim como em outras cidades, o desemprego
tende a se tornar prolongado, no caso dos jovens e também das pessoas
com mais de 45 anos e com pouca escolaridade. A condição de
desempregado foi apontada por 64% dos entrevistados como razão para
adquirir a primeira moto e iniciar no Moto Táxi e por 61% dos
proprietários entrevistados no Camelódromo como razão para iniciar um
negócio próprio.
A remuneração insuficiente foi outra razão objetiva, indicada
pelos entrevistados para mudar de atividade, deixando para trás o
219
assalariamento formal
152
. Essa razão foi manifestada pelos entrevistados
desempregados e que, nas oportunidades de emprego que encontraram,
teriam de se adaptar a um salário liquido menor do que a renda auferida
como mototaxista.
Segundo a Companhia de Desenvolvimento de Londrina
(CODEL, 2003, p.9), em 2003, o salário médio na cidade girava em torno
de R$ 750,00. Esse número, contudo não reflete a remuneração das
funções exercidas pela maioria dos entrevistados que é, em geral, inferior
a essa média
153
.
Com mais ênfase ainda a baixa remuneração em empregos
anteriores com carteira assina foi apontada por muitos entrevistados que
não indicaram o desemprego como razão de sua passagem para a nova
atividade. Alguns foram incisivos quanto à insatisfação com o rendimento
obtido no último emprego ou ocupação e ao fato de que sua permanência
na nova atividade se devia, entre outros motivos, à melhor remuneração
obtida. A tabela revela que mais da metade dos mototaxistas e dos
proprietários do Camelódromo está mais de 5 anos militando na
atividade.
Tabela 7
Tempo de trabalho em atividades por conta própria, 2008.
Tempo de trabalho na
atividade (anos)
Atividades por conta própria
Como pequeno
comerciante
Como
mototaxista
Total
N.º de
pessoas
% N.º de
pessoas
% N.º de
pessoas
%
Menos de 1 2
6,0
16
21,7
18
16,7
1 a 2 6
17,6
9
12,1
15
13,9
3 a 4 5
14,7
9
12,1
14
13,0
5 a 10 17
50,0
40
54,1
57
52,8
Mais de 10 4
11,7
0
0,0
4
3,7
Total 34
100,0
74
100,0
108,0
100,0
Fonte: Trabalho de campo, 2008.
152
É preciso ressaltar que deixar de ser assalariado formal não implica, necessariamente, adentrar o setor
informal e que a informalidade como conjunto de práticas que descumpre algum aspecto da legislação vigente é
também uma característica presente no chamado setor organizado das ocupações não-agrícolas.
153
Um exemplo é o salário dos motoboys que é, pelo acordo coletivo da categoria no período 2008/2009 de R$
544,00 reais. Auxiliares de produção, de serviços gerais, de escritório, balconistas e entregadores ganhavam em
2007 valores entre R$ 400,00 e R$550,00, ou seja, valores próximos do salário mínimo regional do Paraná,
conforme levantamento preliminar no SINE de Londrina.
220
Em algumas entrevistas, como a do Sr. E. de 30 anos de
idade, ex-funcionário de empresa de transportes coletivos da cidade e
que, 8 anos trabalha em uma das centrais da zona norte de Londrina,
fica muito claro que a transição para o Moto Táxi se fez graças à
insatisfação com os empregos anteriores:
“Hoje em dia não compensa mais você trabalhar registrado. Eu
trabalhava de cobrador, fazia um horário doido lá, um horário
maluco lá, pra ganhar seiscentos e oitenta real na carteira. Aqui se
eu tiver um compromisso: ir no cartório, comprar uma coisa na
loja, levar a mulher no médico eu posso intercalar no trabalho. Por
exemplo vou levar alguém da família no médico, chega eu pego
uma corrida e aqui a gente trabalha com o rádio também” (SR. E.
motoaxista, Trabalho de campo, 2008).
Segundo o entrevistado, apesar de trabalhar um número de
horas bem maior do que nos antigos empregos, o fato de poder dispor de
seu tempo de outra maneira, descansar entre uma corrida e outra e
intercalar o trabalho com a necessidade de resolver problemas pessoais
foi um dado adicional para sua decisão de permanecer no moto táxi.
Da mesma forma, alguns outros entrevistados como o Sr. R.
da Central Rota 99 na região Central, dissera que “ter sempre um
dinheirinho na mão ajuda a poder pagar as contas, não fico preso aquele
salário, se aperta posso trabalhar a noite, no domingo...”. Essa parece ser
também a disposição de um versátil proprietário de estabelecimento que
vende artigos de vestuário no Camelódromo que, com apenas 27 anos de
idade, foi empacotador, operador de caixa em um grande
supermercado, cabeleireiro e auxiliar de mecânico de automóveis.
Insatisfeito com sua última função como vendedor de cartões de uma
grande rede varejista da cidade decidiu, após um breve tempo vendendo
roupas na feira, instalar-se no Camelódromo onde considera que
prosperou, pois abriu um segundo estabelecimento em sociedade com
sua namorada.
O rendimento bruto obtido no Moto Táxi ou no
Camelódromo, que em geral é mais elevado do que o de atividades
anteriores, é o fator decisivo da avaliação positiva das atividades atuais,
más outros. Para muitos entrevistados ter menos dor de cabeça e
221
menos medo de ficar na rua” (SR, L da central Rota 99), isto é, não deixar
sua vida “depender tanto de decisão dos outros” também tem seu peso na
avaliação dos que trabalham por conta própria. também a percepção
de que as atividades, tanto o Moto xi como o Camelódromo, são bem
sucedidas, que a cidade hoje não vive sem os comerciantes do
Camelódromo ou os mototaxistas e que ambas têm potencial para
crescer.
A insatisfação, porém, não se manifesta apenas em relação
a empregos e ocupações anteriores. Ela também aparece nas falas de
diversos entrevistados com relação à ocupação atual. Um dos elementos
centrais dessa forma de sentir e avaliar as atividades exercidas
atualmente é o temor de aquilo em que se trabalha “não valha a pena”.
Alguns entrevistados que atualmente são funcionários de
estabelecimentos do Camelódromo repassaram o negócio para parentes
próximos. Para essas pessoas ser funcionário permite ter direitos
trabalhistas e assim reduzir os riscos a que se está sujeito no trabalho
autônomo. Também pesou na transferência do negócio o fato de não ter
que tomar decisões arriscadas o tempo todo. Esse foi o caso do Sr. R.
migrante nordestino de 53 anos de idade, que foi metalúrgico e
vendedor ambulante. Ele que chegou a ser proprietário de um
estabelecimento no Camelódromo durante pouco mais de um ano,
preferiu “passá-lo adiante” e trabalhar para a cunhada que atua no
mesmo ramo e possui outros estabelecimentos no Camelódromo.
Para o Sr. H. mototaxista da central Ouro Verde na zona
norte, de 29 anos de idade, que já foi vendedor viajante e entregador e
nunca trabalhou com carteira assinada, uma oportunidade de emprego
seria muito bem vinda, principalmente “prá ter os direitos”.
Como se pode constatar a insatisfação está presente entre
os trabalhadores do serviço de Moto Táxi e entre os pequenos
comerciantes do Camelódromo de Londrina. Em geral a insatisfação
advém das preocupações com um futuro incerto: acidentes, prestação da
222
moto, movimento fraco, fiscalização da receita federal, aluguel caro, não
ter direitos (aposentadoria, décimo terceiro, férias).
A permanência dos trabalhadores nas atividades por conta
própria sugere que devemos ter alguma desconfiança quanto aos
números, em geral comemorados que, vez por outra, indicam aumento no
número de empregos formais. Esses empregos podem até ser importantes
para minimizar os problemas de quem está procurando um emprego, mas
não são suficientes para que, mesmo os insatisfeitos, troquem a ocupação
nas atividades por conta própria por empregos formais de remuneração
imediata menor do que a obtida no Moto Táxi ou no Camelódromo.
A permanência das pessoas em atividades por conta
própria, ao lado da geração de empregos formais de baixa de
remuneração, parece sugerir que a eventual melhora na qualidade dos
empregos convive com a “instalação na precariedade” de que fala Robert
Castel (1998).
223
5.5 – Trajetórias dos trabalhadores do circuito inferior no
mercado de trabalho e escolaridade
As atividades exercidas pelos trabalhadores do circuito
inferior em Londrina antes de ingressar na atividade atual eram, em geral,
funções que não requeriam grande qualificação e que estavam sujeitas à
alta rotatividade. As tabelas a seguir apresentam uma pequena amostra
das funções exercidas anteriormente por trabalhadores do circuito inferior
com diferentes idades.
Tabela 8
Londrina: funções exercidas anteriormente pelos mototaxistas
e grau de escolaridade, 2008.
Mototaxistas Idade
(anos)
Atividades em que já trabalhou Escolaridade
E. 21 Ajudante em Lava Rápido Ensino Médio Incompleto
J. E. 24 Auxiliar de produção em fábrica de
ferragens, Servente, Jardineiro
Ensino Médio Completo
R. 26 Carroceiro, Auxiliar de limpeza,
Montador de móveis, Tapeceiro,
Carregador no CEASA, Entregador
Ensino Fundamental Completo
R. 29 Auxiliar de pedreiro, Auxiliar de
produção, Vigilante
Ensino Fundamental Completo
A. 30 Digitador, Segurança, Auxiliar
administrativo, Jateador
Ensino Fundamental Completo
C. 32 Agricultor, Encarregado de Laticínio,
Servente de pedreiro
Ensino Médio Incompleto
R. 34 Cobrador de ônibus, Motorista, Auxiliar
de mecânico de autos
Ensino Fundamental Completo
F. 39 Técnico de refrigeração, Eletricista
industrial, Mecânico de manutenção
Ensino Fundamental Completo
L. 40 Pedreiro, Carpinteiro, Agricultor Ensino Médio Completo
J. 42 Caminhoneiro, Garçom Ensino Fundamental
Incompleto
P. 44 Indústria de malhas e confecções,
Pedreiro, Eletricista
Ensino Médio Completo
M. 47 Torneiro mecânico, Mecânico
Industrial, Pintor de autos, Funileiro
Ensino Médio Completo
S. 57 Agricultor, Ajudante de motorista,
Motorista de transportadora
Ensino Médio Completo
J. 63 Operador de máquinas agrícolas,
Auxiliar de produção, Operador de
máquinas industriais
Ensino Fundamental
Incompleto
Fonte: Trabalho de campo, 2008
224
Tabela 9
Proprietários no Camelódromo: funções anteriores e escolaridade, 2008.
Proprietários no
Camelódromo
Idade
(anos)
Atividades em que já trabalhou Escolaridade
J. 21 Operador de telemarketing, Telefonista e
Secretária
Ensino Médio
Incompleto
L. 24 Metalúrgico Ensino Superior
Incompleto
M. 24 Garçom, Copeiro, Atendente Ensino Médio
Completo
M. 26 Vendedor temporário Ensino Fundamental
Completo
E. 27 Cabeleireiro, Empacotador, Mecânico,
Operador de caixa no comércio
Ensino Médio
Completo
M. 29 Vendedor de móveis, Supervisor de loja de
móveis, Gerente de loja de móveis
Ensino Médio
Completo
R. 30 Doméstica, Auxiliar de costura Ensino Médio
Completo
T. 32 Vendedora Ensino Médio
Completo
K 32 Garçonete, Balconista em restaurante Ensino Médio
Completo
E. 38 Comerciante Ensino Médio
Completo
M.E. 41 Doméstica Ensino Médio
Completo
C. 45 Vendedor Ensino Médio
Incompleto
V. 49 Proprietária de pastelaria Ensino Médio
Completo
D 51 Metalúrgico, Vendas em Supermercado e
Distribuidor de Calçados
Não estudou
R. 53 Vendedor ambulante e Metalúrgico Ensino Fundamental
Completo
A. 55 Gerente comercial Ensino Superior
Completo
Fonte: Trabalho de campo, 2008
Tabela 10
Motoboys: funções anteriores e escolaridade, 2008.
Motoboys Idade
(anos)
Atividades em que já trabalhou Escolaridade
E. 19 Auxiliar administrativo, Balconista,
Auxiliar de Padeiro
Ensino Médio Incompleto
T. 21 Caixa de Supermercado, Balconista,
Promotor de Vendas
Ensino Médio Completo
A. 23 Auxiliar de Produção, Auxiliar de
Serviços Gerais, Garçom
Ensino Médio Incompleto
J. 26 Metalúrgico, Auxiliar em Lavanderia
Industrial
Ensino Fundamental Completo
C. 28 Balconista em Depósito, Auxiliar de
produção, Ajudante de Motorista de
Caminhão
Ensino Médio Incompleto
F. 31 office-boy, Encarregado de Depto.
Pessoal
Ensino Médio Incompleto
L. 33 Entregador em Supermercado,
Atendente em Agencia de turismo,
Restaurante no Japão
Ensino Médio Completo
C. 38 Padeiro, Reciclador na Coleta Seletiva Ensino Fundamental Completo
W. 43 Frentista, Agricultor Ensino Médio Completo
D. 46 Agricultor, Pedreiro Ensino Fundamental Completo
Fonte: Trabalho de campo, 2008
225
As funções citadas com maior freqüência pelos entrevistados
são ligadas à atividade industrial, tanto a indústria de transformação como
a construção civil. No total as atividades industriais fizeram parte da
trajetória de 38% do total de entrevistados
154
.
As funções ligadas ao comércio, especialmente as de
vendedor, balconista, caixa ou entregador, também foram freqüentes
entre os trabalhadores do circuito inferior. No Camelódromo, por exemplo,
22 entrevistados num total de 34 disseram ter trabalhado como vendedor,
caixa, balconista ou auxiliar de serviços gerais em algum estabelecimento
comercial. Outras 4 pessoas que adquiriram pontos comerciais no
Camelódromo tiveram pastelarias, lojas de roupa, restaurantes e um
cybercafé
155
. No total aproximadamente 30% das pessoas entrevistadas
exerceu funções ligadas ao comércio.
As funções exercidas no âmbito do chamado “terciário
banal”, como segurança, vigilante, limpeza, frentista, mecânico de autos,
garçom, motoristas de caminhão e cobradores de ônibus também foram
freqüentes na trajetória dos trabalhadores do circuito inferior,
especialmente entre os motoboys com mais de 25 anos de idade. Algumas
funções modernas como a de operador de telemarketing, de call Center ou
em atividades hegemônicas como a de bancário e ainda ex-funcionários
públicos completam a lista. As atividades exercidas no âmbito do terciário
fizeram parte da trajetória de 33% dos trabalhadores do circuito inferior.
As atividades exercidas no âmbito da agricultura também
foram mencionadas pelos entrevistados, porém com freqüência muito
menor do que as atividades urbanas. Apenas 8% dos entrevistados
mencionou funções ligadas ao campo.
Constatamos que não uma predominância efetiva de um
ou outro setor de atividade (indústria, comércio ou serviços) na origem
154
O total de entrevistados que respondeu a essa pergunta foi de 160 trabalhadores.
155
Após os dois primeiros anos em que houve uma transição da fase em que a Prefeitura controlou parte da
administração do Camelódromo para a fase atual em que toda administração ficou a cargo da ONG Canaã, foram
feitas reformas como o ar condicionado, a escada rolante para melhorar a fluência das pessoas para o segundo
pavimento e a abertura de uma modesta praça de alimentação e readaptação de alguns boxes próximos a ela,
inclusive com área para o cyber café.
226
dos trabalhadores do circuito inferior em Londrina. A característica comum
que chamou nossa atenção foi o tipo de ocupação exercido mais do que o
setor, considerado em termos tradicionais. Em geral, seja na indústria, no
comércio ou nos serviços, as funções exercidas resultam de posições na
divisão do trabalho que, em momentos de crise, são enxugadas ou
redistribuídas entre os que ficam na empresa.
A facilidade de contratar e demitir pessoas favorecida pela
legislação implantada nos anos 1970, com a criação do Fundo de Garantia
por Tempo de Serviço (FGTS) as recentes aberturas para contratos em
tempo parcial combinados a períodos de formação (treinamentos) dos
trabalhadores desempregados contribuem para acelerar a rotatividade da
força de trabalho. A fragilidade dos vínculos empregatícios das posições
na divisão do trabalho ocupadas pelos entrevistados parece ser um fator
mais importante na explicação do volume e do ritmo de trocas de
emprego que caracterizam as trajetórias dos trabalhadores do circuito
inferior no mercado de trabalho do que o setor em que a função foi
exercida.
O exame da trajetória dos trabalhadores do circuito inferior
no mercado de trabalho de Londrina indica que, para as pessoas que
completaram o ensino médio um leque maior de opções. As funções de
encarregado, gerente, supervisor, etc. mencionadas pelos entrevistados
estão quase sempre ligadas a pessoas que cursaram o ensino médio ou o
curso superior (completos e incompletos).
A escolaridade dos trabalhadores nas três atividades
pesquisadas apresentou a distribuição representada nos gráficos a seguir.
227
Gráfico 19
Grau de escolaridade dos trabalhadores do Camelódromo (%)
13
13
11
60
40
FUNDAMENTAL INCOMPLETO FUNDAMENTAL COMPLETO
DIO INCOMPLETO MÉDIO COMPLETO
SUPERIOR INCOMPLETO SUPERIOR COMPLETO
Fonte: Trabalho de campo, 2008
Gráfico 20
Grau de escolaridade dos mototaxistas (%)
34
35
16
4011
FUNDAMENTAL INCOMPLETO FUNDAMENTAL COMPLETO
DIO INCOMPLETO DIO COMPLETO
SUPERIOR INCOMPLETO SUPERIOR COMPLETO
Fonte: Trabalho de campo, 2008
Gráfico 21
Grau de escolaridade dos motoboys (%)
21
19
50
0
010
FUNDAMENTAL INCOMPLETO FUNDAMENTAL COMPLETO
MÉDIO INCOMPLETO MÉDIO COMPLETO
SUPERIOR INCOMPLETO SUPERIOR COMPLETO
Fonte: Trabalho de campo, 2008
228
Nas três atividades predominam pessoas que concluíram o
ensino médio. Somando aqueles que têm o ensino médio completo às
pessoas que cursaram pelo menos uma série do ensino médio (ensino
médio incompleto), temos mais da metade dos entrevistados nas três
categorias. A falta de escolaridade ou escolaridade insuficiente não é
exatamente uma característica marcante dos trabalhadores do circuito
inferior em Londrina no período atual.
Considerando a totalidade dos entrevistados a grande
maioria (64%) estudou até o ensino médio. Praticamente a metade, isto
é, 48% dos entrevistados concluíram esse nível de ensino e 16% possuem
ensino médio incompleto.
Entre os homens 57,5% tem até 30 anos e entre as
mulheres o percentual é de 80%. Esse grupo também possui mais anos de
escolaridade. Dentre os trabalhadores (as) com idade até 30 anos 77%
estudaram até o ensino médio, sendo que 55% concluíram o ensino médio
e 22% possuíam o ensino médio incompleto. Nesse grupo estão também
os que estão estudando atualmente: 20 pessoas, sendo 11 no ensino
superior, 3 no ensino fundamental supletivo e 6 no ensino médio supletivo
e profissionalizante.
A escola pública foi o lugar em que a quase totalidade dos
entrevistados teve acesso à escolaridade. Mais de 90% dos entrevistados
estudaram em escolas públicas. Esses dados fazem refletir sobre a
escolaridade como elemento de mobilidade social. novas formas de
escassez, a exemplo do ensino público e gratuito de qualidade, com as
quais os jovens têm de se defrontar. O ensino público de qualidade tem
reflexos sobre o desafio que é, para a maioria da população, encontrar
uma ocupação no contexto da economia urbana no período atual.
229
CAPÍTULO 6
O circuito inferior na divisão do trabalho: aceleração
contemporânea, horizontalidade e articulação de escalas
6.1 A aceleração contemporânea e a circulação de
mercadorias e pessoas em Londrina
Uma das condições da permanência e funcionamento do
Camelódromo, do Moto Taxi e das Entregas Urbanas ao longo de mais de
uma década, tem sido a possibilidade de estabelecer uma
complementaridade eficaz em relação a um variado conjunto de outras
atividades econômicas presentes na cidade. Essas atividades pertencem
tanto ao próprio circuito inferior, como ao circuito superior e ao superior
marginal.
Outra condição é a possibilidade de atender as necessidades
crescentes da circulação de pessoas com baixos rendimentos e de
mercadorias de consumo de massa, com pequeno tamanho e de preços
relativamente baixos.
A intensificação da circulação de pessoas, mercadorias e
informações entre cidades e também no interior das cidades está
diretamente ligada ao conjunto de transformações promovidas pela
expansão do meio cnico-científico-informacional, característica marcante
do período atual. Além da integração do território, da identificação entre
mercado e território, também a crescente fluidez do território (SANTOS,
1996, p. 39) contribui para o aumento dos fluxos no espaço intraurbano,
especialmente nas cidades do Sul e Sudeste do país. Nessa parte do país
a mobilidade do capital e do trabalho sustentada por diversos tipos de
redes, alia-se a um conhecimento mais refinado e atualizado dos lugares,
estimulando novas estratégias de localização da parte de grandes grupos
empresariais ligados à produção industrial, aos serviços e ao comércio.
230
As novas topologias desses atores hegemônicos levam a
novas especializações das tarefas no território e, conseqüentemente, ao
aprofundamento da divisão territorial do trabalho e a uma interação
constante com o aumento da circulação.
Estamos diante de novo patamar, quanto à divisão territorial do
trabalho. Esta se dá de forma mais aprofundada e esse
aprofundamento leva a mais circulação e mais movimento em
função da complementaridade necessária. Mais circulação e mais
movimento permitem de novo aprofundamento da divisão
territorial do trabalho, o que, por sua vez, cria mais especialização
do território. O rculo, nesse caso virtuoso (ou será vicioso?), se
amplia. (SANTOS, 1996, p.41)
Na condição de nós de uma divisão de trabalho à escala
mundial (SILVEIRA, 2002, p.15) as cidades médias passam a abrigar
áreas especializadas destinadas a formas modernas de produção e de
circulação tais como: distritos industriais, parques tecnológicos,
incubadoras de empresas, portos secos, também chamados de Estações
Aduaneiras do Interior, shopping centers e mega empreendimentos que
combinam shopping centers, edifícios para escritórios e para habitação,
como no caso do “projeto marco zero em Londrina.
A seletividade presente na escolha das cidades onde se
constroem grandes fixos especializados, dedicados à contínua
intensificação do consumo como os shopping centers, expressa o tipo de
especialização urbana ligada à divisão territorial do trabalho, que tem
reflexos na circulação intra urbana.
Em Londrina a presença do Shopping Center Catuaí,
redefiniu a estrutura urbana e também a centralidade no arranjo espacial
da cidade e da região (SILVA, 2002). As transformações da centralidade
em Londrina acompanham a maior complexidade de sua economia urbana
e se expressam na formação de subcentros e na articulação entre fluxos
dados na escala do espaço intra-urbano com fluxos definidos na escala da
rede urbana. O Shopping Catuaí, um dos novos subcentros, por reunir
(centralizar) em um ambiente climatizado e controlado, lojas de
departamentos, supermercados, cinemas, praça de alimentação,
estacionamento, etc., tornou-se ponto de convergência de pessoas de
231
todas as partes da cidade, assim como de municípios próximos, e até
mesmo de outros não tão próximos, como alguns situados no interior
paulista (SILVA, 2002, p. 80)
Os serviços especializados nas áreas de saúde e educação
superior também atuam como fatores de polarização e atração de
empresas e pessoas, que procuram Londrina para trabalhar e fazer
negócios. Recentemente, a possibilidade de ter acesso a aulas baseadas
em teleconferências e voltadas à preparação de candidatos para concursos
públicos, especialmente na área das carreiras jurídicas, tem atraído
pessoas de outras cidades para Londrina. Também a concentração de
cursos técnicos e superiores na área de tecnologias da informação, bem
como de empresas especializadas nessa área, têm tido o mesmo efeito de
polarização.
Internamente, isto é, com relação à estrutura urbana,
concentrações industriais, laboratórios, hospitais, universidades, shopping
centers, concessionárias de veículos, além do conjunto de
estabelecimentos comerciais e de serviços reunidos no Centro Principal,
contribuem para geração e ampliação de fluxos cotidianos de mercadorias,
pessoas e informações. Esses fluxos, por sua vez, podem se desdobrar
em deslocamentos que requerem serviços como os que são prestados pelo
Moto taxi ou pelas empresas de entrega urbana, capazes de atender a
essas demandas.
A fragmentação do espaço urbano, que se aprofunda com a
expansão físico-territorial da cidade e com a formação de novos centros,
aumenta exponencialmente as necessidades de circulação.
Financiamentos a perder de vista lubrificam o consumo de celulares,
automóveis, motocicletas, apartamentos e casas. O consumo, um dos
motores da urbanização, contribui para que, simultaneamente, aconteça a
expansão horizontal das cidades e sua verticalização, adensando áreas
artificialmente valorizadas e produzindo pontos de estrangulamento da
circulação urbana.
232
A fragmentação que resulta desse conjunto de processos
impõe às cidades gastos crescentes com infraestrutura viária, os quais
realimentam a especulação imobiliária. O Estado, em seus vários níveis de
existência e escalas de atuação, complementa a ação das empresas e
impulsiona a socialização capitalista.
Entenda-se por socialização capitalista a criação de capitais
comuns, e meios coletivos à disposição do processo produtivo. É
socialização pelo fato de que não são os capitais individuais que a
devem empreender diretamente; é capitalista porque os
beneficiários são poucos, segundo uma hierarquia que vem de seu
poder enquanto capitalista, isto é, de sua capacidade de utilizar
produtiva e especulativamente as infraestruturas financiadas por
meio de impostos, com esforço coletivo, isto é, mediante
contribuição social. A socialização capitalista é, pois, e, sobretudo,
um processo de transferência de recursos da população como um
todo para algumas pessoas e firmas. Trata-se, como dito antes de
um processo seletivo, que atinge diferentemente os atores
econômicos, o que faz do Estado um motor de desigualdades, já
que, por esse meio, favorece concentrações e marginalizações.
(SANTOS, 1994, p. 122)
Uma cidade média como Londrina, a segunda maior do
Paraná e centro de uma dinâmica aglomeração urbana não-metropolitana,
pode ser entendida como um capital social indivisível (SANTOS, 1994a),
que abriga uma intensa divisão do trabalho, processo que se torna mais
intenso pela concentração demográfica e econômica propiciadas pela
aglomeração. Por sua vez, uma divisão do trabalho intensa, atua como um
catalisador para a socialização capitalista e a segmentação do mercado.
A marcha do capitalismo é, também, a marcha para a socialização
capitalista, graças à acentuação da divisão do trabalho e à
necessidade, igualmente crescente, de coordenação. A cooperação
é a outra face da divisão do trabalho. [...]
As grandes cidades aceleram o processo, em virtude de, nelas, a
divisão do trabalho ser maior; e as grandes cidades dos países
subdesenvolvidos o aceleram ainda mais, graças a diversos
fatores. (SANTOS, 1994, p. 123)
A concentração demográfica, aliada a um meio construído
extenso e diversificado e uma intensa divisão de trabalho, possibilita a
segmentação do mercado que se expressa em um elevado grau de
interdependência entre empresas de diferentes dimensões e capacidades
(SILVEIRA, 2004, p.11). Dessa forma Londrina reúne as condições para o
233
florescimento de um ativo circuito inferior e também de um circuito
superior marginal composto por pequenas e médias empresas industriais,
especialmente nos segmentos de confecção e alimentos, e também de
serviços, tanto serviços complementares à atividade agrícola como outros
ligados às tecnologias da informação.
A necessidade de fluxos que retomem a ligação desfeita ou
dificultada pela dispersão, que reúnam o que a divisão social do trabalho
separou, alimenta a formação de novas atividades, inclusive no circuito
inferior. Aprofundando a divisão do trabalho na cidade as três atividades
estudadas participam da cooperação urbana, por meio da circulação de
mercadorias e de pessoas, processos cujas intensidades têm relação com
a inserção de Londrina na rede urbana e na divisão territorial do trabalho.
Nesse sentido, a fragmentação do tecido urbano, a contínua
expansão físico territorial de Londrina (verticalização e expansão das
periferias), de par com a intensificação dos consumos e a segmentação do
mercado, promovem a demanda crescente por circulação. Isso abarca o
transporte de pessoas e serviços de entregas, especialmente a domicílio e
também o tempo gasto nessas atividades. As mudanças nos hábitos de
consumo, os constrangimentos do tráfego, cada vez mais intenso em
algumas vias e a comodidade que significa receber em casa todo tipo de
mercadoria de pequeno volume, de alimentos a remédios, de aparelhos
eletrônicos a convites para eventos, fazem proliferar o comércio, central e
dos bairros, as empresas de entrega urbana e o serviço de Moto Táxi.
234
6.2 – Circuito inferior e horizontalidade
Ao contrário do que ocorre com o circuito superior, no
circuito inferior a integração à economia urbana se localmente
(SANTOS, 1979, p. 36). Em Londrina essa característica das atividades do
circuito inferior ficou evidenciada pelos nexos entre as três atividades
estudadas e o contexto econômico local, ou seja, sua inserção na divisão
de trabalho na escala local.
A escala local, isto é, a extensão produzida e definida pela
existência e não por uma concepção de base geométrica (SILVEIRA, 2006,
p.88) se refere, no caso das três atividades estudadas, às formas do
acontecer complementar reveladas pelos conteúdos geográficos dessas
atividades: as ações e os objetos nelas envolvidos.
A existência e o funcionamento do Camelódromo, do Moto
Taxi e das Empresas de Entregas Urbanas dependem da relação que
mantêm com empresas e indivíduos localizados em Londrina e municípios
mais ou menos próximos. Isso significa que, pelas reduzidas dimensões e
escassa capitalização que caracteriza as atividades estudadas, a
proximidade e a contigüidade desempenham papéis importantes em sua
reprodução. Esse dado associado à dependência que manifestam em
relação às outras empresas da cidade as inscreve no contexto do
acontecer complementar, que para além das relações entre cidade e
campo, ou das relações entre cidades (SANTOS, 2004, p.166), também se
revela nas relações entre os circuitos da economia urbana.
A relação umbilical das três atividades com o lugar reforça
sua caracterização como atividades pertencentes ao circuito inferior. Nas
três atividades estudadas observamos diferentes graus de dependência
em relação ao conjunto da economia urbana em Londrina. O maior grau
de dependência se dá nas Empresas de Entregas Urbanas, cujos principais
clientes estão concentrados em Londrina, especialmente na área central
235
da cidade. Esse grau de dependência é ligeiramente menor no Moto Táxi,
que também atende demandas de pequenas empresas de municípios
vizinhos e outros próximos. É ainda um pouco menor no caso do
Camelódromo, que conta com clientela proveniente até mesmo de outras
unidades da federação. Sendo assim, consideramos a dependência em
relação à economia urbana como inversamente proporcional à área de
mercado de cada atividade, definindo esta última a partir da localização e
distribuição das empresas e indivíduos que primariamente consomem as
mercadorias e serviços das três atividades.
Para desenvolver esses argumentos analisamos a seguir as
formas de complementaridade entre as três atividades e o conjunto da
economia urbana em Londrina.
236
6.2.1 – O Camelódromo: complementaridade e cooperação
Procuramos analisar as possíveis relações de
estabelecimentos do Camelódromo e do próprio Camelódromo com outras
atividades econômicas da cidade. As empresas que prestam serviços ao
Camelódromo são as de segurança, manutenção da escada rolante,
telefonia e acesso a internet (Sercomtel e GVT). O serviço mais
freqüentemente contratado pelos estabelecimentos é o de um contador.
Em praticamente todos os estabelecimentos, o uso dos serviços desse
profissional, indicando a dificuldade que existe para se manter dentro das
exigências normativas do fisco e de outras instâncias da administração
pública.
Em 53% dos estabelecimentos que afirmaram fazer
divulgação, ocorre a contratação de gráficas para confecção de cartões e
serviços de som móveis, que por meio de carros e motos divulgam as
ofertas pelas ruas. Alguns estabelecimentos que adquirem mercadorias
em São Paulo contratam transportadoras para trazer as mercadorias que
abastecem o estabelecimento. Em apenas 20% dos estabelecimentos
ocorre, de forma esporádica, a solicitação do serviço de motoboys ou
mototaxistas para realizar entregas.
Com relação à aquisição das mercadorias procuramos
verificar qual a participação de outras empresas situadas em Londrina e
cidades vizinhas no fornecimento das mercadorias vendidas no
Camelódromo, visando a identificação de aspectos quantitativos e
qualitativos nos nexos entre o Camelódromo e o conjunto da economia
urbana. As respostas dadas a essa questão permitiram observar a
seguinte distribuição, resumida na tabela a seguir.
237
Tabela 11
Camelódromo: origem das mercadorias, 2008.
Origem das
mercadorias
N.º de
Estabelecimentos
%
Apenas Londrina
19 23,46
Londrina e outras
localidades 19 23,46
Não compram em
Londrina 41 50,62
Sem informação
2 2,47
Total
81
100,00
Fonte: Trabalho de Campo, 2008
Verificamos que um relativo equilíbrio na participação de
Londrina e de outras localidades no fornecimento das mercadorias
comercializadas no Camelódromo, uma vez que 47% dos
estabelecimentos afirmaram realizar compras de suas mercadorias na
cidade.
Analisando quais produtos eram comercializados pelos 38
estabelecimentos que afirmaram adquirir seus produtos em Londrina,
constatamos que predominam os que se dedicam ao comércio varejista de
DVD’s, CD’s e Games, com 31,6%. Destacam-se também os
estabelecimentos que comercializam artigos para vestuário e acessórios,
como Bolsas e cintos, com 18,4%, e os que vendem acessórios para
aparelhos celulares (novos e usados), também com 18,4%, e os que
comercializam eletrodomésticos de áudio e vídeo com 13,2%
156
.
Podemos dizer, a partir desses dados, que um dos pontos
de ligação do Camelódromo com outras atividades econômicas radicadas
em Londrina passa pela comercialização de DVD’s, mercadoria de baixo
custo e com forte apelo de consumo, cuja produção mergulha em uma
intrincada rede clandestina de obtenção das matrizes.
Atualmente, Londrina abriga as chamadas fábricas de DVDs,
responsáveis pela multiplicação da oferta crescente de filmes, shows e
músicas em discos a laser. O conjunto de técnicas implicadas na
156
Os outros estabelecimentos vendem uma variedade de produtos como ferramentas, suprimentos para
informática, brinquedos, cosméticos, etc e totalizam mais 18,4% dos 38 estabelecimentos que adquirem suas
mercadorias em Londrina.
238
reprodução de sons e imagens a partir do laser disseminou-se
rapidamente com o barateamento dos aparelhos domésticos que operam
com base nessa tecnologia, capazes de reproduzir tanto filmes como
músicas com alta qualidade. Se o fogão teve sua difusão a partir de
meados dos anos 1980 (SANTOS e SILVEIRA, 2001) a passagem dos
aparelhos de reprodução de sons e imagens baseados em fitas magnéticas
para aparelhos que utilizam o laser e sua correspondente difusão,
remonta aos últimos dez ou quinze anos.
Com base no trabalho de campo verificamos que em 94%
dos domicílios do conjunto de trabalhadores do circuito inferior de
Londrina com os quais tivemos contato
157
, o aparelho de reprodução de
DVDs estava presente.
A forte disseminação desses objetos técnicos nos domicílios
urbanos não pode ser dissociada da produção e consumo crescentes de
sons e imagens que caracteriza o período atual. A modernização acelerada
das técnicas implicadas na generalização do consumo de sons e imagens
como mercadorias traz consigo a possibilidade da fabricação clandestina e
acelerada de milhares de cópias não autorizadas de filmes, shows e
músicas viabilizando a segmentação do consumo desses produtos.
Esse processo de fabricação clandestina se deve em parte
ao aperfeiçoamento e a compactação dos objetos técnicos que tornam
portáteis e de fácil operação computadores potentes equipados com
aparelhos de gravação que permitem a produção em série de DVDs e CDs
com rapidez e alguma qualidade. Também a facilidade de acesso às fontes
originais de filmes e músicas criada pela Internet onde essas fontes
circulam de forma clandestina e outras formas de obtenção em estúdios
de gravação e filmagem das matrizes usadas para a intensa reprodução
desses produtos culturais.
Pelo lado do consumo, o preço de CDs e DVDs originais
comprados ou alugados no comércio do circuito superior e superior
157
Dentre os duzentos e sete questionários aplicados a trabalhadores do Camelódromo, mototaxistas e motoboys
verificamos que em 195 domicílios, ou seja, 94,2%, o aparelho de DVD estava presente. Vale lembrar que esse
aparelho é condição básica para o consumo dos discos contendo espetáculos cinematográficos e musicais.
239
marginal torna essas mercadorias inacessíveis à grande parte das famílias
de trabalhadores cujos rendimentos são insuficientes até mesmo para
fazer frente a necessidades básicas de sobrevivência, como a aquisição de
alimentos, água, energia elétrica, etc. Assim perpetuam-se, atualizam-se
e intensificam-se fatores que estão na base da existência e funcionamento
do circuito inferior.
Diretamente ligada a esse conjunto de fatores, a
multiplicação de vendedores ambulantes e pequenos estabelecimentos do
Camelódromo de Londrina que comercializam DVDs parece ter fôlego para
resistir ás constantes intervenções policiais e outras formas de repressão.
Seria isso um indicador de algo mais profundo?
Se as mercadorias são cada vez mais numerosas e abarcam
cada vez mais campos da vida, fazendo ecoar a análise de Georg Lukács
(2003) a respeito do processo de reificação, é de se esperar que, em
algum grau a necessidade criada pela existência dessas novas
mercadorias atinja também aqueles que não têm renda disponível para
obtê-las pelas formas convencionais. Afinal a generalização da forma
mercantil não faz distinção entre os que têm rendimentos suficientes e os
que não podem sequer obter o necessário para sobreviver na cidade.
Verificamos, no entanto, que a atividade comercial no
Camelódromo não se resume à venda de DVDs chamados “piratas”. Por
meio do Camelódromo circulam diversos outros produtos adquiridos na
cidade como roupas e acessórios, celulares novos e usados, acessórios
para celulares, produtos eletrônicos e suprimentos para informática, para
os quais, fornecedores (atacadistas e fábricas) situados em Londrina e
Cambé. É o caso de produtos eletrônicos portáteis, suprimentos de
informática, confecções, lingeries, brinquedos e outros itens adquiridos em
atacadistas da cidade
158
.
158
Foram citadas várias empresas que comercializam produtos eletrônicos portáteis, telefonia, computadores,
suprimentos e periféricos para informática, brinquedos. São elas Hayamax Importadora, CS presentes e a Gralha
Azul grande atacadista de peças e partes de computadores que comercializa também computadores e periféricos
e tem sedes em Londrina e Curitiba. Outras empresas atacadistas como a Leo Cosméticos que atua também
como varejista, da Ativa Importadora que fornece produtos variados e a Vest Mania confecções.
240
ainda uma complementaridade importante entre
estabelecimentos do Camelódromo e fábricas de pequeno e médio porte
instaladas em Londrina e cidades próximas
159
que produzem lingeries,
roupas, bonés, malas e bolsas de tecidos sintéticos, artigos de couro
(bolsas, cintos e calçados) e acessórios para celulares. Vale ressaltar que
no conjunto, dentre 316 boxes que abrigam os estabelecimentos do
Camelódromo de Londrina, um em cada quatro boxes
160
vendem artigos
de vestuário e acessórios.
Em relação aos consumidores que freqüentam os
estabelecimentos a esmagadora maioria é da própria cidade. Em 83% dos
estabelecimentos os clientes regulares são principalmente de Londrina,
enquanto nos outros 17% os clientes regulares não estão concentrados
em Londrina, mas distribuídos entre Londrina e municípios vizinhos.
Quanto ao gênero não houve identificação de um público
específico. tanto homens como mulheres entre os clientes. A faixa
etária predominante é de jovens, como indicaram 53% dos entrevistados.
Os outros 47% também apontaram a presença dos jovens entre os
compradores, contudo não afirmaram que fossem os principais clientes do
estabelecimento. Do ponto de vista da renda dos consumidores, 70% dos
entrevistados responderam que são consumidores de renda média e
baixa, confirmando a hipótese de que se trata do público típico do circuito
inferior.
Em resumo, a maioria dos consumidores do Camelódromo é
de assalariados de Londrina. Cotidianamente, os dias de maior movimento
são os primeiros dias do mês, quando grande parte dos assalariados,
159
Foram citadas pequenas e médias fabricantes de Londrina como a Valud Lingeries, Lokau Jeans, Empório do
Couro e a Malui Malhas que comercializam parte de sua produção diretamente com estabelecimentos do
Camelódromo. ainda fornecedores de bonés como a Globex, Seqüencial e a Firezone, fabricantes de bonés e
bolsas de materiais sintéticos de Apucarana e outras empresas fabricantes e atacadistas de Maringá como a
Oderço.
160
O número de estabelecimentos em meados de 2007 era de aproximadamente 300, uma vez que alguns
estabelecimentos ocupavam 2 ou mais boxes. Além disso, um movimento constante de venda de pontos
comerciais, aluguel de espaços, mudança de localização interna, etc. Definimos uma base para os lculos
utilizando o número original de boxes para determinar também a participação de cada tipo de produto no
conjunto do Camelódromo, que os boxes originais ainda são uma referencia sica para localização, aluguéis,
cobrança de condomínio, etc.
241
incluindo os funcionários públicos, recebem seus salários, como nos
informou o presidente da ONG Canaã, instituição responsável pela
administração do Camelódromo
161
. Assim como ocorre com as demais
lojas da cidade, as datas comemorativas, como o natal e o dia das mães,
são momentos em que aumenta significativamente o movimento de
vendas.
Se pelo lado das compras de mercadorias o Camelódromo
mantém uma relação intensa com São Paulo e, em menor proporção com
o Paraguai, pelo lado das vendas, uma forte dependência de Londrina,
seu principal mercado.
161
Entrevista realizada em meados de 2007
242
6.2.2 – O Moto Táxi: fluxos intraurbanos, constrangimentos
do meio construído e formas de cooperação
O serviço de Moto Táxi tem no transporte de passageiros
sua característica marcante. Em 70% das 35 Centrais que visitamos esse
tipo de corrida abarca entre 60% e 90% do total diário das corridas
solicitadas. Como conseqüência, a maioria dos mototaxistas tem no
transporte de passageiros a principal fonte de seus rendimentos,
especialmente entre os que têm menos de 5 anos de atuação.
Gráfico 22
Londrina: mototaxistas segundo o tipo de corrida predominante (%).
42%
58%
Predonio do Transporte de Encomendas
Predonio do Transporte de Passageiros
Fonte: Trabalho de campo, 2008.
Em geral, as corridas para transporte de passageiros são
motivadas pela necessidade chegar mais depressa ao local de trabalho.
Segundo um dos mototaxistas da Celsinho Moto táxi, situada na zona
norte, “o pessoal chama a gente quando quer dormir um pouco mais sem
chegar atrasado no trabalho”. Essa mesma opinião foi manifestada por
diversos outros entrevistados de várias Centrais espalhadas na cidade,
especialmente as que se localizam a certa distância do Centro Principal
162
.
Nada menos que 86% dos entrevistados (64 mototaxistas) afirmaram que
o motivo da solicitação das corridas era chegar ao trabalho pela manhã. O
segundo motivo mais freqüentemente apontado foi poder pagar contas no
162
O mesmo tipo de afirmação foi feito por mototaxistas das Centrais Rota 66 no extremo leste da cidade, Moto
Táxi Cafezal na zona sul e Moto Taxi Vivi na zona norte.
243
Centro com segurança, deslocando-se diretamente de casa para o banco
ou a loja.
Ao longo do dia, os momentos em que maior
concentração de corridas são exatamente aqueles em que os
deslocamentos cotidianos entre os locais de residência e trabalho são
intensos. O início da manhã entre 6:00 e 9:00 horas, foi apontado por
62% dos mototaxistas como horário em que maior número de
solicitações de corridas, e o final da tarde, entre 16:00 e 19:00 horas,
período apontado por 39% dos entrevistados. Além desses momentos de
pico nos deslocamentos cotidianos também o período da tarde, a partir
das 13:00 horas, foi apontado por 25% dos mototaxistas como momento
do dia em que as corridas são freqüentes.
Esses dados sobre os horários em que maior
concentração de corridas e sobre os motivos das solicitações de corridas
estão em sintonia com outras características dos usuários do Moto Táxi.
Segundo mais da metade dos entrevistados (58%) a maioria dos usuários
são adultos jovens de baixa renda, principalmente empregados e
estudantes que tem horários rígidos. Não preponderância de homens
ou de mulheres entre os usuários, “todos têm pressacomo afirmou um
mototaxista da Vitória central da zona leste da cidade.
Não é apenas a distância em relação ao Centro Principal que
permite aos mototaxistas encontrar pessoas dispostas a se valer de seus
serviços. O modo como funcionam as linhas de ônibus favorece a procura
por esse tipo de transporte
Como ocorre em outras grandes cidades deslocar-se entre
os bairros pode exigir do cidadão tomar duas ou três conduções, o que
além de ser mais caro pode ser muito demorado. Em Londrina, o sistema
de terminais urbanos situados nos bairros a partir dos quais se pode
tomar outra condução sem pagar nova passagem minimiza, apenas em
parte, as dificuldades de circular entre áreas periféricas.
Para uma pessoa que se desloca diariamente entre dois
bairros da cidade poucas opções. Para uma empregada doméstica que,
244
por exemplo, tenha de ir da zona norte à zona oeste da cidade as linhas
de ônibus diretas, isto é, que não passem pelo Terminal Central, são
praticamente inexistentes
163
. Em geral é preciso tomar uma condução na
zona norte, desembarcar no Terminal Central e esperar por outro ônibus
para chegar aos bairros da zona oeste. Esse trajeto pode levar mais de
uma hora e meia, conforme o momento do dia.
Mapa 17
Londrina: distância relativa das Centrais de Moto Táxi
ao Centro Principal, 2008.
Fonte: Trabalho de campo, 2008
163
No caso especifico do trajeto entre a zona norte, área de concentração da população pobre de Londrina, e a
zona oeste, onde estão aos condomínios fechados, há apenas uma linha direta que vai até o Shopping Catuaí, mas
essa linha, além de apenas se aproximar da área onde estão os condomínios, tem horários muito restritos de
circulação.
245
Os mototaxistas realizam a maior parte de suas viagens
para o Centro Principal. Contudo, também foi citada pelos entrevistados
como solicitação freqüente da parte dos passageiros a necessidade de
circular entre os bairros e em direção a outros fixos geradores de fluxos
situados fora da área central como: as universidades, o hospital
universitário, o subcentro da Avenida Saul Elkind na zona norte e o
Shopping Catuaí.
Se o transporte de passageiros predomina em termos
quantitativos, as solicitações de pequenas empresas, escritórios e
indivíduos para transportar encomendas, documentos ou realizar serviços
diversos também são fundamentais para a sobrevivência na atividade,
pois este último tipo de corrida remunera melhor os mototaxistas do que o
primeiro.
Dentre os 74 mototaxistas de todas as partes da cidade que
responderam ao questionário, 31, ou seja, 42% do total disseram que o
transporte de encomendas (documentos e objetos) responde por no
mínimo a metade de suas corridas diárias
164
. Dentre esses 31
mototaxistas, nada menos do que 64% dos entrevistados, tinham mais de
5 anos na profissão. Quanto mais tempo na profissão maior a participação
de tarefas ligadas ao transporte de encomendas, documentos e a
realização de serviços bancários para empresas e indivíduos no cotidiano
do mototaxista.
Essa característica da atividade pode ser complementada
pela indicação dada pelos mototaxistas em relação à importância que a
confiança e o conhecimento pessoal tem para a conquista de clientes
regulares, tanto entre as empresas, como entre os passageiros. Essa
confiança segundo os entrevistados tem inicio na observação, nos
contatos face a face propiciados pela vizinhança. A grande maioria das
centrais visitadas está situada nas áreas de concentração de padarias,
lojas, mercadinhos, farmácias, postos de gasolina, entre outros tipos de
164
Para 11 mototaxistas, o que corresponde a 15% dos que responderam ao questionário, as corridas para
transporte de encomendas correspondem a mais de 70% de suas viagens diárias. O tempo de atuação como
mototaxista desses profissionais variou entre 2 e 10 anos.
246
comércio e serviços situados nos bairros. A proximidade com essa gama
de atividades permite que, aos poucos, se construa uma relação de
confiança nos serviços de determinado profissional e/ou da Central.
Segundo a proprietária da Central JR, situada na zona leste da cidade:
A confiança na Central vem porque a pessoa pode ver se a Central
é organizada, se não bagunça, se alguém sai no jornal com
alguma notícia meio complicada, e tudo mais. A pessoa pede um
serviço simples, entregar uma encomenda, por exemplo, e vê se
tudo sai direitinho. Daí ela vai pedindo geralmente o mesmo
mototaxista e aos poucos vai pedindo serviços de banco ou outras
tarefas que exigem mais confiança.
A complementaridade entre o serviço de Moto Taxi e
pequenas empresas urbanas é um aspecto fundamental da existência e do
funcionamento dessa atividade. Essa complementaridade reflete a
maneira pela qual esses trabalhadores participam da divisão social do
trabalho, estabelecendo formas de cooperação entre atividades
econômicas distintas e separadas pela fragmentação a que se referia
Roberto Lobato Correa (1995) e que caracteriza o meio urbano.
As dificuldades de acesso ao Centro Principal a que estão
submetidas as pequenas empresas distribuídas pelos bairros da cidade ou
a possibilidade de que pequenas e médias empresas situadas na área
central possam reduzir o tempo gasto em deslocamentos a outros
municípios, a indústrias ou a residência de consumidores
165
localizadas
nas periferias, indicam o modo como esses atores da economia urbana
são afetados pelas chamadas “deseconomias de aglomeração”. Esse termo
neoclásssico expressa as dificuldades, sobretudo as de circulação
inerentes ao meio construído nas cidades. Essas dificuldades se ampliam
com o aumento progressivo da extensão da cidade e da distancia relativa
criada pelo tempo exigido pela circulação interna.
A produção social do meio urbano se faz, cada vez mais, de
forma intencional e voltada para as necessidades dos capitais
hegemônicos, redefinindo assim o valor de uso dos diversos lugares
165
Em Londrina as periferias urbanas são compostas também por condomínios fechados dos mais variados tipos
e tamanhos, localizados a distancias relativamente grandes do Centro principal, assim como por concentrações
industriais (CILOS).
247
internos à cidade
166
. Contudo, esse processo contínuo de modernização do
meio construído não alimenta apenas o Circuito Superior.
A alteração no valor específico das diversas frações do espaço tem
um impacto sobre a economia moderna, aumentando a
concorrência e a distância entre firmas, mas também influi sobre o
resto da sociedade e economia, pelo fato de que aquilo que se
tornou deseconomia urbana para uns é a própria economia para
outros. Isso é evidente nas grandes cidades. o as chamadas
deseconomias que viabilizam a chegada e a permanência dos
pobres e de atividades pobres nas grandes cidades. (SANTOS,
1994, p. 136)
No entanto é preciso deixar claro que para Milton Santos
essas conseqüências não consideradas pelas ideologias travestidas de
teorias, que são subjacentes a muitas práticas do planejamento urbano.
Os termos neoclássicos “economias externas e deseconomias de
aglomeração”, em geral, funcionam como argumentos de determinadas
“teorias de planejamento” para as quais o capital social geral que é a
cidade, deve ser posto a serviço de grandes corporações globalizadas.
A teoria subjacente a este planejamento é toda ela, ou quase toda
muito mais uma ideologia que uma teoria. De teoria tem apenas a
forma, não é baseada na realidade vivida, e o resultado de sua
aplicação é o oposto de suas promessas. Sendo ideologia, porém,
é responsável construção de novos espaços e pela formulação do
espaço urbano atual.[...]
Uma grande firma que se localiza numa grande cidade servida por
instalações que facilitam o seu trabalho está fadada a um lucro
muito maior do que a que se dirige a uma outra cidade que não
dispõem de equipamentos. E, na mesma cidade, as possibilidades
de lucro de realizar mais valia são diferentes em função das
diferenças de uso da cidade pelas diferentes firmas. Pela sua
localização, certas empresas fazem circular rapidamente sua
produção, mas outras que não podem, sequer mudar de lugar e
se sujeita, por exemplo, aos engarrafamentos e outras restrições
de uso, vendo reduzida a sua fluidez, indispensável num mundo
em que a economia é sobretudo uma economia de
fluxos.(SANTOS, 1994, p. 138, 139)
Como indica o trecho citado as economias externas e as
deseconomias não afetam da mesma maneira os diferentes capitais e as
diferentes formas de trabalho presentes na cidade. A socialização
166
No caso de Londrina é possível fazer referencia tanto as áreas destinadas à implantação industrial e atração de
indústrias como ao parque tecnológico destinado a reunir serviços modernos de tecnologia de informação ou
mesmo as áreas supervalorizadas em que a Prefeitura tem permitido uma intensa verticalização como a Gleba
Palhano e a área de concentração dos condomínios fechados, ambas situadas na direção sudoeste em relação ao
Centro Principal.
248
contraditória da cidade, como capital geral, usado seletivamente e
privatisticamente aprofunda as contradições e, a partir de ideologias que
elegem como valores supremos a modernização e competitividade,
procura deslocá-las, mas não é capaz de reduzir as tensões que emanam
das necessidades de sobrevivência daqueles que foram tornados
excedentes pela dinâmica da reestruturação socioespacial.
Em Londrina verificamos que uma grande variedade de
pequenas empresas que solicitam diariamente o atendimento dos
mototaxistas.
Tabela 12
Tipos de empresas que solicitam o serviço de Moto Táxi, 2008.
N.º Tipos de empresas atendidas
pelas centrais
N.º de centrais
que citou o tipo
de empresa
Percentual de centrais que
citaram o tipo de empresa
em relação ao total de
centrais entrevistadas*
(%)
1 Lojas de autopeças – para
caminhões e automóveis
16 45
2 Comércio varejista (diversos) 10 29
3 Farmácias (que não pertencem
a grandes redes e se localizam
nos bairros)
9 26
4 Restaurantes (entrega de
refeições em marmitas)
9 26
5 Padarias 8 23
6 Depósitos de material para
construção
8 23
7 Floriculturas 8 23
8 Oficinas de conserto de carros 6 17
9 Pequenos mercados 6 17
10 Casas de ração e pet shop 6 17
11 Escritórios de contabilidade 5 14
12 Escritórios de advocacia 5 14
13 Açougues 5 14
14 Oficinas de reparação e
assistência técnica
5 14
15 Despachantes 5 14
16 Consultórios e clinicas
odontológicas
5 14
17 Lojas de material elétrico 4 11
18 Lojas de peças para
motocicletas
4 11
Fonte: Trabalho de Campo, 2007.
Observação*: Foram entrevistadas 35 Centrais
249
A lista de empresas que solicita o serviço dos mototaxistas
inclui 18 tipos diferentes, citados por pelo menos 10% das centrais
entrevistadas. Entre os cinco tipos de empresas que mais utilizam os
serviços do moto táxi estão: lojas de autopeças, oficinas de conserto de
automóveis, restaurantes que fornecem marmitas, lojas de comércio
varejista em geral e farmácias que não pertencem a grandes redes.
Londrina reúne diversos estabelecimentos ligados à
comercialização de autopeças; mercadorias que se configuram
importantes não apenas para o consumo final, mas também para o
consumo produtivo. A distribuição de peças para conserto de veículos
automotores reflete a inserção de toda região na divisão do trabalho.
A intensa mecanização das atividades agrícolas, o
escoamento das safras e a própria urbanização requerem a presença e o
funcionamento de uma variada gama de veículos: carros, motos,
caminhões, colheitadeiras, tratores, etc.
O fato de que as lojas de autopeças, tanto grandes
estabelecimentos pertencentes ao circuito superior, como outros menores,
estejam entre as empresas que mais solicitam os serviços do Moto Táxi
merece algum destaque. Esse dado evidencia a complementaridade e a
dependência das atividades do circuito inferior em relação ao circuito
superior e, conseqüentemente, em relação à divisão hegemônica do
trabalho.
No contexto intraurbano o conjunto dos mototaxistas
consome cotidianamente produtos e serviços diversos, gastando uma
parte considerável de seus ganhos para manter a atividade. O gasto
mínimo informado na pesquisa foi de R$ 450,00 e o maior foi de R$
1.000,00.
As variações estão ligadas à jornada, ao número de corridas
realizadas no período, ao tipo de clientes regulares que o mototaxista
atende (passageiros ou serviços diversos a empresas ou particulares como
entregas, serviços bancários, viagens, etc.). Os itens que compõem essa
250
despesa representam gastos que se diferenciam quanto à periodicidade.
As despesas diárias são o combustível, refeições e diária paga à central.
Ao longo do mês a troca de óleo e, em períodos um pouco maiores, de
dois a três meses, a troca de pneus e da “relação” que é a corrente que
transmite movimento e força do motor às rodas da moto. Em períodos
ainda maiores outros itens de manutenção e a troca da própria
motocicleta.
Com base nos dados da pesquisa e considerando apenas as
despesas realizadas com uma freqüência mínima de até três meses,
calculamos que, no início do ano de 2008, o gasto médio mensal de cada
trabalhador para manter sua atividade girava em torno de R$ 650,00. Se
multiplicarmos esse gasto médio mensal pelo número estimado de 1.000
mototaxistas, chegamos a um resultado interessante: R$ 650.000,00 por
mês são injetados na economia de Londrina a partir do consumo desses
trabalhadores. Portanto, é possível estimar que, levando em conta apenas
os gastos dos mototaxistas, a atividade seja responsável pela circulação
mensal de mais de meio milhão de Reais na cidade. A esse montante
podem ser acrescidos os gastos das Centrais com aluguel, telefone,
funcionários, equipamento e serviço de rádio, elevando ainda mais essas
cifras.
Olhar o serviço de Moto Taxi dessa perspectiva implica
perceber que a economia urbana não se resume às atividades modernas.
As atividades do circuito inferior em conjunto são geradoras de fluxos
econômicos consideráveis e que, no contexto da urbanização brasileira, a
concentração de pessoas pobres nas cidades é, como preconiza a teoria
dos circuitos (SANTOS, 1979), um fator fundamental a considerar no
entendimento do processo de urbanização e também da cidade. Assim é
possível evitar o reducionismo de abordagens parciais que priorizam
apenas o que é hegemônico e as zonas luminosas do urbano.
251
6.2.3 Motoboys e entregas urbanas: complementaridade
e fluxos intraurbanos
A gama de empresas nas quais os chamados motoboys
prestam seus serviços é menos variada do que aquelas que são atendidas
pelos mototaxistas. Em geral o trabalho dos motoboys está ligado à
circulação de mercadorias de pequeno porte, informações e documentos
pela cidade e também entre Londrina e cidades vizinhas.
Considerando apenas os motoboys que trabalham para as
empresas de entregas urbanas que entrevistamos, a presença desses
trabalhadores é mais freqüente nos seguintes tipos de empresas
167
:
farmácias de grandes redes (32%), restaurantes e lanchonetes (24%),
lojas de autopeças (19%), bancos (10%), loja de tintas e cartórios (4%).
Quanto aos motoboys que trabalhavam como autônomos ou eram
empregados de empresas de entregas menores as empresas mais
mencionadas foram: pizzarias, lanchonetes, distribuidoras de água, lojas
de autopeças e distribuidoras de suprimentos de informática (cartuchos de
tinta para impressoras).
Esse dado reafirma a hipótese de que a existência dos
circuitos da economia urbana corresponde à segmentação do mercado
dada pela convivência em mesmo meio urbano de capitais de diferentes
expressões e com diferentes demandas por serviços e outras formas de
cooperação. Esses diferentes mercados entrelaçados pela cidade
reafirmam a premissa de que a análise da economia urbana requer uma
abordagem que deve evitar as parcialidades e deve, sobretudo, evitar
confundir a economia urbana com o circuito superior.
Considerando a diversidade de situações que envolvem os
entregadores, cabe ressaltar que nosso foco se colocou sobre os motoboys
167
A lista dos clientes atendidos pelos motoboys da Vai-Vem, Sol e Terceiriza contempla ainda os seguintes
tipos de empresas: Agência de Publicidade, Canal Polishoping, Financeiras, Loja de Cosméticos, Locadora de
Vídeo, Dentista, Laboratório de Análises Clínicas, Hospitais, Hotéis, Loteadora e Empresa de Recolocação de
Mão de Obra.
252
empregados por empresas de entrega urbana que prestam serviços a
terceiros que totalizaram 32 trabalhadores, os quais representam 61% do
total de entrevistados (52 pessoas).
O moto frete nesse caso não se caracteriza pela cobrança
direta do serviço de transporte, e sim pela intermediação da contratação
de mão de obra que presta um serviço de transporte específico: as
entregas. Os contratos celebrados entre as empresas de entrega e seus
clientes são pautados pelo número de entregadores a ser disponibilizado e
na distância que, de forma simplificada, leva em conta apenas a questão
das entregas serem feitas em Londrina ou em outros municípios.
Segundo as entrevistas realizadas com os proprietários das
empresas Vai e Vem, Sol e Terceiriza, dentre seus clientes predominam
empresas de grande e médio porte, com destaque para as redes de
farmácias e algumas multinacionais
168
. A participação das pequenas e
microempresas varia entre 20 e 30% do total das três maiores empresas
de entrega. A quase totalidade das empresas atendidas está situada em
Londrina e a maior parte na área central da cidade. A exceção fica por
conta da empresa Sol Motoboys que abriu uma pequena filial em Maringá
e atende também empresas daquela cidade.
As mercadorias mais freqüentemente transportadas pelos
52 motoboys que responderam ao questionário são: alimentos, remédios
e autopeças presentes nas respostas de 61% dos entrevistados. A maioria
das entregas contratadas se realiza dentro da cidade. O número de
viagens diárias varia bastante conforme a empresa atendida pelo
motoboy:
Quando estou na “empresa” várias firmas ligam. Escolhem um
motoqueiro e pedem para fazer as entregas. Desse jeito eu faço
umas 15 entregas por dia. Na farmácia [...] dá mais, faço umas 30
entregas. Levo troco quando necessário ou máquina de passar o
cartão quando faço entrega para empresa de produtos de beleza.
(C.R. motoboy da empresa Sol)
168
Farmácias com diversas lojas na área central da cidade como as Redes Nissei, Vale Verde, Drogamais e
Senador; as multinacionais Sandoz, Dixie Toga, Pellegrino que pertence ao Grupo Affinia uma multinacional do
setor de auto peças criada em 2004 a quem pertencem marcas conhecidas como a Brosol de carburadores e a
Nakata de amortecedores e ainda as grandes empresas de comércio eletrônico como a “Americanas.com” e a
Submarino.
253
Por meio dos questionários respondidos pelos motoboys
verificamos que 83% dos entrevistados (43 pessoas de um total de 52
entrevistados) realizam entregas em outros municípios, porém, dentre
eles, apenas 19% (8 motoboys) disseram que fazem essas entregas com
freqüência diária.
Tabela 13
Motoboys que realizam entregas em outros municípios, 2008.
Freqüência das Entregas N.º de
Motoboys
%
Motoboys que realizam entregas
em outros municípios
43 100
Pelo menos uma vez por dia
(Diariamente)
8 19
De uma a três vezes por semana
(Semanalmente)
17 39
De uma a três vezes por mês
(Mensalmente)
18 42
Fonte: Trabalho de campo, 2008
A freqüência das entregas em outros municípios é
relativamente baixa no caso dos motoboys. A grande maioria (81%) faz
essas viagens semanalmente ou apenas algumas vezes no mês.
As entregas em outros municípios se concentram em Cambe
e Ibiporã, citados por todos os 43 motoboys que realizam entregas em
outros municípios. Os outros municípios citados por pelo menos quatro
motoboys entrevistados estão relacionados na tabela a seguir.
Tabela 14
Municípios que recebem entregas por motoboys de Londrina, 2008
Muncípios N.º de motoboys que
faz entregas no
muncipio (pessoas)
Percentual de Motoboys
que realiza entregas no
Municipio (%)
Cambé 43 100
Ibiporã 40 93
Rolândia 14 33
Arapongas 5 12
Maringá 5 12
Apucarana 4 9
Fonte: Trabalho de Campo 2008
As despesas diretamente ligadas ao trabalho dos motoboys
são cobertas pelas empresas às quais esses trabalhadores prestam seus
254
serviços ou de que são empregados
169
. São gastos como o consumo de
combustível, refeições e parte das peças e serviços necessários à
manutenção da moto. Na média, as despesas mensais com combustível
giram em torno de R$ 220,00 por motoboy. Na média as despesas
mensais com manutenção envolvendo itens como: óleo, freios, relação
(corrente da moto) e pneus que se desgastam rapidamente e
proporcionalmente à intensidade do uso da moto giram em torno de R$
170,00 por motoboy
170
.
As três maiores empresas de entregas urbanas mantêm
convênios e acordos com lojas de peças para motos, postos de gasolina e
oficinas mecânicas que priorizam o atendimento dos motoboys, evitando a
interrupção do serviço prestado aos clientes que contratam seus serviços.
Outras despesas correm por conta e risco do motoboy. São
despesas para compra de itens de segurança como o capacete, roupas
especiais e capas para dias de chuva etc.
Mas a principal despesa que pesa sobre os motoboys é a
que permite a aquisição da motocicleta com potência de no mínimo 125
cilindradas, condição essencial para o exercício da atividade. Verificamos
que 87% dos motoboys entrevistados eram proprietários da moto usada
no trabalho.
Tabela 15
Propriedade da motocicleta utilizada nas entregas urbanas, 2008.
Propriedade da moto
N.º de
motoboys
%
Moto de propriedade do motoboy 45 87
Moto de propriedade da empresa 7 13
Total 52 100
Fonte: Trabalho de Campo, 2008
169
Vale lembrar que, como vimos no capítulo 3, entre os 52 entrevistados havia 25 motoboys, ou seja, 48% do
total, que trabalhavam exclusivamente para as três maiores empresas de entregas urbanas de Londrina. Outros 22
motoboys trabalhavam simultaneamente, no período noturno ou em finais de semana, em outras atividades e
outros locais como farmácias e pizzarias. Por fim, 5 entrevistados trabalhavam diretamente para lojas de tinta,
autopeças e pizzaria e também outras empresas de entregas urbanas.
170
Levando em conta os valores médios por motoboy e o número total de motoboys, estimamos que a soma dos
gastos mensais das três maiores empresas de entregas urbanas de Londrina (Terceiriza, Sol e Vai-Vem) giram
em torno de R$ 35.000,00 com combustível e R$ 27.000,00 com manutenção.
255
Do conjunto de trabalhadores que usavam a moto própria
no trabalho, mais da metade, 58% (26 motoboys), pagavam
financiamento. A possibilidade de conseguir um financiamento é, portanto,
uma questão de sobrevivência para esses trabalhadores, que se vêem
subordinados aos juros altos exigidos em financiamentos de prazo mais
dilatado
171
.
Tabela 16
Valor da prestação dos financiamentos, 2008.
Valor das Prestações
(Reais de 2008)
N.º de
Motoboys
(Pessoas)
%
R$ 140,00 a 199
,00
4 15
R$ 200,00 a 250,00
14 54
R$ 251,00 a 320,00
8 31
Total
26
100
Fonte: Trabalho de Campo, 2008
Considerando o piso salarial dos entregadores que é de
R$544,00
172
fica evidente a dificuldade desses trabalhadores para arcar
com as prestações do financiamento da moto. As prestações, cujo valor
médio é de R$ 233,40, consomem parte significativa das rendas desses
trabalhadores, fato que ajuda a compreender a extensão de suas jornadas
de trabalho, que gira em torno de 12 horas diárias, seis dias por semana,
assim como a necessidade de trabalhar em dois ou mais locais ou de
constantemente fazer horas extras.
As revendedoras de motos e as financeiras que concedem o
crédito necessário à compra desse bem beneficiam-se amplamente da
demanda gerada por motoboys e mototaxistas e podem ser consideradas
fundamentais para a atividade como um todo.
171
A maioria das motos foi financiada em 24 prestações.
172
O valor de R$544,00 está definido na clausula da Convenção Coletiva do Trabalho 200/2009 pactuada
entre o Sindicato das Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações, Pesquisas e Serviços Contábeis de
Londrina (SESCAP) e o Sindicato dos Empregados em Empresas de Contabilidade, Assessoramento, Perícias,
Informações, Pesquisas e Empresas Prestadoras de Serviços de Londrina e região (SINDASPEL).
256
6.3 – As escalas da ação no circuito inferior
Com diferentes intensidades as três atividades do circuito
inferior ampliam a vida de relações de Londrina com seu entorno regional
Com exceção do serviço de entregas urbanas em que a as
viagens para outros municípios são reduzidas, as outras duas atividades
são marcadas pelas constantes relações com pessoas, empresas e
instituições situadas em outros municípios
Os motivos das viagens são os mais variados no caso do
Moto Táxi. No caso do Camelódromo o motivo principal é o preço das
mercadorias e as facilidades de pagamento.
As ações no caso do Camelódromo envolvem escalas mais
amplas, são extensões maiores. É próprio do comércio colocar em contato
áreas distantes, fazer circular as mercadorias para explorar as diferenças
de preço, o lucro mercantil.
O Moto Táxi estabelece ligações diárias com Cambe e
Ibiporã, o fluxo total, considerada todas as Centrais é significativo. As
viagens para o entorno caracterizam a escala de ação dessa atividade.
As entregas urbanas se restringem a Cambe e Ibiporã, mas
mesmo assim não chegam a ser diárias como no Moto Táxi.
Londrina exerce uma forte polarização sobre seu entorno
regional. Em geral, a polarização de uma cidade sobre as outras que lhe
são próximas é atribuída às atividades do circuito superior, especialmente
os serviços, medidos por seu grau de raridade.
Considerando as escalas da ação que a analise das três
atividades revela é possível propor que, no período atual, o circuito
inferior também participa dos ltiplos fluxos que estabelecem a
polarização de uma cidade média.
257
6.3.1 O Camelódromo e a articulação de diferentes
escalas
Situado em local estratégico, próximo ao calçadão de
Londrina, o Camelódromo, forma especifica de concentração e
funcionamento do comércio popular, tem uma abrangência espacial na
qual a escala local tem papel preponderante, entretanto, outras escalas
estão presentes tanto no que se refere aos locais em que são adquiridas
as mercadorias como às vendas considerando os locais de origem dos
compradores.
Dentre os 41 estabelecimentos que não realizavam suas
compras em Londrina, São Paulo foi citado por 61% dos entrevistados
como o principal local de origem dos produtos, seguido do Paraguai
indicado por 29%. Os outros 10% correspondem a Maringá, Cianorte e
Apucarana no Paraalém de São José do Rio Preto, Blumenau e Rio de
Janeiro.
Dos 81 entrevistados, 39 citaram São Paulo como origem
de parte ou de toda mercadoria vendida no estabelecimento, o que
corresponde a 48% dos estabelecimentos. O Paraguai foi citado por 18
estabelecimentos como local de origem das mercadorias, ou seja, 22,2%
dos entrevistados. Portanto, atualmente, o Paraguai (Ciudad del Este e
Guaira) deixou de ser o principal fornecedor das mercadorias vendidas no
Camelódromo e a cidade de São Paulo, assumiu esse papel, sobretudo a
região do Brás e Pari, Rua Vinte e Cinco de Março, Rua Santa Ifigênia
entre outras
A origem dos produtos indica que, pelo lado da aquisição
das mercadorias, o Camelódromo de Londrina articula diferentes circuitos
espaciais de produção e circulação que vão da escala local à regional e,
considerando os fabricantes de grande parte dos produtos
comercializados, também à escala internacional.
Algo semelhante, porém com menor abrangência territorial
se com o lado da venda dos produtos quando consideramos a
procedência dos compradores.
258
O Camelódromo atende principalmente pessoas de Londrina
e municípios vizinhos. Isso reforça suas características como atividade do
circuito inferior, em razão de sua forte integração local. As possibilidades
de comércio a longa distância e ampliação da área de abrangência de das
vendas do Camelódromo por meios eletrônicos não foi constatada durante
o trabalho de campo.
Para efetivar as possibilidades abertas pela técnica é preciso
estar conectado às redes, especialmente a internet, ser capaz de criar as
condições para usar e rentabilizar o empreendimento comercial por meio
do comércio eletrônico o que, por vezes demanda a contratação de
serviços especializados que auxiliam na manutenção das páginas, sítios e
outras estruturas que viabilizam os contatos comerciais. aí, portanto,
uma seletividade dos atores que podem de fato ser fluídos e usar as redes
técnicas de modo a aumentar a competitividade e intensificar um dado
modo de usar o território e de convertê-lo em mercado efetivo.
Embora as possibilidades de comércio eletrônico abertas
pelas novas tecnologias não estejam totalmente ausentes do
Camelódromo a constatação de sua fraca utilização é sustentada até pela
reduzida presença de microcomputadores e de acesso a internet nos
estabelecimentos.
Em apenas 12 estabelecimentos havia microcomputadores e
acesso a internet, ou seja, 15% dos entrevistados. Quase todos ligados à
venda de produtos eletrônicos, computadores, celulares e games. Na
verdade a única exceção foi uma loja de camisetas estampadas
especializadas em produzir camisetas customizadas com imagens
ligadas a bandas de rock
173
.
173
Essa loja mantém página na internet divulgando seus serviços e fornecendo telefone para contato e e-mail.
Aceita encomendas de outras cidades e utiliza serviços de moto taxistas e transportadoras para as entregas. Nos
outros estabelecimentos a internet e os computadores estavam sendo utilizados para tarefas pontuais ligadas às
necessidades próprias de cada loja, como por exemplo; baixar programas para manutenção de computadores
(drives para hardwares específicos), demonstrar possibilidades de jogos on-line no caso das lojas de games,
acessar site de operadoras no caso das lojas de celular, etc. Em algumas lojas o computador era utilizado como
forma de evitar o tédio durante a espera por clientes.
259
Além de Londrina, os municípios vizinhos completam a área
de mercado do Camelódromo. Em apenas 5 estabelecimentos
174
houve a
indicação de que não há, ou são muito poucos os clientes de outros
municípios. Desta forma, em 76 questionários, ou seja, para 94% dos
entrevistados, houve a indicação de que o estabelecimento é freqüentado
por pessoas de outros municípios.
Os municípios mais próximos a Londrina (Cambé, Ibiporã,
Rolândia e Jataizinho) que contam com linhas de ônibus urbanos do
sistema metropolitano de transportes foram citados por 84% dos
entrevistados como locais de proveniência dos clientes. Com menos
constância aparecem outros municípios para os quais as facilidades de
acesso são menores. Assim Apucarana, Arapongas, Assaí e Cornélio
Procópio, que dista 70 km de Londrina, aparecem em 57% das respostas.
A partir daí as menções a cidades mais distantes aparecem pontualmente:
Maringá, Campo Mourão, Ourinhos, Curitiba, foram citados em 14% dos
questionários (11 estabelecimentos).
174
Em principio e salvo melhor juízo, não observamos uma relação consistente entre os produtos vendidos
(roupas, DVDs e ferramentas) e/ou qualquer outra característica do estabelecimento e a declaração de que não
clientes de outros municípios.
260
Mapa 18
Fluxos de mercadorias vendidas no Camelódromo de Londrina – 2008
Fonte: Trabalho de campo, 2008
261
Mapa 19
Paraná: municípios de procedência dos compradores de mercadorias no
Camelódromo de Londrina, 2008 (%).
Fonte: Trabalho de Campo, 2008.
Obs: As porcentagens foram calculadas a partir do número de estabelecimentos que
indicou ter clientes procedentes de outros municípios, isto é, 76 entrevistados. Desta
forma, entre 50 e 60 % dos entrevistados que declaram ter clientes provenientes de
outros municípios, indicaram que um dos locais de procedência era, por exemplo, o
município de Cambé.
262
6.3.2 Mototaxistas e motoboys: horizontalidades e
verticalidades na circulação de mercadorias no entorno de
Londrina
Os dados e as informações colhidas nos questionários e nas
conversas com os trabalhadores do Moto Táxi e das Entregas Urbanas
sugerem uma diferença sutil entre as duas atividades no que se refere a
algo que lhes é comum: a participação na circulação de mercadorias e
informações.
A diferença entre o Moto Táxi e as Entregas Urbanas
aparece em três pontos básicos. Primeiro na forma como se organizam as
relações entre mototaxistas e motoboys e seus contratantes. Segundo na
maior variação de tipos de serviços prestados pelos mototaxistas em
relação aos motoboys. Por fim, a maior extensão coberta pelas viagens
dos primeiros em relação aos segundos.
As entregas realizadas pelos motoboys são
predominantemente resultado das vendas, necessidades de
comunicação
175
de empresas do circuito superior. Essa situação na divisão
do trabalho imprime características específicas à atividade dos motoboys.
A primeira delas é que o volume das vendas e dos fluxos de
informação gerados pelas empresas do circuito superior, associados aos
modelos organizacionais adotados pelas mesmas, ensejam a contratação
de serviços terceirizados de entrega como estratégia de redução de
custos, principalmente trabalhistas, e, simultaneamente como estratégia
de competição e de ampliação de sue mercado.
No caso específico da relação entre as empresas de
entregas urbanas e as empresas contratantes, especialmente as do
circuito superior da economia urbana, a manutenção do serviço de
entregas ao longo do tempo é um resultado direto da escala dos fluxos, do
grande volume de entregas diárias. Essa relação se baseia em parâmetros
definidos quanto ao número de motoboys, a sua distribuição em turnos, a
175
Entre as entregas relacionadas às necessidades de comunicação estão: divulgação de eventos, convites,
divulgação de produtos e serviços por meio de mala direta, documentos bancários, documentos de cartórios, etc.
263
obrigatoriedade de substituição dos faltosos, etc. A definição desses
parâmetros é objeto central dos contratos celebrados entre empresas do
circuito superior e empresas de entregas urbanas, cujos prazos são, em
geral, de 24 meses.
Os motoboys como empregados das empresas terceirizadas
recebem as determinações de onde e como deveram realizar suas tarefas.
Nos locais onde prestam serviço recebem novas instruções sobre a ordem
das entregas, os roteiros e outras instruções específicas para cada tipo de
entrega, tais como a atenção aos recibos, a necessidade de colher
assinaturas, levar troco, etc.
As tarefas realizadas pelos motoboys ligados as empresas
de entregas urbanas são definidas por parâmetros contratuais que
estabelecem a continuidade e a regularidade do serviço. Os trabalhadores,
na condição de empregados assalariados, não participam da definição
desses parâmetros, apenas têm de organizar sua atividade por estes.
Recebem também instruções específicas dos clientes a quem prestam
serviço sobre as entregas que realizam.
Os mototaxistas são trabalhadores autônomos ligados a
uma determinada Central. Como autônomos mantêm uma relação direta
com seus contratantes, que, em geral, são também muito mais
diversificados. Quando um pequeno comerciante, o dono de um açougue
ou mercearia do núcleo comercial do bairro em que está instalada a
Central de Moto Táxi, solicita o serviço de um mototaxista o valor do
serviço e as condições de sua realização são tratadas de imediato pelas
duas partes. Mesmo quando um mototaxista presta serviços regulares a
uma seguradora ou quando uma dada Central mantém contrato de
prestação de serviços com uma grande empresa uma margem de
negociação com o mototaxista em relação às condições e valores do
serviço.
A inserção dos mototaxistas na divisão do trabalho decorre
de um encontro muito mais fortuito entre necessidades dispersas de
264
pequenos comerciantes, pessoas físicas
176
e empresas. Na imensa maioria
dos casos não contratos formais, apenas acordos verbais. Os
mototaxistas têm de obter volume de entregas e serviços necessários à
composição de sua renda pela conquista de uma grande quantidade e
variedade de clientes. Foram raros os casos em que um mototaxista
atende com freqüência diária uma mesma empresa.
As entregas e serviços prestados pelos mototaxistas são
muito mais variados, assim como seus contratantes
177
. o se trata de
um processo de terceirização definido por parâmetros contratuais e sim de
uma complementaridade e cooperação muito mais aleatória estabelecida
entre trabalhadores autônomos, empresas, especialmente as do circuito
inferior da economia urbana, e pessoas físicas. Os parâmetros de
organização da atividade ficam por conta das Centrais e, principalmente,
dos próprios trabalhadores.
Dessa primeira diferença decorre a segunda. Os motoboys,
assalariados das empresas de entregas urbanas, realizam corridas que
ligam consumidores finais a pontos de venda ou realizam a distribuição de
informações entre empresas. Essas corridas se concentram na área
central de Londrina e bairros próximos a ela, onde se localiza grande parte
do mercado consumidor e de interesse das empresas contratantes.
Os mototaxistas realizam um grande número de corridas
entre bairros, distritos rurais e a área central e entre municípios vizinhos e
a área central de Londrina. A variedade de locais de destino e de serviços
prestados está ligada aos diferentes interesses e necessidades a que esses
trabalhadores autônomos atendem.
176
Uma situação que chamou minha atenção foi a afirmação de diversos mototaxistas, pelo menos oito
profissionais de diferentes locais da cidade, quando perguntados sobre quem são seus clientes, se homens ou
mulheres, jovens, idosos, etc. Esses profissionais responderam que muitas mulheres chamam o mototaxista
quando precisam ir ao banco receber algum dinheiro (pensão, auxilio do governo, etc.) fazer pagamentos com
somas um pouco mais elevadas (prestação da casa, prestação do carro, etc.) ou depositar o resultado das vendas
de seus pequenos negócios. A possibilidade de contar com um motaxista conhecido ajuda a evitar assaltos nas
saídas de banco ou ser surpreendida durante o trajeto.
177
A lista dos tipos de empresas citadas por pelo menos 10% das Centrais visitadas está na tabela 12 na página
248
265
Há, portanto, um grau de flexibilidade maior nos fluxos
efetivados pelos mototaxistas do que naqueles efetivados pela ação dos
motoboys. Essa diferença está ligada à forma da relação entre cada um
desses trabalhadores e seus contratantes e às características dos
contratantes.
Mapa 20
Londrina: representação esquemática dos fluxos principais
e secundários do Moto Táxi, 2008.
Fonte: Trabalho de campo
266
Mapa 21
Londrina: representação esquemática dos fluxos principais
das Entregas Urbanas, 2008.
Fonte: Trabalho de campo
Nas relações em que predominam contratantes do circuito
superior, sintonizados com as dinâmicas do período atual, aumenta o grau
de rigidez que se expressa nos processos de intermediação, no contrato
como norma principal, nos requisitos de regularidade e continuidade da
atividade.
A forma enviesada de assalariamento que caracteriza o
trabalho do motoboy, no qual o principal instrumento de trabalho tem de
ser provido pelo trabalhador, como condição da obtenção do emprego se
ajusta de forma eficaz às demandas das empresas do circuito superior.
267
Esse ajuste fica evidenciado pelo controle que o assalariamento enviesado
propicia sobre as ações dos trabalhadores que realizam as entregas
urbanas. O volume dos fluxos e o tipo de complementaridade requerida
pela terceirização da atividade de Entregas Urbanas autorizam a
existência de intermediários: as empresas de entregas urbanas.
Por seu turno, ao exercer a mediação necessária ao
processo de terceirização as empresas de entregas urbanas evidenciam
uma diferença qualitativa entre os fluxos sob sua responsabilidade. Nesses
fluxos articulam-se horizontalidades e verticalidades. Considerando que as
verticalidades são vetores de uma racionalidade superior e do discurso
pragmático dos setores hegemônicos, criando um cotidiano obediente e
disciplinado(SANTOS, 2004, p286) e que as horizontalidades são tanto
o lugar da finalidade imposta de fora, de longe e de cima, quanto da
contrafinalidade, localmente gerada (idem) é possível perceber o modo
como tal articulação ocorre.
Os fluxos que se efetivam pelo trabalho dos motoboys que
trabalham para as empresas de entregas urbanas são parte de um
processo de cooperação que aumenta a produtividade e a abrangência
territorial de empresas do circuito superior instaladas em Londrina. Nesse
processo de cooperação estão presentes e sobrepostas necessidades
verticalizadas de redes de farmácias, multinacionais do setor de
autopeças, cartórios e outras empresas hegemônicas, que buscam
dinamizar a circulação de suas mercadorias e das informações que
desejam fazer chegar a clientes e empresas específicas, o que repercute
sobre sua competitividade.
Essas necessidades verticalizadas se articulam a
horizontalidades que se expressam pela contigüidade entre os pontos de
venda dessas empresas e os consumidores individuais e as outras
empresas que formam seus mercados. As horizontalidades se expressam
também pela necessidade de trabalho dos jovens motoboys e pelos
constrangimentos que o meio construído impõe à circulação dessas
mercadorias e informações.
268
O fato de que os mototaxistas atendem uma diversidade
maior de clientes do que os motoboys e de que esses clientes têm
diferentes necessidades em relação à circulação, traz implicações sobre a
extensão coberta pelos fluxos das duas atividades.
Comparando as viagens realizadas para outros municípios
pelos motoboys e mototaxistas verificamos que, no caso dos primeiros,
estes realizam um número menor de viagens para outros municípios,
contudo, a principal diferença está no número de municípios e na
extensão coberta pelos fluxos de cada uma das duas atividades.
Mapa 22
Norte do Paraná: municípios que recebem
corridas dos motoboys pelo menos uma vez por semana, 2008.
Fonte: Trabalho de campo, 2008
269
Mapa 23
Norte do Paraná: municípios que recebem
corridas dos mototaxistas pelo menos uma vez por semana, 2008.
Fonte: Trabalho de campo, 2008
um número maior de motoboys que realizam corridas
para as cidades próximas a Londrina e que integram a Aglomeração
urbana não-metropolitana, a exemplo de Cambé, Ibiporã e Rolândia. As
cidades de Apucarana e Maringá também aparecem como destino
relativamente freqüente de pelo menos 5% dos motoboys entrevistados.
No caso dos mototaxistas o padrão de deslocamentos
guarda algumas semelhanças com o dos motoboys. Há, por exemplo, um
número maior de viagens para os municípios da Aglomeração mais
próximos a Londrina: Cambé, Ibiporã e Rolândia. As cidades de Maringá e
Apucarana também se destacam como destinos relativamente freqüentes
das viagens desses profissionais. Porém, as semelhanças param por aí. O
mapa relativo às viagens dos mototaxistas revela um número maior de
municípios cobertos pelas viagens de pelo menos 4% desses profissionais.
Conseqüentemente, as distâncias percorridas também são maiores, o
270
município de Cornélio Procópio, por exemplo, dista 70 km de Londrina
pela BR 369.
Para reproduzir sua atividade os mototaxistas têm de
articular elementos da economia urbana de Londrina com outros
elementos de cidades vizinhas e de outras não tão próximas. A
intermitência e a variabilidade das solicitações de deslocamento a que têm
de atender acaba por requerer deslocamentos sobre uma extensão maior
do que a coberta pelos motoboys.
A horizontalidade, presente principalmente nos
deslocamentos dos mototaxistas, deriva, sobretudo, do acontecer
complementar (SANTOS, 2004) que se estabelece entre as cidades da
rede urbana regional e também entre cidade e campo.
Indagando sobre os tipos de encomendas que motivavam os
deslocamentos para outros municípios verificamos que, tanto para
motoboys como para mototaxistas, as peças para automóveis, motos,
caminhões e máquinas agrícolas são o principal item que origina esses
deslocamentos.
Esse item foi apontado por 61% dos entrevistados que
realizam viagens para outros municípios
178
. Em segundo lugar apareceram
peças para diversos aparelhos eletro-eletrônicos (ar condicionado,
eletrodomésticos, elevadores, equipamentos de medição, etc.) com 22%
das respostas e em terceiro lugar medicamentos e material para
dentistas
179
com 7%.
Ainda que, em menor proporção do que os mototaxistas, o
trabalho dos motoboys no serviço de entregas urbanas também intensifica
os fluxos entre Londrina e outras cidades da região.
178
Vale ressaltar que do total de 126 trabalhadores com motocicleta entrevistados, 114 realizavam viagens para
outros municípios. Foram 43 motoboys num total de 52 entrevistados (82%) e 71 mototaxistas em total de 74
entrevistados (95%)
179
Os itens peças para aparelhos eletrônicos e medicamentos foram cobertos inteiramente por mototaxistas.
Alguns profissionais aproveitavam suas viagens para realizar entregas combinadas de autopeças e peças para
assistência técnica. As entregas de medicamentos eram combinadas as de material para tratamento dentário e, no
caso dos medicamentos, tratava-se de mototaxistas que tinham contratos para distribuição de produtos de um
pequeno laboratório de Londrina nos hospitais da região e também de atacadistas de medicamentos que tinham
vencido licitações para fazer esse fornecimento em hospitais da região.
271
CONCLUSÕES
272
A formação e o desenvolvimento dos circuitos da economia
urbana em Londrina apresentam particularidades que decorrem, por um
lado, do processo de constituição do arranjo espacial regional no contexto
do processo de colonização dirigida praticado pela Companhia de Terras, e
do modo como esse processo se ajustou às conjunturas recessivas dos
anos 1930 e 1940. De outro lado, temos os conteúdos específicos da
cafeicultura norte-paranaense, moldando profundamente a formação da
economia urbana de Londrina ao longo das décadas de 1950 e 1960.
A principal dentre essas particularidades foi a concentração
dos grandes negócios ligados à cafeicultura em Londrina, possibilitando
um maior desenvolvimento das forças produtivas naquela cidade e, com
isso, a formação de um circuito superior embrionário, mas extremamente
dinâmico que extrapolou os limites dos negócios em torno do café e da
venda de lotes rurais. Esse circuito superior em formação trouxe, para a
cidade, a capacidade de atrair novas atividades que se juntaram ao
conjunto.
O capital, sobretudo o capital mercantil e o capital bancário,
assentaram-se primeiro em Londrina, ponto central das transações com as
safras, da aquisição de bens de consumo e dos negócios com a terra, em
suma, da captura das rendas da terra. Desse modo, desenvolveram-se
novos capitais no âmbito do comércio varejista, atacadista e
intermediação bancária. Também serviços diversificados nas áreas do
transporte, comunicação, educação, saúde, lazer, entre outros. A
formação de um contingente expressivo de profissionais liberais
acompanhou a expansão dos serviços e do comércio. Os serviços blicos
e as infraestruturas, produzidos inicialmente sob o comando de capitais
privados e posteriormente ampliados e territorialmente integrados pela
ação do Estado, deram o suporte necessário à multiplicação e à
acumulação dos diversos tipos de capital e, conseqüentemente, também
às diversas formas de trabalho que se instalaram na cidade.
As novas atividades que a cafeicultura possibilitou à
Londrina ampliaram seus papéis urbanos, fortaleceram sua posição na
273
mediação dos fluxos de mercadorias e informações entre o Norte do
Paraná e São Paulo; e também com o exterior.
À medida que a vida urbana ganhava novos conteúdos pelo
lado do circuito superior, um circuito inferior, ainda mais embrionário que
o circuito moderno, estava em formação. A concentração da riqueza e da
pobreza no mesmo lugar é uma das conseqüências do processo de
urbanização sob o modo de produção capitalista.
Em virtude de, durante o período da cafeicultura, a
exploração do trabalho concentrar-se no meio rural, as atividades ligadas
à sobrevivência dos pobres da cidade combinavam-se à sazonalidade e à
pulsação da produção agrícola e, dessa forma, se apresentavam dispersas
e intersticiais no contexto da economia urbana. Entretanto, à medida que
a concentração e a centralização dos capitais redefiniam a vida econômica
de Londrina, formavam-se as condições para o desenvolvimento de um
circuito inferior menos disperso e mais integrado à divisão do trabalho em
suas diversas escalas. Contudo, seria necessário que a exploração do
trabalho também estivesse concentrada no meio urbano, para que o
circuito inferior passasse a se constituir em elemento vital da reprodução
social em Londrina. Essa transformação teria de aguardar uma nova
inserção regional na divisão territorial do trabalho.
Nos anos 1970, as modernizações que redefiniram a
especialização produtiva do Norte do Paraná não se restringiram à
substituição do cultivo de café e cereais por lavouras temporárias
mecanizadas e pastagens. As novas modernizações atingiram em cheio a
divisão de trabalho local, redefinindo os papéis das pequenas cidades e o
próprio arranjo espacial regional.
Nisso reside a importância de conhecer a dinâmica do
período anterior, isto é, o período da cafeicultura, pois a formação da
economia urbana londrinense estava diretamente relacionada à divisão do
trabalho local. Os conteúdos e o dinamismo dos circuitos da economia
urbana em formação, especialmente do circuito superior, eram
provenientes da repartição de tarefas na produção, transporte,
274
armazenagem, classificação e comercialização do café entre as cidades da
região, e entre as cidades e o meio rural. A ruptura da divisão de trabalho
na escala local, significou uma transformação, uma reestruturação da
economia urbana londrinense e, portanto, dos circuitos.
É de grande importância enfatizar a base sobre a qual
incidiram as modernizações que, a partir dos anos 1970, tornaram
maduras as condições para o desenvolvimento dos circuitos. As feições
regionais dos circuitos da economia urbana londrinense, tais como a
dimensão e a sofisticação de seu comércio varejista, a diversidade dos
serviços, a presença de infraestruturas capazes de sustentar fluxos
intensos de mercadorias, pessoas e informações, a exemplo do aeroporto
da cidade, são, em grande parte, heranças do período da cafeicultura que
moldaram o desenvolvimento posterior da economia urbana. Também as
dimensões, a diversidade e certo grau de tecnificação do meio construído
em Londrina, expresso pelas redes de eletricidade, telefonia e saneamento
básico, eram condições do novo período e da consolidação dos circuitos da
economia urbana, que foram, em grande parte, herdadas da cafeicultura.
As modernizações inerentes à primeira fase da difusão do
meio técnico-científico-informacional, especialmente a agricultura
mecanizada, o novo ritmo da industrialização na cidade e a urbanização
intensa e concentrada, produziram novas dinâmicas na economia urbana.
As transformações nas relações de produção no meio rural, o incremento
do assalariamento, a nova repartição de tarefas na escala local, as
migrações, são exemplos de algumas rupturas que marcam o momento
em que as coerências e a coesão do período da cafeicultura se desfizeram.
Novas funções se instalaram e as formas espaciais acompanharam o
movimento geral. O meio construído em Londrina e o arranjo espacial
regional se transformaram substancialmente.
As concentrações econômica e demográfica se reforçaram,
aprofundando a vida de relações e o poder de polarização das cidades
maiores e, em sintonia com as novas condições do território,
275
aprofundaram também a dependência e as interações de Londrina com o
núcleo financeiro e industrial paulista e com o exterior.
No período pós-1970 o circuito superior londrinense
incorporou os novos atores hegemônicos que a divisão territorial do
trabalho nas escalas nacional e internacional determinou: agroindústrias e
cooperativas. Com isso, a economia urbana londrinense ampliou o seu
processo de internacionalização mediante a presença de grandes
agroindústrias, algumas delas de capital estrangeiro. Esses novos atores
reforçaram as feições regionais dos circuitos, sobretudo do circuito
superior.
Novos capitais, o capital industrial e o capital financeiro de
diversas origens, instalaram-se com mais vigor na cidade, redefinindo a
dinâmica da economia urbana. A densidade técnica do meio construído em
Londrina atingiu um novo patamar. Novas redes técnicas e uma maior
disponibilidade de insumos fundamentais à industrialização e a
urbanização acelerada se fizeram presentes na cidade contribuindo para a
consolidação dos circuitos.
A consolidação do circuito inferior em meio a esse novo
cenário é mais difícil de acompanhar. A economia gerada pelos pobres das
cidades não entra com clareza nas estatísticas e nem sempre deixa
registros em que se possa confiar.
Seu registro mais fiel é a diversidade do meio construído. A
formação de centros de bairro implica que pequenos negócios foram se
formando. Os trabalhos sobre a Vila Casoni revelam essa face da vida
urbana. Os conjuntos habitacionais espalhados pela cidade que, em geral,
acompanharam a localização e distribuição das áreas industriais, deram
origem a núcleos de comércio e serviços importantes na formação do novo
cotidiano. Os serviços e equipamentos públicos também atuaram nessa
nucleação que se distribuiu pelo meio construído e deu margem ao
florescimento do circuito inferior.
As modernizações da primeira fase de difusão do meio
técnico-científico-informacional também atuaram sobre a consolidação do
276
circuito inferior. Boa parte das indústrias que se formaram em Londrina
era de pequenos estabelecimentos pertencentes a ramos de baixa
intensidade tecnológica (BRAGUETO, 2007). Além disso, eram fortemente
integradas ao mercado local e regional.
A ampliação do contingente de trabalhadores urbanos nos
anos 1970 e 1980 e sua origem rural, podem ser explicados pelo
desenvolvimento da pequena produção mercantil e pelos tipos de relações
de trabalho que predominaram na região durante o período da
cafeicultura. Havia uma grande massa de migrantes rurais recém
chegados à cidade que, por meio das atividades do circuito inferior,
puderam encontrar ocupação, obter renda e ver atendidas suas
necessidades básicas de consumo. As pesquisas (ALMEIDA, 1980 e
CESÁRIO, 1978) sobre a origem dos trabalhadores das pequenas
indústrias confirmam esses argumentos.
Ao longo dos anos 1970 e 1980 aumentou o número de
empregos assalariados na cidade, o trabalho tornou-se
predominantemente urbano e com ele também a reprodução social. A
dinâmica de consolidação do circuito inferior possibilitou a absorção de um
contingente considerável de trabalhadores
180
, como revela a intensidade
de crescimento da PEA urbana.
À consolidação de um circuito superior robusto, verdadeira
expressão da divisão territorial do trabalho nas escalas nacional e
internacional, correspondeu a consolidação de um circuito inferior
organicamente integrado ao cotidiano urbano. Os circuitos são a
expressão da divisão capitalista do trabalho no meio urbano e refletem o
processo instável e contraditório de reprodução ampliada do capital e de
reprodução ampliada da pobreza. Entretanto, convém manter sempre viva
a ressalva de que isso não esgota, no caso do circuito inferior, o sentido
da luta por se integrar ao modo de vida urbano, o sentido da busca por
180
Ainda hoje, ou seja, em 2009, os maiores geradores de emprego na cidade são atividades instaladas nesse
período tais como a Comaves, frigorífico que abate e exporta frangos.
277
formas de trabalho e ocupação que permitam enfrentar as ameaças do
empobrecimento.
As novas especializações produtivas que decorreram das
transformações na divisão territorial do trabalho nas escalas nacional e
mundial nos anos 1990, incidiram sobre uma economia urbana
consolidada. As rupturas que elas produziram afetaram de forma
contundente a dinâmica dos circuitos da economia urbana instalada a
partir dos anos 1970.
As modernizações dos anos 1990 no contexto do projeto
neoliberal incidiram sobre populações inseridas no modo de vida urbano.
Esse dado traz implicações para a dinâmica dos circuitos. O novo patamar
relativo ao excedente estrutural de trabalhadores implicou a
reestruturação do circuito inferior na direção do aumento da intensidade
das formas de auto-exploração e da desproteção social.
A segunda fase de difusão do meio técnico-científico-
informacional se apoiou na produção e apropriação privada das novas
infraestruturas tornando mais seletivo o seu uso. Parte dos novos
sistemas técnicos implantados no Paraná foi controlada pela iniciativa
privada, a exemplo da telefonia móvel celular, técnica nova que se
mostrou de grande importância na estruturação e funcionamento das
atividades do circuito inferior, a partir dos anos 1990.
As verticalidades se aprofundaram e ampliaram o grau de
internacionalização da economia urbana, que não era pequeno nos
períodos anteriores. Os atores do circuito superior incorporados à
economia urbana londrinense a partir dos anos 1990 possuem menos
ligações com a cidade ou a região do que as agroindústrias e cooperativas
do período anterior; estão na cidade, todavia, sua integração a ela é
restrita.
A nova densidade técnica do meio construído em Londrina,
sua diversificação e o impacto das técnicas informacionais na dinâmica
dos empregos, na desvalorização de formas de trabalho estabelecidas
provocaram novas rupturas nas coerências e coesões construídas ao longo
278
do período técnico-científico pós-1970. Essas rupturas reforçaram a
dinâmica do circuito inferior e estão na base das jornadas extenuantes de
trabalho de motoboys e mototaxistas. Também ajudam a explicar a
sombra de instabilidade e insegurança que o risco de acidentes e de não
conseguir manter-se na atividade projeta sobre o cotidiano desses
trabalhadores.
A redução do número de postos de trabalho, o forte
crescimento do número de desempregados e a desvalorização do trabalho,
associados ao aumento da circulação e à intensificação dos consumos,
tiveram como resposta a reestruturação do circuito inferior.
Essa reestruturação se expressa na criação de novas
inserções na divisão social do trabalho que se apoiaram na diversidade, na
dimensão e nos constrangimentos do meio construído, e em novas
técnicas como o telefone celular. O serviço de Moto Táxi é um exemplo
dessas novas inserções.
O pequeno comércio que continuou a se expandir na esteira
da diversificação do meio construído e, dessa forma, continuou a
responder pelas necessidades de ocupação, que é uma das atividades
que mais emprega pessoas na cidade (RAIS, 2004; IPARDES, 2008),
também se enquadra no processo de reestruturação do circuito inferior.
Nesse caso, os camelódromos que se consolidaram como formas da
expansão do pequeno comércio voltado ao consumo popular, são outros
exemplos.
A presença de diversos camelódromos na cidade indica que
a reunião de estabelecimentos bem pequenos em um mesmo local, de
maneira a reduzir custos de manutenção de cada um deles, tem se
mostrado eficiente para evitar que fechem as portas rapidamente. A
produção de camelódromos e similares também se mostrou um bom
negócio para especuladores imobiliários. Os circuitos se entrelaçam
mantendo a subordinação que caracteriza os vínculos entre o circuito
superior e o inferior.
279
A forma e o funcionamento do Camelódromo de Londrina e
do Serviço de Moto Táxi apresentam conteúdos que revelam uma
disposição de incorporar elementos das modernizações atuais.
As técnicas modernas não estão ausentes no circuito
inferior. É possível usar cartões de débito e crédito para fazer compras em
vários estabelecimentos do Camelódromo, bem como voltar para casa
utilizando o serviço de um mototaxista acionado a partir de um telefone
celular. Ao chegar em casa, a refeição pode ser encomendada pelo
telefone e recebida algum tempo depois por meio de um motoboy.
No plano da normatização e do discurso essa tendência se
repete, especialmente no que diz respeito à formalização e a flexibilidade
como panacéias para os males contemporâneos. As duas atividades, isto
é, o pequeno comércio nos camelódromos e o Moto Táxi, apresentam
certos traços que indicam sua acomodação frente às normas legais.
Em ambas atividades, a criação de leis que ampararam suas
relações com o poder público municipal, geraram exigências de abertura
de microempresas, recolhimento de taxas, vistorias e fiscalização. É
possível comprar mercadorias com nota fiscal no Camelódromo e verificar
que as Centrais de moto táxi são microempresas registradas. Apesar
desses traços de formalização as atividades permanecem como formas de
perpetuar situações de pobreza e precariedade, especialmente o Moto
Táxi. Os traços de formalização presentes nessas atividades pouco
contribuem nesse sentido.
O que concluímos em relação a essas observações é que o
circuito inferior em Londrina não é o reino da informalidade. Por outro
lado, certas propostas de enquadramento das atividades do circuito
inferior em padrões de formalidade e observação de exigências legais,
podem ter alguma importância do ponto de vista de criar certo grau de
aceitação social para a atividade. Contudo, no que se refere à questão
central da melhoria das condições de trabalho e de vida a curto e médio
prazos, têm eficácia limitada.
280
Esse argumento pode ser reforçado pela análise da situação
que enfrentam os motoboys. As empresas de entregas urbanas surgiram
na cidade no mesmo momento que o Camelódromo e o Moto Táxi, o final
dos anos 1990. Essas empresas são grandes intermediadoras da utilização
de força de trabalho, aplicada na esfera da circulação, por parte de
diversas empresas do circuito superior de Londrina. A peculiaridade da
relação das empresas de entregas urbanas com seus trabalhadores, os
motoboys, está em que o principal instrumento de trabalho deve ser
providenciado pelo trabalhador e não pela empresa. Dessa forma as
empresas de entrega urbana não se limitam a explorar a força de trabalho
dos motoboys, a relação inclui uma associação entre a força de trabalho
do entregador, disponibilizada em uma jornada determinada de trabalho,
e um instrumento particular e relativamente caro: a moto.
Em princípio, o motoboy é um trabalhador assalariado com
registro formal em carteira que estaria em melhor situação do que seus
colegas mototaxistas, que são trabalhadores por conta própria e não
contam com nenhuma forma de seguridade social tais como a
aposentadoria, a manutenção de algum rendimento em caso de acidente
ou doença e outros direitos trabalhistas. Essas conquistas são muito
relevantes, mas exigem que a contribuição seja contínua e, no caso da
aposentadoria, que ocorra por longos períodos. Na prática, e no curto
prazo, para manter-se como assalariado o motoboy tem de realizar muitas
horas extras, trabalhar em mais de um local e aos fins de semana para
melhorar seus rendimentos e, principalmente poder arcar com as
despesas de financiamento da moto.
A superficialidade da oposição formal / informal é um
obstáculo a ser superado para se chegar a uma compreensão mais
profunda da dinâmica da economia urbana, e em especial das formas de
entrelaçamento entre os circuitos.
Outra questão é a flexibilidade que, em geral, é associada à
ideologia do negócio próprio. Esses discursos tornam opacas as formas de
281
exploração intensa do trabalho que se constroem nas interações entre
atividades pertencentes a circuitos diferentes.
Durante as entrevistas com mototaxistas e alguns
proprietários do Camelódromo, ouvimos declarações acerca das vantagens
dessas atividades: não ter que atender a horários rígidos, não se
submeter aos riscos de demissões inesperadas, poder “batalhar para
ganhar um pouco mais” em caso de aperto, trabalhar muito duro, mas em
algo que é seu, e outras desse gênero. A flexibilidade proporcionada por
essas formas de trabalho é um aspecto valorizado por essas pessoas.
Ao mesmo tempo reconhecem que enfrentam situações de
grande risco e que não teriam muita chance de voltar a se integrar no
mercado formal de trabalho. A limitação se dá, especialmente porque,
teriam de enfrentar postos de trabalho com remunerações menores do
que as que tiveram no passado, quando eram empregados de alguma
empresa, e menores do que as que obtêm hoje, na atividade por conta
própria. Então na verdade onde está a flexibilidade? O que move esses
trabalhadores não seria uma forma de rigidez imposta pela ameaça do
empobrecimento e de ser descartado de vez, não apenas do mercado de
trabalho, mas de qualquer ocupação urbana e, portanto, do modo de vida
urbano?
Resta ainda, o fato de que, é na imbricação das divisões de
trabalho por cima e por baixo que se constrói a funcionalidade das
situações que caracterizam as atividades do circuito inferior.
Os motoboys e mototaxistas, isto é, os trabalhadores com
moto, atendem às necessidades de rapidez e agilidade na prestação de
serviços e na entrega de uma variada gama de documentos e objetos.
Como a fluidez é um dos imperativos do período atual (SANTOS, 2004) a
tendência de crescimento do mero de trabalhadores com motocicletas
parece não conhecer obstáculos de monta a curto e médio prazo.
A intensa expansão do número de motos em circulação no
Brasil nos últimos anos coincide com o aumento também acelerado de
trabalhadores que têm na motocicleta seu principal instrumento de
282
trabalho
181
. A ampla difusão desses trabalhadores em todo país, além de
corresponder às necessidades de fluidez de diferentes atores da economia
urbana, implica o consumo produtivo da motocicleta.
O uso da moto como instrumento de trabalho contribui para
o aumento do consumo desse bem. O aumento do número de motos em
circulação também está ligado ao crescimento das vendas que, por sua
vez, se apóia na expansão do crédito. O uso da moto, técnica incorporada
às atividades do circuito inferior, põe em movimento as engrenagens do
circuito superior; alimenta o oligopólio que domina o mercado de motos
no país
182
.
A presença das motocicletas e de trabalhadores ligados a
elas possibilita que certos tipos de fluxos se realizem entre Londrina e
outras cidades. Os fluxos, modernos ou não, são importantes na
redefinição dos papéis das cidades médias no período atual
183
e alguns
deles se materializam a partir do trabalho de motoboys e mototaxistas.
No capitalismo a produção de mercadorias é a forma
generalizada da produção social. Como produção de mercadorias a
produção social subordina a existência humana ao consumo que se realiza
no mercado e apenas por intermédio dele, isto é, depois de realizarem
o valor de troca, os produtos do trabalho humano, são disponibilizados
para o consumo.
181
Em 2008 a produção nacional de motocicletas foi de 2.140.907 unidades, um crescimento de 237% em
relação a 2000. Em termos absolutos esse crescimento representou nada menos que 1,5 milhão de novas
motocicletas. O crescimento da produção foi acompanhado pela expansão do número de motocicletas em
circulação no país que passou de 2,5 milhões em 1998 para 11 milhões em 2008. O mesmo processo de expansão
ocorreu em Londrina e no Paraná como um todo. (BRASIL, Ministério das Cidades, DENATRAN, 2008)
Os dados sobre a produção de motocicletas foram obtidos no sítio da Associação Brasileira dos Fabricantes de
Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e similares - ABRACICLO Disponível em
<http://abraciclo.com.br>; Acesso em 20 de agosto de 2009.
182
Desde o lançamento do modelo “CG Today” de 125 cilindradas em 1976 a Honda domina amplamente o
mercado de motocicletas no Brasil. A empresa detém, em média, 80% das vendas de motos no mercado interno
brasileiro que consome preponderantemente veículos com potências de 125 e 150 cilindradas. Disponível em
<http://abraciclo.com.br>; Acesso em 20 de agosto de 2009.
183
“Levando em consideração a coexistência e a articulação combinada e desigual de fluxos estabelecidos por
sistemas de transporte e de comunicação, reforçando continuidades e gerando descontinuidades territoriais, em
função de interações por contigüidade ou por conectividade, como destacamos no item anterior, passamos a
descrever,de modo sucinto, os processos que estão em curso, os quais têm provocado repercussões significativas
na redefinição das redes urbanas, em diferentes escalas e, por conseguinte, nos papéis das cidades médias
constituintes dessas redes.” (SPÓSITO, 2007a, p. 41)
283
O consumo em suas diferentes formas (produtivo e final)
liga-se à circulação de mercadorias e à distribuição, que por sua vez
completam o processo de produção capitalista, que é a unidade formada
pelo processo de trabalho e de valorização. A sobrevivência do capitalismo
impôs como condição, a revolução constante da produção e do consumo
de mercadorias. A mesma condição de permanente revolução pesa, então,
sobre as esferas da produção strictu sensu, da circulação e da
distribuição.
A intensificação do consumo e da circulação mediados pela
ampliação do crédito, pela presença cada vez maior dos bancos e
instituições financeiras no cotidiano, inclusive de uma parcela da
população pobre, exige trabalho vivo. Não é demais lembrar com Marx
(1998, p.109) que não é com seus pés que as mercadorias vão ao
mercado, nem se trocam por decisão própria”. Os fluxos que se realizam
com base no trabalho de motoboys e mototaxistas de Londrina respondem
às necessidades de fazer circular um número crescente de mercadorias,
documentos, objetos e informações no contexto da aceleração
contemporânea (SANTOS, 2005).
A condição de Londrina como cidade média reflete os papéis
de intermediação que a cidade adquire com a implantação de atividades
produtivas e de consumo. Os novos papéis e atividades de Londrina se
realizam no contexto de uma parte do território brasileiro, a Região
Concentrada, em que grande fluidez e que a divisão interurbana do
trabalho é densa. Assim, nessa parte do país, diversos tipos de fluxos se
entrecruzam e dentre eles, os que são realizados a partir de atividades
intensivas em trabalho, potencializadas pelas técnicas modernas.
A conclusão que se esboça então é a seguinte: o circuito
inferior, por meio dos fluxos efetivados pelos trabalhadores com moto,
participa da ampliação e manutenção dos papéis de Londrina enquanto
cidade média. Essa participação completa a forma como as verticalidades
concentradas no circuito superior, encontram mecanismos de se combinar
às horizontalidades propiciadas pelas atividades do circuito inferior,
284
fazendo com que a segmentação da economia urbana se reforce com a
reestruturação do circuito inferior.
Em Londrina, no período atual, a concentração urbana, em
seus aspectos econômico e demográfico, é ainda maior que no período
anterior. O cotidiano de Londrina reúne também empresas e pessoas de
Cambe, Ibiporã e Rolândia. O trabalho de José Humberto Tavares (2001)
demonstra isso com clareza. Uma das conseqüências desse processo é
que o meio construído se tornou mais fragmentado e diversificado. Diante
dessas condições o circuito inferior ligado ao consumo e à circulação
adquire novas escalas e qualidades.
Reside uma conclusão importante desta pesquisa. A
reestruturação do circuito inferior, a partir dos anos 1990, apoiou-se
fortemente no meio construído, mediação fundamental do entrelaçamento
dos circuitos.
O circuito inferior no período atual parece integrar-se ainda
mais profundamente à cidade: à sociodiversidade (SANTOS, 2004) e à
diversidade do meio construído que caracterizam uma cidade média como
Londrina. A contigüidade e a proximidade que a cidade propicia entre
pequenos negócios, trabalhadores assalariados com diversos tipos de
rendimentos, classes dias ligadas a serviços públicos e atividades
modernas, desempregados e atividades hegemônicas, possibilita que o
circuito inferior possa adequar-se aos espasmos da economia urbana. Ao
manter disponível um contingente de trabalhadores para atender as
necessidades da aceleração da circulação e da intensificação do consumo
contemporâneos o circuito inferior mais uma vez revela sua funcionalidade
para a reprodução social e toda a dimensão concreta do sofrimento
humano que o acompanha.
Revela também como se viabiliza a vida cotidiana nas áreas
mais afastadas, nas periferias da cidade e como a luta dos pobres por se
inserir na divisão do trabalho também cria a economia urbana. Os centros
de bairro são elementos essenciais para a sobrevivência das Centrais de
285
Moto Táxi. A existência desse serviço reduz os atritos e dificuldades da
mobilidade intra-urbana.
É em torno do valor de uso complexo do meio construído
que as disputas entre o pequeno comércio, em geral rotulado de informal,
e os comerciantes organizados na associação patronal se mostram mais
candentes.
O Centro Principal de Londrina é também o centro de uma
região cujos limites são difíceis de precisar, mas que se estende pelo norte
do Estado e até para além das fronteiras do Paraná. A centralidade de
Londrina (SILVA, 2006) implica em fluxos que fazem do Centro Principal
um local mais do que favorável ao comércio e aos serviços.
A concorrência entre os camelódromos e as lojas
tradicionais que disputam os fluxos de consumidores que convergem para
o centro de Londrina acirra os conflitos entre esses atores em relação ao
meio construído e é um móvel da reestruturação do circuito inferior. Para
sobreviver os pequenos comerciantes dos camelódromos tiveram de se
tornar mais parecidos com seus concorrentes, equipar o Camelódromo
com ar condicionado e escada rolante, aceitar meios eletrônicos de
pagamento, aumentar a participação de mercadorias compradas de
acordo com os tramites legais e misturá-las as mercadorias compradas de
maneira “informal” como fazem os outros comerciantes, entre outras
práticas.
Essa tendência aumentou as chances de sobrevivência dos
estabelecimentos, permitiu ganhos maiores, fez surgir um grupo de
rentistas que vive do aluguel dos boxes e também acabou por expropriar
muitos daqueles que viveram os dias de embate nas ruas com a
Prefeitura, o Ministério Público e a Polícia federal. Não foram poucos os
que se tornaram novamente camelôs nas ruas e os que se tornaram
empregados de outros comerciantes no próprio Camelódromo.
Para terminar é importante apontar algumas diferenças que
o circuito inferior de Londrina no período atual apresenta em relação ao
circuito inferior tal como analisado por Milton Santos nos anos 1970, para
286
as grandes cidades do Terceiro Mundo. É preciso que ressaltemos que as
diferenças se explicam tanto pelo período que é outro, em relação aos
anos 1970, quanto pelo contexto local e regional; trata-se do circuito
inferior de Londrina, o que implica considerar suas feições regionais.
As diferenças que constatamos dizem respeito, sobretudo,
às características dos trabalhadores do circuito inferior. Uma primeira
diferença diz respeito ao grau de escolaridade desses trabalhadores. A
falta de escolaridade ou escolaridade insuficiente não é exatamente uma
característica marcante dos trabalhadores do circuito inferior em Londrina.
Considerando a totalidade dos entrevistados a grande maioria estudou até
o ensino médio e praticamente a metade dos entrevistados concluíram
esse nível de ensino.
Outra diferença é que a maioria dos trabalhadores do
circuito inferior não é de migrantes recém-chegados à cidade. A maioria
dos entrevistados mora em casa própria, sua ou dos pais. Os seus
domicílios são apetrechados com diversos equipamentos domésticos.
Estão distribuídos em bairros em que predominam responsáveis pelo
domicilio com rendimentos mensais baixos, isto é, até dois salários
mínimos. No caso dos trabalhadores em atividades por conta própria,
verificamos que praticamente a totalidade dos entrevistados teve uma
trajetória pelo mercado formal de trabalho.
Os próprios trabalhadores do circuito inferior são atendidos
pelas atividades do circuito inferior, constituindo uma circularidade que
nada tem de acidental, que mais uma vez, a exemplo do que ocorria no
período anterior, se mostra funcional ao modo de produção. Isso não é
novo, mas se apresenta de forma ainda mais intensa e mais difundida na
cidade e na região.
O circuito inferior continua a ser um perpetuador da pobreza
e, simultaneamente, representa formas de luta contra o empobrecimento
e contra as irracionalidades da racionalidade hegemônica. O circuito
inferior está relacionado às lógicas da sobrevivência, mas também
287
participa das formas de alienação e de exploração do trabalho que
alimentam a intensificação da circulação e dos consumos.
A teoria dos circuitos mostra que a divisão do trabalho é
uma categoria central para a compreensão mais profunda da cidade e do
urbano no período atual, pois é por meio da análise da divisão do trabalho
em suas várias escalas que a dinâmica dos circuitos se revela e, com ela,
o modo como os circuitos participam da reprodução social.
No período atual, analisar as transformações dos circuitos
como manifestações da divisão do trabalho ajuda a não perder de vista a
compreensão da cidade com base na totalidade e a exorcizar os discursos
que se erguem sobre parcialidades e que intencionalmente obliteram
dimensões e aspectos fundamentais do modo de vida urbano.
288
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
289
REFERÊNCIAS
ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do
Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
ADUM, Sonia. Imagens do progresso: civilização e barbárie em
Londrina, 1930 – 1960. 1991. 227 f. Dissertação (Mestrado em
História) – Departamento de História, UNESP, Assis.
AGÊNCIA ESTADO. [Número de motociclistas no Brasil]. O Estado de São
Paulo. São Paulo, [2009?]. Disponível em:
<http://www.estadao.com.br/estadaodehoje>. Acesso em: 15 jul. 2009.
ALMEIDA, Ana Maria Chiarotti de. Dinâmica Participação social dos
operários de origem rural em área urbana: Londrina – PR. 1980.
110 f. Tese (Pós-Graduação em Economia Rural) – Centro de Estudos e
Pesquisas Econômicas, Faculdade de Ciências Econômicas, Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
ALVES, Claudia Lima E. Dinâmica espacial de produção e reprodução
do capital e da força de trabalho em Londrina: conjuntos
habitacionais. 1991. 188 f. Dissertação (Mestrado em Geografia
Humana) – Departamento de Geografia, Universidade de São Paulo, São
Paulo.
ARIAS NETO, José Miguel. O Eldorado: Londrina e o Norte do Paraná,
1930-1975. 1993. 235 f. Dissertação (Mestrado em História) –
Departamento de História, Universidade de São Paulo, São Paulo.
ARRANJO PRODUTIVO LOCAL TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO LONDRINA E
REGIÃO. [Dados]. Londrina: APLTI, 2006. Disponível em:
<www.apltilondrina.com.br>. Acesso em 20 mar. 2008.
ASARI, Alice Atiyo; TUMA, Magda Madalena. Aspectos históricos,
Físicos, Econômicos e Institucionais do Município de Londrina.
Londrina: Prefeitura Municipal, 1978.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS FABRICANTES DE MOTOCICLETAS,
CICLOMOTORES, MOTONETAS, BICICLETAS E SIMILARES. ABRACICLO:
Banco de Dados. Disponível em: <http://abraciclo.com.br/>. Acesso
em: 15 mar. 2009.
ASSOCIAÇÃO COMERCIAL E INDUSTRIAL DE LONDRINA. Setenta anos
de união e luta: a história e as conquistas da Associação Comercial
e Industrial de Londrina, uma entidade que nasceu quando o Norte
do Paraná era apenas sertão. Londrina: Midiograf, 2007.
290
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DAS EMPRESAS DE TRANSPORTES URBANOS
(NTU). Transporte informal urbano: riscos de não encarar o
problema de frente. São Paulo: NTU, 1997. Disponível em:
<http//www.ntu.org.br/.../publicacoes/>. Acesso em 01 jul. 2008.
AUGUSTO, Maria Helena O. Intervencionismo Estatal e Ideologia
desenvolvimentista. São Paulo: Símbolo, 1978.
BARONI, Célia. Obra no Camelódromo sairá em dezembro. Folha de
Londrina, Londrina, 14 nov. 1997. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>. Acesso em: 18 de jul.
2008.
BARROS, Mirian Vizintin Fernandes, et al. Atlas Ambiental da Cidade
de Londrina. Londrina: IMAP&P, 2008. Disponível em:
<http://www.uel.br/revistas/atlasambiental/>. Acesso em: 5 maio 2008.
BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Lisboa: Edições70,
2007.
BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas
em mercadoria. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
BERNARDES, Lysia Maria C. Crescimento da população do Estado do
Paraná. In: FRESCA, Tânia M.; CARVALHO, Márcia S. de. Geografia e
Norte do Paraná: um resgate histórico, v. 2. Londrina: Humanidades,
2007.
BLUM, Luciane. O desenvolvimento da atividade comercial varejista:
o caso de Londrina-PR. 2006. 134 f. Dissertação (Mestrado em
Desenvolvimento Regional e Urbano) – Centro de Filosofia e Ciências
Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.
BRAGUETO, Claudio Roberto. A Inserção da microrregião geográfica
de Londrina na divisão territorial do trabalho. 1996. 323 f.
Dissertação (Mestrado em Geografia Humana) – Departamento de
Geografia, Universidade de São Paulo, São Paulo.
______. O aglomerado urbano industrial de Londrina: sua
constituição e dinâmica industrial. 2007. 265 f. Tese (Doutorado em
Geografia Humana) - Departamento de Geografia, Universidade de São
Paulo, São Paulo.
BRASIL. Ministério das Cidades, Departamento Nacional de Trânsito.
Frota de veículos. 2008. Disponível em:
<http://www.denatran.gov.br/frota.htm>. Acesso em: 23 jun. 2009.
291
______. Ministério do Trabalho e Emprego. Base Estatística RAIS:
relação anual de informações sociais – RAISESTAB 2003. Brasília, 2004.
CDROM.
______. Ministério do Trabalho e Emprego. Base Estatística RAIS:
relação anual de informações sociais – RAISESTAB 2004. Brasília, 2004.
CDROM.
CACCIAMALI, Maria C. Globalização e processo da informalidade.
Economia e Sociedade, Campinas, n.º 14, p. 153-174, jun. 2000.
______. Um estudo sobre o setor informal urbano e formas de
participação na produção. 1982. 234 f. Tese (Doutorado em Economia)
– Faculdade de Economia e Administração, Universidade de São Paulo,
São Paulo.
CANCIAN, Nadir Aparecida. Cafeicultura paranaense (1900 – 1970):
estudo de conjuntura. 1977. 386 f. Tese (Doutorado em história) –
Departamento de História, Universidade de São Paulo, São Paulo.
CANO, Wilson. Soberania e política econômica na América Latina.
São Paulo: Editora UNESP, 2000.
CARDOSO, Fernando H.; FALETO, Enzo. Dependência e
desenvolvimento na América Latina. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.
CARIOLA, Cecilia; LACABANA, Miguel. Caracas metropolitana: exclusión
social, pobreza y nueva pobreza en el contexto de las políticas
neoliberales. Cuadernos del Cendes, Caracas, v. 21, n. 56, p.145-153,
ago. 2004.
CARVALHO, Márcia Siqueira de. A pequena produção de café no
Paraná. 1991. 192 f. Tese (Doutorado em Geografia Humana) -
Departamento de Geografia, Universidade de São Paulo, São Paulo.
CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica
do salário. Petrópolis: Vozes, 1998.
CAVECHINI, Caio; SOUZA, Francisco de; PAGANOTTI, Ivan. A esperança
na garupa. São Paulo: Universidade de São Paulo - Escola de
Comunicações e Artes, 2004. Disponível em: <http://www.ville-en-
mouvement.com/concours_etudiant/concours3/
kitprestelechargement/portugueselow.pdf>. Acesso em 25: abr. 2008.
CERVI, Emerson. Eleito vai desocupar praça tombada. Folha de
Londrina, Londrina, 22 out. 2000. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>. Acesso em: 18 jul. 2008.
292
CESÁRIO, Ana Cleide C. Industrialização e Pequenos empresários em
Londrina. 1978. 190 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) –
Departamento de Ciências Sociais, Universidade e São Paulo, São Paulo.
CLARK, Colin. The Conditions of Economic Progress. Londres:
Macmillan Co., 1940.
COMPANHIA PARANAENSE DE ENERGIA ELÉTRICA; UNIVERSIDADE
FEDERAL do PARANÁ. Um século de eletricidade no Paraná. Curitiba:
Companhia Paranaense de Energia Elétrica, 1994.
CORREA, Roberto Lobato. O espaço urbano. 3 ed. São Paulo: Ática,
1995.
______. Trajetórias Geográficas. 2 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
2001.
CUNTO, Adriana de. Câmara decidirá futuro do Moto Táxi. Folha de
Londrina, Londrina, 19 abr. 1997. Disponível
em:<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>. Acesso em: 19 de set.
2008.
DAMIANI, Amélia Luisa. A cidade desordenada: concepção e
cotidiano do conjunto habitacional Itaquera I. 1993. 344 f. Tese
(Doutorado em Geografia Humana) – Depto. de Geografia, Universidade
de São Paulo, São Paulo.
DRAIBE, S. As Políticas sociais brasileiras: diagnósticos e perspectivas. In:
IPEA. Para a década de 90: prioridades e perspectivas de políticas
públicas. Brasília, IPEA, 1989.
ENDLICH, Ângela Maria. Maringá e a rede urbana regional: conteúdo
urbano e concentração demográfica. Acta Scientiarum Technology,
Maringá, vol. 21, n. 4 p.897-907, 1999.
ESPÍNDOLA, Marcos. CMTU inicia hoje reformas no novo camelódromo.
Folha de Londrina, Londrina, 16 set. 2002. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=10877&dt=20020916>.
Acesso em: 18 jul. 2008.
FÉLIX, Rosana. PR tem 900 mil no trabalho informal. Folha de Londrina,
Londrina, 26 abr. 2001. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>. Acesso em: 18 jul. de
2008.
FERNADES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil: ensaio de
interpretação sociológica. 3 ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.
293
FONSECA, Natasha Ramos R. Sobre duas rodas: o mototáxi como
uma invenção de mercado. 2005. 113 f. Dissertação (Mestrado em
Ciências Estatísticas) – ENCE/IBGE Curso de Mestrado em Estudos
Populacionais e Pesquisas Sociais, Rio de Janeiro. Disponível em:
<http://www.ence.edu.br/pos_graduacao/mestrado/dissertacoes/pdf/200
5/natasha_reis_da_fonseca_TC.pdf>. Acesso em: 23 abr. 2008.
FRAZÃO, Marcelo. Camelôs comemoram crescimento da atividade. Jornal
de Londrina, Londrina, 03 ago. 2006. Disponível em:
<http://canais.rpc.com.br/jl/geral/conteudo.phtml?id=587954>. Acesso
em: 12 jun. 2007.
FRESCA, Tania Maria. A rede urbana do Norte do Paraná. Londrina:
Eduel, 2004.
FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. Banco de Dados. Rio de Janeiro: FGV,
1960- . Disponível em: <www.fgvdados.br>. Acesso em: 12 jun. 2009.
FURTADO, Celso. Análise do Modelo Brasileiro. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1972.
______. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1974.
GAUDEMAR, Jean Paul. Mobilidade do trabalho e acumulação de
capital. Lisboa: Estampa, 1977.
GEORGE, Pierre. Geografia Urbana. São Paulo: DIFEL, 1983.
______. Sociologia e Geografia. Rio de Janeiro: Forense, 1969.
GOTTDIENER, Mark. A produção social do espaço urbano. São Paulo:
Edusp, 1993.
GOUVEIA, Guilherme. Comerciantes de Londrina pedem saída de camelôs.
Folha de Londrina, Londrina, 08 maio 2001. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>. Acesso em: 18 jul. 2008.
GUNDER FRANK, André. Acumulação dependente e
subdesenvolvimento. São Paulo: Brasiliense, 1980.
HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992.
______. Los Limites Del capitalismo y la Teoría Marxista. Ciudad del
Méjico: Fondo de Cultura Económica, 1990.
HORTA, Lúcio. Mototaxistas querem legalizar serviço. Folha de Londrina,
Londrina, 11 nov. 1998. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>. Acesso em: 19 set. 2008.
294
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo
Demográfico – 2000. Rio de Janeiro: FIBGE. Disponível em:
<http://biblioteca.ibge.gov.br/>. Acesso em: 03 maio 2008.
______. Censo Demográfico: Paraná – 1960. Rio de Janeiro: FIBGE.
Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/>. Acesso em: 03 maio
2008.
______. Censo Demográfico: Paraná – 1970. Rio de Janeiro: FIBGE.
Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/>. Acesso em: 03 maio
2008.
______. Censo Demográfico: Paraná – 1980. Rio de Janeiro: FIBGE.
Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/>. Acesso em: 03 maio
2008.
______. Censo Demográfico: Paraná – 1991. Rio de Janeiro: FIBGE.
Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/>. Acesso em: 03 maio
2008.
______. Censos Econômicos: Paraná – 1960 a 1985. Rio de Janeiro:
FIBGE. Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/>. Acesso em: 03
maio 2008.
______. Perfil dos Municípios Brasileiros 2008. Rio de Janeiro, 2008.
IMAGENS, PAISAGENS E PERSONAGENS (Grupo de Pesquisa).
Crescimento do Perímetro Urbano de Londrina. Relatório final de
pesquisa. 1999. 36 f. Londrina: IMAP&P; CPG/UEL, 1999.
INSTITUTO PARANAENSE DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL.
BDEWeb: base de dados do Estado. Curitiba: IPARDES, 2008.
Disponível em: <http\\www. ipardes.gov.br/imp/índex/.php>. Acesso em:
21 mar. 2008.
______. Nova Configuração Espacial do Paraná. Curitiba: Fundação
Edison Vieira, 1983.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Diagnóstico do Setor
de Saneamento: Estudo Econômico e Financeiro. Brasília: Ministérios
do Planejamento e Orçamento, 1995.
JOFFILY, José. Londres-Londrina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
KROETZ, Lando Rogério. A História da Telefonia no Paraná. Curitiba:
TELEPAR, 1982.
LACOSTE, Yves. Geografia: isso serve em primeiro lugar para fazer a
guerra. Campinas: Papirus, 1988.
295
LAUDES. A experiência do Paraná. Petrópolis: Vozes, [1971?].
LAUTIER, Bruno. Fixation restreinte dans le salariat, secteur informel et
politique d’emploi em Amerique Latine. Revue Tiers Monde, Paris,v.
XXVIII, n. 110, p. 347 – 367, abr.-jun. 1987.
LEÃO, Silvana. Camelôs continuam sem local definido. Folha de
Londrina, Londrina, 2 nov. 2000. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>. Acesso em: 18 jul. 2008.
LEÃO, Silvana. Trabalho arriscado. Folha de Londrina, Londrina, 30 jul.
1999. Disponível em: <http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>.
Acesso em: 18 jul. 2008.
LINARDI, Maria Cecília N. Pioneirismo e modernidade: a urbanização
de Londrina-PR. 1995. 240 f. Tese (Doutorado em Geografia Humana) -
Departamento de Geografia, Faculdade de Filosofia Letras e Ciências
Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.
LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaios sobre a
sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
LONDRINA; CODEL. Cadernos Setoriais: indústrias. Londrina:
Companhia de Desenvolvimento de Londrina, 2004.
______; ______. Secretaria Municipal de Planejamento. Dados
Estatísiticos de Londrina. Londrina: Prefeitura Municipal de Londrina,
1974.
______; ______. Secretaria Municipal de Planejamento. Perfil Londrina
1986. Londrina: Prefeitura Municipal de Londrina, 1986.
______; ______. Secretaria Municipal de Planejamento. Perfil Londrina
1987. Londrina: Prefeitura Municipal de Londrina, 1987.
______; ______. Secretaria Municipal de Planejamento. Perfil Londrina
2007. Londrina: Prefeitura Municipal de Londrina, 2007.
______; IPAC. Onde o bairro é a casa. Londrina: COCITEC/UEL, 1987.
LONDRIX. [Notícias]. Londrina: [s/n], 2006. Disponível em:
<http://www.londrix.com/noticias.php?id=18297>. Acesso em: 15 jul.
2008.
LOPES, Claudia. Região de Londrina tem 101 mil sem trabalho, diz estudo.
Folha de Londrina, Londrina, 23 maio 1998. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>. Acesso em: 18 jul. 2008.
296
LOPES, Eugenia. Senado aprova regulamento a profissões que usam
moto. Estado de São Paulo. São Paulo, 8 jul. 2009. Disponível em:
<http://www.estadao.com.br/geral/not_ger399939,0.htm>): Acesso em
9 jul. 2009.
LUGNANI, Antonio Carlos; MARANDOLA, Maria Eduvirges. Cooperativas
Agropecuárias no Norte do Paraná: crescimento e capitalização da Valcoop
e da Corol no período 1970-98. Revista Paranaense de
Desenvolvimento, Curitiba, n. 101, p. 53-70, jul./dez. 2001
LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe. São Paulo: Martins
Fontes, 2003.
MALAGUTI, Manoel Luiz. Crítica a razão informal: a imaterialidade do
salariado. São Paulo: Boitempo, 2000.
MAMANI, Hernán Armando. Alternativo, informal, irregular ou ilegal? O
campo de lutas dos transportes públicos. In: PINHEIRO, Ana Clara T. R. El
rostro urbano de América Latina. O rosto urbano da América Latina.
CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, Ciudad Autónoma
de Buenos Aires, Argentina. 2004. Disponível em:
<http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/rural1/p6art2.pdf >.
Acesso em: 10 jul. 2008.
MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial. 5 ed. Rio de
Janeiro: Zahar, 1979.
MARTINS, José de Souza. O cativeiro da terra. São Paulo: Ciências
Humanas, 1979.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política, livro I, v. 1. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
MAZZINI, Fernanda.
Novo camelódromo será inaugurado no 2º
semestre.
Folha de Londrina, Londrina, 24 maio 2006. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>. Acesso em: 18 jul. 2008.
MENEGUEL, Stella. Empresa Indiana espera faturar até US$ 15 milhões
em Londrina. Jornal de Londrina, Londrina, 16 out. 2008. Disponível
em: <http://portal.rpc.com.br/jl/geral/conteudo.phtml?id=818244>.
Acesso em: 30 jul. 2009.
MERRICK, T. Employment and earnings in the informal sector in Brazil:
the case of Belo Horizonte. Journal of Developing Areas, Nashville,
(EUA), v. 10, n. 3, p. 337-353, 1976.
297
MONBEIG, Pierre. A zona pioneira do Norte do Paraná. In FRESCA, Tânia
M.; CARVALHO, Márcia S. de. Geografia e Norte do Paraná: um
resgate histórico, v. 2. Londrina: Humanidades, 2007.
______. Novos estudos de Geografia Humana. São Paulo: Difusão
Européia do Livro, 1957.
MONTENEGRO, Marina Regitz. O circuito inferior da economia urbana
em São Paulo no período da globalização. 2006. 203 f. Dissertação
(Mestrado em Geografia Humana) – Departamento de Geografia,
Universidade de São Paulo, São Paulo.
MORAIS, Luka. Mototaxistas: queremos trabalhar. Folha de Londrina,
Londrina, 26 abr. 1997. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>. Acesso em: 19 set. 2008.
MOREIRA, Ruy. Pensar e Ser em Geografia: ensaios de história,
epistemologia e ontologia do espaço geográfico. São Paulo:
Contexto, 2007.
MÜLLER, Nice Lecocq. Contribuição ao estudo do Norte do Paraná. In:
FRESCA, Tânia M.; CARVALHO, Márcia S. de. Geografia e Norte do
Paraná: um resgate histórico, v. 2. Londrina: Humanidades, 2007.
NAKAGAWARA, Yoshiya. As funções regionais de Londrina e sua área
de influência. 1972. 307 f. Tese (Doutorado Geografia Humana) –
Departamento de Geografia, Universidade de São Paulo, 1972.
NANTES, Ailton da Silva. Segregação espacial: a Vila Nova de
Londrina-PR. 2003. 85 f. Monografia (Bacharelado em História) –
Departamento de História, Universidade Estadual de Londrina, Londrina.
OLIVEIRA, Edílson Luis de. A iniciativa privada e o parcelamento do solo
na expansão de Londrina de 1970 a 2000. In I CIMDEPE - Simpósio
Internacional Cidades Médias: dinâmica econômica e produção do
espaço urbano, (1), 2005, Presidente Pudente – SP, UNESP, GASPERR, 1
CD-ROM.
______. A "praia" que faltava em São Paulo. In: RODRIGUES, Adyr A. B..
(Org.). Turismo e Geografia: Reflexões teórica e enfoques regionais.
São Paulo: HUCITEC, 1996, p. 247-261.
______.; FRESCA, Tânia Maria. A produção do espaço urbano de
Londrina – 1970 a 2000. 2005. 147 f. Universidade Estadual de
Londrina, Relatório de Pesquisa. Londrina, mimeografado.
OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista. São Paulo: Boitempo,
2003.
298
PADIS, Pedro Calil. Formação de uma economia periférica: o caso do
Paraná. 2 ed. São Paulo: Hucitec, 1984.
PAULINO, Eliane Tomiasi. Terra e Vida: a geografia dos camponeses
do Norte do Paraná. 2003. 430 f. Tese (Doutorado em Geografia
Humana) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, UNESP, Presidente
Prudente.
PAYES, Antonio Mungüia. O Norte do Paraná: expansão cafeeira e
apropriação da rena fundiária desde fins do século XIX até 1960.
1984. 173 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) - Instituto de
Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
PEGORARO, Paulo. Camelódromo perde freguesia. Folha de Londrina,
Londrina, 04 fev. 1999. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>. Acesso em: 18 jul. 2008.
PELEGRINO, Erika. Camelôs querem Shopping no centro. Folha de
Londrina, Londrina, 20 abr. 2001. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>, Acesso em: 18 jul. 2008.
PEREIRA, L. B.; LUGNANI, Antonio Carlos. Novos rumos da agricultura
paranaense na década de 80. Estudos Econômicos, São Paulo: USP/IPE,
v. 21, n. 3, p. 351-378, set./dez.1991.
PERIS, Alfredo Fonseca; LUGNANI, Antonio Carlos. Um estudo sobre o
eixo Cascavel – Foz do Iguaçu, na região oeste do Paraná. Revista
Paranaense de Desenvolvimento, Curitiba, n. 104, p. 79-102, jan./jun.
2003
PESQUISA EMPREGO E DESEMPREGO. São Paulo: DIEESE, 1984- .
Disponível em: <www.dieese.org.br/ped/bd/mercadotrab.xml>. Acesso
em: 18 jun. 2009.
PINTAUDI, Silvana. Os Shopping-Centers Brasileiros e o Processo de
Valorização do Espaço Urbano. Boletim Paulista de Geografia, São
Paulo, n. 65, p. 29-45, 2 sem. 1987.
POCHMANN, Márcio. Economia solidária no Brasil: possibilidades e
limites. Brasília: IPEA, 2004. Disponível em: <www.ipea.gov.br>. Acesso
em: 25 mar. 2009.
______. O emprego na globalização: a nova divisão internacional
do trabalho e os caminhos que o Brasil escolheu. São Paulo:
Boitempo, 2001.
______. O emprego no desenvolvimento da nação. São Paulo:
Boitempo, 2008.
______. O trabalho sob fogo cruzado. São Paulo: Contexto, 1999.
299
PRANDINI, Neyde. Aspectos da Geografia Urbana de Londrina. In FRESCA,
Tânia M.; CARVALHO, Márcia S. de. Geografia e Norte do Paraná: um
resgate histórico, v. 2. Londrina: Humanidades, 2007.
PREBISCH, Raúl. Capitalismo Periférico: Crisis y Transformación.
México: Fondo de Cultura Económica, 1981.
QUÍCOLI, Paulo Cesar. A formação e a ocupação de um bairro de
Londrina: o exemplo da Vila Nova. 1984. 93 f. Monografia
(Bacharelado em Geografia) - Departamento de Geociências, Universidade
Estadual de Londrina, Londrina.
RAZENTE, Nestor. Acordo de Cooperação Paraná/BIRD: recriando as
relações intergovernamentais através do financiamento do
desenvolvimento urbano. 2003. 358 f. Tese (Doutorado em Arquitetura)
– Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São
Paulo.
______. Ocupação do Espaço Urbano de Londrina. 1983, 2 v. 389 f.
Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Urbano) - Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal de Pernambuco, Recife.
RIOS, José Arthur. Londrina, uma análise sociológica. Rio de Janeiro:
Prefeitura Municipal de Londrina, 1980.
RODRIGUES, Betânia. CMTU estuda alternativas para camelôs. Folha de
Londrina, Londrina, 13 jul. 2000. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>, Acesso em: 18 jul. 2008.
RONQUI, Erci Josefina. A modernização no Campo – Londrina/Pr.
1990. 83 f. Monografia (Bacharelado em Geografia) – Departamento de
Geociências, Universidade Estadual de Londrina, Londrina.
SALAMA, Pierre. O Tamanho da Pobreza: economia política da
distribuição de renda. Rio de Janeiro: Garamond, 1999.
SANFELIU, Carmen B.; TORNÉ, Josep Maria L. Miradas a otros espacios
urbanos: Las ciudades intermedias. Revista Electrónica de Geografia
Ciencia Sociales. Universidad de Barcelona, v. VIII, n. 165, maio 2004.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e
Emoção. 4.ed. São Paulo: Edusp, 2004.
______. A Urbanização Brasileira. São Paulo: Hucitec, 1996.
______. Da Totalidade ao Lugar. São Paulo: Edusp, 2005.
______. Les Villes du Tiers Monde. Paris:M. Th Genin-Libraries
Techniques, 1971.
300
______. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana
dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979.
______. Pensando o Espaço do Homem. São Paulo: Hucitec, 1982.
______. Por uma Economia Política da Cidade. São Paulo: Hucitec,
1994.
______. Espaço e Método. São Paulo: Nobel, 1992.
______. Por uma outra globalização: do pensamento único à
consciência universal. 17.ed., Rio de Janeiro: Record, 2008.
______; SILVEIRA, Maria Laura. Brasil: território e sociedade no
início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.
SANTOS, Theotonio dos. A Teoria da Dependência: balanço e
perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
SAUER, Sid. Prefeitura teme aumento de Camelôs. Folha de Londrina,
Londrina, 03 maio 1998. Disponível em:
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>. Acesso em: 18 jul. 2008.
SCHUSTER, Z. SANEPAR Ano 30. Curitiba: Arché, 1994.
SEN, Amartya Kumar. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo:
Companhia das Letras, 2000.
SILVA, William Ribeiro da. Descentralização e redefinição da
Centralidade em e de Londrina. 2002. 190 f. Dissertação (Mestrado em
Geografia Humana) - Faculdade de Ciências e Tecnologia, UNESP,
Presidente Prudente.
______. Para além das cidades, centralidades e estruturação
urbana: Londrina e Maringá. 2006. 265 f. Tese (Doutorado em
Geografia Humana) - Faculdade de Ciências e Tecnologia de Presidente
Prudente, UNESP, Presidente Prudente.
SILVEIRA, Maria Laura. Argentina: do desencantamento da modernidade à
força dos lugares. In: ______. (org.). Continente em chamas:
globalização e território na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2005.
______. Globalização, trabalho, Cidades Médias. Geo UERJ, Rio de
Janeiro, n. 11, p.11-17, 1 sem. 2002.
______. Globalizacion y circuitos de la economia urbana en ciudades
brasileñas. Cuadernos del CENDES. Caracas, ano 21, n. 57, p.1-21,
set./dez. 2004.
301
______. Globalización y Finanzas: circuitos de la economía urbana en la
ciudad. In: Seminário Internacional de la RII, 10.º, 2008, Santiago de
Queretaro, México, Anais.., México: Rede Iberoamericana de
Investigadores sobre Globalização e Território, 2008, p. 1473-1490.
______. São Paulo: Os dinamismos da pobreza. In: CARLOS, Ana Fani;
OLIVEIRA, Ariovaldo U. de. Geografias de São Paulo: representação e
crise da Metrópole. São Paulo: Contexto, 2004.
SINDICATO DOS MOTOCICLISTAS PROFISSIONAIS DO RS. [Notícias].
Disponível em: <http://sindimoto.com.br/portal>. Acesso em: 30 jul.
1999.
SINGER, Paul Israel. Economia solidária. Estudos Avançados, São
Paulo, v. 22, n. 62, p. 288-314, abr. 2008. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-
40142008000100020&lng =en&nrm=iso>. Acesso em: 15 set. 2009.
______. Introdução à economia solidária. São Paulo: Fundação Perseu
Abramo, 2002.
SOJA, Edward. Geografias Pós-modernas: a reafirmação do espaço
na teoria social critica. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.
SOUZA, Adriano Maicon et. al. A evolução histórica do cooperativismo.
Maringá Management: Revista de Ciências Empresariais, v. 4, n. 1,
p.35-42, jan./jun. 2007.
SOUZA, Paulo R. Empregos, salários e pobreza. São Paulo: HUCITEC;
Campinas: Fundação de Desenvolvimento da UNICAMP, 1980.
SPÓSITO, Maria E. Beltrão. As cidades médias e os contextos econômicos
contemporâneos. In: ___________. (org.) Urbanização e cidades:
perspectivas geográficas. Presidente Prudente: UNESP, 2001.
______. Novos conteúdos nas periferias urbanas das cidades médias do
Estado de São Paulo, Brasil. Investigaciones Geográficas, México, n.
54, p. 114-139, ago. 2004.
______. Reestruturação Urbana e Segregação Socioespacial no Interior
Paulista. Scripta Nova - Revista Eletrócnica de Geografia y Ciências
Sociales. Barcelona, v. XI, n. 245 (11), ago. 2007. Disponível em:
<http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-24511.htm>. Acesso em: 15 jun. 2009.
______ et. al. O estudo das Cidades Médias Brasileiras: uma proposta
metodológica. In: ______. (org). Cidades Médias: espaços em
transição. São Paulo: Expressão Popular, 2007.
302
TABELA de Agroindústrias. Instituto de Tecnologia do Paraná. Curitiba:
TECPAR, 2007. Disponível em: <
http://www.tecpar.br/paranaagroindustrial/AtivTecn/TabelaAgroindústrias.
htm>. Acesso em: 02 mar. 2008.
TAVARES, José Humberto. Aglomeração urbana de Londrina:
integração territorial e intensificação de fluxos. 2001. 243 f.
Dissertação (Mestrado em Geografia Humana) - Faculdade de Ciências e
Tecnologia, UNESP, Presidente Prudente.
THEODORO,rio. As bases da política de apoio ao setor informal no
Brasil. IPEA – Textos para Discussão, Brasília, n. 762, p. 1-19, 2000.
Disponível em: <http://www.ipea.gov.br>. Acesso em: 28 maio 2007.
TOKMAN, Vitor. An exploration into the nature of informal-formal sector
relationships. World Development, v. 6, n. 9/10, p. 1065 – 1075,
set./out. 1978.
TOMAZI, Nelson Dácio. Norte do Paraná: história e fantasmagorias.
1997. 338 f. Tese (Doutorado em História) – Departamento de História,
Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 1997.
ULYSSEA, Gabriel. Informalidade no mercado de trabalho brasileiro: uma
resenha da literatura. Revista de Economia Política, São Paulo, v.
26, n. 4, p. 596-618, out./dez. 2006.
YAMAKI, Humberto. Iconografia londrinense. Londrina: Humanidades,
2003.
YAZIGI, Eduardo. O mundo das calçadas. São Paulo: Humanitas, 2000.
ZANATTA, Marcos. Comércio ambulante: emissão de licença é suspensa.
Folha de Londrina, Londrina, 20 jun. 1999, cidades. Disponível em
<http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php>, Acesso em 18 jul. 2008.
ZUCKER, Maria de Lourdes M. A industrialização de Londrina (1980-
1988). 1989. 115 f. Monografia (Bacharelado em Geografia) -
Departamento de Geociências, Universidade Estadual de Londrina,
Londrina.
303
ANEXO - QUESTIONÁRIOS
304
QUESTIONÁRIO 1
PEQUENOS COMERCIANTES PROPRIETÁRIOS
DE ESTABELECIMENTOS DO CAMELÓDROMO CENTRAL
IDENTIFICAÇÃO E RESIDÊNCIA
1) NOME _________________________________________________________________________________
SEXO ( ) HOMEM ( ) MULHER
2) DATA DE NASCIMENTO ________ /_________ / _____________
3) ESTADO CIVIL
( ) CASADO (A) ( ) SOLTEIRO (A) ( ) OUTROS ________________________________________
4) NASCEU EM
( ) LONDRINA
( ) OUTRO MUNCIPIO - QUAL?________________________________________________ UF __________
5) MUNICÍPIO DE RESIDÊNCIA
( ) LONDRINA ( ) OUTRO MUNICÍPIO - QUAL? ______________________________________________
BAIRRO e RUA ___________________________________________________________________________
6) HÁ QUANTO TEMPO RESIDE NESSE MUNICÍPIO?
( ) Menos de 1 ano ( ) 1 a 2 anos ( ) 2 a 3 anos ( ) 3 a 5 anos ( ) 5 a 10 anos ( ) 10 a 15 anos
( ) 15 a 20 anos ( ) mais de 20 anos ( ) Sempre Morou em Londrina ___________________________
7) RESIDE EM
( ) CASA PRÓPRIA ( ) ALUGADA ( ) COM OS PAIS OU PARENTES ( ) OUTROS______________
8) POSSUI
TELEVISÃO MICROCOMPUTADOR
( ) SIM ( ) NÃO ( ) SIM ( ) NÃO
REFRIGERADOR ACESSO A INTERNET
( ) SIM ( ) NÃO ( ) SIM ( ) NÃO ( ) BANDA LARGA
DVD AUTOMÓVEL
( ) SIM ( ) NÃO ( )SIM ( )NÃO ANO ______ TIPO_______
TELEFONE FIXO MOTOCICLETA
( ) SIM ( ) NÃO ( )SIM ( )NÃO ANO ____ TIPO ________
TELELEFONE CELULAR
( ) SIM ( ) NÃO
9) ESCOLARIDADE
( ) FUNDAMENTAL ATÉ 4ª SÉRIE ( ) FUNDAMENTAL ATÉ 8ª SÉRIE
( ) MÉDIO INCOMPLETO ( ) MÉDIO COMPLETO
( ) SUPERIOR INCOMPLETO EM___________________ ( ) SUPERIOR COMPLETO
EM________________ EM ESCOLA ( ) PUBLICA ( ) PARTICULAR
10) ESTÁ ESTUDANDO ATUALMENTE?
( )SIM ( )NÃO
( )FUNDAMENTAL ( )MÉDIO ( )SUPERIOR ( ) OUTROS ___________________________________
11) COMO SE DESLOCA PARA O TRABALHO?
( )ONIBUS ( )AUTOMÓVEL PARTICULAR ( ) A PÉ ( )BICICLETA ( )MOTO
305
CARACTERÍSTICAS DOS TRABALHADORES
12) VOCE É PROPRIETÁRIO DO NEGÓCIO?
( ) SIM ( ) NÃO
13) VOCE TEM REGISTRO COMO AUTÔNOMO
( ) SIM ( )NÃO
14) VOCE RECOLHE REGULARMENTE AS TAXAS DO INSS PARA APOSENTADORIA
( ) SIM ( ) NÃO
15) HÁ OUTROS SÓCIOS?
( ) SIM ( ) NÃO SE SIM QUANTOS ______________________________________________________
16) ALÉM DE VOCÊ, QUANTAS PESSOAS TRABALHAM NESTE ESTABELECIMENTO?
( ) 1 ( ) 2 ( ) 3 ( ) 4 ( ) 5 ( ) 6 ( ) 7 ( ) 8 ( ) 9 ( ) 10 ( ) Mais de 10
17) ELAS TEM REGISTRO NA CARTEIRA DE TRABALHO?
( ) SIM ( ) NÃO
18) HÁ QUANTO TEMPO TRABALHA NESTE ESTABELECIMENTO?
__________________________________________________________________________________________
19) HÁ QUANTO TEMPO TABALHA NESSA ATIVIDADE?
__________________________________________________________________________________________
20) QUAL SEU HORÁRIO DE TRABALHO? INDICAR HORÁRIO DE ALMOÇO E INTERVALOS
__________________________________________________________________________________________
21) QUANTOS DIAS POR SEMANA?
__________________________________________________________________________________________
22) QUAIS OS HORÁRIOS DE TRABALHO DAS OUTRAS PESSOAS? INDICAR HORÁRIO DE
ALMOÇO
__________________________________________________________________________________________
23) QUANTOS DIAS POR SEMANA?
__________________________________________________________________________________________
24) VOCE TEM OUTRA ATIVIDADE?
( ) SIM ( ) NÃO SE SIM QUAL
__________________________________________________________________________________________
25) EM QUE OUTRAS ATIVIDADES VOCE JÁ TRABALHOU?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
26) VOCE JÁ TRABALHOU COM CARTEIRA ASSINADA?
( ) SIM ( ) NÃO SE SIM EM QUAL ATIVIDADE E POR QUÊ SAIU?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
27) COMO VOCE COMEÇOU O SEU NEGÓCIO AQUI NO CAMELÓDROMO?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
28) QUAL É APROXIMADAMENTE (OU EM MÉDIA) SUA RENDA MENSAL
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
306
CARACTERÍSTICAS DO ESTABELECIMENTO
29) QUAL O TAMANHO DO ESTABELECIMENTO? (EM M
2
OU OUTRA INDICAÇÃO)
__________________________________________________________________________________________
30) VOCE PAGA ALUGUEL DO ESTABELECIMENTO
( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM QUAL O VALOR ____________________________________________________________________
31) VOCE PAGA CONDOMINIO?
( ) SIM ( )NÃO
SE SIM QUAL O VALOR ____________________________________________________________________
32) O ESTABELECIMENTO DISPÕE DE:
TELEFONE FIXO ( ) SIM ( ) NÃO
MÁQUINAS DE CARTÃO DE DÉBITO ( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM QUAIS BANDEIRAS _________________________________________________________________
MÁQUINAS DE CARTÃO DE CRÉDITO ( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM QUAIS BANDEIRAS _________________________________________________________________
COMPUTADOR ( ) SIM ( ) NÃO
ACESSO A INTENET ( ) SIM ( ) NÃO
33) A LOCALIZAÇÃO DO ESTABELECIMENTO É SATISFATÓRIA?
( ) SIM ( ) NÃO
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
34) O ESTABELECIMENTO UTILIZA SERVIÇOS DE OUTRAS EMPRESAS? POR EXEMPLO –
ENTREGAS DE MOTO, TRANSPORTADORAS, CONTADORES, DESPACHANTES, ETC.?
( ) SIM ( ) NÃO SE SIM QUAIS?
__________________________________________________________________________________________
35) QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS CONCORRENTES DESTE ESTABELECIMENTO?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
36) O ESTABELECIMENTO FAZ ALGUM TIPO DE DIVULGAÇÃO, PROPAGANDA OU
ANUNCIO?
( ) SIM ( ) NÃO SE SIM QUAIS
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
307
CARACTERÍSTICAS DA ATIVIDADE
37) VOCE ADQUIRE AS MERCADORIAS QUE VENDE NO ESTABELECIMENTO EM LONDRINA?
( ) SIM ( ) NÃO
SE NÃO, INDICAR O LOCAL DE PROCEDENCIA ______________________________________________
38) VOCE COMPRA AS MERCADORIAS DA LOJA EM ATACADISTAS?
( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM, DE QUAIS ATACADISTAS E EM QUE MUNICIPIO SE LOCALIZAM?
__________________________________________________________________________________________
39) VOCE UTILIZA TELEFONE PARA VENDER AS MERCADORIAS, RECEBER PEDIDOS?
( ) SIM, FIXO NO ESTABELECIMENTO ( ) SIM, FIXO RESIDENCIAL ( ) SIM, CELULAR
( ) NÃO
40) VOCE COSTUMA PAGAR AS COMPRAS DE MERCADORIAS PARA O ESTABELECIMENTO
( ) A VISTA ( ) A PRAZO ( ) CONSIGNADAS ( ) OUTROS ________________________________
41) VOCE UTILIZA COMO MEIO DE PAGAMENTO DAS COMPRAS DE MERCADORIAS PARA
LOJA
( ) CHEQUE A VISTA
( ) CHEQUE PRE-DATADO
( ) DINHEIRO
( ) CARTÕES DE CREDITO (VENCIMENTO)
( ) CARTÕES DE DÉBITO
( ) NOTAS PROMISSÓRIAS
( ) OUTROS ______________________________________________________________________________
42) VOCE RECEBE PAGAMENTOS NA FORMA DE
( ) CHEQUE
( ) DINHEIRO
( ) CARTÕES DE DÉBITO
( ) CARTÕES DE CRÉDITO (VENCIMENTO)
( ) FIADO
( ) TICKETS DE ALIMENTAÇÃO
( ) OUTROS ______________________________________________________________________________
43) QUAL A FORMA DE PAGAMENTO MAIS FREQUENTEMENTE USADA PELOS
COMPRADORES?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
44) QUAL É, EM MÉDIA, O FATURAMENTO BRUTO DA LOJA NO MÊS?
__________________________________________________________________________________________
45) OS COMPRADORES QUE VÊM AO ESTABELECIMENTO SÃO NA MAIORIA?
( ) HOMENS ( ) MULHERES
( ) JOVENS ( ) ADULTOS ( ) IDOSOS
( ) BAIXA RENDA ( ) MÉDIA RENDA ( )ALTA RENDA
46) A MAIORIA DOS COMPRADORES QUE COMPRAM AQUI NA LOJA MORAM EM:
( ) LONDRINA ( ) OUTROS MUNICÍPIOS – QUAIS _________________________________________
47) SEU ESTABELECIMENTO É PROCURADO POR CLIENTES DE OUTROS MUNICIPIOS?
( ) SIM ( ) NÃO - SE SIM QUAIS __________________________________________________________
308
48) COMO ESCOLHE E COMO DECIDE VENDER NOVOS PRODUTOS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
49) VOCE FAZ ALGUM TIPO DE ANOTAÇÃO (REGISTRO) DAS VENDAS (MOVIMENTO),
COMPRAS E OUTRAS DESPESAS DO ESTABELECIMENTO?
( ) SIM ( ) NÃO SE SIM, COMO?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
50) O ESTABELECIMENTO UTILIZA SERVIÇOS BANCÁRIOS?
( ) SIM ( ) NÃO SE SIM, QUAIS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
51) QUANDO COMEÇOU COM A SUA LOJA AQUI NO CAMELÓDROMO, UTILIZOU ALGUM
TIPO DE CRÉDITO PARA O NEGÓCIO COM BANCOS, FINANCEIRAS, AMIGOS, VIZINHOS,
PARENTES ETC..
( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM COM QUEM?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
52) ATUALMENTE VOCE UTILIZA ALGUM TIPO DE CRÉDITO COM BANCOS, FINANCEIRAS,
AMIGOS, VIZINHOS OU PARENTES, PARA O SEU NEGÓCIO AQUI NO CAMELÓDROMO?
( ) SIM ( ) NÃO SE SIM, COM QUEM?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
OUTRAS OBSERVAÇÕES
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
309
QUESTIONÁRIO 2
FUNCIONÁRIOS DOS ESTABELECIMENTOS
DO CAMELÓDROMO CENTRAL
IDENTIFICAÇÃO E RESIDÊNCIA
1) NOME _________________________________________________________________________________
SEXO ( ) HOMEM ( ) MULHER
2) DATA DE NASCIMENTO ________ /_________ / _____________
3) ESTADO CIVIL
( ) CASADO (A) ( ) SOLTEIRO (A) ( ) OUTROS ________________________________________
4) NASCEU EM
( ) LONDRINA
( ) OUTRO MUNCIPIO - QUAL?________________________________________________ UF __________
5) MUNICÍPIO DE RESIDÊNCIA
( ) LONDRINA ( ) OUTRO MUNICÍPIO - QUAL? ______________________________________________
BAIRRO e RUA ___________________________________________________________________________
6) HÁ QUANTO TEMPO RESIDE NESSE MUNICÍPIO?
( ) Menos de 1 ano ( ) 1 a 2 anos ( ) 2 a 3 anos ( ) 3 a 5 anos ( ) 5 a 10 anos ( ) 10 a 15 anos ( )
15 a 20 anos ( ) mais de 20 anos
7) RESIDE EM
( ) CASA PRÓPRIA ( ) ALUGADA ( ) COM OS PAIS OU PARENTES ( ) OUTROS______________
8) POSSUI
TELEVISÃO MICROCOMPUTADOR
( ) SIM ( ) NÃO ( ) SIM ( ) NÃO
REFRIGERADOR ACESSO A INTERNET
( ) SIM ( ) NÃO ( ) SIM ( ) NÃO ( ) BANDA LARGA
DVD AUTOMÓVEL
( ) SIM ( ) NÃO ( )SIM ( )NÃO ANO ______ TIPO __________________
TELEFONE FIXO MOTOCICLETA
( ) SIM ( ) NÃO ( )SIM ( )NÃO ANO ____ TIPO ___________________
TELELEFONE CELULAR
( ) SIM ( ) NÃO
9) ESCOLARIDADE
( ) FUNDAMENTAL ATÉ 4ª SÉRIE ( ) FUNDAMENTAL ATÉ 8ª SÉRIE
( ) MÉDIO INCOMPLETO ( ) MÉDIO COMPLETO
( ) SUPERIOR INCOMPLETO EM___________________ ( ) SUPERIOR COMPLETO
EM________________ EM ESCOLA ( ) PUBLICA ( ) PARTICULAR
10) ESTÁ ESTUDANDO ATUALMENTE?
( )SIM ( )NÃO
( )FUNDAMENTAL ( )MÉDIO ( )SUPERIOR ( ) OUTROS ___________________________________
11) COMO SE DESLOCA PARA O TRABALHO?
( )ONIBUS ( )AUTOMÓVEL PARTICULAR ( ) A PÉ ( )BICICLETA ( )MOTO
310
CARACTERÍSTICAS DOS TRABALHADORES
12) HÁ QUANTO TEMPO TRABALHA AQUI NO CAMELÓDROMO?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
13) HÁ QUANTO TEMPO TABALHA NESSA ATIVIDADE? (VENDAS)
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
14) VOCE É REGISTRADO (A) NA CARTEIRA DE TRABALHO?
( ) SIM ( ) NÃO
15) VOCE TEM REGISTRO COMO AUTONOMO
( ) SIM ( )NÃO
SE SIM, VOCE RECOLHE REGULARMENTE AS TAXAS DO INSS PARA APOSENTADORIA
( ) SIM ( )NÃO
16) VOCE TEM UM SALÁRIO FIXO?
( ) SIM ( )NÃO
VERIFICAR SE GANHA POR COMISSÃO
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
17) QUANTAS PESSOAS TRABALHAM NESTE ESTABELECIMENTO?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
18 QUAL SEU HORÁRIO DE TRABALHO? INDICAR HORÁRIO DE ALMOÇO E INTERVALOS
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
19) QUANTOS DIAS POR SEMANA?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
20) VOCE TEM OUTRA ATIVIDADE?
( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM QUAL ? ____________________________________________________________________________
21) QUAL É APROXIMADAMENTE (OU EM MÉDIA) SUA RENDA MENSAL
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
311
CARACTERÍSTICAS DO ESTABELECIMENTO
22) QUAL O TAMANHO DO ESTABELECIMENTO? (EM M
2
OU OUTRA INDICAÇÃO)
__________________________________________________________________________________________
23) O PROPRIETÁRIO PAGA ALUGUEL DO ESTABELECIMENTO?
( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM QUAL O VALOR ____________________________________________________________________
24) O ESTABELECIMENTO DISPÕE DE:
TELEFONE FIXO ( ) SIM ( ) NÃO
MÁQUINAS DE CARTÃO DE DÉBITO ( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM QUAIS BANDEIRAS _________________________________________________________________
MÁQUINAS DE CARTÃO DE CRÉDITO ( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM QUAIS BANDEIRAS _________________________________________________________________
COMPUTADOR ( ) SIM ( ) NÃO
ACESSO A INTERNET ( ) SIM ( ) NÃO
25) O ESTABELECIMENTO É REGISTRADO COMO MICROEMPRESA?
( ) SIM ( ) NÃO ( ) OUTROS ____________________________________________________________
26) A LOCALIZAÇÃO DO ESTABELECIMENTO É SATISFATÓRIA?
( ) SIM ( ) NÃO
__________________________________________________________________________________________
27) O ESTABELECIMENTO UTILIZA SERVIÇOS DE OUTRAS EMPRESAS? POR EXEMPLO –
ENTREGAS DE MOTO, TRANSPORTADORAS, CONTADORES, DESPACHANTES, ETC..
( ) SIM ( ) NÃO SE SIM QUAIS?
__________________________________________________________________________________________
28) O ESTABELECIMENTO FAZ ALGUM TIPO DE DIVULGAÇÃO, PROPAGANDA OU
ANUNCIO?
( ) SIM ( ) NÃO SE SIM QUAIS
__________________________________________________________________________________________
312
CARACTERISTICAS DA ATIVIDADE
29) AS MERCADORIAS QUE SÃO VENDIDAS NO ESTABELECIMENTO VÊM DE LONDRINA?
( ) SIM ( ) NÃO
SE NÃO INDICAR O LOCAL DE PROCEDENCIA _______________________________________________
30) VOCE AJUDA A FAZER AS COMPRAS PARA O ESTABELECIMENTO?
( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM PERGUNTAR
30.1) AS COMPRAS DE MERCADORIAS SÃO FEITAS EM ATACADISTAS?
( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM DE QUAIS ATACADISTAS E EM QUE MUNICIPIOS SE LOCALIZAM?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
30.2) AS COMPRAS DE MERCADORIAS SÃO FEITAS DIRETAMENTE COM ALGUM
FABRICANTE?
( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM, QUAIS E ONDE SE LOCALIZAM?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
30.3) AS COMPRAS DE MERCADORIAS PARA O ESTABELECIMENTO SÃO PAGAS
( ) A VISTA ( ) A PRAZO ( ) CONSIGNADAS ( ) OUTROS
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
30.4) AS COMPRAS DE MERCADORIAS SÃO PAGAS POR MEIO DE
( ) CHEQUE PRE-DATADO
( ) DINHEIRO
( ) CARTÕES DE CREDITO (VENCIMENTO)
( ) CARTÕES DE DÉBITO
( ) NOTAS PROMISSÓRIAS
( ) OUTROS
31) CHEGAM MERCADORIAS NOVAS NO ESTABELECIMENTO:
( ) A CADA SEMANA ( ) A CADA 15 DIAS ( ) MENSALMENTE
32) O ESTABELECIMENTO VENDE MERCADORIAS UTILIZANDO O TELEFONE, POR
EXEMPLO, PARA RECEBER PEDIDOS?
( ) SIM FIXO ( ) SIM CELULAR ( ) NÃO
33) AQUI NO ESTABELECIMENTO OS CLIENTES UTILIZAM NOS SEUS PAGAMENTOS:
( ) CHEQUE
( ) DINHEIRO
( ) CARTÕES DE DÉBITO
( ) CARTÕES DE CRÉDITO (VENCIMENTO)
( ) FIADO
( ) TICKETS DE ALIMENTAÇÃO
( ) OUTROS
34) QUAL A FORMA DE PAGAMENTO MAIS FREQUENTEMENTE USADA PELOS
COMPRADORES?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
313
35) QUAL É APROXIMADAMENTE O FATURAMENTO BRUTO MENSAL DO
ESTABELECIMENTO?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
36) OS COMPRADORES QUE VEM AO ESTABELECIMENTO NA SUA MAIORIA VÊM DE AS
PESSOAS QUE COMPRAM NO ESTABELECIMENTO VÊM DE:
( ) LONDRINA ( ) OUTRO MUNICÍPIO – QUAL
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
37) O ESTABELECIMENTO É PROCURADO POR CLIENTES DE OUTROS MUNICIPIOS?
( ) SIM ( ) NÃO - SE SIM
QUAIS?___________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
38) COMO SÃO ANOTADAS (REGISTRADAS) AS VENDAS QUE VOCE FAZ NO DIA?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
39) O ESTABELECIMENTO UTILIZA SERVIÇOS BANCÁRIOS?
( ) SIM ( ) NÃO SE SIM , QUAIS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
40) ATUALMENTE A LOJA UTILIZA ALGUM TIPO DE CRÉDITO COM BANCOS,
FINANCEIRAS, AMIGOS, VIZINHOS OU PARENTES, PARA O SEU NEGÓCIO AQUI NO
CAMELÓDROMO?
( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM, COM QUEM?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
OUTRAS OBSERVAÇÕES
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
314
QUESTIONÁRIO 3
CENTRAIS DE CHAMADAS DO SERVIÇO DE MOTO TÁXI
IDENTIFICAÇÃO DA EMPRESA E DO INFORMANTE
1) NOME DA EMPRESA
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
2) LOCALIZAÇÃO DA CENTRAL
RUA E BAIRRO
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
3) A CENTRAL POSSUI FILAIS, POSTOS DE ATENDIMENTO OU ALGUM TIPO INSTALAÇÃO
EM OUTRA LOCALIZAÇÃO?
( ) SIM ( ) NÃO SE SIM, QUANTAS E ONDE? (RUA BAIRRO)
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
4) HÁ OUTRAS CENTRAIS QUE PERTENCEM AO MESMO PROPRIETÁRIO?
( ) SIM ( ) NÃO QUANTAS? ________________ QUAIS? ______________________________
__________________________________________________________________________________________
LOCALIZAÇÃO DAS OUTRAS CENTRAIS (RUA E BAIRRO)
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
5) NOME DO RESPONSÁVEL PELAS INFORMAÇÕES
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
SEXO DO RESPONSÁVEL ( ) HOMEM ( )MULHER
6) DATA DE NASCIMENTO __________ / ____________ / ____________
7) É PROPRIETÁRIO DA EMPRESA OU SÓCIO?
( ) SIM ( ) NÃO
SE NÃO INDICAR A POSIÇÃO NA EMPRESA
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
315
CARACTERÍSTICAS DA EMPRESA
8) HÁ QUANTO TEMPO ESSA CENTRAL EXISTE?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
9) COMO ESSA CENTRAL FOI CRIADA?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
10) A CENTRAL ESTÁ REGISTRADA COMO?
( ) MICRO ( ) PEQUENA ( ) MÉDIA ( ) GRANDE
11) QUANTOS FUNCIONÁRIOS A CENTRAL TEM?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
11) DESSE TOTAL DE FUNCIONÁRIOS, QUANTOS TRABALHAM NA ADMINISTRAÇÃO E
PARTE BUROCRÁTICA?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
12) DESSE TOTAL DE FUNCIONÁRIOS QUANTOS SÃO MOTOTAXISTAS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
14) COMO É O VÍNCULO DE TRABALHO ENTRE A CENTRAL E OS MOTOTAXISTAS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
15) QUAL É APROXIMADAMENTE O FATURAMENTO LIQUIDO MENSAL DA CENTRAL?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
16) QUAIS SÃO AS MAIORES DESPESAS DA CENTRAL?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
17) A CENTRAL UTILIZA OS SERVIÇOS DE OUTRAS EMPRESAS OU PROFISSIONAIS? (EX:
ESCRITÓRIO DE CONTABILIDADE, SEGURADORAS, OFICINAS DE CONCERTOS, GRÁFICA
QUE IMPRIME CARTÕES, WEB DESIGNER PARA SITE INTERNET, ETC.)
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
18) COMO A CENTRAL DIVULGA OS SEUS SERVIÇOS? (CARTÕES, LISTA TELEFONICA,
JORNAL DE BAIRRO, INTERNET, ETC.)
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
19) A CENTRAL DISPÕEM E UTILIZA EM SUA ATIVIDADE DE:
( ) TELEFONE FIXO SIMPLES
( ) CENTRAL TELEFONICA
( ) FAX
( ) SERVIÇO DE TELEFONES CELULARES DE TIPO EMPRESARIAL
( ) INTERNET - SE SIM ( ) DISCADA ( ) BANDA LARGA ( ) OUTROS
( ) EQUIPAMENTO DE RÁDIO
( ) OUTROS
316
CARCTERIZAÇÃO DO SERVIÇO
20) QUE TIPO DE EMPRESA CONTRATA OS SERVIÇOS DESTA CENTRAL?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
21) EM QUE MUNICÍPIOS SE LOCALIZAM AS EMPRESAS ATENDIDAS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
22) QUE TIPO DE EMPRESA É CLIENTE MAIS VANTAJOSO PARA A CENTRAL E POR QUÊ
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
24) QUAIS OS TIPOS DE VIAGENS MAIS VANTAJOSAS PARA O MOTOTAXISTA E POR QUÊ?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
25) QUAL BAIRRO OU LOCAL DA CIDADE:
DE ONDE A CENTRAL RECEBE UM MAIOR NÚMERO DE CHAMADOS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
PARA ONDE REALIZA MAIOR NÚMERO DE VIAGENS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
26) A CENTRAL RECEBE CHAMADOS PARA FAZER VIAGENS DE LONDRINA PARA
OUTROS MUNICÍPIOS?
( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM, INDIQUE QUAIS MUNICÍPIOS E QUE TIPO VIAGENS, SE É PARA PASSAGEIROS,
ENTREGAS, OU OUTROS SERVIÇOS, O TIPO DE TAXA QUE É COBRADA E A FREQUENCIA
(DIÁRIA, SEMANAL OU MENSAL)
__________________________________________________________________________________________
27) A CENTRAL RECEBE CHAMADOS PARA FAZER VIAGENS DE OUTROS MUNICÍPIOS PARA
LONDRINA?
( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM, INDIQUE QUAIS MUNICÍPIOS E QUE TIPO VIAGENS, SE É PARA PASSAGEIROS,
ENTREGAS, OU OUTROS SERVIÇOS, O TIPO DE TAXA QUE É COBRADA E A FREQUENCIA
(DIÁRIA, SEMANAL MENSAL)
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
28) A CENTRAL ORGANIZA OS TRAJETOS DOS ENTREGADORES?
( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM INDICAR COMO
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
29) QUAIS SÃO SEUS PRINCIPAIS CONCORRENTES?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
30) QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS DIFICULDADES QUE A CENTRAL ENFRENTA?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
317
31) QUAIS SÃO OS PONTOS POSITIVOS E MAIS PROMISSORES DO MERCADO PARA ESSA
ATIVIDADE?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
32) A CENTRAL É FISCALIZADA? POR QUEM?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
33) QUE TIPO DE IMPOSTOS E TAXAS A CENTRAL RECOLHE?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
34) A CENTRAL UTILIZA SERVIÇOS BANCÁRIOS?
( ) SIM ( ) NÃO
QUAIS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
OUTRAS OBSERVAÇÕES
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
318
QUESTIONÁRIO 4
MOTOTAXISTAS
IDENTIFICAÇÃO E RESIDÊNCIA
1) NOME _________________________________________________________________________________
SEXO ( ) HOMEM ( )MULHER
2) DATA DE NASCIMENTO ________ /_________ / _____________
3) ESTADO CIVIL
( ) CASADO (A) ( ) SOLTEIRO (A) ( ) OUTROS ________________________________________
4) NASCEU EM
( ) LONDRINA
( ) OUTRO MUNCIPIO - QUAL?_______________________________________________ UF __________
5) MUNICIPIO DE RESIDENCIA
( ) LONDRINA ( ) OUTRO MUNICÍPIO - QUAL? ______________________________________________
BAIRRO e RUA ___________________________________________________________________________
6) HÁ QUANTO TEMPO RESIDE NESSE MUNICÍPIO?
( ) Menos de 1 ano ( ) 1 a 2 anos ( ) 2 a 3 anos ( ) 3 a 5 anos ( ) 5 a 10 anos ( ) 10 a 15 anos
( ) 15 a 20 anos ( ) mais de 20 anos
7) RESIDE EM
( ) CASA PRÓPRIA ( ) ALUGADA ( )COM OS PAIS OU PARENTES OUTROS___________________
8) POSSUI
TELEVISÃO MICROCOMPUTADOR
( ) SIM ( ) NÃO ( ) SIM ( ) NÃO
REFRIGERADOR ACESSO A INTERNET
( ) SIM ( ) NÃO ( ) SIM ( ) NÃO ( ) BANDA LARGA
DVD AUTOMÓVEL
( ) SIM ( ) NÃO ( )SIM ( )NÃO ANO ________ TIPO ______________
TELEFONE FIXO MOTOCICLETA
( ) SIM ( ) NÃO ( )SIM ( )NÃO ANO ____ TIPO __________________
TELELEFONE CELULAR
( ) SIM ( ) NÃO
9) ESCOLARIDADE
( ) FUNDAMENTAL ATÉ 4ª SÉRIE ( ) FUNDAMENTAL ATÉ 8ª SÉRIE
( ) MÉDIO INCOMPLETO ( ) MÉDIO COMPLETO
( ) SUPERIOR INCOMPLETO EM___________________ ( ) SUPERIOR COMPLETO
EM________________ EM ESCOLA ( ) PUBLICA ( ) PARTICULAR
10) ESTÁ ESTUDANDO ATUALMENTE?
( )SIM ( )NÃO
( )FUNDAMENTAL ( )MÉDIO ( )SUPERIOR ( ) OUTROS ______________________________
319
ATUAÇÃO PROFISSIONAL
11) QUAL É A SUA ATIVIDADE ATUAL?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
12) HÁ QUANTO TEMPO TABALHA NESSA ATIVIDADE?
__________________________________________________________________________________________
13) VOCE TEM OUTRA ATIVIDADE?
( )SIM ( ) NÃO QUAL? ______________________________________________________________
14) QUAL A SUA RENDA MENSAL ATUAL? (APROXIMADAMENTE)
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
15) EM QUE OUTRAS ATIVIDADES VOCE JÁ TRABALHOU?
__________________________________________________________________________________________
16) JÁ TRABALHOU COM CARTEIRA DE TRABALHO REGISTRADA ANTES DA ATIVIDADE
ATUAL?
( )SIM ( ) NÃO
17) VOCE TRABALHA PARA UMA ÚNICA CENTRAL DE CHAMADAS?
( )SIM ( ) NÃO SE NÃO PARA QUANTAS ___________________________________________
18) ONDE SE LOCALIZA(M) ESSA(S) EMPRESA(S)?
RUA e BAIRRO
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
19) COMO É O CONTRATO COM A CENTRAL DE CHAMADAS?
__________________________________________________________________________________________
20) ONDE VOCE ESPERA PELAS SUAS CHAMADAS? POR QUÊ?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
21) COMO É ORGANIZADA A COBRANÇA DAS CHAMADAS? EXISTE ALGUM TIPO DE
APARELHO E TABELA COMO NOS TAXIS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
22) QUANTAS VIAGENS VOCE REALIZA, EM MÉDIA, POR DIA?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
23) FALE SOBRE A DURAÇÃO DAS VIAGENS E OS PRINCIPAIS DESTINOS DESSAS VIAGENS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
24) QUAIS OS TIPOS DE VIAGENS MAIS VANTAJOSAS PARA O MOTO TAXISTA E POR QUÊ?
_________________________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________________________
25) POR QUAIS CORREDORES DE TRAFEGO, AVENIDAS E RUAS VOCE CIRCULA COM MAIS
FREQUENCIA E POR QUE?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
320
26) HÁ ALGUM BAIRRO OU LOCAL DA CIDADE DO QUAL VOCE RECEBE UM MAIOR
NUMERO DE CHAMADOS E REALIZA UM MAIOR NUMERO DE VIAGENS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
27) VOCE RECEBE CHAMADOS PARA FAZER VIAGENS DE LONDRINA PARA OUTROS
MUNICIPIOS?
( ) SIM ( ) NÃO
SE SIM, INDIQUE QUAIS MUNICIPIOS E QUE TIPO VIAGENS, SE É PARA PASSAGEIROS,
ENTREGAS, OU OUTROS SERVIÇOS, O TIPO DE TAXA QUE É COBRADA E A FREQUENCIA DAS
VIAGENS (DIÁRIA, SEMANAL OU MENSAL)
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
28) QUAL SEU HORÁRIO DE TRABALHO? (INDICAR HORÁRIO DE ALMOÇO E INTERVALOS)
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
29) QUANTOS DIAS POR SEMANA?
__________________________________________________________________________________________
30) ATUALMENTE SUA ATIVIDADE ESTÁ REGISTRADA NA CARTEIRA DE TRABALHO?
( ) SIM ( ) NÃO
31) VOCE TEM REGISTRO COMO AUTONOMO?
( ) SIM ( )NÃO
SE NÃO INDICAR SE POSSUI ALGUM OUTRO TIPO DE REGISTRO EM ÓRGÃO PÚBLICO
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
32) VOCE RECOLHE REGULARMENTE AS TAXAS DO INSS?
( )SIM ( )NÃO
33) POSSUI SEGURO DA MOTO, ALÉM DO SEGURO OBRIGATÓRIO E DO SEGURO DA CMTU?
( )SIM ( ) NÃO
__________________________________________________________________________________________
34) POSSUI SEGURO DE ACIDENTES PESSOAIS?
( )SIM ( ) NÃO
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
35) EM CASO DE DOENÇA OU ACIDENTE COMO FICAM OS SEUS RENDIMENTOS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
321
CARACTERÍSTICAS DA ATIVIDADE
36) VOCE É O PROPRIETÁRIO DA MOTO?
( ) SIM ( ) NÃO (SE NÃO ESPECIFICAR)
__________________________________________________________________________________________
SE SIM – COMO A ADQUIRIU PRIMEIRA MOTO E COMO ADQUIRIU A MOTO ATUAL?
__________________________________________________________________________________________
37) A MOTO É FINANCIADA?
( ) SIM ( ) NÃO VALOR DA
PRESTAÇÃO_______________________________________________________________________________
38) QUAIS SÃO SUAS DESPESAS PARA EXERCER ESSA ATIVIDADE?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
39) EXISTEM NA CIDADE OFICINAS OU OUTROS SERVIÇOS QUE DÃO PREFERENCIA PARA
ATENDER OS MOTO TAXISTAS E MOTO ENTREGADORES?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
40) QUE TIPO DE PESSOA UTILIZA COM MAIS FREQUENCIA O SERVIÇO DO MOTO
TAXISTA?
( ) HOMENS ( ) MULHERES
( ) JOVENS ( ) ADULTOS ( ) IDOSOS
( ) BAIXA RENDA ( ) MÉDIA RENDA ( ) ALTA RENDA
41) EM QUE HORÁRIOS VOCE RECEBE UM MAIOR NUMERO DE CHAMADAS?
__________________________________________________________________________________________
42) QUE TIPO DE NECESSIDADES FAZEM COM QUE OS USUÁRIOS CHAMEM O MOTO
TAXISTA?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
COM QUE FREQUENCIA? _________________________________________________________________
43) QUAIS FERRAMENTAS VOCE UTILIZA DIARIAMENTE PARA SUA ATIVIDADE?
( ) TEEFONE CELULAR
( ) TELEFONE FIXO
( ) INTERNET
( ) OUTROS ______________________________________________________________________________
44) VOCE UTILIZA SERVIÇOS BANCÁRIOS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
45) VOCE UTILIZA OU UTILIZOU ALGUM TIPO DE CRÉDITO PARA O NEGÓCIO COM
BANCOS, FINANCEIRAS, AMIGOS, VIZINHOS, PARENTES ETC.?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
46) VOCE JÁ CONSEGUIU ALGUM TIPO DE FINANCIAMENTO EM BANCOS, AGENCIAS DE
FINANCIAMENTO OU FINANCEIRAS?
_____________________________________________________________________________________
322
QUESTIONÁRIO 5
PARA MOTOBOYS
IDENTIFICAÇÃO E RESIDÊNCIA
1) NOME _________________________________________________________________________________
SEXO ( ) HOMEM ( )MULHER
2) DATA DE NASCIMENTO ________ /_________ / _____________
3) ESTADO CIVIL
( ) CASADO (A) ( ) SOLTEIRO (A) ( ) OUTROS ________________________________________
4) NASCEU EM
( ) LONDRINA
( ) OUTRO MUNCIPIO - QUAL?_______________________________________ UF ___________________
5) MUNICÍPIO DE RESIDENCIA
( ) LONDRINA ( ) OUTRO MUNICÍPIO - QUAL? ______________________________________________
BAIRRO e RUA ___________________________________________________________________________
6) HÁ QUANTO TEMPO RESIDE NESSE MUNICÍPIO?
( ) Menos de 1 ano ( ) 1 a 2 anos ( ) 2 a 3 anos ( ) 3 a 5 anos ( ) 5 a 10 anos ( ) 10 a 15 anos
( ) 15 a 20 anos ( ) mais de 20 anos
7) RESIDE EM
( )CASA PRÓPRIA ( )ALUGADA ( )COM OS PAIS OU PARENTES ( ) OUTROS_________________
8) POSSUI
TELEVISÃO MICROCOMPUTADOR
( ) SIM ( ) NÃO ( ) SIM ( ) NÃO
REFRIGERADOR ACESSO A INTERNET
( ) SIM ( ) NÃO ( ) SIM ( ) NÃO ( ) BANDA LARGA
DVD AUTOMÓVEL
( ) SIM ( ) NÃO ( )SIM ( )NÃO ANO ________ TIPO _______________
TELEFONE FIXO MOTOCICLETA
( ) SIM ( ) NÃO ( )SIM ( )NÃO ANO ________ TIPO _______________
TELELEFONE CELULAR
( ) SIM ( ) NÃO
9) ESCOLARIDADE
( ) FUNDAMENTAL ATÉ 4ª SÉRIE ( ) FUNDAMENTAL ATÉ 8ª SÉRIE
( ) MÉDIO INCOMPLETO ( ) MÉDIO COMPLETO
( ) SUPERIOR INCOMPLETO EM___________________ ( ) SUPERIOR COMPLETO
EM________________ EM ESCOLA ( ) PUBLICA ( ) PARTICULAR
10) ESTÁ ESTUDANDO ATUALMENTE?
( ) SIM ( ) NÃO
( ) FUNDAMENTAL ( ) MÉDIO ( ) SUPERIOR ( ) OUTROS ________________________________
323
ATUAÇÃO PROFISSIONAL
11) HÁ QUANTO TEMPO TABALHA COMO MOTO BOY?
__________________________________________________________________________________________
12) VOCE TEM OUTRA ATIVIDADE (ALÉM DE SER MOTO BOY)?
( ) SIM ( ) NÃO
QUAL? ___________________________________________________________________________________
13) EM QUANTAS EMPRESAS (LUGARES VOCE TRABALHA?)
__________________________________________________________________________________________
14) EM QUE OUTRAS ATIVIDADES VOCE JÁ TRABALHOU?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
15) ALGUMAS DAS EMPRESAS EM QUE TRABALHA VOCE TEM A CARTEIRA DE TRABALHO
ASSINADA (REGISTRADA)?
( )SIM ( ) NÃO
15 A) SE NÃO COMO É O CONTRATO COM A(S) EMPRESA(S) COM AS QUAIS VOCE TEM
VÍNCULO DIRETO DE TRABALHO?
__________________________________________________________________________________________
16) COM QUE TIPO(S) DE EMPRESAS VOCE MANTEM VINCULO DIRETO DE TRABALHO?
( ) EMPRESA ESPECIALIZADA EM SERVIÇOS DE MOTO ENTREGADORES
( ) PIZZARIA
( ) RESTAURANTE
( ) FARMÁCIA
( ) OUTROS
17) NOME DA EMPRESA E LOCALIZAÇÃO
__________________________________________________________________________________________
18) QUAL SEU HORÁRIO DE TRABALHO? (INDICAR HORÁRIO DE ALMOÇO E INTERVALOS)
__________________________________________________________________________________________
19) QUANTOS DIAS POR SEMANA?
__________________________________________________________________________________________
20) ALGUMA DAS EMPRESAS OFERECE BENEFÍCIOS? ( MANUTENÇÃO DA MOTO, TICKET
PARA ALMOÇO, ETC.)
__________________________________________________________________________________________
21) PARA QUAIS EMPRESAS VOCE PRESTA SERVIÇO COMO TERCEIRIZADO?
( ) PIZZARIA
( ) RESTAURANTE
( ) FARMÁCIA
( ) HOSPITAL
( ) BANCO
( ) LOJA DE PEÇAS PARA AUTOMOVEIS
( ) LOJA DE PEÇAS PARA CAMINHÕES
( ) LOJA DE PEÇAS PARA MOTOS
( ) LOJA DE TINTAS
( ) OUTROS _______________________________________________________________________________
22) COMO É SEU TRABALHO (AS ENTREGAS) BREVE DESCRIÇÃO?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
324
23) VOCE TEM SALARIO FIXO?
( )SIM ( ) NÃO
24) QUANTO VOCE GANHA NO MÊS?
_____________________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________________
26) EM CASO DE DOENÇA OU ACIDENTE COMO FICAM OS SEUS RENDIMENTOS?
_____________________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________________
325
CARACTERÍSTICAS DA ATIVIDADE
27) VOCE É O PROPRIETÁRIO DA MOTO?
( ) SIM ( ) NÃO (SE NÃO ESPECIFICAR)
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
27 A) SE SIM – COMO A ADQUIRIU?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
28) A MOTO É FINANCIADA?
( ) SIM ( ) NÃO VALOR DA PRESTAÇÃO___________________________________________________
38) QUAIS SÃO SUAS DESPESAS PARA EXERCER ESSA ATIVIDADE?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
29) TEM ALGUM TIPO DE NETREGA QUE VOCE PREFERE FAZER?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
30) REALIZA ENTREGAS EM OUTROS MUNICÍPIOS?
( ) SIM ( ) NÃO SE SIM QUAIS?
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
30 A) COM QUE FREQUÊNCIA?
( ) DIARIAMENTE ( ) SEMANALMENTE ( ) MENSALMENTE ( ) RARAMENTE
__________________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________
30 B) QUE TIPO DE PRODUTO, DOCUMENTO , ETC VOCE LEVA PARA OUTRO MUNICIPIO?
__________________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
326