Sexo, Drogas e Rock'n'Roll: Um percurso com paragens pela sociedade portuguesa contemporânea (1960-2015) PDF Free Download

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SOCIOLOGIA!
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Membros$do$Júri$
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Professor$Doutor$Carlos$Manuel$da$Silva$Gonçalves$
Vogais:$$
Professor$Doutor$João$Soeiro$de$Carvalho$$
Professora$Doutora$Maria$Paula$Abreu$Pereira$Silva$$
Professor$Doutor$José$Luis$Lopes$Fernandes$
Professor$João$Miguel$Trancoso$Vaz$Teixeira$Lopes$
Professora$Doutora$Paula$Maria$Guerra$Tavares$
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ERRATA!
Após uma leitura minuciosa da minha tese de doutoramento intitulada “Sexo, Drogas e
Rock’n’Roll: Um percurso com paragens pela sociedade portuguesa contemporânea
(1960-2015)”, entregue no dia 11 de Fevereiro do ano corrente, reproduzo neste
documento os erros por mim encontrados e assumidos, bem como as respetivas
correções, de forma a alertar formalmente o júri das minhas provas para esses lapsos.
Agradeço, desde já, a leitura deste documento.
Página
Linha(s)
Onde se
Deve ler-se
10
24 (Keywords)
Sex;
Retirar palavra
16
10
Comoa
Como a
18
23/24
Um outros referentes
Um referente
19
8
Âmbito da musical rock
Âmbito da música rock
19
29
Respeito
Respeitando
19
30
Ao Instituto
Do Instituto
20
30
Quenos
Que nos
21
15
A indústria fonográfica
À indústria fonográfica
21
17
Políticas
A palavra está repetida
21
21-27
Importa (...) projeto.
Retirar frases
33
5
Ohabitus
O habitus
33
26
Ohabitus
O habitus
33
27
Ohabitus
O habitus
39
18
O moldar
Moldá-lo
46
27
Constante
Marcante
57
32
Setenta
Sessenta
59
22
Vítor
Victor
65
6
Boqueou
Bloqueou
65
14
P-C.P.
P.C.P.
65
18
Experiencias
Experiências
88
5
2010), tal
2010). Tal
91
5
Socais
Sociais
92
10
Gillet
Gillett
92
10
Museólogo
Musicólogo
94
17
1º.
10º.
100
29
CSSS
CCCS
108
32
Para os a
Para a
109
20
Colectiva
Coletiva
110
28
O leitor
Ao leitor
111
2
Número jovens
Número de jovens
111
17
Média.
Média,
118
18
Estas
Estes
121
26
CSSS
CCCS
127
16
CSSS
CCCS
130
7
1993)
1993))
138
3
A tipo
A este tipo
141
2
A primeira
O primeiro
153
26
Segundo (Kramer, 2006)
Segundo Kramer (2006)
153
28
Electrónica
Eletrónica
168
6
Factor
Fator
169
2
Medico-sanitário
Médico-sanitário
169
16
Afectividade
Afetividade
195
3
Possibilitaram,
Retirar palavra
195
19
Probabilística (...) selecionado.
Não probabilística
intencional.
200
8
Partiu da
Partiu de
200
19
Experiencias
Experiências
203
2/3
Contou dois
Contou com dois
212
3
Ela
Elas
228
18
Electrónicos
Eletrónicos
228
31
E eu começamos
E começamos
229
21
Percepção
Perceção
229
36
Entre
Retirar
229
36
Ouvia bandas
Retirar “bandas”
230
2
Perspectiva
Perspetiva
231
24
Desde e essa
Desde essa
232
1
Acabarampor
Acabaram por
237
1
Pro ser
Por ser
239
18
Foi
Fui
242
21
Por
Pôr
242
27
Perspectiva
Perspetiva
243
22
Afectam
Afetam
245
7
Ruptura
Rutura
245
24
Actualidade
Atualidade
245
35
Cultura massas
Cultura de massas
246
24
Tufo
Tudo
246
44
Companha
Acompanha
248
4
Peço
Péssimo
248
11
E
Eu
248
14
Quem fez
Quem me fez
248
19
Tanto
Tantos
248
20
Projectos
Projectos
248
22
Projectos
Projectos
248
22/23
Tenho de ser
Tenho ser
248
35
Seu
Sei
249
7
Aos
Os
250
12
Evsão
Evasão
260
16
Quando
Quanto
263
2
Vez uma
Vez vi uma
263
6
Quem
Que me
263
24
Par
Para
264
6
Ano meio
Ano e meio
264
18
Alguma
Algumas
267
35
Quinhentos
Quinhentas
275
11
Quedos
Que os
275
28
Algumas
Alguma
278
35
Casse
Casasse
280
19
Vinculados
Vinculadas
280
24
Estas
Estes
280
26
As
Os
290
3
As décadas
Os anos
297
22
Ai
298
17
A para
A ir para
306
21
Destina
Destinada
307
2
E
De
315
9
Escritor serviu
Escritor que serviu
326
17
Devil’s
Devils
332
8
Presentada
Apresentada
337
8
Andeira
Bandeira
342
1
Edições jornais
Edições do jornal
356
3
As
Às
357
8
Custa excessos
Custa desses excessos
357
13
Representar
Representativos
Ponte de Lima, 15 de julho de 2021.
Ana Martins
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1.2.$A$EXPLICAÇÃO$E$A$COMPREENSÃO$DO$3456$..............................................................................$28$
1.3.$NO$PRINCÍPIO$ERA$O$ELVIS$.....................................................................................................$40$
1.4.$O$3456"AMPLIFICOU-SE$COM$OS$BEATLES$................................................................................$48$
1.5.$O$3456$ESPALHOU-SE$PELO$89<;=3>4$E$CHEGOU$A$PORTUGAL$....................................................$57$
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2.1.$JUVENTUDES$E$CULTURAS$JUVENIS$..........................................................................................$97$
2.2.$SUBCULTURAS,$RESISTÊNCIA$E$RITUAIS$...................................................................................$107$
2.3.$PÓS-SUBCULTURAS,$TRIBALISMO$E$HIBRIDISMO$.......................................................................$121$
2.4.$CENAS$MUSICAIS$LOCAIS,$TRANSLOCAIS$E$VIRTUAIS$..................................................................$126$
XM!2P!DWTQJPD![2D!UD\!KO"Q],OG^!"D_J&!',JNG"!D%ROCK’N’ROLL!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!;XX$
3.1.$LIGAÇÕES$PERIGOSAS$ENTRE$MÚSICA$E$DROGAS$.......................................................................$133$
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4.1.$POSICIONAMENTO$TEÓRICO-METODOLÓGICO$E$DESENHO$DA$INVESTIGAÇÃO$................................$190$
4.2.$QUESTÕES$ÉTICAS$NA$RECOLHA$E$TRATAMENTO$DE$DADOS$........................................................$196$
4.3.$\=^"^_="78><5"V\!`a$FERRAMENTAS$E$PROCEDIMENTOS$DE$RECOLHA$E$TRATAMENTO$DOS$DADOS$...$200$
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5.1.$A$MÚSICA$COMO$ELEMENTO$IDENTITÁRIO$E$POTENCIADOR$DE$CARREIRAS$....................................$225$
@2?2H2"!&"I'1%'&"*"$"&*1#0.*1#$"%*"K*B#*1C'"W'-*"'").'"0%*1#0%'%*"-$+*#0/'"
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6.1.$FESTIVALIZAÇÃO$E$HEDONISMOS$CONTEMPORÂNEOS$...............................................................$252$
6.2.$DROGAS,$CONSUMOS$E$PRÁTICAS$.........................................................................................$259$
6.3.$AFETOS,$EMOÇÕES,$SEXO$E$INTIMIDADE$.................................................................................$272$
6.4.$ESTEREÓTIPOS$SOCIAIS$E$EXPERIÊNCIAS$DE$ESTIGMATIZAÇÃO$.....................................................$277$
ZM!"D_J&!',JNG"!c!ROCK’N’ROLLM!D"QONPG"&!,O"EJ"!D!,DW,D"DLQGHaD"!PD'OdQOEG"!MMM!@R>$
7.1.$ESTIGMAS,$DESVIOS$E$PÂNICOS$MORAIS$.................................................................................$280$
7.2.$OS$PÂNICOS$MORAIS$E$AS$REPRESENTAÇÕES$MEDIÁTICAS$.......................................................$289$
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7.2.1.1.$Sobre$substâncias$psicoativas$e$sexo$............................................................................................$291$
7.2.1.2.$Sobre$o$B$-J$...................................................................................................................................$296$
G2H2H2"?PR?"*"'"'&-*1&D$"%$"I$$."%$"B$-J"K$B#)L)M&"22222222222222222222222222222222222222222222222222222"OQH$
7.2.2.1.Sobre$substâncias$psicoativas$e$sexo$.............................................................................................$302$
7.2.2.2.$Sobre$o$B$-J$...................................................................................................................................$305$
G2H2O2"4"B$-J"K$B#)L)M&".$BB*)"*."?PRHk"2222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222"OQP$
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5$
7.2.3.1.$Sobre$substâncias$psicoativas$e$sexo$............................................................................................$309$
7.2.3.2.$Sobre$B$-J$......................................................................................................................................$313$
G2H2N2"?PRO"*"$"W+'L*+$"%'"><:!"2222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222"O?P$
7.2.4.1.$Sobre$substâncias$psicoativas$e$sexo$............................................................................................$319$
7.2.4.2.$Sobre$B$-J$......................................................................................................................................$323$
G2H2@2"?PRNA"'"><:!"-U*L'"V$B#)L'+"2222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222222"OHR$
7.2.5.1.$Sobre$substâncias$psicoativas$e$sexo$............................................................................................$328$
7.2.5.2.$Sobre$o$B$-J$...................................................................................................................................$332$
G2H2]2"?PR@,"33;,"$&"5$1-)B&$&"%*"7f&0-'"7$%*B1'"*"'"/0&0I0+0%'%*"2222222222222222222222222222222"ONQ$
7.2.6.1.$Sobre$substâncias$psicoativas$e$sexo$............................................................................................$340$
7.2.6.2.$Sobre$o$B$-J$...................................................................................................................................$343$
EJL"O'D,GHaD"!UOLGO"!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!XA;$
,DUD,bLEOG"!SOSFOJN,dUOEG"!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!X=>$
MONOGRAFIAS$........................................................................................................................$360$
ARTIGOS$.................................................................................................................................$380$
CAPÍTULOS$DE$LIVROS$................................................................................................................$398$
PUBLICAÇÕES$DOS$MÉDIA$...........................................................................................................$407$
DOCUMENTOS$ESTATÍSTICOS$E$TÉCNICOS$......................................................................................$415$
GLD_J"!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!`;=$
ANEXO$I$$CARTAZ$DO$FESTIVAL$GERÊS$ROCK$FEST$2018$................................................................$417$
ANEXO$II$$CARTAZ$DO$FESTIVAL$EDP$VIALR$DE$MOUROS$2018$......................................................$418$
ANEXO$III$$CARTAZ$FESTIVAL$VIANA$BATE$FORTE$2018$.................................................................$419$
ANEXO$IV$$GUIÕES$DAS$ENTREVISTAS$.........................................................................................$420$
ANEXO$V$$GRELHAS$DE$ANÁLISE$CATEGORIAL$VERTICAL$..................................................................$428$
ANEXO$VI$$GRELHAS$DE$ANÁLISE$CATEGORIAL$HORIZONTAL$............................................................$431$
ANEXO$VII$$\!`48^$INQUÉRITO$.................................................................................................$432$
$
!
!
$
$
6$
Declaração*de*honra!
Declaro$que$a$presente$tese$é$de$minha$autoria$e$não$foi$utilizado$previamente$noutro$
curso$ ou$ unidade$ curricular,$ desta$ ou$ de$ outra$ instituição.$ As$ referências$ a$ outros$
autores$ (afirmações,$ ideias,$ pensamentos)$ respeitam$ escrupulosamente$ as$ regras$ da$
atribuição,$ e$ encontram-se$ devidamente$ indicadas$ no$ texto$ e$ nas$ referências$
bibliográficas,$de$acordo$com$as$normas$de$referenciação.$Tenho$consciência$de$que$a$
prática$de$plágio$e$auto-plágio$constitui$um$ilícito$académico.$
$
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Ponte$de$Lima,$10$de$fevereiro$de$2021.$
Ana$Martins$
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7$
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3$-J[1[3$++".)&0-,"0W"l$)"+0J*"0#,"0W"l$)"W**+"0#,"l$)"-'1[#"U*+K"I)#"
.$/*" #$" 0#2" ^U'#[&" mU'#" U'KK*1&" #$" .*2" <" -'1[#" U*+K" 0#2$(Elvis$
Presley).$
$ $
$
8$
Agradecimentos!
Muitas$vezes,$se$diz$que$a$investigação$científica$envolve$um$trabalho$bastante$pessoal$
e$solitário.$Contudo,$este$percurso$de$esforço$e$dedicação$desenvolvido$ao$longo$de$
quatro$ anos,$ e$ que$ culmina$ com$ a$ elaboração$ desta$ tese,$ não$ foi$ feito$ sozinha.$ Foi$
feito,$ vivido$ e$ sentido$ coletivamente.$ Por$ isso,$ sinto$ a$ necessidade$ de$ agradecer$ a$
todos/as$ aqueles/as$ que,$ de$ uma$ forma$ ou$ de$ outra,$ me$ ajudarem$ a$ chegar$ ao$ fim$
deste$trajeto.$
$
À$minha$querida$Orientadora,$Professora$Doutora$Paula$Guerra,$por$ter$aceite$o$meu$
convite,$me$ter$conduzido$nesta$viagem$e$ter$acreditado$sempre$em$mim$e$em$nós.$
À$FCT$–$Fundação$para$Ciência$e$Tecnologia,$nomeadamente$através$da$minha$Bolsa$
de$Doutoramento,$que$me$permitiu$desenvolver$este$projeto.$
A$ todos$ os$ entrevistados/as$ e$ outros/as$ intervenientes,$ que$ permitiram$ que$ este$
trabalho$pudesse$ser$concretizado.$
Ao$meu$Pai$e$minha$Irmã,$por$todo$o$apoio-amor$incondicional$ que$sempre$me$dão$
naquilo$que$faço.$
Aos/Às$meus/minhas$amigos/as,$por$terem$estado$sempre$aqui.$
Ao$ meu$ felino$ Gastão,$ por$ ser$ a$ minha$ maior$ companhia$ e$ me$ transmitir$ sempre$
carinho$e$tranquilidade.$
Ao$Doutoramento$em$Sociologia$e$ao$Instituto$de$Sociologia$desta$faculdade$por$tão$
bem$me$terem$recebido$e$apoiado.$
À$ minha$ amada$ Mãe,$ cuja$ doença$ acompanhou$ todo$ este$ processo,$ mas,$ que$
infelizmente,$ partiu$ antes$ de$ poder$ assistir$ ao$ resultado$ final.$ À$ minha$ Mãe,$ pela$
eternidade$do$amor$incondicional$da$sua,$da$minha$e$desta$existência.$
$
$
$
9$
Resumo!
Partindo$ do$ epítome$ &*n$," %B$L'&" o" B$-J[1[B$++,$ este$ projeto$ procura$ conhecer,$
entender$ e$ explicar$ qual$ a$ sua$ aplicabilidade$ à$ realidade$ social$ portuguesa,$
nomeadamente$na$esfera$da$B$-J".)&0-.$A$música$B$-J$dá$os$seus$primeiros$passos$em$
Portugal$nos$finais$da$década$de$1950$e$início$da$década$de$1960$e,$desde$cedo,$que$é$
associada$a$comportamentos$de$risco,$nomeadamente$ligados$ao$sexo,$ao$álcool$e$ao$
consumo$ de$ outras$ substâncias$ lícitas$ e$ ilícitas,$ à$ semelhança$ do$ que$ aconteceu$ no$
contexto$do$B$-J$internacional.$E,$tal$como$sucedeu,$em$particular,$na$realidade$anglo-
saxónica,$ também$ aqui$ este$ epítome$ encerra$ um$ vasto$ processo$ de$
produção/reprodução$social$de$pânico$moral$que$tem$acompanhado$a$implantação$da$
cultura$popular$massiva,$que$nos$importa$desconstruir,$mostrando,$simultaneamente,$
a$ sua$ importância$ na$ tradução$ do$ próprio$ desenvolvimento$ sócio-histórico$ da$
sociedade$ portuguesa.$ O$ elevado$ consumo$ de$ substâncias$ legais$ e$ ilegais,$
nomeadamente$de$facilitadores$de$“paraísos$artificiais”,$não$são$exclusivos$do$B$-J.$No$
entanto,$fazem$parte$do$estilo$de$vida$subcultural,$segundo$o$qual,$a$definição$de$uma$
identidade$grupal$e$de$uma$diferenciação$face$à$sua$envolvente$social$é$feita$com$base$
na$ exibição$ mais$ ou$ menos$ ostensiva$ de$ comportamentos,$ disposições$ corporais,$
roupas,$ adereços$ e$ consumos,$ que$ essa$ envolvente$ tende$ a$ julgar$ como$
problemáticos;$e$a$justificação$assenta$na$exibição$de$referência$a$valores$ao$mesmo$
tempo$ hedonistas$ e$ subversivos.$ Por$ esta$ razão$ e$ pela$ ausência$ de$ investigação$
científica$ que$ explore$ esta$ associação$ entre$ música$ B$-J,$ consumos$ e/ou$ excessos$ e$
comportamentos$sexuais$ocasionais$ e/ou$de$ risco$em$Portugal,$ consideramos$crucial$
desenvolver$ este$ projeto$ sociológico,$ assente$ em$ dados$ atuais,$ quer$ da$ parte$ dos$
protagonistas$da$cena$musical$portuguesa,$quer$da$parte$dos$média,$das$instâncias$de$
canonização$e$da$população$em$geral.$
$
W*1*e(*+?-f*e#^$B$-J[1[B$++,$ riscos,$ representações$ sociais,$ construção/reconstrução$
social,$Portugal$contemporâneo.$ $
$
10$
Abstract!
From$the$epitome$sex,$drugs$&$rock'n'roll$this$project$seeks$to$know,$understand$and$
explain$its$applicability$to$the$Portuguese$social$reality,$particularly$in$the$field$of$rock$
music.$Rock$music$takes$its$first$steps$in$Portugal$in$the$late$1950's/early$1960's$and,$
from$an$early$age,$it$is$associated$with$risk$conducts,$particularly$linked$to$sex,$alcohol$
and$ the$ use$ of$ other$ licit$ and$ illicit$ substances,$ similarly$ to$ what$ happened$ in$ the$
context$of$international$rock$scene.$So,$in$the$same$way$that$happened$in$the$Anglo-
Saxon$ reality,$ this$ epitome$ encloses$ a$ vast$ process$ of$ moral$ panic$
production/reproduction$ as$ well$ in$ Portugal.$ And$ this$ process$ has$ followed$ the$
establishment$of$a$massive$popular$culture$that$we$must$deconstruct$and$show,$at$the$
same$ time,$ its$ importance$ in$ the$ translation$ of$ the$ socio-historical$ development$ of$
Portuguese$ society$ itself.$ The$ high$ use$ of$ legal$ and$ illegal$ substances,$ particularly$ of$
developers$of$"artificial$paradises",$are$not$exclusive$to$rock.$However,$they$are$part$of$
the$ subcultural$ lifestyle,$ according$ to$ which$ the$ definition$ of$ a$ group$ identity$ and$
differentiation$from$its$social$environment$is$based$on$the$more$or$less$ostentatious$
display$ of$ conducts,$ body$ dispositions,$ clothing,$ adornments$ and$ substances$ uses,$
which$this$environment$tends$to$judge$as$problematic;$and$the$justification$is$based$on$
the$ display$ of$ references$ to$ values$ that$ are$ both$ hedonistic$ and$ subversive.$ For$ this$
reason$ and$ because$ of$ the$ absence$ of$ scientific$ research$ exploring$ the$ association$
between$rock$music,$substances$uses$and/or$abuses$and$occasional$and/or$risky$sexual$
conducts$in$Portugal,$we$consider$it$crucial$to$develop$this$sociological$project$based$
on$factual$and$current$data,$both$from$the$protagonists$of$the$Portuguese$music$scene$
as$well$as$the$media,$the$canonization$instances,$and$the$population$in$general.$
$
g#hi%(7+^$rock'n’roll,$ sex,$ risks,$ Portugal,$ social$ representations,$ social$
construction/reconstruction,$contemporary$Portugal.$
$
$ $
$
11$
Índice'de'Figuras!!
UON2,G!;M;M!SGSOD"!:;<ARB!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!=;!
UON2,G!;M@M!VOEQJ,!NJPD"&!UJQJ!W,JPJEOJLGF!'J!UOFPD!CANÇÃO%DA%SAUDADE!:;<=`B!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!=X!
UON2,G!;MXM![2G,QDQJ!;;;&!;<Z>j;<Z;!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!=Z!
UON2,G!;M`M!EG,QG\!'J!UD"QOVGF!'D!VOFG,!'D!PJ2,J"&!;<Z;!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!Z>!
UON2,G!;MAM!_2QJ"!c!WJLQGWk"!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!ZX!
UON2,G!;M=M!ROCK%EM%STOCK:%UM%ANO%DE%VIDA!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!ZA!
UON2,G!;MZM!GNR%ATACA%COM%PORTUGAL%NA%CEE!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!ZR!
UON2,G!;MRM!ROCK%PORTUGUÊS%DE%VENTO%EM%POPA!!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!Z<!
UON2,G!;M<M!W,JN,GPG!'J!UD"QOVGF!'D!VOFG,!'D!PJ2,J"&!;<R@!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!R;!
UON2,G!;M;>M!RRV:%A%FUNDAÇÃO%DO%ROCK!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!RX!
UON2,G!;M;;M!'DFUOL"!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!R=!
UON2,G!;M;@M!FDNDL'G,l!QOND,PGL^!D,G!U2L'GPDLQGF!UG\D,!D"QD!'O"EJ!LJ"!D2GM!PO"UOQ!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!RR!
UON2,G!;M!;XM!NINGUÉM%DEIXA%MORRER%O%AMOR%POR%ORNATOS%VIOLETA!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!<>!
UON2,G!;M;`M!PROGRAMA%DE%BOURDAIN%ATIRA%DEAD%COMBO%PARA%O%TOP%DO%ITUNES!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!<X!
UON2,G!;M;AM!WG2"!E,OGP!DP!FO"SJG!J!KG2"&!!mPGO"!'J![2D!2P!D"Qn'OJ/!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!<=!
$
UON2,G!@M;M!GFN2L"!"2ED'oLDJ"!'J!"2OET'OJ^!G!VDFJEO'G'D&!G!',JNG!D!J!dFEJJF!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!;>X!
UON2,G!@M@M!PORTUGAL%82:%OS%JOVENS%E%O%AMOR$.............................................................................................$105$
UON2,G!@MXM!DO%CAFÉ%AO%CASAMENTO:%O%ROCK%MOLDA%A%VIDA%DOS%JOVENS%SUBURBANOS$......................................$111$
UON2,G!@M`M!ROCK%PORTUGUÊS%TEM%MANIFESTO:%ROCKEIROS%DE%TODOS%OS%PAÍSES,%UNI-VOS$....................................$113$
UON2,G!@MAM!O%QUE%É%QUE%ACONTECE%NOS%FESTIVAIS%QUE%OS%MIÚDOS%NÃO%CONTAM%AOS%PAIS$...................................$119$
$
UON2,G!XM;M!D_ED,QJ!'J!'DE,DQJ?FDO!LMp!`@>jZ>!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!;=`!
UON2,G!XM@M!D_ED,QJ!'J!'DE,DQJ?FDO!LMp!X@;Z;!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!;==!
UON2,G!XMXM!Ó%MEU,%VAMOS%A%UMA%TRIP%PELO%PORTUGUÊS%DA%PESADA?!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!;=<!
UON2,G!XM`M!PGO"!'D!R>!POF!YJVDL"!EJL"JPDP!',JNG!DP!WJ,Q2NGF!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!;Z;!
UON2,G!XMAM!G"!SDSO'G"!"IJ!UDOQG"!WG,G!NJ\G,!G!VO'GM!LIJ!WG,G!G!'D"Q,2O,M!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!;Z@!
UON2,G!XM=M!SABEREMOS%REINVENTAR%O%AMOR?!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!;ZX!
UON2,G!XMZM!DIVÓRCIOS:%A%VAGA%DOS%30%ANOS!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!;Z=!
UON2,G!XMRM!D_ED,QJ!'G!FDO!LMp!X>j@>>>!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!;Z<!
UON2,G!XM<M!'O"Q,OS2OHIJ!'J!LnPD,J!'D!GW,DDL"aD"!'D!D"Q2WDUGEODLQD"!D!,D"WDQOVG"![2GLQO'G'D"!MMMMMMMMMMMMMMM!;R;!
UON2,G!XM;>M!WD,OQJ"!GPD,OEGLJ"!GVO"GP!WJ,Q2NGF!WG,G!EJL"2PJ!Y2VDLOF!'D!dFEJJF!D!',JNG!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!;R@!
UON2,G!XM;;M!EG"J"!'D!OLUDHIJ!WJ,!VOK!:;<RX?@>;RB^!'O"Q,OS2OHIJ!WJ,!PJ'J!'D!Q,GL"PO""IJ!D!"D_J!MMMMMMMMMM!;RZ!
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12$
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$
13$
UON2,G!=M=M!EJPWG,GHIJ!'G!'O"Q,OS2OHIJ!'J"!OL[2O,O'J"!'D!GEJ,'J!EJP!G!G""JEOGHIJ!'D!EJL"2PJ"!OFTEOQJ"!r!
Pn"OEG!ROCK!D!J"!"D2"!KdSOQJ"!'D!EJL"2PJ"!DP!UD"QOVGO"!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!@==!
UON2,G!=MZM!,DFGHIJ!DLQ,D!J!FDPG!s"D_J&!',JNG"!D!ROCKNROLLt!DP!WJ,Q2NGF!LG!WD,"WDQOVG!'J"!OL[2O,O'J"!@=R!
UON2,G!=MRM!'O"Q,OS2OHIJ!'J"!OL[2O,O'J"!WJ,!"2S"QoLEOG"!PGO"!EJL"2PO'G"!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!@Z;!
UON2,G!=M<M!'O"Q,OS2OHIJ!'J"!OL[2O,O'J"!WJ,!"2S"QoLEOG"!PDLJ"!EJL"2PO'G"!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!@Z@!
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UON2,G!ZM;M!GB!EJ,,2WHIJ!LG!Y2'OEOd,OGu!SB!GOL'G!D!"DPW,DMMMJ!QGSGEJ!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!@<@!
UON2,G!ZM@M!GB!G!'D"VGFJ,O\GHIJ!'J!VTLE2FJ!PGQ,OPJLOGF!LJ!'O,DOQJ!WJ,Q2N2b"!SB!LIJ!'DO_D![2D!"D!D"NJQDPv!
DLEJPDL'D!KJYD!PD"PJ!J"!nFQOPJ"!D_DPWFG,D"!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!@<`!
UON2,G!ZMXM!POEg!YGNND,&!J"!"QJLD"&!G!WJFTQOEG!D!G!',JNG!SB!WJ,Q2N2b"!"2GVD^!@w!ND,GHIJ!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!@<=!
UON2,G!ZM`M!GB!"lULD!,JPD^!G!SDFG!GPD,OEGLG!'O\!G'D2"!r!D2,JWG!SB!DFDOHIJ!'D!sPO""t!D2,JWG!L2G!MMMMMMMMMMMM!@<=!
UON2,G!ZMAM!GB!BILL%HALLEY:%O%REGRESSO%DO!s,JEgD,t!GJ"!AA!GLJ"!SB!ROCK%QUE%VIBRA%NO%FEMININO!MMMMMMMMMMMMMMMMM!@<R!
UON2,G!ZM=M!GB!sDP!J,SOQGt!Kd!;A!GLJ"^!'J\D!KJ,G"!"DPGLGO"!'D!,d'OJ!'O,ONO'G"!G!s2P!J2VOLQD!O'DGFt!SB!
t,JEg!,DL'D\?VJ2"t!EJP!Pn"OEG!GJ!VOVJ!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!@<<!
UON2,G!ZMZM!GB!YOPO!KDL',O_^!G!'kEG'G!'D!2P!POQJ!SB!'DWJO"!'G!PJ,QD!'D!PGJ^!,JFFOLN!"QJLD"!,DN,D""GP!EJP!
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DESACTUALIZADA!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!X;>!
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14$
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UON2,G!ZMX@M!GB!MAIS%UM%CASO%DE%SIDA%CONFIRMADO%EM%LISBOA%B)%O%SEXO%DE%UM%CONGRESSO!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!XX;!
UON2,G!ZMXXM!GB%DAVID%BOWIE:%O%CANTO%DO%VAMPIRO!SB!QUE%BEBES,%SGSl?!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!XX@!
UON2,G!ZMX`M!GB%ANTÓNIO%VARIAÇÕES%VÍTIMA%DE%SIDA?!SB!NINA%HAGEN,%A%DIVA%DO%,JEg!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!XXX!
UON2,G!ZMXAM!GB%NOVAS%CARAS%NOS%UHF!SB!NL,!VJFQGP!r!EG,NG^!sFDVGPJ"!D"QG!S,OLEG'DO,G!P2OQJ!G!"k,OJt!M!XXA!
UON2,G!ZMX=M!GB%REMAR%AOS%XUTOS%E%AOS%PONTAPÉS!SB!,JEg!PORTUGUÊS%VOLTA%A%ENTRAR%NA%DANÇA!MMMMMMMMMMMMMMMMMM!XXA!
UON2,G!ZMXZM!GB%U2:%O%ROCK%DOS%ANOS%80!SB!PRETENDERS:%RETRATO%DE%UM%GRUPO%COM%SENHORA!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!XXR!
UON2,G!ZMXRM!GB%NINA%HAGEN:%ENTRE%DEUS%E%O%DIABO!SB!ERIC%CLAPTON:%A%GUITARRA%DO%,JEg!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!XXR!
UON2,G!ZMX<M!"O"QDPGQO\GHIJ!'G"!QDPdQOEG"!GSJ,'G'G"!LJ"!MEDIA!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!XX<!
UON2,G!ZM`>M!GB%TAXISTA%CONDUZIA%REDE%DE%DROGA!SB!CONDUTORES%CONTINUAM%A%<<BEBER%BEM>>!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!X`>!
UON2,G!ZM`;M!GB!SETE%CASOS%DE%SIDA%CONFIRMADOS%NOS%HOSPITAIS!SB!DEBATE%SOBRE%A%SIDA%QUINTA-FEIRA%NA%RTP!X`;!
UON2,G!ZM`@M!GB%MADONNA:%COMO%UMA%VIRGEM?!SB!SIDA%AGITA%HOLLYWOOD!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!X`X!
UON2,G!ZM`XM!GB%PRESERVATIVO%ALCANÇA%PÍLULA!SB!VALMONT:%A%OPÇÃO%COM%CLASSE.!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!X`X!
UON2,G!ZM``M!GB!ETIÓPIA%MOTIVA%MAIOR%CONCERTO%ROCK%DE%SEMPRE!SB!ROCK%RENDEZ%VOUS:%O%OUTRO%FESTIVAL!MMMMMM!X``!
UON2,G!ZM`AM!GB%DEZ%DIAS%DE%,JEg%NA%TERRA%DO%SAMBA!SB!AS%NOVAS%MULHERES%DO%,JEg!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!X`A!
UON2,G!ZM`=M!GB!RÁDIO%MACAU:%“SOMOS%GUERRILHEIROS%CULTURAIS!SB!UHF%RESISTIR%E%REGRESSAR!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!X`Z!
UON2,G!ZM`ZM!GB!RUI%VELOSO%SAI%DA%CLANDESTINIDADE!SB!MÚSICA%MODERNA%NO%ROCK-RENDEZ-VOUS:%O%MELHOR%NÃO%
VINHA%NO%CONCURSO!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!X`Z!
UON2,G!ZM`RM!GENESIS:%NO%PRINCÍPIO%ERA%O%GÉNIO...%SB!QJP!yGOQ"^!'J!U2L'J!'J!EJ,GHIJ!Q,b"!GLJ"!'DWJO"!MMMMM!X`<!
UON2,G!ZM`<M!GB%FRANK%ZAPPA:%A%TERCEIRA%IDADE!SB%A%LEGIÃO%DOS%GRANDES%MITOS!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!X`<!
UON2,G!ZMA>M!"O"QDPGQO\GHIJ!'G"!QDPdQOEG"!GSJ,'G'G"!LJ"%MEDIA!MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!XA>!
$!
$
15$
Lista!de#Abreviaturas*e*Siglas!
EEE"$-$Centre$for$Contemporary$Cultural$Studies$de$Birmingham$
E'$-$Compact$Discs$
E'Q$–$Comissões$para$a$Dissuasão$da$Droga$e$da$Toxicodependência$
'Ol$–$Do$It$Yourself$
'Y$–$Disc$Jockey$
DW$–$Extended$Play$
O'Q$–$Instituto$da$Droga$e$da$Toxicodependência$
FW$-$Long$Play$
JD'Q$-$Observatório$Europeu$da$Droga$e$da$Toxicodependência$
WY$–$Polícia$Judiciária$
,cS$–$Rhythm$and$Blues$
,,'$–$Rock$Rendez-Vous$
"OEG'$-$Serviço$de$Intervenção$nos$Comportamentos$Aditivos$e$nas$Dependências$
"60)1#$–$Single$Play$
"LO!-$Secretariado$Nacional$da$Informação$$
$
$
$ $
$
16$
Introdução!
Desenvolver$ um$ projeto$ de$ investigação,$ seja$ qual$ for$ a$ sua$ natureza,$ é$ sempre$ um$
desafio$para$o$investigador.$Neste$caso$particular,$este$desafio$envolveu$quatro$anos$
de$ empenho$ e$ dedicação$ em$ prol$ de$ um$ objetivo,$ que$ em$ certa$ medida,$ se$ tornou$
mais$ do$ que$ um$ simples$ objeto$ de$ estudo$ e$ se$ transformou$ numa$ banda-sonora$ da$
minha$vida$em$+$$K01L$permanente.$Esta$banda-sonora$consitituiu-se$por$múltiplas$e$
complexas$faixas,$que$se$encontram$reproduzidas$neste$documento,$através$das$quais$
pretendemos$ considerar$ as$ representações/reconstruções$ sociais$ veiculadas$ por$
atores$e$protagonistas$da$cena$B$-J$nacional,$em$relação$ao$consumo,$à$sexualidade$e$
ao$estilo$de$vida.$Assim,$ao$analisarmos$os$consumos,$procuramos$perceber$quais$são$
os$ hábitos$ e$ as$ rotinas$ de$ uso$ de$ substâncias$ lícitas$ e$ ilícitas,$ bem$ comoa$ sua$
associação$ com$ o$ contexto$ da$ B$-J" .)&0-;$ ao$ explorarmos$ a$ sexualidade,$ o$ objetivo$
passou$ por$ compreender$ as$ suas$ experiências$ e$ práticas$ afetivas,$ enquanto$
participantes$ da$ cena$ B$-J;$ finalmente,$ ao$ refletirmos$ sobre$ os$ estilos$ de$ vida,$ a$
finalidade$ assentou$ no$ estudo$ das$ suas$ práticas$ quotidianas,$ individuais$ e$ coletivas,$
inseridas$ nos$seus$ respetivos$ quadros$ de$ interação$ social,$ na$ perspetiva$ de$
intervenientes$da$esfera$B$-J$portuguesa.$
Neste$âmbito,$importa$ressalvar,$que$“a$música,$os$músicos,$os$seus$campos$e$
subcampos$ de$ práticas$ de$ produção,$ receção$ e$ mediação$ têm$ assumido$ um$ caráter$
relativamente$ periférico$ na$ sociologia$ da$ cultura$ e$ das$ artes$ em$ Portugal”$ (Guerra,$
2015:$15).$E$tal$assume-se$como$particularmente$fragmentador$mesmo$num$país$em$
que$a$indústria$da$K$K$é$muito$frágil$e$só$remonta$ao$início$dos$anos$de$1990.$Por$esta$
razão,$o$estudo$do$B$-J[1[B$++"tem-se$revelado$de$extrema$importância,$uma$vez$que$
integra$os$quotidianos$das$populações,$mais$especificamente$dos$jovens,$ocupando-os$
com$ objetos$ e$ sonoridades$ reveladoras$ de$ estilos$ e$ modos$ de$ vida$ (Guerra,$ 2019a;$
2020),$como$é$o$caso$dos$discos,$das$rádios,$dos$programas$de$rádio,$dos$artistas,$dos$
espaços$de$divulgação,$das$roupas,$dos$acessórios,$dos$espetáculos...$(Guerra,$2015).$
Neste$sentido,$ compreende-se$que$ o$B$-J[1[B$++" se$foi$ desenvolvendo$no$ seio$de$ um$
contexto$ social$ (Martins,$ 2015)$ crescentemente$ complexo$ e$ que$ cruzou$ estilos$ e$
$
17$
formas$estilísticas$(Guerra,$2019b),$que$obtiveram$significados$particulares,$apoiando-
se$em$valores$que$tinham$como$finalidade$ser$intermediários$para$as$experiências$do$
dia-a-dia$(Wicke,$1990;$Ferreira,$2002).$É$neste$contexto$que,$desde$meados$dos$anos$
1990,$ assistimos$ a$ um$ interesse$ cada$ vez$ maior$ dos$ campos$ da$ sociologia$ e$
antropologia$em$entender$a$música$–$e$não$só$-$como$sendo$uma$forte$componente$
das$sociabilidades$juvenis,$dos$seus$quotidianos$e$dos$seus$tempos-livres$(Pais,$2003;$
2009,$2013;$Pais$&$Blass,$2004).$Neste$contexto,$a$importância$da$música$na$formação$
das$ identidades$ (Guerra,$ 2019c;$ Santos,$ 2002)$ dos$ jovens$ urbanos$ tem$ vindo$ a$ ser$
mote$de$pesquisas$e$investigações$nacionais,$assim$como$a$análise$dos$espetáculos$ao$
vivo,$ das$ performances$ e$ das$ agendas$ (Guerra,$ 2010;$ Silva$ &$ Guerra,$ 2015;$ Oliveira,$
2019).$ Também$ reflexões$ sobre$ a$ indústria$ da$ música$ no$ nosso$ país,$ mais$
especificamente$ a$ indústria$ fonográfica$ e$ os$ desafios$ recentes$ da$ sua$ restruturação$
têm$ sido$ desenvolvidas$ (Abreu,$ 2010;$ Neves,$ 1999;$ Nunes,$ 2012;$ Martinho,$ 2011;$
Abreu,$ 2001,$ 2010).$ Sobre$ este$ ponto$ podemos$ destacar$ os$ trabalhos$ acerca$ dos$
impactos$ da$ <1#*B1*#$ na$ produção,$ mediação$ e$ consumo$ da$ música$ (Simões,$ 2010;$
Cheta$&$Vieira,$2008;$Vieira,$2010;$Salema,$2017);$mas$também$sobre$a$relação$entre$a$
música$ e$ a(s)$ droga(s)$ que$ $ em$ Portugal$ se$ tratam$ de$ trabalhos$ que$ têm$ incidido$
sobretudo$no$campo$da$ música$eletrónica$de$ dança$ (Henriques,$2003;$Calado,$ 2006,$
2007;$Carvalho,$2007;$Lopes,$*#"'+,$2010;$Guerra,$2015).$Contudo,$já$alguns$autores$se$
têm$ focado$ no$ fenómeno$ musical$ do$ B$-J" (Barreto,$ 1975,$ 1982,$ 1984;$ Fernandes,$
1990;$Guerra$*#"'+,$2016;$Guerra,$2010),$não$perdendo$a$sua$componente$territorial$e$
geográfica$(Costa,$Guerra$&$Oliveira,$2015).$
Assim$sendo,$o$enlace$central$desta$investigação$situa-se$na$problematização$e$
desconstrução$ de$ um$ epítome$ que$ marcou$ e$ marca$ o$ B$-J[1[B$++" desde$ a$ sua$
emergência$ no$ contexto$ anglo-americano,$ mas$ hoje$ transposto$ –$ e$ contruído$ e$
reconstruído$-$globalmente.$Com$efeito,$com$o$intuito$de$contribuir$para$o$reforço$do$
interesse$sociológico$ destas$temáticas$ em$Portugal,$e$ de$forma$ a$ir$ ao$encontro$ dos$
objetos$ de$ análise$ definidos,$ esta$ investigação$ suportou-se$ em$ diferentes$ tipos$ de$
abordagens$teórico-metodológicas,$de$modo$a$concretizar$da$melhor$forma$possível$os$
seguintes$objetivos:$
$
18$
Conhecer,$ entender$ e$ mapear$ as$ principais$ representações$ de$ risco$ e$ de$
estigmatização$ inerentes$ às$ manifestações$ B$-J" em$ Portugal,$ desde$ os$ anos$
1960$até$aos$dias$de$hoje,$com$o$intuito$de$perceber$qual$a$importância$e$peso$
dos$ consumos$ de$ álcool$ e$ drogas$ na$ generalidade$ dos$ comportamentos$ de$
risco$representados$pelos$atores$sociais$ligados$à$B$-J".)&0-,$assim$como$qual$a$
sua$evolução$ao$longo$dos$anos.$$
Analisar$ aprofundadamente$ as$ vivências$ e$ experiências$ de$ alguns$ dos$ atores$
ligados$ às$ manifestações$ B$-J" nacionais$ (fãs,$ músicos,$ mediadores),$ com$ a$
finalidade$ de$ captar$ testemunhos$ profundos,$ que$ possam$ desconstruir$ e$
complexificar$as$representações$de$pânico$moral$e$processos$de$estigmatização$
presentes$na$hétero$e$autoconstrução$da$K$K)+'B"-)+#)B*"e$+0W*&#l+*&"associados$
ao$K$K"B$-J.1$$
Perceber$ quais$ os$ impactos$ (sociais,$ culturais,$ económicos)$ desses$ reais/$
supostos$comportamentos$ de$risco$ nas$manifestações$ B$-J"e$ na$produção$ de$
uma$indústria$cultural$e$lúdica$daí$advinda.$$
Analisar$as$transformações$ocorridas$ao$longo$das$últimas$décadas,$o$que$nos$
permitiu$um$conhecimento$acerca$das$mudanças$sociais,$económicas,$políticas$
e$tecnológicas$na$sociedade$portuguesa,$particularmente$no$tocante$às$drogas$
e$sua$vivência$em$contexto$lúdico,$artístico$e$musical.$!
A$ partir$ destes$ objetivos$ orientadores$ foi$ desenhado$ um$ projeto$ teórico-
metodológico,$ que$ resultou$ nesta$ Dissertação,$ a$ qual$ se$ encontra$ dividida$ em$ sete$
capítulos:$ três$ destinados$ ao$ enquadramento$ teórico$ das$ temáticas$ abordadas,$ um$
outros$referentes$à$apresentação$do$modelo$metodológico$adotado$e$que$faz$a$ponte$
para$os$três$ capítulos$seguintes,$ que$se$dedicam$ à$análise$ e$ à$exploração$ dos$dados$
recolhidos.$ Assim,$ no$ primeiro$ capítulo,$ começámos$ por$ fazer$ uma$ contextualização$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
1 Existe, ainda nos tempos atuais, uma forte estigmatização e mistificação da profissão e condição de
artista, especialmente no âmbito do rock’n’roll, face ao consumo de drogas e de álcool em Portugal, e
que contribuem para que as carreiras sejam desvalorizadas
$
2 Inicialmente, tratava-se de uma loja de discos de
rock’n’roll
, contudo, Vivienne começou a desenhar
roupas de estilo
teddy boy,
que passaram a ser também vendidas, juntamente com outros objetos e
$
$
19$
teórica$acerca$da$centralidade$do$B$-J$e$da$sua$importância$no$âmbito$da$sociologia$
(Abreu$ et.$ '+,$ 2017)$ nacional$ e$ internacional.$ Aqui,$ adotámos$ uma$ perspetiva$ sócio-
histórica,$que$assenta$no$nascimento$e$consolidação$do$B$-J$anglo-saxónico$e$na$sua$
progressiva$expansão$internacional$(Bottà,$2009,$2008,$2006)$até$chegar$ao$nosso$país$
e,$desde$esse$momento,$fazemos$um$percurso$da$sua$evolução$até$ao$período$atual,$
passando$por$uma$série$de$recuos$e$de$avanços$que$contribuíram$para$a$consolidação$
do$ género$ e$ da$ indústria$ fonográfica$ no$ país$ (Ferreira,$ 2017;$ Moreira,$ 2015).$ No$
segundo$capítulo$refletimos$acerca$do$conceito$de$juventude,$bem$como$discutimos$e$
enfatizamos$ a$ importância$ que$ este$ grupo$ etário$ possui$ no$ âmbito$ da$ musical$ B$-J,$
partindo$de$um$percurso$histórico-temporal$(Bennett$&$Guerra,$2019;$Bennett,$Jodie$&$
Woodward,$2014;$Bennett$ &$ Peterson,$2004),$percorrendo$ as$diferentes$abordagens$
teóricas$ na$ evolução$ do$ estudo$ das$ culturas,$ subculturas$ e$ pós-subculturas$ juvenis$
(Campos,$2010;$Nofre$&$Eldridge,$2018;$Costa$&$Lopes,$2015).$$
O$ terceiro$ capítulo$ foca-se$ na$ exploração$ do$ epítome$ &*n$," %B$L'&" o" B$-J[1[B$++,$
partindo$de$uma$análise$sócio-histórica$e$evolutiva$da$ligação$entre$música$e$práticas$
de$consumo$psicotrópico,$terminando$com$a$sua$apresentação$no$contexto$português$
e$das$suas$diferentes$cenas$(Gomes,$2014).$Seguidamente,$o$quarto$capítulo$descreve$
todo$ o$ trajeto$ metodológico$ desta$ investigação$ através$ da$ apresentação$ das$ fases,$
técnicas$ e$ procedimentos$ adotados,$ assim$ como$ faz$ uma$ caracterização$ sociográfica$
da$informação$recolhida.$Para$o$efeito,$e$atendendo$aos$nossos$objetivos$de$pesquisa,$
focados$ na$ perceção,$ no$ entendimento,$ compreensão$ e$ mapeamento$ das$ vivências,$
mas$ também$ dos$ impactos$ dos$ comportamentos$ de$ risco,$ considerámos$ pertinente$
adotar$ uma$ metodologia$ de$ caráter$ misto$ (Creswell,$ 2014;$ Yin,$ 2003),$ cimentada$ na$
realização$de$entrevistas,$mas$também$na$aplicação$de$um$inquérito$por$questionário.$
Paralelamente,$perspetivamos$o$valor$acrescido,$bem$como$a$relevância,$de$completar$
a$ nossa$ abordagem$ com$ incursões$ pelo$ terreno,$ nomeadamente$ na$ ida$ a$ festivais$
chave$ (Burgess,$ 1997)$ e,$ claro$ está,$ recolher$ e$ analisar$ os$ discursos$ e$ as$ posições$
mediáticas$face$a$estas$vivências,$perceções$e$comportamentos.$$
Ainda$do$ponto$de$vista$metodológico,$importa$destacar$que$esta$Dissertação$foi$
submetida$e$realizada,$respeito$as$recomendações$éticas$na$abordagem$dos$sujeitos,$
$
20$
bem$como$das$temáticas$riscos,$drogas,$sexo$e$desvios,$ao$Instituto$de$Sociologia$da$
Universidade$do$Porto,$mas$também$por$parte$da$Associação$Portuguesa$de$Sociologia$
e$ da$ American$ Sociological$ Association.$ Todos$ os$ entrevistados$ e$ inquiridos$
mencionados$ neste$ projeto,$ participaram$ no$ mesmo$ de$ forma$ voluntária,$ tendo$ os$
mesmos$ fornecido$ Consentimento$ informado$ para$ a$ utilização$ dos$ dados$
sociográficos,$havendo$o$compromisso$de$estes$dados$serem$tratados$e$disseminados$
meramente$para$fins$científicos.$Aliás,$apenas$foram$recolhidos$dados$necessários,$tais$
como$ a$ idade,$ o$ género,$ nível$ de$ escolaridade,$ profissão,$ etc.$ $ O$ anonimato$ e$ a$
confidencialidade$ foram$ garantidos.$ Os$ pormenores$ da$ recolha,$ armazenamento,$
proteção,$ retenção,$ transferência,$ destruição$ ou$ reutilização$ de$ dados$ (incluindo$
métodos$de$recolha$como$a$gravação$digital,$vídeo,$fotografias,$entre$outros.)$exigiram$
também$ o$ Consentimento$ Informado$ dos$ participantes.$ Uma$ vez$ que$ o$ projeto$
envolveu$ a$ observação$ de$ indivíduos,$ os$ melhores$ interesses$ destes$ foram$ sempre$
tidos$em$linha$de$conta.$$
No$ capítulo$ cinco$ prosseguimos$ a$ análise$ e$ apresentação$ de$ dados$ empíricos$
acerca$da$importância$do$B$-J"na$construção$identitária$e$nas$apropriações$individuais$
e$ coletivas$ inerentes$ a$ ela,$ nomeadamente$ a$ partir$ das$ entrevistas$ e$ do$ inquérito$
aplicado,$adotando$em$certa$medida$os$contributos$de$Machado$Pais$face$aos$jovens$
artistas$portugueses$(1995).$Já$no$capítulo$seis$deste$trabalho,$damos$continuidade$à$
análise$ e$ apresentação$ de$ resultados,$ porém$ procurámos$ apresentar$ uma$ narrativa$
centrada$nas$vivências$(Simões,$2018;$Nunes,$2019),$nos$riscos$e$nas$sociabilidades$dos$
participantes$no$estudo,$nomeadamente$através$de$um$mapeamento$de$consumos$e$
de$práticas$afetivas$(Santos,$2012).$Finalmente,$o$último$capítulo$visa$uma$reflexão$em$
torno$ das$ $ representações$ sociais$ inerentes$ à$ triconomia$ &*n$F%B$L'&FB$-J" em$
Portugal,$centrando-se$nos$ processos$de$ estigmatização$a$ela$ associados,$a$ partir$de$
uma$ breve$ análise$ mediática$ de$ dois$ órgãos$ de$ comunicação$ nacionais,$
nomeadamente$o$Jornal$Expresso$e$o$Se7e.$
Quase$ no$ fim$ desta$ abertura,$ traçámos$ aqui$ os$ alicerces$ da$ nossa$ investigação,$
nomeadamente$ aquelas$ que$ foram$ as$ nossas$ hipóteses$ teóricas.$ Atendendo$ aos$
nossos$ objetivos$ de$ pesquisa,$ anteriormente$ enunciados,$ considerámos$ pertinente$
$
21$
que$ fossem$ realizadas$ uma$ série$ de$ hipóteses$ teóricas$ quenos$ orientassem,$
paralelamente$à$criação$de$duas$questões$de$partida$que$se$formularam$da$seguinte$
forma:$ &*Bb" K$&&c/*+" 'W*B0B" '" *n0&#M1-0'" %*" KB$-*&&$&" *&#0L.'#0Z'%$B*&," 1$" -$1#*n#$"
K$B#)L)M&,"W'-*"'$")&$"*"'$"-$1&).$"%*"&)I&#T1-0'"0+c-0#'&"*"+c-0#'&k"!+E."%0&&$,"&*Bb"
()*"*&&*&".*&.$&"KB$-*&&$&"-$1%0-0$1'."e$)"-$1%0-0$1'/'.g"'"-'BB*0B'"*"'&"/0/M1-0'&"
%$&" .f&0-$&" %*" B$-J[1[B$++" *." V$B#)L'+k$ Posto$ isto,$ surgiram$ paulatinamente$ e$ de$
acordo$ com$ um$ processo$ $1" L$01L,$ três$ traves-mestras$ que$ visam$ conferir$ uma$
resposta$ a$ estas$ questões.$ A$ primeira,$ prende-se$ com$ o$ facto$ de$ considerarmos,$ '"
KB0$B0,$ainda$existirem,$nos$tempos$atuais,$uma$forte$estigmatização$e$mistificação$da$
profissão$ e$ da$ condição$ de$ artista,$ especialmente$ no$ âmbito$ do$ B$-J[1[B$++,$ face$ ao$
consumo$de$drogas$e$de$álcool$em$Portugal,$e$que$contribuem$para$que$as$carreiras$
destes$ sejam$ desvalorizadas.$ A$ segunda$ hipótese$ de$ trabalho,$ inerente$ aos$
comportamentos$de$risco$e$à$sua$associação$ao$género$musical$B$-J,$prende-se$com$o$
facto$de$assumirmos$que$existem$profundos$impactos$ sociais$ao$nível$das$perceções$
sobre$ tais$ comportamentos$ que,$ por$ sua$ vez,$ se$ manifestam$ em$ constrangimentos$
económicos$ não$ só$ ao$ nível$ das$ carreiras,$ mas$ também$ no$ que$ toca$ a$ indústria$
fonográfica.$ Por$ fim,$ considerámos$ ainda$ que$ as$ crescentes$ e$ constantes$ mudanças$
sociais,$ políticas,$ económicas,$ culturais$ e$ políticas$ que$ se$ têm$ vindo$ a$ assistir$ nas$
sociedades$contemporâneas$provocaram$profundas$ alterações$nas$perceções$face$às$
vivências$ e$ aos$ consumos$ de$ substâncias,$ no$ seio$ artístico$ e$ musical,$ havendo$ uma$
banalização$dos$mesmos.$
Importa$ ainda$ referir$ que$ a$ investigação$ que$ esteve$ na$ base$ desta$ Dissertação$
segui$de$muito$perto$as$orientações$éticas$do$Instituto$de$Sociologia$da$Universidade$
do$ Porto,$ da$ Universidade$ do$ Porto,$ da$ Associação$ Portuguesa$ de$ Sociologia$ e$ da$
American$ Sociological$ Association$ no$ tocante$ à$ recolha$ de$ dados$ e$ seu$ tratamento.$
Assim,$ este$ trabalho$ assentou$ na$ realização$ de$ entrevistas$ semi-diretivas$ e$
questionários$a$sujeitos$de$investigação$que$voluntariamente$aceitaram$participar$no$
projeto.$ Tratam-se$ de$ participantes$ adultos$ que$ forneceram$ um$ consentimento$
informado.$Chegada$ ao$ fim$esta$ abertura,$ não$posso$ deixar$ de$referir$ –$ seguindo$as$
emblemáticas$palavras$de$Elvis$–$que$esta$tese$é$a$.01U'"/0%'$e$que$irei$partilhar$com$
$
22$
o$leitor$um$pouco$de$mim,$da$minha$visão,$e$a$visão$dos$artistas$e$dos$públicos$por$que$
–$novamente$seguindo$as$palavras$de$Elvis$–$1D$"$"-$1&0L$"*/0#'B2" "
$
23$
1.#Contributos*para*uma*sociologia*do*rock%
"
!L$B'"E"()*"'"-$BB0%'"*&#$0B$)"
="$&"'10.'0&"&*"+'1C'."1)."*&W$BC$"
!L$B'"E"()*"#$%$&"*+*&"'K+')%*."
!"/0$+M1-0'"*."i$L$"
!L$B'"()*"*+*&"K0-'."$&"-'/'+$&"
;0$+'1%$"#$%'&"'&"+*0&"
!L$B'"E"()*"*+*&"K'&&'."'$"'&&'+#$"
="W'Z*.F1$"K$B"()'+()*B"KB*C$"
!L$B',"'L$B',"'L$B',"'L$B'"
^)"E&")."-'/'+$"%*"-$BB0%',"*U"
UHF$(1980)$–$5'/'+$&"%*"5$BB0%'$
$
$
;M;M!G!-#08(*167*7#!7%!rock%0%!munda%da%vida!
!
“Hoje,$não$há$nenhuma$dúvida$para$ninguém$de$que$a$música$B$-J$domina$todos$os$
outros$fenómenos$culturais$no$mundo$inteiro”$(Paraire,$1992:$9).$Por$outras$palavras,$
este$ género$ musical$ encontra-se$ profundamente$ enraizado$ na$ vida$ quotidiana$ dos$
indivíduos,$particularmente$jovens.$É$igualmente$partindo$desta$centralidade$do$B$-J$
na$vida,$que$Paula$Guerra$(2015a)$o$considera$como$um$'I&$+)#*"I*L011*B,$no$sentido$
em$que$a$emergência$deste$género$musical$trouxe$consigo$uma$rutura$com$os$padrões$
que$ se$ encontravam$ socialmente$ estabelecidos.$ Contudo,$ apesar$ de$ tal$ importância,$
Weinstein$ (1991)$ dá-nos$ conta$ que$ tal$ rutura$ pode$ ainda$ não$ ter$ atingido$ o$ seu$
expoente$ máximo,$ no$ sentido$ em$ que$ ainda$ não$ existe$ uma$ verdadeira$ vertente$
sociológica$que$confira$a$este$género$musical$a$sua$devida$orientação$epistemológica.$
Tal$ como$ nos$ refere$ Moreira$ “o$ B$-J" (…)$ não$ possui$ uma$ estrutura$ ideológica$ clara$
(como$aquela$ que$ dividia$ a$ música$ autêntica$da$ música$ comercial),$ o$ que$ dificulta$ a$
criação$ de$ quadros$ teóricos$ e$ metodológicos$ mais$ estáveis”$ (Moreira,$ 2013:$ 10).$ No$
entanto,$é$inegável$que$o$B$-J"constitui$um$símbolo$cultural$amplamente$conhecido$e$
reconhecido$ à$ escala$ planetária$ e,$ por$ esta$ razão,$ o$ estudo$ sociológico$ deste$
fenómeno$ continua$ a$ ser$ de$ extrema$ importância$ neste$ contexto$ de$ modernidade$
tardia$globalizada,$particularmente$para$esta$investigação.$$
$ Partindo$ desta$ ideia$ de$ Moreira$ (2013)$ e$ de$ Guerra$ (2015a),$ argumentamos$
que$ um$ investimento$ numa$ sociologia$ do$ B$-J$ seria$ vantajoso$ atendendo$ aos$
$
24$
contributos$de$Bennett$*#"'+$que$assentam$na$consideração$de$que$“as$trajetórias$de$
estudo$têm$histórias$e$contextos$tal$como$os$objetos$que$elas$estudam”$(Bennet$*#"'+,$
2005:$18).$Esta$afirmação$de$Tony$p*11*##"*#"'+$(2005)$vai$ao$encontro$da$importância$
dos$ atores$ sociais$ que$ Guerra$ (2015a)$ mencionava,$ visto$ que$ os$ adolescentes$ que$
assistiram$ à$ ascensão$ e$ à$ massificação$ deste$ género$ musical,$ bem$ como$ à$
manifestação$musical$do$B$-J,$representam$a$promessa$de$um$novo$panorama$social,$
dentro$do$qual$os$problemas$socioeconómicos$seriam$superados$pelas$liberdades$que$
lhes$eram$proporcionadas$nas$várias$dimensões$das$suas$vidas$individuais$e$coletivas.$
No$ entanto,$ ainda$ nos$ dias$ atuais,$ decorrem$ atitudes$ de$ descrédito$ para$ com$ este$
género$musical$e$para$com$a$sua$pertinência$científica.$$
$ No$âmago$das$liberdades$que$eram$proporcionadas$pela$massificação$do$B$-J,$
encontrava-se$o$acesso$a$práticas$culturais$e$a$bens$de$consumo$que,$passo$a$passo,$
passavam$a$ser$elementos$integrantes$e$estruturadores$dos$estilos$de$vida.$Tais$bens$
referem-se$ao$acesso$a$discos,$à$rádio$e$aos$seus$conteúdos$programados,$a$diversos$
artistas$e$bandas,$ mas$também$ a$espaços$ de$divulgação$ musical$e$cultural,$ aos$gira-
discos$ e,$ essencialmente,$ a$ elementos$ estéticos,$ como$ é$ o$ caso$ do$ vestuário,$
acessórios$ de$ moda,$ entre$ outros$ (Guerra,$ 2015b).$ Tagg$ (1982:$ 2),$ além$ de$ referir$ a$
existência$ de$ uma$ espécie$ de$ consenso$ entre$ as$ finalidades$ e$ objetivos$ da$ “música$
séria”$e$da$“música$divertida”,$também$reflete$sobre$a$ubiquidade$do$B$-J.$Esta$noção$
de$ubiquidade$vai$ao$encontro$daquilo$que$afirmamos$$pouco,$sobre$a$inexistência$
de$uma$sociologia$do$B$-J,$confirmando$a$sua$relevância$vista$que$o$autor$afere$que$
este$género$possui$uma$quase$que$omnipresença$na$sociedade$contemporânea.$Com$
as$primeiras$manifestações$de$uma$-)+#)B'"%$"B$-J,$muitas$foram$ as$transformações$
sociais$que$se$sucederam$e$que,$na$sua$essência,$foram$cruciais$para$a$estruturação$de$
práticas$ culturais$ dos$ indivíduos,$ para$ as$ vidas$ quotidianas,$ bem$ como$ para$ um$
posterior$ desenvolvimento$ e$ materialização$ da$ mesma$ dentro$ do$ tecido$ e$ espaço$
urbano$(Guerra,$2015a).$$
$Segundo$Townsend$(1997),$o$B$-J[1[B$++$nunca$foi$apenas$um$género$musical,$
mas$ antes$ um$ movimento,$ um$ estilo$ de$ vida,$ uma$ expressão$ de$ cultura$ e,$
possivelmente,$ uma$ ideologia$ de$ vida.$ Tais$ considerações$ são$ tanto$ mais$ prementes$
$
25$
quando$ pensamos$ na$ ligação$ que$ Wicke$ (1995)$ faz$ entre$ música$ e$ crescimento$
individual.$ A$ cultura$ B$-J$ ramificou-se,$ paulatinamente,$ em$ múltiplos$ subgéneros$
musicais$e$ em$ diversas$práticas$ culturais$ que,$por$ sua$ vez,$ estão$ hoje$presentes$ nos$
mais$ diversos$ campos$ artísticos,$ tais$ como$ o$ cinema,$ a$ imprensa,$ a$ televisão,$ a$
literatura$ e$ até$ mesmo$ na$ moda,$ e$ tal$ como$ nos$ refere$ Paula$ Guerra$ “implantou-se$
enquanto$modalidade$fundamental$ da$estrutura$social$ e$cultural$contemporânea,$na$
medida$ em$ que$ se$ arrogou$ como$ fundamento$ da$ intertextualidade$ da$ cultura$ de$
massas”$(Guerra,$2015b:$15).$$
$ Partindo$destes$pressupostos$teóricos$que$vêm$fomentar$a$importância$social$
do$ B$-J$ na$ contemporaneidade,$ Bennett$ (2009)$ refere-se$ a$ este$ género$ como$ uma$
herança$ cultural$ do$ final$ do$ século$ XX.$ Assim,$ este$ trouxe$ consigo$ uma$ nova$
sensibilidade$ musical$ que$ de$ forma$ progressiva$ se$ interiorizou$ nos$ discursos$
performativos,$ culturais$ e$ estéticos.$ Outro$ aspeto$ crucial$ para$ a$ estetização$ de$ uma$
cultura$do$B$-J$foi$igualmente$a$construção$em$torno$da$seriedade$(Tagg,$1982)$e$da$
profissionalização$da$música$(Oliveira,$2019b)$que$teve$como$resultado$a$elevação$dos$
músicos$e$intérpretes$ao$estatuto$de$estrela$ e$ de$artistas$consagrados,$merecedores$
de$críticas$generalizadas$(Regev,$1994;$Kent,$2006).$$
$ A$ cultura$ do$ B$-J$ cimentava-se$ (e$ cimenta-se)$ num$ conjunto$ de$ valores$ que,$
nos$primórdios$do$surgimento$deste$género$musical,$eram$vistos$como$o$oposto$das$
dinâmicas$ capitalistas$ e$ .'01&#B*'." que$ se$ avistavam.$ Assim,$ estes$ acabam$ por$
encontrar$ sinergias$ junto$ de$ diversos$ grupos$ subculturais,$ acabando$ por$ lhes$ ser$
atribuída$ também$ uma$ dimensão$ política$ (Bennett$ *#" '+,$ 2005).$ Desta$ feita,$ e$
atendendo$aos$aspetos$já$enunciados,$podemos$entender$e$perceber$o$B$-J$como$uma$
manifestação$cultural$que$transcende$barreiras$sociais,$culturais$e$geográficas$(Amaral,$
2002).$O$impacto$do$B$-J[1[B$++$na$sociedade$é$inegável$(Brake,$1980).$Dado$esse$seu$
impacto$mundializado,$o$)10/*B&$"%$"B$-J$e$os$seus$principais$membros$constituintes$e$
integrantes$acabam$por$se$transformarem$em$precursores$de$primeira$linha,$de$uma$
viragem$ cultural$ no$ final$ do$ século$ XX.$ Tal$ tornou-se$ no$ principal$ elemento$ atrativo$
para$os$órgãos$de$poder$e,$é$aqui$nesta$fase$de$viragem$cultural,$que$o$B$-J$se$torna$
alvo$de$interesse$por$parte$das$agendas$políticas$no$início$do$século$XXI$(Bennett$*#"'+,$
$
26$
2005).$Atendendo$ao$ facto$ de$ser$um$ acontecimento$relativamente$recente,$ por$ um$
lado$explica$o$número$relativamente$baixo$de$estudos$que$abordem$o$B$-J$enquanto$
modelo$concetual$e$ferramenta$simbólica$(Moreira,$2013,$2015),$mas$também$oferece$
algumas$ reflexões$ sobre$ o$ incentivo$ da$ promoção$ de$ eventos$ musicais,$ do$
envolvimento$ de$ músicos$ em$ diversas$ causas$ sociais$ e$ políticas$ (Nunes,$ 2012).$ Este$
entendimento$histórico$de$viragem$do$século,$além$de$ser$de$elevada$premência$para$
o$ estudo$ levado$ a$ cabo,$ também$ se$ destaca$ enquanto$ referencial$ teórico$ reflexivo$
sobre$ os$ processos$ de$ usufruição,$ consumo$ e$ programação$ cultural,$ mais$
concretamente$musical.$Estamos$perante$uma$sensibilidade$partilhada$e$socialmente$
intensa,$uma$vez$que$envolve$uma$partilha$significativa$de$experiências$geracionais$e$
de$memórias$culturais$coletivas:$
!" .f&0-'" B$-J" 01-$BK$B'" 1'" K*BW*0CD$" $" K'B'%$n$" -*1#B'+" %'"
-)+#)B'"%*" .'&&'&" -$1#*.K$BT1*',"1$" W'-#$" %$" &*)" '+-'1-*" *"
01W+)M1-0'"L+$I'0&")10W0-'%$B*&,"K$B")."+'%$,"-$.I01'%$&"-$."'"
&)'" #$+*BT1-0'" *" *1L*1%B'.*1#$" %*" K+)B'+0%'%*&"%*" *&#0+$&,"
.E%0'"*"0%*1#0%'%*&"E#10-'&,"K$B"$)#B$"(Connor,$1997:$207).$
$ Partimos$da$ideia$do$B$-J"enquanto$'I&$+)#*"I*L011*B"(Guerra,$2015a)$para$o$
entendermos,$neste$momento,$como$parte$integrante$de$uma$cultura$de$massas,$que$
ocupa$um$papel$preponderante$e$particular$no$espaço$urbano.$Como$vimos,$o$B$-J"foi$
alvo$de$um$profundo$processo$de$democratização$(Moreira,$2013).$Prysthon$(2008)$e$
Stahl$ (2004)$ sugerem$ que$ existem$ profundas$ relações$ entre$ a$ música$ popular$ e$ a$
cidade,$ visto$ que$ historicamente$ as$ cidades$ ficaram$ associadas$ à$ produção$ de$
determinados$ estilos$ musicais,$ vejamos$ o$ exemplo$ de$ Nova$ Orleães$ e$ o$ i'ZZ,$ de$
Chicago$ e$ os$ I+)*&$ ou$ de$ Nashville$ com$ o$ -$)1#Bl.$ É$ comum$ a$ existência$ de$ uma$
predisposição$urbana,$que$incentive$e$potencie$a$construção$de$imaginários$coletivos$
em$ torno$ de$ uma$ prática$ artística,$ mais$ especificamente$ de$ um$ género$ musical,$ tal$
como$nos$refere$ Souza$*#" '+:$ “os$diversos$ lugares$de$encontros$ existentes$na$ cidade$
são$ ambientes$ diferentes$ onde$ grupos$ de$ pessoas$ se$ reúnem$ para$ a$ partilha$ de$
emoções$por$meio$da$música,$criando$um$espaço$potencial$de$acolhimento”$(Souza$*#"
'+,$2014:$169).$Ou$ainda,$$
$
27$
Além%disso,%as%sonoridades%e%os%ritmos,%de%uma%maneira%geral,%
não$ '$ se$ m$ a$ transformar$ desde$ o$ estabelecimento$ da$
sociedade( urbanoFindustrial,+ como+ o+ marcadores+ das+
diferenças*sócioespaciais*e*culturais*que*se*estabelecem*dentro*
*" 1'&" WB$1#*0B'&" %'&"-0%'%*&," 'K$1#'1%$" #'.IE." K'B'" $&"
*1#B*-B)Z'.*1#$&" *1#B*" $" +$-'+" *" $" L+$I'+" (Mendonça,$ 2007:$
144).$
$ As$próprias$músicas$incorporam,$nas$suas$letras$e$composições,$experiências$e$
práticas$urbanas,$bem$como$podem$ainda$estar$patentes$ruídos$particulares$da$cidade,$
de$forma$a$que$sejam$criadas$paisagens$sonoras$para$os$seus$ouvintes.$De$acordo$com$
as$conceções$de$Schafer$(2001),$estas$paisagens$sonoras$que$são$criadas$referem-se$a$
campos$de$interação$indefinidos,$que$vão$um$pouco$além$da$distinção$entre$urbano$e$
rural$ (Moreira,$ 2013).$ Contudo,$ algumas$ críticas$ podem$ ser$ apontadas$ a$ este$
pensamento,$como$por$exemplo:$
dizer& que& as& paisagens& urbanas& podem& ser& reduzidas& a& uma&
matriz'de'paredes'sonoras'é'interpretar'mal'a'noção'de'cidade.'
!" K'0&'L*." )BI'1'" W$0" *" #*." &0%$" -$1&#'1#*.*1#*" .$%*+'%'"
qK*+'&" B*+'Cd*&" %*" KB$%)CD$," '-B*&-*1#'Bc'.$&" 1X&," *r" K$B"
-$.)10%'%*&" %*W010%'&" K$B" %0/0&d*&" *-$1X.0-'&," -)+#)B'0&,"
E#10-'&," B*+0L0$&'&" *," -$1&*()*1#*.*1#*," $&" &*)&" K*BW0&"
'-f&#0-$&" *" .'B-$&" &$1$B$&" *&#D$" *." -$1&#'1#*" #B'1&0CD$"
(Arkett,$2004:$162).$
$ O$ conceito$ de$ paisagem$ sonora$ abarca$ a$ ideia$ de$ tempo$ e$ de$ espaço,$
conduzindo$ à$ incorporação$ da$ diversidade$ de$ temporalidades$ e$ de$ conteúdos$ locais$
que$se$encontram$inseridos$dentro$de$um$contexto$urbano$específico,$bem$como$dá$
origem$ a$ um$ surgimento$ sucessivo$ de$ eventos$ sonoros$ que,$ por$ sua$ vez,$ permitem$
explorar$a$dimensão$do$sensível,$do$consciente$e$do$inconsciente$das$relações$sociais$
urbanas.$Nas$cidades,$“as$vias$híbridas,$verdadeiras$encruzilhadas$culturais,$permitem$
o$surgimento$de$novos$espaços$societais,$onde$são$encontradas$interconexões$entre$o$
local$ e$ a$ experiência$ de$ mundialização”$ (Silveira$ &$ Junior,$ 2005:$ 10).$ Neste$ sentido,$
para$Bennett$(2005),$os$indivíduos$num$contexto$de$modernidade$tardia,$experienciam$
a$ música$ como$ parte$ de$ uma$ experiência$ urbana$ mais$ ampla,$ uma$ vez$ que$ esta$ se$
encontra$ presente$ de$ forma$ intensa$ nos$ diversos$ contextos$ e$ espaços$ urbanos$
(Simmell,$1997;$Costa$&$Lopes,$2015)$como$a$rua,$nos$&U$KK01L&"-*1#*B&,$nos$terminais$
$
28$
de$transporte$público,$em$cafés,$restaurantes,$ entre$outros.$A$apropriação$de$textos$
musicais$ em$ espaços$ urbanos$ influencia,$ então,$ os$ modos$ pelos$ quais$ os$ indivíduos$
experimentam$ esses$ espaços,$ afetando$ as$ suas$ perceções$ individuais$ de$ lugar$ e$
melhorando$a$dinâmica$reflexiva$pela$qual$os$indivíduos$se$localizam$em$determinados$
locais.$ Neste$ âmbito,$ DeNora$ (2004)$ argumenta$ que$ dentro$ dos$ espaços$ sociais,$ a$
música$pode$aludir$a$modos$de$agência$estética,$ou$seja,$a$sentimentos,$a$formas$de$
estar,$ a$ movimentos$ ou$ a$ ações,$ pelo$ que$ pode$ acabar$ por$ tornar$ próximos$ certos$
estilos$estéticos,$possíveis$de$ser$usados$como$referentes$para$configurar$a$ação$em$
tempo$real.$$
$ Portanto,$ no$ cenário$ urbano$ verifica-se$ uma$ maior$ tendência$ para$ o$
desenvolvimento$ de$ comunidades$ de$ sentido,$ “que$ partilham$ interesses$ comuns,$
vivenciam$determinados$valores,$gostos$e$afetos,$privilegiam$determinadas$práticas$de$
consumo”$ (Silveira$ &$ Junior,$ 2005:$ 4).$ No$ entanto,$ de$ acordo$ com$ Marcus$ (1995),$
neste$ contexto$ de$ fluidez$ contemporânea,$ estas$ comunidades$ podem$ encontrar-se$
dispersas$no$espaço,$mas$ainda$assim$permanecer$unidas$por$processos$múltiplos$de$
troca$ cultural,$ particularmente,$ musical.$ Neste$ âmbito,$ face$ ao$ enquadramento$ da$
modernidade$ tardia$ atual,$ o$ território$ urbano$ como$ espaço$ privilegiado$ para$ as$
práticas$ e$ atividades$ musicais$ tem$ vindo$ a$ perder$ alguma$ da$ sua$ força.$ Por$ isso,$
retomamos$o$conceito$de$pós-subcultura$para$nos$referirmos$ao$B$-J$contemporâneo$
e$às$suas$experiências$individuais,$assim$como$no$pensamento$de$Bennett$e$Peterson$
(2004)$ acerca$ das$ cenas$ musicais$ locais,$ translocais$ e$ virtuais.$ Em$ suma,$ parece$
indiscutível$que$a$música,$mais$concretamente$o$B$-J,$se$constitui$hoje$como$uma$arte$
que$se$encontra$profundamente$presente$nas$nossas$vivências$e$práticas$quotidianas,$
seja$como$atividade$principal$ou$secundária.$E$é$partindo$dessa$centralidade$do$B$-J$
na$vida,$que$se$desenvolveu$o$mote$desta$investigação.$
$
;M@M!G!#$416-*z{%!#!*!-%34(##0+{%!7%!rock!
$
Segundo$Guerra,$o$interesse$sociológico$renovado$pelas$teorizações$da$cultura$e$das$
artes$ na$ viragem$ do$ século$ XX$ assentou,$ essencialmente,$ na$ “(...)$ crescente$
$
29$
importância$dos$debates$em$torno$do$feminismo,$do$marxismo$(em$especial,$das$suas$
vertentes$mais$heterodoxas),$do$pós-estruturalismo,$da$semiologia$ou$da$psicanálise”$
(2015a:$ 10).$ Partindo$ deste$ cenário,$ o$ interesse$ académico$ pela$ música$ popular$
estabeleceu-se$ efetivamente$ a$ partir$ de$ 1981,$ em$ particular$ com$ a$ criação$ da$
Associação$Internacional$para$o$Estudo$da$Música$Popular$(IASPM)$e$com$o$arranque$
da$ publicação$ da$ revista$ V$K)+'B" 7)&0-$ (Marshall,$ 2011).$ De$ acordo$ com$ Marshall$
(2011),$o$campo$de$estudos$da$música$popular$assume-se,$de$uma$forma$geral,$como$
uma$ área$ interdisciplinar$ com$ contribuições$ significativas$ da$ sociologia,$ dos$ estudos$
culturais,$da$musicologia,$da$etnomusicologia,$entre$outros.$Neste$sentido,$“estudar$a$
música$em$sociedade$(porque$não$existe$fora$desta!)$supõe,$de$resto,$como$é$óbvio,$a$
cooperação$de$todas$as$Ciências$Musicais$entre$si$e$destas$com$as$Ciências$Sociais$e$
Humanas”$ (Carvalho,$ 1989:$ 16).$ A$ música$ tem$ sido$ cada$ vez$ mais$ objeto$ de$ estudo$
sociológico,$uma$vez$que$se$concluiu$que$existe$uma$“(...)$utilidade$em$estudar$música$
como$ resultado$ da$ atividade$ coletiva$ de$ pessoas$ envolvidas$ no$ processo$ musical”$
(Becker,$1986:$276).$Assim,$evidenciamos$que$foram$vários$os$autores$que$ofereceram$
contributos$ valiosos$ sobre$ a$ música$ em$ articulação$ com$ a$ sociologia:$ Weber,$ [1921]$
2017;$ Simmel,$ [1882]$ 2003,$ Adorno,$ [1962]$ 2011,$ Becker,$ [1963]$ 2008,$ Bourdieu,$
[1980]$2007;$DeNora,$[2000]$2004.$$
O$ sociólogo$ Max$ Weber$ foi$ um$ dos$ precursores$ no$ campo$ de$ estudos$ da$
sociologia$ da$ música,$ nomeadamente$ através$ da$ sua$ obra$ ^U*" 3'#0$1'+" '1%" >$-0'+"
Y$)1%'#0$1&" $W" 7)&0-$ ([1921]$ 2017)$ na$ qual$ desenvolveu$ uma$ teoria$ abrangente$ da$
música$ moderna$ ocidental$ baseada$ na$ racionalidade.$ Partindo$ dos$ seus$ contributos$
aferimos$que$o$mesmo$destaca$que$a$história$da$música$deve$ser$entendida$a$partir$da$
influência$ de$ fatores$ externos,$ mas$ também$ de$ fatores$ derivados$ da$ lógica$ musical,$
nomeadamente$o$desenvolvimento$da$moderna$conceção$dos$instrumentos$musicais$e$
o$aperfeiçoamento$da$notação$musical$(Weber,$2017).$No$fundo,$Weber$introduziu$a$
necessidade$ de$ ter$ em$ consideração$ diferentes$ elementos$ sociais$ associados$ à$
produção$ musical$ e$ que$ a$ podem$ influenciar,$ desenvolvendo$ uma$ abordagem$
renovada$que"assenta"na" ideia" de" que"a"arte"“tendo," como" todas" as"diversas"esferas"
têm,%linhas%de%ação%próprias%—$se$relaciona,$em$ligações$de$menor$ou$maior$tensão,$
$
30$
com$outras$dimensões$da$vida$social”$(Martinho,$2009:$645).$De$certa$forma,$mais$do$
que$desenvolver$uma$análise$da$música,$o$autor$reflete$sobre$a$linguagem$musical,$na$
medida$em$que$“parte,$para$estabelecer$as$suas$linhas$de$pesquisa,$da$existência$de$
um$ relacionamento$ ou$ paralelismo$ entre$ o$ desenvolvimento$ da$ sociedade$ e$ o$ da$
música$verificado$ao$nível$das$estruturas$linguísticas”$(Ruiz,$2012:$79).$Ou$seja,$Weber$
(2017)$acreditava$que$a$sociedade$ocidental$e$a$música$se$influenciavam$mutuamente$
resultando$ numa$ “simetria”,$ na$ medida$ em$ que$ uma$ obra$ musical$ teria$ de$ ser$
entendida$ sempre$ tendo$ em$ consideração$ a$ forma$ como$ é$ escrita$ e$ tocada.$ A$
interpretação$ individual$ dos$ sujeitos$ na$ teoria$ weberiana$ é,$ apenas,$ parte$ de$ uma$
interseção$de$vários$aspetos.$
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(Weber,$2017:$134)."
A$ partir$ desta$ abordagem$ musical$ abrem-se$ as$ portas$ para$ uma$ sociologia$
racional$e$estrutural,$uma$vez$que$o$vínculo$estabelecido$entre$música$e$sociedade$se$
torna$tangível$na$esfera$estrutural$interna,$na$medida$em$que$Weber$acreditava$que$
“o$uso$frequente$de$trocas$enarmónicas$na$música$moderna$tem$um$efeito$paralelo$no$
nosso$ sentimento$ harmónico”$ (Weber,$ 2017:$ 43).$ No$ entanto,$ a$ teoria$ weberiana$
desconsidera$ alguns$ elementos$ muito$ importantes$ na$ sua$ análise,$ tais$ como$ a$
dimensão$simbólica$da$música$ou$a$contribuição$social$do$valor$estético,$que$o$autor$
associa$ao$verdadeiro$processo$de$racionalização$da$música$ocidental$(Weber,$2017).$
À$semelhança$de$Weber,$Georg$Simmel$ (2003)$ foi$também$um$dos$primeiros$
teóricos$a$se$debruçar$sobre$a$abordagem$sociológica$da$música,$nomeadamente$ao$
estudar$ a$ origem$ do$ canto$ e$ da$ linguagem$ musical$ a$ partir$ de$ evidências$
antropológicas$e$sociológicas.$Apesar$do$autor$não$se$ter$dedicado$exclusivamente$a$
$
31$
este$campo$de$estudos,$Simmel$desenvolveu$vários$ensaios$sociológicos$em$torno$da$
música,$ considerando-a$ como$ detentora$ de$ um$ discurso$ emocionalmente$ forte$
(Etzkorn,$1973),$na$medida$em$que$a$assumia$como$(...)$a$arte$menos$mediada$pelo$
entendimento$ e$ em$ que$ pode$ haver$ uma$ transição$ direta$ entre$ os$ sentimentos$ do$
músico,$ a$ música$ e$ os$ sentimentos$ do$ ouvinte”$ (Ruiz,$ 2012:$ 77).$ Para$ Simmel$ é$
essencial$partir$ da$linguagem,$ isto$ é,$da$ música$vocalizada$ que$ assume$um$ papel$ de$
protagonista$crucial$na$expressão$das$emoções$do$discurso,$para$alcançar$um$efetivo$
entendimento$da$obra$musical$(Fesch,$2015).$$
e222g" '&" -B0'1C'&" %0W0-0+.*1#*" *1#*1%*." $" &0L10W0-'%$" %'&"
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W'-0+0%'%*"e222g"(Simmel,$2003:$36)2"
Na$ sua$ obra$ V&l-U$+$L0-'+" '1%" =#U1$+$L0-'+" >#)%0*&" $1" 7)&0-$(2003),$ Simmel$
considerou$o$evento$musical$eminentemente$social$e$focou$a$sua$atenção$no$papel$da$
melodia$e$do$ritmo$no$dia-a-dia$das$sociedades.$Deste$modo,$a$música$era$encarada$
como$um$“(...)$aspecto$das$relações$sociais,$através$do$qual$os$indivíduos$comunicam$
entre$si$e$que,$por$sua$vez,$mantem,$estrutura$e$reestrutura$essas$relações”$(Etzkorn,$
1964:$ 102).$ De$ certa$ forma,$ a$ música$ constituía,$ então,$ um$ instrumento$ de$
comunicação$ que$ transmitia$ os$ sentimentos$ do$ autor$ ou$ intérprete,$ uma$ vez$ que$
“observamos$que$as$pessoas$são$mais$faladoras$quando$estão$de$bom$humor,$do$que$
quando$estão$de$humor$calmo$ou$deprimido”$(Simmel,$2003:$37).!De$acordo$com$a$sua$
linha$ de$ pensamento,$ a$ música$ desempenha$ um$ papel$ basilar$ na$ constituição$ do$
discurso$ social$ e$ os$ seus$ contextos$ são$ fundamentais$ para$ o$ processo$ de$ criação$
musical.$ Portanto,$ para$ Simmel$ (2003),$ à$ partida,$ o$ som$ por$ si$ só$ não$ apresenta$
significado,$ a$ não$ ser$ que$ ele$ seja$ apreendido$ como$ transportando$ conteúdo$
emocional$ anteriormente$ assimilado$ e$ partilhado$ por$ um$ determinado$ número$ de$
indivíduos.$A$ música$ expressa$a$ experiência$ do$ músico$e$ apela$ ao$sentimento$ e$ não$
$
32$
propriamente$ao$intelecto.$É$neste$contexto,$que$a$abordagem$simmeliana$é$sensível$
ao$ator$social$e$à$complexidade$da$sua$construção$identitária$(García,$2000).$
A$partir$de$uma$perspetiva$distinta,$Theodor$Adorno$(2011)$considera$a$música$
como$ um$ reflexo$ da$ estrutura$ económica$ e$ social$ da$ sociedade$ em$ que$ se$ insere.$ É$
neste$sentido$que$Czajka$afere$que$a$sociologia$da$música$deve$possibilitar$uma$visão$
sócio-histórica,$ isto$ é,$ uma$ “(...)$ compreensão$ integral$ da$ música$ em$ todas$ as$ suas$
implicações”$(Czajka,$2013:$119).$Portanto,$o$fundamento$do$pensamento$de$Adorno$
(2011)$não$assenta$apenas$em$analisar$criticamente$o$papel$da$música$na$sociedade,$
mas$analisar$também$a$sociedade$em$si$e$dentro$da$cultura$de$massas.$É$a$partir$desta$
conceção,$que$o$autor$ acreditava$que$ao$analisar$ uma$determinada$obra$musical$ ou$
compositor,$ deveria$ ter-se$ em$ consideração$ as$ funções$ da$ música$ na$ sociedade$ e$
dentro$ da$ indústria$ cultural,$ pois$ a$ “questão$ social$ das$ forças$ produtivas$ e$ as$
circunstâncias$ de$ produção$ podem$ ser$ aplicadas$ à$ sociologia$ musical$ (...)”$ (Adorno,$
2011:$67).$$
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W$BC'&"KB$%)#0/'&"(Adorno,$2011:$67)."
Na$sua$análise,$Adorno$(2011)$ultrapassa$as$limitações$marxistas$ao$considerar$
o$surgimento$ e$ os$efeitos$ da$tecnologia$ e$da$ organização$económica$ modernas,$que$
permitem$o$desenvolvimento$da$cultura$de$massas$e,$consequentemente,$a$criação$de$
um$público$de$massas.$Nesta$medida,$ao$partir$da$obra$e$da$estrutura$musical,$Adorno$
(2011)$procura$compreender$de$que$forma$a$música$adquire$um$caráter$ideológico.$O$
autor$procura$ainda$analisar$e$compreender$os$usos$sociais$das$obras$musicais$como$
interiorizações$da$dimensão$social$dos$indivíduos,$uma$vez$que$“(...)$como$toda$a$arte,$
a$ música$ é$ tanto$ um$ facto$ social$ quanto$ uma$ auto-formação$ interior,$ uma$
autoliberação$ dos$ desideratos$ sociais$ imediatos”$ (Adorno,$ 2011:$ 68).$ Esta$ posição$
reducionista$da$obra$musical$perspetivava,$desta$forma,$uma$separação$entre$a$obra$
musical$ e$ a$ sua$ aura$ artística$ (Fesch,$ 2015).$ Este$ ponto$ de$ vista$ vai$ ao$ encontro$ do$
$
33$
conceito$ marxista$ de$ reificação$ da$ cultura$ (Marx,$ [1867]$ 1996)$ e$ revela$ uma$
abordagem$ social$ predominantemente$ economicista.$ Ao$ subordinar$ o$ valor$ artístico$
da$música$a$uma$dependência$económica,$Adorno$acaba$por$desaguar$no$processo$de$
estratificação$social,$na$medida$em$que$a$obra$musical$como$objeto$cultural$reflete$a$
estrutura$económica$e$social$(Fubini,$1988).$
Uma$visão$diferente$e$particularmente$focada$nos$campos$da$cultura$e$da$arte$
pertence$a$Howard$Becker$(2008),$que$produziu$múltiplos$estudos$acerca$da$produção$
e$consumo$culturais$que$se$tornaram$fulcrais$para$o$estudo$da$sociologia$da$cultura$e$
da$arte$numa$perspetiva$macro.$Os$seus$contributos$foram,$também,$de$importância$
fulcral$ para$ a$ estudo$ sociológico$ da$ música,$ particularmente$ no$ que$ diz$ respeito$ às$
questões$ de$ desvio,$ tema$ central$ para$ esta$ investigação.$ Becker$ contribuiu,$ assim,$
fortemente$ para$ a$ renovação$ da$ abordagem$ sociológica$ da$ produção$ cultural,$
nomeadamente$através$da$ideia$de$que$as$produções$culturais,$neste$caso$as$musicais,$
são$influenciadas$pelos$contextos$sociais$em$que$se$inserem$(Guerra,$2015a).$Uma$das$
suas$ maiores$ contribuições$ sociológicas$ prende-se$ com$ a$ ideia$ de$ que$ os$ diversos$
modos$ através$ dos$ quais$ os$ produtos$ culturais$ são$ criados$ dependem$ de$ ações$
coletivas$ estruturadas.$ A$ esta$ rede$ de$ interações$ ele$ designa$ de$ 'B#" m$B+%&" (Becker,$
1986).$Assim,$as$abordagens$de$Becker$“(...)$vão$além$do$artista$individual$de$forma$a$
tornar$evidente$a$rede$interativa$de$pessoas$que$trabalham$ao$seu$redor,$fornecendo-
lhes$materiais,$ensinando-os$a$transformar$esses$materiais$em$arte,$distribuindo$essa$
arte$por$eles$e,$eventualmente,$consumindo-os”$(Cluley,$2012:$202).$A$visão$de$Becker$
assenta$na$ideia$de$arte$como$estatuto$coletivo,$que$coordena$e$determina$os$papéis$
sociais$assumidos$por$cada$indivíduo$numa$determinada$prática$artística$e/ou$cultural$
(Martins,$2015)$e$esta$visão$aplica-se$também$à$prática$musical.$De$certa$forma,$o$seu$
pensamento$dá$relevância$aos$laços$interpessoais$e$às$relações$dentro$dos$'B#"m$B+%&$e$
destaca$ as$ redes,$ as$ convenções$ e$ os$ recursos$ como$ elementos$ fundamentais$ do$
mundo$da$arte$(Bottero$&$Crossley,$2011).$$
V'B'").'"$B()*&#B'"&01Wt10-'"%'B")."-$1-*B#$,"K$B"*n*.K+$,"$&"
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$
34$
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%*"'+L).'" W$B.',"*1#*1%*B"*"B*&K$1%*B"S"'KB*&*1#'CD$"%*/*"
#*B"&0%$"B*-B)#'%$"(Becker,$2008:$767).$
Através$do$seu$interesse$no$estudo$das$práticas$sociais$de$desvio,$Becker$(1986)$
também$procurou$uma$perspetiva$que$não$apenas$enfatizasse$os$modos$pelos$quais$as$
estruturas$ sociais$ impõem$ formas$ convencionais$ de$ produção$ cultural,$ mas$ também$
permitisse$que$os$atores$sociais$criassem$obras$de$arte$não$convencionais.$Por$isso,$as$
convenções$foram$alvo$de$ maior$atenção$por$parte$ deste$ autor,$uma$vez$que$ dizem$
respeito$a$crenças$e$práticas$rotinizadas$e$profundamente$enraizadas$(Becker,$1986).$
Contudo,$ é$ possível$ exercer$ práticas$ não$ convencionais$ e$ inovadoras,$ mas$ estas$
envolvem$ recursos,$ o$ que$ as$ torna$ mais$ difíceis$ de$ aceder$ e$ mais$ suscetíveis$ de$
receberem$ pouco$ reconhecimento$ social.$ Neste$ sentido,$ nos$ 'B#" m$B+%&$ cada$ grupo$
tende$a$estabelecer$as$suas$regras$de$forma$convencional$e$aqueles$que$não$agirem$de$
acordo$com$essas$orientações$são$depois$apelidados$de$$)#&0%*B&$(Becker,$2008).$Foi$
neste$contexto,$que$a$partir$dos$seus$estudos$sobre$os$consumidores$de$marijuana$e$
os$ músicos$ de$ i'ZZ,$ Becker$ concluiu$ que$ as$ identidades$ desviantes$ são$ socialmente$
construídas.$Aplicando$o$seu$pensamento$à$análise$musical,$a$música$é$aferida$como$
um$processo$social$e$as$obras$musicais$(e$interpretações$e$avaliações$dessas$obras)$são$
criadas$e$revistas,$tendo$como$referência$as$relações$sociais$e$os$contextos$sociais$das$
práticas$musicais$e$dos$sujeitos$envolvidos$nessas$práticas.$É$neste$âmbito,$que$muitos$
protagonistas$ da$ esfera$ da$ música$ B$-J" foram$ e$ tendem$ a$ ser$ julgados$ e$ rotulados$
como$ desviantes$ ou$ transgressores$ face$ às$ normas$ socialmente$ estabelecidas$ na$
sociedade.$
Igualmente$ importante$ no$ estudo$ das$ práticas$ sócio-musicais$ e$ das$ suas$
implicações$ nas$ relações$ sociais$ foi$ o$ contributo$ de$ Pierre$ Bourdieu$ (2007),$
nomeadamente$ a$ partir$ da$ reflexão$ sobre$ a$ forma$ como$ o$ campo$ social$ penetra,$
conduz$ e$ contextualiza$ a$ música.$ No$ meio$ académico,$ este$ sociólogo$ é$ reconhecido$
pela$ sua$ tentativa$ de$ estabelecer$ a$ cultura$ como$ um$ objeto$ legítimo$ do$ estudo$
científico,$e$esteve$particularmente$interessado$nos$modos$pelos$quais$a$produção$e$o$
$
35$
consumo$da$arte$como$objeto$cultural$determinam$as$relações$sociais$no$contexto$dos$
campos.$As$suas$noções$de$capital$cultural,$campo$e$U'I0#)&$ainda$hoje$se$encontram$
em$voga$nas$mais$diversas$análises$sociológicas,$culturais$e$artísticas.$Para$Bourdieu,$é$
na$relação$que$se$estabelece$entre$as$características$inerentes$à$condição$económica$e$
intelectual$dos$indivíduos$e$ao$espaço$que$estes$ocupam$no$campo$social$que$oU'I0#)&$
se$ constrói,$ “(...)$ como$ fórmula$ geradora$ que$ permite$ justificar,$ ao$ mesmo$ tempo,$
práticas$e$produtos$classificáveis,$ assim$como$julgamentos,$por$ sua$vez,$classificados$
que$constituem$estas$práticas$e$estas$obras”$(Bourdieu,$2007:$162-163).$
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1f.*B$" %*" '1$&" %*" *&#)%$g" *," &*-)1%'B0'.*1#*," '" $B0L*."
&$-0'+$(Bourdieu,$2007:$9).$$
Neste$sentido,$Bourdieu$argumenta$que$determinado$capital$confere$&#'#)&$aos$
seus$possuidores$e$permite$a$entrada$em$determinados$grupos,$que$excluem$aqueles$
que$ não$ o$ possuem,$ uma$ vez$ que$ “(...)$ as$ diferenças$ de$ capital$ cultural$ marcam$ as$
diferenças$entre$as$classes”$(Bourdieu,$2007:$67).$Por$outras$palavras,$segundo$Andy$
Bennett$(2005),$as$práticas$quotidianas$adotadas$pelos$indivíduos$enviam$mensagens$
sobre$o$seu$nível$de$riqueza,$conquista$e$&#'#)&$na$sociedade.$Para$Bourdieu$(2007),$
embora$os$estilos$de$vida$se$possam$parecer$com$práticas$culturais$autonomamente$
construídas$e$articuladas$reflexivamente,$eles$permanecem$inextricavelmente$ligados$
à$ experiência$ de$ classe,$ um$ processo$ social$ que$ Bourdieu$ designa$ por$ U'I0#)&2$ Para$
Bourdieu,$oU'I0#)&$é$fixado$ à$identidade$do$ indivíduo,$na$medida$ em$que$existe$um$
vínculo$direto$entre$oU'I0#)&$de$uma$pessoa$e$a$acumulação$de$formas$particulares$de$
capital$cultural,$um$recurso$primário$através$do$qual$os$estilos$de$vida$são$construídos.$
Ou$seja,$
'" -+'&&*" -$1&#0#)0" )." *&K'C$" B*+'#0/'.*1#*" ')#X1$.$," -)i'"
*&#B)#)B'" E" %*W010%'" K*+'" %0&#B0I)0CD$" %$" -'K0#'+" *-$1X.0-$" *"
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$
36$
-'B'-#*B0Z'%'"K$B").'"-*B#'"-$1W0L)B'CD$"%*&&'"%0&#B0I)0CD$"S"
()'+"-$BB*&K$1%*")."-*B#$"*&#0+$"%*"/0%'"(Bourdieu,$2007:$260)."
Bourdieu$ (2005)$ refletiu,$ também,$ sobre$ a$ forma$ como$ as$ obras$ de$ arte$
representam$ a$ objetificação$ de$ uma$ relação$ de$ distinção.$ No$ fundo,$ ele$ argumenta$
que$toda$a$apropriação$de$uma$obra$de$arte,$que$é$a$personificação$de$uma$relação$
mais$geral$de$distinção$ social,$é$estruturada$ objetivamente$pelas$distinções$ culturais$
nela$inscritas$(Hier,$2005).$Neste$contexto,$a$posição$ocupada$no$conflito$entre$capital$
cultural$e$económico,$assim$como$os$recursos$disponíveis$utilizados$definem$os$lugares$
que$os$indivíduos$ocupam$no$campo.$Porém,$face$à$globalização$da$ação$dos$dia$e$à$
amplificação$das$lógicas$de$mercado,$esta$luta$prende-se,$igualmente,$com$a$definição$
de$limites$do$campo$cultural,$devido$à$permeabilidade$das$suas$fronteiras$entre$a$arte$
e$ a$ vida$ (Bourdieu,$ 1993).$ Face$ a$ esta$ fluidez$ de$ limites,$ particularmente$ dentro$ do$
campo$ da$ prática$ musical$ e$ da$ própria$ cultura$ B$-J$ podemos$ igualmente$ falar$ de$
U'I0#)&$ artístico,$ para$ nos$ referirmos$ às$ disposições$ adquiridas$ pelos$ artistas$ e/ou$
músicos,$ e$ que$ servem$ como$ instrumentos$ de$ expressão$ da$ sua$ posição$ social$ no$
campo$da$música$(Fowler,$1997).$Como$o$campo$das$práticas$musicais$não$apresenta$
as$ mesmas$ características$ dos$ campos$ estruturados$ e$ fechados$ estudados$ por$
Bourdieu$(1983,$2007),$este$U'I0#)&$não$é$apenas$produto$das$posições$sociais$que$os$
músicos$ ocupam,$ mas$ de$ toda$ uma$ lógica$ plural$ que$ envolve$ as$ suas$ produções$
musicais,$ pelo$ que$ a$ questão$ da$ liberdade$ e$ autonomia$ dos$ agentes$ não$ deve$ ser$
colocada$da$mesma$forma$(Garson,$2018).$No$campo$do$B$-J$em$particular,$verificam-
se$igualmente$determinadas$condutas$e$atributos$que$os$indivíduos$devem$partilhar$e$
que$ podemos$ assumir$ como$ capital$ cultural,$ vejamos$ o$ exemplo$ do$ vestuário,$ dos$
adereços,$ ou$ de$ práticas$ de$ consumo$ musical$ (seja$ através$ de$ concertos,$ rádio,$
discos...),$que$conferem$distinção$aos$membros$do$grupo$face$a$outros.$
Segundo$ Bourdieu$ (2007),$ no$ contexto$ da$ sociedade$ capitalista$ de$ consumo$
contemporânea,$o$fator$classe$torna-se$uma$mediação,$isto$é,$torna-se$em$algo$que$é$
apreendido$ e$ compreendido$ através$ de$ formas$ particulares$ de$ práticas$ de$ consumo$
em$ relação$ a$ um$ conjunto$ particular$ de$ bens$ e$ serviços.$ Aqueles$ que$ possuem$ os$
meios$ para$ se$ apropriarem$ simbolicamente$ de$ bens$ culturais$ estão$ mais$ do$ que$
$
37$
dispostos$a$acreditar$que$é$somente$através$da$sua$dimensão$económica,$que$as$obras$
de$ arte$ e$ os$ bens$ culturais$ em$ geral$ adquirem$ raridade$ (Bourdieu,$ 2005).$ Neste$
sentido,$as$experiências$de$classe$permanecem$com$o$indivíduo,$continuando$a$moldar$
a$sua$identidade$à$medida$que$se$tornam$socialmente$móveis$(Bennett,$2005;$Bennett$
&$Peterson,$ 2004;$ Bottà,$ 2009).$Contudo,$ Bourdieu$ (2007)$ afirma$ que$ a$ importância$
das$práticas$reside$no$que$socialmente$se$faz$com$elas$e$não$apenas$nas$práticas$em$si.$
Como$a$apropriação$de$produtos$culturais$pressupõe$disposições$e$competências$que$
não$ são$ distribuídas$ universalmente$ (embora$ pareçam$ inatas),$ esses$ produtos$ estão$
sujeitos$a$uma$apropriação$exclusiva,$material$ou$simbólica$e$funcionam$como$capital$
cultural$(Bourdieu,$2005).$$
A$ partir$ de$ uma$ abordagem$ mais$ recente$ e$ renovada,$ Tia$ DeNora$ (2004)$
refletiu$acerca$ da$ participação$ dos$ indivíduos$ nas$ práticas$ musicais,$ nomeadamente,$
através$ das$ respostas$ estilísticas$ à$ música,$ em$ especial$ as$ praticadas$ pelos$ jovens.$
Desde$ cedo,$ que$ a$ música$ inspirou$ múltiplos$ estilos$ visuais$ por$ parte$ da$ juventude,$
que$ serviram$ como$ forma$ de$ manifestar$ a$ sua$ preferência$ relativamente$ um$
determinado$tipo$de$música,$mas$também$como$forma$de$se$demarcarem$da$restante$
sociedade$em$geral$(Hebdige,$1979;$Chambers,$1985).$DeNora$(2004)$considera,$então,$
que$a$música$é$mobilizada$como$um$recurso$para$produzir$cenas,$rotinas,$suposições$e$
ocasiões$ que$ constituem$ a$ vida$ social$ e$ que$ se$ manifestam$ através$ de$ diferentes$
estilos$de$vida$subjetivos$dos$indivíduos.$Uma$vez$que$DeNora$argumenta$que$“(...)$a$
música$ articula$ a$ vida$ social$ e$ a$ vida$ social$ articula$ a$ música”$ (DeNora,$ 2004:$ 5),$ as$
práticas$e$os$consumos$ musicais$assumem$um$ papel$preponderante$na$ produção$ da$
própria$ identidade$ dos$ indivíduos$ ao$ longo$ da$ vida.$ As$ trajetórias$ biográficas$ dos$
artistas$ são$ também$ tidas$ em$ consideração,$ assim$ como$ a$ esfera$ social$ em$ que$ se$
inserem,$o$que$acaba$por$ressaltar$as$relações$entre$arte$e$público$(Guerra,$2015a).$As$
práticas$musicais$são$influenciadas,$segundo$a$autora,$por$múltiplos$fatores$sociais$e$
promovem$ uma$ expressão$ privilegiada$ da$ individualidade$ de$ cada$ sujeito.$ Contudo,$
devemos$ter$atenção$que$o$processo$de$atribuição$de$significados$é$pessoal$e$social,$
na$medida$em$ que$também$resulta$ da$negociação,$ da$modificação$e$ da$reafirmação$
$
38$
social.$ As$ vivências$ e$ experiências$ quotidianas$ originam,$ assim,$ determinados$
pressupostos,$através$das$quais$interpretamos$a$música.$
!" .f&0-'" 1D$" E" 'K*1'&" )." .*0$"s&0L10W0-'#0/$s" $)"
s-$.)10-'#0/$s2" =+'" W'Z" .)0#$" .'0&" %$" ()*" #B'1&.0#0B"
&0L10W0-'%$" '#B'/E&" %*" .*0$&" 1D$" /*BI'0&2" !$" 1c/*+" %'" /0%'"
()$#0%0'1'," '" .f&0-'" #*." K$%*B2" =&#b" 0.K+0-'%'" *." #$%'&" '&"
%0.*1&d*&"%'"'CD$"&$-0'+2"(DeNora,$2004:$17)."
O$ significado$ da$ música$ e$ do$ B$-J$ não$ é,$ nesta$ medida,$ um$ aspeto$ inerente$
nem$ depende$ de$ capacidades$ cognitivas$ dos$ indivíduos.$ Os$ significados$ musicais$
decorrem,$ portanto,$ do$ processo$ comunicativo$ e$ da$ interação$ entre$ pessoas$ e,$ em$
virtude$ de$ experiências$ formais$ ou$ informais,$ aprendemos$ a$ ouvir$ música$ como$
padrões$de$som$coerentes$e$significativos,$do$mesmo$modo$que$aprendemos$a$atribuir$
sentido$a$tudo$no$mundo$social$(Campos,$2007).$Por$isso,$a$comunidade$de$ouvintes$
do$ B$-J,$ na$ medida$ em$ que$ partilha$ um$ conjunto$ de$ conhecimentos$ e$ condutas$ é$
crucial$ para$ o$ desenvolvimento$ do$ processo$ de$ significação$ deste$ estilo$ de$ música.$
Este$processo$de$atribuição$de$significados,$de$acordo$com$Guerra$(2015b),$resulta$da$
socialização,$que$à$partida,$tende$a$disseminar$a$ideologia$dominante$no$que$toca$ao$
gosto$ musical.$ Para$ DeNora$ (2004),$ a$ música$ é$ ainda$ uma$ ferramenta$ de$
autorregulação$individual,$no$sentido$em$que$se$encontra$ligada$à$alteração$e$gestão$
de$estados$emocionais,$uma$vez$que$os$atores$sociais$empregam$ativamente$a$música$
para$criar$o$seu$eu$emocional$e$biográfico$contínuo.$Podemos$aferir$que$para$a$autora,$
a$música$age$como$um$instrumento$que$permite$moldar$a$banda$sonora$interna$das$
subjetividades$individuais$(DeNora,$2004).$Neste$sentido,$a$autora$faz$alusão$a$Adorno,$
particularmente$ à$ sua$ ênfase$ na$ música$ como$ uma$ força$ potencialmente$
transformadora$(e$manipuladora)$da$consciência$e$da$prática$cognitiva,$focando-se$nos$
processos$ através$ dos$ quais$ a$ música$ invade$ a$ vida$ social$ e$ individual$ dos$ sujeitos$
(DeNora,$2004).$
!".f&0-'"K$%*"01W+)*1-0'B"-$.$"'&"K*&&$'&"-$.Kd*."$&"&*)&"
-$BK$&,"-$.$"&*"-$.K$B#'.,"-$.$"*nK*B0.*1#'."'"K'&&'L*."
%$"#*.K$,"-$.$"&*"&*1#*."F"*."#*B.$&"%*"*1*BL0'"*"*.$CD$"v"
'-*B-'"%*"&0".*&.'&,"%$&"$)#B$&"*"%*"%*#*B.01'%'&"&0#)'Cd*&2"
$
39$
9*&&*" &*1#0%$," '" .f&0-'" K$%*" 0.K+0-'B" *," *." '+L)1&" -'&$&,"
KB$/$-'B".$%$&"%*"-$1%)#'"'&&$-0'%$&"(DeNora,$2004:$17).$
Em$suma,$Tia$DeNora$desenvolveu$uma$abordagem$renovada$da$sociologia$da$
música$e$da$sociologia$da$arte$em$geral,$colocando$mesmo$em$causa$esses$conceitos,$
uma$vez$que,$para$a$autora,$eles$implicam$considerar$a$música$ou$a$arte$e$a$sociedade$
como$ entidades$ separadas$ (DeNora,$ 2003).$ Por$ isso,$ Paula$ Guerra$ defende$ que$ se$
deve,$em$contrapartida$“(...)$tratar$a$arte$não$como$um$simples$objeto$para$se$admirar$
de$vez$em$quando,$mas$uma$força$ativa$na$vida$social$dos$indivíduos”$(Guerra,$2019:$
277-378).$
De$uma$forma$geral,$as$primeiras$contribuições$no$campo$da$sociologia$musical$
tinham$como$intenção$aplicar$alguns$elementos$de$teorias$não$musicais$a$esta$área,$no$
entanto,$ainda$hoje$não$existe$um$verdadeiro$consenso$acerca$daquilo$que$é$ou$não$é$
sociologia$ da$ música:$ “se$ a$ música$ atraiu$ facilmente$ as$ leituras$ sociais,$ houve$ uma$
forte$ resistência$ a$ uma$ sociologia$ sistemática$ da$ música,$ cujo$ objetivo$ seria$ explicar$
valores$ou$conteúdos$musicais$por$referência$a$fatores$sociológicos”$(Hennionn$2002:$
1).$Desta$forma,$a$abordagem$sociológica$da$música,$“(...)$não$tem$acompanhado$do$
mesmo$ passo$ a$ transformação$ que$ se$ verifica$ um$ pouco$ por$ toda$ a$ parte$ (...)”$
(Carvalho,$1989:$15).$No$entanto,$é$de$salientar$que$este$campo$sociológico$teve$um$
I$$.$durante$a$última$década$do$século$XX$e$os$primeiros$anos$do$século$XXI$e$isso$é$
visível$ através$ do$ “(...)$ crescente$ número$ de$ publicações$ que$ abordam$ a$ música$ de$
alguma$forma,$seja$na$criação,$disseminação$ou$receção$de$vários$géneros$musicais”$
(Dowd,$2007:$249).$Ainda$assim,$o$estudo$das$práticas$sociais$associadas$às$atividades$
musicais$nas$culturas$contemporâneas$revela$muitos$paradoxos,$porque$
1'&"'B#*&"*"1'".f&0-'"1)1-'"U$)/*")."K*Bc$%$"1'"U0&#XB0'"*."
()*" '" KB*&*1C'" &0.)+#T1*'" %*" *nKB*&&d*&" *&#0+c&#0-'&"
#B'%0-0$1'0&" *" -$1#*.K$BT1*'&," %$" &0.K+*&"*"%$"-$.K+*n$,"%$"
W$+J"*"%$")BI'1$,"%$"KB0/'%$"*"%$"-$.*B-0'+,"%$"'-f&#0-$"*"%$"
*+*#BX10-$,"#*1U'"&0%$"#D$"*n#*1&$"()'1#$"U$i*"eEtzkorn,$1982:$
557).$
O$mais$importante$neste$campo$de$estudos$parece$assentar,$desta$forma,$na$
consideração$de$que$a$música$popular$tem$as$suas$características$próprias$e$distintivas$
$
40$
e$que,$por$isso,$deve$ser$entendida$dentro$do$seu$conteúdo$e$do$seu$contexto.$Daí$que$
o$ contexto,$ ou$ seja,$ a$ análise$ da$ relação$ entre$ a$ música$ e$ a$ vida$ social$ seja$ muito$
importante$na$investigação$sobre$sociologia$da$música.$Este$campo$de$estudos$pode,$
então,$ ser$ definido$ como$ uma$ corrente$ que$ “(...)$ toma$ como$ base$ para$ a$ sua$
investigação$as$circunstâncias$materiais$da$produção$e$receção$da$música$e,$portanto,$
começa$por$determinar$as$condições$sociais$gerais$sob$as$quais$a$música$é$produzida$
(Boehmer,$1980:$432).$
No$entanto,$falar$de$B$-J"é$também$falar$da$sua$história,$uma$vez$que$todos$os$
fenómenos$sociais$têm$uma$origem,$um$percurso$e$uma$sucessão$de$acontecimentos$
fundamentais$ para$ o$ seu$ desenvolvimento$ e$ consolidação.$ Portanto,$ torna-se$ de$
extrema$ importância$ para$ compreender$ a$ importância$ sociológica$ deste$ fenómeno,$
conhecer$ os$ seus$ primórdios$ e$ a$ sua$ consequente$ cronologia$ de$ acontecimentos.$
Neste$sentido,$é$imprescindível$começarmos$por$centrar$o$nosso$foco$em$dois$espaços$
territorialmente$ distintos,$ mas$ determinantes$ para$ o$ surgimento$ e$ posterior$
consolidação$deste$fenómeno$no$mundo:$os$EUA$e$o$Reino$Unido.$
$
;MXM!L%!4(60-|46%!#(*!%!D1e6+!
!
Townsend$(1997)$argumenta$que$as$origens$do$B$-J$remontam$à$época$da$escravatura$
norte-americana$ e$ que$ esta$ matriz$ acabou$ por$ o$ moldar$ e$ torná-lo$ numa$ forma$
musical$ híbrida,$ na$ medida$ em$ que$ constituía$ um$ produto$ de$ duas$ culturas$ muito$
distintas:$
Deste% modo,% o% rock% é% uma% expressão% musical% brida% afroF
'.*B0-'1'," '01%'" ()*" '&" &)'&" B'cZ*&" .'0&" W$B#*&" &*i'." $"
&$WB0.*1#$" *" '" &$IB*/0/M1-0'" %*" L*B'Cd*&" %*" *&-B'/$&" ()*"
*nK*B0*1-0'B'." $" -'Bb-#*B" +0I*B#'%$B" *" #B'1&-*1%*1#*" ()*" '"
.f&0-'"K$%*"#*B,"'$"K*B.0#0BF+U*&").'"'I&#B'CD$"*."B*+'CD$"'$"
&$WB0.*1#$"()$#0%0'1$"(Guerra,$2015a:$147)."
Neste$contexto,$as$raízes$negras$do$B$-J$foram$as$precursoras$na$atribuição$de$
significados$emocionais$a$este$tipo$de$música$(Paraire,$1992).$Posteriormente,$foram$
duas$correntes$musicais$distintas$que$acabaram$por$dar$origem$a$este$estilo$de$música,$
$
41$
nomeadamente$o$BUl#U."o"I+)*&$e$a$-$)1#Bl"'1%"m*&#*B1".)&0-$(Chacon,$1995).$Estas$
duas$ tipologias$ musicais$ em$ si$ já$ resultavam$ de$ uma$ evolução$ própria$ de$ diferentes$
ritmos$ e$ abordagens,$ mas$ encontravam-se$ harmonizadas,$ de$ certa$ forma,$ por$
características$ comuns$ e$ uma$ origem$ próxima:$ “(...)$ ambas$ analisam$ as$ experiências$
reais$de$pessoas$reais$em$imagens,$muitas$vezes,$mais$do$que$em$palavras$gráficas$e$
representam$ algo$ genuíno$ e$ intacto$ num$ mundo$ que$ já$ não$ parecia$ dominado$ por$
mais$ nada,$ a$ não$ ser$ dinheiro$ e$ consumo”$ (Wicke,$ 1995:$ 39).$ As$ duas,$ ao$ serem$
expressas$ vocalmente,$ faziam$ transparecer$ as$ emoções$ das$ situações$ que$ relatavam$
nos$seus$temas.$Contudo,$apesar$destas$proximidades,$a$sua$exploração$comercial$era$
distinta.$Não$obstante,$o$conservadorismo$da$-$)1#Bl".)&0-$por$um$lado$e$a$energia$
rebelde$do$BUl#U."o"I+)*&$por$outro$revelaram-se$a$essência$do$B$-J[1[B$++,$exibindo$
uma$ambivalência$que$ia$ao$encontro$da$forma$como$os$adolescentes$se$sentiam$em$
relação$ à$ vida$ quotidiana.$ É$ a$ partir$ destes$ alicerces,$ então,$ que$ a$ música$ B$-J$se$
constitui,$pelo$que$não$devemos$reduzir$o$seu$surgimento$apenas$à$música$negra,$mas$
antes$a$um$encontro$intercultural$(Guerra,$2015a).$Apesar$deste$seu$caráter$híbrido,$o$
B$-J$ tornou-se$ num$ elemento$ crucial$ da$ cultura$ americana$ a$ partir$ da$ década$ de$
cinquenta$e$“é,$portanto,$um$fenómeno$cultural$e$social$cuja$originalidade$real$se$situa$
muito$para$lá$do$plano$estritamente$musical;$o$B$-J$nasceu$deste$encontro$entre$uma$
música$que$já$existia,$o$I+)*&$dos$negros,$e$uma$atitude$nova$e$branca:$a$revolta$dos$
adolescentes”$(Paraire,$1992:$49).$
Note-se,$não$obstante$muitos$académicos$distinguirem$1955$como$o$primeiro$
ano$do$B$-J"'1%"B$++,$parece$não$existir$uma$data$consensual$que$marque$uma$linha$
divisória$clara$entre$o$B$-J"'1%"B$++,$o$BUl#U."'1%"I+)*s$e,$ainda,$alguma$-$)1#Bl".)&0-$
até$ uns$ anos$ mais$ tarde$ (Covach$ &$ Flory,$ 2012).$ De$ acordo$ com$ Bouchey$ (1989),$ a$
expressão$ B$-J[1[B$++" popularizou-se$ em$ 1951,$ quando$ um$ %0&-Fi$-J*l$ da$ estação$ de$
rádio$W.$J.$W.$chamado$Alan$Freed$decidiu$nomear$o$seu$programa$de$rádio$de$7$$1"
:$L" _$)&*" 3$-J[1[3$++" V'B#l.$ Porém,$ há$ registos$ anteriores$ de$ utilização$ desta$
expressão,$nomeadamente$ no$tema$ ^B'/*+01L"30/*B&0%*" I+)*&$de$ Robert$Johnson$ (de$
1937),$w$$%"B$-J01[#$10LU#$de$Roy$Brown$(de$1947)$ou$3$-J"'++"10LU#$dos$3'/*1&$(de$
1948).$No$entanto,$ é$comum$ apontar-se$ o$ano$ de$1955$como$ um$ponto$ de$viragem$
$
42$
para$ aquilo$ que$ existiu$ antes$ e$ depois$ do$ B$-J2" É$ também$ neste$ mesmo$ ano$ que$ é$
lançado$o$ single$3$-J" 'B$)1%"#U*" -+$-J$de$p0++" _'+*l"'1%" ^U*"5$.*#&,$ considerado$o$
primeiro$êxito$de$B$-J$à$escala$global$(Martins,$2014)$e$que$inaugurou$a$primeira$onda$
deste$género$musical,$que$“alterou$profundamente,$sem$dúvida,$ os$hábitos$musicais$
da$ população$ branca$ dos$ EUA$ e$ depois$ da$ Europa”$ (Paraire,$ 1992:$ 48).$ A$ própria$
designação$B$-J"'1%"B$++,$que$inicialmente$era$usada$para$descrever$o$movimento$de$
um$ navio$ no$ oceano,$ foi$ aplicada$ a$ este$ novo$ género$ musical,$ devido,$
fundamentalmente,$ao$seu$fervor$espiritual$e$como$analogia$ao$movimento$corporal$
durante$o$ato$sexual$(Zhang,$2013).$
De$acordo$ com$ Guerra$(2015a),$ a$ emergência$do$ B$-J$ na$sua$ aura$ mais$pura$
está$ associada$ ao$ período$ pós$ Segunda$ Guerra$ Mundial,$ que$ correspondeu$ a$ uma$
época$marcada$por$múltiplas$transformações$sócioeconómicas.$Estas$transformações$
que$ se$ desenrolaram$ ao$ longo$ da$ década$ de$ cinquenta,$ acabaram$ por$ resultar$ num$
novo$panorama$social,$“(…)$que$teve$as$suas$raízes$em$todo$o$turbilhão$do$pós-guerra,$
com$ a$ revolta$ da$ juventude$ face$ ao$ &#'#)&" ()$$ e$ ao$ conformismo$ num$ quadro$ de$
mudanças$ mais$ rápidas$ e$ de$ paradoxos$ inesperados”$ (Cambiasso,$ 2008:$ 11).$ Neste$
âmbito,$o$ideal$de$vida$americano$impulsionado$pela$melhoria$das$condições$sociais$e$
pela$ aplicação$ de$ políticas$ de$ promoção$ da$ natalidade$ permitiu$ a$ constituição$ do$
chamado$ I'Il" I$$.$ (Martins,$ 2014).$ Na$ época,$ os$ modelos$ sociais$ vinculados$ aos$
jovens$caracterizavam-se,$essencialmente,$pela$promoção$de$um$ensino$conservador,$
que$pretendia$formá-los$para$se$tornarem$modelos$exemplares$na$sociedade,$indo$ao$
encontro$do$ideal$de$vida$americano.$Contudo,$com$o$progressivo$desenvolvimento$da$
indústria$ publicitária$ e$ a$ consequente$ intensificação$ da$ invocação$ ao$ consumo,$ os$
adolescentes$americanos$ começaram$ a$sentir$ o$peso$ e$a$rigidez$ das$regras$ incutidas$
pelo$ sistema$ de$ ensino$ e$ sentiram$ a$ necessidade$ de$ começar$ a$ lutar$ pela$ sua$
singularidade.$ Segundo$ Bouchey$ (1989),$ é$ a$ partir$ deste$ período$ que$ os$ #**1'L*B&$
começam$a$reivindicar$a$sua$autonomia$que$anteriormente$lhes$era$negada$e$o$B$-J"
'1%"B$++$foi$a$banda$sonora$perfeita$para$essa$reivindicação.$Assim,$“os$I'Il"I$$.*B&$
exigiam$ música$ que$ falasse$ para$ a$ sua$ própria$ condição.$ Os$ temas$ apropriados$
incluíam$ uma$ mistura$ de$ alegrias$ excruciantes$ do$ primeiro$ amor,$ discussões$ com$ os$
$
43$
pais$ e$ frustrações$ com$ o$ ensino$ secundário$ e$ a$ geração$ mais$ velha$ em$ geral”$
(Peterson,$1990:$98).$
Ao$contrário$do$que$aconteceu$nas$gerações$anteriores,$os$adolescentes$I'Il"
I$$.*B&$maioritariamente$da$classe$média$não$se$viam$mais$obrigados$a$enfrentar$as$
responsabilidades$da$vida$adulta$após$o$término$do$ensino$secundário$(Covach$&$Flory,$
2012).$ Pelo$ contrário,$ eles$ tinham$ agora$ a$ possibilidade$ de$ desenhar$ o$ seu$ próprio$
percurso$juvenil$(Wicke,$1995)$e$isso$incluía$explorar$novas$práticas$de$lazer$associadas$
ao$B$-J$ e$opostas$ aos$ ideais$padronizados$ da$ vida$adulta.$ Muitos$ dos$adultos$ e$ pais$
destes$ I'Il" I$$.*B&$ que$ se$ opunham$ ao$ B$-J" '1%" B$++,$ queixavam-se$ da$ natureza$
sexual$das$letras$e$das$performances$de$alguns$dos$seus$artistas,$pois$temiam$que$isso$
despertasse$ desejo$ sexual$ nos$ adolescentes$ (Vaillancourt,$ 2011).$ Por$ esta$ razão,$
ficaram$célebres$as$alusões$ao$B$-J$como$uma$música$‘do$diabo’,$uma$ideia$que$já$se$
tinha$popularizado$com$o$mito$ de$que$o$músico$Robert$Johnson$ teria$vendido$a$sua$
alma$ ao$ demónio$ em$ troca$ dos$ seus$ admiráveis$ dotes$ como$ guitarrista.$ Assim,$ o$
B$-J[1[B$++$ constituiu-se$ como$ um$ produto$ direto$ da$ fusão$ da$ autoconsciência$ dos$
adolescentes$ e$ da$ música$ popular.$ Resumindo,$ na$ linha$ de$ pensamento$ de$ Tagg$
(2003),$ o$ sucesso$ desta$ expressão$ musical$ junto$ dos$ jovens$ residia,$ essencialmente,$
num$conjunto$de$fatores,$tais$como:$
'" LB'1%*" KB$K$BCD$" %*" K*&&$'&" -$." 0%'%*&" -$.KB**1%0%'&"
*1#B*" $&" ?@" *" $&" H@" '1$&" e1$&" =282!," B*KB*&*1#'/'." ?@x" %'"
K$K)+'CD$"*."?P@Rg,"'"%0&K$10I0+0%'%*"%*".'0$B*&"B*1%0.*1#$&"
K$B"K'B#*"%'&"W'.c+0'&,"$"I'0n$"$)"01*n0&#*1#*"1c/*+"%*"%*&K*&'&"
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KB$&&*L)0.*1#$"1$&"*&#)%$&"K$B"K'B#*"%'&"K$K)+'Cd*&"i)/*10&,"
'" *.*BLM1-0'" %*" )." LB)K$" &$-0'+" &*." 0%*1#0%'%*" .)0#$" W0n'"
W'-*"'$"#B'I'+U$,"$"').*1#$"%'"0.K$B#T1-0'"%'&"B*L0d*&"%$"&)+"
*"%$"$*&#*"%$&"=282!"eB*&)+#'1#*&"%'"*nK'1&D$"%'"01%f&#B0'"%$"
K*#BX+*$"*"%'"%*W*&'g,"'&".)%'1C'&"1'"01%f&#B0'"%$&"dia"*"
K)I+0-0%'%*" 1$&" =282!" *" '&" .$%0W0-'Cd*&" 1$&" K'%Bd*&" %*"
')%0CD$"(Guerra,$2015a:$150)."
$$ A$emergência$ do$ B$-J$ também$ se$ deveu$ a$ um$ conjunto$ de$ transformações$ e$
circunstâncias$sociais,$que$decorreram$em$diversos$domínios:$no$Direito$(através$da$lei$
de$direitos$ de$ autor,$da$ lei$de$ patentes$ e$da$ regulamentação$ do$governo$ federal$de$
licenças$ de$ transmissão$ de$ estações$ de$ rádio),$ na$ estrutura$ da$ indústria$ fonográfica$
$
44$
(nomeadamente,$na$relação$entre$companhias$discográficas$e$estações$ de$rádio),$na$
estrutura$organizacional$(no$que$diz$respeito$ao$processo$de$decisão$organizacional),$
no$mercado$(no$consumo$da$cultura$popular),$ na$carreira$profissional$(na$criação$de$
novas$funções$profissionais)$e$na$tecnologia$(em$particular,$através$da$televisão$e$do$
transístor).$ De$ acordo$ com$ Murray$ (2009),$ os$ avanços$ tecnológicos$ desempenharam$
um$ papel$ crucial$ dentro$ destas$ transformações$ sociais,$ em$ particular$ devido$ à$
“televisão$a$cores,$os$autorrádios$generalizaram-se$e$os$transístores$portáteis$eram,$já,$
uma$ presença$ assídua$ nas$ casas$ das$ famílias$ norte-americanas”$ (Martins,$ 2014:$ 16).$
Neste$âmbito,$a$rádio$assumiu$um$papel$decisivo$na$promoção$do$B$-J$e$no$próprio$
desenvolvimento$da$indústria$musical.$É$neste$contexto$que$as$atividades$e$práticas$de$
lazer$ associadas$ à$ música$ popular$ experienciaram$ uma$ mudança$ social$ no$ seu$
significado$ (Wicke,$ 1995),$ uma$ vez$ que$ este$ tipo$ de$ música$ através$ de$ diversos$
formatos,$ tais$ como$ a$ rádio,$ os$ gira-discos,$ os$ postais$ autografados,$ ou$ os$ K$&#*B&,"
entre$ outros,$ começa$ a$ estabelecer-se$ no$ interior$ dos$ quartos$ dos$ adolescentes,$
transformando-se$num$elemento$essencial$do$seu$quotidiano$e$lazer.$Posteriormente,$
os$aparelhos$de$rádio$foram$evoluindo$e$tornando-se$cada$mais$portáteis$e$acessíveis$
aos$jovens,$o$que$permitiu$o$crescimento$dos$%0&-"i$-J*l&$(DJs)$e$a$constituição$destes$
como$ principais$ intermediários$ entre$ a$ música$ B$-J$e$ os$ adolescentes.$ Dentro$ da$
indústria$da$rádio,$a$criação$de$novas$estações$locais$multiplicou-se$e$intensificou-se$a$
sua$ relação$ com$ a$ indústria$ discográfica,$ nomeadamente$ através$ da$ introdução$ de$
algumas$práticas$de$cedência$livre$aos$DJs$de$“cópias$dos$novos$projetos,$esperando$
que$ estes$ os$ transformem$ em$ grandes$ sucessos”$ (Guerra,$ 2015a:$ 149).$ Estas$
companhias$ eram,$ na$ sua$ maioria,$ independentes,$ de$ amplitude$ regional$ e$
associavam-se,$ muitas$ vezes,$ para$ proceder$ à$ distribuição$ conjunta$ dos$ seus$ discos.$
Uma$ vez$ mais,$ a$ sobrevivência$ destas$ editoras$ independentes$ dependia$ da$
transmissão$dos$seus$álbuns$nas$rádios,$nas$i)J*I$n*&$e$da$sua$venda$em$superfícies$
comerciais$(Covach$&$Flory,$2012).$
Foi$durante$este$crescimento$e$impulso$do$B$-J[1[B$++,$que$Elvis$Presley$emergiu$
e$desempenhou$o$papel$protagonista$da$vivência,$da$disseminação$e$da$consolidação$
da$cultura$B$-J$não$apenas$em$território$americano,$mas$um$pouco$por$todo$o$mundo.$
$
45$
Um$ dos$ aspetos$ mais$ relevantes$ de$ Elvis$ prende-se$ com$ o$ facto$ de$ ter$ sido$ ele$ o$
primeiro$ jovem$ branco$ do$ Sul$ a$ cantar$ este$ tipo$ de$ música$ (Guerra,$ 2015a)$ e$ o$
primeiro$artista$B$-J$a$despertar$o$interesse$das$grandes$editoras$discográficas$(Covach$
&$Flory,$2012).$O$seu$sucesso$foi$de$tal$ordem,$que$ele$acabou$por$criar$um$movimento$
juvenil$ à$ sua$ volta$ e$ legou$ a$ toda$ uma$ geração$ a$ sua$ própria$ identidade$ (Shapero,$
2015),$especialmente$assente$no$facto$marcante$de$Elvis$ser$“portador$e$incorporador$
de$ uma$ aura,$ de$ um$ espírito$ e$ carisma$ do$ B$-J[1[B$++,$ edificou$ com$ sucesso$ o$ &#'BF
&l&#*.$e$a$divinização$do$cantor$K$K$e,$nessas$incursões,$consagrou$o$B$-J$tal$como$o$
conhecemos$hoje”$(Guerra,$2015a:$157).$
A$revelação$musical$de$Elvis$aconteceu$efetivamente$em$1953,$quando$o$jovem$
se$ dirigiu$ à$ editora$ independente$ Sun$ Records,$ propriedade$ de$ Sam$ Phillips,$ para$
gravar$uma$%*.$$privada$(Martins,$2014).$Phillips$gostou$da$gravação,$mas$não$ficou$
muito$ entusiasmado$ até$ Elvis$ voltar$ ao$ estúdio$ em$ janeiro$ de$ 1954$ (Camarinha,$
Figueiredo$&$Pacheco,$1986).$E,$“em$pouco$tempo,$eles$tinham$gravado$o$&01L+*!que$
iria$ lançar$ a$ carreira$ de$ Presley$ e$ estabelecer$ a$ Sun$ Records$ como$ uma$ editora$
independente$ de$ amplitude$ nacional”$ (Covach$ &$ Flory,$ 2012:$ 97).$ Finalmente,$ Sam$
Phillips$tinha$encontrado$ aquilo$que$ tanto$desejava:$um$ cantor$branco$com$ um$som$
negro$(Paraire,$1992).$Rapidamente,$ao$aperceber-se$do$talento$do$jovem$Elvis,$Phillips$
dedicou-se$ intensamente$ ao$ lançamento$ do$ seu$ primeiro$ disco$ ^U'#[&" !++" B0LU#"
7'..'[$de$1954.$
4" 0.K$B#'1#*" 1*&&'" -$$K*B'CD$" W$0" ()*" >'." VU0++0K&"
U'I0+.*1#*" -$.I01$)" '&" &)'&" *nK*B0M1-0'&" *" -$1U*-0.*1#$&"
.)&0-'0&," '&&0." -$.$" '" &)'" 01#)0CD$" &$IB*" $" ()*" $&" i$/*1&"
KB$-)B'/'."-$."$"#'+*1#$".)&0-'+"%*"VB*&+*l"*"'"&)'"W$B.'CD$"
1'&" -*1'&" .)&0-'0&" IB'1-'&" *" 1*LB'&" %$" &)+" %'" !.EB0-'"
(D’Anjou,$2003:$177)."
Além$da$ popularidade$ das$suas$ performances$com$ conotação$ sexual,$que$ lhe$
conferiram$ a$ alcunha$ de$ =+/0&" #U*" K*+/0&,$ o$ seu$ estilo$ visual$ desempenhou$ um$ papel$
muito$ importante$ no$ seu$ percurso$ musical.$ De$ acordo$ com$ Roberts$ (1994),$ Elvis$
representava$uma$imagem$esbelta,$saudável,$&*nl,$que$vestia$fatos$de$couro$justos$e$
usava$o$cabelo$puxado$para$trás$com$uma$madeixa$caída.$Posteriormente$vinculado$ao$
$
46$
seu$estilo,$emergiu$também$um$fluxo$adicional$de$novos$artistas$projetados$para$ter$a$
mesma$imagem$do$cantor,$uma$vez$que$esta$era$assumida$como$garantia$de$uma$base$
de$ consumidores$ já$ estabelecida$ (Frith$ &$ Goodwin,$ 1990).$ De$ facto,$ tal$ como$ Frith$
(1983)$ argumenta,$ Elvis$ Presley$ tinha$ a$ mesma$ idade$ e$ o$ mesmo$ contexto$
sócioeconómico$ dos$ seus$ fãs,$ o$ que$ resultava$ numa$ intensificação$ da$ partilha$ dos$
mesmos$valores,$crenças$e$identidades.$Neste$sentido,$“a$aparente$‘naturalidade’$ da$
associação$entre$artistas$%*"B$-Jy1yB$++$e$o$seu$público$foi$ainda$mais$acentuada$pela$
sua$representação$nos$dia”$(Bennett,$2005:$121).$De$acordo$com$Shumway$(1992),$
nas$ performances$ televisivas$ de$ Elvis,$ o$ público$ tornava-se$ parte$ do$ espetáculo$ e$
surgia$ em$ êxtase$ nas$ filmagens$ transmitidas$ pela$ televisão.$ Ainda$ segundo$ Gumes$
(2003),$Elvis$acabou$por$impor$uma$nova$estética,$que$compreendia$o$corpo$também$
como$ um$ veículo$ de$ transmissão$ de$ mensagens$ e$ afirmação$ de$ uma$ identidade.$ A$
imagem$de$uma$B$-J"&#'B$já$não$se$caracterizava$mais$apenas$por$uma$voz$e$um$estilo$
peculiar$de$música,$mas$por$toda$a$estética$que$a$envolvia.$
!1#*&" %*" =+/0&," $" B$-J" *B'" )." .*B$" L*&#$" %*" /'L'" B*I*+%0'2"
:*&%*"()*"*+*"&)BL0),"$"B$-J"#$B1$)F&*"0.*%0'#'.*1#*"&X+0%$"*"
01%*K*1%*1#*"*,"K$&#*B0$B.*1#*,"-B0$)"$"&*)"KBXKB0$"*&#0+$"1'&"
B$)K'&,"1'"+01L)'L*."*"1$"&*n$"e222g2"=&#*"W$0"$"LB'1%*"'/'1C$"
()*" =+/0&" KB$/$-$)2" :*&#'" W$B.'," &*." ()*B*B," *+*" #$B1$)F&*"
1).'"%'&"K*&&$'&"()*".'0&"'W*#$)"B'%0-'+.*1#*"'"W$B.'"-$.$"
'&"K*&&$'&"K*1&'."*"/0/*."U$i*"*."%0'"(Cohn,$1969:$23)."
O$ intenso$ entusiasmo$ do$ público$ maioritariamente$ feminino$ resultava$ numa$
desconfiança$das$gerações$adultas,$que$olhavam$com$desdém$para$o$rei$do$B$-J,$uma$
vez$que$ele$era$considerado$por$eles$como$um$símbolo$de$uma$espécie$de$juventude$
errante$(Martin,$ 1995).$ Neste$ período,$ manter$ a$ ordem$ social$ era$uma$ preocupação$
profunda$ para$ muitos$ líderes$ governamentais$ e$ comunitários$ do$ país,$ que$ se$
encontravam$ profundamente$ preocupados$ com$ o$ facto$ de$ toda$ uma$ geração$ estar$
próxima$ de$ um$ precipício$ moral$ de$ delinquência$ juvenil$ (Gilbert,$ 1986).$
Particularmente$ preocupante$ para$ as$ autoridades$ morais$ da$ nação$ eram$ as$
implicações$sexuais$das$performances$de$Elvis$e$o$receio$de$que$a$sua$música$pudesse$
tornar$ o$ público$ adolescente$ feminino$ em$ delinquentes$ sexuais$ (Martin,$ 1995).$ Em$
oposição,$ Elvis$ personificava$ a$ ideia$ de$ que$ a$ atividade$ sexual$ era$ uma$ prática$
$
47$
desejável$e$passível$de$ser$exercida,$mediante$a$vontade$e$o$desejo$de$satisfação$entre$
duas$pessoas$(Melly,$ 1970).$ Nas$palavras$de$ Martin$“Elvis,$então,$ não$era$uma$força$
que$corrompeu$as$mulheres$jovens,$mas$antes$um$discurso$que$poderia$ser$usado$para$
negociar$ a$ repressão$ sexual$ estultificante$ da$ sociedade$ e$ o$ desejo$ de$ prazer$ e$
liberdade$sexual$que$classificava$as$adolescentes$como$I'%"L0B+&”$(Martin,$1995:$61).$
O$sucesso$de$Presley$foi,$igualmente,$importante$ao$permitir$que$centenas$de$
jovens$começassem$a$tocar$instrumentos$e$a$interessar-se$por$música$negra$(Scaruffi,$
2000).$ Apesar$ da$ zona$ sul$ ter$ sido$ fortemente$ segregada$ racialmente$ na$ década$ de$
cinquenta,$a$música$de$Presley$ultrapassou$essas$mesmas$barreiras$raciais$e$“permitiu$
que$a$música$afro-americana$fosse$acessível$a$jovens$americanos$brancos,$que$nunca$
haviam$ sido$ realmente$ expostos$ a$ ela”$ (Wallace,$ 2012:$ 100).$ O$ enorme$ sucesso$
alcançado$com$:$1[#"I*"5B)*+z_$)1%":$L"(1956),$que$foi$número$um$nas$três$tabelas$
de$ classificação$ (K$K,$ Bl#U." '1%" I+)*&$e$ -$)1#Bl),$ revolucionou$ drasticamente$ o$
panorama$ musical$ americano,$ levando-o$ a$ descobrir$ as$ grandes$ figuras$ do$ B$-J$
(Bouchey,$ 1989).$ Anexado$ a$ este$ êxito$ chegou$ a$ proposta$ da$ gigante$ RCA$ para$ a$
compra$do$contrato$de$Elvis$Presley$à$Sun$Records,$facto$que$marca$também$a$entrada$
do$coronel$Tom$Parker$como$seu$agente,$homem$que,$segundo$Roberts$(1994),$teve$a$
maior$influência$na$sua$vida$e$ao$qual$Elvis$estaria$disposto$a$ceder$a$própria$carreira.$
{)'1#$" '" -$1&*()M1-0'&" 0.*%0'#'&," $" 1*LX-0$" W$0" IB0+U'1#*"
K'B'" $" -$B$1*+2" =+*" *" =+/0&" *&#'/'." 1'" .'0$B" *%0#$B'" %'"
!.EB0-'" *" #01U'." -)&#'%$" S" *%0#$B'" $" &)W0-0*1#*" e#'+/*Z" ?QQ"
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()*," K*+$" .*1$&," '&" KB0.*0B'&" LB'/'Cd*&" &*B0'." W$B#*.*1#*"
KB$.$/0%'&"1D$"&X"1$".*B-'%$"%*"5"o"|"q5$)1#Bl"o"|*&#*B1"
.)&0-r" .'&" #'.IE." i)1#$" %'" .f&0-'" K$K" (Camarinha,$
Figueiredo$&$Pacheco,$1986:$39)2"
Contudo,$ apesar$ de$ alguns$ definirem$ esta$ constante$ mudança$ entre$ editoras$
como$ o$ início$ da$ desfiguração$ da$ sua$ música$ (Gillett,$ 1986),$ os$ primeiros$ anos$ de$
trabalho$ com$ a$ RCA$ demonstraram$ uma$ qualidade$ excecional$ do$ seu$ trabalho$
(Bouchey,$ 1989)$ e$ uma$ transformação$ do$ B$-J'I0++l$ original$ para$ uma$ versão$ de$
B$-J[1[B$++$mais$comercial.$Posteriormente,$com$a$sua$ida$para$Hollywood$a$pedido$do$
coronel$Parker$após$o$cumprimento$do$serviço$militar,$Elvis$começa$a$encaminhar-se$
$
48$
para$ o$ seu$ “enterro$ artístico”$ (Paraire,$ 1992)$ e$ o$ seu$ enterro$ real,$ uma$ vez$ que$ “os$
seus$compromissos$o$tinham$levado$a$fazer$dezenas$de$filmes$francamente$maus$e$a$
gravar$ bandas$ sonoras$ igualmente$ medíocres.$ A$ sua$ ainda$ marcante$ carreira$ estava,$
apesar$de$tudo,$em$declínio”$(Roberts,$1994:$7).$Não$obstante$o$facto$de$ter$rescindido$
os$ seus$ últimos$ contratos$ em$ Hollywood$ e$ de$ ter$ levado$ a$ cabo$ um$ concerto$ de$
regresso$ estrondoso,$ o$ rei$ acaba$ por$ sucumbir$ à$ dependência$ de$ substâncias$ que$
acabaram$por$conduzir$ao$seu$fim.$“Começou$então$a$campanha$de$autodestruição”$
(Camarinha,$ Figueiredo$ &$ Pacheco,$ 1986:$ 120),$ que$ envolvia$ produtos$ fortes$ em$
colesterol,$ uma$ variedade$ de$ comprimidos$ e$ maratonas$ de$ sono$ que$ culminaram,$
posteriormente,$num$desfecho$trágico.$
Porém,$ independentemente$ do$ seu$ epílogo,$ Elvis$ acabou$ por$ se$ tornar$ num$
ícone$cultural$que$influenciou$e$inspirou$a$música,$o$visual$e$o$estilo$de$vida$dos$jovens$
músicos$ e$ não$ músicos$ que$ lhe$ foram$ contemporâneos$ e$ os$ que$ lhe$ seguiram.$ Para$
Camarinha,$ Figueiredo$ e$ Pacheco,$ esta$ B$-J" &#'B$colocou-nos$ o$ desafio$ de$ nos$
inventarmos$a$nós$próprios$ e$ ao$mundo,$pois$“Elvis$ ergueu-se$ao$desafio$e$serve$ de$
farol$a$todos$os$que$estão$a$caminho$da$autocriação$e$da$autorrealização”$(Camarinha$
*#" '+,$ 1986:$ 6).$ Em$ suma,$ Elvis$ Presley$ mudou$ muito$ mais$ do$ que$ a$ indústria$ de$
entretenimento$ nos$ Estados$ Unidos,$ ele$ inspirou$ e$ influenciou$ a$ cultura$ popular,$ $"
B$-J[1yB$++,$ o$ cinema$ e,$ fundamentalmente,$ a$ música.$ Seguindo$ esta$ ideia,$ Marcus$
(1999)$afirma$que$sem$o$surpreendente$sucesso$de$Elvis$o$ro-J[1yB$++"poderia$ter$sido$
uma$moda$passageira.$
$
;M`M!J!rock%*3416}6-%5?+#!-%3!%+!S#*81#+!
!
As$ origens$ do$ B$-J$ britânico$ remontam$ a$ um$ estilo$ americano$ negro$ de$ música$ W$+J$
denominado$&J0WW+*$ e$ desde$a$ década$ de$ 1920,$ que$o$ termo$ foi$usado$ para$ designar$
uma$forma$de$música"tocada$com$instrumentos$DIY$(Perone,$2009).$A$partir$do$&J0WW+*,$
a$ música$ negra$ tornou-se$ muito$ popular$ entre$ os$ jovens$ brancos$ da$ classe$ média$
britânica,$ao$ mesmo$tempo$que$ começava$a$ ser$esquecida$ nos$EUA$ (Scaruffi,$2003).$
Assim,$uma$das$primeiras$referências$de$B$-J[1[B$++$no$Reino$Unido$remonta$à$década$
$
49$
de$cinquenta,$particularmente$ao$ano$de$1954,$quando$um$elemento$da$banda$de$i'ZZ$
de$ Chris$ Barber,$ o$ cantor$ e$ guitarrista$ Lonnie$ Donegan,$ gravou$ uma$ versão$ de$ 3$-J"
<&+'1%"\01*,$cujo$arranjo$basicamente$copiava$o$do$músico$americano$de$W$+J$e$I+)*&$
Lead$ Belly$ (Perone,$ 2009).$ Portanto,$ durante$ este$ período,$ os$ primeiros$ B$-J*B&$
britânicos$eram$cópias$dos$pioneiros$americanos$(Bouchey,$1989)$e,$gradualmente,$o$
conceito$ B$-J[1[B$++" britânico$ começou$ a$ girar$ mais$ em$ torno$ da$ noção$ de$ grupo$ ou$
banda,$do$que$de$artista$em$nome$individual$(Scaruffi,$2003).$$
No$fundo,$esta$tendência$de$aproximação$ao$quadro$americano$ia$ao$encontro$
do$próprio$contexto$social$britânico$deste$período,$quando$começou$a$generalizar-se$
um$descontentamento$coletivo$perante$as$condições$sócioeconómicas$que$se$viviam$
e,$também$ no$ Reino$ Unido$ “o$ B$-J[1[B$++$ constituiu$ um$ambiente$ cultural$ complexo,$
ligado$a$diferentes$experiências$quotidianas$e$a$diferentes$condições$de$vida”$(Wicke,$
1995:$ 54).$ Neste$ sentido,$ apesar$ de$ uma$ entrada$ mais$ difícil$ em$ Londres,$ o$ B$-J$
começou$a$introduzir-se$aos$poucos$nas$cidades$portuárias$de$média$dimensão,$onde$
principiou$a$impulsionar$o$nascimento$de$pequenas$bandas$B$-J"que$competiam$entre$
si$(Guerra,$2015a),$uma$vez$que$“os$adolescentes$da$classe$trabalhadora$com$recursos$
financeiros$ limitados$ e$ habilidades$ musicais$ limitadas$ poderiam$ fazer$ esta$ música”$
(Perone,$ 2009:$ 8).$ Porém,$ após$ um$ período$ de$ imitação$ e$ assimilação$ do$ B$-J$
americano,$a$ Inglaterra$acabou$ por$ desenvolver$uma$ forma$ de$B$-J$ especificamente$
britânica$ (Bouchey,$ 1989).$ Com$ esta$ apropriação,$ não$ se$ criaram$ apenas$ os$ grupos$
subculturais$que$iremos$abordar$mais$à$frente,$mas$um$estilo$de$música$B$-J"próprio,"
que$ deu$ à$ luz$ diferentes$ tendências$ como$ foi$ o$ caso$ do$ B$-J$progressivo$ e$ do$ K)1J"
B$-J,$na$década$de$setenta.$
De$ uma$ forma$ geral,$ a$ música$ tende$ a$ refletir$ ou$ a$ reagir$ às$ transformações$
sociais$e$o$mesmo$se$passa$com$os$gostos,$as$atitudes,$as$crenças$ou$os$valores$dos$
indivíduos.$Nesta$ medida,$algumas$ mudanças$ que$ocorreram$ na$sociedade$ britânica,$
apesar$de$não$estarem$diretamente$relacionadas$com$a$cultura$popular,$acabaram$por$
influenciar$ as$ práticas$ musicais:$ a$ abolição$ do$ serviço$ militar$ no$ final$ da$ década$ de$
1950,$ a$ redução$ no$ tamanho$ das$ famílias,$ a$ queda$ das$ escolas$ de$ gramática,$ o$
aumento$ do$ número$ de$ jovens$ a$ frequentar$ a$ universidade$ e$ o$ lento$ retorno$ do$
$
50$
desemprego$em$massa$(Mullen,$2017).$É,$portanto,$neste$contexto$que$“o$B$-J[1[B$++!
alcançou( um( significado( na( Grã2-Bretanha,$ que$ nunca$ havia$ alcançado$ na$ América”$
(Wicke,$1995:$62)$e$que$se$prendia$com$a$constituição$de$diferentes,$e$muitas$vezes$
opostas,$ subculturas$ juvenis.$ Neste$ âmbito,$ o$ B$-J$ era$ valorizado$ na$ época,$
juntamente$ com$ outros$ bens$ e$ práticas$ culturais,$ como$ um$ modo$ de$ expressão$
autêntico.$
4" B$-J" %*&*1/$+/*)F&*," 1D$" '#B'/E&" %*" ).'" KB$LB*&&D$"
'BI0#BbB0'"*"+01*'B"%*" *&#0+$&,".'&"$BL'10-'.*1#*,"'#B'/E&"%$&"
&*)&" B*&K*#0/$&" -$1#*n#$&" -)+#)B'0&" %*" )&$," 01-$BK$B'%$&" 1'&"
*&#B)#)B'&" -$1-B*#'&" %'" /0%'" ()$#0%0'1'" *" 1'&" *nK*B0M1-0'&"
&$-0'0&"*&K*-cW0-'&,"W$B.'1%$")."-$1i)1#$"%*"/bB0'&"-'.'%'&,"
#$#'+.*1#*" -$.K$&#$" K$B" -$BB*1#*&" K'B'+*+'&" *" -*1'&"
&*K'B'%'&,"()*"%0/*BL*.".'0&"*"%*"W$B.'".'0&"'.K+'"(Wicke,$
1995:$74)."
Na$década$de$sessenta,$com$o$desenvolvimento$exponencial$do$B$-J$britânico,$
muitos$grupos$emergiram$e$tentaram$a$sua$sorte$em$território$americano$seguindo$as$
pisadas$ preconizadas$ pelos$ ^U*" p*'#+*&,$ como$ veremos$ a$ seguir.$ Este$ fenómeno$ de$
invasão$musical$e$cultural$britânica$nos$Estados$Unidos$ficou$popularmente$conhecido$
por$pB0#0&U"<1/'&0$1,$que$teve$o$seu$expoente$máximo$“desde$o$momento$em$que$os$
Beatles$pousaram$no$Aeroporto$Internacional$John$F.$Kennedy,$em$Nova$York”$(Vona,$
2018:$1).$A$chegada$triunfante$dos$Beatles$a$Nova$York,$a$7$de$fevereiro$de$1964,$abriu$
as$portas$da$América$a$uma$riqueza$de$talentos$musicais$britânicos$(Robbins,$s/d).$Esta$
invasão$assumia-se,$então,$como$um$fenómeno$paradoxal,$uma$vez$que$envolvia$que$
grupos$britânicos$fizessem$com$que$o$B$-J"regressasse,$a$partir$de$1965,$ao$país$onde$
ele$ tinha$ nascido$ (Bouchey,$ 1989).$ Nesta$ vaga$ musical,$ “os$ mais$ óbvios$ e$
potencialmente$ mais$ populares$ foram$ os$ Beatles,$ mas$ muitos$ outros$ deixaram$
impactos$de$diferentes$profundidades,$como$os$^U*"3$++01L">#$1*&,$os$^U*"|U$,$os$^U*"
!10.'+&,$w*BBl"o"V'-*.'J*B&,$^U*$:'/*"5+'BJ"Y0/*,$os$^U*"`'B%I0B%&$e$os$^U*"}$.I0*&,$
para$nomear$alguns”$(Vona,$2018:$1),$mas$também$os$^U*"601J&,$os$^U*"_$++0*&$ou$os$
^U*"7)%%l"p+)*&2$ Neste$contexto,$estes$ invasores$tinham$ levado$emprestado$o$ B$-J$
americano$e$tinham-no$depois$devolvido,$mas$de$uma$forma$tão$renovada$(Robbins,$
$
51$
s/d),$ que$ acabaram$ também$ por$ influenciar$ posteriormente$ a$ música$ e$ os$ músicos$
americanos,$como$foi$o$caso$dos$^U*"plB%&$ou$dos$^U*"^)B#+*&$(Perone,$2004).$
Indiscutivelmente,$os$pioneiros$do$fenómeno$da$pB0#0&U"<1/'&0$1$foram,$como$já$
referimos,$ os$ Beatles.$ Com$ origens$ no$ &J0WW+*" (nomeadamente$ no$ grupo$ ^U*" {)'BBl"
7*1),$ os$ ^U*" p*'#+*&$ formaram-se$ em$ 1957,$ mas$ só$ em$ 1963$ é$ que$ estes$ quatro$
jovens$de$Liverpool$arrebataram$a$ indústria$da$música.$Oriundos$ dos$subúrbios$e$ de$
classes$trabalhadoras,$John,$Paul,$George$e$Ringo$atingiram$um$patamar$de$entidades$
culturais$ tão$ poderosas,$ que$ transcenderam$ o$ campo$ do$ entretenimento$ (Shapero,$
2015).$ A$ onda$ de$ fãs$ que$ emergiu$ com$ os$ ^U*" p*'#+*&,$ popularmente$ designada$ de$
p*'#+*.'10',$superou$qualquer$artista$ou$grupo$até$à$época,$tornando$a$sua$música$
num$ fenómeno$ mundial.$ Em$ poucos$ meses,$ adolescentes$ de$ todo$ o$ mundo$
familiarizaram-se$com$o$som,$a$aparência$e$a$conduta$da$banda,$ao$mesmo$tempo$que$
reinterpretaram$os$^U*"p*'#+*&$de$forma$a$encaixar$a$imagem$e$a$música$deles$na$sua$
própria$experiência$cultural$(Bennett$&$Peterson,$2004).$Neste$sentido,$“o$sucesso$de$
\$/*" 7*" :$$ foi$ um$ sinal$ de$ que$ as$ coisas$ estavam$ a$ mudar$ para$ os$ Beatles,$ mas$
ninguém$esperava$ o$ nível$ de$ sucesso$que$ o$ grupo$ atingiu$ no$Reino$ Unido$ em$ 1963,$
mas$ que$ acabou$ por$ se$ espalhar$ pelo$ resto$ do$ mundo$ no$ ano$ seguinte”$ (Covach$ &$
Flory,$2012:$166).$$
Em$1964,$ como$ vimos,$os$ ^U*" p*'#+*&$ chegam$ aos$ Estados$ Unidos$ e$marcam$
profundamente$o$cenário$da$música$popular$(Vona,$2018).$De$acordo$com$a$perspetiva$
de$Vona$(2018)$alguns$fatores$permitiram$aos$Beatles$manter$a$sua$popularidade$não$
apenas$no$Reino$Unido$e$Estados$Unidos,$mas$um$pouco$por$todo$o$mundo$e$ao$longo$
de$toda$a$sua$carreira:$
^'0&" W'#$B*&" 01-+)cB'." $" %*&*1/$+/0.*1#$" %*" \*11$1" *"
7-5'B#1*l"-$.$"-$.K$&0#$B*&,"$")&$"%'"#*+*/0&D$"*"%$"-01*.',"
'" */$+)CD$" *" '" '%'K#'CD$" .)&0-'+" S" .*%0%'" ()*" '" %E-'%'"
KB$LB*%0)," $" 01W+)*1#*" .'1'L*B" pB0'1" =K&#*01," $&" 01f.*B$&"
&)-*&&$&" ()*" %*W010B'." '" EK$-'" *" $" K$%*B" %*" K*B.'1M1-0'"
%)B'1#*"*"'KX&"'"&)'"*n0&#M1-0'"-$.$")."LB)K$"(Vona,$2018:$
38-39).$
Segundo$ Petrie$ e$ Pennebaker$ (2008)$ a$ carreira$ dos$ Beatles$ pode$ ser$ dividida$
em$ três$ períodos$ principais$ de$ produtividade:$ o$ primeiro$ inicia-se$ com$ a$ criação$ do$
$
52$
grupo$e$estende-se$até$à$sua$popularização$mundial$-$em$1964$-$com$canções$escritas$
e$ gravadas$ de$ forma$ rápida$ e$ predominantemente$ sobre$ emoções$ simples$ e$ amor$
romântico$(Cook$&$Mercer,$2000).$Depois,$de$1965$a$1967,$situa-se$a$fase$mais$criativa$
do$grupo,$na$qual$eles$abandonaram$as$turnês$para$se$concentrarem$exclusivamente$
no$desenvolvimento$de$novas$ideias$em$estúdio.$No$álbum$p*'#+*&"W$B">'+*$(1964)$eles$
ainda$ recorrem$ a$ -$/*B&$ de$ êxitos$ americanos$ negros,$ contudo,$ o$ afastamento$ do$
domínio$americano$é$evidente$nos$álbuns$que$se$seguiram$(_*+Ka"(1965),$3)II*B">$)+"
(1965),$3*/$+/*B$(1966)$e$>L#2"V*KK*By&"\$1*+l"_*'B#&"5+)I"p'1%"(1967))$e$que$mostram$
uma$clara$evidência$da$adoção$de$novos$conceitos$musicais$e$líricos$(Morrissey,$2008).$
A$ terceira$ fase$ congrega$ o$ período$ de$ 1968$ a$ 1970$ e$ teve$ início$ a$ partir$ da$ última$
viagem$ dos$ ^U*" p*'#+*&$ juntos$ para$ visitar$ o$ Maharishi$ Mahesh$ Yogi.$ Apesar$ de$ ter$
terminado$ de$ forma$ pouco$ feliz,$ esta$ viagem$ acabou$ por$ servir$ de$ estímulo$ criativo$
para$ o$ |U0#*" !+I).$ (1968)$ e,$ posteriormente,$ para$ !II*l" 3$'%" (1969)$ e$ \*#" 0#" p*$
(1970).$ No$ fundo,$ por$ detrás$ deste$ processo$ de$ melhoria$ contínua$ estava$ uma$
curiosidade$artística$e$um$desejo$de$melhorar,$mas$havia$também$outro$componente$
essencial:$ a$ natureza$ do$ relacionamento$ de$ John$ e$ Paul,$ que$ segundo$ Clydesdale$
(2006),$era$muito$competitiva.$Contudo,$tratava-se$de$uma$competição$saudável,$uma$
vez$que$todas$ as$suas$ composições$eram$lançadas$ com$a$ creditação$ a$ambos$ (dupla$
Lennon-McCartney).$ É$ indiscutível,$ que$ a$ harmonia$ do$ trabalho$ em$ equipa$
desempenhou$uma$função$crucial$no$seu$contínuo$desenvolvimento$musical.$
Como$ vimos,$ os$ ^U*" p*'#+*&$ foram$ pioneiros$ em$ pôr$ em$ prática$ um$ modelo$
independente$ de$ composição$ e$ performance$ (Santoro,$ 2004)$ completamente$
revolucionário.$Progressivamente,$a$instrumentação$e$o$uso$de$ritmos$novos$tornam-
se$ num$ atributo$ regular$ das$ composições$ dos$ Y'I" Y$)B,$ nomeadamente$ com$ as$
influências$ de$ leste$ sugeridas$ por$ George$ Harrison$ (Faulk,$ 2010)$ e$ a$ sua$ própria$
ascensão$como$compositor.$As$técnicas$de$gravação,$de$produção$e$de$pós-produção$
utilizadas$ nos$ seus$ últimos$ álbuns$ foram$ o$ resultado$ de$ muitas$ horas$ de$
experimentação.$Neste$âmbito,$a$evolução$constante$do$seu$conhecimento$e$das$suas$
habilidades$ tecnológicas$ permitiram$ que$ a$ natureza$ complexa$ das$ suas$ músicas$ se$
tornasse$tão$intensa,$que$deixou$de$ser$possível$apresentar$o$seu$último$material$ao$
$
53$
vivo.$Além$da$revolução$na$técnica$musical,$os$^U*"p*'#+*&$também$lançaram$filmes,$
que$inicialmente$se$dirigiram,$em$particular,$à$audiência$televisiva$e$menos$ao$público$
que$ ia$ aos$ seus$ concertos$ e$ comprava$ as$ suas$ músicas,$ de$ forma$ a$ ampliar$ a$ sua$
popularidade$e$a$alimentar$os$mitos$à$volta$do$grupo.$
Outro$aspeto$de$relevo$no$percurso$musical$dos$^U*"p*'#+*&$prende-se$com$o$
seu$ visual.$ Ao$ longo$ da$ carreira$ e$ à$ medida$ que$ foram$ progredindo$ musicalmente,$
também$ os$ seus$ estilos$ visuais$ se$ foram$ alterando.$ Inicialmente,$ “enquanto$ os$
membros$ da$ banda$ frequentemente$ usavam$ fatos$ e$ gravatas$ em$ palco$ durante$ o$
período$&J0WW+*,$eles$retornaram$posteriormente$a$$)#W0#&$mais$casuais”$(Reiter,$2008:$
16).$O$próprio$corte$de$cabelo$usado$durante$a$primeira$metade$da$sua$carreira$ficou$
popularmente$ conhecido$ como$ corte$ de$ -'I*+$" S" p*'#+*$ (Hecl,$ 2006).$
Progressivamente,$ algumas$ transformações$ no$ visual$ da$ banda$ foram-se$
materializando$e$assentaram,$em$especial,$num$afastamento$de$um$+$$J$vulgar$para$a$
aproximação$a$ uma$ individualidade$ visual.$O$ primeiro$ a$adotar$ um$ estilo$próprio$ foi$
John,$que$aquando$da$participação$num$filme$“(...)$teve$de$cortar$o$cabelo$muito$curto$
e$ de$ utilizar$ óculos$ de$ aro$ fino$ para$ compensar$ a$ sua$ falta$ de$ visão.$ Quando$ as$
filmagens$terminaram,$o$cabelo$e$os$óculos$permaneceram”$(Ewing,$1994:$67-68).$No$
mesmo$período,$também$Paul$deixou$crescer$o$bigode$e$adotou$a$moda$londrina$de$
Carnaby$Street$e$seguiu-se$uma$fase$em$que$os$quatro$fantásticos$adotaram$cabelo$e$
barba$comprida$(Hecl,$2006).$
Em$síntese,$o$sucesso$dos$Beatles$abriu$as$portas$a$uma$espécie$de$globalização$
musical$e$serviu$de$inspiração$a$toda$a$música$que$se$seguiu$em$todo$o$mundo$até$aos$
nossos$dias.$De$uma$forma$geral,$“o$sucesso$dos$^U*"p*'#+*&$fez$os$grupos$britânicos$
serem$internacionalmente$mais$procurados,$a$sua$cidade$natal$Liverpool$tornou-se$na$
capital$ mundial$ de$ um$ novo$ nome$ e$ Londres$ o$ centro$ de$ todas$ as$ novas$ modas$ da$
juventude”$(Ewing,$1994:$9).$À$semelhança$do$que$aconteceu$com$o$B$-J$progressivo$
em$ Cantebury,$ que$ veremos$ a$ seguir,$ também$ os$ Beatles$ foram$ protagonistas$ na$
criação$de$músicos$e$de$bandas$na$cidade$de$Liverpool.$Resumindo$o$percurso$dos$Y'I"
Y$)B$nas$palavras$de$Paraire:$
$
54$
8#0+0Z'B'."%B$L'&,"+'1C'B'." ).'" .$%'"%*"/*&#)bB0$,"-B0'B'."
*%0#$B'&" 01%*K*1%*1#*&," B$%'B'." W0+.*&" e)." %$&" ()'0&" %*"
%*&*1U$&" '10.'%$&," $" `*++$m" >)I.'B01*g," 01#B$%)Z0B'." '"
.f&0-'" 01%0'1'" 1'" =)B$K'," K)&*B'." $&" L)B)&" 1'" .$%',"
KB$/$-'B'." '" -*1&)B'" e$" %0&-$" IB'1-$g" *," %*K$0&" %*" ).'"
%E-'%'"%*"&)-*&&$&,"&*K'B'B'.F&*,"+'1C'1%$".0+Ud*&"%*"WD&"1$"
%*&*&K*B$"(Paraire,$1992:$95)."
Voltando$aos$ anos$sessenta,$ “à$medida$ que$ os$jovens$ enveredavam$cada$ vez$
mais$na$marijuana$e$no$LSD$no$meio$da$década$de$1960,$a$música$relacionada$com$as$
drogas$também$emergiu”$ (Perone,$ 2004:$23).$Falamos$ aqui$do$B$-J$progressivo,$que$
Willis$ (1978)$ argumenta$ apresentar$ características$ formais$ paralelas$ ao$ movimento$
_0KK0*.$ Segundo$ Stump$ (1997),$ este$ género$ musical$ tem$ raízes$ no$ i'ZZFB$-J$ e$ na$
música$experimental$'/'1#FL'B%*$de$artistas$como$w$1L$e$;'1":*B"wB''W"w*1*B'#$B.$
De$facto,$este$género$musical$constitui$“um$estilo$de$B$-J$autoconsciente$e$complexo,$
frequentemente$ associado$ a$ teclados$ proeminentes,$ mudanças$ métricas$ complexas,$
letras$ fantásticas$ (muitas$ vezes$ mitológicas$ ou$ metafísicas)$ e$ ênfase$ no$ virtuosismo$
chamativo”$(Holm-Hudson,$2002:$2).$Este$termo$foi$inicialmente$utilizado$por$críticos$
musicais$como$Lester$Bangs,$para$descrever$coletivamente$vários$estilos$ emergentes$
no$final$da$década$de$1960,$desde$o$i'ZZFB$-J$de$bandas$como$p+$$%,">m*'#"o"^*'B&$
até$ ao$ B$-J$ do$ sul$ da$ ^U*" !++.'1" pB$#U*B&" p'1%.$ Neste$ sentido,$ o$ B$-J$progressivo$
passou$ a$ dizer$ respeito$ a$ bandas$ ou$ artistas$ individuais,$ que$ pretendiam$ incorporar$
algum$grau$de$influência$musical$cultivada$num$contexto$de$B$-J,$com$o$fim$de$ampliar$
as$possibilidades$estéticas$deste$tipo$de$música$em$direção$a$uma$sensibilidade$mais$
séria$ e$ artística,$ associada$ a$ altos$ níveis$ de$ musicalidade$ e$ experimentação$ formal$
(Macan,$1977;$Martin,$1998).$
=&#'" /*B&D$" KB$LB*&&0/'" %$" B$-J" *&#'/'" W$B#*.*1#*" *1B'0Z'%'"
1'&" 01W+)M1-0'&" '&&$-0'%'&" S" -)+#)B'" %'" -+'&&*" .E%0'" 1'" wBDF
pB*#'1U'A" .f&0-'" %*" 0LB*i'" '1L+0-'1'," .f&0-'" W$+-+XB0-',"
.*%0*/'+," B*1'&-*1#0&#'," W$1#*&" 1*$-+b&&0-'&" *" B$.T1#0-'&,"
.f&0-'&" *nX#0-'&" %*" '1#0L'&" W$1#*&" -$+$10'0&" *" '&&0." K$B"
%0'1#*j"(Simonelli,$2007:$96)2"
O$B$-J$progressivo$dizia$respeito,$portanto,$a$uma$evolução$das$excentricidades$
do$ B$-J$ psicadélico,$ porém,$ não$ se$ encontrava$ tão$ diretamente$ relacionado$ com$ as$
$
55$
estruturas$sociais,$mas$antes$apelava$mais$à$intelectualidade$do$seu$público$(Scaruffi,$
2003).$ Desta$ forma,$ a$ fruição$ deste$ género$ musical$ envolvia$ o$ exercício$ do$
pensamento$ do$ ouvinte$ (Covach,$ 1997).$ Martin$ (1998)$ descreve$ este$ tipo$ de$ B$-J$
como$K$K)+'B"'/'1#FL'B%,$uma$vez$que$com$o$final$dos$anos$sessenta$e$início$dos$anos$
setenta,$ muitas$ pessoas$ acabaram$ por$ ser$ preparadas$ pela$ sua$ experiência$ social$ a$
abrirem-se$à$ música$experimental,$ visionária$ e$ utópica,$ brilhantemente$trabalhada$ e$
executada.$Além$do$posicionamento$cultural$do$conteúdo$e$da$técnica$musical$do$B$-J$
progressivo,$ é$ possível$ também$ observar$ uma$ influência$ semelhante$ nas$ letras,$
nomeadamente,$muitas$“obras$clássicas$da$literatura$influenciaram$várias$músicas$de$
B$-J$progressivo”$(Holm-Hudson,$2002),$como$o$caso$do$tema$^'+*&"$W"pB'/*"8+l&&*&$
(1967)$dos$5B*'..$
Neste$movimento$musical$inglês$que$valorizava$a$música$erudita$ficou$célebre$a$
5'1#*BI)Bl$>-U$$+" $W" pB0#0&U" VB$LB*&&0/*FB$-J,$ fundada$ em$ 1962,$ “quando$ Hugh$
Hopper,$ Robert$ Wyatt,$ Kevin$ Ayers,$ Richard$ Sinclair$ e$ outros$ formaram$ os$ Wilde$
Flowers.$ Wyatt,$ Ayers,$ Hopper$ e$ seus$ novos$ amigos$ Daevid$ Allen$ e$ Mike$ Ratledge$
formaram$ os$ Soft$ Machine,$ enquanto$ Sinclair$ e$ os$ outros$ formaram$ os$ Caravan”$
(Scaruffi,$ 2003:$ 62).$ No$ fundo,$ a$ música$ destes$ grupos$ de$ B$-J" progressivo$ que$ se$
cruzavam$ entre$ si$ caracterizava-se$ por$ ter$ um$ conteúdo$ e$ humor$ britânicos$ e$ por$
serem$ anticomerciais$ (Bennett,$ 2002).$ No$ entanto,$ apesar$ da$ grande$ maioria$ destes$
grupos$ estarem$ sediados$ em$ Londres$ e$ não$ em$ Canterbury,$ este$ movimento$ foi$
profícuo$ na$ criação$ de$ B$-J$ progressivo$ revolucionário$ e$ surreal$ e$ nas$ cenas$ que$ se$
seguiram$(Scaruffi,$2003).$
Socialmente,$ os$ grupos$ britânicos$ de$ B$-J" progressivo$ formaram-se$ em$
universidades$ ou$ no$ equivalente$ britânico$ às$ escolas$ particulares$ (Macan,$ 1997).$ De$
acordo$com$Scaruffi$(2003),$as$bandas$deste$género$musical$eram$bastante$populares$
nos$-'.K)&$das$faculdades,$pois$os$alunos$mais$ricos$estavam$preparados$para$gastar$
o$seu$dinheiro$a$ouvir$músicos$a$explorar$as$suas$dimensões$artísticas$internas,$ou$seja,$
“o$B$-J$progressivo$era$consumido$em$álbuns$em$vez$de$&01L+*&;$os$fãs$tinham$que$ter$
dinheiro$ suficiente$ para$ comprar$ o$ álbum,$ geralmente$ quando$ podiam$ conhecer$ o$
artista$apenas$por$reputação”$(Simonelli,$2007:$105).$Além$disso,$como$vimos,$o$B$-J$
$
56$
progressivo$ britânico$ tem$ raízes$ fortes$ no$ sul$ de$ Inglaterra,$ numa$ área$
privilegiadamente$de$classe$alta.$$
4I/0'.*1#*," )." *&#0+$" -$.$" $" B$-J" KB$LB*&&0/$," -$." '&" &)'&"
B*W*BM1-0'&"1D$"'K*1'&"S".f&0-'"-+b&&0-',".'&"#'.IE."S"'B#*"*"
+0#*B'#)B'"%'"'+#'"-)+#)B',"1D$"&)BL0B0'"'"K'B#0B"%*")."'.I0*1#*"
%'" -+'&&*" #B'I'+U'%$B'2" 4" &*)" &)BL0.*1#$" %*K*1%*)" %*" ).'"
&)I-)+#)B'" %*" i$/*1&" '+#'.*1#*" 01&#B)c%$&$(Simonelli,$ 2007:$
147).$
Por$ outro$ lado,$ o$ surgimento$ do$ K)1J$ está$ largamente$ associado$ a$ jovens$
desprivilegiados$da$classe$trabalhadora,$que$foram$marginalizados$por$esta$demografia$
de$elite$e$que$se$encontrava$no$centro$do$público$do$B$-J$progressivo$(Holm-Hudson,$
2002).$ Assim,$ a$ subcultura$ K)1J$ constituiu-se$ como$ uma$ revolta$ contra$ as$ reflexões$
pessoais,$contra$a$hipocrisia,$a$complacência$e$a$falha$do$movimento$ _0KK0*$e$como$
resultado$ de$ uma$ incorporação$ de$ estilos$ das$ subculturas$ juvenis$ do$ pós-guerra$
(Calluori,$1985).$O$K)1J,$mais$do$que$um$género$musical$e$uma$tendência$de$moda,$
constituía$uma$atitude$contra$a$sociedade$estabelecida$e$contra$o$B$-J$teatral$que$o$
precedeu$ (Gosling,$ 2004),$ apostando$ acima$ de$ tudo$ na$ simplicidade$ musical.$ De$
acordo$com$Hebdige$(1979),$esta$subcultura$espelhava$a$turbulência$socioeconómica$
do$ final$ da$ década$ de$ 1970$ na$ Grã-Bretanha,$ nomeadamente$ o$ aumento$ do$
desemprego,$ a$ redescoberta$ da$ pobreza$ e$ o$ início$ da$ depressão$ económica.$ Neste$
sentido,$os$K)1J&$expressavam$a$agitação$social$através$do$seu$corpo,$$
$Ii*#$&" *.KB*&#'%$&" %$" .'0&" &XB%0%$" %$&" -$1#*n#$&"
*1-$1#B'B'."+)L'B"1'&"01%).*1#bB0'&"%$&"K)1J&A"e222g"!+W01*#*&"
*"K01&"W$B'."B*#0B'%$&"%$"&*)"-$1#*n#$"%*")#0+0%'%*"%$.E&#0-'"*"
)&'%$&" -$.$" *1W*0#*&" .'-'IB$&" 1'&" I$-U*-U'&," $B*+U'&" $)"
+bI0$&" 222" 4" -'I*+$" *&#'/'" $I/0'.*1#*" #01L0%$" e'.'B*+$FW*1$,"
KB*#$F'Z*%$" $)" +'B'1i'" IB0+U'1#*" -$."#)W$&" %*" /*B%*" $)"
%*&-$+$B0%$&" *." W$B.'#$" %*" K$1#$&" %*" 01#*BB$L'CD$g" *" '&" #F
&U0B#&"*"-'+C'&"-$1#'/'."'"U0&#XB0'"%'"&)'"KBXKB0'"-$1&#B)CD$,"
-$." /bB0$&" W*-U$&" ZcK*B*&" *" -$&#)B'&" *n#*B1'&" -+'B'.*1#*"
*n0I0%'&"(Hebdige,$1979:$107)."
No$ K)1J$ o$ visual$ adquire$ uma$ importância$ essencial$ (Abreu$ et.$ '+," 2017)$ 1D$$
apenas$no$seu$vestuário,$mas$também$em$todas$as$suas$formas$de$expressão$(Triggs,$
2006,$ 2010).$ Neste$ sentido,$ em$ oposição$ às$ estruturas$ sociais$ dominantes,$ os$ K)1J&"
$
57$
incorporaram$ nos$ seus$ visuais$ uma$ desfiguração$ satírica$ das$ imagens$ associadas$ à$
cultura$ nacional,$ nomeadamente$ através$ do$ recurso$ à$ bandeira$ britânica$ e/ou$ a$
fotografias$da$realeza$(Bennett,$2005).$Foi$na$vanguarda$desta$subcultura$que$Vivienne$
Westwood$ e$ Malcolm$ McLaren$ abriram$ a$ sua$ loja2,$ que$ se$ tornou$ num$ dos$ palcos$
principais$ para$ o$ desenvolvimento$ do$ estilo$ K)1J$ britânico.$ As$ suas$ roupas$
provocantes$ tinham$ como$ objetivo$ quebrar$ tabus$ sociais,$ à$ medida$ que$ iam$ ao$
encontro$ da$ génese$ :<`$do$ K)1J.$ E,$ depois$ de$ um$ primeiro$ choque$ inicial,$ o$ K)1J$
adquiriu$ uma$ grande$ influência$ no$ mundo$ da$ moda$ um$ pouco$ por$ todo$ o$ mundo$
(Guerra,$2019).$
De$ facto,$ a$ cena$ K)1J" B$-J$ desmistificou$ o$ processo$ de$ produção$ cultural,$
sublinhando$ a$ capacidade$ que$ todos$ têm$ de$ se$ tornar$ em$ agentes$ culturais$ (Hein,$
2012).$ Com$ o$ K)1J" e$ o$ seu$ caráter$ :<`" (Bennet$ &$ Guerra,$ 2019),$ o$ mercado$
independente$ despoletou$ numa$ primeira$ geração$ de$ empresas$ britânicas$
independentes$no$campo$da$música$B$-J$(Guerra,$2010),$que$ostentavam$uma$posição$
anti-indústria$ na$ música$ (Kent,$ 2006)$ e$ que$ se$ alastraram$ um$ pouco$ por$ todo$ o$
ocidente$ chegando$ também$ a$ Portugal.$ Nesta$ medida,$ é$ imprescindível$ olhar$ para$
todo$ o$ percurso$ do$ B$-J$ no$ nosso$ país,$ desde$ os$ seus$ primórdios$ até$ ao$ momento$
atual.$
!
;MAM!J!rock!#+4*1f%5?+#!4#1%!universo!#!-f#)%5!*!W%(85)*1!
;MAM;!G0%+!+#++#08*!#!+#8#08*^!-#0+5(*&!(#e%15z{%!#!-!
$
Como$ sabemos,$ o$ período$ totalitário$ português$ levou$ ao$ extremo$ uma$ colonização$
ideológica$ e$ cultural,$ que$ teve$ fortes$ consequências$ na$ nossa$ sociedade$ (Duarte,$
1984).$À$semelhança$de$outros$regimes$ditatoriais$europeus,$o$Estado$Novo$também$
apelava$ vigorosamente$ à$ exaltação$ dos$ valores$ singulares$ da$ nação,$ nomeadamente$
através$ do$ trabalho$ do$ Secretariado$ de$ Propaganda$ Nacional,$ criado$ em$ 1933$ e$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
2 Inicialmente, tratava-se de uma loja de discos de
rock’n’roll
, contudo, Vivienne começou a desenhar
roupas de estilo
teddy boy,
que passaram a ser também vendidas, juntamente com outros objetos e
acessórios do mesmo estilo (Guerra, 2010).
$
58$
“responsável$ pelas$ atividades$ de$ propaganda$ política,$ comunicação$ social,$ turismo,$
informação$ e$ cultura$ durante$ o$ regime$ do$ Estado$ Novo”$ (Monteiro,$ 2009a:$ 4).$ Mais$
tarde,$ em$ 1945,$ a$ sua$ designação$ foi$ alterada$ para$ Secretariado$ Nacional$ da$
Informação,$Turismo$e$Cultura$Popular$e$dedicou-se$fortemente$a$promover$e$impingir$
a$cultura$popular$portuguesa,$nomeadamente$através$da$organização$de$exposições$e$
espetáculos$ culturais$ (Alves,$ 2007).$ No$ decorrer$ deste$ período$ político,$ que$
disseminava$ o$ isolamento$ do$ país$ face$ às$ relações$ internacionais,$ “(...)$ era$ rejeitada$
toda$e$qualquer$alusão$a$uma$liberdade$de$expressão$individual$ou$coletiva$e$pregado$
o$patriotismo$com$ideias$‘orgulhosamente$sós’”$(Martins$&$Guerra,$2019:$169).$Neste$
contexto$ de$ privação,$ o$ acesso$ a$ informação$ e$ bens$ internacionais$ encontrava-se$
limitado,$ o$ que$ impedia$ a$ população$ portuguesa$ de$ ter$ acesso$ às$ realidades$ sociais,$
económicas$e$culturais$do$exterior.$Contudo,$a$progressiva$disseminação$internacional$
da$ música$ B$-J$ anglo-americana$ da$ década$ de$ sessenta$ acabou$ por$ encontrar$
numerosos$ adeptos$ em$ Portugal,$ particularmente$ no$ seio$ dos$ jovens$ estudantes$ de$
Lisboa,$ Porto$ e$ Coimbra$ (Andrade,$ 2015),$ que$ se$ sentiam$ cada$ vez$ mais$ revoltados$
contra$ o$ estado$ e$ as$ suas$ políticas.$ Foi$ assim$ que$ durante$ década,$ as$ universidades$
foram$ cenários$ de$ entusiastas$ lutas$ estudantis$ a$ envolver$ alunos$ universitários$ e$
autoridades$académicas$e$políticas$(Martins,$2014).$Segundo$Resende$e$Vieira$(1993),$
estes$conflitos$foram$especialmente$marcados$por$dois$momentos$distintos:$
4" KB0.*0B$" v" ?P]Hz]O" v" -'B'-#*B0Z$)F&*" K$B")." -$1W+0#$"
*.01*1#*.*1#*" K$+c#0-$," *1()'%B'%$" K$B" $BL'10Z'Cd*&"
~#B'%0-0$1'+.*1#*•" $K$&0-0$10&#'&" '$" B*L0.*," ()*" 1D$" #*/*"
-$1#01)0%'%*" 1$" #*.K$2" 4" &*L)1%$" v" ?P]Rz]P" '" ?PGOzGN" v"
-$1&#0#)0" )." K*Bc$%$" %*" LB'1%*" 01&#'I0+0%'%*" &$-0'+" 1'&"
)10/*B&0%'%*&,"-)i'&"+)#'&"%*"1'#)B*Z'"K$+c#0-'"&*"'&&$-0'/'."'"
)." .$/0.*1#$" .'0&" /'&#$" %*" -Bc#0-'" '$&" /'+$B*&" -)+#)B'0&"
%$.01'1#*&"(Resende$&$Vieira,$1993:$134)."
De$ acordo$ com$ Guerra$ (2010),$ a$ música$ popular$ portuguesa$ assume$ durante$
este$ período$ ditatorial$ e$ o$ início$ dos$ anos$ 1960,$ algumas$ modalidades$ importantes$
manifestadas$através:$do$fado$(que$no$seu$início$era$marcadamente$característico$das$
cidades$ de$ Lisboa$ e$ Coimbra,$ mas$ que$ acaba$ por$ se$ generalizar$ a$ todo$ o$ país);$ da$
canção$de$protesto$(que$nasce$nos$anos$setenta$do$século&XX&e&estava&eminentemente&
$
59$
relacionada* com* a* oposição* ao* regime* ditatorial);* do* folclore* (que* se* encontrava*
dependente& do& Secretariado& Nacional& da& Informação& (SNI));& e& do& nacional-
cançonetismo+(que+também+abarcava+temas+promovidos+pelo$Estado$Novo)$(Castelo-
Branco$&$Fernández,$2018).$Relativamente$a$este$último$género,$“a$expressão$define,$
a$ princípio,$ as$ canções$ e$ o$ tipo$ de$ música$ que$ o$ regime$ salazarista$ apoiava$ e$ cuja$
execução$ incentivava,$ nas$ emissoras$ de$ rádio$ e$ televisão,$ bem$ como$ no$ que$ dizia$
respeito$às$edições$discográficas”$(Monteiro,$2009a:$6).$Diferentemente$do$nacional-
cançonetismo,$ a$ canção$ de$ protesto$ começou$ por$ pegar$ em$ temas$ e$ cantigas$
tradicionais$ portuguesas,$ dando-lhes$ novos$ arranjos$ a$ partir$ de$ uma$ perspetiva$
renovada.$De$certa$forma,$a$canção$de$protesto$representava$uma$solução$para$criar$
uma$resistência$face$aos$valores$totalitários$do$regime$(Fiuza,$2015)$e$entre$os$nomes$
mais$sonantes$desta$corrente$musical$encontravam-se$Zeca$Afonso,$Adriano$Coreia$de$
Oliveira$ou$José$Mário$Branco$(Correia,$1984).$
Não$ obstante,$ apesar$ de$ pouco$ significativa,$ existia$ neste$ período$ uma$
pequena$ comunidade$ de$ pessoas,$ predominantemente$ do$ meio$ estudantil$ e$ das$
classes$mais$favorecidas,$que$se$ia$aproximando$da$música$B$-J,$(apesar$das$tentativas$
de$ interdição$ a$ estas$ práticas$ por$ parte$ do$ regime$ (Fiuza,$ 2015),$ nomeadamente$
através$ de$ deslocações$ ao$ Reino$ Unido,$ da$ escuta$ de$ rádios$ pirata$ britânicas$ ou$ de$
importações$ dos$ discos$ para$ Portugal$ (Andrade,$ 2012).$ Contudo,$ embora$ Portugal$
fosse$ “um$ país$ pequeno$ e$ isolado,$ vivendo$ numa$ ditadura,$ não$ conseguiu,$ mesmo$
assim,$manter-se$alheio$a$este$tipo$de$música”$(Duarte,$2010:$13),$uma$vez$que$estas$
estratégias$ não$ legitimadas$ de$ escape$ permitiram$ que$ fosse$ feita$ uma$ aproximação$
musical$ao$B$-J,$embora$de$forma$lenta$e$gradual.$Assim,$o$B$-J$começou$por$chegar$
ao$ nosso$ país$ sob$ a$ designação$ de$ “música$ ié-ié”,$ “(...)$ constituída$ por$ «ritmos$
modernos»,$ designações$ estas$ usualmente$ associadas$ a$ grupos$ formados$ por$ violas$
elétricas$e$bateria,$de$que$são$exemplos$os$grupos$ingleses$The$Shadows,$The$Beatles$e$
The$Rolling$Stones”$(Andrade,$2015:$241).$Além$da$proximidade$geográfica,$também$as$
relações$ económicas$ entre$ Portugal$ e$ o$ Reino$ Unido$ contribuíram$ para$ uma$ maior$
penetração$de$B$-J$britânico$neste$período$(Andrade,$2015).$É$de$realçar,$igualmente,$
que$estes$grupos$musicais$acabaram$por$exercer$uma$influência$gigante$na$posterior$
$
60$
constituição$de$conjuntos$ié-3$portugueses.$Estes$ritmos$mobilizaram$novas$práticas$
de$ lazer$ como$ a$ dança$ e$ até$ a$ moda,$ assim$ como$ abordagens$ de$ sociabilidade$
renovadas$nos$relacionamentos$entre$os$jovens$(Castelo-Branco,$2010;$Fiuza,$2015).$E,$
“rapidamente,$o$ié-ié$passou$da$esfera$da$música$à$cultura$juvenil”$(Cortez,$2014:$13).$
De$ igual$ forma,$ “estes$ “novos$ ritmos”$ eram$ frequentemente$ qualificados$ por$ vários$
músicos$e$jornalistas$enquanto$“alternativa”$estética$“viável”$ao$domínio$do$intitulado$
“nacional-cançonetismo”$(Andrade,$2012:$21).$
Segundo$Duarte$(1984),$em$Portugal,$um$dos$grupos$pioneiros$a$aventurar-se$
neste$género$musical$foi$o$coletivo$p'I0*&"!"#$%&'()*)*+,(-%./'/0(12(30#24&'(12()567(
e" do" qual" fez" parte" José1" Cid," “o" menino-prodígio”$ (Pires,$ 2007)$ na$ voz,$ piano$ e$
acordeão,$juntamente$com$António$Portela$(piano$e$acordeão),$António$Igreja$Bastos$
(voz$ e$ bateria)$ e$ Rui$ Nazareth$ /guitarra$ elétrica)$ (Almeida,$ 2014).$ Os$ p'I0*&$ nunca$
chegaram$ a$ gravar$ qualquer$ disco$ (Encarnação,$ 2015),$ mas$ tal$ como$ os$ outros$
conjuntos$desta$época$(como$os$3*I*+%*&,$:'10*+"p'-*+'B"*"$&$w*1#+*.*1,$os$=J$&,$os$
Chinchilas$ou$os$€*#&g$faziam$-$/*B&"de$grupos$americanos$e$britânicos,$nomeadamente$
em$ bailes$ organizados$ pelas$ comunidades$ estudantis$ (Martins,$ 2014).$ Também$
relevante$ foi$ o$ facto$ de$ muitos$ destes$ grupos$ serem$ provenientes$ da$ comunidade$
estudantil,$ o$ que$ os$ levou$ a$ adotar$ nomes$ como$ {)01#*#$" !-'%E.0-$$ou$ 5$1i)1#$"
!-'%E.0-$"4BW*).$Segundo$Lopes$(2012),$o$cinema$e$particularmente$os$filmes$3*I*+"
|0#U$)#"'"5')&*$(1955)$e$p+'-JI$'B%"€)1L+*$(1955)$ foram$ também$essenciais$para$a$
disseminação$destas$novas$sonoridades$em$território$nacional.$De$acordo$com$Guerra$
(2010),$ estes$ conjuntos$ assim$ como$ uma$ série$ de$ cantores$ isolados$ (Vítor$ Gomes,$
Fernando$Conde,$Zeca$do$3$-J,"Daniel"Bacelar)"associam-se#à#emergência#desta#nova#
sonoridade$em$território$nacional,$embora$apresentem$debilidades$técnicas,$carência$
de$instrumentos$ e$ escasso$ alcance$ em$ termos$ criativos$(Guerra,$ 2010).$ Ainda$ a$ este$
respeito,$ os$ instrumentos$ musicais$ disponíveis$ no$ nosso$ país$ apresentavam$ preços$
elevados,$ tornando-se$ apenas$ acessíveis$ a$ determinadas$ camadas$ abastadas$ da$
população.$ Na$ realidade,$ Guerra$ argumenta$ que$ estas$ primeiras$ manifestações$
portuguesas$ da$ música$ B$-J$ se$ mostraram$ incapazes$ de$ promover$ a$ adesão$ e$ a$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
3 Termo francês criado pelo programa de rádio Salut des Copains, derivado dos <Y
yeah
!
Yeah
!>> das
canções” (Cortez, 2014: 13).
$
61$
mobilidade$ juvenil,$ porque$ “o$ fechamento$ social$ e$ político$ da$ sociedade$ portuguesa$
ditado$pelas$diretivas$do$Estado$Novo$não$permitiu$uma$movimentação$juvenil,$como$
as$que$tinham$ocorrido$no$Reino$Unido$e$nos$E.U.A$(...)”$(Guerra,$2010:$199),$embora,$
inicialmente,$o$Estado$tenha$mantido$uma$posição$neutra$relativamente$a$estes$novos$
coletivos$musicais.$E$apesar$do$regime$apostar$fortemente$na$propagação$radiofónica$
e$ televisiva$ do$ que$ considerava$ mensagens$ adequadas$ para$ o$ saudável$
desenvolvimento$ da$ juventude$ (Guerra,$ 2010),$ a$ rádio$ possuía$ alguma$ flexibilidade,$
alicerçada$no$facto$dos$profissionais$da$censura$não$compreenderem$a$língua$inglesa.$
A$ juntar$ aos$ constrangimentos$ já$ referidos,$ a$ Guerra$ Colonial$ levou$ à$ extinção$ de$
muitos$ «conjuntos»,$ devido$ ao$ facto$ de$ muitos$ dos$ seus$ integrantes$ terem$ sido$
chamados$a$cumprir$serviço$militar.$$
$
!!!!!!U6)5(*!;M;M!S*~6#+!:;<ARB!
$$$$$$$Fonte:$Almeida,$2014.$$
$
Ainda$durante$a$década$de$sessenta,$muitos$destes$grupos$musicais"brilharam"
com$ a$ participação$ nos$ concursos$ -ié# organizados# habitualmente# no# Teatro#
Monumental,$em$Lisboa,$mas$também$em$outros$pontos$do$país.$O$Concurso$Ié-Ié$de$
1965$ no$ Teatro$ Monumental$ foi$ um$ dos$ maiores$ jamais$ realizado$ em$ Portugal$ e$
contou$com$a$presença$de$mais$de$setenta$conjuntos$(Almeida,$2014).$Estes$tipos$de$
eventos$ começaram$ a$ ser$ organizados$ no$ decorrer$ da$ tomada$ de$ consciência$ dos$
$
62$
organismos$ públicos,$ de$ que$ os$ gostos$ da$ juventude$ eram$ convertíveis$ em$ dinheiro$
(Cortez,$2014).$E,$portanto,#“foi#aí,#nesses#concursos,#que#muitos#grupos#se#tornaram#
conhecidos$ do$ público,$ sobretudo$ jovem,$ que$ enchia$ as$ galerias$ da$ sala$ de$
espetáculos”$(Duarte,$2010:$16).$Grupos$como$os$>U*0J&,$ao$qual$pertenciam$Paulo$de$
Carvalho$e$Carlos$Mendes,$foram$detentores$de$uma$enorme$popularidade$no$nosso$
país$e$como$cantavam$em$ inglês,$chegaram$quase$a$conseguir$ a$ internacionalização.$
De$ acordo$ com$ Martins$ (2014),$ os$ >U*0J&$ eram$ tão$ populares$ em$ Portugal$ como$ os$
Beatles$ no$ Reino$ Unido$ e,$ musicalmente,$ aproximavam-se$ igualmente$ dos$ Y'I" Y$)B,$
daí$serem$popularmente$considerados$os$Beatles$portugueses$(Almeida,$2014).$Outro$
nome$sonante$diz$ respeito$ ao$grupo$€$##'" _*BB*,$formado$em$1963/64$ na$cidade$do$
Porto.$ Este$ «conjunto»$ alcançou$ apenas$ com$ um$ EP$ um$ sucesso$ nunca$ atingido$ por$
qualquer$outro$grupo$nacional.$Este$sucesso,$para$Duarte$(2010),$ficou$a$dever-se$a$Sir$
Paul$ McCartney,$ que$ compôs$ e$ ofereceu$ ao$ grupo$ o$ tema$ V*101'" (1969),$ numa$ das$
suas$ passagens$ por$ Portugal$ (Duarte,$ 2010).$ Relativamente$ aos$ cantores$ de$ B$-J!
isolados,( um( dos( primeiros( discos( nacionais( de( estilo( -ié# foi# lançado# em# 1961# por#
Zeca$do$3$-J,"nome"artístico"de"José1"das"Dores,"no"qual"o"tema">'1&D$"W$0"*1L'1'%$”$
continha$ o$ primeiro$ «l*'U»$ cantado$ em$ português.$ (Duarte,$ 2010).$ Este$ B$-J*B$
“aprendeu$a$tocar$viola$no$final$da$década$de$50$com$Fernando$Alvim$e$a$sua$grande$
oportunidade$ surgiu$ um$ 1959$ quando$ participou$ no$ programa$ p$." :0',$ de$ José$ de$
Oliveira$Cosme$na$Rádio$Renascença,$numa$rubrica$de$novos$talentos”$(Almeida,$2014:$
307).$ No$ entanto,$ Guerra$ (2010)$ refere$ Victor$ Gomes$ (Figura$ 1.2.)$ como$ o$ primeiro$
B$-J*B$português.$
$
$
$
63$
!U6)5(*!;M@M!V6-8%(!N%3#+&!}%8%!4(%3%-6%0*1!7%!}613#!Canção%da%Saudade!:;<=`B!
$$ $ $$$Fonte:$Revista$5$+*CD$"501*.',$1964.$
$
Nascido$ na$ cidade$ de$ Lisboa$ em$ 1940,$ Victor$ Gomes$ cresce$ e$ passa$ a$ sua$
adolescência$ em$ Moçambique,$ mais$ concretamente$ em$ Lourenço$ Marques$ (atual$
Maputo).$ É$ aqui$ que,$ gradualmente,$ vai$ surgindo$ a$ sua$ aproximação$ à$ música,$
nomeadamente$ no$ Instituo$ Mouzinho$ de$ Albuquerque,$ onde$ começou$ a$ tocar$
clarinete$ e$ a$ cantar$ no$ grupo$ coral,$ assim$ como$ a$ frequentar$ aulas$ de$ teatro$ (Pires,$
2014).$De$acordo$com$Almeida$(2014),$o$talento$vocal$já$estava$nos$seus$genes,$uma$
vez$que$a$mãe$fora$a$segunda$classificada$num$concurso$de$fado$em$Moçambique$e$a$
tia$ terá$ sido$ cançonetista$ no$ Rádio$ Clube$ local.$ Na$ sua$ adolescência,$ Victor$ adota$ o$
estilo$ #*%%l" I$l:$ “poupa$ cheia$ de$ brilhantina,$ I+)*" i*'1&,$ blusão$ de$ ganga$ com$ gola$
levantada,$ atitude$ desafiadora$ ao$ sistema”$ (Almeida,$ 2014:$ 20)$ inspirado$ nos$ filmes$
americanos$ da$ época.$ Por$ esta$ altura$ com$ dezasseis$ anos,$ Victor$ já$ começara$ a$
procurar$trabalho$como$ator$e$músico,$e$a$frequentar$as$boates$onde$ouvia$clássicos$
de$ B$-J[1[B$++$ nas$ i)J*I$n*&$ e$ procurava$ informar-se$ acerca$ do$ que$ acontecia$ no$
panorama$ social,$ económico$ e$ cultural$ internacional$ em$ conversas$ com$ marinheiros$
estrangeiros.$É$de$realçar,$que$o$B$-J*B$não$cantava$em$português,$pois$considerava$
$
64$
que$o$B$-J[1[B$++"deveria$ser$cantado$na$sua$língua$materna,$o$inglês$(Guerra,$2010).$
Apesar$ do$ seu$ fascínio$ por$ este$ estilo$ de$ música,$ foi$ apenas$ no$ final$ da$ década$ de$
cinquenta,$ mais$ precisamente$ em$ 1957,$ que$ Victor$ Gomes$ ganhou$ um$ concurso$ na$
Rádio$Clube$de$Moçambique$(Almeida,$2014)$com$a$interpretação$do$tema$^)##0"YB)##0"
(1955),$ na$ versão$ de$ Elvis$ Presley.$ Após$ esta$ vitória,$ Victor$ Gomes,$ que$ era$
profundamente$influenciado$pelo$B$-J[1[B$++$americano$e$pelas$suas$raízes$na$própria$
cultura$africana$onde$cresceu,$foi$aclamado$como$supremo$roqueiro”$(Branco,$2019)$
e$ ficou$ popular,$ também,$ pelo$ seu$ gosto$ por$ vestuário$ de$ couro$ preto$ e$ pela$ sua$
performance$ arrebatadora$ e$ enérgica,$ “que$ anos$ mais$ tarde$ viria$ a$ incendiar$ a$
juventude$portuguesa”$(Pires,$2014:$20).$$
Ao$longo$do$seu$percurso$artístico$e$profissional,$o$B$-J*B$desdobrou-se$entre$
cantor$ de$ B$-J[1[B$++,$ ator$ teatral$ e$ cinematográfico,$ cançonetista,$ mecânico$ de$
automóveis,$ pugilista$ profissional,$ hoquista,$ futebolista$ e$ caçador$ profissional$
(Almeida,$2014).$Para$ somar$a$todas$ estas$experiências$sociais$ e$profissionais,$Victor$
Gomes$ também$ percorreu$ a$ Rodésia,$ o$ Congo,$ a$ África$ do$ Sul$ e$ Angola$ a$ cantar$
(Branco,$2019).$Entre$1957$e$1963$teve$como$agente$Luís$Montez$(pai$de$Luís$Montez$
da$promotora$Música$no$Coração)$e$atuou$em$vários$espaços$de$diversão$noturna$em$
Luanda$acompanhado$ pelos$ Dardos,$até$ se$mudar$ para$ Lisboa$(Almeida,$ 2014),$uma$
vez$que$ “tinha$esperança$ que$seria$ a$partir$ da$capital$ portuguesa$que$ desbravaria$o$
mundo$ inteiro$ a$ cantar$ e$ a$ atuar”$ (Pires,$ 2014:$ 32).$ Foi$ nesta$ altura$ que$ venceu$ o$
Concurso$ Rei$ do$ Twist$ (1963),$ já$ acompanhado$ pelos$ Gatos$ Negros$ (conjunto$ da$
Trafaria$constituído$por$José$Albano$na$guitarra$solo,$Manuel$Lixa$na$guitarra$rítmica,$
Jacinto$Lixa$no$baixo$e$Quim$Hilário$na$bateria).$Foi$neste$momento,$também,$que$o$
empresário$português$Vasco$Morgado$o$descobriu$e$o$contratou$para$um$espetáculo$
no$Monumental,$que$resultou$num$contrato$de$cinco$anos.$
Nesta$mesma$época,$as$transformações$sociais$que$foram$sucedendo$no$nosso$
país$ e$ que$ foram$ mais$ significativas$ em$ Lisboa,$ Porto$ e$ Coimbra$ (sede$ dos$ três$
principais$complexos$ universitários)$ associadas$ a$ outros$acontecimentos$ de$ natureza$
política,$ (tais$ como$ o$ impacto$ imposto$ por$ uma$ guerra$ colonial$ prolongada),$
contribuíram$para$a$emergência$de$situações$de$tensão$e$conflito,$como$ocorreu$nos$
$
65$
movimentos$estudantis$de$69$(Resende$&$Vieira,$1992).$Ao$mesmo$tempo,$verificava-
se$ um$ maior$ crescimento$ de$ ações$ políticas$ opostas$ ao$ regime$ e$ uma$ crescente$
participação$ de$ movimentos$ estudantis$ provenientes$ de$ toda$ a$ Europa$ ocidental,$
através$de$informações$enviadas$por$meios$formais$e$informais,$sobretudo$por$via$de$
associações$organizadas$ por$ estudantes$ portugueses$ no$ estrangeiro.$ Como$ vemos,$ a$
visão$restritiva$do$regime$em$relação$ao$meio$académico$não$boqueou$o$surgimento$e$
crescimento$ de$ um$ movimento$ ativo$ contra$ o$ conservadorismo$ vigente$ na$
universidade$e$na$ sociedade$(Martins,$2014).$ Neste$âmbito,$estes$ grupos$portadores$
de$ novos$ valores$ protagonizavam$ a$ rutura$ radical$ com$ o$ pensamento$ político$
tradicional$ e$ moldavam$ uma$ consciência$ que$ se$ traduzia$ num$ pensamento$ político$
estruturado,$ e$ que$ ambicionava$ uma$ revolução$ cultural$ e$ política.$ Desta$ forma,$ “o$
espaço$ universitário$ transformou-se,$ então,$ num$ palco$ de$ lutas$ sociais$ e$ simbólicas,$
entre$ os$ “velhos$ do$ Restelo”,$ a$ esquerda$ tradicional$ cristalizada$ no$ obreirismo$
ideológico$ do$ P-C.P.$ e$ a$ nova$ esquerda$ radical,$ festiva$ e$ inconformada”$ (Resende$ &$
Vieira,$1992:$136).$De$acordo$com$estes$autores,$estes$grupos$juvenis$sustentaram$a$
conceção$ do$ seu$ projeto$ político$ radical$ na$ racionalidade$ proveniente$ da$ sua$
escolarização$ avançada$ e$ do$ contacto$ com$ a$ cultura$ política,$ bem$ como,$ nas$ suas$
próprias$experiencias$de$privação.$$
V'B'" $" Mn0#$" %*&#*" KB$i*#$" '" *+0#*" *&#)%'1#0+" KB$.$/*)" )."
-$1i)1#$" %*" B0#$&," W$B.'1%$" *&K'C$&" -$1LB*L'%$B*&" %*" )."
&*1#0%$" KBb#0-$" -$.).2" !I&$B/*1%$" '" '#.$&W*B'" W*&#0/'" %*"
.'0$"%*"]R,"$&"*&#)%'1#*&")10/*B&0#bB0$&"'#0/$&"'KB$KB0'B'.F&*"
%$"*&K'C$"'-'%E.0-$"K'B'"B*'+0Z'B*."#$%'&"'&".'10W*&#'Cd*&"
%*".'&&'"K$&&c/*0&,"$1%*"$&"/'+$B*&"01%0/0%)'0&"1D$"'K'B*-0'."
%0+)c%$&"$)"K$&#$&"*."-')&'"K*+$&"0%*'0&"-$+*#0/$&$(Resende$&$
Vieira,$1992:$136).$
Porém,$ foi$ na$ década$ de$ setenta$ que$ se$ deu$ o$ grande$ salto$ para$ a$
profissionalização$ de$ algumas$ das$ propostas$ musicais$ de$ B$-J$ em$ Portugal$ (Duarte,$
2010)$e$a$imprensa$começou$a$dar$alguma$abertura$e$atenção$ao$B$-J$português.$Foi$
igualmente$ nesta$ década,$ que$ se$ agravaram$ as$ contínuas$ disputas$ face$ ao$ regime$
político$ e$ esta$ insatisfação$ acabou$ por$ se$ refletir$ na$ própria$ música$ produzida$ na$
época.$ Portanto,$ a$ partir$ do$ final$ dos$ anos$ sessenta,$ começou$ a$ assistir-se$ “(...)$ em$
$
66$
Portugal$ a$ uma$ dinâmica$ específica$ em$ torno$ do$ B$-J,$ dinamizando$ uma$ cena$ e$
gerando$ estruturas$ capazes$ de$ sustentar$ projetos”$ (Guerra,$ 2010:$ 202).$ Segundo$ a$
perspetiva$desta$autora$(Guerra,$2010),$ despontou$no$nosso$país$ uma$reação$W+$m*B"
K$m*B,$despertada$por$grupos$como$os$V01J"Y+$l%,$€0.0"_*1%B0n"=nK*B0*1-*$ou$5B*'.,$
que$ acabou$ por$ direcionar$ o$ foco$ das$ manifestações$ B$-J$ nacionais$ para$ o$ B$-J$
progressivo$e$o$psicadelismo.$Os$Tantra$constituem$um$exemplo$dessa$reviravolta$com$
o$ lançamento$ do$ &01L+*$!+()0.0'" %'" \)Z" (1976).$ O$ seu$ primeiro$ LP,$ 70&#EB0$&" *"
7'B'/0+U'&,$foi$lançado$em$1977$e$em$1978$enchem$o$Coliseu$dos$Recreios,$originando$
um$ acontecimento$ inédito$ no$ B$-J$ português.$ Os$ Tantra$ constituem$ “um$ grupo$ por$
excelência$ do$ B$-J" na$ versão$ progressiva$ portuguesa,$ apostando$ numa$ intensa$
instrumentalidade$ e$ teatralidade,$ algo$ de$ verdadeiramente$ novo$ no$ panorama$
nacional$ da$ época”$ (Guerra,$ 2010:$ 203).$ V*#B)&" 5'&#B)&$ foi$ igualmente$ um$ projeto$
importante$nesta$década,$a$partir$da$ideia$de$Pedro$Castro$que$decidiu$criar$o$projeto$
“em$1967,$na$cidade$de$Lisboa,$a$partir$de$ensaios$realizados$em$sua$casa$com$o$seu$
irmão$José$Castro”$(Andrade,$2012:$38).$Segundo$Branco$(2019),$a$evidente$qualidade$
dos$ V*#B)&" 5'&#B)&$ assegurou-lhes$ rapidamente$ um$ contrato$ de$ dois$ EPs$ com$ a$
Valentim$de$Carvalho.$Depois$destas$duas$edições,$lançaram$em$1973$aquele$que$ficou$
marcado$ na$ história$ musical$ portuguesa:$ o$ 7*&#B*." Este" disco" é," ainda" hoje," uma"
referência) musical) não) 1) para) a) música) B$-J,$ mas$ para$ toda$ a$ música$ popular$
portuguesa$ (Duarte,$ 2010).$ Porém,$ o$ segundo$ disco,$ !&-*1&D$" *" {)*%',$ só$ seria$
gravado$ em$ 1978$ “(…)$ em$ meio$ a$ alterações$ nas$ letras,$ negociações$ e$ mesmo$ um$
confisco$do$disco$pela$censura”$(Fiuza,$2015:$65),$após$o$disco$7*&#B*$também$ter$sido$
censurado$pelo$regime.$
Ainda$durante$esta$época,$também$o${)'B#*#$"????$(Figura$1.3)$teve$um$papel$
crucial$ no$ contexto$ musical$ e$ social$ português.$ Proveniente$ do$ 5$1i)1#$" 70&#EB0$,$ o$
{)'B#*#$"????$foi$fundado$em$1967$em$Cascais$e$operou$uma$revolução$importante$
na$música$portuguesa,$através$da$sua$notável$habilidade$musical$e$poética$e$das$suas$
músicas$ cantadas$ em$ português.$ Na$ opinião$ de$ Pires$ (2007),$ o$ {)'B#*#$" ????$
transformou$a$maneira$de$compor,$tocar$e$ouvir$música$em$língua$portuguesa.$Com$a$
entrada$posterior$de$Tozé$Brito$no$grupo,$ele$e$José$Cid$colaboram$ambos$na$autoria$
$
67$
de$muitas$canções,$que$os$conduziram$a$uma$carreira$musical$de$relevo$(Reis,$2017).$
Um$dos$seus$temas$mais$célebres$é$!"+*1%'"%*"*+FB*0":2">*I'&#0D$$(1967)$(inspirado$no$
mito$ nacional$ sebastianista)$ e$ foi$ uma$ das$ primeiras$ músicas$ a$ ser$ transmitida$ no$
programa$ =." •BI0#'$ do$ Rádio$ Clube$ Português,$ “programa$ fulcral$ na$ divulgação$ da$
nova$música$K$KFB$-J$internacional$de$finais$da$década$de$60”$(Andrade,$2015:$246).$
Foi$ também$ um$ dos$ primeiros$ clássicos$ de$ B$-J$ cantados$ em$ língua$ portuguesa$
(Branco,$2019).$É$de$notar,$ainda,$que$o$seu$disco$de$nome$homónimo$foi$retirado$do$
mercado$três$dias$depois$de$ter$sido$colocado&à&venda,&pela&ação&da&censura,&porque&
“logo$no$final$de$abril/início$de$maio,$a$polícia$política$(PIDE/DGS)$aprendeu$e$destruiu$
todos$ os$ exemplares$ encontrados,$ estendendo$ a$ proibição$ de$ venda$ à$ difusão$
radiofónica”$ (Branco,$ 2019:$ 124).$ De$ facto,$ a$ música$ do$ Quarteto$ resultava$ das$
perceções$ relativamente$ à$ realidade$ social$ da$ época,$ “uma$ reação$ contra$ um$ país$
cinzento,$ atrasado,$ analfabeto,$ pobre,$ oprimido$ por$ um$ regime$ totalitário”$ (Pires,$
2007:$9),$mas$também$uma$reação$ao$K$KzB$-J$cantado$na$sua$maioria$em$inglês.$
!
!!!!!!!!!!!U6)5(*!;MXM![5*(8#8%!;;;&!;<Z>j;<Z;!
$$$$$$$$$$$Fonte:$Pires,$2007.$
$
Nesta&década,&a&contestação&face&à&Guerra&Colonial&agravada&pela&mobilização&
política$ da$ juventude$ e$ pela$ marca$ política$ e$ transgressora$ assumida$ pelo$ B$-J,$
$
68$
motivou$em$Portugal$uma$transformação$no$significado$cultural$e$social$atribuído$aos$
estilos$musicais$partilhados$pelos$jovens$(Castelo-Branco,$2010).$Além$destes$aspetos,$
as$transformações$ no$ B$-J"português$ também$ se$deveram$ a$uma$ maior$ exposição$ a$
audiências$ maiores,$ nomeadamente$ como$ aconteceu$ com$ o$ Festival$ de$ Vilar$ de$
Mouros$em$1971$(Martins,$2014).$Neste$sentido,$até$ao$25$de$abril$de$1974$os$grupos$
continuavam$a$ atuar$nos$ mesmos$ espaços,$principalmente$ na$abertura$ de$concertos$
de$bandas$internacionais$autorizadas$pelo$regime$ou$em$bailes$de$finalistas.$Contudo,$
foi$ a$ partir$ deste$ marco$ temporal$ e$ histórico,$ que$ os$ grupos$ nacionais$ começaram$
verdadeiramente$a$afastar-se$do$modelo$imitativo$anglo-saxónico$e$interessar-se$pela$
aquisição$de$uma$personalidade$nacional$própria$e$singular$(Duarte,$2010).$$
!&&01'+*F&*" ()*" *&#'" %E-'%'" W0-$)" .'B-'%'" K*+'" /01%'" %$&"
w*1*&0&" *." ?PG@" K'B'" %)'&" %'#'&" 1$" :B'.b#0-$" %*" 5'&-'0&,"
K*+$" &)BL0.*1#$" %*" *.KB*&'&" %*" +)Z" *" &$." -$." B*-)B&$&" *"
#E-10-$&" KBXKB0$&" e222g" 4B'" I*.A" *&#B)#)B'&" %*" *&K*#b-)+$" *"
KfI+0-$&,"%$0&"*+*.*1#$&"W)1%'.*1#'0&"K'B'"'"-$1&$+0%'CD$"%$"
B$-J2" 7'&" '01%'" KB*/'+*-0'." $&" I'0+*&" %*" W01'+0&#'&" -$.$"
*()0/'+*1#*&"%$&"-$1-*B#$&"'#)'0&"(Guerra,$2010:$204)."
Um$ dos$ acontecimentos$ mais$ marcantes$ da$ década$ de$ setenta$ e$ mesmo$ da$
história$da$música$nacional$prende-se,$portanto,$com$o$emblemático$Festival$de$Vilar$
de$ Mouros,$ que$ “(...)$ foi$ criado$ em$ 1965$ por$ António$ Barge$ e$ tinha$ como$ objetivo$
central$a$divulgação$da$música$popular$do$Alto$Minho$e$da$Galiza,$transformando$Vilar$
de$Mouros$num$destino$turístico”$(Guerra,$2010:$207).$Uma$primeira$edição$do$festival$
teve$ lugar$ em$ 1968$ e$ levou$ à$ aldeia$ de$ Vilar$ de$ Mouros$ (concelho$ de$ Caminha),$ a$
Banda$ Nacional$ Republicana,$ fado$ e$ cantores$ de$ intervenção$ como$ Zeca$ Afonso$ ou$
Carlos$ Paredes.$ Segundo$ Zamith,$ esta$ edição$ marcou$ a$ viragem$ do$ festival$ e$ a$ sua$
projeção$ nacional,$ assim$ como$ lançou$ os$ alicerces$ para$ o$ que$ viria$ a$ acontecer$ três$
anos$depois,$pois$“numa$entrevista$dada$em$1971,$António$Barge$referia$que$o$festival$
de$1968$contou$já$com$15$mil$espetadores”$(Zamith,$2003:$34).$$No$entanto,$foi$no$ano$
de$1971$que$o$Festival$de$Vilar$de$Mouros$inseriu$o$seu$nome$na$história$da$música$
portuguesa,$ dando$ sentido$ ao$ seu$ &+$L'1$5)+#)B'" *" €)/*1#)%*" '$" &*B/0C$" %*" #$%$&2"
Neste$sentido,$no$dia$“17$de$agosto$de$1971.$Às$primeiras$horas$do$dia,$a$estrada$de$
Caminha$ e$ a$ vila$ sossegada$ da$ raia$ minhota$ registavam$ um$ movimento$ mais$ que$
$
69$
anormal”$ (Duarte,$ 1984:$ 50).$ A$ freguesia$ de$ Vilar$ de$ Mouros$ tinha-se$ transformado,$
nos$dias$que$antecederam$o$festival,$numa$paisagem$humana$de$jovens$com$mochilas,$
carros,$ bicicletas$ e$ transportes$ públicos.$ E$ “a$ própria$ organização$ tinha$ apelado$ aos$
automobilistas,$ através$ da$ rádio,$ da$ imprensa$ e$ da$ distribuição$ e$ colocação$ de$
inúmeras$ faixas,$ para$ que$ dessem$ boleia$ aos$ peregrinos”$ (Zamith,$ 2003:$ 68).$ Assim,$
nos$fins-de-semana$dos$dias$31$de$Julho$a$15$de$Agosto$de$1971,$cerca$de$20$mil$a$30$
mil$pessoas$provenientes$de$vários$pontos$do$país$e$da$Europa$assistiram$às$atuações$
de$ Elton$ John,$ 7'1WB*%" 7'11,$ {)'B#*#$" ????,$ Pentágono,$ >01%0J'#$,$ 5U01-U0+'&,$
5$1#'-#$,$ 4Ii*-#0/$,$ pB0%L*,$ p*'#10-J&,$ V&0-$,$ 7010FV$K,$ V$K" Y0/*" 7)&0-" <1-$BK$B'#*%,"
Amália' Rodrigues,' Duo$ Ouro$ Negro,$ Celos,$ Banda$ da$ Guarda$ Nacional$ Republicana,$
Coral&Polifónico&de&Viana&do&Castelo$e$ao$wB)K$"%*"p'0+'%$";*B%*"w'0$$(Guerra,$2010).$
O$ cartaz$ (Figura$ 1.4.)$ foi$ bastante$ diversificado$ e$ tentou$ incluir$ diferentes$ géneros$
musicais$ para$ agradar$ a$ diferentes$ públicos.$ Tratou-se,$ então,$ de$ um$ “verdadeiro$
U'KK*101L$em$que$as$próprias$forças$opressoras$do$regime$político$–$a$PIDE$não$faltou$
à$chamada$–$limitaram-se$a$atenta$vigilância,$inibidas$pela$forte$presença$da$imprensa$
internacional”$(Branco,$2019:$133).$Contudo,$apesar$do$sucesso,$o$festival$não$foi$bem-
recebido$ pelo$ conservadorismo$ do$ regime,$ da$ Igreja$ e$ consequentemente$ da$
população$ local,$ persuadida$ a$ não$ participar$ nem$ a$ abrir$ e/ou$ disponibilizar$ os$ seus$
estabelecimentos$aos$jovens$festivaleiros.$Por$esta$razão,$a$edição$seguinte$realizou-se$
apenas$11$anos$depois,$após$uma$tentativa$em$1975$que$não$chegou$a$ir$para$a$frente$
(Zamith,$2003).$Porém,$apesar$de$todas$as$dificuldades$e$entraves,$é$inegável$que$Vilar$
de$ Mouros$ materializou$ o$ surgimento$ de$ uma$ verdadeira$ cultura$ B$-J$ em$ Portugal,$
caracterizada$ por$ momentos,$ bandas,$ público,$ vivências$ e$ consumos$ (Guerra,$ 2010).$
Segundo$Sarmento$(2013),$a$propagação$da$cultura$U0KK0*$e$o$Festival$de$Woodstock$
exerceram$ uma$ grande$ influência$ na$ forma$ como$ este$ festival$ se$ desenvolveu$
(Sarmento,$2013).$
!
!
!
!
$
70$
! ! U6)5(*!;M`M!E*(8*•!7%!U#+86e*1!7#!V61*(!7#!P%5(%+&!;<Z;$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$Fonte:$Zamith,$2003.$$
$
Alguns$ anos$ mais$ tarde,$ a$ partir$ do$ 25$ de$ Abril$ de$ 1974,$ verificou-se$ um$
evidente$declínio$no$B$-J"português$(Duarte,$2010),$tornando-se$num$género$de$nicho$
mais$ reservado$ a$ circuitos$ alternativos.$ Durante$ este$ período$ de$ mudança$ social,$ os$
estilos$K$KFB$-J!perderam'visibilidade'face' à' preponderância'da'música'estritamente'
concebida)como)instrumento)de)ação)social)e)política,)maioritariamente)representada)
pela$canção$de$intervenção$(Castelo-Branco,$2010).$Contudo,$com$a$cessação$do$PREC$
em$1975,$o$B$-J$alcançou$alguma$expressão,$uma$vez$que$as$rádios$nacionais$tendiam$
a$não$transmitir$a$música$de$intervenção$nacional,$o$que$levou$em$1976$a$uma$espécie$
de$ renascimento$ deste$ género$ musical.$ Desta$ forma,$ no$ ano$ seguinte$ “a$ crescente$
visibilidade$ da$ cultura$ juvenil$ e$ das$ suas$ manifestações,$ a$ abertura$ da$ sociedade$
portuguesa$ a$ novas$ culturas,$ valores$ e$ modos$ de$ vida$ foi$ lançando$ sementes$ de$
insubordinação$ musical”$ (Guerra,$ 2010:$ 210).$ Relevante$ foi$ ainda$ o$ programa$
radiofónico$3$#'CD$$de$António$Sérgio,$que$ajudou$a$lançar$grandes$nomes$da$música"
B$-J$nacional,$como$aconteceu$mais$tarde$com$os$‚)#$&"o"V$1#'KE&$(Guerra,$2010).$
$
71$
No$ campo$ dos$ média$ nacionais$ eram$ escassos$ os$ órgãos$ de$ comunicação$
exclusivamente$ especializados$ em$ música$ durante$ este$ período.$ Nesta$ década$ foi$
criado$o$semanário$>*G*,$mais$precisamente$em$1977,$com$o$objetivo$de$“materializar$
uma$ ideia$ de$ cultura$ politizada$ na$ esteira$ do$ período$ revolucionário$ e$ refletir$ a$
crescente$oferta$ de$ espetáculos$ e$ procura$de$ tempos$livres$ junto$do$ público$ urbano$
em$ contexto$ pós-revolucionário”$ (Trindade,$ 2014:$ 41).$Além$ da$ música,$ o$ >*G*$
também$abordava$outros$assuntos$culturais$como$o$cinema,$a$televisão$ou$o$teatro$e$
desempenhou$um$papel$crucial$na$cobertura$e$divulgação$do$B$-J$nacional$na$década$
de$oitenta,$como$veremos$mais$à$frente.$Ainda$no$âmbito$da$imprensa,$alguns$órgãos$
especializados$ divulgavam$ conteúdos$ acerca$ do$ B$-J$ que$ se$ fazia$ em$ Portugal,$
nomeadamente,$as$revistas$3$-J"*."V$B#)L'+$ou$a$7f&0-'"o">$.$e$chegaram$mesmo$
a$organizar$alguns$festivais$de$música$(Duarte,$2010).$É$de$realçar,$que$a$revista$3$-J"
*."V$B#)L'+$“(...)$foi$a$única$revista$que$se$dedicou$ao$fenómeno$do$B$-J$português$
antes$do$I$$.$acontecido$nos$anos$80$do$século$XX”$(Duarte,$2010:$162).$
Ainda$durante$ esta$ década$ foi$ relevante$o$ percurso$ dos$ !B#*" o"4Wc-0$,$ banda$
fundada$ no$ Porto$ em$ 1975$ por$ António$ Garcez$ e$ Sérgio$ Castro$ (ambos$ ex$ V&0-$).$
Segundo$Andrade,$os$!B#*"o" 4Wc-0$$estrearam-se$no$Entrocamento$ em$novembro$do$
mesmo$ ano$ e$ apresentavam$ já$ nessa$ altura$ temas$ originais$ “(...)$ recusando-se$ a$
enveredar$ pelo$ esquema$ de$ interpretação$ de$ versões$ característico$ do$ Psico$ e$ da$
grande$maioria$ dos$ grupos”$(Andrade,$ 2012:$59).$ Foram$ considerados$nesse$ período$
um$ supergrupo,$ uma$ vez$ que$ eram$ constituídos$ por$ elementos$ de$ alguns$ dos$
principais$grupos$B$-J"nacionais$do$momento$(Garcez,$Castro$e$Juca$dos$V&0-$;$Sérgio$
Cordeiro$ do$ 7X%)+$" ?;$ e$ Álvaro$ Azevedo$ ex$ V$K" @" 7)&0-" <1-$BKB'#*%).$ Em$ maio$ de$
1976,$os$ !B#*" o"4Wc-0$$ contaram$ também$ com$ o$ violinista$ Leonel,$que$ veio$ criar$ um$
som$novo$e$único$no$B$-J$português$(Duarte,$1984).$
!"()c.0-'"*1#B*"5'&#B$"*"w'B-*Z,"$B0L01'%'"K$B"B'cZ*&"-$.)1&"
'+L)B*&" *1#B*" 7'#$&01U$&," \0/*BK$$+," >'1#$" ^0B&$," \$1%B*&" *"
V$B#$,"'-'I$)"K$B"K$&&0I0+0#'B"'"&'c%'"%$&"%$0&,"*."?PG],"K'B'"
W$B.'B" ).'" %'&" .'0&" &X+0%'&" *" -$1#)1%*1#*&" I'1%'&" %'"
U0&#XB0'"%$" B$-J[1[B$++"K$B#)L)M&A"!B#*"o"4Wc-0$"(Branco,$ 2019:$
171)."
$
72$
$
Para$ Branco,$ a$ dinâmica$ da$ banda$ foi$ um$ dos$ seus$ maiores$ segredos,$ assim$
como$ o$ conhecimento$ acumulado$ de$ muitos$ quilómetros$ de$ estrada.$ Duarte$ (1984)$
corrobora$esta$ideia,$sugerindo$o$profissionalismo$e$a$experiência$de$todos$os$músicos$
como$fundamentais$para$o$sucesso$do$grupo.$Outro$projeto$marcante$e$digno$de$nota$
corresponde$ aos$ ‚)#$&" o" V$1#'KE&$ (Figura$ 1.5),$ que$ são$ uma$ das$ bandas$ mais$
emblemáticas$do$B$-J$português$e$que$ainda$hoje$se$encontra$em$atividade,$embora$
sem$ um$ dos$ seus$ membros$ mais$ representativos,$ Zé$ Pedro,$ falecido$ em$ 2017.$
Frequentemente$ comparados$ aos$ ^U*" 3$++01L" >#$1*&$ portugueses,$ os$ Xutos$ “(...)$
simbolizam$ muito$ adequadamente$ a$ condição$ de$ uma$ geração$ de$ “veteranos$ do$
B$-Jƒ1[B$++”$com$muita$quilometragem$no$curriculum$(...)”$(Lisboa,$2002:$127).$
Fundados$no$final$da$década$de$setenta,$exatamente$em$1978,$apresentaram-
se$ publicamente$ logo$ no$ ano$ seguinte$ na$ sala$ dos$ Alunos$ de$ Apolo$ na$ festa$
comemorativa$dos$25$anos$do$B$-J[1[B$++$(Ferrão,$1991).$Com$origens$no$movimento$
K)1J,$a$banda$entrou$na$década$ de$oitenta$ainda$sem$gravar,$mas$ já$ com$um$longo$
caminho$percorrido$pelo$nosso$país$(Guerra,$2010),$no$qual$aproveitaram$para$difundir$
a$sua$música$e$a$sua$filosofia.$E$essa$filosofia$tinha$o$propósito$de$enviar$mensagens$ou$
definir$ posições$ acerca$ da$ realidade$ que$ os$ rodeava$ e$ direcionava-se,$ sobretudo,$
àqueles$jovens$sem$rumo$ definido$(Encarnação,$2015).$Neste$ sentido,$os$músicos$da$
banda$“(...)$destacaram$o$aspecto$politizado$das$suas$canções$e$posicionamentos,$pois$
afirmaram$que$eram,$fundamentalmente,$contestatórios$em$relação$à$vida$e$ao$estado$
das$ coisas$ em$ que$ se$ encontrava$ Portugal”$ (Encarnação,$ 2015:$ 90).$ Igualmente,$ de$
acordo$com$Guerra$e$Januário$(2016)$as$músicas$dos$‚)#$&"o"V$1#'KE&$dão-nos$conta$
de$ várias$ problemáticas$ políticas$ e$ sociais$ no$ contexto$ do$ seu$ tempo$ e$ espaço$
particular:$“denúncia$do$sentimento$de$desespero;$denúncia$dos$modos$de$vida$e$do$
sistema$(consumismo)$e$desespero$pela$surdez$intencional$como$resposta$aos$apelos$
gritantes$ que$ “fazemos””$ (Guerra$ &$ Januário,$ 2016:$ 214).$ Também$ Ramos$ realça$ o$
caráter$interventivo$das$letras$dos$Xutos,$que$chamavam$a$atenção$pública$para$o$mal-
estar$ da$ sociedade$ portuguesa,$ nomeadamente$ para$ “a$ revolta$ perante$ o$
desemprego,$o$desajuste$das$novas$gerações,$a$frustração$juvenil$e$a$denúncia$de$uma$
$
73$
realidade$perversa$sobem$de$tom$com$o$sucesso$do$grupo$nos$finais$da$década$de$80$e$
ao$longo$dos$anos$90”$(Ramos:$2011:$46).$À$semelhança$destes$autores,$também$Pinto$
(2015)$destaca$a$filosofia$politizada$e$o$desejo$de$mudança$da$banda,$numa$década$em$
que$“(...)$estávamos$no$auge$do$famoso$debate$em$torno$do$<<L'K$de$gerações>>,$que$
tantas$ famílias$ fez$ desentender,$ tanta$ controvérsia$ acendeu,$ virando$ filhos$
emancipados$ contra$ pais$ que$ tinham$ dificuldade$ em$ acompanhar$ a$ rápida$ mudança$
dos$acontecimentos”$(Reis,$2017:$67).$
$
! ! ! U6)5(*!;MAM!_58%+!c!W%08*4€+!
Fonte:$Ferrão,$2009.$
$
No$final$de$1980,$os$‚)#$&"o"V$1#'KE&$alcançam$os$#$K&$nacionais$e$afastam-se$
definitivamente$das$referências$K)1J$que$lhe$deram$início,$para$prosseguir$na$esfera$
do$ B$-J$ (Lemos,$ 2011).$ Esta$ vitalidade$ da$ banda$ e$ da$ música$ portuguesa$ estende-se$
até$ hoje$ e$ permitiu,$ na$ altura,$ que$ os$ Xutos$ desbravassem$ uma$ longa$ trajetória$
musical,$ que$ influenciou$ e$ abriu$ portas$ a$ outras$ bandas$ que$ se$ seguiram,$
nomeadamente$na$década$de$oitenta$e$noventa.$
!
$
74$
;MAM@M!G0%+!%68#08*^!boom!7%!rock!4%(85)5•+!
$
De$acordo$com$Resende$e$Vieira$(1992),$Portugal$sofre$os$efeitos$da$crise$económica$
instalada$nos$países$do$centro$no$início$da$década$de$oitenta,$igualmente$intensificada$
pelas$ discórdias$ sociais$ decorrentes$ dos$ vários$ projetos$ contraditórios$ de$
democratização$do$país$postos$em$prática$após$a$revolução$de$1974.$Mas,$apesar$das$
dificuldades$económicas,$Portugal$abre$as$suas$portas$ao$exterior,$possibilitando$o$livre$
acesso$a$fontes$de$informação$nacional$e$estrangeira,$assim$como$a$uma$disseminação$
de$ novas$ ideias,$ também$ promovidas$ pelas$ trocas$ e$ contactos$ comerciais$ do$ nosso$
país.$$
<1')L)B'F&*" )." K*Bc$%$" %*" %*-+'B'%'" %*W*&'" %$" +0I*B'+0&.$"
*-$1X.0-$" *" %*" 0%*1#0W0-'CD$" 01*()c/$-'" -om# o# modelo# de#
aproximação* política* à* Europa* comunitária”.* (...)* A* partilha*
comum,& com& os& países& do& centro,& de& um& modelo& económico&
liberal' e' respetiva' ideologia' individualista,' concorrencial' e'
meritocrática,+ num+ contexto+ de+ precariedade,+ constituem+
-$1%0Cd*&" K'B'" $" &)BL0.*1#$," *." V$B#)L'+," %*" &)I-)+#)B'&"
i)/*10&2"(Resende$&$Vieira,$1992:$138-129).$
Neste$ contexto,$ a$ débil$ resistência$ económica$ e$ o$ desenvolvimento$ urbano$
ainda$precoce$parecem$ter$impulsionado$o$desenvolvimento$e$evolução$de$subculturas$
juvenis$ em$ Portugal.$ O$ antigo$ ativismo$ estudantil$ de$ natureza$ política$ e$ cultural$ dá,$
então,$ lugar$ a$ descontentamentos$ nos$ anos$ oitenta,$ com$ maior$ preponderância$ nos$
jovens$menos$preparados$das$classes$trabalhadoras$e$de$algumas$porções$das$classes$
médias.$Na$sociedade$portuguesa,$a$intensificação$das$atividades$de$lazer$e$consumo$
progride$gradualmente,$portanto,$em$direção$a$um$capitalismo$líquido$e$exacerbado,$
característico$do$período$de$modernidade$tardia.$
=&#'" EK$-'," -$." $&" &*)&" %0W*B*1#*&" B0#.$&" *" -0-+$&," K$%*"
'&&$-0'BF&*" '$" %*&K$+*#'B" *." V$B#)L'+" %$" KX&F.$%*B10&.$"
+0.0#'%$"S&"LB'1%*&"-0%'%*&"e222g2"8."$)#B$"'BL).*1#$"-$1&0&#*"
1'" KB0$B0%'%*" %$" -$1&).$" -$.$" ).'" %*#*B.01'1#*" %'" /0%'"
()$#0%0'1'2"9*&#*"&*1#0%$,"$&".E%0'"*"'"%01T.0-'"%*".*B-'%$"
'K*+'." '" ).'" KB$-)B'" -$1&#'1#*" %*" 1$/'&" .$%'&," 1$/$&"
*&#0+$&,"1$/'&"&*1&'Cd*&"*"*nK*B0M1-0'&"(Guerra,$2010:$235)."
$
75$
"
É$ neste$ cenário$ política$ e$ socialmente$ incerto,$ que$ em$ 1980$ os$ músicos$ de$
sessão$ começaram$ a$ demonstrar$ o$ seu$ descontentamento$ face$ aos$ salários$ e$ à$
estrutura$ da$ indústria$ fonográfica$ como$ um$ todo$ (Branco,$ 2019).$ Igualmente,$
verificou-se$ que$ a$ popularidade$ dos$ cantores$ de$ protesto$ foi$ enfraquecendo$ após$ a$
queda$ do$ regime$ e$ a$ posterior$ institucionalização$ da$ democracia$ em$ Portugal.$ Ao$
mesmo$ tempo,$ emergia$ uma$ nova$ geração$ criativa,$ que$ bebia$ dos$ ideais$
revolucionários$ do$ 25$ de$ abril$ e$ das$ referências$ musicais$ internacionais,$
nomeadamente$do$movimento$K)1J.$Contudo,$“o$K)1JFB$-J$não$durou$muito$tempo$
em$ Portugal,$ apesar$ de$ ter$ nascido$ já$ relativamente$ desfasado$ do$ movimento-mãe$
inglês”$ (Duarte,$ 1984:$ 182).$ Além$ da$ crescente$ dedicação$ mediática$ dos$ órgãos$ de$
comunicação$já$mencionados,$também$a$rádio$e$particularmente$o$programa$da$Rádio$
Comercial$3$-J"*.">#$-J$de$Luís$Filipe$Barros$(Figura$1.6.),$o$“quinto$programa$mais$
ouvido$ da$ Rádio$ portuguesa”,$ segundo$ o$ >*G*$(1980),$ e$ desenvolvido$ num$ molde$
internacional,$ acaba$ por$ ajudar$ a$ lançar$ o$ U'B%" B$-J$ e$ a$ 1*m" m'/*$ no$ nosso$ país$ e,$
consequentemente,$ a$ despertar$ a$ atenção$ da$ indústria$ para$ estes$ géneros$ musicais.$
Tratou-se$de$um$programa$diário$transmitido$entre$as$16h00$e$as$18h00$que$alcançou$
alcance$ internacional,$ uma$ vez$ que$ o$ “<<#$K>>$ que$ semanalmente$ apresenta,$ feito$
com$base$na$votação$dos$seus$ouvintes,$é$consultado$pelas$grandes$agências$britânicas$
de$organização$de$concertos$rock”$(s/a,$1980).$
!!!!!!U6)5(*!;M=M!Rock%em%Stock:%Um%ano%de%vida!
$$$$$$Fonte:$>*G*,$14$de$maio$de$1980.$
$
76$
$
Já$ no$ final$ da$ década$ de$ setenta,$ alguns$ projetos$ que$ viram$ o$ seu$ auge$
acontecer$ na$ década$ de$ oitenta$ começaram$ a$ dar$ os$ primeiros$ passos.$ Falamos$ dos$
8_Y,$ dos$ ‚)#$&" o" V$1#'KE&,$ dos$ ^bn0" e$ até$ de$ Rui$ Veloso,$ alguns$ dos$ primeiros$ a$
assumir$o$papel$de$protagonistas$na$esfera$mediática$do$B$-J$nacional.$No$entanto,$é$
no$ início$ dos$ anos$ de$ 1980$ que$ se$ dá$ o$ chamado$ I$$.$do$ B$-J$ português,$ cuja$
personificação$mais$conhecida$se$expressou$com$Rui$Veloso$e$o$seu$disco$!B"%*"3$-J,$
que$ marcou$ uma$ profunda$ erupção$ da$ música$ B$-J$ em$ Portugal.$ Cantado$ em$
português,$este$LP$marcou$toda$a$década$de$oitenta$e$o$tema$que$ocupou$lugar$central$
neste$ fenómeno$ foi$ 5U0-$" Y0101U$,$ uma$ vez$ que$ “as$ letras$ do$ K$KzB$-J$ desta$ altura$
fazem$referência$direta$à$ juventude,$aos$espaços$ urbanos$e$à$ situação$sociopolítica”$
(Oliveira,$ 2014:$ 27).$ Para$ Duarte$ (1984:$ 185),$ este$ disco$ “não$ foi$ musicalmente$
inovador,$mas$conseguiu$atingir$várias$camadas$etárias$sociais$e$até$políticas,$pelo$tom$
humano$ dado$ a$ cada$ história$ contada$ em$ poesia$ por$ Carlos$ Tê$ –$ uma$ das$ boas$
revelações$da$poesia$B$-J$portuguesa”.$A$dicção$de$Rui$Veloso$inspirada$nos$I+)*&.'1$
aliada$ à$ narrativa$ de$ Carlos$ Tê$ foram$ os$ ingredientes$ principais$ para$ um$ B$-J$
genuinamente$lusitano$(Branco,$2019).$O$enorme$sucesso$de$Veloso$e$Tê$abriu,$assim,$
as$portas$para$o$I$$.$de$bandas,$edições$e$sucessos$comerciais,$que$caracterizaram$
os$primeiros$anos$da$década$de$oitenta$no$nosso$país$(Guerra,$2010).$Note-se,$que$Rui$
Veloso$foi$um$dos$poucos$artistas$a$ser$capaz$de$se$manter$ativo$até$aos$nossos$dias$e$
“a$ avaliar$ pelo$ número$ de$ discos$ que$ vendeu$ até$ hoje,$ calcula-se$ que$ cada$ família$
portuguesa$ possa$ ter$ um$ álbum$ do$ Rui$ Veloso$ em$ casa”$ (Mesquita,$ 2006:$ 28).$ De$
forma$semelhante,$os$8_Y$lançam$o$disco$„"W+$B"%'"K*+*$(1981)$e$juntos$marcam$uma$
verdadeira$ explosão$ na$ música$ portuguesa.$ Apesar$ de$ se$ terem$ formado$ ainda$ nos$
anos$de$1970,$é$na$década$de$oitenta$que$a$sua$música$chega$a$todos$os$pontos$do$
país$ através$ das$ letras$ de$ António$ Manuel$ Ribeiro,$ que$ retratavam$ a$ realidade$ de$
muitos$jovens$suburbanos.$E,$de$repente,$tudo$passou$a$estar$relacionado$com$o$B$-J$
português$(Duarte,$2010).$$
4&"#*&#*.)1U$&"*"'1b+0&*&"%'"EK$-'"#*1%*."'"'&&$-0'B"?PR?"'$"
'1$"%'"%*&-$I*B#'"%$"B$-J"K$B#)L)M&,"%'".'&&0W0-'CD$"%$"B$-J"
$
77$
-'1#'%$" *." K$B#)L)M&," '$&" .'0$B*&" /$+).*&" %*" /*1%'&" %*"
%0&-$&"%*"'B#0&#'&"1'-0$1'0&,"%'"KB$+0W*B'CD$"%*"%0&-$&"%*"KB'#'"
*"%*"$)B$,"%*"B*%*&-$I*B#'"%'"música'popular'como'alternativa'
à" música" ligeira" e" complemento" ao" rock," da" existência" de"
KB$LB'.'&" B'%0$WX10-$&" *" %*" i$B1'0&" *&K*-0'+0Z'%$&," %$"
'K)B'.*1#$"%'&"#E-10-'&"KB$.$-0$1'0&,"%$"').*1#$"%$"K$%*B"
%*" -$.KB'" %'" i)/*1#)%*" *" %'" )#0+0Z'CD$" %*" ).'" +01L)'L*."
&0.K+*&" *" %0B*#'" %*" 'I$B%'L*." %*&&'" .*&.'" i)/*1#)%*"
(Guerra,$2010:$237)2"
De$facto,$o$ano$de$1981$assinalou$um$momento$único$na$música$portuguesa,$
na$medida$em$que$pelos$cálculos$de$Duarte$(1984)$terão$sido$editados$uma$média$de$
três$ singles$ de$ B$-J$ cantado$ em$ português$ por$ cada$ mês.$ Portanto,$ além$ do$
nascimento$exponencial$de$novas$bandas,$também$as$empresas$de$som,$luz$e$gestão$
se$ encaminhavam$ cada$ vez$ mais$ para$ uma$ maior$ profissionalização$ (Martins,$ 2014).$
Igualmente,$ no$ campo$ das$ editoras$ discográficas$ também$ se$ verificou$ um$ intenso$
crescimento$ancorado$nesta$vaga$de$artistas$B$-J,$que$incluíram$bandas$como$os$w93,$
os$3b%0$"7'-')$ou$os$_*BX0&"%$"7'B.$Particularmente,$os$w93$formados$no$Porto$em$
1980$ inicialmente$ por$ Toli$ (bateria),$ Alexandre$ Soares$ (voz$ e$ guitarras)$ e$ Vítor$ Rua$
(guitarras),$ e$ mais$ tarde$ com$ Mano$ Zé$ (baixo),$ caracterizaram-se$ pelo$
experimentalismo$e$criatividade$(Figura$1.7.),$“por$um$princípio$de$prazer,$imediato$e$
pregnante,$perfeitamente$ajustado$aos$requisitos$do$campo$K$KzB$-J”$(Maio,$1989:$8).$
Caracterizados$pelo$>*G*$(1981)$como$“os$terríveis$K)1J&$que$usurparam$o$bom$nome$
da$GNR”,$o$Grupo$Novo$Rock$assumiu$desde$início$uma$posição$provocatória$e$o$seu$
primeiro$single$V$B#)L'+"1'"5==$“já$estava$nos$<<#$K&>>$mesmo$antes$de$sair$a$blico$
(s/a,$1981:$7).$Já$com$Rui$Reininho$no$grupo,$o$álbum$<1%*K*1%'1C'$lançado$em$1982$
materializa$ fielmente$ a$ liberdade$ experimentalista$ da$ banda,$ sobretudo$ através$ do$
tema$!/'B0'&,$que$ocupa$o$lado$B$do$disco$por$inteiro,$“com$cerca$de$25$minutos$de$
intensos,$criativos$e$dialógicos$0.KB$.K#)&”$(Branco,$2017:$244).$Os$3b%0$"7'-'),$por$
sua$ vez,$ emergiram$ na$ corrente$ urbano-depressiva$ dos$ subúrbios$ de$ Lisboa$ e$
buscavam$ uma$ linha$ de$ intervenção$ adequada$ à$ época$ de$ pós-revolução$ (Guerra,$
2010).$Já$os$_*BX0&"%$"7'B,$provenientes$dos$extintos$5$BK$":0K+$.b#0-$,$inspiraram-
se$na$história#portuguesa#e#valorizavam#o#elemento#teatral#e#estético#na#sua#imagem#e#
performance.+ Paralelamente,+ algumas+ bandas+ 7+ no+ ativo+ desde+ os+ anos+ setenta+
$
78$
conseguiram$alcançar$produção$musical$ de$ qualidade,$como$foi$o$ caso$dos$8_Y,$dos$
‚)#$&"o"V$1#'KE&$ou$dos$Jáfumega$(que$nasceram$no$Porto,$a$partir$dos$Mini$Pop).$
! ! U6)5(*!;MZM!GNR%ataca%com%Portugal%na%CEE!
$ $ $$$$
Fonte:">*G*,$25$de$março$de$1981.$
De$ acordo$ com$ Guerra$ a$ justificação$ para$ este$ I$$.$ ter$ acontecido$ nos$
primeiros$anos$da$década$de$oitenta$também$se$prende$com$o$facto$de$este$ser$um$
período$de$ estabilidade$ política$ e$ de$ muitos$dos$ seus$ protagonistas$ serem$ de$ classe$
média-alta,$ ou$ seja,$ eram$ indivíduos$ que$ tinham$ “(...)$ acesso$ ao$ que$ se$ fazia$ no$
«estrangeiro»,$com$dinheiro$para$«mandar$vir»$discos$lá$de$fora$ou$ir$ver$concertos$à$
Europa”$(Guerra,$2010:$221).$Porém,$com$a$intensificação$da$disseminação$de$B$-J$na$
rádio,$ sobretudo$ através$ de$ três$ programas$ especializados$ em$ B$-J$ (3$-J" *." >#$-J,$
como$vimos,$da$autoria$de$Luís$Filipe$Barros;$3$++&"3$-J,$de$António$Sérgio;$e$7*0'"%*"
3$-J,$ de$ Luís$ Vitta,$ Rui$ Pêgo$ e$ António$ Duarte),$ este$ tipo$ de$ música$ tornou-se$ num$
produto$ acessível$ à$ generalidade$ da$ população$ portuguesa.$ Neste$ âmbito,$ “a$
reconfiguração$da$rádio$e$a$sua$função$renovada& nos& inícios& dos& anos& oitenta& foi& um&
aspeto'proeminente'deste'momento'e'um'eixo'determinante'para'a'instalação'de'uma'
dinâmica( de( mudança( no( tocante( à( importância( do( K$K" B$-J”$ (Guerra,$ 2010:$ 237).$
Assim,$a$rádio$foi$uma$ferramenta$fundamental$para$a$promoção$do$B$-J$português,$
$
79$
mas$também$a$televisão$se$tornou$cada$vez$mais$permeável$a$este$fenómeno.$É$nesta$
altura$ que$ começam$ a$ ser$ gravados$ os$ primeiros$ vídeoclipes,$ posteriormente$
apresentados$ fundamentalmente$ no$ programa$ ;0/b.f&0-'.$ Na$ imprensa$ escrita,$
nascem$ também$ nesta$ altura$ os$ jornais$ 3$-J" |**J$e$ 7)&0-'+c&&0.$.$ De$ uma$ forma$
geral,$neste$período$ “é$verdadeiramente$espetacular$ o$volume$de$ discos$editados,$ a$
movimentação$ de$ estúdios,$ a$ frequência$ de$ passagem$ na$ televisão$ e$ na$ rádio$ e$ a$
procura$ incessante$ de$ reportagens,$ entrevistas$ e$ notícias$ alusivas$ ao$ tema”$ (Duarte,$
1984:$186).$Ao$mesmo$tempo,$o$semanário$>*G*$começa,$a$partir$desta$altura,$a$ter$o$
B$-J" português$ como$ foco$ central$ da$ sua$ linha$ editorial$ (Figura$ 1.8),$ apresentando$
diversos$ tipos$ de$ conteúdos$ (capas,$ notícias,$ entrevistas,$ reportagens,$ artigos$ de$
opinião,$ agenda$ de$ concertos,$ fotografias,$ lançamentos)$ alusivos$ ao$ tema$ aos$ seus$
leitores$e$a$introduzir,$também,$temáticas$associadas$ao$lema$>*n$,"%B$L'"*"B$-J[1[B$++$
que$ são$ de$ importância$ fulcral$ para$ esta$ investigação.$ É$ de$ realçar,$ que$ nas$ suas$
edições$entre$1980$e$1981$foram$publicados$mais$de$400$conteúdos$relativos$ao$B$-J$
português.$Para$o$jornal,$“este$ trabalho$é$afinal$uma$forma$ de$contribuirmos$para$o$
elaborar$dessa$ história$[história$ do$ B$-J$português]$ que$é$ urgente,$que$ se$ começa$a$
fazer$já$porque$decerto$ela$nos$ajudará$a$compreender$muito$do$que$está$a$passar-se$
neste$país”$(s/a,$1981:$2).$$$
$$$$$$$$$
! ! ! U6)5(*!;MRM!Rock%português%de%vento%em%popa!%
$ $ $ $$$$$$$$$$$Fonte:">*G*,$7$de$janeiro$de$1981.$
$
80$
Também$nesta$década,$mais$precisamente$em$1982,$decorre$a$segunda$grande$
edição$do$Festival$de$Vilar$de$Mouros,$de$31$de$julho$a$8$de$agosto,$que$contou$já$com$
o$apoio$da$Câmara$Municipal$de$Caminha,$da$Junta$de$freguesia$de$Vilar$de$Mouros$e$
da$Comissão$Regional$ de$Turismo$ do$Alto$ Minho$(Encarnação,$2015).$ Como$refere$ o$
>*G*,$ “a$ segunda$ versão$ aparece$ toda$ recuperada$ pela$ evolução$ política$ e$ os$
costumes”$(s/a,$1981:$7).$Nesta$edição,$“a$organização$geral$ficou$nas$mãos$de$António$
Barge,$a$direção$artística$por$conta$de$António$Victorino$d’$Almeida$e$os$responsáveis$
pelas$programações$de$jazz$e$B$-J$ ficaram$ a$cargo$de$Rui$Neves,$Rui$ Simões$ e$Jorge$
Lima$ Barreto”$ (Encarnação,$ 2015:$ 140).$ O$ cartaz$ ofereceu,$ novamente,$ uma$
programação$ musical$ diversificada$ (Figura$ 1.9.),$ mas$ como$ sugere$ Guerra$ (2010),$
permitiu$a$consolidação$de$uma$movimentação$pós-K)1J$e$1*m"m'/*$no$nosso$país,$
sobretudo$pela$presença$de$bandas$internacionais$como$3*1'0&&'1-*,"^U*">#B'1L+*B&,"
=-U$"o"^U*"p)11l.*1,"8H,$Johnny$Copeland,$^U*"w0&#"$)":)B)##0"5$+).1$e$nacionais$
como$ €'W).*L'," 3$n0LE10$$e$ w93.$ Porém,$ apesar$ dos$ apoios$ institucionais$ desta$
edição,$ a$ falta$ de$ patrocínios$ e$ a$ insuficiência$ das$ receitas$ obtidas$ voltaram$ a$
inviabilizar$a$ organização$do$festival$ nos$anos$ seguintes$(Farinha,$ 2012),$pelo$que$ só$
viria$ a$ acontecer$ novamente$ na$ década$ de$ noventa.$ Além$ disso,$ também$ os$
desentendimentos$ entre$ a$ comissão$ organizadora$ e$ as$ alterações$ constantes$ no$
programa$do$evento$também$comprometeram$a$viabilidade$do$festival.$Não$obstante$
as$ dificuldades$ que$ se$ impuseram$ a$ esta$ edição,$ o$ >*G*$ argumenta$ que$ “Vilar$ de$
Mouros$merece$mais$do$que$o$mero$registo$folclórico,$porque$assume$uma$dimensão$
cultural,$humana$e$social$que$é$preciso$tomar$em$consideração”$(s/a,$1982:$4).$
$
$
81$
!U6)5(*!;M<M!W(%)(*3*!7%!U#+86e*1!7#!V61*(!7#!P%5(%+&!;<R@!
$
Fonte:$>*#*,$14$de$julho$de$1982.$
No$ entanto,$ este$ crescimento$ do$ B$-J$ português$ começou$ a$ perder$ força$ a$
partir$de$1983/1984,$altura$em$que$o$cenário$da$sica$nacional$mudou$de$figura.$4$
não$se$verificava$um$crescimento$no$número$de$ artistas$ B$-J$e$aqueles$que$surgiam$
não$ tinham$ capacidade$ para$ sobreviver$ na$ indústria$ musical,$ que$ se$ tinha$ tornado$
cada$vez$mais$exigente,$por$isso,$apenas$alguns$músicos$conseguiram$permanecer.$No$
entanto,$ outros$ projetos$ nascidos$ no$ decorrer$ da$ década$ de$ oitenta$ um$ pouco$ por$
todo$ o$ país$ se$ revelaram$ profundamente$ marcantes$ para$ o$ B$-J$ português:$ :*+W01&"
(1981,$ Cascais),$ p'1$ (1981,$ Porto),$ >E#0.'" \*L0D$$(1982,$ Lisboa),$ 7D$" 7$B#'$(1984,$
Braga),$ ou$ {)01#'" %$" p0++$ (1987,$ Tomar).$ Deste$ grupo,$ apenas$ os$ 7D$" 7$B#'$se$
mantêm$em$plena$atividade$musical$até$aos$nossos$dias.$$
Ainda$ relevante$ nesta$ década,$ foi$ a$ apresentação$ de$ António$ Variações$ no$
panorama$musical$português,$um$intérprete$que$“(...)$marcou$uma$diferença$musical,$
estética$e$social$numa$transição$para$uma$(pós)modernidade”$(Guerra,$2010:$232).$De$
facto,$ António$ foi$ um$ artista$ múltiplo,$ que$ com$ a$ sua$ irreverência$ cruzou$ diversos$
estilos$ não$ combináveis$ S" KB0$B0,$ assinalando$ um$ lugar$ revolucionário$ na$ história$ da$
música$portuguesa.$E$a$sua$música$era$um$reflexo$de$todos$esses$cruzamentos,$uma$
fusão$ que$ englobava$ o$ fado$ e$ folclore,$ mas$ também$ influências$ das$ suas$ viagens$ ao$
$
82$
estrangeiro$(Oliveira,$2014).$Apesar$de$ter$falecido$no$auge$do$seu$sucesso$e$do$I$$.$
do$B$-J$português,$em$1984$(tendo$a$sua$morte$sido$fortemente$noticiada$na$imprensa$
e$rapidamente$associada$à$SIDA),$a$sua$música$permaneceu$bem$presente$até$aos$dias$
de$hoje.$Variações$“morreu,$e$isto$é$um$facto,$sim.$Mas$António$Variações$está$aí,$a$
provar$que$afinal...$há$vida$depois$da$morte”$(Gonzaga,$2006:$23).$Veja-se$o$exemplo$
do$filme$lançado$em$sua$homenagem,$da$autoria$de$João$Maia,$que$foi$um$dos$filmes$
mais$vistos$em$Portugal$em$20194.$
$
;'B0'Cd*&" W$0" -'K'Z," 1$" -$1#*n#$" %*" ).'" '01%'" 01-0K0*1#*"
-)+#)B'" %$" *1#B*#*10.*1#$" S" K$B#)L)*&'," %*" KB$.$/*B" ).'"
&c1#*&*" *1#B*" W$B.'&" #B'%0-0$1'0&" *" ()'%B$&" %*" .$%*B10%'%*,"
*nKB*&&'" 1'" -E+*IB*" %*-+'B'CD$" 1'" ()'+" 'W0B.$)" ()*" &)'"
.f&0-'"*&#'B0'"+$-'+0Z'%'"1'+L)."+)L'B"h*1#B*"'">E"%*"pB'L'"*"
9$/'"<$B()*j"(Monteiro:$2009b:$296)."
$
Também$durante$esta$década$é$de$realçar$o$papel$estimulante$desempenhado$
pelo$Rock$ Rendez-Vous$ e$ pelos$seus$ Concursos$ de$ Música$ Moderna.$Este$ espaço$ foi$
fundado$ por$ Mário$ Guia$ (ex$ baterista$ do$ conjunto$ de$ 0EF0E,$ 4&" =J$&)$ em$ 1980$ e$
constituiu-se$ como$ um$ dos$ palcos$ mais$ influentes$ e$ míticos$ na$ história$ do$ B$-J$
português$(Figura$1.10.),$que$o$Expresso$descreveu$como$um$espaço$onde$“se$dança$o$
novo$ rock,$ se$ desbravam$ os$ novos$ sons,$ se$ ensaiam$ os$ grupos$ de$ amanhã$ e$ se$
consagram$ os$ de$ hoje”$ (Falcão,$ 1985:$ 34).$ De$ acordo$ com$ Guerra$ (2010),$ o$ RRV$
produziu$ cerca$ de$ 1500$ concertos$ e$ contou$ com$ mais$ de$ 300$ grupos$ e$ artistas$ em$
apenas$dez$anos$de$atividade$(fechou$ portas$ em$1990).$De$inspiração$londrina,$mais$
propriamente$do$célebre$Marquee$Club,$o$RRV$foi$um$espaço$revolucionário$no$nosso$
país,$ pois$ “institucionalizou”,$ não$ só$ a$ música$ e$ o$ B$-J" nacional,$ mas$ também$ uma$
rotina$de$concertos$ na$capital$ e$ no$país.$ Por$isso,$“a$ atuação$neste$espaço$ passou$a$
representar$um$marco$na$carreira$dos$grupos”$(Castelo-Branco,$2010:$1051)”.$E$muitos$
fizeram-no,$sobretudo,$através$dos$Concursos$de$Música$Moderna,$que$contaram$com$
sete$ edições$ e$ que$ permitiram$ lançar$ inúmeros$ projetos$ de$ B$-J$ nacionais.$ O$ único$
requisito$ para$ participar$ consistia$ no$ facto$ das$ bandas$ não$ terem$ realizado,$ ainda,$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
4$Consultar em: https://www.publico.pt/2019/08/29/culturaipsilon/noticia/variacoes-ja-filme-portugues-
visto-2019-1884860.
$
83$
qualquer$ gravação.$ No$ fundo,$ a$ organização$ deste$ tipo$ de$ concursos$ “fomentou$ o$
surgimento$ de$ novas$ bandas,$ divulgou$ valores$ alternativos,$ permitiu$ a$ troca$ de$
experiências$ musicais$ e$ de$ contactos,$ o$ aumento$ das$ referências$ musicais$ dos$
participantes$e$a$própria$edição$discográfica”$(Guerra,$2010:$294).$Aliada$ao$RRV$e$aos$
Concursos$ existia,$ ainda,$ uma$ editora$ discográfica,$ a$ :'1&'" %$" >$.,$ que$ tinha$ por$
objetivo$primordial$lançar$os$discos$dos$vencedores$dos$concursos,$mas$também$outro$
tipo$de$discos,$nomeadamente$“uma$edição,$em$princípio$quinzenal,$com$o$som$dos$
melhores$ grupos$ que$ por$ ali$ vão$ passando,$ ao$ vivo,$ no$ palco$ (Falcão,$ 1985:$ 34).$
Também$relevante$na$influência$do$RRV$na$capital$e$no$país$“(...)$clube$onde$vinham$
atuar$ bandas$ estrangeiras,$ foi$ também$ muito$ influente$ para$ se$ visualizarem$ 01" +$-$$
roupas,$estéticas,$consumos,$formas$de$ser$e$de$estar$ínsitas$às$culturas$)1%*BLB$)1%$e$
também$ao$K)1J”$(Guerra,$Gelain$e$Moreira,$2017:$30).$
$
!!!U6)5(*!;M;>M!RRV:%a%fundação%do%(%-.!
$$Fonte:"=nKB*&&$$(revista),$20$de$abril$de$1985.$
$
Em$suma,$seguindo$a$linha$de$pensamento$de$Paula$Guerra$(2010),$todos$estes$
projetos$e$outros$mais$contribuíram$de$forma$decisiva$para$o$rebentamento$da$vaga$
da$década$seguinte,$na$medida$em$que$misturaram$diferentes$estilos$e$linguagens,$e$
deram$um$contorno$mais$definido$ao$B$-J$e$à$música$popular$portuguesa.$
$
84$
$
;MAMXM!G0%+!<>!
$
Como$temos$ vindo$a$ observar,$todas$ as$ transformações$que$ decorrem$no$ campo$da$
música$ devem$ ser$ consideradas$ em$ associação$ com$ um$ contexto$ mais$ vasto$ de$
transformações$ nos$ domínios$ social,$ económico,$ cultural$ e$ político$ da$ sociedade$
portuguesa.$ Neste$ sentido,$ nos$ anos$ noventa$ o$ nosso$ país$ caracterizava-se$ por$ uma$
população$ cada$ vez$ mais$ envelhecida,$ (o$ que$ conduziu$ invariavelmente$ a$ alterações$
nas$ taxas$ de$ natalidade$ e$ fecundidade),$ por$ um$ crescimento$ das$ classes$ médias$
urbanas$ e,$ ainda,$ por$ um$ crescente$ aumento$ do$ mercado$ de$ trabalho$ feminino$
(Guerra,$2010).$Por$outro$lado,$também$assentava$em$“níveis$de$qualificação$escolares$
e$ profissionais$ mais$ baixos,$ na$ baixa$ produtividade$ empresarial,$ nas$ baixas$
remunerações$ salariais$ e$ na$ persistência$ de$ formas$ tradicionais$ de$ exclusão$ social”$
(Guerra,$2010:$301).$Porém,$verificava-se$nesta$altura$uma$tendência$crescente$para$a$
massificação$do$consumo$de$bens$culturais$e$para$o$aumento$das$atividades$culturais,$
sustentado$pela$sua$emergente$importância$económica$(Silva,$1997).$$
A$importância$da$globalização$e$da$evolução$tecnológica$também$não$ficaram$
aquém$ das$ transformações$ na$ sociedade$ e$ na$ música.$ Por$ isso,$ já$ desde$ o$ final$ dos$
anos$oitenta,$que$a$indústria$da$música$ultrapassava$grandes$desafios,$particularmente$
relacionados$com$a$queda$do$ vinil$e$a$ascensão$do$CD:$ dizia-se$que$o$vinil$tinha$ os$
dias$contados,$usurpado$por$um$disco$em$acrílico$de$120$milímetros,$digital,$durável,$
sem$<<chiados>>$no$som$reproduzido$e$com$capacidade$para$80$minutos$de$música:$
5$.K'-#":0&-”$(Branco,$2019:$267).$E$segundo$Pais$(1994),$uma$das$maiores$evoluções$
das$décadas$de$oitenta$e$noventa$em$Portugal$prende-se$com$o$aumento$exponencial$
de$música$gravada.$É$neste$âmbito$que,$aliado$à$evolução$tecnológica,$social,$política$e$
económica,$se$impõe$um$I$$.$musical$(Donnat$&$Cogneau,$1990),$visível,$sobretudo$
no$aumento$ da$ comercialização$ discográfica$e$ editorial$ e$ na$ organização$ de$ eventos$
musicais.$Assim,$a$década$de$1990$corresponde$aos$anos$em$que$se$quebra$finalmente$
o$ isolamento$ de$ Portugal,$ mas$ onde$ há$ igualmente$ uma$ ausência$ de$ valores$
característicos,$ que$ se$ reflete$ um$ pouco$ no$ que$ qualitativamente$ ficou$ marcado$ no$
$
85$
universo$ musical$ dessa$ década$ (Guerra,$ 2010).$ Contudo,$ é$ ainda$ durante$ 1990,$ que$
Branco$(2019)$sugere$que$o$B$-J$português$atinge$a$sua$maturidade,$tendo$em$conta$o$
amadurecimento$favorável$de$muitos$projetos$musicais$e$o$nascimento$de$outros.$
$
!&&0.," '" KB0.*0B'" K'B'L*." W'ZF&*" *." #$B1$" %'&" I'1%'&" ()*"
'&&0&#0B'." 1*&#'" %E-'%'" '" ).'" *+*/'CD$" *." #*B.$&" %*"
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-$1&$+0%'CD$"%'&"&)'&"*&#B)#)B'&"KB$%)#0/'&,"%$"K$1#$"%*"/0&#'"
%'" *%0CD$" B*L)+'B" %*" %0&-$&," %'" B*'+0Z'CD$" %*" #$)B1E*&"
B*L)+'B*&," %'" &)&#*1#'CD$" %$&" &*)&" .*.IB$&" -B0'#0/$&" *"
KB$%)#0/$&" *" %'" &)'" KB$i*CD$" S" *&-'+'" 01#*B1'-0$1'+" (Guerra,$
2010:$304)."
$
Falamos$neste$contexto$de$grupos$como$os$w93,$os$7D$"7$B#',$os$>0#0'%$&$e$
os$ :*+W01&,$ por$ exemplo,$ mas$ relembrando$ a$ manutenção$ do$ culto$ face$ aos$ ‚)#$&" o"
V$1#'KE&2"De$forma$inédita,$os$w93$conseguiram$esgotar$o$Estádio$de$Alvalade$num$
espetáculo$a$solo$para$cerca$de$quarenta$mil$pessoas,$após$a$gravação$do$disco$3$-J"01"
30$":$)B$"de$1992,$que$contou$com$as$participações$de$Isabel$Silvestre$(em$VB$1f1-0'"
%$"9$B#*)$e$Javier$Andreu$(em$>'1L)*"4-)+#$)$(Duarte,$2010).$Os$7D$"7$B#'$lançam$
em$1992$7)#'1#*&">2H?,$considerado$por$muitos$o$melhor$álbum$da$banda$e$um$dos$
melhores$discos$nacionais$de$todos$os$tempos$pela$imprensa$especializada5.$Com$este$
disco,$os$7D$"7$B#'$consolidam$a$sua$posição$no$palco$do$B$-J$português$e$mantém$a$
sua$ filosofia$ interventiva$ ativa,$ nomeadamente$ através$ da$ denúncia$ de$ situações,$
condições$e$vivências$urbanas$(Guerra$&$Januário,$2016).$Os$>0#0'%$&$lançam$em$1992$
um$disco$homónimo$que$continha$A";0%'"%*"7'B01U*0B$,$tema$que$os$catapultou$para$
o$rol$de$bandas$com$mais$atuações$ao$vivo$em$Portugal$(Duarte,$2010).$Durante$esta$
década$ de$ prosperidade,$ o$ grupo$ continuou$ a$ evocar$ os$ valores$ tradicionais$
portugueses,$ao$mesmo$tempo$que$fazia$um$retrato$do$estado$da$nação,$fazendo$um$
apelo$à$liberdade$e$à$igualdade$de$direitos$(Maganinho,$2010).$Os$:*+W01&$(Figura$1.11.)$
inauguram$ o$ ano$ de$ 1990$ com$ o$ lançamento$ de$ :*&'+01U'%$&,$ que$ contem$ um$ dos$
temas$mais$célebres$da$sua$carreira,$9'&-*">*+/'L*.$e$esta$década$diz$respeito,$sem$
dúvida,$ao$auge$ do$seu$sucesso$ no$panorama$nacional$ e$internacional.$Em$ 1992$são$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
5$Consultar em: http://web.archive.org/web/20100824213929/http://www.publico.pt/Media/blitz-elege-
os-25-melhores-albuns-portugueses-das-ultimas-quatro-decadas_1407602$
$
86$
convidados$ a$ participar$ na$ Expo$ 92$ de$ Sevilha;$ compõem$ a$ banda$ sonora$ e$
representam$ na$ peça$ pB*/*" >).bB0$" %'" _0&#XB0'" %*" :*)&,$ de$ Carlos$ Avilez$ em$ 1994;$
contribuem$em$discos$de$homenagem$a$José$Afonso$e$a$António$Variações$e$gravam$4"
5'.01U$"%'"Y*+0-0%'%*$em$1995,$em$Macau$(Duarte,$2010).$$
$
! ! !!!U6)5(*!;M;;M!'#1}60+!
$$Fonte:$Angelo,$2010.$
$
Relativamente$ aos$ novos$ projetos$ musicais$ desta$ década$ é$ importante$
mencionar$“os$ventos$do$01%0*"B$-J"e$da$música$eletrónica$que$sopravam$da$Inglaterra$
e$ dos$ Estados$ Unidos$ via$ 01#*B1*#”$ (Monteiro,$ 2008:$ 236)$ e$ que$ influenciaram$ o$
nascimento$ de$ uma$ vaga$ de$ projetos$ ancorados$ na$ estética$ DIY,$ maioritariamente$
cantados$em$inglês.$Comecemos$por$referir$ao$nível$dos$grupos$já$extintos$os$>0+*1-*"N$
e$os$|B'lw)11;$e$os$p+01%"}*B$$e$^U*"w0W#$do$lado$dos$grupos$que$ainda$permanecem$
em$atividade.$Nesta$década,$também$ressaltamos$a$importância$de$Pedro$Abrunhosa$e$
dos$5+D.$Outros$projetos$relevantes$como$os$^BM&"^B0&#*&"^0LB*&$ou$os$4B1'#$&";0$+*#'$
encontram-se,$neste$momento,$a$retomar$a$sua$atividade$após$uma$ausência$de$vários$
anos.$ Relativamente$ aos$ >0+*1-*" N$ eles$ constituem$ o$ primeiro$ projeto$ musical$ de$
sucesso$ nacional$ não$ proveniente$ das$ cidades$ de$ Lisboa$ ou$ do$ Porto,$ tendo$ sido$
$
87$
fundados$na$cidade$de$Leiria$(Guerra,$2010)$em$1995.$Voltam$a$trazer$a$língua$inglesa$
ao$ B$-J$ e,$ em$ poucos$ anos,$ a$ banda$ alcança$ um$ enorme$ reconhecimento$ nacional,$
nomeadamente$com$o$lançamento$do$seu$primeiro$álbum$>0+*1-*"p*-$.*&"<#$em$1998,$
que$ “atingiu$ um$ sucesso$ inesperado$ e$ avassalador”$ (Fonseca,$ 2012:$ s/p).$ Com$ o$
desfecho$da$banda$em$2001,$o$vocalista$David$Fonseca$inicia$uma$carreira$a$solo$em$
2003$ e$ protagoniza$ intensamente$ a$ estética$ DIY,$ nomeadamente$ através$ da$ autoria$
dos$grafismos$dos$seus$discos$e$da$direção$dos$seus$vídeoclipes.$Da$cena$de$Coimbra$
nascem$ os"|B'lL)11$em$ 1999,$ com$ origem$ nos$ ^E%0$" p$l&,$ que,$ por$ sua$ vez,$
originaram$outros$projetos$como$os$p)11lB'1-U,":OQ$ou$^U*"V'BJ01&$1&.$Só$editam$o$
seu$ disco$ de$ estreia$ no$ ano$ seguinte,$ !.'#*)B,$ sendo$ que$ o$ seu$ reconhecimento$
nacional$ só$ acontece$ a$ partir$ dessa$ altura.$ Posteriormente,$ Paulo$ Furtado$ cria$ um$
projeto$a$ solo$na$ filosofia$ $1*".'1" I'1%,$denominado$ ^U*" \*L*1%'Bl"^0L*B.'1,$ em$
2002,$ que$ conquista$ uma$ grande$ visibilidade$ não$ só$ nacional,$ mas$ também$
internacional.$O$último$álbum$70&W0#$lançado$em$2018$foi$inclusivamente$gravado$no$
estúdio$Rancho$de$la$Luna,$em$Joshua’s$Tree,$na$Califórnia6$“um$disco$(que$são,$afinal,$
dois)$ e$ um$ filme,$ tudo$ registado$ nos$ Estados$ Unidos”$ (s/a,$ 2018,$ s/p),$ que$ contou$
também$com$a$filmagem$de$Y'%*"<1#$"9$#U01L$(2017),$com$realização$de$Pedro$Maia$
(Figura$1.12.)7.$
$ $
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
6 Consultar em: https://www.comunidadeculturaearte.com/misfit-o-rock-n-roll-ousado-de-the-legendary-
tigerman/
7 Consultar em: https://blitz.pt/videos/2019-05-22-The-Gift-E-mais-dificil-fazermos-musica-depois-de-
termos-trabalhado-com-o-Brian-Eno-VIDEO$
$
88$
$6)5(*!;M;@M!F#)#07*(h!Q6)#(3*0^!sD(*!}507*3#08*1!}*•#(!#+8#!76+-%!0%+!D2Gt!
$$$$$$$$$$$Fonte:$p+0#Z$($1+01*g,$18$de$janeiro$de$2018.$
$
Os$ p+01%" }*B$$ formaram-se$ em$ 1994$ no$ Porto,$ com$ uma$ forte$ ligação$ ao$
movimento$LB)1L*$(Guerra,$2010).$Por$essa$razão,$tomaram$no$seu$início$uma$posição$
socialmente$interventiva$e$contracultural,$na$medida$em$que$confrontavam$o$público$
com$ a$ realidade$ nas$ suas$ letras,$ recorrendo$ a$ metáforas$ e$ analogias$ (Maganinho,$
2010),$tal$como$sucedeu$com$os$>0+*1-*"N$e$a$cidade$de$Leiria,$aconteceu$com$os$^U*"
w0W#$e$a$cidade$de$Alcobaça.$Na$sua$índole$DIY,$“os$The$Gift$criaram$uma$estrutura$de$
criação,$promoção$e$desenvolvimento$própria$sedeada$em$Alcobaça,$sendo$este$facto$
também$ inédito$ no$ panorama$ nacional:$ estúdio,$ bar,$ editora,$ etc....”$ (Guerra,$ 2010:$
317).$ Fundados$ em$ 2004,$ os$ ^U*" w0W#$ contam$ já$ com$ uma$ carreira$ triunfante$ de$ 25$
anos$ e$ com$ grandes$ nomes$ da$ indústria$ da$ música$ na$ produção$ dos$ seus$ discos,$
nomeadamente$o$produtor$britânico$Brian$Eno,$célebre$pelas$suas$colaborações$com$
3$nl"7)&0-,"^'+J01L"_*'%&$ou$8H,$nos$álbuns$!+#'B$(2017)$e$;*BD$$(2019)8.$
$
!" '%$CD$" %$" 01L+M&" -$.$" 0%0$.'" $W0-0'+" %$" B$-J" K$B#)L)M&"
-$1#*.K$BT1*$" #'.IE." W0-'" */0%*1#*" &*" -$.K'B'B.$&" '&"
-$+*#T1*'&" 4" .*+U$B" %$" B$-J" K$B#)L)M&" e/$+).*&" <" *" <<g"
e=7<z;'+*1#0." %*" 5'B/'+U$," HQQOzHQQNg," ()*" -$IB*" 'B#0&#'&"
&)BL0%$&"%)B'1#*"$"I$$."%$"LM1*B$,"*1#B*"?PGP"*"?PR@,"*"$"5:"
%)K+$" 9$/$" B$-J" K$B#)L)M&" e5U0'%$" 3*-$B%&zY'B$+" 7f&0-',"
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
8$Consultar em: https://blitz.pt/videos/2019-05-22-The-Gift-E-mais-dificil-fazermos-musica-depois-de-
termos-trabalhado-com-o-Brian-Eno-VIDEO$
$
89$
HQQGg2" =1()'1#$" 1'" KB0.*0B'" -$+*#T1*'" #$%$&" $&" 'B#0&#'&"
-'1#'." *." K$B#)L)M&," 1'" &*L)1%'," 'K*1'&" @" %'&" OR" I'1%'&"
B*)10%'&"1D$"-'1#'."*."01L+M&"(Monteiro,$2008:$236).$
$
Dois$fenómenos$da$década$de$noventa$ambos$provenientes$do$Porto$e$a$cantar$
em$língua$portuguesa$ foram$os$5+D" e$Pedro$Abrunhosa.$ Os$5+D$nasceram$ em$1992$a$
partir$de$um$grupo$que$estudava$e$ensinava$i'ZZ"no$mesmo$espaço.$Após$lançarem$um$
primeiro$ disco$ de$ menor$ repercussão,$ \)&${8!\{8=3-$0&'$(1997)$ foi$ com$ 6'Z$$$
(1997),$ com$ letras$ de$ Carlos$ Tê,$ $ que$ atingiram$ um$ grande$ sucesso$ comercial$ e$ o$
reconhecimento$nacional9.$Por$sua$vez,$Pedro$ Abrunhosa$também$tinha$um$passado$
musical$no$i'ZZ$como$estudante,$músico$e$professor$(Guerra,$2010)$durante$as$décadas$
de$setenta$e$oitenta,$nas$quais$“integrou$bandas$de$i'ZZ$e$tocou,$inclusive,$na$Cool$Jazz$
Orchestra”$ (Maganinho,$ 2010:$ 29).$ Funda$ os$ Bandemónio$ em$ 1993,$ mas$ é$ em$ 1994$
que$ se$ torna$ num$ fenómeno$ à$ escala$ nacional$ e$ posteriormente$ internacional,$ em$
particular$ nos$ países$ lusófonos,$ com$ o$ lançamento$ do$ seu$ álbum$ de$ estreia$ ;0'L*1&$
(Oliveira,$ 2014).$ Os$ seus$ temas$ também$ eram$ caracterizados$ por$ um$ sentimento$
contestatário$e$de$revolta$perante$a$realidade$social$e$política$e$esta$“crítica$política$e$
social$ tornou-se,$ de$ facto,$ uma$ das$ constantes$ mais$ evidentes$ no$ discurso$ de$ Pedro$
Abrunhosa”$(Galopim$in$Abrunhosa,$1995:$10).$O$músico$foi,$ainda,$um$dos$convidados$
a$atuar$durante$a$Expo$98,$em$Lisboa,$à$semelhança$dos$5+D.$$
Ainda$ com$ um$ pé$ nos$ p'1,$ Ana$ Deus$ junta-se$ a$ Regina$ Guimarães$ e$ a$ Paula$
Sousa$para$a$criação$dos$^BM&"^B0&#*&"^0LB*&,$em$1992,$que$mais$tarde$vê$Paula$Sousa$
ser$substituída$por$Alexandre$Soares$(ex$w93).$Após$o$lançamento$de$V'B#*&">*1&c/*0&$
em$1993,$é$com$w)0'"=&K0B0#)'+$(1996)$que$o$trio$abraça$a$aclamação$de$fãs$e$da$crítica$
especializada,$tendo$sido$considerado$um$dos$melhores$discos$de$produção$nacional$
nesse$ ano$ (Maganinho,$ 2010).$ De$ facto,$ os$ ^BM&" ^B0&#*&" ^0LB*&$ “apostam$ na$
abstratização$das$atmosferas$e$num$jogo$de$recusa/aceitação$do$formato$tradicional$
que$ tem$ a$ ver$ com$ um$ certo$ método$ de$ trabalho”$ (Lisboa,$ 2002:$ 136).$ Também$ do$
Porto,$ os$ 4B1'#$&" ;0$+*#'$ formaram-se$ em$ 1991$ e$ integraram$ o$ grupo$ dos$ três$
finalistas$do$6º$e$último$Concurso$de$Música$Moderna$do$Rock$Rendez-Vous,$em$1994,$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
9 Consultar em: https://blitz.pt/principal/update/2016-07-30-A-luz-e-a-sombra-dos-Cla-a-historia-toda-
contada-pelos-proprios
$
90$
onde$ arrecadaram$ o$ prémio$ de$ originalidade$ (Guerra,$ 2010).$ Lançaram$ apenas$ dois$
álbuns$-$5D$a$(1997)$e$4"7$1&#B$"VB*-0&'"%*"!.0L$&$(1999)$-$em$pouco$mais$de$dez$
anos$de$atividade,$mas$foram$mais$que$suficientes$para$se$tornarem$numa$das$bandas$
mais$influentes$desta$década$(Oliveira,$2014).$Apesar$de$não$se$encontrarem$no$ativo,$
continuam$a$esgotar$as$salas$de$espetáculo$do$país$sempre$que$se$juntam$para$algum$
espetáculo$(Figura$1.13.).$
!
!
!
!U6)5(*!;M!;XM!Ninguém%deixa%morrer%o%amor%por%Ornatos%Violeta!
$$Fonte:$€$B1'+"810/*B&0#bB0$"%$"V$B#$$($1+01*g,$3$de$novembro$de$201910.$
$
Um$caso$particular$é$o$dos$3*&0&#M1-0',$um$supergrupo$constituído$no$final$dos$
anos$ oitenta/início$ dos$ anos$ noventa$ por$ integrantes$ de$ outras$ bandas$ e$ que$ ainda$
hoje$continua$a$sua$atividade,$mas$com$menor$regularidade.$Este$supergrupo,$embora$
com$ algumas$ alterações$ na$ sua$ estrutura$ ao$ longo$ dos$ tempos,$ é$ constituído$ por$
Miguel$Ângelo$e$Fernando$Cunha$(:*+W01&),$Tim$(‚)#$&"o"V$1#'KE&),$Olavo$Bilac$(>'1#$&"
o"V*-'%$B*&),$ José$Salgueiro$ (^B$/'1#*),$Pedro$ Ayres$Magalhães$ (7'%B*%*)&),$ Pedro$
Jóia,$ Mário$ Delgado,$ Fernando$ Júdice,$ Alexandre$ Frazão$ e$ Rui$ Pereira.$ Segundo$
Maganinho$(2010),$esta$banda$também$recorre$aos$seus$temas$para$mostrar$a$força$da$
união$do$povo$e$a$defesa$da$liberdade.$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
10 Consultar em: https://www.juponline.pt/cultura/artigo/33489/ninguem-morrer-amor-ornatos-
violeta.aspx
$
91$
$
;MAM`M!'%+!*0%+!@>>>!‚!*85*167*7#!
$
A$partir$dos$anos$2000,$Portugal$é$palco$de$novas$transformações$sob$o$ponto$de$vista$
social,$económico$e$cultural,$transformações$essas$que$foram$tardias$relativamente$à$
Europa,$ mas$ rápidas$ tendo$ em$ conta$ a$ evolução$ demográfica$ e$ tecnológica$ (Silva,$
2006).$ Estas$ mesmas$ transformações$ são$ extensivas$ “às$ várias$ dimensões$ socais,$
passando$ pela$ ocupação$ do$ território$ e$ as$ clivagens$ regionais,$ pela$ organização$ do$
Estado$ e$ das$ suas$ funções$ sociais,$ pela$ estrutura$ e$ a$ dinâmica$ social$ ou$ ainda$ pelos$
valores$ e$ comportamentos$ políticos”$ (Guerra,$ 2010:$ 337).$ Perante$ este$ cenário$
evolutivo,$as$estratégias$adotadas$para$fazer$face$ao$mesmo$de$forma$a$incorporá-lo$
no$quotidiano$social,$também$se$repercutiram$no$campo$da$música$nacional.$Além$da$
urbanização$ litoralizada,$ da$ massificação$ do$ ensino$ e$ da$ terciarização$ e$
quaternarização$do$mercado$de$trabalho,$a$procura$cada$vez$maior$de$bens$de$cultura$
e$ lazer$ revelam$ uma$ consolidação$ progressiva$ das$ indústrias$ culturais$ em$ Portugal$
(Mónica,$1999).$É$também$a$partir$deste$período$que$a$<1#*B1*#$chega$ao$nosso$país$e$
se$ vai$ tornando$ numa$ opção$ cada$ vez$ mais$ acessível$ a$ uma$ vasta$ camada$ da$
população.$ É$ neste$ âmbito,$ ainda,$ que$ a$ massificação$ do$ $1+01*$desempenhou$ um$
papel$ crucial$ na$ forma$ como$ se$ ouvia,$ fazia$ e$ percecionava$ a$ música$ até$ então.$
Atualmente,$ o$ cenário$ musical$ encontra-se$ em$ constante$ mutação,$ particularmente$
pelas$“grandes$mudanças$provocadas$pela$rápida$evolução$da$<1#*B1*#$e$pela$fusão$de$
tecnologias$de$áudio$e$computação”$(Sen,$2010:$5).$Shapero$(2015)$sugere,$então,$que$
poucas$ indústrias$ sofreram$ tantas$ mudanças$ fundamentais$ como$ a$ indústria$ da$
música,$ porque$ a$ tecnologia$ alterou$ a$ sua$ estrutura$ e$ o$ papel$ do$ artista$ mudou$
consideravelmente$ (Santos,$ 2002).$ Nesta$ nova$ realidade,$ músicos$ e$ artistas$ são$
conduzidos$ cada$ vez$ mais$ à$ adoção$ de$ estratégias$ DIY$ na$ gestão$ das$ suas$ carreiras,$
facto$que$ já$ vinha$ a$acontecer,$ como$ vimos,$ desde$a$ década$ de$ noventa.$ No$ fundo,$
“estas$ estratégias$ de$ auto-produção$ baseadas$ no$ capital$ subcultural$ estão$
relacionadas,$em$primeiro$lugar,$com$a$produção,$composição,$edição,$distribuição$e$
$
92$
gestão$ de$ eventos$ (concertos,$ festivais$ de$ música,$ ensaios,$ turnês$ internacionais)”$
(Guerra,$2017:$294).$
À$ luz$ destas$ transformações$ na$ sociedade$ portuguesa,$ surgem$ a$ partir$ desta$
década$novos$projetos$musicais$com$perspetivas$e$filosofias$renovadas.$Falamos,$por$
exemplo,$ de$ bandas$ com$ os$ :*'%" 5$.I$," ‚F|0W*," p+'-J" p$.I'0.," w+$-J*1m0&*,"
K*0n*A'/0D$,"\01%'"7'B#010$ou$V')&.$Os$:*'%"5$.I$$são$um$dueto$formado$em$Lisboa$
em$2002,$na$sequência$de$um$convite$do$radialista$Henrique$Amaro$a$Tó$Trips$(ex$\)+)"
p+01%),$ para$ a$ sua$ contribuição$ num$ disco$ dedicado$ a$ Carlos$ Paredes$ (Arnold,$ 2013).$
Lançaram$ o$ seu$ álbum$ de$ estreia$ em$ 2004$ (;$+2?)$ e$ receberam,$ simultaneamente,$
elogios$da$crítica$especializada,$particularmente$de$Charlie$Gillet,$radialista,$museólogo$
e$ escritor$ britânico,$ que$ o$ incluiu$ na$ sua$ lista$ de$ melhores$ álbuns$ de$ 200511.$ Desde$
essa$ altura,$ editaram$ mais$ três$ álbuns,$ compuseram$ a$ banda$ sonora$ de$ um$ filme12$
(>+0LU#+l">.'++*B"^U'1"<1%0'1'"(2006),$de$Daniel$Blaufuks),$ participaram$no$programa$
gastronómico$de$Anthony$Bourdain$9$"3*&*B/'#0$1&$sobre$a$cidade$de$Lisboa13,$que$os$
catapultou$para$o$#$K$10$do$i-tunes$norte-americano14$com$três$álbuns$(Figura$1.14.)$
(“os$dois$primeiros$álbuns$dos$Dead$Combo,$“Vol.$1”$e$“Vol.$2$-$Quando$a$Alma$Não$É$
Pequena”,$surgem$em$ segundo$e$ em$quarto$lugar,$ respectivamente,$ao$passo$ que$o$
disco$ ao$ vivo$ “Live$ at$ Hot$ Club”$ está$ na$ décima$ posição”)$ (s/a,$ 2012:$ s/p)$ e$ foram$
convidados$a$atuar$na$estreia$do$filme$5$&.$K$+0&$de$David$Cronenberg$com$produção$
de$ Paulo$ Branco,$ em$ Cannes15.$ Neste$ momento,$ encontram-se$ a$ preparar$ a$ sua$
digressão$ de$ despedida$ a$ decorrer$ em$ 2020,$ após$ terem$ anunciado$ o$ seu$ final$ em$
Outubro16.$$No$mesmo$ano,$no$Porto,$nascem$os$‚F|0W*$com$João$Vieira$(DJ$Kitten),$
Fernando$Sousa$e$Rui$Maia,$decorrentes$do$projeto$paralelo$5+)I"60##*1$de$João$Vieira$
(Guerra,$ 2010).$ Em$ 2003$ apresentam$ o$ EP$ 3$-J01[30$$ e$ em$ 2004$ lançam$ o$ primeiro$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
11 Consultar em: https://deadcombo.net/
12 Consultar em: https://indielisboa.com/movies/slightly-smaller-than-indiana/
13 Consultar em: https://blitz.pt/principal/update/2018-06-08-Anthony-Bourdain-morre-aos-61-anos---
recorde-aqui-o-episodio-portugues-de-No-Reservations-com-Dead-Combo-e-Carminho
14 Consultar em: https://www.publico.pt/2012/05/10/culturaipsilon/noticia/dead-combo-no-top-de-
vendas-americano-depois-apareceram-no-programa-de-bourdain-1545473
15 Consultar em: https://www.publico.pt/2012/05/14/culturaipsilon/noticia/dead-combo-actuam-em-
cannes-na-estreia-de-cosmopolis-1546006
16 Consultar em: https://www.publico.pt/2019/11/21/culturaipsilon/noticia/digressao-despedida-dead-
combo-arranca-dezembro-lisboa-1894585$
$
93$
disco$Y**%01L"^U*"7'-U01*,$que$já$conta$com$15$anos,$que$o$grupo$está$a$celebrar$com$
uma$digressão$pelo$país17.$Influenciaram-se$e$influenciaram$o$percurso$da$banda$LCD$
Soundsytem$e$no$seu$currículo$contam,$ainda,$com$o$single$7$/01")K$na$banda$sonora$
da$FIFA$201618.$
$
!!!!!!!!!!!!!!U6)5(*!;M;`M!Programa%de%Bourdain%atira%Dead%combo%para%o%top%do%iTunes$
$$$$$$$$$$$$$$$Fonte:$…K&0+$1$($1+01*),$10$de$maio$de$2012.!
$
A$norte$de$Portugal$nascem$os$p+'-J"p$.I'0.,$em$Barcelos$no$ano$de$2007,$
decorrentes$da$vaga$de$artistas$impulsionados$pela$editora$Lovers$&$Lollypops$sediada$
no$Porto,$que$tem$como$epicentro$o$Festival$Milhões$de$Festa.$O$primeiro$disco$saiu$
em$ 2009$ e$ até$ hoje$ têm$ mantido$ um$ percurso$ de$ atividade$ notório,$ que$ inclui$
reconhecimento$internacional.$Também$da$cena$barcelense$e$do$inventário$da$editora$
Lovers$ &$ Lollypops$ surgiram$ os$ w+$-J*1m0&*,$ um$ trio$ muito$ jovem$ (tinham$ 16$ anos$
quando$começaram)$constituído$por$Nuno$Rodrigues$(:)()*&'),$Rafael$Martins$e$Rui$
Fiusa.$Lançam$um$primeiro$EP$homónimo$em$2009,$mas$é$em$2011$que$editam$o$seu$
primeiro$ álbum$ p)0+%01L" |'/*&,$ que$ os$ levou$ a$ percorrer$ o$ país$ em$ concertos$
utilizando$transportes$públicos19.$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
17$Consultar em: https://www.timeout.pt/lisboa/pt/noticias/15-anos-depois-os-x-wife-vao-tocar-o-
primeiro-album-do-principio-ao-fim-111419$
18$$Consultar em: https://www.comunidadeculturaearte.com/entrevista-o-regresso-em-grande-dos-x-
wife/$
19$$Consultar em: https://ionline.sapo.pt/artigo/419325/o-rock-dos-glockenwise-amadureceu-e-ja-nao-
vive-de-ilusoes-?seccao=Mais$
$
94$
Em$Braga,$entre$2006$e$2007,$nasceram$os$K*0n*A'/0D$2$Em$2007,$estes$lançam$
o$ EP$ Y01i$" '" Y'Z*B" %*" 5$1#'" Y*0#$" V*0n*" !/0D$," através$ de$ uma$ bordagem$ DIY$ que$
envolveu$ produção,$ edição$ e$ distribuição$ a$ partir$ de$ investimento$ pessoal$ dos$
elementos$da$banda,$que$posteriormente$foi$recuperado$com$as$vendas$do$EP$e$com$
as$receitas$dos$concertos$(Bernardo,$2013).$Foi$a$partir$deste$EP$que$a$banda$alcançou$
alguma$visibilidade$nos$dia$e$avançou$para$a$gravação$do$primeiro$álbum$NQ2QH,$já$
numa$abordagem$profissional$para$posteriormente$criar$a$01%0*"+'I*+$PAD,$em$2011.$A$
missão$ da$ PAD$ é$ simples:$ “criar$ uma$ comunidade$ de$ artistas$ pautada$ por$ coerência$
estética$ e$ qualidade,$ cujas$ carreiras$ possam$ ser$ potenciadas$ de$ forma$ profissional”$
(PAD,$2021:$s/p)20.$De$entre$o$leque$de$artistas$da$PAD,$além$dos$próprios,$constam$
também$nomes$como$>*1&0I+*">$--*B&,">#*B*$I$l,"4+%"€*B)&'+*.,$ou$>.0n">.$n">.)n.$
Já$no$centro$do$país,$os$\01%'"7'B#010$nasceram$em$Queluz$em$2003,$decorrentes$do$
movimento$&#B*0LU#*"*%L*,$pelas$mãos$de$Hélio$Morais$(!&"w$$%"'&":*'%z"<W"\)-l"W*++z"
V')&z">U$'+),$Cláudia$Guerreiro,$Pedro$Geraldes,$André$Henriques$e$Sérgio$Lemos,$este$
último$que$abandona$a$banda$em$200921.$Nesse$mesmo$ano,$começaram$a$gravar$o$
primeiro$ EP$ de$ nome$ homónimo,$ em$ 2005$ dão$ o$ seu$ primeiro$ concerto$ e$ em$ 2006$
apresentam$ o$ seu$ primeiro$ álbum22.$ Em$ 2013,$ ano$ em$ que$ comemoravam$ o$ 1º$
aniversário$da$banda,$apresentaram$o$disco$^)BI$"+*1#$,$que$“entrou$diretamente$para$
número$2$da$tabela$de$discos$mais$vendidos$da$AFP$e$chegou$a$número$um$no$0F#)1*&$
e$no$>K$#0Wl$em$Portugal”$(Valente,$2014:$17).$É$uma$das$bandas$mais$acarinhadas$no$
panorama$ musical$ contemporâneo$ e$ tem$ conseguido$ alcançar$ uma$ forte$ projeção$
nacional$ e$ internacional,$ particularmente$ após$ o$ convite$ para$ tocar$ no$ festival$
Primavera$ Sound$ de$ Barcelona23.$ É$ com$ Hélio$ Morais$ que$ surge$ posteriormente$ o$
projeto$V')&,$constituído$juntamente$com$Makoto$Yagyu$(<W"\)-l"Y*++z30%01L"VT10-$),$
Joaquim$ Albergaria$ (\0I*B'#0$1z" 7{9{z" 3*1*m'+z" ^U*" ;0-0$)&" Y0/*)$ e$ Fábio$ Jevelim$
(p+'&W*.*'z"30%01L"VT10-$).$Fundados$em$2009,$lançam$o$primeiro$EP$†").'"bL)'"em$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
20$$Consultar em: https://www.facebook.com/pg/pad.online/about/?ref=page_internal$
21$$Consultar em: https://blitz.pt/principal/update/linda-martini-passam-a-quarteto-e-gravam-disco-
novo=f42145$
22$$Consultar em: https://pt-pt.facebook.com/pg/lindamartinirock/about/?ref=page_internal$
23$$Consultar em: https://blitz.pt/principal/update/linda-martini-convite-para-tocar-no-primavera-sound-
barcelona-surgiu-apos-concerto-em-paredes-de-coura=f80046$
$
95$
2010$e$desde$aí$que$alcançaram$uma$enorme$visibilidade$também$cá$e$no$estrangeiro.$
É$de$realçar,$que$a$banda$fundou$em$2015$um$projeto$independente$e$multicultural$
chamado$HAUS$ (Figura$ 1.5.),$ que$ envolve$ agenciamento$ e$produção$ de$ espetáculos;$
estúdio$ de$ gravação$ e$ salas$ de$ ensaio;$ e$ ideias$ e$ comunicação$ de$ música$ e/ou$
marcas24,$ de$ forma$ a$ aproveitar$ “(...)$ as$ valências$ de$ cada$ um$ dos$ músicos$ -$ Hélio$
Morais$ dedica-se,$ além$ da$ música,$ ao$ agenciamento$ e$ à$ produção;$ Fábio$ Jevelim$ e$
Makoto$ Yagyu$ são$ também$ produtores;$ Joaquim$ Albergaria$ trabalha$ com$ marcas$ e$
comunicação”$ (s/a,$ 2015:$ s/p).$ À$ semelhança$ dos$ K*0n*A'/0D$$ com$ a$ PAD,$ os$ V')&$
quiseram$ criar$ um$ espaço$ de$ partilha$ e$ colaboração$ de$ conhecimento$ e$ experiência$
adquiridos$num$espírito$DIY$de$troca$e$cocriação$(Oliveira,$Guerra$&$Costa,$2017).$De$
uma$forma$geral,$“podemos$dizer$que$o$HAUS$é$um$espaço$e$um$projeto$que$promove$
essa$capacitação$e$estimula$a$liberdade$criativa$através$das$possibilidades$de$partilha$
fornecida”$ (Oliveira,$ Guerra$ e$ Costa,$ 2017:$ 112).$ Estes$ dois$ organismos$ tratam-se,$
portanto,$ de$ duas$ estruturas$ DIY,$ que$ se$ caracterizam$ pelos$ escassos$ apoios$
institucionais$ e$ por$ uma$ lógica$ de$ independência,$ que$ assenta$ numa$ estrutura$
informal,$pautada$por$“(...)$toda$uma$rede$de$práticas$sociais,$sobretudo$musicais,$de$
dinamização,$produção$e$consumos$alternativos$às$narrativas$convencionais”$(Martins,$
2013:$71).$
$
$
$
$
$
$
$
$
$
$
!
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
24$$Consultar em: http://www.haushaus.pt/$
$
96$
!! U6)5(*!;M;AM!WG2"!-(6*3!#3!F6+~%*!%!KG2"&!!m3*6+!7%!ƒ5#!53!#+8„76%/!
$
$$$Fonte:$p+0#Z$e$1+01*),$13$de$janeiro$de$2015.$
$
$ $
$
97$
2.#Juventudes,*culturas*juvenis*e*cenas*musicais!
$
9D$"-$1&0L$"%$.01'B"
=&#*"*&#'%$"%*"'1&0*%'%*"
!"KB*&&'"%*"-U*L'B"
VyB'"1'$"-U*L'B"#'B%*"
9D$"&*0"%$"()*"E"()*"*)"W)i$"
>*Bb"%*&#'"&$+0%D$"
7'&"K$B()*"E"()*"*)"B*-)&$"
{)*."()*B"%'BF.*"'".D$"
;$)"-$1#01)'B"'"KB$-)B'B"
!"()*."*)".*"()*B$"%'B"
V$B()*"'#E"'()0"*)"&X"
António$Variações$(1983)$–$=&#$)"!+E.2$
$
@M;M!Y5e#0857#+!#!-5185(*+!…5e#06+!
Os$ jovens$ assumem$ um$ papel$ de$ protagonistas$ nesta$ investigação,$ por$ isso,$ é$
fundamental$olharmos$brevemente$para$a$forma$como$este$grupo$etário$e$social$tem$
vindo$a$ser$abordado$no$campo$da$sociologia$(Campos,$2010;$Nofre$&$Eldridge,$2018).$
São$ vários$ os$ autores$ que$ se$ têm$ dedicado$ ao$ estudo$ da$ juventude$ sob$ o$ ponto$ de$
vista$sociológico,$especialmente$após$a$II$Guerra$Mundial,$período$em$que$os$fatores$
sociais$e$culturais$começaram$a$ser$fortemente$considerados$nas$suas$abordagens.$De$
facto,$ dentro$ das$ ciências$ sociais,$ os$ trabalhos$ desenvolvidos$ particularmente$ pelos$
5)+#)B'+">#)%0*&$ajudaram$a$procurar,$compreender$e$explicar$os$modos$pelos$quais$os$
jovens$comunicam$e$interpretam$o$mundo$que$os$rodeia,$proporcionando$um$melhor$
entendimento$dos$ processos$ de$ construção$identitária$ da$ juventude$ contemporânea$
(Quintela$ &$ Oliveira,$ 2015;$ Ferreira,$ 2002;$ Guerra,$ 2020).$ Não$ obstante,$ a$ reflexão$
acerca$do$conceito$de$juventude$é,$ainda$hoje,$objeto$de$alguma$discussão,$uma$vez$
que$ segundo$ Resende$ e$ Vieira$ (1992)$ este$ conceito$ é,$ frequentemente,$ utilizado$ de$
forma$ arbitrária,$ servindo$ os$ gostos$ e$ posturas$ dos$ seus$ utilizadores.$ Face$ a$ este$
debate,$ Guerra$ e$ Quintela$ (2016)$ argumentam,$ que$ uma$ vez$ que$ a$ juventude$ não$
constitui$ uma$ unidade,$ torna-se$ fulcral$ ir$ além$ das$ definições$ administrativas$ e$
governamentais$comuns.$Da$mesma$forma,$Pais$*#"'+2$(2011)$alertam$para$o$facto$de$a$
juventude$constituir$uma$categoria$social$de$definição$complexa$e,$por$esta$razão,$ser$
fundamental$delinear$fielmente$os$seus$contornos.$A$este$propósito,$Guerra$e$Quintela$
$
98$
(2016)$sugerem,$ainda,$o$termo$plural$juventudes,$aludindo$ao$caráter$heterogéneo$e$
fragmentário$desta$categoria$etária$e$social:$
!&" K*B-*KCd*&" B*+'#0/'.*1#*" '$" -$1-*0#$" %*" i)/*1#)%*"
B*.*#*.F1$&," WB*()*1#*.*1#*," K'B'" '" &)'" U$.$L*1*0%'%*" *"
)10%'%*," +*/'1%$" '" ()*" '" &$-0$+$L0'" B$.K'" -$." '()*+'&," 1'"
.*%0%'"*."()*"01#*B*&&'"S"#*$B0'"&$-0$+XL0-'"K*B-*I*B"1D$"&X"
&*.*+U'1C'&,".'&"#'.IE."'&"%0W*B*1C'&"*n0&#*1#*&"*1#B*"*+*&"
(Guerra$&$Quintela,$2016:$204).$
Portanto,$ em$ primeiro$ lugar,$ torna-se# necessário# refletir# acerca# da#
modernidade) deste) conceito,) uma) vez) que) não) existia) na) Europa) pré7-industrial$ um$
período$de$transição$da$infância$para$a$idade$adulta$(Pappámikail,$2010),$ou$seja,$as$
crianças$ascendiam$de$geração$sem$qualquer$interrupção$reconhecida$socialmente.$A$
partir$ da$ Revolução$ Industrial$ foram$ inúmeras$ as$ transformações$ sociais$ que$ daí$
decorreram$ e$ que$ acabaram$ por$ causar$ fortes$ impactos$ nos$ quotidianos$ sociais,$
especialmente$juvenis,$entre$as$quais$se$destaca$o$processo$de$urbanização$(Guerra$&$
Quintela,$2018;$Brake,$1980;$Pais,$2013).$Aliado$a$este$processo,$emergiram$as$grandes$
áreas$ metropolitanas,$ que,$ rapidamente,$ foram$ associadas$ a$ espaços$ perigosos$
(Hebdige,$1979)$e$fomentadores$de$pânicos$morais$na$sociedade$(Cohen,$2002)$-$em$
particular$ no$ seio$ das$ esferas$ de$ poder,$ que$ temiam$ uma$ possível$ perturbação$ da$
ordem$social$estabelecida.$Por$isso,$tal$como$referem$Guerra$e$Quintela$(2018),$com$a$
urbanização$surgiu$ a$necessidade$de$ controlar$esta$ vasta$multidão$ que$circulava$ nas$
grandes$metrópoles$e$na$qual$o$grupo$etário$dos$jovens$foi$alcançando$gradualmente$
algum$ relevo$ (McRobbie,$ 1994).$ Foi,$ então,$ assim,$ que$ “com$ as$ alterações$ culturais$
advindas$ das$ transformações$ no$ sector$ económico$ das$ sociedades$ industriais,$ a$
juventude$ começou,$ inicialmente,$ por$ dizer$ respeito$ ao$ período$ que$ antecedia$ o$
casamento”$ (Martins,$ 2014:$ 3).$ Isto$ é,$ situava-se$ numa$ fase$ da$ vida$ em$ que$ os$
indivíduos$já$possuíam$as$características$necessárias$para$poder$gerir$um$lar$próprio$e$
ter$a$sua$própria$ independência.$Segundo$Williams$ (2011),$a$adolescência$era,$ neste$
caso,$encarada$como$uma$fase$de$vida$particular,$à$qual$correspondia$um$processo$de$
transição$instável$entre$a$infância$e$a$idade$adulta.$Posteriormente$e$de$forma$gradual,$
$
99$
esta$categoria$social& foi& adquirindo& estatuto& como& grupo& social& autónomo,& à& medida&
que$a$própria$sociedade$foi$evoluindo$cultural,$social$e$economicamente.$
$
É" interessante" sublinhar" que" à" medida" que" a" juventude" se"
*nK'1%*" e*." 1f.*B$" %*" 01%0/c%)$&" ()*" %*+'" '-'I'." K$B"
)&)WB)0B" *" 1$" #*.K$" ()*" *+'" K$%*" ~%)B'B•g," '&" .*+U$B0'&"
L*1*B'+0Z'%'&" 1'&" -$1%0Cd*&" %*" /0%'" %*-$BB*1#*&" %$"
%*&*1/$+/0.*1#$" %'" &$-0*%'%*" 01%)&#B0'+" *" -'K0#'+0&#'" &*"
#B'%)Z0B'." 1).'" '1#*-0K'CD$," *." .E%0'," %$" 01c-0$" %'"
K)I*B%'%*" *," K$B" -$1&*()M1-0'," %'" .'#)B0%'%*" I0$+XL0-'" %$"
-$BK$," 'L$B'" ()*" '&" -B0'1C'&" *" i$/*1&" &*" *1-$1#B'/'."
KB$LB*&&0/'.*1#*".'0&"I*."1)#B0%$&$(Pais$*#"'+,$2011:$85).$
Esta$ conceção$ apresenta,$ já,$ uma$ consideração$ pelo$ corpo$ físico$ e$ pelas$
transformações$biológicas$do$ser$humano,$decorrentes$da$melhoria$das$condições$de$
vida$ da$ sociedade.$ Contudo,$ a$ sociologia$ afastou-se$ rapidamente$ desta$ abordagem$
centrada$ na$ biologia$ e$ no$ corpo$ e$ só$ voltou$ a$ ela$ mais$ tarde,$ mas$ a$ partir$ de$ uma$
perspetiva$ distinta,$ nomeadamente$ com$ os$ trabalhos$ do$ 5*1#B*" W$B" 5$1#*.K$B'Bl"
5)+#)B'+" >#)%0*&$ (CCCS)$ e$ da$ atenção$ dada$ pelos$ seus$ investigadores$ aos$ usos$ e$
representações$ corporais$ dos$ jovens$ (Ferreira,$ 2017).$ No$ decorrer$ da$ análise$ das$
questões$ relacionadas$ com$ a$ juventude,$ também$ a$ importância$ da$ escola$ (nos$ seus$
diferentes$ graus$ de$ ensino)$ cresce,$ progressivamente,$ “(...)$ enquanto$ espaço$ de$
socialização,$interação$e$aprendizagem$de$uso$(quase)$exclusivo$de$indivíduos$jovens$
...$[onde]$se$criam$ as$condições$(...)$ para$a$preparação$da$ vida$adulta”$(Pappámikail,$
2010:$ 397).$ Trata-se,$ assim,$ de$ um$ período$ em$ que$ os$ indivíduos$ gozam$ de$ alguma$
liberdade,$embora$mantenham$uma$dependência$familiar$(Cicchelli,$2001;$Gillis,$1981).$
Com$ a$ democratização$ do$ ensino$ e$ o$ alargamento$ da$ sua$ obrigatoriedade,$ a$ escola$
adquiriu$ um$ papel$ fundamental$ como$ espaço$ de$ vivências$ e$ práticas$ sociais$ juvenis$
(Teles,$2012),$na$medida$em$que$“substituiu$a$aprendizagem$como$meio$de$educação.$
Isso$quer$dizer$que$a$criança$deixou$de$ser$misturada$com$os$adultos$e$de$aprender$a$
vida$diretamente$através$do$contacto$com$eles”$(Ariès,$1978:$11).$Além$deste$tempo$
dedicado$ à$ escola$ por$ parte$ dos$ jovens,$ a$ noção$ de$ juventude$ foi$ alcançando$ uma$
maior$ consistência$ social,$ “a$ partir$ do$ momento$ em$ que,$ entra$ a$ infância$ e$ a$ idade$
$
100$
adulta,$se$começou$a$verificar$o$prolongamento$(...)$dos$tempos$de$passagem$que$hoje$
em$dia$continuam$a$caracterizar$a$juventude”$(Mannheim,$1993:$31)$e$que$envolvem$
as$ sociabilidades$ juvenis$ e$ os$ seus$ contextos.$ A$ este$ respeito,$ Parsons$ (2010)$
argumentava$que$a$cultura$juvenil$constituía$uma$forma$de$os$jovens$lidarem$com$a$
complexidade$ inerente$ à$ transição$ para$ a$ vida$ adulta.$ Neste$ sentido,$ na$ reflexão$
acerca$do$conceito$de$juventude$passaram$a$ser$considerados$outros$aspetos,$como$$
'" '&&$-0'CD$" '$&" -$1#*n#$&" 01#*BFL*B'-0$1'0&" #B'%0-0$1'0&" e1'"
W'.c+0'" *z$)" 1$" #B'I'+U$g," 1$/$&" -$1#*n#$&" 01#B'FL*B'-0$1'0&"
$1%*," *1#B*" K'B*&," &*" W$Bi'." #*BB0#XB0$&" *n-+)&0/$&," -$."
KBb#0-'&,"-$1&).$&"*"B*KB*&*1#'Cd*&"*&K*-cW0-'&,"-$.$"&D$,"K$B"
*n*.K+$," $&" %'&" &$-0'I0+0%'%*&" *" +'Z*B*&" i)/*10&$(Pappámikail,$
2010:$398).$
$ Efetivamente,$foram$ inúmeros$os$ fatores$sociais$ e$ culturais$que$ reforçaram$a$
adolescência$como$uma$fase$de$vida$particular,$em$especial$a$partir$dos$anos$1950,$tal$
como$ referem$ Guerra$ e$ Quintela$ (2018):$ o$ aumento$ dos$ anos$ de$ escolaridade$
obrigatória,$ o$ alargamento$ da$ preocupação$ e$ uso$ de$ contraceção,$ o$ processo$ de$
secularização,$o$aumento$do$capital$económico$e$dos$recursos$disponíveis$das$famílias,$
a$generalização$das$férias$alicerçadas$ao$I$$.$do$turismo,$assim$como$o$aumento$do$
tempo$livre$dos$indivíduos,$que$lhes$permitiu$uma$maior$liberdade$e$experimentação$
que$as$gerações$anteriores$não$tinha$ainda$conhecido$(Hodkinson$&$Deicke,$2007).$Foi,$
pois,$neste$quadro$social$que$emergiu$e$se$ fortaleceu$o$termo$culturas$juvenis,$para$
caracterizar$ a$ multiplicidade$ de$ identidades$ que$ constituem$ este$ grupo$ social$ (Pais,$
2003).$ E$ por$ culturas$ juvenis,$ o$ autor$ remete$ para$ conjuntos$ de$ crenças,$ valores,$
símbolos,$ normas$ e$ práticas$ inerentes$ a$ esta$ fase$ de$ vida$ ou$ próprios$ de$ um$
determinado$grupo$juvenil.$A$reflexão$sobre$as$culturas$juvenis,$de$acordo$com$Guerra$
e$ Quintela$ (2016),$ está$ intrinsecamente$ associada$ ao$ início$ dos$ estudos$ sociológicos$
anglo-saxónicos,$dos$quais$alcançaram$um$relevo$particular$duas$tradições$de$análise$
subcultural$distintas,$nomeadamente$a$norte-americana$através$da$Escola$de$Chicago$
e$a$britânica$associada$aos$já$referidos$5)+#)B'+">#)%0*&$e$ao$CSSS.$Particularmente,$os$
investigadores$ do$ CCCS,$ a$ partir$ de$ uma$ abordagem$ transdisciplinar$ (Guerra$ &$
Quintela,$2018),$“destacam$como$um$dos$primeiros$fatores$o$aumento$do$mercado$e$
$
101$
do$consumo$no$pós-guerra$que$propiciou$o$crescimento$da$indústria$de$lazer$voltada$
para$a$juventude”$(Pereira,$2007:$s/p).$É$neste$contexto$que$surge,$então,$a$cultura$de$
massas$ que$ para$ Stuart$ Hall$ e$ Tony$ Jefferson$ (1976)$ desempenhou$ um$ papel$
fundamental$nas$práticas$juvenis,$porque$agora$que$existia$um$novo$grupo$social$com$
tempo$livre$e$recursos$disponíveis,$as$forças$económicas$direcionaram,$rapidamente,$a$
sua$atenção$para$ele$(Adorno,$2003;$Adorno$&$Horkeimer,$2006;$Marcuse,$2011).$De$
facto,$esta$geração$era$caracterizada,$segundo$Jacques$(1973),$ por$ um$estilo$de$vida$
assente$no$pleno$emprego$e$melhoria$contínua$das$condições$de$vida,$pela$crescente$
importância$ da$ sua$ influência$ na$ vida$ social,$ económica$ e$ cultural$ e$ pela$ constante$
diversificação$ da$ classe$ operária.$ Assim,$ ancorado$ ao$ desenvolvimento$ económico,$
social$e$cultural$desta$categoria$social,$também$o$interesse$académico$por$este$campo$
de$ estudos$ foi$ acompanhando$ este$ crescimento.$ E,$ como$ vimos,$ os$ pensamentos$
convergiam$para$a$ideia$de$diversidade$desta$categoria$social$e$criticava-se$a$tentativa$
de$categorizar$os$jovens$dentro$de$um$mesmo$e$único$rótulo.$
5$." *W*0#$," '" i)/*1#)%*" -$.*C'" K$B" &*B" ).'" -'#*L$B0'"
&$-0'+.*1#*" .'10K)+'%'" *" .'10K)+b/*+" *," -$.$" B*W*B*"
Bourdieu,) o) facto) de) se) falar) dos) jovens) como) uma) «unidade)
social»,) um) grupo) dotado) de) «interesses) comuns») e) de) se)
referirem&esses&interesses&a&uma&faixa&de&idades&constitui,&3&de&
&0,").'"*/0%*1#*".'10K)+'CD$$(Pais,$1999:$22).$
Portanto,$ não$ existe$ apenas$ um$ conceito$ de$ juventude$ unitário$ (Pais,$ 1999)$
nem$ este$ pode$ ser$ considerado$ um$ conceito$ estanque.$ Aqui,$ o$ papel$ da$
imprevisibilidade$ parece$ ser$ determinante.$ No$ seio$ da$ sociologia,$ a$ noção$ de$
juventude$ surge$ inicialmente$ no$ âmbito$ da$ Escola$ de$ Chicago$ e$ encontrava-se$
associada$a$problemas$biológicos,$como$patologias$ou$desequilíbrios$(Williams,$2011).$
Estes$ estudos$ encontravam-se,$ assim,$ “diretamente$ relacionados$ com$ as$ teorias$ do$
crime,$delinquência$e$desvio”$(Guerra$&$Quintela,$2018:$11)$como$resposta$dos$jovens$
à$ falta$ de$ coesão$ social$ das$ grandes$ cidades$ e,$ de$ igual$ modo,$ como$ mecanismo$ de$
resistência$face$aos$valores$sociais$vigentes.$É$neste$contexto$que$surge$o$conceito$de$
gangue$(Whyte,$2005)$e$que$se$vem$relacionar$diretamente$com$o$de$guetos$(Wirth,$
1928;$Wacquant,$2004),$que$mais$não$eram$do$que$espaços$especialmente$favoráveis$
$
102$
ao$desvio$das$normas$sociais.$Contudo,$com$o$pós-guerra$e$todas$as$transformações$
daí$ decorridas$ na$ forma$ como$ as$ classes$ sociais$ britânicas$ eram$ percecionadas$ na$
sociedade$ (Boltanski$ &$ Chiapello,$ 1999),$ a$ juventude$ passou$ a$ estar$ cada$ vez$ mais$
relacionada$com$as$atividades$de$lazer$e$divertimento$(Hebdige,$1997).$No$entanto,$a$
conceção$ de$ juventude$ problemática$ manteve-se,$ uma$ vez$ que$ as$ culturas$ juvenis$
britânicas$ emergentes$ passaram$ a$ ter$ acesso$ a$ bens$ e$ objetos$ simbólicos$ que$ as$
demarcava$ das$ demais,$ desempenhando$ um$ papel$ de$ resistência$ (Hebdige,$ 1997).$
Assim,$a$prosperidade$económica$fortalecida$pela$revolução$sexual$e$de$valores$e$pela$
crença$“(...)$ na$igualdade$ de$diretos,$ independentemente$da$ raça,$ classe$ou$ género”$
(Guerra$&$Quintela,$2018:$8)$levou$as$esferas$de$poder$a$demonstrar$uma$crescente$
preocupação$relativamente$a$este$grupo$social.$É$a$partir$desde$período$que$os$jovens$
britânicos$deixaram$ de$acreditar$nos$ valores$da$ sociedade$inglesa$ e$começaram$ eles$
próprios$ a$ criar$ os$ alicerces$ daquilo$ que$ viriam$ a$ ser$ as$ subculturas$ juvenis,$ que$
marcaram$não$só$o$Reino$Unido,$mas$um$pouco$todo$o$ocidente$a$partir$da$década$de$
sessenta$(Brake,$1980).$Este$conflito$que$se$cria$entre$os$jovens$e$os$órgãos$de$poder$
acabou$ por$ desencadear$ a$ prevalência$ de$ determinadas$ imagens$ estereotipadas$
relacionadas$ com$ as$ culturas$ juvenis,$ que$ segundo$ Sallas$ e$ Bega$ (2006),$ os$ média"
acabaram$por$assimilar,$construir$e$transmitir.$De$facto,$“a$cultura$juvenil$existente$na$
Inglaterra$ era$ sobretudo$ (...)$ uma$ espécie$ de$ mimética$ do$ que$ se$ passava$ do$ outro$
lado$ do$ Atlântico$ –$ o$ B$-J[1[B$++$ era$ percecionado$ e$ representado$ pela$ sociedade$
vigente$como$algo$de$exótico$ou$mesmo$uma$%*/0+[&".)&0-”$(Guerra$&$Quintela,$2018:$
8).$ Muitas$ vezes,$ essas$ imagens$ eram$ baseadas$ em$ características$ discriminatórias$
associadas$ a$ determinados$ estilos$ de$ vida$ e$ resultavam$ na$ criação$ de$ imagens$
enviesadas$de$todas$as$culturas$juvenis$de$um$ponto$de$vista$macro.$Na$realidade,$os$
meios$ de$ comunicação$ social$ desempenham$ um$ papel$ crucial$ nos$ processos$ de$
fabricação$de$representações$sociais$(Campos,$2010)$e$embora$a$juventude$tenda$a$ser$
considerada$ com$ frequência$ como$ um$ mito$ que$ estes$ média$ difundem$ e$ ajudam$ a$
definir$socialmente,$ela$constitui$uma$categoria$socialmente$construída$a$nível$político,$
social$e$económico,$e$encontra-se,$naturalmente,$sujeita$a$diferentes$práticas$sociais$e$
a$ possíveis$ transformações$ ao$ longo$ do$ tempo$ (Pais,$ 1990).$ A$ Figura$ 2.1.$ ilustra$
$
103$
justamente$ esta$ realidade,$ na$ medida$ em$ que$ o$ artigo$ do$ jornal$ =nKB*&&$$ faz$ uma$
descrição$da$juventude$e$dos$jovens$como$incapazes$de$ter$“a$noção$de$passado,$de$
presente$ e$ de$ futuro$ bem$ assimilada”,$ o$ que$ resulta$ em$ ações$ que,$ na$ maioria$ das$
vezes,$não$são$precedidas$de$reflexão$(J.$A.$S.,$1982:$34).$Nesta$medida,$os$jovens$são$
associados$ ao$ “abuso$ do$ álcool$ e$ da$ droga”,$ a$ “altas$ velocidades”$ e$ a$ situações$ de$
instabilidade,$“sem$conseguirem$entrar$nas$escolas,$sem$emprego,$sem$futuro”,$o$que$
revela$uma$ intensa$ inquietação$ com$ esta$ categoria$ etária$e$ social$ no$ artigo$ (J.$ A.$ S.,$
1982:$34).$
!U6)5(*!@M;M!G1)50+!+5-#790#%+!7%!+56-|76%^!*!e#1%-67*7#&!*!7(%)*!#!%!C1-%%1!
$$ $$$$$$$$Fonte:$=nKB*&&$$(revista),$29$de$maio$de$1982.$
$
Perante$um$mundo$cada$vez$mais$globalizado$e$fragmentado,$caracterizado$por$
transformações$constantes$e$rápidas,$os$jovens$tendem$a$sentir$alguma$dificuldade$em$
encontrar$referências$de$conduta$e$orientação,$o$que$acaba$por$se$repercutir$nos$seus$
próprios$ processos$ de$ construção$ identitária$ (Abramovay$ *#" '+,$ 1999;$ Santos,$ 2002;$
Guerra,$ 2019b).$ A$ construção$ da$ identidade$ parece$ ser,$ deste$ modo,$ um$ processo$
provisório,$ que$ envolve$ a$ organização$ dos$ vários$ atributos$ dos$ sujeitos$ (Giddens,$
1991).$Portanto,$“(...)$no$que$diz$respeito$às$modernas$sociedades$ocidentais,$a$saber,$
de$ que$ esse$ período$ é$ marcado$ por$ profundas$ transformações$ e$ inquietações,$ por$
$
104$
crítica$e$desejo$de$mudança”$(Sallas$&$Bega,$2006:$47).$Esta$realidade,$ao$repercutir-se$
no$processo$de$construção$identitária$juvenil,$acaba$por$abrir$as$portas$à$flexibilidade,$
multiplicidade$e$fragmentação$no$âmbito$da$modernidade$tardia.$
V'B#01%$," K$0&," %'" 0%*0'" %*" )." -*B#$" K$+0.$BW0&.$" 0%*1#0#bB0$,"
%*-$BB*1#*"%$"i$L$,"&*.KB*"K$&&c/*+,"%*"K*B#*1C'&,"'W0+0'Cd*&!e"
desafiliações*que*resultam*da*multiplicação*de*esferas*de*vida,*
percebeFse# que# para# melhor# pensar# os# indivíduos# jovens# e# os#
processos' com' que' fabricam' a' sua' autonomia' individual' será5'
1*-*&&bB0$"&*-)1%'B0Z'B"1$Cd*&"-$.$"i)/*1#)%*"$)"i)/*1#)%*&,"
*1()'1#$" LB)K$&" -)+#)B'0&" *&#b#0-$&" -$." )." %*#*B.01'%$"
&0L10W0-'%$," #*.K$" *" *&K'C$" &$-0'+$(Pappámikail,$ 2010:$ 400-
401).$
De$certa$ forma,$o$ progresso$ social$trouxe$ consigo$ transformações$dramáticas$
nas$formas$tradicionais$de$ascensão$para$a$idade$adulta.$Dentro$destas,$realçam-se$a$
“(...)$ nova$ revolução$ tecnológica,$ desemprego$ estrutural,$ globalização,$ crescente$
exclusão$ social$ e$ regressão$ de$ direitos$ sociais$ com$ reformas$ neoliberais”$ (Groppo,$
2015:$ 573).$ No$ que$ diz$ respeito$ ao$ avanço$ tecnológico,$ segundo$ Molin$ (2001),$ os$
jovens$ constituem$ o$ seu$ grande$ motor.$ Neste$ cenário,$ a$ juventude$ ascende$ à$ idade$
adulta$cada$ vez$mais$ tarde$e,$ consequentemente,$ adquirem$a$ sua$independência$ de$
forma$ cada$ vez$ mais$ tardia.$ Como$ foi$ referido$ anteriormente,$ a$ juventude$ não$
apresenta,$hoje,$os$seus$marcos$temporais$completamente$definidos,$pelo$que$é$cada$
vez$mais$complexo$tentar$definir$ou$impor$limites$a$esta$categoria$social.$$
Dentro$do$campo$dos$estudos$sociológicos$juvenis,$o$conceito$de$cultura$é$de$
importância$fundamental,$uma$vez$que$envolve$os$diferentes$significados$e$valores$de$
determinadas$práticas$juvenis$(Pais,$1999).$ Mais$uma$vez,$os$investigadores$do$ CCCS$
desempenharam$um$papel$muito$importante$na$atenção$prestada$às$práticas$culturais$
juvenis,$ na$ medida$ em$ que$ “criaram$ espaço$ para$ uma$ nova$ interpretação$ do$ nexo$
complexo$que$se$estabelece$entre$as$culturas$juvenis$e$a$estrutura$social,$integrando$
as$origens$sociais$num$quadro$de$interpretação$das$lógicas$de$resistência,$produção$e$
consumo$cultural”$(Campos,$2010:$114).$De$acordo$com$a$linha$de$pensamento$de$Pais$
(1990),$ podemos$ entender$ a$ cultura$ como$ um$ conjunto$ de$ significados$ e$ símbolos$
partilhados$ específicos$ e$ que$ simbolizam$ a$ pertença$ a$ um$ determinado$ grupo.$ Mas,$
também$como$ uma$ linguagem$ com$ os$ seus$ usos$ e$ práticas$!"#$%&'("#)*+, "$#"-.*, /0*,
$
105$
quais& se& atribui& sentido& à& vida.& Para& compreender& esses& significados& partilhados& é&
essencial$ analisar$ os$ jovens,$ tendo$ em$ consideração$ os$ seus$ contextos$ quotidianos.$
Porém,$é$igualmente$importante$ter$em$atenção$as$crenças$e$representações$sociais$
com$ as$ quais$ os$ jovens$ se$ deparam$ no$ seu$ dia-a-dia$ e$ que,$ de$ certo$ modo,$ lhes$
permitem$obter$ interpretações$ coletivas$ dessa$ mesma$vida,$ diferenciadas$ de$ acordo$
com$ as$ gerações$ e$ classes$ sociais$ (Martins,$ 2014).$ A$ título$ ilustrativo,$ na$ Figura$ 2.2.$
podemos$observar$uma$imagem$retirada$de$uma$reportagem$da$revista$do$=nKB*&&$,$
que$se$foca$nesta$contraposição$entre$gerações$jovens$e$adultas,$que$de$acordo$com$o$
jornal$se$prende$ com$o$“confronto$ de$uma$ nova$sensibilidade$e$ de$uma$ nova$ moral$
que,$entretanto,$se$afirmam”$(Salvador,$1982:$34)2$
$
!U6)5(*!@M@M!Portugal%82:%os%jovens%e%o%amor!!
Fonte:$=nKB*&&$$(revista),$28$de$agosto$de$1982.$
$
Durante$ este$ processo$ de$ interpretação$ do$ quotidiano$ juvenil,$ os$ jovens$
tendem$a$desenvolver$as$práticas$culturais$e$de$lazer$no$seio$ de$ redes$grupais$(Pais,$
1990).$ E$ essas$ redes$ grupais$ encontram-se$ associadas$ a$ identidades$ juvenis,$ que$ se$
definem$ relativamente$ a$ outras$ redes.$ Neste$ processo,$ as$ imagens$ que$ os$ grupos$
juvenis$ criam$ de$ si$ mesmos$ e$ dos$ outros$ parecem$ circunscrever$ o$ tipo$ de$ relações$
sociais$ que$ se$ estabelecem$ com$ esses$ grupos$ (Martins,$ 2014).$ Contudo,$ dentro$ do$
$
106$
mesmo$grupo,$as$identidades$refletem-se,$pois$existe$uma$partilha$de$crenças,$valores,$
gostos$ou$práticas$sociais.$É$neste$contexto,$que$Pais$e$Blass$(2004)$refletem$acerca$do$
conceito$de$territorialidade,$na$medida$em$que$ele$envolve$um$processo$de$promoção$
da$ identificação$ dos$ jovens$ com$ um$ território$ que$ concebem$ e$ sentem$ como$ seu,$
procurando,* por* isso,* defendê-lo$ de$ possíveis$ intromissões$ externas.$ A$ identidade$
grupal$ partilhada$ pelos$ seus$ membros$ não$ se$ limita,$ apenas,$ a$ sentimentos$ ou$
ideologias$comuns,$mas$também$à$sua$expressão$visual,$daí$o$CCCS$se$ter$debruçado$
intensamente$ sobre$ a$ análise$ dos$ estilos$ juvenis,$ assumindo$ a$ cultura$ visual$ como$
parte$“(...)$ da$ construção$da$ juventude,$ sendo$igualmente$ componente$ fundamental$
da$ forma$ como$ os$ jovens$ comunicam,$ conferindo$ sentido$ ao$ mundo$ e$ a$ si$ próprios$
(Campos,$2010:$114).$O$visual,$de$acordo$com$Pais$e$Blass$(2004),$constitui$um$fator$de$
identificação$ que$ é$ expresso$ através$ da$ manifestação$ corporal$ de$ símbolos$ de$
pertença.$A$título$ilustrativo,$verificamos$que$“com$o$vestuário,$os$jovens'pretendem'
afirmar& um& estilo& de& vida& no& sentido& em& que& Weber& utilizava& este& conceito,& isto& é,&
como$um$meio$de$afirmação$e$de$diferenciação$do$&#'#)&”$(Pais,$1990:$100).$Segundo$
Hall$(1966),$os$rituais$quotidianos$processam-se$através$de$signos$e$são$esses$signos$
que$promovem$uma$comunicação$ mais$fluída$dentro$do$ grupo.$Ou$seja,$“no$ próprio$
corpo$ torna-se$ legível$ o$ respeito$ pelos$ códigos$ ou$ os$ desvios$ em$ relação$ a$
determinados$sistemas$de$comportamento”$(Pais,$1990:$101).$Assim,$
4&"&0L1$&"-)+#)B'0&,"Kor#si#',#não#têm#um#significado#inerente.#
8.'"K$&#)B'"&$-0$+XL0-'"W)1%'.*1#'%'"'"K'B#0B"%'"K*B&K*#0/'"
%$"()$#0%0'1$"%*/*"#*1#'B"-$.KB**1%*B,"01#*BKB*#'B"*"*nK+0-'B"
$".$%$"-$.$"$&".f+#0K+$&"&0L10W0-'%$&"()*"$&"i$/*1&"'#B0I)*."
'$"()*"$&"B$%*0'"&D$"-$1&#B)c%$&"*")&'%$&$(Pais,$1990:$103).$
É,$ posteriormente,$ a$ partir$ de$ uma$ identidade$ coletiva$ grupal$ que$ se$
desenvolve$uma$lógica$de$rede,$que$atrai$ou$rejeita$indivíduos$através$de$um$processo$
de$seleção,$que$assenta$em$afinidades$partilhadas$(Maffesoli,$1999).$De$acordo$com$o$
Maffesoli$(1999),"este"instrumento"de"escolha"está"sempre"presente"em"qualquer"tipo"
de$ relação,$ seja$ entre$ indivíduos$ ou$ grupos.$ Neste$ âmbito,$ “os$ jovens$ procuram$
agrupar-se$ por$ afinidades$ em$ torno$ dos$ mais$ diferentes$ interesses,$ sejam$ eles$
artísticos,$sejam$ culturais,$ políticos,$ e$ assim$ por$diante”$ (Sallas$ &$ Bega,$ 2006:$ 54).$ A$
$
107$
partir$deste$ponto$de$vista,$os$jovens$tendem$a$sentir-se,$muitas$vezes,$intensamente$
ligados$ ao$ seu$ grupo,$ acabando$ por$ exercer$ uma$ barreira$ relativamente$ a$ outros$
indivíduos$ ou$ grupos$ externos.$ Segundo' argumenta' Maffesoli,' “é' próprio' da' tribo' o'
facto&de&que,&à&medida&de&que&se&acentua&o&que&está&próximo&(pessoas&e&lugares),&ela&
tende$a$fechar-se$cada$vez$mais$sobre$si$mesma”$(Maffesoli,$1999:$224).$Retomando$
os$trabalhos$do$CCCS,$o$estilo$visual$destes$grupos$juvenis$expressava,$de$certo$modo,$
uma$forma$de$resistência$contra$a$cultura$dominante.$Neste$cenário,$os$grupos$juvenis$
entrecruzam-se$ e$ constituem$ uma$ massa$ indiferenciada$ e$ heterogénea.$ É$ de$ realçar$
neste$processo$o$papel$desempenhado$pelo$afeto,$na$atração$ou$rejeição$dos$jovens$
ou$das$redes$grupais:$
:*"'-$B%$"-$."$&"01#*B*&&*&"%$".$.*1#$,"*"&*L)1%$"$&"L$&#$&"
*" '&" $-'&0d*&," '" 0.K+0-'CD$" 'W*#0/'" '-'I'" K$B" -$1%)Z0B" )."
%*#*B.01'%$" LB)K$" $)" ).'" %*#*B.01'%'" '#0/0%'%*2"
!1#*B0$B.*1#*," '" *&#*" KB$-*&&$" -U'.$)F&*" h)10-0%'%*j" %'"
-$.)10%'%*"$)")10D$"K$1#)'+‡"1'#)B'+.*1#*,"*&#'"'W*#0/0%'%*"
01%)Z"'").'"'%*&D$"*"'").'"%0W*B*1C',"'#B'-'CD$"*"B*K)+&D$,"
1D$"*&#'1%$"+0/B*,"'&&0.,"%*"'+L)."#0K$"%*"-$1W+0#$&$(Maffesoli,$
1999:$220-221).$
Como$vimos,$os$jovens$recorrem$a$atributos$identitários$para$se$identificar$a$si$
e$ aos$ outros,$ mas,$ dentro$ do$ mesmo$ grupo$ também$ se$ podem$ verificar$ oposições.$
Assim,$verificamos$que$“existe$também$um$esforço$da$juventude$para$diferenciar-se,$
em$busca$da$expressão$da$sua$individualidade”$(Sallas$&$Bega,$2006:$54).$Por$outras$
palavras,$a$coesão$interna$dos$grupos$não$é,$à$partida,$alterada$devido$a$classificações$
identitárias$ diferenciadas.$ Parece$ inegável,$ deste$ modo,$ que$ existem$ mapas$ de$
significação$ compartilhados$ por$ determinadas$ subculturas$ juvenis,$ como$ veremos$ a$
seguir.$No$entanto,$membros$de$um$mesmo$grupo,$podem$também$interpretar$e$ler$a$
realidade$de$formas$distintas.$
@M@M!"5~-5185(*+&!(#+6+8•0-6*!#!(685*6+!
$
$
108$
À$medida$que$a$modernidade$foi$avançando$e$a$cultura$de$massas$se$foi$instalando$na$
sociedade,$como$vimos,$os$jovens$foram$gradualmente$alcançando$alguma$autonomia$
que$ lhes$ permitiu$ adquirir$ novos$ hábitos$ de$ consumo$ e$ novas$ práticas$ de$ lazer.$ Ou$
seja,$ “criaram-se$ novos$ hábitos$ de$ consumo$ de$ média,$ sendo$ que$ para$ muitos$
indivíduos) a) participação) 3) não) é) uma) possibilidade,) mas) sim) uma) necessidade)
(nomeadamente$ no$ caso$ dos$ jovens),$ no$ seio$ da$ comunicação$ de$ rede”$ (Cardoso,$
Espanha$&$Araújo,$2009:$9).$Assim,$na$década$de$cinquenta,$os$meios$de$comunicação$
de$massas$começam$a$lançar$os$seus$holofotes$sobre$os$jovens,$começando$a$apostar$
fortemente$ na$ divulgação$ de$ produtos$ especializados$ para$ as$ camadas$ juvenis,$ tais$
como$ o$ vestuário,$ o$ calçado,$ os$ acessórios$ de$ moda,$ as$ publicações$ mediáticas,$ a$
literatura$ou$a$música.$$
!"temática(da(juventude(é(um(dos(elementos(fundamentais(da(
1$/'"-)+#)B'2"9D$"&D$"'K*1'&"$&"i$/*1&"*"$&"'%)+#$&"i$/*1&"$&"
LB'1%*&" -$1&).0%$B*&" %*" i$B1'0&," B*/0&#'&," %0&-$&," KB$LB'.'&"
%*" Bb%0$," .'&" $&" #*.'&" %'" -)+#)B'" %*" .'&&'" &D$" #'.IE."
#*.'&"i$/*1&$(Morin,$1987:$39).$
Neste$contexto,$dentro$das$práticas$culturais$juvenis,$a$música$ocupou$um$lugar$
de$ destaque,$ fosse$ ela$ como$ atividade$ principal$ ou$ secundária.$ Inicialmente,$ em$
particular$ no$ cenário$ britânico,$ “a$ música$ norte-americana$ que$ então$ chegava$ aos$
portos$tinha$uma$grande$aceitação”$(Guerra$&$Quintela,$2018:$8)$e,$gradualmente,$a$
partir$ dos$ anos$ sessenta$ começaram$ a$ eclodir$ pequenas$ bandas$ nacionais,$
especialmente$ nas$ cidades$ do$ norte$ de$ Inglaterra.$ As$ próprias$ instituições$ culturais$
começaram$ a$ apostar$ intensamente$ nesta$ indústria$ de$ forma$ direta,$ através$ do$
aumento$ do$ lançamento$ de$ discos,$ ou$ indireta,$ nomeadamente$ através$ de$ bandas-
sonoras$ para$ a$ indústria$ cinematográfica$ (Gumes,$ 2003).$ Desta$ forma,$ a$ música$
rapidamente$se$torna$num$aspeto$crucial$para!compreender)os)quotidianos)juvenis)e)
assume,'segundo'Bennett'(2000),'um'papel'omnipresente'na'sociedade,'na'medida'em'
que$ “poderia$ ser$ considerada$ um$ signo$ juvenil$ geracional$ 5$ que$ os$ próprios$ jovens$
reconhecem$que,$no$seu$conjunto,$se$envolvem$muito$mais$com$a$música$do$que$as$
gerações$ mais$ velhas”$ (Pais,$ 1990:$ 104).$ Assumindo$ este$ papel$ de$ destaque$ nos$
quotidianos$ juvenis,$ a$ música$ foi$ também$ fundamental$ para$ os$ a$ construção$ das$
$
109$
identidades$das$culturas$juvenis.$E$por$esta$razão,$as$preferências$musicais$dos$jovens$
acabam$ por$ ser$ acompanhadas$ por$ atitudes$ específicas,$ que$ vão$ ao$ encontro$ da$
estética$ dessas$ mesmas$ preferências.$ É$ neste$ contexto,$ que$ “o$ consumo,$ portanto,$
não$deve$ ser$ compreendido$ apenas$ como$consumo$ de$ valores$ de$ uso,$de$ utilidades$
materiais,$ mas$ primordialmente$ como$ o$ consumo$ de$ signos”$ (Featherstone,$ 1995:$
122).$ E$ o$ resultado$ desta$ circunstância$ assenta$ num$ processo$ através$ do$ qual$ as$
identidades$juvenis$passam$a$ser$engolidas$pelo$mercado$(Gumes,$2003).$Neste$ponto,$
voltamos$ novamente$ ao$ CCCS,$ que$ se$ focou$ em$ analisar$ os$ estilos$ juvenis$ das$
diferentes$subculturas$que$emergiram$no$Reino$ Unido,$aquando$do$pós-guerra.$Para$
os$teóricos$deste$centro,$“(...)$os$estilos$de$moda$apropriados$pelos$jovens$da$classe$
trabalhadora$ do$ mercado$ jovem$ emergente$ tornaram-se$ recursos$ e$ estratégias$ de$
resistência$(...)$ contra$ as$condições$ materiais$ da$ sua$existência”$ (Bennett,$ 2005:$26).$
No$fundo,$este$período$do$pós-guerra$caracterizou-se$pela$“(...)$revolta$da$juventude$
face$ ao$ &#'#)&" ()$$ e$ ao$ conformismo$ num$ quadro$ de$ mudanças$ mais$ rápidas$ e$ de$
paradoxos$inesperados”$(Cambiasso,$2008:$11).$É$um$ponto$assente,$então,$que$estas$
subculturas$são$criadas$em$relação$a$uma$cultura$dominante$(Williams,$2011).$Face$a$
este$clima$de$tensões$sociais,$
'" .f&0-'" '-'I'" K$B" &*B" )." *+*.*1#$" 01#*LB'%$B" %*"
%*#*B.01'%'"-)+#)B',"K$B()*"i)1#'"%0W*B*1#*&"-$.K$1*1#*&"%*"
)."*&K'C$"&$-0'+,"%*").'"*nK*B0M1-0'"01%0/0%)'+"*"-$+*-#0/',"%$"
-$1U*-0.*1#$"%'"U0&#XB0'"*"%'"#B'%0CD$,"%*")."#$%$"()*,"%0B*#'"
$)"01%0B*#'.*1#*,"&*"+0L'"'$"-$.K$&0#$B$(Maganinho,$2010:$12-
13).$
Na$superfície$deste$clima$de$revolta$social$juvenil,$a$música$–$designadamente$o$
B$-J$ -$ emergiu$ como$ uma$ “lufada$ de$ ar$ fresco”,$ que$ trouxe$ aos$ jovens$ um$ meio$ de$
afirmação$ social$ e$ de$ superação$ dos$ seus$ problemas$ sociais$ (Grossber,$ 1997).$ De$
acordo$ com$ Pais$ e$ Blass$ (2004),$ os$ grupos$ juvenis$ agregados$ à$ volta$ do$ B$-J$ são$
constituídos$ por$ diversos$ atos$ individuais$ de$ autoidentificação,$ isto$ é,$ praticam$
diversos$ usos$ e$ apropriações$ dentro$ deste$ mesmo$ género$ musical.$ Isto,$ acontece$
porque$os$jovens$sentem$uma$necessidade$de$introspeção$e$busca$de$identidade$e$a$
música$B$-J$pode$potenciar$esse$processo$de$construção$identitária$(Fernandes,$2002).$
$
110$
No$entanto,$recorrendo$ao$pensamento$de$Simmel$(1983)$acerca$dos$grupos$sociais,$
apesar$ dos$ seus$ diferentes$ usos$ e$ apropriações,$ o$ B$-J$ mantém$ a$ sua$ essência,$
independentemente$dos$seus$membros$se$alterarem$ou$desaparecerem.$Nas$palavras$
do$autor,$“o$facto$de$estarem$os$indivíduos$uns$ao$lado$dos$outros,$consequentemente$
exteriores$ uns$ aos$ outros,$ não$ impede$ a$ unidade$ social$ de$ ser$ constituída:$ a$ união$
espiritual$dos$ homens$triunfa$ sobre$a$ sua$ separação$ no$ espaço”$(Simmel,$ 1983:$50).$
Assim$ sendo,$ independentemente$ dos$ jovens$ membros$ da$ cultura$ B$-J$se$
encontrarem$separados$espacialmente,$a$unificação$resulta$das$práticas$e$experiências$
que$todos$partilham$entre$si$(Martins,$2014).$E$retomando$novamente$as$palavras$de$
Simmel,$ esta$ unificação$ verifica-se$ “porque$ a$ unidade$ de$ um$ todo$ complexo$ não$
significa$outra$coisa$senão$a$coesão$dos$elementos$e!essa$coesão$)$pode$ ser$obtida$
através' da' participação' mútua' das' forças' presentes”' (Simmel,' 1983:' 50).' Ainda' de'
acordo& com& a& linha& de& pensamento& deste& autor,& a& interação& com& as& culturas& rivais&
concede&à&cultura&B$-J$um$fortalecimento$do$seu$sentimento$de$unidade,$assim$como$
os$antagonismos$que$separam$os$próprios$elementos$do$grupo$podem$ter$os$mesmos$
efeitos$ de$ unificação$ (Simmel,$ 1983).$ Em$ suma,$ a$ oposição$ entre$ culturas$ distintas$
pode$servir$como$um$instrumento$de$conservação$da$própria$cultura$de$pertença.'E'o'
papel% individual% do% sujeito% é,% assim,% suprimido% pelo% seu% papel% coletivo.% A% título%
ilustrativo,$na$Figura$2.3.$podemos$observar$uma$reportagem$do$já$extinto$semanário$
>*G*,$ que$ nos$ faz$ uma$ breve$ descrição$ do$ estilo$ de$ vida$ próprio$ dos$ jovens$
portugueses$ pertencentes$ à$ cultura$ B$-J" na$ década$ de$ oitenta.$ De$ acordo$ com$ a$
publicação,$o$dia-a-dia$destes$jovens$resumia-se$a:$“de$casa$para$o$emprego$ou$para$a$
escola,$daí$para$o$café$ou$para$a$porta$da$discoteca$[loja$de$discos]$do$centro$comercial$
e,$depois,$outra$vez$para$casa,$talvez$com$uma$breve$paragem$em$casa$de$um$amigo$
para$ouvir$as$mais$recentes$aquisições$discográficas”$(Monteiro,$1982:$2).$Pode$ler-se,$
ainda,$ na$ publicação,$ que$ “os$ discos$ mais$ recentes$ passam$ enevoados$ de$ fumo,$ na$
aparelhagem$de$um$amigo$com$pais$liberais$ou$ausentes$do$lar”,$de$forma$a$dar$conta$
o$leitor$da$importância$da$música$em$geral$e$do$B$-J$em$particular$na$vida$das$culturas$
juvenis$(Monteiro,$1982:$2).$
$
$
111$
!!!!!!U6)5(*!@MXM!Do%café%ao%casamento:%O%Rock%molda%a%vida%dos%jovens%suburbanos!!
$$$$$Fonte:$>*G*,$14$de$abril$de$1982.$
$
Como$ sabemos,$ o$ facto$ de$ o$ B$-J$ parecer$ atrair$ um$ elevado$ número$ jovens,$
leva-nos$a$assumir$que$se$trata$de$um$estilo$de$música$envolvente$e$que$não$implica$
propriamente$ uma$ rutura$ entre$ autor$ e$ recetor.$ No$ fundo,$ a$ música$ B$-J$ “(...)$ faz$
parte,$ pois,$ de$ uma$ cultura$ expressiva,$ que$ espelha$ a$ realidade$ social$ e$ cultural$ dos$
atores$que$a$protagonizam”$(Green,$1997:$293).$Os$próprios$conteúdos$e$formas$deste$
tipo$ de$ textos$ musicais$ promovem$ o$ incentivo$ do$ público,$ que$ se$ identifica$ com$ as$
realidades$e$os$sentimentos$manifestados.$Este$facto,$acaba$por$assumir$uma$função$
de$fomento$de$um$espaço$ambivalente,$onde$emerge$a$ascendência$sobre$a$realidade$
social$ e$ onde$ se$ vive$ a$ simbologia& de& um& ritual& que,& de& certa& forma,& corresponde& à&
evasão$ da$ vida$ quotidiana$ (Martins,$ 2014).$ Perante$ a$ multiplicação$ de$ ramificações$
musicais$ inerentes$ ao$ B$-J,$ ele$ assume$ uma$ função$ de$ continuidade$ na$
descontinuidade,$na$medida$em$que$se$regenera,$renasce$e$transforma,$características$
estas$inerentes$a$qualquer$rito$(Martins,$2014).$E,$tal$como$qualquer$outro$rito,$o$r$-J$
também$ se$ preocupa$ por$ manter$ a$ coesão$ simbólica$ entre$ os$ seus$ membros.$ Os$
comportamentos$ ritualizados$ decorrentes$ do$ B$-J$ são$ igualmente$ moldados$ por$
representações$ transmitidas$ e$ veiculadas$ pelos$ média.$ (Pais,$ 1990),$ tópico$ também$
estudado$ pelos$ teóricos$ do$ CCCS$ em$ Inglaterra.$ A$ importância$ da$ análise$ destas$
$
112$
representações$ difundidas$ pelos$ meios$ de$ comunicação$ social$ prende-se$ com$ a$
possibilidade$ de$ adquirirem$ um$ efeito$ ideológico$ na$ sociedade,$ que$ resulta$ na$
desvirtuação$da$conceção$de$juventude$e$de$B$-J.$$
De$ acordo$ com$ Fernandes$ (2002),$ “a$ K$K" B$-J$ tem$ sido$ uma$ espécie$ de$
linguagem$simbólica$para$enquadrar$experiências$juvenis”$(Fernandes,$2002:$30).$E,$ao$
abordar$ questões$ relacionadas$ com$ experiências$ juvenis$ acabamos$ por$ abordar,$
também,$experiências$de$excessos,$uma$vez$que$“desde$o$início,$a$cultura$do$B$-J$tem$
sido$associada$ao$excesso$(comemorado$na$famosa$frase$“sexo,$drogas$e$B$-Jy1"B$++”)”$
(Guerra,$2015b:$14).$De$acordo$com$Fernandes$(2002),$os$comportamentos$e$condutas$
de$excesso$desempenham$um$papel$de$teste$das$capacidades$e$limites$individuais$dos$
jovens,$ permite$ afirmar$ papéis$ e$ identidades$ grupais$ e$ assumem-se,$ também,$ como$
rituais$ de$ resistência.$ Por$ outras$ palavras,$ estes$ rituais$ não$ são$ mais$ do$ que$
comportamentos$ juvenis$ a$ demonstrar$ reserva$ ou$ censura$ face$ aos$ valores$
dominantes$socialmente.$A$este$respeito,$segundo$Cazeneuve$(1995)$o$rito$assemelha-
se$a$uma$rede,!que$se$desenvolve$de$acordo$com$regras$invariáveis,$através$das$quais$
o"seu"cumprimento"produz"os"efeitos"desejados."Contudo,"“o"que"ameaça"as"normas,"o"
que$ as$ perturba,$ é$ também$ o$ que$ é$ mais$ forte”$ (Cazeneuve,$ 1995:$ 31).$ Aplicado$ ao$
B$-J,$ isto$ significa" que" o" que" perturba" esta" cultura" é" todo" e" qualquer" indivíduo" ou"
entidade,$ que$ se$ oponha$ e/ou$ restrinja$ o$ seu$ estilo$ de$ vida.$ Portanto,$ “tais$ jovens$
resistiam$à$hegemonia$da$classe$alta,$ao$monopólio$do$privilégio$e$do$poder,$através$
dos$seus$estilos$e$rituais&espetaculares”&(Haenfler,&2006:&57).&Uma& vez& que& o& ritual& é&
sempre& uma& ação& simbólica& (Cazeneuve,& 1995),& para& o& compreendermos& é&
fundamental$ conhecer$ o$ seu$ contexto$ e$ vida$ coletiva.$ Goffman$ (1967)$ recorre$ ao$
conceito$ de$ ritual,$ uma$ vez$ que$ se$ tratam" de" “(...)" atos," cujo" uso" da" componente"
simbólica) pelo) ator,) mostra) como) ele) é) digno) de) respeito) ou) como) ele) sente) que) os)
outros$o$são”$(Goffman,$1967:$19).$Assim,$segundo$Fernandes$(2002),$as$subculturas$
assumem$ um$ papel$ de$ suportes$ simbólicos$ destes$ rituais,$ isto$ é,$ “são$ formas,$ em$
suma,$ de$ comunicar$ com$ as$ instâncias$ de$ controlo$ social$ governadas$ pelos$ adultos”$
(Fernandes,$ 2002:$ 31).$ Uma$ proposta$ pertinente$ que$ surgiu$ no$ nosso$ país$ a$ este$
propósito$consta$na$Figura$2.4.$e$refere-se$ao$projeto$de$B$-J$Manifesto,$que$segundo$
$
113$
o$>*G*$constituem$“o$primeiro$<<manifesto>>$político$do$B$-J$português”,$na$medida$
em$ que$ se$ “se$ insurgem$ contra$ a$ exploração$ capitalista”$ (Costa,$ 1982:$ 4).$ O$ artigo$
revela,$neste$sentido,$que$“a$crítica$social$tem$sido$tema$dominante$$nas$letras$do$B$-J$
português”,$ que$ procuram$ desempenhar$ cada$ vez$ mais$ um$ papel$ interventivo,$
relativamente$ao$panorama$político$e$social$do$nosso$país$(Costa,$1982:$4).$
$
!!!U6)5(*!@M`M!Rock%português%tem%manifesto:%Rockeiros%de%todos%os%países,%uni-vos!!
$$$Fonte:$>*G*,$7$de$abril$de$1982.$
$
Segundo$ Haenfler$ (2014),$ o$ estudo$ das$ subculturas$ juvenis$ tem$ uma$ história$
rica$e$continua$a$ganhar$terreno$nas$investigações$sociológicas$contemporâneas.$Como$
já$ foi$ referido$ anteriormente,$ também$ o$ CCCS$ foi$ uma$ das$ primeiras$ entidades$ a$
debruçar-se$ sobre$ o$ estudo$ das$ subculturas$ juvenis$ britânicas$ das$ classes$
trabalhadoras$emergentes$no$pós-guerra.$Um$dos$motivos$que$despoletou$o$interesse$
dos$ teóricos$ do$ centro$ sobre$ este$ campo$ foi$ o$ facto$ de,$ na$ década$ de$ cinquenta,$
muitos$ observadores$ terem$ afirmado$ que$ a$ Inglaterra$ se$ estaria$ a$ tornar$ numa$
sociedade$sem$classes$(Bennett,$2005).$Por$outras$palavras,$argumentava-se$que$com$
o$pós-guerra$as$diferenças$entre$as$classes$sociais$se$foram$esbatendo,$uma$vez$que$as$
classes$ trabalhadoras$ foram$ ascendendo$ à$ classe$ média$ e$ isso$ era$ particularmente$
visível$ através$ da$ observação$ dos$ seus$ estilos$ de$ vida$ e$ atividades$ de$ lazer$ (Zweig,$
1961).$ Foi$ durante$ este$ período,$ que$ os$ jovens$ foram$ alvo$ de$ assimilação$ de$ uma$
cultura$de$consumo$direcionada$exclusivamente$para$eles$(Abrams,$1959),$em$virtude$
$
114$
da$melhoria$das$suas$condições$de$vida.$É$neste$contexto$que$o$CCCS$afirma$que$esta$
melhoria$ das$ condições$ de$ vida$ e$ do$ poder$ de$ compra$ das$ culturas$ juvenis$ não$
significava$ que$ as$ classes$ sociais$ se$ tinham$ esbatido,$ nem$ que$ as$ oportunidades$ de$
vida$destes$jovens$tinham$prosperado$(Bennett,$2005):$
9D$" *n0&#*" ).'" h&$+)CD$" &)I-)+#)B'+j" K'B'" $" %*&*.KB*L$"
i)/*10+" %'" -+'&&*" #B'I'+U'%$B'," K'B'" '&" %*&/'1#'L*1&"
*%)-'-0$1'0&,"'"B*%)CD$"-$.K)+&XB0',"$&"*.KB*L$&"&*."&'c%',"
'" B$#010Z'CD$" *" *&K*-0'+0Z'CD$" %$" #B'I'+U$," $&" I'0n$&" &'+bB0$&"
$)" '" W'+#'" %*" -'K'-0%'%*&2" !&" *&#B'#EL0'&" &)I-)+#)B'0&" 1D$"
K$%*." -$BB*&K$1%*B," '#*1%*B" $)" B*&K$1%*B" S&" %0.*1&d*&"
*&#B)#)B'1#*&"*.*BL*1#*&"1*&#*"K*Bc$%$"K'B'"'"-+'&&*"-$.$")."
#$%$" 222" =+'&" hB*&$+/*.j" $&" KB$I+*.'&," .'&" %*" ).'" W$B.'"
0.'L01bB0'," KB$I+*.'&" ()*," 1$" 1c/*+" .'#*B0'+" -$1-B*#$,"
K*B.'1*-*."&*."&$+)CD$$(Clarke$*#"'+,$1976:$47-48).$
Os$primeiros$trabalhos$desenvolvidos$pelo$CCCS$realçaram$o$papel$do$contexto$
social$na$formação$das$subculturas,$bem$como$o$aspeto$visual$e$o$estilo$como$formas$
de$resistência$ à$ cultura$ dominante$ (Quintela$ &$ Oliveira,$2015).$ Segundo$ Clarke$ *#" '+$
(1976),$a$criação$de$soluções$subculturais$para$problemas$materiais,$desenvolvidas$por$
estes$jovens$das$classes$operárias,$deveria$ser$considerada$como$um$meio$para$ganhar$
um$espaço$cultural$no$seio$da$comunidade$onde$se$inseriam.$Cohen$(2002)$refere-se$a$
estas$ soluções$ mágicas$ encontradas$ pela$ comunidade$ juvenil$ como$ uma$ função$
latente$das$subculturas,$que$mais$tarde$viriam$a$ser$consideradas$ineficazes$(Guerra$&$
Quintela,$ 2018).$ Mas,$ no$ âmbito$ deste$ pensamento,$ a$ juventude$ da$ classe$
trabalhadora$unia-se$na$sua$marginalidade$contra$a$estrutura$de$classes$sociais$vigente$
e$esta$luta$perpetuava-se$de$geração$em$geração$(Haenfler,$2014).$Tratava-se$de$uma$
batalha$ideológica,$na$medida$em$que$na$sociedade$capitalista,$as$classes$altas$acabam$
por$dominar$as$classes$trabalhadoras$através$de$uma$hegemonia$cultural,$que$legitima$
as$suas$posições$sociais$dominantes$e$se$reproduz$continuamente$(Gramsci,$1971).$E$
no$ campo$ desta$ batalha$ ideológica,$ o$ estilo$ subcultural$ assume$ um$ papel$
determinante$(Hebdige,$1979),$na$medida$em$que$(...)$“os$itens$de$moda$estavam$a$ser$
simbolicamente$ transformados$ pelos$ jovens$ da$ classe$ trabalhadora$ e$ usados$ em$
estratégias$de$resistência”$(Bennett,$2005:$101).$Os$jovens$subculturais$combinavam$e$
reinventavam$ diversos$ objetos$ culturais$ quotidianos,$ transformando$ os$ seus$
$
115$
significados$através$de$processos$de$IB0-$+'L*"(Bennett$&$Guerra,$2019;$Guerra,$2019c;$
Bottà$ 2009,$ 2008),$ o$ que$ resultava$ em$ estilos$ espetaculares$ (Haenfler,$ 2014).$ De$
acordo$ com$ Hanefler$ (2014),$ os$ códigos$ estilísticos$ destes$ objetos$ tinham,$
simultaneamente,$duas$funções:$“distinguir$os$participantes$da$sociedade$“normal”$(e$
de$outras$subculturas)$e$estabelecer$uma$identidade$subcultural$específica”$(Haenfler,$
2014:$9),$o$que$concedia$também$a$esses$objetos$um$valor$afetivo$para$os$membros$da$
subcultura$(Bucholtz,$2002).$No$seio$desta$valorização$estética$da$moda,$os$adereços$
utilizados$ por$ estes$ jovens$ funcionavam$ como$ recursos$ na$ negociação$ simbólica$ da$
vida$quotidiana.$
=&#*&"$Ii*#$&"/0&)'0&"*"')%0$/0&)'0&,"KB$%)Z0%$&"L*B'+.*1#*"%*"
)." .$%$" do-it-yourself"*" underground," %*&B*&K*0#'1%$" '&"
-$1/*1Cd*&" !"#$%&$'("&) *) +,$#"&-.) $'/0"1) +) 2'1) 3*) 3*&"2'"#) *)
!"#$%$&%"'( )*%+,*( -.#( $%/012%3*/#+&#4( 5( 1",#/( #$&*0#2#3%,*6(
*%0W0-'1%$"'&&0.")."*&#0+$"&)I-)+#)B'+".)0#$"KBXKB0$$(Quintela$
&$Oliveira,$2015:$122).$
De$acordo$com$Cross$(1998),$a$primeira$subcultura$a$emergir$nos$distritos$das$
classes$ trabalhadoras$ londrinas$ e$ também$ a$ primeira$ a$ ser$ alvo$ de$ análise$ foram$ os$
^*%%l"p$l&.$Segundo$Hebdige$(1979),$o$tipo$de$música$alusivo$a$esta$subcultura$teria$
sido$ retirado$ do$ seu$ contexto$ original,$ que$ envolvia$ uma$ identificação$ com$ a$
identidade$ “negra”$ americana$ e$ reconhecida$ pelos$ jovens$ no$ Reino$ Unido,$ que$
partilhavam$ um$ mesmo$ sentimento$ de$ revolta.$ Esta$ subcultura$ caracterizava-se$ por$
uma$ junção$ entre$ os$ ritmos$ de$ B$-J$ americanos$ e$ negros$ e$ um$ estilo$ visual$
aristocrático$ eduardino$ (Clarke$ &$ Jefferson,$ 1973),$ uma$ vez$ que$ ^*%%l$ -$ na$ língua$
inglesa$ -$ corresponde$ ao$ diminutivo$ de$ Eduardo$ (Bouchey,$ 1989).$ Na$ conceção$ de$
Bennett$ (2005),$ o$ relativo$ poder$ de$ compra$ dos$ ^*%%l" p$l&$ permitiu$ que$ eles$
“comprassem”$ uma$ imagem$ de$ classe$ alta,$ que$ se$ caracterizava$ pelo$ uso$ de$ uma$
indumentária$ originalmente$ destinada$ a$ um$ mercado$ de$ classe$ alta:$ “de$ estilo$
eduardino,$ com$ laços,$ calças$ longas$ com$ lapelas$ de$ veludo$ e$ sapatos$ cor$ crepe,$
mostravam$ como$ o$ código$ de$ vestuário$ era$ tão$ importante$ para$ esta$ subcultura”$
(Martins,$2014:$24).$De$certa$forma,$a$construção$desta$aparência$representava$uma$
forma$ simbólica$ de$ expressar$ e$ negociar$ a$ sua$ realidade$ social,$ bem$ como$ de$ dar$
$
116$
algum$sentido$à$mesma$(Clarke$ &$Jefferson,$1973).$É$neste$ âmbito$ que$Cross$(1998)$
afirma$que$esta$subcultura$foi$a$primeira$a$construir$uma$identidade,$que$lhe$permitia$
compensar$a$sua$situação$socioeconómica$pouco$favorável.$É$de$realçar$que$os$^*%%l"
p$l&$funcionaram$como$uma$espécie$de$primeiro$impulso$para$o$que$mais$tarde$viria$a$
ser$o$movimento$K)1J$britânico,$nomeadamente$através$das$suas$demandas$sociais$e$
dos$ seus$ estilos$ visuais,$ que$ levaram$ Vivienne$ Westwood$ e$ Malcolm$ McLaren$
(pioneiros$ na$ criação$ da$ moda$ K)1J)$ a$ começar$ a$ criar$ este$ tipo$ de$ roupas$ (Guerra,$
2010).$Porém,$os$^*%%l"p$l&$acabaram$por$se$envolver$em$conflitos$violentos$com$a$
polícia$nos$arredores$de$Londres,$situação$que$prejudicou$fortemente$a$sua$reputação$
no$seio$da$imprensa$mediática$e,$consequentemente,$na$sociedade$britânica$da$época$
(Grayson,$ 2008).$ Segundo$ Bouchey$ (1989),$ esta$ subcultura$ espalhava$ o$ terror$ junto$
das$ autoridades$ e$ alarmava$ o$ parlamento$ britânico.$ A$ própria$ designação$ de$ ^*%%l"
p$l$tornou-se$abusiva$e$associada$a$pânico$moral$(Cohen,$2002).$Forçosamente$ligada$
a$ comportamentos$ desviantes$ e$ a$ transformações$ nos$ campos$ da$ moda,$ esta$
subcultura$ acabou$ por$ se$ desvanecer,$ dando$ lugar$ a$ outras$ que$ se$ seguiram,$
nomeadamente$ os$ 7$%&$e$ os$ 3$-J*B&.$ A$ este$ respeito,$ é$ relevante$ mencionar$ que$
muitas$ das$ subculturas$ surgiram$ em$ substituição$ de$ outras$ que$ acabaram$ por$
desaparecer,$ muitas$ vezes,$ pela$ sua$ absorção$ pela$ cultura$ dominante$ e$ pelas$
dinâmicas$do$mercado$(Guerra$&$Quintela,$2018),$mas$também$pela$sua$“rotulagem”$
social,$ nomeadamente$ levada$ a$ cabo$ pelos$ meios$ de$ comunicação$ social$ (Hebdige,$
1979).$
A$ subcultura$ 7$%$ adotou$ como$ hino$ o$ tema$ 7l" w*1*B'#0$1$dos$ ^U*" |U$$
(Martins,$2014)$e$a$designação$7$%$derivava$da$palavra$7$%*B10&t,$uma$vez$que$era$
dessa$ forma$ que$ estes$ jovens$ se$ auto$ representavam.$ Em$ poucas$ palavras,$ os$ 7$%&$
caracterizavam-se$ por$ viver$ no$ tempo$ presente,$ mas$ por$ tentar$ encontrar$ em$
referências$continentais,$particularmente$italianas$e$francesas,$os$indícios$de$uma$nova$
mitologia$(Bouchey,$ 1989).$À$semelhança$ da$subcultura$ ^*%,$os$ 7$%&$também$ eram$
provenientes$ da$ classe$ trabalhadora$ londrina$ e$ partilhavam$ o$ mesmo$ interesse$ pelo$
B$-J[1[B$++.$ Contudo,$ “ao$ contrário$ dos$ desafiadoramente$ intrusivos$ ^*%%l" p$l&,$ os$
7$%&$eram$mais$subtis$e$suaves$na$sua$aparência:$“eles$usavam$fatos$aparentemente$
$
117$
conservadores$ em$ cores$ respeitáveis,$ eram$ meticulosamente$ limpos$ e$ arrumados”$
(Hebdige,$ 1979:$ 52).$ No$ entanto,$ ambas$ as$ subculturas$ valorizavam$
fundamentalmente$o$seu$aspeto$visual.$Ou$seja,$a$“moda,$os$fatos$bem$costurados,$as$
K'BJ'&$ obrigatórias$ e$ o$ cabelo$ curto$ eram$ o$ principal$ para$ se$ ser$ um$ 7$%,$ à$
semelhança$ do$ quase$ arranjo$ ritual$ de$ lazer”$ (Wicke,$ 1995:$ 76/77).$ Além$ de$ serem$
popularmente$ conhecidos$ e$ reconhecidos$ por$ se$ movimentarem$ em$ .$#$B&-$$#*B&$
italianas$(lambretas),$os$7$%&$também$aspiravam$uma$mobilidade$social$ascendente$
(Martins,$2014).$Curiosamente,$apesar$de$existirem$alguns$grupos$femininos$no$seio$da$
subcultura$^*%,$ a$participação$ feminina$foi$ fundamentalmente$mais$ forte$no$ seio$da$
subcultura$ 7$%$ (McRobbie$ &$ Garber,$ 1982).$ Os$ membros$ deste$ grupo$ subcultural$
constituíam,$ igualmente,$ uma$ massa$ social$ maioritariamente$ semiqualificada,$ que$
dava$uma$ importância$crucial$ às$ atividades$de$ lazer$e$ à$fuga$ da$ rotina$ quotidiana.$ É$
neste$contexto,$que$de$forma$a$tentar$fazer$face$aos$sentimentos$de$vazio$interior$e$a$
um$mundo$exterior$que$lhes$era$hostil,$os$7$%&$recorriam$com$frequência$ao$consumo$
de$ substâncias$ estimulantes,$ como$ era$ o$ caso$ das$ anfetaminas,$ (às$ quais$
denominavam$ de$ K)BK+*" U*'B#&)$ (Cabello,$ 2012;$ Bouchey,$ 1989).$ Ainda,$ a$ subcultura$
7$%$ ficou$ particularmente$ marcada$ pela$ sua$ oposição$ a$ uma$ outra$ subcultura$ sua$
contemporânea:$ os$ 3$-J*B&2" Ao$ contrário$ dos$ ^*%%l" p$l&$e$ dos" 7$%&,$ os$ 3$-J*B&$
afirmavam$ a$ cultura$ e$ os$ valores$ da$ classe$ trabalhadora$ (Stratton,$ 1985)$ e$
interessavam-se$ pelo$ B$-J[1[B$++$ na$ sua$ vertente$ mais$ tradicional.$ Neste$ sentido,$
renunciavam$à$cultura$capitalista,$nomeadamente$aos$ideais$da$sociedade$de$consumo$
(Bouchey,$1989).$Tal$como$os$7$%&,$conduziam$&-$$#*B&$e$a$marca$mais$distintiva$do$
seu$ visual$ era$ o$ recurso$ a$ peças$ de$ roupa$ em$ couro$ escuro,$ que$ combinavam$ com$
cabelos$ ligeiramente$ mais$ compridos$ (estilo$ ()0WW)$ e$ de$ aspeto$ gorduroso$ (Grayson,$
2008).$ De$ uma$ forma$ geral,$ “os$ 3$-J*B&$ eram$ associados$ às$ motas,$ em$ especial$ às$
grandes,$pesadas$ e$ poderosas$^B0).KU$ do$ final$ da$década$ de$ 50”$ (Perone,$ 2009:$ 2).$
Além$ do$ couro$ presente$ maioritariamente$ nos$ seus$ casacos,$ eles$ também$ se$
caracterizavam$ pelo$ uso$ de$ i*'1&,$ correntes$ e$ óculos$ de$ sol$ e$ eram$ considerados$
francamente$ rudes$ e$ desagradáveis$ exemplares$ da$ imagem$ da$ juventude$ (Martins,$
2014).$"
$
118$
Como$já$foi$referido,"7$%&$e$3$-J*B&$constituíram$subculturas$rivais,$pelo$que$
foram$ responsáveis$ por$ inúmeros$ tumultos$ e$ tensões$ sociais,$ que$ resultaram$ na$
propagação$ de$ pânicos$ morais$ (Cohen,$ 2002)$ no$ seio$ da$ sociedade$ britânica$ deste$
período.$ Da$ mesma$ forma$ que$ defendiam$ os$ valores$ convencionais$ da$ classe$
trabalhadora$e$se$interessavam$pelo$B$-J[1[B$++$mais$clássico,$os$3$-J*B&$apelidavam$a$
subcultura"7$%$de$efeminada,$ao$mesmo$tempo$que$exaltavam$a$sua$masculinidade$e$
a$ transparência$ dos$ seus$ valores$ (Bouchey,$ 1989;$ Hebdige,$ 2014).$ No$ âmbito$ destes$
conflitos$ subculturais,$ um$ evento$ foi$ marcante$ para$ o$ desenrolar$ do$ pensamento$
público$acerca$ dos$ comportamentos$ desviantes$de$ 7$%&$e$ 3$-J*B&:$ os$conflitos$ que$
decorreram$nos$feriados$dos$bancos,$durantes$os$meses$de$março,$maio$e$agosto$de$
1964$ em$ populares$ B*&$B#&$ costeiros$ das$ cidades$ de$ Brighton,$ Clacton,$ Margate$ e$
Hastings$ (Grayson,$ 2008).$ De$ facto,$ estes$ eventos$ constituíram$ um$ ataque$ à$ ordem$
pública$ e$ os$ incidentes$ que$ causaram,$ apesar$ de$ não$ terem$ resultado$ em$
consequências$ graves,$ levaram$ à$ detenção$ de$ 24$ jovens$ (Guerra,$ 2002).$ Estes$
episódios$ foram$ descritos$ pelos$ populares$ como$ caóticos:$ “motas$ e$ &-$$#*B&$ rugiam$
para$ cima$ e$ para$ baixo,$ havia$ janelas$ quebradas,$ algumas$ cabanas$ de$ praia$ foram$
destruídas,$ um$ jovem$ disparou$ uma$ pistola$ de$ partida$ no$ ar”$ (Cohen,$ 2002:$ 123).$ O$
que$ se$ seguiu$ foi$ uma$ cobertura$ massiva$ dos$ meios$ de$ comunicação$ sobre$ estas$
incidentes,$ caracterizada$ pelo$ exagero$ e$ deturpação$ dos$ factos$ reais$ (Guerra,$ 2002).$
Porém,$ “para$ além$ disso,$ realizaram$ prognósticos$ acerca$ da$ ocorrência$ de$
acontecimentos$semelhantes$noutras$cidades$inglesas,$o$que$influenciou$a$polícia$e$os$
magistrados$a$tomarem$medidas$severas$face$aos$jovens$tidos$como$7$%&$ou$3$-J*B&”$
(Guerra,$ 2002:$ 18).$ Esta$ cobertura$ mediática$ levou$ Cohen$ (2002)$ a$ analisar$ a$ forma$
como$a$sociedade$em$geral$recebeu,$processou$e$entendeu$estes$acontecimentos,$que$
foram$ associados$ a$ problemas$ de$ delinquência$ juvenil$ pelo$ governo$ britânico.$ De$
facto,$ em$ virtude$ da$ informação$ transmitida$ pelos$ média,$ estas$ duas$ subculturas$
acabaram$ por$ ser$ descredibilizadas$ socialmente,$ “(...)$ pelo$ facto$ de$ terem$ assumido$
crescentemente$um$estatuto$de$W$+J"%*/0+&,$servindo$de$referência$societal$e$contexto$
normativo$para$ tudo$o$ que$os$ jovens$não$ deveriam$ser,$ ou$ dizendo$ de$outro$ modo,$
como$um$«mau$exemplo»$para$os$jovens”$(Guerra,$2010:$398).$A$reação$social$face$aos$
$
119$
comportamentos$ desviantes$ de$ 7$%&$e$ 3$-J*B&$ chegava$ à$ opinião$ pública$ de$ forma$
previamente$ processada,$ o$ que$ dificultava$ qualquer$ interpretação$ real$ da$ situação.$
Neste$ sentido,$ em$ resposta$ a$ este$ pânico$ moral,$ os$ indivíduos$ apelavam$ aos$
“guardiões$ morais”$ da$ sociedade$ (Cohen,$ 2002)$ por$ medidas$ mais$ rigorosas$ de$
aplicação$da$lei$e$com$penalidades$mais$austeras$para$os$infratores$(Muggleton,$2005).$
É$perante$esta$cenário,$que$“os$termos$7$%$e$3$-J*B$são$despojados$de$um$contexto$
neutral$de$significação,$ligados$a$estilos$diferentes$de$consumos$musicais,$e$passam$a$
ter$ um$ significado$ amplamente$ negativo”$ (Guerra,$ 2002:$ 21).$ Neste$ âmbito,$ as$
subculturas$ em$ geral$ acabaram$ por$ ser$ infundadamente$ culpadas$ dos$ problemas$
sociais$ existentes$ e$ simbolizavam$ declínios$ morais$ (Haenfler,$ 2014).$ Este$ tipo$ de$
abordagens$mediáticas$são$ainda$comuns$nos$dias$de$hoje,$no$nosso$país,$como$vemos$
no$exemplo$da$Figura$2.5.,$que$traduz$uma$reportagem$do$Expresso$sobre$os$festivais$
de$ verão,$ que$ além$ do$ divertimento$ que$ proporcionam$ têm$ também$ “um$ lado$ B,$
ligado$ à$ velha$ expressão$ >*n$," %B$L'&" *" B$-J[1[B$++$ que$ existe$ desde$ que$ o$ B$-J$
apareceu”$ (Delimbeuf,$ 2016:$ s/p).$ O$ artigo$ refere,$ de$ forma$ a$ reforçar$ esta$ posição,$
que$ “grandes$ concentrações$ de$ pessoas$ levam$ sempre$ a$ grandes$ excessos”$
(Delimbeuf,$2016:$s/p).$
U6)5(*!@MAM!O%que%é%que%acontece%nos%festivais%que%os%miúdos%não%contam%aos%pais25%
Fonte:"=nKB*&&$$($1+01*),$19$de$maio$de$2016.$
!
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
25 Consultar em: https://expresso.pt/dossies/diario/2016-05-19-O-que-e-que-acontece-nos-festivais-que-
os-miudos-nao-contam-aos-pais-$
$
120$
Os$>J01U*'%&$foram$outra$das$subculturas$britânicas$emergidas$no$pós-guerra$e$
também$analisada$pelo$CCCS.$Esta$subcultura$“que$surgiu$no$East$End$de$Londres$no$
início$ de$ 1968,$ constituiu$ uma$ tentativa$ simbólica$ de$ recuperar$ o$ modo$ de$ vida$
tradicional$da$classe$trabalhadora$que$havia$sido$seriamente$corroído$pelos$efeitos$da$
mudança$ social”$ (Calluori,$ 1985:$ 46).$ A$ cultura$ &J01U*'%$ era$ igualmente$ proveniente$
das$classes$trabalhadoras,$mas$de$um$meio$mais$desqualificado$ao$contrário$dos$7$%&.$
Por$esta$razão,$defendiam$valores$como$a$incivilidade$e$o$machismo,$da$mesma$forma$
que$revelavam$ uma$ atitude$ defensiva$do$ espaço$ e$ da$ identidade$ de$ classe$ (Groppo,$
2015).$ Neste$ sentido,$ os$ >J01U*'%&$ eram,$ simultaneamente,$ uma$ caricatura$ e$ uma$
reabilitação$ do$ modelo$ masculino$ da$ classe$ trabalhadora,$ ou$ seja,$ eram$ puritanos,$
sexistas,$racistas,$agressivos$e$ reacionários$(Calluori,$1985).$Contudo,$ segundo$Clarke$
*#"'+$(1976),$estas$características$decorriam$do$facto$desta$subcultura$representar$uma$
tentativa$ de$ recriação$ da$ comunidade$ da$ classe$ trabalhadora$ tradicional,$ em$
substituição$ do$ declínio$ da$ atual.$ Visualmente,$ eles$ ostentavam$ um$ contraste$
profundo$ relativamente$ às$ subculturas$ anteriormente$ mencionadas,$ uma$ vez$ que$
personificavam$o$modelo$de$um$trabalhador$comum:$cabelos$rapados,$suspensórios,$
i*'1&$largas$ou$outro$tipo$de$calças$largas,$camisas$Ben$Sherman$lisas$ou$com$riscas$e$
botas$ Doctor$ Marten$ (Cohen,$ 1997).$ De$ facto,$ a$ rejeição$ de$ qualquer$ influência$
burguesa$ no$ estilo$ >J01,$ assim$ como$ o$ exagero$ das$ características$ da$ classe$
trabalhadora$ tradicional,$ constituía$ uma$ revolta$ contra$ o$ processo$ de$ mobilidade$
social.$Para$expressar$uma$identidade$mais$rígida,$Hebdige$(1979)$argumenta$que$os$
&J01U*'%&$ recorreram$ a$ duas$ fontes$ ostensivamente$ incompatíveis:$ as$ culturas$ dos$
imigrantes$ das$ Índias$ Ocidentais$ e$ a$ classe$ trabalhadora$ branca.$ Assim,$ estas$ duas$
tradições$ distintas$ fundiram-se$ no$ estilo$ visual$ dos$ >J01U*'%&,$ que$ tanto$ envolvia$ a$
perceção$ delinquente$ dos$ meninos$ de$ rua$ indianos,$ como$ a$ dureza$ dos$ homens$
brancos$ da$ classe$ trabalhadora$ tradicional$ (Clarke$ &$ Jefferson,$ 1973).$ De$ facto,$ a$
escolha$deste$tipo$de$visual$$
&0L10W0-'/'"1*L$-0'B,"&)K*B'B"$)".*&.$"01-$BK$B'B"%*".'1*0B'"
K$&0#0/'" .)0#$&" %$&" &0L10W0-'%$&" 1*L'#0/$&" ()*," 1$" -X%0L$" %'"
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$
121$
0.'L*." %$" KB0&0$1*0B$" -$." '" -'I*C'" B'K'%'," #B'i*&" %*"
#B'I'+U$,"B$)K'&"W$B'"%*"EK$-',"*#-2$(Clarke$*#"'+,$1976:$120).$
Mais$uma$vez,$as$ ondas$de$pânico$moral$ alcançaram$novos$patamares$com$ a$
subcultura$ >J01U*'%,$ envolvendo$ motins$ e$ destruição$ de$ propriedades$ de$ uma$
empresa$ ferroviária.$ Como$ resultado,$ os$ >J01U*'%s$ sentiram-se$ oprimidos$ pelas$
autoridades$e$pela$opinião$que$os$membros$das$classes$capitalistas$partilhavam$a$seu$
respeito.$ Assim,$ o$ sentimento$ comum$ de$ estar$ “no$ meio”$ de$ forças$ opressivas$ e$
exploradoras$produziu$uma$necessidade$de$solidariedade$de$grupo,$essencialmente$de$
natureza$ defensiva$ e$ agressiva,$ com$ expressão$ de$ frustração$ e$ descontentamento$
através$do$ ataque$ a$bodes$ expiatórios$ externos$ (Clarke,$2014).$ No$ entanto,$Young$ e$
Craig$(1997)$bem$como$Calluori$(1985)$acreditavam$que$as$atitudes$e$as$características$
sexistas$que$as$pessoas$associavam$à$cultura$>J01U*'%$refletiam,$no$fundo,$o$sexismo$
inerente$à$própria$sociedade$britânica$deste$período.$
@MXM!W†+?+5~-5185(*+&!8(6~*16+3%!#!f6~(676+3%!
Mais$estudos$subcultralistas$se$seguiram$com$o$foco$em$diferentes$subculturas$como$
os$ _0KK0*&$ou$ os$ V)1J&,$ porém,$ consideramos$ importante$ relembrar$ o$ conceito$ de$
subcultura$ através$ das$ palavras$ de$ Haenfler$ (2014):$ “uma$ rede$ social$ relativamente$
difusa$com$uma$identidade$partilhada,$significados$distintos$em$torno$de$certas$ideias,$
práticas$ e$ objetos$ e$ um$ senso$ de$ marginalização$ ou$ resistência$ a$ uma$ sociedade$
convencional$percebida”$(Haenfler,$2014:$16).$De$facto,$as$subculturas$não$constituem$
blocos$ estáticos$ ou$ homogéneos,$ mas$ antes,$ pistas$ simbólicas$ que$ orientam$ e$ dão$
significado$aos$valores,$crenças$e$comportamentos$dos$indivíduos.$Portanto,$tratam-se$
de$ “realidades$ complexas$ e$ multidimensionais$ e$ exigem$ uma$ análise$ que$ tenha$ em$
conta$as$diferenças$entre$elas$e$no$seu$interior”$(Guerra$&$Quintela,$2018:$16).$É$neste$
âmbito,$que$têm$vindo$a$ser$apontadas$algumas$críticas$ao$estudo$das$subculturas$e$
aos$trabalhos$desenvolvidos$pelo$CSSS,$nomeadamente$“o$pouco$destaque$atribuído$à$
música$na$ análise$ dos$estilos$ subculturais$ e$ formas$expressivas”$ (Guerra$ &$ Quintela,$
2018:$ 15),$ uma$ vez$ que$ a$ música$ surge$ nas$ suas$ abordagens$ como$ desprovida$ de$
qualquer$ interpretação$ ou$ possível$ análise$ semiótica$ (Tagg$ &$ Clarida,$ 2003).$ Ao$
$
122$
analisar$criticamente$o$conceito$de$subcultura,$Bennett$(1999)$destaca$dois$problemas$
principais:$
VB0.*0B$,"*n0&#*")."KB$I+*.'"%*"$Ii*#0/0%'%*,"K$0&"'"&)I-)+#)B'"
E" )&'%'" %*" .'1*0B'&" -'%'" /*Z" .'0&" -$1#B'%0#XB0'&" K*+$&"
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/*B0W0-'B"*."#*B.$&"*.KcB0-$&$(Bennett,$1999:$605).$
A$ partir$ de$ meados$ dos$ anos$ noventa,$ com$ a$ perda$ de$ força$ das$ subculturas$
clássicas$ e$ a$ erupção$ de$ novos$ géneros$ musicais$ e$ culturas$ de$ dança$ oriundas$ da$
música$ eletrónica,$ o$ foco$ passou$ a$ estar$ nos$ hábitos$ e$ rotinas$ de$ lazer,$ em$ vez$ de$
assentar$ nas$ suas$ expressões$ sociais$ de$ resistência$ (Anderson,$ 2009;$ Frith,$ 1983$ e$
1988;$ Bennett,$ 2001).$ De$ facto,$ segundo$ Haenfler$ (2014),$ fatores$ como$ a$ idade,$ a$
classe$social,$o$género$ou$a$raça$pareciam$cada$vez$menos$salientes$e$menos$centrais$
para$a$formação$deste$tipo$de$grupos.$Segundo$Paula$Guerra$(2010),$o$determinismo$
económico$ assente$ na$ classe$ social,$ o$ caráter$ totalizante$ e$ normalizador$ das$
subculturas$ encaradas$ como$ blocos$ homogéneos$ sem$ especificidades$ ou$ diferenças$
entre$ si,$ assim$ como$ a$ visão$ dicotomizadora$ que$ coloca$ em$ oposição,$ entre$ outros$
aspetos,$ o" .'01&#B*'.$e$ o$ )1%*BLB$)1%$ constituem$ limitações$ importantes$ às$
abordagens$ clássicas$ das$ subculturas.$ Neste$ âmbito,$ o$ conceito$ de$ subcultura$ tem$
vindo$ a$ ser$ alvo$ de$ uma$ intensa$ problematização$ e$ de$ acesas$ discussões$ no$ meio$
científico$ das$ ciências$ sociais.$ Como$ substituto$ do$ termo$ subcultura,$ foi$ sugerido$ o$
temo$ pós-subcultura,$ de$ forma$ a$ expressar$ a$ relação$ destes$ grupos$ com$ as$ teorias$
contemporâneas$ pós-modernas$ (Woo,$ 2009).$ Para$ Muggleton$ (2000),$ a$ designação$
subcultura$era$eminentemente$moderna,$daí$que$se$deu$a$urgência$de$rever$o$modelo$
proposto$ pelo$ CCCS,$ uma$ vez$ que$ as$ condições$ que$ levaram$ ao$ surgimento$ desses$
grupos$e$estilos$foram$as$restrições$estruturais$da$sociedade$moderna$e,$em$particular,$
o$sistema$de$classes.$Com$a$organização$da$sociedade$s-moderna,$essas$condições$
desiguais$ deixaram$ de$ fazer$ sentido$ e$ foram$ substituídas$ por$ estruturas$ mais$
heterogéneas,$fragmentadas$e$fluídas$e,$de$acordo$com$Guerra$e$Quintela$(2016),$o$ser$
$
123$
humano$ assume,$ deste$ modo,$ um$ caráter$ plástico.$ No$ fundo,$ os$ estudos$ pós-
subculturais$não$constituem$um$campo$de$trabalho$unificado,$mas$antes$uma$reação$
ao$ pensamento$ subcultural$ que$ o$ precedeu$ (Muggleton,$ 2005),$ daí$ também$ terem$
vindo$ a$ ser$ denominados$ de$ estudos$ pós-CCCS$ (Weinzierl$ &$ Muggleton,$ 2003).$ Para$
Muggleton$ (2005),$ três$ aspetos$ deram$ o$ mote$ para$ o$ desenvolvimento$ dos$ estudos$
pós-subculturais:$
VB0.*0B$,"&)BL0)").'"1$/'"L*B'CD$"%*"'-'%E.0-$&"'"B*i*0#'B"$&"
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&)I-)+#)B'," %*/0%$" S&" &)'&" -$1$#'Cd*&" '$" 555>" *" '" ).'"
-$+*#0/0%'%*"-$*&'"*"-$*B*1#*$(Muggleton,$2005:$214).$
De$ facto,$ as$ chamadas$ subculturas$ juvenis$ são$ exemplos$ excelentes$ das$
afiliações$ culturais$ que$ caracterizavam$ as$ sociedades$ modernas.$ Por$ outro$ lado,$
recorrendo$ a$ Shields$ (1992),$ a$ K*B&$1'$pós-moderna$ move-se$ numa$ sucessão$ de$
situações$ particulares$ e$ não$ é$ mais$ um$ ser$ simplificado$ e$ teorizado$ como$ unificado,$
mas$antes$ como$ detentor$ de$ identificações$ múltiplas.$ Neste$ sentido,$ o$ grupo$ já$ não$
permanece$o$foco$da$atenção,$mas$antes$o$indivíduo$que$se$move,$relocaliza$e$assume$
diferentes$identidades$sociais.$No$seio$desta$discussão,$Redhead$(1997)$foi$o$primeiro$
autor$a$refletir$seriamente$acerca$desta$perspetiva$ pós-moderna,$mas$muitos$outros$
se$ seguiram.$ Ao$ discutir$ o$ impacto$ da$ música$ '-0%" U$)&*$ entre$ os$ jovens,$ Redhead$
(1993)$verificou$ que$ na$pista$ de$ dança$se$ misturavam$ diferentes$estilos$ e$ diferentes$
grupos$ subculturais,$ mesmo$ antagónicos$ entre$ si.$ Para$ este$ autor,$ as$ “subculturas$
"autênticas"$ foram$ produzidas$ por$ teóricos$ subculturais,$ não$ o$ contrário”$ (Redhead,$
1990:$ 25).$ Por$ isso,$ a$ música$ popular$ e$ os$ estilos$ juvenis$ "desviantes"$ nunca$ se$
ajustaram$ fielmente$ aos$ moldes$ disseminados$ pelos$ seus$ teóricos.$ De$ igual$ modo,$
Muggleton$(2000)$dá$continuidade$a$esta$linha$de$pensamento,$argumentando$que$os$
anos$ de$ transição$ de$ 1980$ para$ 1990$ se$ caracterizaram$ por$ duas$ “(...)$ décadas$ de$
$
124$
fragmentação$ e$ proliferação$ subcultural,$ com$ uma$ abundância$ de$ renovações,$
hibridismos$ e$ transformações,$ e$ a$ coexistência$ de$ uma$ multiplicidade$ de$ estilos”$
(Muggleton,$2000:$47).$
Uma$ das$ mais$ importantes$ contribuições$ para$ essa$ matéria$ foi$ desenvolvida$
por$ Sarah$ Thornton$ (1996),$ que$ refletiu$ acerca$ dos$ debates$ teóricos$ sobre$ as$
possibilidades$ e$ os$ problemas$ da$ aplicação$ do$ trabalho$ de$ Pierre$ Bourdieu$ na$
sociologia$ da$ cultura.$ Ao$ alterar$ ou$ mesmo$ “inverter”$ o$ significado$ do$ conceito$ de$
capital$ cultural$ de$ Bourdieu,$ Thornton$ (1996)$ usa$ o$ termo$ “capital$ subcultural”$ para$
revelar$ o$ &#'#)&$ descolado$ dos$ indivíduos$ que$ resulta$ da$ legitimação$ de$ gostos$
)1%*BLB$)1%,$ através$ de$ um$ processo$ de$ distinção$ daqueles$ valorizados$ pela$
sociedade$.'01&#B*'..$Ao$referir-se$às$-+)I"-)+#)B*&"por$si$estudadas,$Sarah$Thornton$
(1996)$ caracteriza-as$ como$ “culturas$ de$ gosto”.$ Os$ grupos$ club$ geralmente$ estão$
congregados$na$base$do$gosto$musical$comum,$do$consumo$de$médias$comuns$e,$mais$
importante,$ as$ suas$ preferências$ por$ pessoas$ com$ gostos$ semelhantes$ aos$ deles$
(Thornton,$ 1996:$ 3).$ Dito$ de$ outra$ forma,$ o$ conhecimento$ de$ uma$ subcultura$
particular$acaba$por$se$incorporar$no$corpo$dos$seus$participantes$(Guerra$&$Quintela,$
2018).$Aqui,$é$importante$compreender$que$a$exclusividade$dos$gostos$nunca$é$fixa,$
porque$eles$precisam$sempre$de$ser$demarcados$da$cultura$.'01&#B*'.$e$construídos$
através$ de$ uma$ contínua$ classificação$ e$ reclassificação,$ ou$ seja,$ não$ se$ tratam$ de$
culturas$ isoladas,$ mas$ existem$ barreiras$ e$ diferenças$ entre$ “eles”$ e$ “nós”.$ É$ neste$
sentido$ que$ a$ autora$ argumenta$ que$ os$ “(...)$ sons$ e$ estilos$ )1%*BLB$)1%$ são$
“autênticos”$ e$ são$ situados$ em$ oposição$ à$ produção$ e$ ao$ consumo$ em$ massa”$
(Thornton,$ 1996:$ 177).$ Contudo,$ apesar$ de$ algumas$ críticas$ sobre$ as$ adaptações$
teóricas$ de$ Thornton$ serem$ insuficientes$ para$ entender$ os$ processos$ coletivos$ de$
distinção$ (MacRae,$ 2004),$ o$ seu$ trabalho$ constituiu$ uma$ das$ primeiras$ abordagens$
pós-subculturalistas$mais$coerentes.$
Outras$ abordagens$ concetuais$ introduziram,$ ainda,$ novos$ conceitos$ e$
terminologias$importantes$para$análise.$Falamos,$por$exemplo,$da$perspetiva$Chaney$
(1996)$que$remete$para$o$reavivar$da$importância$do$conceito$de$estilos$de$vida,$que$
dizem$respeito$aos$modos$distintivos$de$viver$(Sobel,$1981)$e$que$envolvem$os$gostos,$
$
125$
a$forma$de$vestir,$de$falar,$os$consumos,$os$U$II0*&,$as$escolhas$gastronómicas$entre$
outros$aspetos.$De$acordo$com$Martins$“(…)$os$estilos$de$vida$remetem$para$projetos$
coletivos$que$assentam$em$dispositivos$de$competência$consumista”$(Martins,$2015:$
197)$e$resultam$na$importância$dos$consumos$culturais$para$a$construção$identitária$
dos$ indivíduos.$ Para$ Haenfler$ (2014),$ os$ estilos$ de$ vida$ abrangem$ a$ autoexpressão$
individual,$numa$tentativa$de$a$distinguir$no$seio$da$expressão$coletiva.$Chaney$(1996)$
parte,$então,$da$premissa$de$que$os$estilos$de$vida$são$demonstrativos$da$crescente$
reflexividade$exibida$ pelos$indivíduos,$ tanto$na$prática$ quanto$na$ negociação$da$ sua$
vida$ quotidiana.$ Neste$ sentido,$ este$ autor$ distingue$ estilos$ de$ vida$ (+0W*&#l+*&),$ de$
modos$de$vida$(m'l&"$W"+0W*),$uma$vez$que$estes$últimos$se$associam$a$comunidades$
tipicamente$ estáveis,$ que$ partilham$ normas,$ comportamentos$ e$ padrões$ de$ ordem$
social$ (Chaney,$ 1996).$ É$ neste$ âmbito,$ que$ “a$ maneira$ como$ os$ estilos$ de$ vida$ são$
construídos$e$promulgados$corresponde$a$uma$série$de$“situações$e$estratégias”$que$
correspondem,$por$sua$vez,$a$tentativas$de$negociar$experiências$locais$e$quotidianas”$
(Bennett,$ 2005:$ 64).$ Segundo$ este$ pensamento,$ ao$ colocar$ a$ experimentação$ como$
uma$característica$ central$ das$identidades$ modernas$ tardias,$o$ conceito$ de$estilo$ de$
vida$ permite$ que$ os$ indivíduos$ optem$ pelos$ estilos$ de$ vida$ que$ desejam$ e$ não$ por$
aqueles$ que,$ de$ alguma$ forma$ sejam$ indicativos$ do$ contexto$ de$ classe$ específico$
(Bennett,$1999).$
Diferentes$ perspetivas$ abordam$ ainda$ outros$ agrupamentos$ de$ indivíduos,$
nomeadamente$os$movimentos$sociais,$os$L'1L&$ou$as$culturas$de$fãs.$Os$movimentos$
sociais$ emergem$ para$ designar$ organizações$ ou$ coletivos,$ que$ promovem$
manifestações$ políticas$ ou$ desafios$ públicos$ e$ que$ atentam$ às$ estruturas$ sociais$
tipicamente$ governamentais$ (McAdam,$ Tarrow$ &$ Tilly,$ 2001).$ Falamos$ aqui,$ por$
exemplo,$de$movimentos$feministas$ou$de$defesa$dos$direitos$dos$animais,$porque$no$
fundo,$todos$contestam$as$normas$da$cultura$dominante$e$lutam$por$direitos$políticos$
(Haenfler,$2014).$O$objetivo$destas$organizações$é$a$mudança$social.$Os$L'1L&,$por$sua$
vez,$ são$ constituídos$ por$ jovens$ marginais$ que$ se$ unem$ em$ comunidades$ para$ se$
protegerem$ ou$ para$ exercerem$ atividade$ criminal.$ Inicialmente,$ como$ vimos,$ foram$
problematizados$ no$ estudo$ subcultural$ da$ Escola$ de$ Chicago$ e$ estes$ grupos$ são$
$
126$
fundamentalmente$ marcados$ por$ comportamentos$ de$ desvio$ e$ pela$ partilha$ de$
normas,$códigos$e$práticas$que$os$distinguem$do$resto$da$sociedade$(Haenfler,$2014).$
Finalmente,$ as$ culturas$ de$ fãs$ são$ definidas$ por$ Henry$ Jenkins$ (2006)$ como$
comunidades$que$partilham$um$interesse$profundo$por$algum$objeto$e/ou$entidade$da$
cultura$ popular$ e$ que$ o$ expressam$ através$ de$ atividades$ culturais$ juntamente$ com$
outros$fãs.$As$culturas$de$fãs$exigem$a$participação$ativa$dos$seus$membros,$através$
de$consumos$e$apropriações$alusivas$ao$objeto$e/ou$entidade$em$questão.$$
Uma$ breve$ nota$ acerca$ de$ um$ outro$ termo$ importante,$ que$ diz$ respeito$ à$
contracultura.$Apesar$de$não$integrar$os$estudos$pós-subculturais,$a$contracultura$foi$
um$ movimento$ juvenil$ de$ importância$ crucial$ no$ século$ XX$ e$ que$ se$ prendia$ com$ a$
constituição$de$uma$oposição$ou$de$um$desafio$à$cultura$dominante$ou$às$autoridades$
culturais.$ Neste$ caso$ particular,$ ela$ é$ um$ fenómeno$ associado$ especificamente$ à$
década$de$sessenta,$que$defendia$“(...)$uma$nova$configuração$cultural,$independente$
do$ padrão$ cultural$ vigente,$ que$ adota$ outras$ formas$ de$ viver$ no$ planeta:$ ecologia,$
drogas,$esoterismo,$amor$livre”$(Gumes,$2003:$s/p).$Ela$ia,$neste$caso,$ao$encontro$dos$
ideais$pacifistas$do$movimento$_0KK0*,$que$se$opunha$à$guerra$e$defendia$as$minorias$
sociais.$Para$Roszak$(1972),$o$fenómeno$contracultural$“muito$mais$do$que$«merecer»$
atenção,$exige-a,#até&,#com#uma#premência#desesperada”#(Roszak,#1972:#13).#Contudo,#
Roszak$(1972)$argumenta$que$a$contracultura$tem$uma$definição$complexa,$mas$que$
se$ aproxima$ de$ uma$ cultura$ marginal,$ na$ medida$ em$ que$ se$ afasta$ dos$ padrões$
culturais$da$sociedade.$
@M`M!E#0*+!35+6-*6+!1%-*6+&!8(*0+1%-*6+!#!e6(85*6+!
Na$ sociedade$ contemporânea,$ a$ geração$ pós-subcultural$ mistura$ diversos$ géneros$
musicais$ e$ diferentes$ estilos$ de$ moda$ para$ criar$ os$ seus$ próprios$ estilos$ individuais$
(Redhead,$ 1997),$ como$ se$ se$ tratasse$ de$ um$ supermercado$ de$ estilos$ (Polhemus,$
1997).$ Os$ indivíduos$ estão,$ agora,$ menos$ preocupados$ em$ adotar$ uma$ identidade$
coletiva$e$mais$orientados$para$alcançar$a$sua$própria$criatividade$e$prazer$(Haenfler,$
2014).$Neste$cenário,$também$a$própria$cultura$musical$se$transformou$numa$cultura$
global,$ assente$ num$ imperialismo$ mediático$ e$ no$ capitalismo$ (Crane,$ 2002).$ Mas,$
$
127$
segundo$Crane,$este$fenómeno$de$globalização$assenta,$de$igual$modo,$na$premissa$de$
que$ a$ “(...)$ crescente$ importância$ das$ regiões$ como$ produtores$ e$ mercados$ para$ os$
seus$ próprios$ média,$ faculta$ apoio$ a$ um$ modelo$ de$ rede$ de$ globalização$ cultural”$
(Crane,$2002:$ 7).$ Nesta$ medida,$ atualmente$estamos$ perante$ a$ presença$ simultânea$
de$processos$de$globalização$e$localização,$que$operam$através$de$uma$rede$de$fluxos$
permanente.$Por$isso,$não$podemos$falar$de$homogeneidade$cultural$quando$falamos$
de$ música$ de$ popular$ (Huq,$ 2003$ e$ 2006)$ -$ de$ B$-J,$ por$ exemplo$ -$ porque$ se$
caracterizam$ pela$ expressão$ de$ uma$ estética$ global$ (Regev,$ 1992,$ 1994,$ 2013).$
Contudo,$esta$estética$já$não$se$baseia,$somente,$no$estilo$e$no$consumo,$mas$numa$
incorporação$ total$ desta$ cultura$ musical$ (Driver,$ 2011),$ como$ já$ foi$ referido$
anteriormente$no$trabalho$de$Sarah$Thornton$(1996).$
No$ entanto,$ é$ importante$ realçar$ que$ também$ estas$ novas$ abordagens$ pós-
subculturais$ estão$ sujeitas$ a$ algumas$ críticas$ (Feixa,$ 1999,$ 2014),$ nomeadamente$
relacionadas$ com$ a$ escassa$ importância$ atribuída$ à$ política$ no$ seio$ das$ pós-
subculturas$juvenis$(Muggleton$&$Weinzierl,$2003).$Também$a$estrutura$social,$outrora$
objeto$central$de$análise$dos$estudos$desenvolvidos$no$CSSS,$tende$a$ser$desvalorizada$
a$ favor$ da$ individualidade$ de$ escolhas$ dos$ indivíduos.$ E$ a$ este$ propósito,$ diversos$
autores$argumentam$que$não$podemos$ignorar$os$efeitos$da$estrutura$social$através$
das$escolhas$individuais$no$“supermercado$de$estilos”$(Polhemus,$1997),$uma$vez$que$
o$ contexto$ social$ dos$ indivíduos$ influencia$ as$ suas$ escolhas$ e$ os$ seus$ graus$ de$
participação$nas$subculturas$(Hesmondhalgh,$2005;$O’Connor,$2004;$Blackman,$2005;$
Roberts,$2015).$Ainda$no$seio$deste$debate$científico$em$torno$da$noção$de$subcultura,$
temos$vindo$a$observar$que$nos$últimos$anos$a$intensificação$de$abordagens$se$tem$
centrado$ entre$ duas$ ideologias$ distintas,$ que$ opõe$ as$ subculturas$ como$ blocos$
transitórios$ e$ fluídos$ /*B&)&$fenómenos$ homogéneos$ e$ estáveis$ (Johansson$ *#" '+,$
2017).$É$neste$contexto,$que$Hodkinson$(2002,$2003,$2015)$argumenta$que$apesar$de$
o$conceito$de$subcultura$continuar$a$ser$adequado,$devemos$ter$em$consideração$que$
existem$grupos$efémeros$e$grupos$que$apresentam$uma$maior$continuidade.$O$autor$
refere,$ainda,$que$apenas$devemos$fazer$uso$deste$conceito,$quando$na$análise$de$um$
determinado$ grupo$ juvenil,$ for$ possível$ aplicar$ os$ critérios$ de$ identidade,$
$
128$
compromisso,$ caráter$ distinto$ consistente$ e$ autonomia$ (Hodkinson,$ 2002).$ Isto,$
significa$ que$ a$ aplicação$ do$ critério$ de$ identidade$ está$ associada$ ao$ sentimento$ de$
filiação$ dos$ indivíduos$ em$ relação$ ao$ grupo;$ o$ critério$ de$ compromisso$ envolve$
permeabilização$da$participação$subcultural$à$vida$quotidiana$dos$seus$participantes;$o$
caráter$ distinto$ consistente$ prende-se$ com$ os$ valores,$ significados$ e$ práticas$
específicas$ de$ um$ grupo;$ e,$ finalmente,$ no$ critério$ de$ autonomia$ analisa-se$ o$ papel$
dos$ média$ e$ das$ forças$ económicas$ na$ construção$ e/ou$ manutenção$ dos$ grupos$
subculturais$ (Hodkinson,$ 2002).$ Caso$ não$ seja$ possível$ aplicar$ estes$ critérios,$ o$
aconselhado$ passa$ por$ recorrer,$ então,$ a$ outros$ conceitos$ como$ o$ de$ neotribo$
(Bennett,$2001),$cena$(Straw,$1991),$entre$outros.$
Andy$ Bennett$ (2001)$ sugere$ a$ designação$ de$ neotribos,$ “(...)$ enquanto$ um$
processo$ temporal$ errante$ em$ que$ os$ indivíduos$ com$ ideias$ semelhantes$ se$
encontram”$ (Bennett,$ 2011:$ 314).$ As$ neotribos$ surgem,$ assim,$ como$ possibilidades$
mais$ permanentes$ e$ menos$ rígidas,$ nas$ quais$ os$ indivíduos$ procuram$ e$ partilham$
semelhanças$ comuns$ (Bennett,$ 2011).$ Neste$ âmbito,$ também$ os$ gostos$ musicais$
podem$assumir$ uma$grande$ variedade$num$ mesmo$indivíduo.$ Gostos$esses$ que$não$
são$permanentes,$mas$sim$fugazes$e$transitórios,$pelo$que$a$sua$configuração$grupal$é$
mais$ fluída$ (Redhead,$ 1997;$ Thornton,$ 1996).$ Ao$ reformular$ o$ conceito$ de$ tribo$ de$
Maffesoli$ (1988),$ a$ contribuição$ de$ Andy$ Bennett$ assenta$ na$ ideia$ das$ apropriações$
locais$de$géneros$musicais$globais.$O$translocalismo$compreende,$assim,$as$“(...)$cenas$
locais$ amplamente$ dispersas$ atraídas$ para$ a$ comunicação$ regular$ em$ torno$ de$ um$
estilo$de$vida$distinto”$(Bennett$&$Kahn-Harris,$2004:$6).$Assim,$perante$este$cenário$
de$difusão$de$barreiras$e$multiculturalismo,$a$pertença$ou$participação$grupal$é$uma$
questão$ de$ escolha,$ mais$ do$ que$ resultado$ de$ posições$ sociais$ estruturalmente$
determinadas$ (Haenfler,$ 2014;$ Carvalho,$ 2007);$ embora$ estas$ não$ possam$ ser$
ignoradas,$ como$ anteriormente$ referimos,$ assim$ como$ também$ não$ devem$ ser$
ignoradas$ as$ desigualdades$ no$ acesso$ ao$ consumo$ por$ parte$ dos$ jovens.$ Por$ esta$
razão,$são$vários$os$autores$(Hermondhalgh,$2005;$McArthur,$2009;$Nayak,$2006)$que$
criticam$ o$ conceito$ de$ estilo$ de$ vida,$ “primeiro,$ como$ uma$ mera$ celebração$ do$
consumo,$ e,$ segundo,$ como$ uma$ visão$ acrítica$ da$ cultura$ de$ consumo$ atual,$ pois$
$
129$
assume$ os$ indivíduos$ enquanto$ consumidores$ esclarecidos,$ que$ elaboram$ as$ suas$
escolhas$segundo$uma$identidade$autoconstruída”$(Guerra$&$Quintela,$2018:$25).$De$
facto,$ os$ neotribalismos$ correspondem$ às$ possibilidades$ contemporâneas$ de$
sensibilidades$do$consumo$musical$simultâneas$e$às$possibilidades$para$a$construção$
das$identidades$que$daí$emergem$(Bennett,$2004).$
Também$Will$ Straw$ (1991),$ entre$outros$ autores,$ reflete$ sobre$ o$ conceito$ de$
cena,$ “(...)$ para$ expressar$ a$ existência$ de$ práticas$ expressivas$ e$ rituais$ em$ torno$ da$
música”$ (Guerra,$ 2010).$ Deste$ modo,$ as$ cenas$ constituem$ espaços$ geográficos$
específicos$dedicados$a$práticas$de$construção$de$significado$através$dos$prazeres$do$
consumo$ social$ (Silver$ *#" '+,$ 2010),$ que$ transcendem$ o$ seu$ espaço$ local.$ Na$ sua$
abordagem,$ Straw$ (1991)$ analisa$ a$ interação$ da$ música$ com$ o$ gosto$ e$ a$ identidade$
individual,$explorando$ a$ noção$de$ translocalismo,$ o$que$ evidencia$ a$dificuldade$ pós-
moderna$ de$ conseguir$ identificar$ grupos$ particulares$ como$ os$ '#B'%0-0$1'0&$e$
ultrapassados$ 7$%&$ou$ 3$-J*B&.$ Esta$ nova$ abordagem$ permitiu$ revelar,$ por$
conseguinte,$ que$ apesar$ da$ distância$ física,$ as$ redes$ locais$ de$ relações$ sociais$
permanecem,$assim$como$ a$construção$e$ manutenção$da$cena$ musical$local$ (Shank,$
1994).$Segundo$Straw$(1991),$as$cenas$musicais$transcendem,$então,$o$local$através$de$
permeabilização$de$barreiras$elásticas$ou$invisíveis,$permitindo$“refletir$e$atualizar$um$
estado$particular$de$relações$entre$várias$populações$e$grupos$sociais,$à$medida$que$
se$fundem$em$torno$de$localizações$particulares$de$estilo$musical”$(Straw,$1991:$379).$
As$cenas$vão,$assim,$ao$encontro$da$fluidez$das$sociedades$contemporâneas$e$apesar$
de$ serem$ frequentemente$ percecionadas$ como$ efervescentes,$ elas$ também$ criam$
espaço$ para$ a$ fixação$ de$ práticas$ e$ de$ afinidades$ (Straw,$ 2006;$ Kahn-Harris,$ 2004).$
Portanto,$“(…)$nas$cenas,$os$gostos$ou$afinidades$organizam-se$na$forma$de$itinerários$
ao$longo$ de$ vários$ espaços”$ (Straw,$ 2006:$ 12).$A$ fragmentação$ da$ atividade$ musical$
local$ resulta,$ desta$ forma,$ na$ ampliação$ desses$ itinerários$ para$ que$ todos$ os$
interessados$possam$participar$de$igual$forma$nas$mesmas$cenas.$No$fundo,$a$cena$
e222g" E" )." *&K'C$" -)+#)B'+" *." ()*" )." -$1i)1#$" %*" KBb#0-'&"
.)&0-'0&"-$*n0&#*.,"01#*B'L*.").'&"-$."'&"$)#B'&"%*1#B$"%*"
).'"/'B0*%'%*"%*"KB$-*&&$&"%*"%0W*B*1-0'CD$"*"%*"'-$B%$"-$."
%0W*B*1-0'%'&" #B'i*#XB0'&" %*" .)%'1C'" *" W*-)1%'CD$" -B)Z'%'2"
$
130$
:*1#B$"%*" ).'" -*1'".)&0-'+,"$".*&.$"$Ii*-#0/$"E"'B#0-)+'%$"
%*1#B$" %*&&'&" W$B.'&" %*" -$.)10-'CD$" '#B'/E&" %'&" ()'0&" '"
-$1&#B)CD$" %*" '+0'1C'&".)&0-'0&" *" $" %*&*1U$" %*" WB$1#*0B'&"
.)&0-'0&"#*."+)L'B$(Straw,$1991:$6).$
Nos$ estudos$ pós-subculturais$ contemporâneos,$ fatores$ como$ o$ género$ e$ a$
sexualidade$ têm$ vindo,$ de$ igual$ modo,$ a$ ganhar$ força$(nomeadamente$ com$ autores$
como$ Angela$ McRobbie$ (1978,$ 1993),$ assim$ como$ o$ papel$ dos$ média$ digitais$ e$ da$
01#*B1*#$se$tornaram$num$desafio$crescente$na$análise$das$práticas$culturais$e$de$lazer$
juvenis$(Peterson$&$Bennett,$2004).$Face$a$estes$novos$desafios,$hoje$devemos$ter$em$
consideração$na$análise$não$só$as$articulações$entre$o$local$e/ou$regional$e$o$global,$
mas$também$a$relação$com$o$virtual.$Por$isso,$na$era$atual,$é$de$extrema$relevância$
compreender$a$sociabilidade$online,$particularmente$expressa$através$da$participação$
em$ grupos$ de$ discussão,$ da$ colaboração$ em$ *FZ01*&,$ da$ promoção$ de$ páginas$ de$
bandas$ e$ eventos$ ou,$ ainda,$ da$ participação$ política$ e$ cívica$ em$ novos$ movimentos$
sociais$(Guerra,$2020).$Sabemos$que$a$relação$entre$os$média$e$as$subculturas$já$há$
muito$que$tem$vindo$a$ser$alvo$de$atenção$e$análise$sociológica$-$basta$olharmos$para$
os$trabalhos$desenvolvidos$por$Cohen$(1972),$Hebdige$(1979)$ou,$mais$recentemente,$
Thornton$ (1996)$ –$ porém,$ um$ novo$ protagonista$ na$ arena$ mediática$ tem$ vindo$ a$
afirmar-se$ crescentemente$ neste$ contexto$ de$ fluidez$ cultural$ contemporânea:$ a$
<1#*B1*#$ (Guerra,$ 2020).$ A$ <1#*B1*#$ permite$ não$ só$ a$ criação$ de$ novas$ sensibilidades$
sociais$ e$ culturais$ (Turkle,$ 1995),$ como$ nos$ dá$ a$ possibilidade$ de$ ter$ múltiplas$
identidades$ $1+01*,$ através$ de$ portefólios$ de$ sociabilidade$ (Castells,$ 2001),$ que$
desafiam$a$noção$convencional$de$comunidade.$
No$entanto,$também$algumas$críticas$têm$vindo$a$ser$tecidas$a$estes$trabalhos,$
como,$por$exemplo,$a$excessiva$ênfase$dada$à$música,$dança$ou$ao$estilo$em$algumas$
abordagens$ pós-subculturais$ (Shildrick$ &$ MacDonald,$ 2006),$ uma$ vez$ que$ “vários$
grupos$ desenvolvem$ estilos$ específicos$ em$ torno$ de$ outras$ coisas$ além$ da$ música”$
(Guerra$&$Quintela,$2018:$27).$Ou$a$exagerada$crença$nas$experiências$virtuais$e$nas$
supostas$ múltiplas$ identidades$ que$ elas$ proporcionam$ (Williams,$ 2006),$ porque$ a$
<1#*B1*#,$apesar$de$permitir$o$aumento$da$fluidez$cultural,$também$pode$amplificar$as$
barreiras$que$dividem$as$subculturas$dos$restantes$membros$da$sociedade$(Hodkinson,$
$
131$
2003,$ 2005).$ No$ seu$ estudo$ sobre$ a$ cultura$ gótica$ no$ Reino$ Unido,$ Paul$ Hodkinson$
(2003)$concluiu$que$a$<1#*B1*#$acaba$por$reforçar$as$crenças$e$os$interesses$individuais$
pré-existentes,$na$medida$em$que$os$membros$desta$subcultura$tendem$a$procurar$e$
visitar,$ somente,$ um$ pequeno$ número$ de$ páginas$ $1+01*.$ Nas$ palavras$ do$ autor,$ “o$
cenário$ é,$ então,$ de$ uma$ rede$ translocal$ complexa$ de$ conexões$ “concretas”$ que$
permitiram$construir$e$apoiar$a$força$da$identidade$subjetiva$e$os$gostos$consistentes$
e$distintos$em$torno$dos$quais$girava$a$cena$gótica$britânica”$(Hodkinson,$2004:$146).$
Outro$ponto$de$vista$é$analisado$por$Williams$(2006),$que$a$partir$da$sua$investigação$
centrada$ na$ cultura$ &#B'0LU#*%L*,$ afirma$ que$ a$ <1#*B1*#$ permitiu$ uma$ difusão$ e$
identificação$ global$ desta$ subcultura,$ mas$ que$ a$ transposição$ dessa$ filiação$ para$ o$
$WW+01*" nem$ sempre$ sucede.$ Ou$ seja,$ apesar$ de$ contribuir$ para$ um$ aumento$ da$
identificação$ com$ a$ subcultura,$ os$ membros$ destas$ comunidades$ virtuais$ “(...)$ não$
sentem$a$necessidade$de$se$autoidentificarem$como$membros$subculturais”$(Williams$
&$Copes,$2005:$86)$no$mundo$$WW+01*.$Também$Paula$Guerra$(2020),$nos$trabalhos$que$
tem$vindo$a$conduzir$acerca$da$cultura$K)1J$em$Portugal,$salientou$a$importância$do$
$1+01*,$ nomeadamente$ através$ do$ uso$ das$ redes$ sociais,$ que$ proporcionam$ um$
“contacto$imediato$com$outras$realidades,$a$possibilidade$de$partilha$de$informação,$
sons,$ ideias$ e$ desafios”$ (Guerra,$ 2020:$ 218).$ Apesar$ desta$ realidade$ nacional$
corresponder$a$ um$ fenómeno$ local,$ integra$ uma$ comunidade$ K)1J$ global$ que$ se$ vê$
reforçada$pelas$possibilidades$da$<1#*B1*#,$mesmo$que$esta$pertença$subcultural$não$
apresente$ uma$ direta$ repercussão$ no$ $WW+01*.$ Ainda$ sobre$ os$ desafios$ e$
potencialidades$ do$ $1+01*,$ é$ de$ notar$ que$ a$ <1#*B1*#$ permitiu$ desmistificar$ mitos$ e$
difundir$ ideologias$ a$ estilos$ subculturais$ (Guerra,$ 2020),$ resultando,$ na$ maioria$ das$
vezes,$ numa$ intensificação$ das$ identidades$ subculturais$ e$ dos$ sentimentos$ de$
resistência$ individuais$ e$ coletivos$ (Kahn$ &$ Kellner,$ 2003),$ mesmo$ que$ não$ sejam$
expressos$nos$quotidianos$$WW+01*.$
$Apesar$ deste$ campo$ de$ trabalhos$ ainda$ não$ constituir$ uma$ escola$ de$
pensamento$ totalmente$ coerente,$ ele$ continua$ a$ crescer$ permanentemente$ e$ tem$
permitido$ renovar$ o$ interesse$ não$ apenas$ em$ estudar$ a$ juventude$ contemporânea,$
$
132$
mas$toda$as$práticas$culturais$e$musicais$dos$indivíduos$ao$longo$da$vida$(sejam$elas$
$WW$ou$$1+01*).$
$ $
$
133$
3.#Um#epítome#que#fez#história:#Sexo,#drogas#e!rock’n’roll%
$
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:*K$0&"%*".'0&")."&U$$#"1'&"B*#B*#*&"
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Rui$Veloso/Carlos$Tê$(1980)$–$5U0-$"Y0101U$."
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$
Já$referimos$anteriormente$que$ao$longo$das$décadas$se$verificou$uma$tendência$para$
as$subculturas$juvenis$serem$associadas$a$comportamentos$de$desvio,$nomeadamente$
a$ comportamentos$ relacionados$ com$ o$ consumo$ excessivo$ de$ álcool,$ tabaco$ e$
substâncias$ilícitas,$como$prática$referencial$dos$diferentes$grupos$subculturais$ligados$
ao$B$-J$(Brake,$1985;$Savage,$2002).$Por$outras$palavras,$“desde$os$seus$inícios$que$a$
cultura$ B$-J" está$ associada$ a$ excessos$ (celebrados$ pelo$ aforismo,$ sexo,& drogas& e&
rock%&n%&roll)”$ (Guerra,$ 2010:$ 115),$ a$ partir$ da$ sua$ consolidação$ no$ panorama$ social$
anglo-saxónico$ (Guerra$ *#" '+,$ 2016).$ Efetivamente,$ para$ uma$ grande$ parte$ da$
juventude$ a$ partir$ deste$ período,$ o$ B$-J$ foi$ a$ expressão$ que$ mais$ intimamente$ se$
associou$ às$ suas$ primeiras$ experiências$ psicotrópicas$ e$ sexuais,$ atuando,$
nomeadamente,$ como$ banda-sonora.$ Portanto,$ entender$ a$ relação$ do$ B$-J$com$ o$
psicadelismo$ e$ a$ sexualidade$ não$ se$ trata$ apenas$ de$ um$ exercício$ académico,$ mas$
antes$ de$ uma$ parte$ necessária$ para$ compreender$ como$ as$ práticas$ de$ consumo$
psicotrópico$e$as$atitudes$sexuais$são$apreendidas$e$representadas$pelos$jovens$(Frith$
&$McRobbie,$1978).$Esta$premissa$foi$e$continua$a$ser$objeto$de$estudo$de$diferentes$
investigadores,$nomeadamente$de$Hebdige$(2004),$que$argumentou$que$
'&"K*BW$B.'1-*&"%*"B$-J"#M."/01%$"'"&*B"'&&$-0'%'&,"1$"&*0$"%$"
0.'L01bB0$"K$K)+'B,"'"#$%'").'"&EB0*"%*"%0&#fBI0$&"*"%*&$B%*1&,"
%*&%*"-'%*0B'&"%*"-01*.'"%*&#B)c%'&"K*+'".D$"%*"^*%%l"p$ys,$
passando' pela' Beatlemania,' a0' a' eventos' e' festivais' hippies,'
1$&"()'0&"'"+0I*B%'%*"&*"*nKB*&&'/'"-$.".*1$&"'LB*&&0/0%'%*,"
$
134$
'#B'/E&" %$" 1)%0&.$," %'&" %B$L'&" *" %'" *&K$1#'1*0%'%*"
L*1*B'+0Z'%'"(Hebdige,$2004:$216).$
Ao$ focarmos$ a$ nossa$ atenção$ na$ análise$ das$ culturas$ juvenis$ no$ espaço$
contemporâneo,$$a$ênfase$recai,$necessariamente,$nas$atividades$quotidianas$em$que$
os$ jovens$ se$ envolvem.$ É$ a$ partir$ da$ observação$ e$ da$ análise$ dessas$ atividades,$ que$
vários$autores$têm$vindo$a$concluir$que$os$jovens$tendem$a$desenvolver$e$a$envolver-
se$ em$ diversos$ comportamentos$ de$ risco$ (Vuolo$ &$ Uggen,$ 2005;$ Vuolo$ *#" '+,$ 2013;$
Primack$*#"'+,$2008;$Mulder$*#"'+,$2009;$Mulder$*#"'+,$2010;$Guerra,$*#"'+,$2016).$A$esta$
luz,$autores$ como$ Arnett$ (1991)$afirmam$ mesmo$ que$ determinados$ tipos$de$ música$
têm$ diferentes$ efeitos$ na$ juventude,$ nomeadamente$ no$ que$ toca$ ao$ consumo$ de$
drogas.$De$igual$modo,$algumas$evidências$etnográficas$e$históricas$também$suportam$
esta$ relação$ entre$ as$ preferências$ por$ determinadas$ substâncias$ e$ as$ preferências$
musicais$(Vuolo$&$Uggen,$2005).$Um$estudo$igualmente$relevante$nesta$matéria$é$o$de$
Shapiro$ (2003),$ que$ descreve$ como$ o$ desenvolvimento$ da$ própria$ música$ popular$
trouxe$consigo$novas$tendências$no$consumo$de$drogas.$Por$outras$palavras,$hoje,$os$
indivíduos$parecem$estar$mais$predispostos$a$apreciar$determinado$tipo$de$música$e$a$
identificar-se$ com$ certos$ géneros$ musicais,$ a$ partir$ dos$ seus$ próprios$ hábitos$ de$
consumo$de$substâncias.$Uma$vez$ocorrido$o$momento$dessa$identificação$com$uma$
ou$mais$microculturas$musicais,$os$indivíduos$tendem,$assim,$a$interiorizar$e$partilhar$
os$valores$e$atividades$associados$a$ela.$E,$por$conseguinte,$esses$valores$ou$atividades$
podem$incluir$ definições$ positivas$ou$ negativas$ sobre$o$ uso$ de$droga,$ resultando$ na$
iniciação$ e/ou$ cessação$ ou$ mesmo$ no$ aumento$ ou$ diminuição$ dos$ seus$ consumos$
(Becker,$1963).$
No$ seio$ da$ música$ popular,$ verifica-se,$ também,$ uma$ tendência$ para$ a$
incorporação$de$temas$ou$situações$relacionadas$com$consumos$de$substâncias$lícitas$
e$ilícitas$(Christenson,$*#"'+,$2012)$e$com$as$práticas$sexuais$(Pardun$*#"'+,$2005).$Neste$
sentido,$partindo$do$argumento$de$que$os$jovens$são$fortes$consumidores$de$K$K)+'B"
.)&0-"(Christenson$&$Roberts,$1998;$Roberts,$*#"'+,$2009)$e$dada$a$crescente$evidência$
de$ que$ a$ exposição$ à$ música$ popular$ pode$ influenciar$ as$ atitudes$ e$ os$
comportamentos$ da$ juventude$ (Roberts$ &$ Christenson,$ 2011),$ são$ vários$ os$ autores$
$
135$
que$ têm$ desenvolvido$ investigações$ com$ o$ objetivo$ de$ analisar$ a$ natureza$ e$ a$
frequência$de$consumos$e$práticas,$bem$como$as$suas$expressões$musicais$na$música$
popular$ contemporânea.$ Neste$ contexto,$ Mulder$ et.al."(20010)$ concluíram$ que$ a$
relação$entre$o$gosto$musical$e$o$uso$de$substâncias$é$mediada$pelo$uso$percebido$dos$
pares.$Ou$seja,$a$música$pode$modelar$o$uso$de$substâncias$e$os$fãs$de$diferentes$tipos$
de$ música$ podem$ selecionar$ amigos,$ cujos$ padrões$ de$ consumo$ reforçam$ as$ suas$
próprias$ inclinações$ de$ uso.$ Desta$ escolha$ musical$ e$ do$ uso$ de$ substâncias$ pode$
resultar,$ então,$ a$ seleção$ de$ determinados$ amigos$ e$ uma$ possível$ iniciação$ ou$
manutenção$do$consumo$de$tabaco$ou$álcool$dentro$do$grupo$(Mulder$*#"'+,$2009).$É$
neste$âmbito,$que$Vuolo"et$'+.$(2013)$argumentam$que$os$jovens$constroem$as$suas$
identidades$ à$ volta$ da(s)$ microculturas$ musicais,$ na$ medida$ em$ que$ partindo$ das$
normas$ e$ valores$ partilhados$ por$ essas$ redes,$ as$ culturas$ juvenis$ plurais$ definem$ a$
aceitação$ das$ práticas$ do$ grupo$ como$ normais$ e$ agradáveis$ ou$ como$ desviantes$ e$
desagradáveis.$$
De$ acordo$ com$ Hall$ *#" '+$ (2013),$ as$ referências$ musicais$ ao$ uso$ de$ álcool,$
tabaco$e$outras$drogas$têm$vindo$a$aumentar$na$K$K)+'B".)&0-$e$uma$justificação$para$
este$ aumento$ prende-se$ com$ o$ crescimento$ da$ popularidade$ de$ certos$ géneros$
musicais.$ Mulder$ *#" '+2" (20010)$ concluem,$ nesta$ medida,$ que$ nas$ preferências$ dos$
jovens$ por$ música$ “pesada”$ em$ particular,$ se$ tem$ verificado$ uma$ tendência$ para$ o$
consumo$de$substâncias$psicotrópicas.$Ainda,$segundo$Vuolo$e$Uggen$(2005),$quanto$
maior$ for$ a$ escuta$ de$ música$ B$-J,$ maior$ parece$ ser$ a$ tendência$ para$ o$ uso$ destas$
substâncias,$ resultando$ num$ aumento$ do$ número$ de$ detenções$ relacionadas$ com$ a$
droga$(McNamara$&$Ballard,$1999;$Singer$*#"'+2,$1993).$Dos$fãs$aos$músicos,$Miller$e$
Quigley$ (2011)$ determinaram$ que$ o$ uso$ de$ substâncias$ lícitas$ e$ ilícitas$ está$
positivamente$ associado$ aos$ géneros$ rebeldes/intensos$ como$ é$ o$ caso$ do$ B$-J.$
Igualmente$ central$ na$ abordagem$ sobre$ os$ comportamentos$ de$ risco$ encontra-se$ a$
atividade$ sexual.$ Autores$ como$ Christenson$ e$ Roberts$ (1998)$ alegam$ que,$ desde$ a$
década$de$sessenta$até$ao$presente,$o$sexo$tem$vindo$a$penetrar$de$forma$crescente$a$
K$K)+'B".)&0-,$ uma$ vez$que$ este$ tipo$ de$música$ é$ particularmente$ comum$entre$ os$
jovens,$que$à$partida$se$encontram$mais$atraídos$pela$intensidade$sexual$da$música$e$
$
136$
das$ letras$ (Arnett,$ 2002).$ Kalof$ (1993)$ refere,$ também,$ que$ as$ imagens$ sexuais$ de$
muitas$canções$são$deveras$intensas$e$a$atividade$sexual$tem$vindo$a$ser$identificada$
como$ a$ motivação/associação$ mais$ frequente$ relativamente$ às$ referências$ ao$
consumo$ de$ álcool,$ tabaco$ e$ outras$ drogas$ na$ música$ popular$ (Hall$ *#" '+,$ 2013).$
Portanto,$“um$aspecto$do$B$-J"que$sempre$foi$dado$como$certo$pelos$seus$prosélitos$e$
detratores$é$que$se$trata$de$uma$forma$de$música$que$de$algum$modo$significa$sexo”$
(Frith$ &$ Goodwin,$ 1990:$ 315).$ O" B$-J$ incorpora,$ deste$ modo,$ os$ problemas$ da$
puberdade,$ apoia$ e$ articula$ as$ tensões$ psicológicas$ e$ físicas$ da$ adolescência,$ assim$
como$acompanha$o$momento$em$que$os$adolescentes$apreendem$o$seu$repertório$de$
comportamento$sexual$público$(Frith$&$McRobbie,$1978).$De$facto,$existe$uma$relação$
direta$entre$o$corpo$e$uma$batida$de$4:$4$e$o$ritmo$do$B$-J"'1%"B$++$é$a$norma$desta$
expressão$sexual$(Frith$&$Goodwin,$1990).$Neste$sentido,$Cohen$(2001)$sugere$que$os$
artistas$ de$ B$-J$ constroem$ roteiros$ de$ consumo$ e$ práticas$ sexuais,$ e$ transmitem$
padrões$ de$ expectativas$ para$ o$ comportamento$ sexual$ e$ psicotrópico$ de$ homens$ e$
mulheres.$Assim,$as$B$-J"&#'B&$acabam$por$assumir$um$papel$de$protagonistas$através$
dos$ seus$ comportamentos$ e$ das$ suas$ performances,$ nomeadamente$ da$ dança$ e$ do$
movimento$adotados.$Neste$aspeto,$Elvis$Presley$desempenhou) um)papel)crucial,)na)
medida&em&que&encarnava&um&“encantamento&pelo&sexo&que&é,&por&vezes&simples,&por&
vezes$ complexo,$ mas$ sempre$ aberto”$ (Marcus,$ 2000:$ 194).$ Deste$ modo,$ a$ natureza$
física$da$sua$performance$era$o$ principal$alvo$de$indignação$moral$ e$ acabou,$muitas$
vezes,$ por$ ser$ descrita$ e$ apelidada$ de$ burlesca$ (Martin,$ 1995).$ Estes$ tipos$ de$
coreografias$utilizadas$trazem$para$o$centro$da$cena$musical$K$KFB$-J"movimentos$que$
incitam$a$prática$do$sexo$livre,$independente$e$a$busca$do$prazer$pela$mulher$e$pelo$
homem$de$formas$não$convencionais$(Carvalho,$2016).$Portanto,$
%$"1$&&$"K$1#$"%*"/0&#',"E"0.K$&&c/*+"0L1$B'B"'"-$BB*+'CD$"*1#B*"
.f&0-'" *" &*n$" K$B()*," &*1%$" #D$" 01-B0/*+.*1#*" Bc#.0-'," '"
.f&0-'"#*.").'"+0L'CD$"KB$W)1%'"-$."$"&*n$,"-$."$"B0#.$"%$"
&*n$,"-$."$"B0#.$"%$"-$B'CD$"'"I'#*B"*"-$."$&".$/0.*1#$&"%'"
B*+'CD$"&*n)'+,"()*"E"$"()*"&*"&*1#*"()'1%$"&*"$)/*2"^*1#b.$&"
W'Z*B" -$." ()*" '" 1$&&'" .f&0-'" KB$/$()*" ).'" B*'CD$" 1'&"
K*&&$'&"(Flea$cit.$por$Blanning,$2011:$331)."
$
$
137$
A$este$propósito,$é$de$realçar$que$a$música$popular$contém$mais$referências$à$
atividade$ sexual$ do$ que$ qualquer$ outra$ expressão$ artística$ (Pardun$ *#" '+,$ 2005).$ E,$
embora$ a$ música$ seja$ um$ meio$ de$ consumo$ privilegiadamente$ auditivo,$ as$ suas$
expressões$sexuais$ com$o$ acréscimo$ de$um$ elemento$visual$ conferem-lhe$ um$ poder$
adicional$(Shapero,$2015).$A$este$propósito,$os$videoclipes$parecem$assumir$aqui$um$
papel$ de$ destaque$ na$ divulgação$ de$ uma$ imagem$ do$ sexo$ livre$ no$ seio$ da$ música$
popular$ (Guerra,$ 2018)$ e$ o$ mesmo$ acontece$ com$ as$ letras$ das$ músicas$ B$-J.$ Um$
estudo$acerca$das$letras$das$canções$mais$ouvidas$pelos$adolescentes$e$das$situações$
nelas$ descritas,$ mostra$ a$ recorrência$ a$ certos$ padrões$ estabelecidos,$ e$ todos$ eles$
lidam$ com$ amor$ romântico$ e$ sentimento$ sexual$ (Hall$ &$ Whannel,$ 1964).$ No$ fundo,$
eles$ refletem$ as$ dificuldades$ dos$ adolescentes$ em$ lidar$ com$ um$ emaranhado$ de$
problemas$ emocionais$ e$ sexuais.$ Nos$ conteúdos$ líricos$ que$ os$ adultos$ interpretam$
como$ sendo$ associados$ à$ violência,$ ao$ sexo,$ às$ drogas$ e$ a$ Satanás,$ os$ adolescentes$
encontram$ referências$ a$ amor,$ a$ política,$ a$ amizades$ e$ a$ interpretações$ subjetivas$
sexuais$inofensivas$(Greenfield$*#"'+$cit.$por"Took$&$Weiss,$1994).$Mesmo$quando$as$
letras$de$B$-J$seguem$as$regras$do$romance,$os$seus$elementos$musicais,$(tais$como$os$
sons$e$os$ritmos),$assentam$em$outras$convenções$de$representação$sexual,$porque$o$
B$-J"é$ altamente$carregado$ de$ emoções$ sexuais,$ mesmo$quando$ a$ sua$preocupação$
direta$o$não$é$(Frith$&$McRobbie,$1978).$Para$Middleton$(1990)$e$McSwain$(1995),$o$
próprio$som$da$guitarra$elétrica$transmite$paixão,$sedução$e$sexualidade.$Deste$modo,"
"
e222g"$&"-'1#$B*&"&D$".)0#'&"/*Z*&"*n-+)c%$&"%'"-$.)10%'%*"*."
/0B#)%*"%$"&*)" *&#0+$"%*" /0%'," .'&" K*B.'1*-*." +0L'%$&" '"*+',"
).'"/*Z"()*"&*"-$1&#0#)*."*1()'1#$"&c.I$+$&"%'&"*&K*B'1C'&"
.'0&" &*-B*#'&" %'"-$.)10%'%*," %'&" &)'&" W'1#'&0'&," %$&" &*)&"
.*%$&"*"B*KB*&*1#'."$&"*n#B*.$&"$)"*n-*&&$&"%*"*.$CD$,"%*"
B0&-$,"%*"KB'Z*B,"%*"&*n$"*"%*"/0$+M1-0'"()*"'"-$.)10%'%*"()*B"
-$1#B$+'B"(Guerra,$2015a:$157).$
$
É$ inegável$ que,$ desde$ cedo,$ a$ música$ se$ tornou$ num$ aspeto$ de$ crescente$
importância$na$cultura$juvenil$(Mulder$*#"'+2,$2009)$e$que$os$#**1'L*B&$assumem$uma$
posição$de$relevo$no$estudo$ destes$comportamentos$e$processos$de$estigmatização.$
Podemos,$ então,$ assumir$ que$ a$ música$ acaba$ por$ refletir$ os$ principais$ eventos$ que$
$
138$
dizem$ respeito$ às$ vivências$ juvenis,$ nomeadamente$ relacionados$ com$ práticas$ e$
consumos$ (Vuolo$ *#" '+2,$ 2013;$ Calado,$ 2007),$ e$ no$ interior$ deste$ universo$ são$
incontáveis$ as$ enumerações$ a$ tipo$ de$ temáticas$ nas$ letras$ e$ vídeos$ de$ artistas$ ou$
bandas,$como$já$referimos,$nomeadamente$em:"(\)-l"01"#U*">Jl"m0#U":0'.$1%&$–$^U*"
p*'#+*&;$pB$m1">)L'B$–$^U*"3$++01L">#$1*&;$9**%+*"!1%"^U*":'.'L*":$1*$–$Neil$Young;$
\0LU#".l"Y0B*$–$^U*":$$B&...)$(Martins,$2019).$Neste$sentido,$a$potencial$influência$da$
música$ e$ das$ K$K&#'B&!é" de" tal" ordem," que" os" próprios" músicos" parecem" ser" uma"
população,$ muitas$ vezes,$ estereotipicamente$ associada$ a$ uma$ ampla$ variedade$ de$
comportamentos$ de$ abuso$ de$ substâncias$ (Miller$ &$ Quigley,$ 2011)$ e$ de$ sexo$
arbitrário.$A$este$propósito,$Fernandes$(1990),$acredita$que$“o$cultivo$da$imagem$dos$
líderes$musicais$ou$das$bandas$B$-J$associa$precisamente$um$dado$carisma$visual$com$
uma$dada$atmosfera$musical”$(Fernandes,$1990:$200).$Recentemente,$Ian$Inglis$(2007)$
tem$vindo$a$desenvolver$uma$reflexão$acerca$dos$ícones$musicais$e$da$sua$relação$com$
o$consumo$excessivo$de$drogas.$Segundo$a$sua$linha$de$pensamento,$o$autor$associa$
esses$comportamentos$ao$fascínio$incessante$com$as$histórias$incríveis$de$excessos$do$
B$-J"'1%"B$++,$da$sua$vida$boémia$e$da$recusa$da$convenção$no$comportamento$e$na$
adoção$ da$ filosofia$ &*n" %B)L&" '1%" B$-J" '1%" B$++" (Inglis,$ 2007).$ Na$ realidade,$ somos$
obrigados$a$assumir$que$“estas$lendas$e$narrativas$são$cruciais$na$vivência$quotidiana$
de$fãs,$em$particular$jovens,$e$na$sua$busca$de$posicionamento)face)à)autenticidade)e)
liberdade$do$modo$de$vida$B$-J*Bj"(Martins,$2019:$315-316)2$Nesta$matéria,$não$deixa$
de$ ser$ importante$ fazer$ uma$ breve$ alusão$ ao$ &#B'0LU#" *%L*:$ movimento$ constituído$
por$jovens$K)1J,"que$adotaram$um$estilo$de$vida$antagónico,$livre$de$drogas,$álcool,$
tabaco$e$sexo$promíscuo$e$que,$frequentemente,$exibem$o$símbolo$‚"desenhado$ou$
até$tatuado$nas$suas$mãos$(Haenfler,$2006;$2015).$Visualmente,$“estes$jovens$usavam$
o$seu$cabelo$de$várias$cores,$vestiam$padrões$excêntricos,$distribuíam$panfletos$sobre$
vegetarianismo$ e$ direitos$ das$ mulheres$ e$ faziam$ compras$ no$ Salvation$ Army$ (...)”$
(Haenfler,$ 2006:$ 1),$ o$ que$ nos$ mostra$ um$ estilo$ de$ vida$ conservador,$ embora$
combinado$com$os$ideais$do$K)1J"progressivo,$mas$que$contrasta$fortemente$com$o$
clássico$epítome$aqui$em$debate:$&*n$,"%B$L'&"o"B$-J[1[B$++.$$
$
$
139$
!XM;M;M!G0-#+8(*167*7#!#!)#0#*1%)6*!
A$relação$entre$droga$e$música$não$é$nova,$antes$pelo$contrário,$remonta$aos$estilos$
de$vida$das$sociedades$tribais,$nas$quais$“(...)$os$ritos,$as$tradições$e$os$cantos$surgem$
nos$momentos$mais$significativos$ de$ lazer,$e$a$experiência$tóxica$ culmina$na$euforia$
coletiva,$na$festa”$(Barreto,$1982:$23).$Neste$sentido,$segundo$Barreto$(1982),$muitas$
celebrações$ religiosas$ cruciais$ nestas$ sociedades,$ tais$ como!os# ritos# funerários,#
matrimoniais) ou) de) iniciação,) uniam) a) música) e) a) droga,) especialmente) através) do)
consumo'de'substâncias'alucinogénias,'cujo'“(...)'consumo'é'ancestral,'e'transversal'a'
diversas$ culturas$ espalhadas$ pelo$ mundo$ inteiro,$ como$ forma$ de$ alterar$ estados$ de$
consciência$ e$ abrir$ caminho$ a$ novas$ percepções”$ (Calado,$ 2006:$ 14).$ Nesta$ matéria,$
Baudelaire$ (1966)$ foi$ um$ dos$ primeiros$ autores$ a$ debruçar-se$ sobre$ a$ análise$ de$
experiências$psicotrópicas$na$arte,$nomeadamente$no$seio$de$um$grupo$de$poetas$e$
escritores,$o$que$lhe$permitiu$aferir$que$“apesar$de$reconhecer$os$“prazeres$mórbidos”$
que$ a$ ingestão$ de$ drogas$ como$ o$ ópio$ e$ o$ haxixe$ podem$ produzir,$ especialmente$
depois$ de$ um$ uso$ prolongado”$ (Carvalho,$ 2002:$ 4),$ as$ substâncias$ psicotrópicas$
permitiam$ a$ descoberta$ de$ novas$ dimensões$ percetivas$ vivenciadas$ pelos$
consumidores$(Baudelaire,$1966).$No$fundo,$com$este$tipo$de$experiências,$Baudelaire$
(1966)$ procurava$ alcançar$ “paraísos$ artificiais”$ sensoriais$ através$ da$ alteração$
intencional$dos$ sentidos,$como$ forma$de$ fuga$ ao$quotidiano.$ Neste$âmbito,$ Martine$
Xiberras$ (1989)$ argumenta,$ que$ em$ oposição$ a$ esses$ “paraísos$ artificiais”$ (Xiberras,$
1989:$ 135-136)$ e$ à$ utopia$ da$ criatividade,$ este$ tipo$ de$ experiências$ psicotrópicas$
também$ poderia$ conduzir$ àquilo$ que$ ele$ designou$ por$ “pesadelo$ da$ morte”$ ou$
“infernos$artificiais”.$No$entanto,$Shiner$(2007)$concluiu,$que$é$muito$improvável$que$a$
humanidade$ consiga$ dispensar$ esta$ busca$ por$ “paraísos$ artificiais”$ (Xiberras,$ 1989:$
135-146),$uma$vez$que$“a$maioria$dos$homens$e$mulheres$leva$vidas$tão$dolorosas$na$
pior$das$ hipóteses$e$ tão$monótonas,$ pobres$e$ limitadas,$que$ o$desejo$ de$escapar,$ o$
desejo$ de$ transcender-se$ apenas$ por$ alguns$ momentos$ é$ e$ sempre$ foi$ um$ dos$
principais$apetites$da$alma”$(Shiner,$2007:$151).$
$
140$
Segundo$ Jung$ (1962),$ a$ experiência$ de$ consumo$ musical$ sob$ efeitos$
psicotrópicos$ aproxima-se$ da$ sensação$ de$ um$ sonho.$ Nas$ suas$ palavras,$ “o$ sonho$ é$
uma$ criação$ psíquica$ que,$ em$ contraste$ com$ os$ dados$ habituais$ de$ consciência,$ se$
situa$ pelo$ seu$ aspeto,$ pela$ sua$ natureza$ e$ pelo$ seu$ sentido,$ à$ margem$ do$
desenvolvimento$contínuo$dos$factos$conscientes”$(Jung,$1962:$287).$Contudo,$dentro$
dessa$ marginalidade,$ os$ sonhos$ podem$ envolver$ aspetos$ conscientes$ acerca$ do$
passado,$ presente$ ou$ futuro$ da$ vida$ quotidiana$ dos$ sujeitos.$ Desta$ forma,$ as$
representações$ psicadélicas$ com$ que$ os$ consumidores$ se$ deparam,$ constituem$
imagens$das$próprias$melodias$ expelidas$pelos$instrumentos$ musicais,$que$assumem$
uma$função$estética:$$
$
-$." $" \2>2:2" $" .)1%$" %$&" &$1&" *+*/'F&*" '" &0&#*.'&" -X&.0-$&"
1D$" 0%*1#0W0-b/*0&" *" 01X&K0#$&" e'" -$1()0&#'" *&K'-0'+" E"
&$IB*K)i'%'" K*+'" -$1()0&#'" %'" K*B-*KCD$" *n#B'&&*1&$B0'+g2" !&"
1$/'&" %0.*1&d*&" &D$" '" 1$/'" 'B#*2" 5'%'" *nK*B0.*1#'%$B"
K&0-'%E+0-$" E" )." 'B#0&#'," *" -'%'" &*B" U).'1$" K$%*" &*B" *&&*"
'B#0&#'A"*0&"'"#*$B0'"%'"'B#*"K&0-'%E+0-'"(Barreto,$1975:$28)."
$
Assim,$ torna-se$ relevante$ refletir$ acerca$ das$ circunstâncias$ que$ envolvem$ a$
experiência$ musical$ psicotrópica$ individual$ em$ si,$ isto$ é,$ quando$ o$ “eu”$ abandona$ o$
estado$consciente$e$se$entrega$às$sensações$que$daí$resultam.$Por$esta$razão,$Gomart$
e$ Hennion$ (1999)$ analisaram$ o$ modo$ como$ este$ tipo$ de$ consumidores$ se$ envolvem$
numa$ampla$variedade$de$práticas,$que$moldam$o$seu$caminho$para$a$experiência$de$
evasão.$ Neste$ processo,$ os$ ouvintes/consumidores$ não$ são$ simplesmente$ afetados$
pela$música,$mas$são$ativos$na$construção$da$sua$passividade,$na$medida$em$que$são$
capazes$ de$ produzir$ uma$ resposta$ emocional$ (Gomart$ &$ Hennion,$ 1999).$ Ou$ seja,$ o$
consumidor$
$
*&W$BC'F&*" #*1#'#0/'.*1#*" K$B" -).KB0B" '&" -$1%0Cd*&" ()*" $"
K*B.0#0BD$" &*B" -'K#)B'%$" *" #$.'%$" K$B" ).'" W$BC'"
K$#*1-0'+.*1#*" *nXL*1'2" V'&&0/0%'%*" 1D$" E" )." .$.*1#$" %*"
01'CD$"F"1D$"E").'"W'+#'"%*"/$1#'%*"%$")&)bB0$"()*"%*"B*K*1#*"
%*0n'"%*"&*B")."'&&)1#$"-$.K+*#$2"=."/*Z"%0&&$,"'"K'&&0/0%'%*"
').*1#'" '" 'CD$," K$#*1-0'+0Z'" '" 'CD$" (Gomart$ &$ Hennion,$
1999:$243).$
$
141$
$
Na$relação$entre$droga$e$música$é$de$realçar$que,$para$Covach$e$Flory$(2012),$
existem$dois$modos$distintos$de$abordagem:$a$primeira$recorre$à$música$como$meio$
de$aumentar$a$intensidade$da$#B0K,$mantendo$o$foco$na$“(...)$experiência$da#droga#em#
si#mesma#e#a#música#é#uma#banda-sonora,$que$pode$provocar$uma$resposta$com$sons$
novos$e$ não$ familiares,$ mas$não$ proporciona$ ela$ própria$ uma$ #B0K”$ (Covach$ &$ Flory,$
2012:$ 257).$ Neste$ cenário,$ Whiteley$ (1992)$ recomenda$ prudência,$ uma$ vez$ que$ “os$
efeitos'do'ácido'são'imprevisíveis'e'é'necessário'um'utilizador'experiente'para'assumir'
e$ conduzir$ um$ iniciante,$ através$ de$ algo$ que$ pode$ ser,$ muitas$ vezes,$ uma$ alteração$
perturbante$da$consciência”$(Whitelery,$1992:$66).$A$segunda$abordagem$compreende$
a$própria$música$como$uma$#B0K.$Ou$seja,$“neste$caso,$o$artista$deve$criar$música$que$
atue$como$uma$droga,$levando$o$ouvinte$numa$viagem$sonora,$que$pode$ou$não$ser$
completada$ com$ o$ uso$ de$ drogas”$ (Covach$ &$ Flory,$ 2012:$ 257).$ Dentro$ da$ história$
social$moderna,$a$primeira$referência$à$relação$entre$música$e$consumos$psicotrópicos$
sob$o$ponto$de$vista$recreativo$aconteceu$entre$o"i'ZZ$e$a$cocaína$na$década$de$vinte$
(Berridge,$ 1988).$ Posteriormente,$ após$ a$ Segunda$ Grande$ Guerra,$ o$ surgimento$ das$
subculturas$ já$ referidas$ nos$ capítulos$ anteriores$ estava$ também$ associado$ a$
determinados$ consumos$ psicotrópicos.$ A$ título$ de$ exemplo,$ podemos$ mencionar$ os$
7$%&$e$as$anfetaminas,$os$_0KK0*&$e$o$LSD,$ou$os$V)1J&$e$a$heroína.$Neste$sentido,$a$
experiência$psicadélica$associada$a$cada$uma$destas$substâncias$tornava-se$quase$num$
requisito$ indispensável$ para$ atingir$ uma$ total$ compreensão$ dos$ diferentes$ géneros$
musicais$ associados$ a$ cada$ subcultura.$ E,$ como$ vimos,$ uma$ vez$ que$ estes$ grupos$
surgiram$em$oposição$à$cultura$dominante$e$ao$&#'#)&"()$,$as$subculturas$acabaram$
por$ desafiar$ o$ estilo$ de$ vida$ .'01&#B*'.," muitas$ vezes,$ através$ de$ abordagens$ que$
envolviam$ atividades$ relacionadas$ com$ a$ música$ e$ com$ o$ consumo$ de$ substâncias$
psicadélicas$(Covach$&$Flory,$2012).$$
Neste$ mesmo$ período,$ emergiu$ também$ uma$ revolução$ sexual$ e$ de$ valores,$
que$conduziu$a$grandes$transformações$sociais$(Tarrant,$1991;$Redhead,$1997).$Foi$a$
partir$ desta$ altura,$ que$ os$ jovens$ decidiram$ criar$ os$ seus$ “pequenos$ mundos”$
autónomos$da$sociedade$adulta$aliados$ao$surgimento$das$diversas$subculturas$juvenis$
$
142$
já$abordadas$(Brake,$1980).$De$facto,$para$estes$#**1'L*B&,$o$B$-J[1[B$++!simbolizava*o*
sonho%de%liberdade%e%de%intensidade%que%os%traumas%das%décadas%anteriores%deixaram%
neles,& portanto,& “já/& não& queriam& ir& para& a" guerra," *" não" queriam" ser" operários,"
queriam$ ter$ sexo$ livre.“$ (Guerra$ &$ Quintela,$ 2016:$ 194).$ A$ este$ propósito,$ muitos$
jovens$dos$anos$sessenta$afirmaram$mesmo$que$o$B$-J"era$"libertador",$na$medida$em$
que$constituía$um$meio$pelo$qual$eles$se$libertariam$das$dificuldades$e$repressões$que$
lhes$ eram$ impostas$ pelos$ adultos$ (Frith$ &$ McRobbie,$ 1978).$ Perante$ esta$ ideologia$
sexual$ juvenil,$ a$ visão$ conservadora$ que$ defendia$ o$ sexo$ após$ o$ casamento$ e$ via$ o$
homem$como$sexualmente$dominante$sobre$a$mulher$submissa$(May,$1988),$acabou$
por$perder$ gradualmente$a$ sua$ força.$As$ adolescentes$ encontraram$no$ B$-J" '1%"B$++$
uma$faísca$importante$para$começar$a$resistir$à$estrutura$opressivamente$limitadora$
dos$ seus$ papéis$ sexuais,$ que$ as$ confrontavam$ no$ pós-guerra$ (Martin,$ 1995).$ Nesta$
matéria,$Foucault$(1980)$argumenta$que$devemos$considerar$a$sexualidade$como$uma$
discursividade,$ uma$ vez$ que$ “a$ diferentes$ formas$ de$ sexualidade$ associam-se,$ com$
efeito,$ diferentes$ formas$ discursivas$ e$ representacionais”$ (Pais,$ 1996:$ 1).$ Marcuse$
(1955),$ por$ sua$ vez,$ associou$ a$ arte$ e$ a$ sexualidade$ a$ uma$ forma$ de$ oposição$ à$
violência.$ No$ âmbito$ da$ música$ popular,$ de$ acordo$ com$ Macedo$ e$ Silva$ (2015),$ a$
sexualidade$ é$ uma$ estratégia$ usada$ de$ forma$ recorrente$ para$ atrair$ a$ atenção$ do$
público,$porque$o$consumo$musical$raramente$é$um$ato$puramente$intelectual,$mas$é$
frequentemente$ um$ ato$ físico$ (DeNora,$ 2000).$ A$ afirmação$ de$ uma$ relação$ natural$
entre$música$e$sexualidade$repousa$sobre$um$conjunto$de$suposições$musicológicas$e$
psicológicas$sobre$ritmo$e$corpo,$sobre$adolescência$e$desejo,$e$sobre$"primitivismo"$
musical$ afro-americano$ (Frith$ &$ Goodwin,$ 1990).$ Neste$ sentido$ “(...)$ os$ músicos$
podem$ utilizar$ este$ -U'KE)F%*F-U)/'" que$ é$ o$ sexo$ para$ exporem$ novas$ perspetivas$
sobre$o$mesmo,$perspetivas$que$desafiem$os$valores$dominantes”$(Guerra,$2018:$11).$$
Ao$analisar$os$efeitos$sexuais$do$B$-J,$é$necessário$fazer$uma$distinção$entre$o$
realismo$do$B$-J,$ou$seja,$o$uso$da$sica$para$expressar$a$experiência$de$situações$
sexuais$reais,$maioritariamente$representada$nas$suas$letras$e$em$outros$conteúdos;$e$
o$naturalismo$do$ B$-J,$isto$é,$ o$uso$da$ música$para$expressar$ a$ sexualidade$natural,$
nomeadamente$ através$ do$ ritmo$ e$ da$ coreografia.$ Neste$ sentido,$ um$ aspeto$
$
143$
importante$da$ideologia$B$-J$é$o$argumento$de$que$a$sexualidade$é$social,$ou$seja,$de$
que$a$música$é$um$meio$de$expressão$física$espontâneo,$afetado$pelas$forças$sociais$
da$repressão$sexual$(Frith$&$McRobbie,$1978).$A$ideologia$da$juventude$desenvolvida$
na$década$de$1960$à$volta$do$B$-J$tinha$como$componente$sexual$a$suposição$de$que$
um$ relacionamento$ sexual$ satisfatório$ significava$ espontaneidade,$ liberdade$ de$
expressão$e$igualdade$de$prazer.$Isto$levou$a$que$o$sexo$passasse$a$ser$considerado$a$
melhor$experiência$fora$da$esfera$restritiva$do$casamento,$com$todas$as$suas$noções$
de$amor$verdadeiro$e$monogamia$eterna$(Fristh$&$McRobbie,$1978).$
De$acordo$com$Barreto$(1982),$a$comunidade$B$-J$pode$ser$considerada$tribal,$
uma$ vez$ que$ existem$ tribos$ diferentes$ e$ dispersas,$ que$ se$ reúnem$ para$ os$ grandes$
eventos$musicais.$Neste$sentido,$Pais$(2003)$acredita$que$desde$o$início,$as$subculturas$
associadas$ ao$ B$-J$ têm$ procurado$ impor$ algum$ tipo$ de$ singularização,$ uma$ vez$ que$
“com$efeito,$os$jovens$desses$grupos$atuavam$como$IB0-$+*)B&"que$se$apropriavam$de$
características$que$integravam$num$universo$simbólico$que$lhes$permitia$subverter$a$
sua$ significação$ original”$ (Pais,$ 2003:$ 24).$ O$ consumo$ de$ substâncias$ psicotrópicas$
acabava$ por$ integrar$ os$ vínculos$ de$ sociabilidade$ desses$ grupos$ juvenis,$ assumindo$
uma$função$comunicacional$dentro$da$subcultura$(Fernandes,$2002).$Neste$contexto,$
Encarnação$ (2019)$ argumenta$ que$ é$ desde$ a$ década$ de$ sessenta,$ que$ o$ B$-J$ tem$
carregado$um$estereótipo$associado$ao$consumo$de$substâncias$ilegais$e$foi$também$a$
partir$ dessa$ data,$ que$ a$ dependência$ deste$ tipo$ de$ substâncias$ começou$ a$ ser$
discutida$ academicamente$ no$ âmbito$ do$ estudo$ das$ subculturas$ juvenis$ (Oksanen,$
2012).$ Ainda,$ Ehrenreich$ *#" '+2$ (1986)$ argumentam$ que$ o$ B$-Jy1yB$++$ ofereceu$ uma$
nova$ visão$ da$ sexualidade$ (tanto$ feminina$ quanto$ masculina),$ que$ era$ claramente$
nova.$ Esta$ mudança$ de$ atitudes$ sexuais$ chama$ a$ atenção$ para$ si$ mesma,$ porque$
contrasta$ fortemente$ com$ o$ código$ de$ comportamento$ adotado$ pelas$ faixas$ etárias$
adultas$da$mesma$época.$Assim,$deixa$de$existir$um$consenso$comum$entre$os$adultos$
sobre$atitudes$sexuais$ou$sobre$o$papel$da$autoridade$na$sociedade,$ou$mesmo$sobre$
as$expectativas$de$como$os$jovens$se$devem$comportar$(Hall,$&$Whannel,$1964).$
Para$Calado$(2006),$o$consumo$de$substâncias$psicotrópicas$nestas$subculturas$
adquire$ uma$ função$ utilitária,$ na$ medida$ em$ que$ permite$ uma$ viagem$ dentro$ dos$
$
144$
valores$e$ideologias$próprios$do$B$-J.$E,$como$vimos,$dentro$do$B$-J,$esta$viagem$não$
é$apenas$feita$pelos$fãs,$mas$também$pelas$B$-J"&#'B&,"uma$vez$que$“durante$meados$
da$década$ de$ sessenta,$ músicos$ de$ B$-J$como$ Bob$ Dylan,$ ^U*" p*'#+*&,$ Jimi$Hendrix,$
wB'#*W)+":*'%,$entre$outros,$começaram$a$experimentar$estas$drogas$e$a$explorar$as$
suas$possibilidades$de$expansão$mental”$(Larson,$2004:$150).$É$de$notar,$que$quando$
Mick$Jagger$e$Keith$Richard$dos$^U*"3$++01L">#$1*&$foram$detidos$devido$a$drogas$em$
1967,$o$caso$acabou$por$se$tornar$num$"símbolo$de$uma$disputa$mais$ampla$entre$o$
tradicionalismo$ e$ um$ novo$ hedonismo,$ cujo$ foco$ era$ uma$ atitude$ da$ sociedade$ em$
relação$ às$ drogas$ recreativas"$ (Donnelly,$ 2005:$ 153).$ No$ entanto,$ é$ importante$
relembrar,$que$
$
$" *+*/'%$" -$1&).$" %*" #'I'-$" *" b+-$$+," $" -$1#'-#$" -$."
'+)-01$LE10$&"*"$)#B$&"W'-0+0#'%$B*&"%*" hK'B'c&$&"'B#0W0-0'0&j,"'"
I'1'+0Z'CD$" %$" B*-)B&$" S&" -U'.'%'&" %B$L'&" +*/*&," *."
K'B#0-)+'B" $" U'n0n*," *" '" *nK*B0.*1#'CD$" .'0&" $)" .*1$&"
-$1#01)'%'" %*" h%B$L'&" %)B'&j," -$.$" '" -$-'c1'" *" '" U*B$c1',"
I*."-$.$"%*" &)I&#T1-0'&"&01#E#0-'&,"1D$"-$.*C'."1$&".*0$&"
i)/*10&"%$&"'1$&"?P]Q"*"*&#D$"+$1L*"%*"&*B"*n-+)&0/$&"%'"beat$
generation," %$&" hippies"$)" %$" rock$ and$ roll"*" &*)&" %*B0/'%$&2"
7'&"'&&).*.,"%*&%*"*1#D$,").'"*nKB*&&D$"KBXKB0'," ()*B"*."
%0.*1&D$,"()*B"*."&0L10W0-'%$"0%*$+XL0-$"*"-)+#)B'+$(Guerra$*#"
'+2,$2016:$37)."
$
De$acordo$com$o$pensamento$de$Barreto$(1982),$o$“psicadelismo$e$música$B$-J$
são$ ambos$ repelidos$ da$ cultura,$ julgados$ impróprios$ e$ amorais,$ como$ uma$
transpiração$ mórbida$ da$ juventude”$ (Barreto,$ 1982:$ 23).$ Assim,$ um$ dos$ momentos$
mais$ célebres$ da$ materialização$ da$ relação$ entre$ música,$ sexo$ e$ consumo$ de$
substâncias$ilícitas$encontra-se$associado$ao$movimento$U0KK0*$da$década$de$sessenta$
e$ao$seu$pendor$experimentalista$e$psicadélico.$
XM;M@M!E%08(*-5185(*+&!4906-%+!3%(*6+!#!3%e63#08%!hippie%
Segundo$Frith$(1981),$o$B$-J$foi$considerado$a$banda$sonora$do$movimento$U0KK0*"da$
década$de$sessenta,$em$particular,$o$B$-J"progressivo.$Através$deste$tipo$de$música,$
esta$ contracultura$ tentou$ criar$ um$ sentido$ de$ comunidade,$ que$ assentava$ numa$
$
145$
vertente$política$em$prol$da$mudança$social$(Bennett,$2004).$Neste$sentido,$além$de$
aproveitar$o$poder$cultural$da$música$como$um$meio$de$transformar$a$ordem$social,$o$
movimento$ U0KK0*$ rejeitava$ as$ tendências$ tecnocráticas$ (Roszak,$ 1969)$ da$ sociedade$
capitalista,$adotando$um$estilo$de$vida$alternativo,$baseado$na$vida$comunitária$rural$
(Webster,$2002)$e$na$experimentação$com$a$religião$oriental$e$o$consumo$de$drogas.$
Porém,$apesar$da$contestação$face$ao$modelo$económico$capitalista,$Marcuse$(1982)$
realça$o$modo$como$a$contracultura$parecia$usar$os$próprios$produtos$das$indústrias$
de$lazer$e$consumo,$nomeadamente$a$música$e$a$moda$produzidas$em$massa,$na$sua$
revolta$direta$contra$as$instituições$capitalistas$dominantes,$nomeadamente$em$áreas$
que$ envolviam$ o$ trabalho,$ a$ educação,$ a$ família$ e$ a$ política.$ No$ entanto,$ de$ acordo$
com$Bennett$(2005),$o$investimento$coletivo$intenso$depositado$no$poder$da$música$
como$instrumento$de$mudança$social$talvez$tenha$sido$mais$proeminente$no$final$da$
década$ de$ 1960,$ do$ que$ em$ qualquer$ outra$ era$ da$ música$ popular.$ Portanto,$ a$
promoção$da$ecologia,$do$esoterismo$e$do$amor$livre,$combinadas$com$o$consumo$de$
substâncias$ alucinogénias$ características$ deste$ movimento$ social,$ também$ pareciam$
estimular$ os$ jovens$ para$ a$ ação$ política$ e$ para$ defesa$ de$ causas$ sociais,$ como$ por$
exemplo$a$luta$a$favor$das$minorias$sociais.$No$fundo,$o$movimento$U0KK0*$adotou$uma$
abordagem$ pacifista,$ que$ se$ opunha$ ao$ imperialismo$ americano$ e,$ especialmente,$ à$
sua$intervenção$na$guerra$do$Vietname:$
$
<1W+)*1-0'%$&" K*+$" .$/0.*1#$" %*" %*W*&'" %$&" %0B*0#$&" -0/0&" *"
K*+$"-B*&-0.*1#$"%'"B*&0&#M1-0'"KfI+0-'"à" Guerra" do" Vietnam,"
.)0#$&" i$/*1&" *." ?P]Q," /0'." -$." '+L).'" &)&K*0#'" '&"
01&#0#)0Cd*&"%$"()$#0%0'1$"'.*B0-'1$A"L$/*B1$,"*&-$+',"0LB*i'&,"
LB'1%*&" -$BK$B'Cd*&" *-$1X.0-'&," $&" .0+0#'B*&" *" '" K$+c-0'"
(Covach$&$Flory,$2012:$256)."
$
Até$ao$Verão$de$1967,$a$contracultura$parecia$estar$restrita$às$grandes$cidades,$
como$ Nova$ Iorque,$ São$ Francisco$ ou$ Londres,$ mais$ particularmente$ aos$ -'.K)&$
universitários.$Por$isso,$para$Larson$(2004),$São$Francisco$constituiu,$efetivamente,$o$
espaço$ urbano$ primordial$ deste$ movimento,$ na$ medida$ em$ que$ proporcionava$ um$
ambiente$ de$ criação$ intelectual,$ de$ momentos$ boémios,$ de$ radicalismo$ e$ ativismo$
$
146$
político$e$de$ideologias$excêntricas.$Associadas$essas$características$ao$“uso$liberal$das$
drogas$psicoativas,$o$resultado$foi$uma$explosão$de$cabelos$compridos,$fitas,$carrinhas$
VW,$incenso,$colares$de$pérolas,$símbolos$da$paz,$#F&U0B#&!tingidas(e(calças(à(boca-de-
sino”$ (Larson,$ 2004:$ 151).$ Neste$ cenário$ indulgente$ de$ visuais,$ ideias$ e$ emoções,$ a$
música$constituía$uma$identidade$territorial$para$os$U0KK0*&$e$assumia$uma$função$de$
pertença$ (Poon,$ 2016),$ ancorada$ em$ experiências$ psicadélicas.$ De$ facto,$ os$ U0KK0*&$
acreditavam$ que$ determinados$ tipos$ de$ drogas$ possibilitavam$ a$ expansão$ da$
consciência$ e$ a$ alteração$ da$ mente,$ ao$ ponto$ de$ promover$ ideias$ e$ experiências$
inacessíveis$ no$ estado$ sóbrio$ (Haenfler,$ 2015).$ Neste$ contexto,$ eles$ exaltavam$ as$
qualidades$ esclarecedoras$ e$ expansivas$ da$ mente$ em$ resultado$ das$ experiências$
psicadélicas,$que$eles$acreditavam$oferecer$um$caminho$para$uma$sociedade$melhor$
(Marwick,$ 1998).$ No$ rol$ de$ substâncias$ alucinogénias$ mais$ consumidas$ por$ este$
movimento,$ com$ o$ objetivo$ de$ atingir$ uma$ consciência$ cósmica$ (McCarthy,$ 1990),$
encontrava-se$ o$ icónico$ LSD$ (dietilamida$ do$ ácido$ lisérgico,$ em$ português).$ Um$ dos$
aspetos$ relevantes$ do$ consumo$ desta$ substância$ prendia-se$ com$ o$ sentido$ de$
comunhão$que$os$utilizadores$sentiam$uns$com$os$outros,$e$com$o$ambiente$em$que$
se$ encontravam$ inseridos$ (Begaja,$ 2014),$ que$ lhes$ transmitia$ uma$ sensação$ de$
tranquilidade$e$confiança$para$realizar$a$#B0K.$É$de$salientar,$que$“as$drogas$em$geral$–$
mas$ a$ marijuana$ e$ o$ LSD$ em$ especial$ –$ desempenharam$ um$ papel$ fundamental$ na$
constituição$ da$ nova$ visão$ do$ mundo,$ que$ muitos$ jovens$ procuravam”$ (Covach$ &$
Flory,$ 2012:$ 256).$ Para$ Farrel$ (1997),$ o$ consumo$ de$ LSD$ constituía$ um$ ato$ quase$
litúrgico$(Macan,$1997)$ou$um$sacramento$para$a$contracultura,$uma$espécie$de$ritual$
de$comunhão,$ que$parecia$ oferecer$ todas$ as$ respostas$ao$ universo$(Fink,$ 2012).$ Por$
outras$palavras,$“os$jovens$adultos$que$o$descobriram$em$meados$dos$anos$sessenta,$
pensaram$ que$ o$ LSD$ permitia$ ao$ utilizador$ suprimir$ os$ modos$ falsos$ e$ confusos$ de$
entendimento,$impostos$pela$escola$e$pela$sociedade,$e$perceber$o$mundo$e$a$própria$
vida$como$ela$realmente$era”$(Covach$&$Flory,$2012:$256).$
Segundo$Hicks$(1999),$o$LSD$era$frequentemente$consumido$com$o$objetivo$de$
aumentar$a$experiência$musical,$assim$como$a$propensão$para$a$dança.$Neste$sentido,$
Johnes$ (2018)$ refere$ que$ “os$ U0KK0*&$ relataram$ que$ a$ música,$ especialmente$ as$
$
147$
músicas$ complexas$ com$ efeitos$ sonoros$ que$ caracterizavam$ o$ B$-J$progressivo,$
poderiam$ exacerbar$ o$ sentimento$ de$ admiração$ e$ prazer$ derivado$ das$ drogas”$
(Johnes,$ 2018:$ 121).$ A$ influência$ deste$ tipo$ de$ música$ acabou$ por$ ser$ crucial$ na$
propagação$da$estética$U0KK0*$nas$culturas$juvenis$em$geral$(Shapiro,$1999,!2003),&uma&
vez$que$as$pessoas$ que$ouviam$este$tipo$de$ música$e$ consumiam$LSD,$ouviam-na# de#
maneira'distinta'das'demais'(Smith,'2016).'Na'linha'de'pensamento' de' Hicks' (1999),'
para$se$compreender$realmente$a$música$psicadélica$é$essencial$ter$em$atenção$três#
efeitos' principais' do' LSD:' descronização,' despersonalização' e' dinamização.' Nas' suas'
palavras,$
"
a"descronização"permite"ao"utilizador"de"droga"movimentarF&*"
K'B'" W$B'" %'&" K*B-*KCd*&" -$1/*1-0$1'0&" %$" #*.K$2" !"
%*&K*B&$1'+0Z'CD$" K*B.0#*" '$" )#0+0Z'%$B" K*rder$ a$ consciência$
de# si# próprio# e# ganhar# uma# consciência# de# unidade#
indiferenciada.* A* dinamização,* tal* como* Leary* a* descreveu,*
torna& tudo,& desde& o& chão& até0& às& lâmpadas,& dobrado,&
#B'1&W$B.'1%$F'&" *." W$B.'&" W'.0+0'B*&,"()*" &*" %0&&$+/*." *."
*&#B)#)B'&" %*" .$/0.*1#$" *" %*" %'1C'‡" $&" $Ii*#$&" #$B1'.F&*"
+c()0%$&," K01L'.," *&-$BB*L'." -$." +)Z" IB'1-'" $)" *+*#B0-0%'%*"
()*1#*," -$.$" &*" '" W$B.'" *" &)I&#T1-0'" %$" .)1%$" *&#0/*&&*.,"
'01%',"W)1%0%'&"(Hicks,$1999:$63).$
$
De#acordo#com#estas#premissas,#a#descronização#torna,#então,$as$músicas$mais$
longas$ ou$ menos$ rápidas;$ a$ despersonalização$ transforma$ a$ textura$ das$ músicas,$
aumentando$ o$ seu$ volume$ e$ o$ seu$ eco;$ e,$ por$ fim,$ a$ dinamização$ desafia$ os$
parâmetros$ musicais$ previamente$ estabelecidos,$ modificando$ a$ afinação$ e$
aumentando$ os$ seus$ tempos,$ transformando$ um$ álbum$ numa$ música$ 6$ (Martins,$
2014).$Igualmente,$relevante$para$compreender$a$música$psicadélica$era$a$experiência$
da$viagem,$que,$muitas$vezes,$não$era$apenas$auditiva,$mas$era$também$visual,$uma$
vez$ que$ o$ LSD$ é$ capaz$ de$ uma$ “profunda$ alteração$ da$ percepção$ sensorial$ -$ visual,$
auditiva$e$táctil$-$é$uma$demonstração$vívida$de$que$o$que$é$percebido$como$realidade$
externa$não$ é$ um$ “lá$ fora”$fixo,$ mas$ uma$criação$ do$ cérebro”$(Wesson,$ 2011:$ 157).$
Estas$experiências$visuais$vivenciadas$durante$as$#B0K&$psicadélicas$resultaram,$muitas$
vezes,$ na$ inspiração$ e$ criação$ de$ produtos$ culturais,$ que$ envolviam$ códigos$
normativos$ da$ cultura$ U0KK0*,$ expressões$ e$ maquilhagens$ coloridas$ que$ foram$
$
148$
aplicados$ à$ moda,$ às$ capas$ de$ álbuns,$ a$ pinturas$ e$ murais,$ à$ banda$ de$ desenhada$
)1%*BLB$)1%,$ a$ livros$ e$ jornais$ (Grunenberg$ &$ Harris,$ 2005).$ Neste$ sentido,$ Macan$
(1997)$ refere$ que$ as$ capas$ de$ álbuns$ de$ B$-J$ progressivo$ que$ incluíam$ fotografia,$
desenho$ e$ pintura$ ou$ uma$ combinação$ dos$ três$ eram,$ frequentemente,$ surreais$ e$
refletiam$a$influência$do$psicadelismo$e$das$drogas$alucinogénias,$como$a$marijuana,$a$
mescalina," o$ haxixe," os$ cogumelos$ psicadélicos$ e,$ acima$ de$ tudo,$ o$ LSD.$ $ Uma$ das$
capas$ que$ se$ tornou$ mais$ célebres$ por$ incorporar$ esta$ estética$ foi$ a$ do$ álbum$ >L#2"
V*KK*B[&" \$1*+l" _*'B#&" 5+)I" p'1%,$ dos$ ^U*" p*'#+*&,$ lançado$ em$ 1967.$ Esta$ capa,$ no$
fundo,$ simbolizava$ a$ narrativa$ cultural$ dos$ anos$ sessenta$ através$ de$ um$ K'&#0-U*$
colorido$ de$ imagens$ e$ fotografias$ (Hudson,$ 2006).$ Estas$ experiências$ psicadélicas$
acabaram$ por$ influenciar,$ também,$ outras$ produções$ artísticas$ do$ mesmo$ período,$
nomeadamente$o$surrealismo$e$a$V$KF'B#$(Poon,$2016).$
Um$ dos$ eventos$ mais$ emblemáticos$ associado$ ao$ movimento$ U0KK0*$foi$ o$
Festival$de$Woodstock,$que$inaugurou$o$surgimento$dos$grandes$festivais$de$música$ao$
ar$livre,$após$o$Monterey$International$Pop$Festival$–$um$outro$evento$anterior$muito$
importante$ para$ o$ desenvolvimento$ da$ história$ do$ B$-J.$ Portanto,$ “se$ o$ Monterey$
marcou$o$início$da$era$dos$grandes$festivais$de$B$-J$ao$ar$livre,$o$Woodstock$significou$
o$seu$pico”$(Covach$&$Flory,$2012:$290).$A$ideia$surgiu$da$intenção$de$criar$um$estúdio$
de$gravação$em$Woodstock$-$que$era$um$destino$predileto$para$muitos$artistas$-$e$o$
evento$|$$%&#$-J"7)&0-"'1%"!B#"Y'0B$teria$como$objetivo$a$promoção$desse$estúdio.$
No$entanto,$o$evento$acabou$por$alcançar$proporções$inimagináveis,$levando$400000$
U0KK0*&$e$não$só$a$Bethel.$Devido$ao$excesso$de$pessoas$a$entrar$e$sair$do$recinto,$os$
bilhetes,$ a$ certa$ altura,$ deixaram$ de$ ser$ cobrados$ e$ “quando$ o$ festival$ começou,$ as$
estradas$ de$ acesso$ ao$ Woodstock$ ficaram$ engarrafadas$ ao$ longo$ de$ quilómetros”$
(Murray,$ 2009:$ 10).$ Os$ extensos$ e$ persistentes$ congestionamentos$ inviabilizaram$ o$
transporte$ de$ alimentos$ e$ provisões$ médicas,$ bem$ como$ o$ transporte$ dos$ próprios$
músicos,$pelo$que$foi$necessário$recorrer$a$helicópteros$(Martins,$2014).$Além$destes$
obstáculos,$
$
'" -U)/'" W$B#*," ()*" &*" W*Z" &*1#0B" '-'I$)" K$B" 0.K*%0B" '+L)1&"
-$1-*B#$&" -B0'1%$" +'.'" *" $)#B$&" KB$I+*.'&2" !K*&'B" %*&#*&"
$
149$
-$1#B'#*.K$&" +$Lc&#0-$&" *" W01'1-*0B$&" K$#*1-0'+.*1#*"
%*/'&#'%$B*&," $" */*1#$" W$0" )." #B*.*1%$" &)-*&&$," #$B1'1%$" $"
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()*" '-'I$)" K$B" B*KB*&*1#'B" '" W$BC'" *" '" 01W+)M1-0'" %'" -)+#)B'"
U0KK0*$(Covach$&$Flory,$2012:$291).""
$
De$facto,$este$festival$marcou$toda$a$evolução$do$B$-J$até$aos$dias$de$hoje$e,$na$
perspetiva$de$Larson$(2004),$o$Woodstock26$tornou-se$num$verdadeiro$ícone$à$escala$
internacional$ na$ promoção$ da$ geração$ K*'-*" '1%" +$/*" e$ acabou$ por$ marcar$
culturalmente$ o$ mundo$ ocidental$ até$ aos$ nossos$ dias.$ E$ no$ seio$ desta$ geração,$ “os$
alucinogénios$foram,$durante$os$anos$sessenta$e$inícios$de$setenta,$a$substância$que$
melhor$ se$ adequou$ às$ propostas$ existenciais$ da$ cultura$ U0KK0*,$ e$ ao$ papel$ que$ o$
psicadelismo$nela$ocupava”$(Carvalho,$2007:$92).$
Contudo,$ no$ final$ da$ década$ de$ setenta,$ o$ movimento$ U0KK0*$ acabou$ por$
fracassar$ aliado$ ao$ surgimento$ de$ problemas$ associados$ ao$ consumo$ excessivo$ de$
drogas$ (Savage,$ 2002)$ e$ ao$ crescimento$ da$ violência$ e$ do$ crime$ generalizado$ (Suri,$
2009),$ que$ decorreram$ após$ a$ emergência$ da$ Nova$ Esquerda.$ Disputas$ violentas,$
tumultos$e$até$atos$de$terrorismo$envolveram$grandes$cidades$dos$Estados$Unidos,$da$
Europa$Ocidental$e$de$outras$partes$do$mundo$e,$na$verdade,$a$juventude$deixou$de$
acreditar$que$a$revolução$cultural$chegaria$através$de$drogas,$acabando$por$se$cansar$
de$ esperar$ e$ de$ se$ esforçar$ para$ que$ isso$ acontecesse$ (Bach,$ 2013).$ Após$ anos$ de$
ativismo$ e$ repreensão$ política,$ muitos$ U0KK0*&" recuaram$ e$ saíram$ de$ cena,$ uma$ vez$
que$ os$ 9*m" \*W#&$ procuravam$ pessoas$ que$ se$ envolvessem$ mais$ intensamente$ no$
partido.$ Neste$ sentido,$ usavam$ a$ violência$ como$ instrumento$ para$ provar$ a$
autenticidade$ cultural,$ através$ de$ comportamentos$ militares.$ E,$ apesar$ de$ viverem$
estilos$ de$ vida$ comunitários$ e$ solicitarem$ abertura$ política,$ eles$ atacavam$
violentamente$ os$ seus$ opositores$ e$ críticos,$ ao$ ponto$ de$ alguns$ se$ transformarem$
quase$ em$ verdadeiros$ terroristas$ (Suri,$ 2009).$ Este$ momento$ marcou$ o$ ponto$ de$
viragem$ em$ que$ a$ violência$ passou$ de$ uma$ ferramenta$ de$ resistência$ para$ um$
elemento$ definidor$ da$ contracultura,$ o$ que$ conduziu$ ao$ declínio$ total$ deste$
movimento$ contracultural.$ Além$ disso,$ a$ morte$ repentina$ de$ B$-J" &#'B&$ como$ Janis$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
26 No palco do Festival de Woodstock marcaram presença alguns dos maiores talentos musicais da
época, tais como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Joe Cocker, Grateful Dead ou Creedence Clearwater Revival.
$
150$
Joplin,$Jim$Morrison$e$Jimi$Hendrix$ou$o$afastamento$de$outros$como$Peter$Green$e$
Brian$Jones,$devido$ a$perturbações$mentais$ associadas$ao$consumo$ de$LSD$ (Hughes,$
2016),$só$veio$reforçar$esse$fracasso.$De$facto,$a$ideia$de$que$o$LSD$e$outras$drogas$
poderiam$ mudar$ o$ mundo,$ acabou$ por$ se$ transformar$ numa$ ilusão$ sem$ esperança$
(Bach,$2013)$e$as$perdas$para$a$música$associadas$a$excessos$foram$muitas27.$Algumas$
destas$B$-J"&#'B&$que$se$perderam$integram$o$que$mais$tarde$viria$a$ser$designado$por$
5+)I"%$&"HG,$onde$constam$jovens$músicos$que$morreram$de$forma$repentina$(muitos$
devido$a$overdoses)$com$apenas$27$anos$de$idade.$
A$ contracultura$ acabou$ por$ ser$ cúmplice$ de$ muitos$ dos$ elementos$ da$
sociedade$que$criticou.$Apesar$da$sua$retórica$idealista,$ela$não$constituía$um$apelo$à$
revolução,$ mas$ antes$ um$ movimento$ de$ reforma$ rápida$ e$ pessoal$ dentro$ das$
estruturas$sociais$ e$ políticas$ existentes$ (Suri,$2009).$ No$ mesmo$ sentido,$Gerd-Rainer$
Horn$ (2007)$ refere,$ de$ forma$ convincente,$ que$ este$ momento$ libertador$ apenas$
perdurou$até$ a$ contracultura$ se$tornar$ parte$ da$ cultura$ dominante.$A$ cultura$ U0KK0*$
acabou,$ gradualmente,$ por$ se$ desvanecer$ em$ meados$ dos$ anos$ setenta$ e$ a$ maioria$
dos$ contraculturalistas$ dedicou-se$ a$ atividades$ alternativas$ e/ou$ juntou-se$ aos$
movimentos$ambientais$que$se$estavam$a$popularizar$(Fink,$2012).$Contudo,$não$há$a$
menor$dúvida$de$que$a$contracultura$teve$um$enorme$impacto$nos$anos$sessenta$e$na$
história$dos$EUA,$mas$também$um$pouco$por$todo$mundo,$e$algumas$das$suas$marcas$
como$a$sica,$a$cultura$ou$a$moda$ainda$permanecem$bem$presentes$na$sociedade$
contemporânea.$ Como$ já$ referimos$ anteriormente,$ no$ campo$ da$ sociologia,$ o$
movimento$U0KK0*$contracutural$colocou$a$questão$do$desvio$como$um$tópico$central,$
estimulando$ o$ estudo$ sociológico$ das$ subculturas$ na$ América$ do$ Norte,$
particularmente$no$campo$da$criminologia,$acabando$por$visualizar$os$jovens$e$as$suas$
práticas$sociais$como$reflexo$de$um$problema$social$(Williams,$2007).$
$
XM;MXM!W+6-*7#16+3%&!(585(*+!#!}(*)3#08%+!
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
27 Keith Moon, Gram Parsons dos Byrds e dos Flying Burrito Brothers, Dennis Wilson dos Beach Boys, John
Bonham dos Led Zeppelin, Danny Whitten dos Crazy Horse, Pigpen dos Grateful Dead ou Al Wilson e Bob
“The Bear” Hite dos Canned Heat.
$
151$
De$acordo$com$Alain$Ehremberg$(1991),$o$consumo$problemático$de$droga$decorre$de$
uma$procura$individual$ por$uma$“superação$sem$ limite$e$permanente$de$ si$próprio”$
(Ehremberg,$ 1991:$ 15),$ a$ partir$ da$ qual$ as$ drogas$ funcionam$ como$ ferramentas$ de$
desmultiplicação$ artificial$ da$ individualidade$ dentro$ de$ uma$ ilusão$ de$ liberdade$
ilimitada.$Não$obstante,$esta$procura$de$estados$alterados$de$consciência$através$do$
uso$ de$ substâncias$ psicoativas$ não$ deve$ ser$ meramente$ reduzida$ a$ uma$ perspetiva$
negativa$ perante$ os$ consumos,$ mas$ é$ importante,$ então,$ tentar$ conhecer$ as$
motivações$ e$ contextos$ que$ envolvem$ esses$ usos,$ nomeadamente$ os$ ambientes$
recreativos$associados$ a$ estilos$ musicais,$ estéticos$e$ subculturais$ (Carvalho,$ 2016).$ É$
neste$âmbito$que$falamos$do$movimento$psicadélico,$que$emerge$na$segunda$metade$
da$ década$ de$ sessenta$ e$ que$ se$ encontrava$ intimamente$ relacionado$ com$ a$
contracultura$)1%*BLB$)1%$e$o$ B$-J$progressivo.$Este$ B$-J$progressivo$ tratava-se,$de$
acordo$com$Guerra$(2010),$de$“uma$ideia$de$KB$LB*&&$"associada$ao$B$-J,$em$que$se$
valorizava$ a$ evolução$ e$ a$ complexidade$ musical,$ lírica$ e$ emocional”$ (Guerra,$ 2010:$
118),$em$oposição$a$um$B$-J$puramente$de$entretenimento.$No$entanto,$“apesar$da$
utilização$à$época$do$termo$“música$progressiva”,$ou$mesmo$KB$LB*&&0/*"B$-J,$o$B$-J"
KB$LB*&&0/$" enquanto$ género$ musical$ não$ existia$ ainda.$ Ambos$ os$ termos$ eram$
utilizados$ para$ descrever$ bandas$ com$ um$ espírito$ “progressivo”$ para$ a$ sua$ época”$
(Brito,$2018:$25).$Musicalmente,$e$bebendo$influências$do$i'ZZ$e$da$música$erudita,$as$
composições$ de$ B$-J$ progressivo$ eram$ menos$ rígidas$ e$ mais$ caracterizadas$ pela$
liberdade$de$composição$(Brito,$2018).$Além$de$assumir$uma$atitude$independente$de$
seriedade$e$compromisso$como$forma$de$arte$(Moore,$1997;$Middleton,$2001),$o$B$-J$
progressivo$ ficou$ igualmente$ associado$ à$ edição$ de$ álbuns$ no$ formato$ LP,$
materializados$ na$ ideia$ de$ álbuns$ concetuais,$ que$ permitiam$ a$ inclusão$ de$
composições$ musicais$ mais$ extensas,$ contrariando$ a$ anterior$ tendência$ para$ o$
formato$ &01L+*$ (Warner,$ 2003).$ A$ nível$ de$ instrumentação$ e$ sua$ execução,$ esta$
corrente$ ficou$ célebre$ pelo$ recurso$ e$ determinados$ instrumentos$ outrora$ menos$
requisitados,$ como$ o$ caso$ do$ órgão$ (especialmente$ o$ Hammond),$ do$ sintetizador$
(tendencialmente$o$Moogo$e$o$Mellotron)$e$do$piano$(Macan,$1997;$Spicer,$2008),$mas$
$
$
152$
W$0" #'.IE." -'B'-#*B0Z'%'" K$B" ).'" -B*&-*1#*" M1W'&*" 1'"
01#*1&0%'%*"%01T.0-'"%'"I'#*B0'"*"1$"').*1#$"%'"%0&#$BCD$"*"
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*1()'1#$"*+*.*1#$".*+X%0-$z#*.b#0-$"-*1#B'+"S"-$1&#B)CD$"%*"
LB'1%*"K'B#*"%$"B*K*B#XB0$$(Andrade,$2012:$13-14)."
$
De$ acordo$ com$ Macan$ (1997),$ o" B$-J$ progressivo$ constitui-se,$ em$ termos$
ideológicos$ e$ musicais,$ como$ uma$ extensão$ do$ B$-J$ psicadélico,$ na$ medida$ em$ que$
procurava$ exercitar$ o$ pensamento$ do$ ouvinte$ através$ da$ complexidade$ das$ suas$
composições$ e$ temáticas$ (Covach,$ 1997;$ Stump,$ 1998).$ Além$ de$ conteúdos$ líricos$
surrealistas,$ fantásticos,$ mitológicos,$ utópicos$ e$ místicos,$ também$ o$ aspeto$ visual$ –$
nomeadamente$ expresso$ nas$ capas$ dos$ discos$ –$ ia$ ao$ encontro$ dessas$ mesmas$
referências$ (Macan,$ 1997).$ De$ facto,$ estas$ características$ experimentalistas$ do$ B$-J$
progressivo$ estavam$ em$ harmonia$ com$ as$ próprias$ experiências$ psicadélicas$ da$
década,$uma$vez$que$o$uso$de$drogas$como$estímulo$pessoal$passou$a$constituir$uma$
prática$ recorrente,$ em$ particular,$ entre$ os$ jovens.$ Neste$ sentido,$ o$ movimento$
psicadélico$ propriamente$ dito$ influenciou$ uma$ multiplicidade$ de$ domínios$ artísticos,$
em$especial$a$música,$e$com$ele$$
$
/M." 1$/$&" UbI0#$&," /*." ).'" +01L)'L*." *&K*-cW0-'" *"
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.)1%$"*"%*"+U*&"W$B1*-*B"B*&K$&#'&‡"/*."'"%B$L'"*"$&"K'B'c&$&"
'B#0W0-0'0&,"$"K&0-'%*+0&.$"*"'"&)I/*B&D$"(Duarte,$1984:$21).""
$
Teve$a$sua$origem$em$São$Francisco$por$volta$do$ano$de$1965$(Valadão,$2017),$
mas$rapidamente$se$alastrou$pelos$Estados$Unidos,$ao$ponto$de$se$ter$tornado$num$
fenómeno$mundialmente$popular$no$final$da$década$de$sessenta$(Quintanilha,$2017),$
tendo$ tido$ o$ seu$ auge$ em$ 1967,$ durante$ o$ célebre$ >)..*B" $W" \$/*$(Grunenberg$ &$
Harris,$2005;$Selvin,$1999).$Foi$durante$o$verão$desse$ano,$que$emergiu,$então,$“(...)$
um$movimento$generalizado$de$contestação$nos$EUA$contra$a$guerra$no$Vietname$e$
aos$valores$sociais$e$culturais$da$época”$(Valadão,$2017:$17),$que$foi$acompanhado$por$
momentos$ de$ experiência,$ excesso$ e$ hedonismo.$ Esta$ contestação$ tratou-se,$ deste$
$
153$
modo,$ de$ uma$ estratégia$ juvenil$ de$ combate$ a$ uma$ sociedade$ marcadamente$
conservadora,$moralista$e$consumista,$a$partir$de$novas$formas$de$expressão$assentes$
numa$abordagem$pacifista$(Hoffmann,$2013).$Com$uma$ligação$direta$à$contracultura$
U0KK0*,$ o$ movimento$ psicadélico$ caracterizou-se$ sobretudo$ pelo$ consumo$ recreativo$
de$ substâncias$ psicadélicas,$ em$ especial$ o$ LSD,$ substância$ essa$ que$ contribuiu$
fortemente$para$a$difusão$deste$movimento$e$que$ficou$popularmente$$
$
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%*&$B%*1'%$,"%*&K*B&$1'+0Z'CD$,"K*B%'"%$"-$1#B$+$"*.$-0$1'+"
(Quintanilha,$2017:$20)."
$
Nesta$ medida,$ o$ B$-J$ psicadélico$ “pretendia$ replicar$ através$ da$ música$ os$
efeitos$ do$ LSD,$ utilizando$ novas$ técnicas$ electrónicas”$ (Quintanilha,$ 2017:$ 24),$
especialmente$os$efeitos$de$distorção$visual$e$auditiva.$Nos$eventos$psicadélicos,$além$
deste$ tipo$ de$ música$ ambiente,$ outros$ fatores$ complementavam$ as$ experiências,$
como$ o$ recurso$ a$ jogos$ de$ luzes$ coloridas$ e/ou$ projeções$ de$ padrões$ de$ cores,$ que$
distorciam$ todo$ o$ contexto$ envolvente$ e$ facilitavam$ a$ #B0K$ ao$ mundo$ da$ paz,$ “um$
espaço$onde$o$amor$reinava$e$o$ódio$não$existia”$(Duarte,$1984:$21).$De$acordo$com$
Darlington$ (1969),$ estes$ contextos$ permitiam$ que$ os$ participantes$ “entrassem”$ na$
própria$música$e$se$sentissem$ parte$de$uma$mesma$comunidade.$ Comunidade$essa,$
cuja$“(...)$música$e$os$músicos$são$importantes$num$sentido$mais$amplo,$pois$refletem$
e$ da$ mesma$ forma$ moldam$ a$ consciência$ das$ pessoas”$ (Levin,$ 1972:$ 24),$
representando$ uma$ ligação$ intensa$ entre$ este$ tipo$ de$ música$ e$ os$ seus$ ouvintes.$
Segundo$ (Kramer,$ 2006),$ tratou-se$ de$ um$ despertar$ de$ consciências$ para$ o$ debate$
cívico$ de$ questões$ sociais,$ mas$ também$ para$ uma$ democratização$ do$ hedonismo$ e$
suas$ apropriações$ em$ múltiplos$ domínios,$ tais$ como$ na$ electrónica,$ nas$ drogas,$ na$
cultura$popular,$no$erotismo$ou$na$religião.$Efetivamente,$a$vertente$religiosa$foi$um$
aspeto$ crucial$ no$ seio$ do$ movimento$ psicadélico,$ ao$ ponto$ de$ terem$ sido$ criados$
vários$ cultos$ com$ inspiração$ nas$ experiências$ psicadélicas,$ tal$ como$ o$ Santo$ Daime$
$
154$
(Brasil)$(Santos$*#"'+,$2007).$A$este$propósito,$é$importante$salientar$que$se$acreditava$
que$da$associação$entre$os$efeitos$das$drogas$psicoativas$e$algumas$práticas$religiosas$
orientais$ era$ possível$ atingir-se$ estados$ de$ espiritualidade$ e$ iluminação$ intelectual,$
com$ base$ nos$ ideais$ de$ liberdade$ (Filho$ &$ Silveira,$ 2010).$ Ainda,$ Huxley$ (2005)$
caracterizou$o$próprio$ato$de$consumir$substâncias$psicadélicas$como$uma$experiência$
mística$ e$ religiosa,$ uma$ vez$ que$ estas$ substâncias$ permitiam$ transcender$ o$ mundo$
terreno$ e$ entrar$ num$ estado$ elevado$ de$ consciência,$ normalmente$ reservado$ a$
poetas,$artistas$e$santos.$$
No$ entanto,$ na$ década$ seguinte,$ à$ semelhança$ do$ que$ sucedeu$ com$ a$
contracultura$ )1%*BLB$)1%,$ o$ movimento$ psicadélico$ acabou,$ progressivamente,$ por$
ser$engolido$pelo$sistema$capitalista$e$os$seus$objetos$característicos$(desde$as$roupas,$
acessórios,$arte...)$por$serem$vendidos$no$mercado$.'01&#B*'.,$como$produtos$que$
conferiam$ um$ estatuto$ de$ rebeldia$ aos$ seus$ compradores$ (Heller,$ 2004).$ Aliado$
igualmente$à$própria$decadência$do$movimento$U0KK0*$e$a$alguns$desfechos$trágicos$
decorrentes$de$consumos$excessivos$de$drogas,$também$o$B$-J$progressivo$foi$alvo$de$
críticas,$ nomeadamente$ direcionadas$ à$ sua$ alienação$ social$ e$ falta$ de$ autenticidade$
(Sheinbaum,$ 2002;$ Martin,$ 1998),$ o$ que$ resultou$ na$ perda$ de$ sucesso$ comercial$ e$
posterior$ desvanecimento.$ De$ igual$ modo,$ o$ surgimento$ e$ expansão$ do$ K)1J$e$ pós-
K)1J$a$partir$de$meados$da$década$de$setenta,$que$assumia$uma$posição$antagónica$
face$ à$ complexidade$ musical$ do$ B$-J$ progressivo$ e$ aos$ valores$ da$ contracultura,$
também$contribuíram$para$a$dissipação$das$experiências$psicadélicas,$que$viriam$a$ser$
substituídas$por$novas$abordagens$musicais$e$novas$práticas$de$consumo.$
XM;M`M!W†+?punk&!06616+3%!#!(6+-%+!
Apesar$de$não$se$ter$assumido$como$uma$contracultura,$o$K)1J$adotou$desde$a$sua$
origem$uma$atitude$contestatória$face$ao$funcionamento$da$estrutura$social$vigente$e$
aos$ contornos$ da$ sociedade$ dominante$ (McNeil$ &$ Gillian,$ 2006;$ Reynolds,$ 2006;$
Kogan,$ 2006).$ No$ entanto,$ aquando$ da$ ascensão$ de$ Margaret$ Tatcher$ ao$ poder$ em$
1979,$esta$subcultura$–$que$já$se$encontrava$em$declínio$-$foi$alvo$de$uma$profunda$
reestruturação,$que$lhe$concedeu$novos$desenvolvimentos$e$novos$contornos$(Guerra,$
$
155$
2010).$ Assim,$ além$ das$ políticas$ conservadoras$ de$ Tatcher$ no$ Reino$ Unido$ e$ das$
liberais$de$Reagen$nos$EUA,$também$o$progresso$da$Guerra$Fria$e$o$desenvolvimento$
de$campanhas$moralistas$face$ao$consumo$de$drogas$são$considerados$como$fatores$
condicionantes$ para$ a$ produção$ musical$ do$ período$ pós-K)1J" (Reynolds,$ 2006),$ que$
serviu$ como$ base$ para$ o$ B$-J$ alternativo$ dos$ anos$ oitenta.$ Segundo$ a$ linha$ de$
pensamento$ de$ Reynolds$ (2005),$ esta$ transição$ decorre$ entre$ aquilo$ que$ ele$
denominou$ de$ primeira$ e$ segunda$ onda$ do$ K)1J:$ a$ primeira$ terá$ terminado,$ então,$
por$volta$de$1978,$com$o$afastamento$de$Sid$Vicious$dos$>*n"V0&#$+&$e$a$orientação$do$
segundo$ álbum$ dos$ ^U*" 5+'&U$ para$ novos$ territórios$ musicais;$ e$ também$ com$ o$
surgimento$ de$ novos$ projetos$ musicais$ inspirados$ no$ K)1J,$ mas$ com$ propostas$
musicalmente$ distintas.$ De$ igual$ modo,$ “muitas$ editoras$ menores$ também$ se$
encontravam$em$desenvolvimento$nesta$época$e$estariam$a$ignorar$os$aspetos$mais$
comerciais$ da$ indústria$ musical,$ procurando$ incrementar$ e$ promover$ música$
desafiadora”$(Webb,$2008:$111).$Neste$contexto,$
$
$" -$.KB$.0&&$" -$." '" KB$%)CD$" *" %0&#B0I)0CD$" 01%*K*1%*1#*&"
#B'1&-*1%*)"'&"1$Cd*&"B$.T1#0-'&"%*"-B0'#0/0%'%*".)&0-'+2"=."
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01%*K*1%*1#*&"-$.")."&*#$B"-$.*B-0'+"-$BB)K#$"*"KB*%'#XB0$,"
'+L).'&" %'&" *.KB*&'&" KX&FK)1J" B*-$1U*-*B'." ()*," K*B'1#*"
)." .*0$" -)+#)B'+FK$K)+'B," '" KB$KB0*%'%*" 01%*K*1%*1#*" %'"
KB$%)CD$" *" %0&#B0I)0CD$" *B'" $" -'.01U$" .'0&" *W0-'Z" K'B'" '"
%*.$-B'#0Z'CD$"%'"01%f&#B0'"(Hesmondhalgh,$1999:$37)."
$
De$acordo$com$Guerra$(2010),$o$pós-K)1J$“pauta-se$pela$junção$do$K)1J"com$o$
JB')#B$-J,$o$%)I,$o$B*LL'*,$ o$W)1J"e$a$experimentação”$(Guerra,$2010:$ 143),$ onde$o$
baixo$alcança$notoriedade$face$à$guitarra$e$as$letras$são$intensamente$introspetivas,$
não$esquecendo$o$niilismo,$a$iconoclastia$e$o$minimalismo$do$K)1J.$As$competências$
técnicas,$à$semelhança$do$K)1J,$também$aqui$são$menos$relevantes$e$a$força$do$KX&F
K)1J$reside$na$honestidade$e$experimentação$das$suas$composições,$letras,$práticas$e$
consumos$ (Campbell,$ 2017).$ Especificamente,$ as$ drogas$ funcionavam$ neste$
movimento,$não$ só$ como$ instrumentos$ de$ escape$ e$ evasão$da$ vida$ quotidiana,$ mas$
também$como$catalisadores$de$criatividade$(Webb,$2009).$A$este$propósito,$Tuft$*#"'+2$
(2015)$ argumentam$ que$ a$ era$ do$ pós-K)1J$ era$ parcialmente$ devota$ a$
$
156$
comportamentos$ desinibidos,$ loucuras$ e$ enlouquecimentos$ durante$ os$ espetáculos.$
Deste$ modo,$ “o$ palco$ tornou-se$ o$ laboratório$ no$ qual$ novas$ ideias$ podiam$ ser$
testadas”$ (Campbell,$ 2017:$ 372).$ Segundo$ Sá$ e$ Júnior$ (2013),$ a$ lógica$ desta$ música$
caracterizava-se,$portanto,$por$uma$ausência$de$preocupação$relativamente$ao$futuro,$
pela$celebração,$pelo$escapismo$e$pela$utilização$de$drogas$sem$fins$transcendentais.$
Ao$assumir-se,$na$assunção$de$Gracyk$(2011),$como$mais$um$movimento$do$que$um$
estilo,$ o$ pós-K)1J$ procurou,$ sobretudo,$ democratizar$ a$ produção$ cultural,$
dispensando$ hierarquias$ e$ intermediários$ (Hesmondhalgh,$ 2007),$ ao$ mesmo$ tempo$
que$enveredava$por$uma$cultura$DIY$(Allen,$2002).$Para$Reynolds$(2005),$esta$cultura$
DIY$reafirmava$o$autodidatismo$dos$músicos$e$outros$profissionais$associados$ao$pós-
K)1J$e$ia$ao$encontro$de$um$posicionamento$heterodoxo,$face$ao$campo$da$produção$
cultural$dominante$(Campbell,$2017).$De$facto,$
$
$" KX&FK)1J" B*-$BB*" S" #E-10-'" %$" K)1J" %*" %*&-$1&#B)0B" $" B$-J"
'1%" B$++" K'B'" *&-'/'B" *" *&#*1%*B" $&" &*)&" +0.0#*&," *" *&&'"
%*&-$1&#B)CD$" E" &*.KB*" &*L)0%'" %*," K*+$" .*1$&," ).'"
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1D$"'K*1'&"%'()*+*&"()*"&*"*1-$1#B'."W$B'"%'"-)+#)B'"%$"B$-J"
'1%" B$++," .'&" #'.IE." %$&" ()*" *&#D$" %*1#B$" %*&&'" .*&.'"
-)+#)B'"(Grossberg,$1984:$247)."
$
Dentro$do$período$pós-K)1J$diferentes$correntes$musicais$se$desenvolveram$e$
algumas$alcançaram$bastante$ relevo,$ como$foi$o$ caso$da$1*m" m'/*"no$Reino$Unido,$
particularmente$ na$ área$ de$ Manchester.$ Partindo$ das$ palavras$ de$ Guerra$ (2010),$ a$
1*m" m'/*$ “trata-se$ de$ uma$ incursão$ musical$ e$ estética$ dentro$ do$ KX&FK)1J" muito$
arreigada$ ao$ K)1J" nova-iorquino$ que$ acentua$ a$ aproximação$ do$ B$-J" com$ a$ música$
K$K:$ música$ melódica,$ sintetizadores$ e$ bateria$ eletrónica”$ (Guerra,$ 2010:$ 146).$ Ou$
seja,$ a$ 1*m" m'/*$ trouxe$ uma$ abordagem$ renovada$ à$ K$K)+'B" .)&0-,$ especialmente$
assente$na$exploração$do$movimento$do$corpo$e$em$ritmos$mais$dançáveis$(Lyttle$&$
Montagne,$1992),$mas$tentando,$ao$mesmo$tempo,$recuperar$o$poder$afetivo$do$B$-J"
'1%"B$++$(Grossber,$1984).$No$Reino$Unido,$Manchester$foi$um$palco$privilegiado$para$o$
desenvolvimento$da$1*m"m'/*,$essencialmente,$porque$a$cidade$parecia$reunir$muitos$
$
157$
aspetos$ negativos$ da$ vivência$ urbana,$ tais$ como$ a$ poluição,$ uma$ arquitetura$
desagradável$e$toda$uma$envolvente$insípida,$levando$a$que$os$jovens$fossem$buscar$
inspiração$a$“qualquer$estímulo$que$podiam$encontrar:$moda,$livros,$música$esotérica,$
droga”$(Reynolds,$2006:174-175).$Segundo$Bramley$(2019),$na$1*m"m'/*$o$“(...)$desejo$
de$ navegar$ entre$ o$ caos$ e$ a$ ordem$ é$ uma$ característica$ da$ performance,$ que$
compartilha$ terreno$ comum$ com$ o$ experimentalismo$ musical$ de$ manifestações$
anteriores$do$pós-K)1J”$(Bramley,$2019:$9).$Mais$do$que$simplesmente$música,$a$1*m"
m'/*$ no$ Reino$ Unido$ abrangeu$ a$ experimentação$ com$ a$ palavra$ falada$ e$ a$ arte$
performativa,$tendo$também$influenciado$outros$artistas$como,$por$exemplo,$o$poeta$
John$Cooper$Clarke$(Hanscomb,$2020).$$
Nos$Estados$Unidos$este$fenómeno$musical$popularizou-se$sob$a$designação$%*"
1$" m'/*$ (Guerra,$ 2010),$ na$ medida$ em$ que$ assentava$ na$ negação$ da$ sua$ própria$
existência$(Masters,$2007)$a$partir$de$uma$perspetiva$niilista$mais$acentuada.$Tal$como$
Masters$(2007)$argumenta$“para$os$1$"m'/*B&,$“Não”$não$é$apenas$uma$negação,$mas$
uma$contradição$–$uma$forma$de$dizer$que$quem$quer$que$sejamos,$somos$também$o$
oposto$ (Masters,$ 2007:$ 16).$ Segundo$ Prinz$ (2014),$ nesta$ música$ “os$ temas$ comuns$
incluem$ decadência,$ desespero,$ suicídio$ e$ colapso$ social”$ (Prinz,$ 2014:$ 585).$ Esta$
ideologia$ encontrava-se,$ de$ igual$ modo,$ relacionada$ com$ as$ próprias$ circunstâncias$
sociais$ americanas$ do$ período,$ (em$ especial$ da$ cidade$ de$ Nova$ Iorque),$ que$ se$
caracterizavam$pela$presença$de$realidades$de$pobreza$e$degradação,$e$que$acabaram$
por$impulsionar$múltiplos$artistas$de$diferentes$domínios$a$enveredar,$também,$pela$
música$ (Masters,$ 2007).$ Assim,$ “(...)$ para$ os$ 1$" m'/*B&" a$ questão$ central$ era$
precisamente$fazer$música$e$não$aprendê-la$primeiro”$(Guerra,$2010:$148).$Esta$onda$
também$ se$ demarcou$ da$ dimensão$ comercial,$ uma$ vez$ que$ se$ focava$ numa$
desconstrução$do$B$-J$que$ retirava$dele$“(…)$o$ barulho,$a$falta$de$ melodia$e$tudo$o$
que$não$podia$ser$considerado$musical”$(Guerra,$2010:$148).$No$entanto,$
$
1D$"%*0n'"%*"&*B"'&&).0%$"()*"*."#*B.$&".)&0-'0&"$&"LB)K$&"
%*" 1$" m'/*" K$)-$" #M." *." -$.).," K'B'" '+E." %'" &)'" -B*1C'"
1).'" ')&M1-0'" %*" -$.KB$.0&&$&" -$." ()'+()*B" K'%BD$" $)"
-$1/*1CD$‡" &*1#*.F&*" W'Z*1%$" K'B#*" %*" '+L$" ()*" K'B#0+U'.,"
$
158$
.'&"1D$"&*"&*1#*."-'K'Z*&"%*"01W+)*1-0'B*.")1&"'$&"$)#B$&"%*"
W$B.'"/01-'%'"(Guerra,$2010:$148)."
$
Também$o$B$-J$alternativo28,$como$vimos,$tem$as$suas$fundações$no$pós-K)1J$
e$ recobre$ uma$ pluralidade$ de$ géneros$ e$ suas$ subsequentes$ apropriações$
marcadamente$de$mescla,$de$cruzamento$e$de$hibridismo”$(Guerra,$2010:$187).$Neste$
sentido,$ o$ B$-J$ alternativo,$ caracterizava-se$ pela$ “(...)$ fluidez$ das$ fronteiras$ entre$ os$
géneros,$as$diferentes$naturezas$de$classificação$e$as$dificuldades$de$incluir$diferentes$
expressões$musicais$em$uma$mesma$categoria”$(Marques,$2005:$98).$Por$essa$razão,$
Shuker$(1999)$afirma$que$o$B$-J$alternativo$poderia$ser$considerado$um$metagénero$
musical,$ na$ medida$ em$ que$ englobaria$ diferentes$ estilos$ dentro$ da$ sua$ composição.$
Para$Kruse$(1993),$a$música$alternativa$implicava,$então,$singularidade$não$apenas$na$
música,$ mas$ também$ no$ lado$ das$ audiências,$ porque,$ não$ havendo$ uma$ matriz$
definida,$ a$ música$ e$ as$ práticas$ que$ daí$ resultavam$ eram$ distintas$ de$ projeto$ para$
projeto.$ É$ também$ neste$ âmbito,$ que$ outro$ aspeto$ importante$ desta$ corrente$ se$
prende$com$a$sua$pureza,$ou$seja,$com$o$seu$afastamento$face$às$lógicas$de$mercado$
(Grossberg,$ 1994;$ Hesmondhalgh,$ 1999),$ como$ que$ assumindo$ uma$ posição$ anti-
indústria$ musical$ (Kent,$ 2006).$ Este$ selo$ de$ independência$ que$ marca$ todo$ o$
movimento$ pós-K)1J$ encontrava-se,$ assim,$ estritamente$ relacionado$ com$ a$ procura$
“de$ uma$ criação$ livre$ de$ imperativos$ mercadológicos$ e,$ exatamente$ por$ isso,$ mais$
verdadeira$ em$ comparação$ com$ os$ outros$ tipos$ de$ música”$ (Marques,$ 2005:$ 95).$ E$
essa$ criação$ era$ desenvolvida,$ efetivamente,$ com$ base$ nas$ editoras$ independentes$
que$se$começaram$a$popularizar$neste$período:$
$"1f.*B$"%*".'B-'&"01%*K*1%*1#*&"e.'B-'&"-)i$"KB$%)#$"1D$"
E" B*-$1U*-0%$," 01%)&#B0'+0Z'%$," $)" %0&#B0I)c%$" K*+$&" KB01-0K'0&g"
'&-*1%*)"%*&%*"$&"W01'0&"%$&"'1$&"GQ,"*."K'B#0-)+'B"K'B'"+0%'B"
-$." '&" I'1%'&" %*" K)1J" B$-J" ()*" *&#'/'." KB*&#*&" '" &*B"
*n-+)c%'&" %$&" KB01-0K'0&" .*B-'%$&" %*" KB$%)CD$" *" %0&#B0I)0CD$,"
%*&%*" '" Bb%0$" *" $&" .E%0'" *" $" B*&#'1#*" mainstream$(Arnold,$
1993:52).$
"
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
28 Mais tarde, já na década de noventa, viria a obter também a designação de
indie rock.
$
159$
Dentro$do"B$-J$alternativo,$também$a$busca$de$sensações$e$intensidade$são$atributos$
comuns$(Pimentel$*#"'+,$2014),$que$muitas$vezes$são$expressos$através$de$uma$lógica$
hedonista.$Esta$realidade$tem$vindo$a$intensificar-se$até$aos$dias$de$hoje$e$expressa-
se,$ de$ acordo$ com$ Pais$ (1999),$ através$ de$ diferentes$ aspetos$ tais$ como:$ a$
“omnivoridade$consumista”,$que$se$prende$com$a$proliferação$de$valores$hedonistas$e$
estimula$ a$ uma$ socialização$ cada$ vez$ mais$ feita$ através$ do$ consumo;$ o$ “declínio$ da$
ética$moral$do$dever”;$“a$precariedade$nómica$dos$valores”,$isto$é,$a$interpretação$da$
realidade$de$acordo$com$princípios$flexíveis,$plurais$e$inconstantes;$a$“conflitualidade$
crescente$em$relação$a$valores$do$mundo$da$intimidade”,$como$é$o$caso$do$aborto,$da$
sexualidade,$do$consumo$de$drogas,$ etc.$e,$finalmente,$a$“valorização$ do$ espírito$de$
aventura$e$da$ética$de$experimentação”$(Pais,$1999:$42-46).$
$
XM;MAM!U#+8*+&!f#7%06+3%+!#!4(*•#(#+!-%08#34%(90#%+!
Foi,$essencialmente,$a$partir$das$subculturas$juvenis$do$pós-guerra,$que$a$celebração$
de$ valores$ como$ o$ hedonismo$ ou$ o$ experiencialismo$ materializado$ através$ do$
consumo$e$do$uso$do$corpo$se$afirmou,$em$particular,$como$tentativa$de$desafiar$os$
limites$ sociais$ e$ atingir$ a$ satisfação$ pessoal$ (Ferreira,$ 2009).$ Neste$ contexto,$ esta$
celebração$ assentava$ numa$ lógica$ festiva$ da$ vida,$ como$ modo$ de$ expressão$ de$
vitalidade$ e$ de$ energia$ criativa$ (Caillois,$ 1961).$ Perante$ o$ cenário$ de$ modernidade$
tardia$ contemporânea$ caracterizado$ pela$ fluidez$ de$ barreiras,$ pela$ incerteza$
existencial$ e$ por$ uma$ busca$ incessante$ por$ sensações$ de$ intensidade,$ os$ jovens$
tendem,$ cada$ vez$ mais,$ a$ responder$ com$ excessos$ nos$ seus$ consumos,$ nas$ suas$
experiências$ ou$ nas$ suas$ aparências,$ independentemente$ dos$ riscos$ que$ isso$ lhes$
possa$trazer,$de$acordo$com$esta$lógica$de$celebração$(Ferreira,$2009).$Nesta$medida,$
$
é"nessa" ótica"que"o"espaço"liso" e"disponível"do" corpo"humano"
vem$ tomar$ um$ valor$ fundamental$ como$ operador$ expressivo,$
um# corpo# que# é# socialmente# percebido,# mobilizado# e# vivido#
-$.$" )." B*-)B&$" '" *nK+$B'B" 1'&" &)'&" /bB0'&" K$#*1-0'+0%'%*&"
K+b&#0-'&," -01E#0-'s" e" sensoriais," suscetível" de" ser" moldado,"
$
160$
*nK*B0.*1#'%$," *n-0#'%$," 01#*1&0W0-'%$" '#B'/E&" %*" KBb#0-'&" *"
-$1&).$&" /bB0$&" F" .f&0-'," %'1C'," %*&K$B#$," &*n$," %B$L'&,"
I*I0%'&"'+-$X+0-'&,"*#-2"=&&'&"&D$"'#0/0%'%*&"()*"$K*B'."-$.$"
01LB*%0*1#*&"B*+*/'1#*&"1'"~'B#*"%*"I*."/0/*B•"%*&&*&"i$/*1&,"*"
()*" +U*&" K*B.0#*." )." .)1%$" %*" &*1&'Cd*&" *" *nK*B0M1-0'&"
01#*1&'&"1'"&)'"B*+'CD$"-$."$".)1%$"(Ferreira,$2009:$180)."
$
É$sabido,$que$ao$longo$da$história$da$música$em$geral$e$do$B$-J$em$particular,$
como$vimos,$muitos$artistas$têm$vindo$a$ser$associados$-$seja$através$da$música,$das$
capas$dos$discos$ou$dos$vídeoclipes$-$a$rebeliões$agressivas$e$hostis,$a$abuso$de$drogas$
e$ álcool,$ a$ sexualidade$ irresponsável,$ a$ perversões$ sexuais,$ a$ violência$ e$ a$
envolvimento$ no$ ocultismo$ (Grossberg,$ 1993).$ No$ seio$ desta$ relação$ entre$ música,$
droga$e$sexo,$nomeadamente$ na$ música$B$-J,$os$festivais$ têm$vindo$a$alcançar$ uma$
real$importância$nesta$análise,$uma$vez$que$se$tornaram$em$espaços$privilegiados$para$
este$tipo$de$práticas.$O$Festival$de$Woodstock,$como$vimos,$inaugurou$uma$nova$era$
nos$festivais$de$música$ao$ar$livre,$marcada$por$uma$intensa$liberdade$consumista$e$
sexual.$ Esta$ ideologia$ coletiva$ de$ paz$ e$ amor$ resultou,$ então,$ na$ materialização$ de$
muitas$ experiências$ individuais$ e$ coletivas$ de$ consumo$ e$ sexo$ durante$ este$ tipo$ de$
eventos,$ que$ exaltavam$ um$ modo$ de$ vida$ hedonista$ (Santos,$ 2018).$ Doug$ Owram$
(1996)$afirma$que$o$sexo$antes$do$casamento$e$a$música$B$-J,$duas$das$características$
definidoras$da$contracultura,$foram$aceites$pela$sociedade$como$um$todo$em$1973,$e$
que$ até$ mesmo$ as$ drogas$ leves$ deixaram$ de$ ser$ um$ drama,$ embora$ muitas$
continuassem$a$ser$ilegais$nesse$período.$Então,$de$uma$forma$geral,$
$
$&" W*&#0/'0&" %*" .f&0-'" B$-J" B*)10B'." .)+#0%d*&" ()*"
&$IB*-'BB*L'B'."'"K$+c-0'"+$-'+"*"'&"-$.)10%'%*&"B)B'0&,"$"()*"
K*B.0#0)"()*" 01%0/c%)$&"*nK*B0.*1#'&&*."%B$L'&"K&0-'%E+0-'&,"
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K*&&$'&" ()*" B*-*I*B'." '" .*&.'" K*B.0&&0/0%'%*g" (Bendure,$
2017:$1)."
$
De$facto,$ao$longo$da$história,$os$festivais$têm-se$afirmado$como$importantes$
meios$de$promoção$da$participação$social$e$cultural,$de$celebração$do$tempo-espaço$e$
da$partilha$de$valores,$ ideologias,$mitologias$e$crenças$ que$são$fundamentais$para$ a$
$
161$
estruturação$ das$ comunidades$ e$ da$ sociedade$ (Guerra,$ 2016;$ Nunes,$ 2019).$ E$ na$
sociedade$ contemporânea,$ este$ tipo$ de$ eventos$ permitem$ não$ só$ a$ expressão$ de$
identidades$ culturais$ e$ de$ estilos$ de$ vida$ dos$ jovens$ (Bennett,$ 2004;$ Bennett$ *#" '+2,$
2014;$ McKay,$ 2000),$ como$ também$ constituem$ “a$ expressão$ por$ excelência$ das$
dinâmicas$ tensionais$ (fragmentação$ vs.$ globalização,$ comunidade$ vs.$ mobilidade,$
pertença$vs.$anonimato)$da$construção$identitária$e$cultural$no$século$XXI”$(Guerra$*#"
'+2,$ 2017:$ 2).$ No$ seio$ deste$ fenómeno$ de$ festivalização$ cultural$ atual,$ os$ jovens$
desempenham$um$papel$preponderante$como$participantes$fundamentais$neste$tipo$
de$ práticas$ de$ lazer$ e$ consumo.$ E,$ uma$ vez$ que$ os$ festivais$ tendem$ a$ constituir-se$
como$eventos$ organizados$antecipadamente$ e$aguardados$ com$muita$ expetativa,$os$
jovens$parecem$compreendê-los$como$uma$pausa$nas$suas$rotinas$quotidianas$e$como$
uma$eventual$ocasião$para$o$uso$de$álcool$e$drogas$(Borlagdan$*#"'+2,$2010;$Luckman,$
2003).$Embora$ alguns$autores$ não$ concordem$ que$ os$consumos$ psicotrópicos$sejam$
uma$ parte$ central$ na$ investigação$ sobre$ a$ participação$ em$ festivais$ (Gilmore,$ 2010;$
Tramacchi,$ 2000),$ é$ inegável$ ignorar$ a$ sua$ importância$ na$ aplicação$ e$ exaltação$ de$
valores$ hedonistas$ por$ parte$ da$ juventude.$ As$ próprias$ localizações$ dos$ festivais,$
nomeadamente$em$ambientes$mais$rurais,$tendem$a$produzir$e$facilitar$as$conexões$
com$ outras$ pessoas$ e$ a$ natureza,$ permitindo$ que$ diferentes$ normas$ e$ identidades$
surjam,$incluindo$aquelas$em$torno$do$uso$de$drogas$(Gilmore,$2010;$Luckman,$2003;$
Tramacchi,$2000).$$
De$ facto,$ estes$ espaços$ de$ lazer$ comodificados,$ cujos$ festivais$ representam,$
talvez,$ o$ melhor$ dos$ exemplos,$ permitem$ que$ os$ participantes$ se$ sintam$ livres$ das$
restrições$ da$ vida$ diária,$ para$ se$ comportarem$ de$ uma$ forma$ não$ governada$ pelas$
normas$ sociais$ convencionais,$ e$ adotem$ práticas$ hedonistas$ que$ lhes$ permitam$
expressar$o$seu$verdadeiro$“eu”$(Kim$&$Jamal,$2007;$Pielchaty,$2015).$Dentro$dessas$
práticas,$não$só$os$consumos$psicotrópicos$são$evidentes,$como$vimos,$mas$também$
as$práticas$sexuais.$Em$matéria$de$busca$por$sensações$e$intensidade$através$do$sexo,$
de$acordo$com$Frith$e$McRobbie$(1978),$o$B$-J$opera$como$uma$forma$de$expressão$
sexual$ e$ o$ trabalho$ ideológico$ mais$ importante$ realizado$ pelo$ B$-J$ reside$ na$
construção$individual$e$coletiva$da$sexualidade.$Além$disso,$o$B$-J$também$contribui$
$
162$
para$o$processo$mais$difuso$da$sexualização$do$lazer$em$geral,$incorporando$produtos$
e$ atividades$ do$ mercado$ capitalista.$ Em$ ambientes$ festivos,$ como$ é$ o$ caso$ dos$
festivais,$os$jovens$tendem$a$experienciar$um$sentido$de$comunidade$profundamente$
intenso,$ que$ lhes$ transmite$ confiança$ para$ praticar$ e/ou$ experimentar$
comportamentos$ de$ risco$ que$ envolvem,$ frequentemente,$ a$ prática$ de$ sexo$
desprotegido$(Commons$*#"'+2,$1999).$O$próprio$consumo$de$substâncias$psicotrópicas$
neste$tipo$de$ambientes$pode$acabar,$de$igual$modo,$por$aumentar$as$práticas$sexuais$
de$ risco$ nos$ indivíduos$ (Feltmann$ *#" '+,$ 2019).$ Não$ obstante$ estas$ práticas$
performativas$festivas,$subversivas$e$transgressoras,$neste$tipo$de$eventos$
$
'" K*BW$B.'#0/0%'%*" %*&#*BB0#$B0'+0Z'" *" I'B'+U'" #$%'&" '&"
B*W*BM1-0'&,"K$0&"#*."*."&0"$"'#$"()*"E"#'.IE."*."&0,"01W'.*2"
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K*BW$B.'1-*"%*")."K$/$"W*&#0/$,"'1)1-0'%$B"%$"-'$&"*"W$B'"%'"
+*0"(Correia,$2015:$2)."
$
Em$suma,$uma$vez$que$o$apelo$sexual$e$psicotrópico$é$central$para$os$modos$
pelos$quais$o$B$-J$é$produzido,$comercializado$e$consumido,$essa$dimensão$deve$ser,$
igualmente,$tida$em$linha$de$conta$na$compreensão$e$explicação$das$práticas$juvenis$
contemporâneas$ em$ contextos$ festivos.$ Estes$ espaços$ de$ lazer$ constituem-se,$ como$
vimos,$ como$ locais$ potencialmente$ permissivos$ para$ fãs$ e$ músicos,$ cujos$ problemas$
são$momentaneamente$esquecidos$e$substituídos$por$atividades$evasivas$de$diversão,$
expressão$e$liberdade.$
$
XM@M!"#$%&!7(%)*+!#!rock’n’roll!‚!4%(85)5#+*!
$
$
163$
Em$ Portugal,$ o$ historial$ da$ psicoatividade$ remonta$ à$ década$ de$ sessenta,$ época$ de$
manifestações$estudantis$e$de$novas$formas$de$estar$e$de$viver.$Segundo$Costa$(2007),$
é$ já$ possível$ observar$ nos$ anos$ de$ 1960$ os$ precursores$ da$ preocupação$ dos$
dispositivos$de$poder$face$a$este$fenómeno.$Quintas$(1997)$verifica$no$mesmo$período$
a$formação$de$grupos$juvenis$inspirados$no$movimento$U0KK0*,$que$assumem$como$um$
dos$seus$traços$identitários$o$uso$de$drogas.$De$igual$modo,$Ribeiro$(1999)$afirma$que$
o$consumo$de$determinadas$substâncias$remonta$ao$início$da$Guerra$Colonial,$porém,$
em$ Portugal,$ “até$ ao$ início$ da$ década$ de$ setenta,$ a$ droga"não$ constituiu,$ nem$ uma$
referência$ colectiva,$ nem$ um$ problema$ social”$ (Marques,$ 2008:$ 46).$ De$ acordo$ com$
Poiares$(1995),$as$primeiras$leis$sobre$o$fenómeno$da$droga$em$Portugal$remontam$ao$
paradigma$fiscal$de$1914$a$1970$e$tinham$como$principal$objetivo$a$implementação$de$
acordos$ internacionais$ assumidos$ por$ Portugal,$ nomeadamente$ as$ Conferências$ de$
Xangai$(1909)$e$ de$Haia$(1011-1912).$ Estas$leis$limitavam-se,$ na$época,$a$ fiscalizar$o$
comércio$deste$tipo$de$substâncias,$uma$vez$que$não$era$evidente$ainda$um$perfil$de$
consumidor$(Marques,$2008).$Ou$seja,$“os$consumos$estavam$delimitados$a$uma$elite$
que$ não$ entrava$ em$ conflito$ com$ a$ ordem$ instituída,$ não$ necessitava$ de$ recorrer$ a$
crimes$ para$ assegurarem$ o$ consumo$ e,$ talvez,$ por$ isso,$ a$ lei$ não$ incriminava$
diretamente$o$ato$de$consumir$drogas”$(Marques,$2008:$47).$$
Contudo,$ só$ no$ início$ dos$ anos$ de$ 1970$ é$ que$ se$ encontram$ as$ primeiras$
manifestações$de$teor$político$face$à$droga$(Monteiro,$2013),$uma$vez$que$“os$anos$
setenta$em$Portugal$foram$a$expressão$de$profundas$mudanças$político-institucionais,$
económicas$ e$ socioculturais$ que$ se$ constituíram$ como$ referências$ essenciais$ à$
caracterização$ do$ fenómeno$ da$ droga$ no$ país”$ (Dias,$ 2007:$ 34).$ Nesta$ década,$ é$
publicada,$igualmente,$uma$nova$lei$substantiva$ das$drogas$(Decreto$Lei$n.o$420/70,$
de$ 5$ de$ setembro),$ que$ passa$ a$ penalizar$ o$ seu$ utilizador$ com$ prisão$ até$ dois$ anos$
(Marques,$ 2008),$ como$ vemos$ no$ excerto$ publicado$ na$ Figura$ 3.1.$ É$ nesta$ década,$
também,$ que$ a$ droga$ surge,$ pela$ primeira$ vez,$ como$ objeto$ de$ discurso$ político,$
nomeadamente$ na$ mensagem$ de$ ano$ novo$ do$ então$ Presidente$ da$ República,$
Américo$Thomaz$(Costa,$2007;$Poiares,$ 1995).$Neste$contexto,$“quando,$ em$ meados$
dos$anos$setenta$os$usos$de$substâncias$psicoativas$conheceram$uma$forte$expansão$
$
164$
em$ Portugal,$ vários$ dispositivos$ de$ gestão$ do$ social$ desmultiplicaram-se$ num$ labor$
discursivo,$ que$ no$ seu$ conjunto,$ definiu$ os$ contornos$ do$ “problema$ da$ droga””$
(Fernandes,$ 1995:$ 22).$ Assim,$ nos$ primeiros$ anos$ da$ década$ de$ setenta,$ as$ drogas$
começam$ a$ ser$ percebidas$ como$ um$ elemento$ crucial$ para$ a$ explicação$ de$ diversos$
acontecimentos,$que$vêm$questionar$a$ordem$social$estabelecida,$tais$como$as$greves$
e$ os$ movimentos$ estudantis,$ que$ pressionam$ e$ antecedem$ a$ queda$ do$ regime$
salazarista$(Dias,$2007).$
! ! U6)5(*!XM;M!D$-#(8%!7%!'#-(#8%?F#6!0Mp!`@>jZ>!
$$$$$$$$Fonte:$:0bB0$"%'"3*KfI+0-'"=+*#BX10-$29.$
$
A$questão$da$sexualidade$foi$alvo$de$desvalorização$no$âmbito$da$investigação$
sociológica$ em$ Portugal$ até$ ao$ final$ do$ século$ XX$ (Pais,$ 1998).$ Relativamente$ ao$
percurso$sexual$do$nosso$país,$Freire$(2013)$identifica$dois$momentos$importantes$das$
vivências$ de$ intimidade$ dos$ portugueses:$ “um$ primeiro$ profundamente$ conservador$
(1930-1950),$um$segundo$tendencialmente$reformador$(entre$finais$de$1950$e$1970)”$
(Freire,$ 2013:$ 57).$ Como$ sabemos,$ estes$ dois$ períodos$ temporais$ em$ Portugal$
corresponderam$a$um$momento$político$totalitário$e$a$uma$sociedade$profundamente$
conservadora,$católica$e$rural$(Wall,$2005).$Portanto,$neste$contexto,$“só$a$sexualidade$
vivida$dentro$do$casamento,$obviamente$heterossexual$e$destinada$primordialmente$à$
reprodução$e$à$constituição$de$uma$família,$era$publicamente$aceitável”$(Aboim,$2013:$
10).$ Durante$ o$ período$ Salazarista,$ como$ sugere$ Aboim$ (2013),$ a$ moral$ católica$ do$
Estado$aplaudia$à$castidade$e$virtude$femininas,$bem$como$à$vocação$procriadora$do$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
29 Consultar em:
https://dre.pt/web/guest/pesquisa/-/search/148827/details/normal?q=decreto+lei+420%2F70$
$
165$
casal,$ estigmatizando$ aqueles$ que$ fugissem$ a$ estas$ normas$ sociais.$ Segundo$ Neves$
(2013),$ as$ taxas$ de$ natalidade$ nesta$ época$ eram$ elevadas$ e$ o$ perfil$ demográfico$ da$
população$ portuguesa$ revelava-se$ jovem$ ou$ pouco$ envelhecido.$ Relativamente$ aos$
padrões$ de$ escolarização,$ em$ 1960,$ 65,6%$ da$ população$ com$ 15$ ou$ mais$ anos$ não$
alcançava$qualquer$nível$de$escolaridade$e$a$população$a$frequentar$o$ensino$superior$
era$ apenas$ de$ 26.000$ pessoas$ (Barreto,$ 2005).$ Ainda,$ de$ acordo$ com$ Almeida$ *#" '+$
(2004),$a$Lei$nº.$32171$de$1942$preconizou$a$ilegalização$da$contraceção$em$Portugal$
até$após$a$Revolução,$como$vemos$no$excerto$presente$na$Figura$3.2.,$embora$a$pílula$
fosse$utilizada$como$um$método$de$regulação$do$ciclo$menstrual.$Por$isso,$até$à$data,$
o$ 4L01$v61')&$ (o$ método$ do$ calendário)$ era$ a$ única$ forma$ contracetiva$ permitida$
pelo$ Vaticano,$ e$ todas$ as$ outras$ (preservativos,$ pressários,$ espermicidas)$
encontravam-se$interditas$aos$católicos”$(Freire,$2013:$59).$Ainda$em$1975,$morriam$
cerca$ de$ oitenta$ mulheres$ por$ ano$ em$ Portugal,$ em$ consequência$ de$ abortos$
clandestinos$ (Rebelo,$ 1987)$ e$ verificava-se$ uma$ elevada$ falta$ de$ assistência$ médica$
pré-natal$e$de$partos$realizados$em$meio$hospitalar$(o$que$se$traduzia,$naturalmente,$
em$taxas$de$mortalidade$infantil$significativas).$Porém,$apesar$dos$desígnios$morais$da$
sociedade,$a$realidade$sexual$dos$portugueses$era$outra:$
$
4" &*n$" W$B'" %$" -'&'.*1#$," $"1f.*B$" -$1&0%*Bb/*+" %*" W0+U$&"
0+*Lc#0.$&," '" KB$&#0#)0CD$," '" U$.$&&*n)'+0%'%*," *1#B*" $)#B'&"
#'1#'&"KBb#0-'&,"&*.KB*"*n0&#0B'.,".'&" ()'1#$".'0&"*&-$1%0%'&"
*&#0/*&&*." %$" $+U'B" KfI+0-$," #'1#$" .*+U$B2" 7'0&" KB$#*L0%'&"
W0-'B0'." '&" .)+U*B*&" %*" &*" /*B*." -'c%'&" *." %*&LB'C'2" 7'0&"
+0/B*&"W0-'B0'."$&"U$.*1&"%*"/*B*."'"&)'"&*n)'+0%'%*"*"/0B0+0%'%*"
U*#*B$&&*n)'+" K$&#'&" *." -')&'" 1'" KB'C'" KfI+0-'," $1%*"
-*B#'.*1#*"&*B0'."$Ii*#$"%*"%*&-$1W0'1C'"*".*&.$"%*"*&-bB10$$
(Aboim,$2013:$11).$
$
$
$
$
$
$
166$
!!!!!!!!!!!!!!!!!!! ! U6)5(*!XM@M!D$-#(8%!7%!'#-(#8%?F#6!0Mp!X@;Z;!
$$$$$$Fonte:$:0bB0$"%'"3*KfI+0-'"=+*#BX10-$OQ.$
$
Até$ finais$ dos$ anos$ sessenta,$ o$ papel$ da$ mulher$ encontrava-se$
maioritariamente$ vinculado$ ao$ quotidiano$ doméstico$ e$ as$ próprias$ estruturas$ do$
Estado,$Igreja$Católica,$família,$escola$e$média$“convergiam$na$missão$de$aconselhar$o$
sexo$ feminino$ (mulheres$ solteiras$ e$ casadas)$ para$ o$ escondimento$ do$ corpo,$ o$
apagamento$ da$ sensualidade,$ a$ proibição$ do$ erotismo$ e$ a$ diabolização$ do$ prazer”$
(Freire,$2013:$58).$Ao$homem$estava$reservada$a$responsabilidade$de$zelar$pela$esposa$
e$pela$família.$O$ato$sexual$era$considerado,$nesta$época,$uma$prática$rotineira$e$era$
aconselhado$o$seu$exercício$na$posição$do$missionário$(a$única$abençoada$pela$Igreja,$
por$ supostamente$ facilitar$ a$ fecundação)$ e$ reprovadas$ outras$ práticas$ sexuais,$
nomeadamente$ o$ sexo$ oral$ (Guinote,$ 1997).$ Ainda$ durante$ esta$ década,$ o$ divórcio$
oficial$encontrava-se$interdito$aos$cônjuges$casados$pela$Igreja,$através$da$Concordata$
assinada$pelo$Estado$Português$e$a$Santa$Sé$em$1940,$cujo$artigo$XXIV$definia$que$“os$
cônjuges$ renunciarão$ à$ faculdade$ civil$ de$ requererem$ o$ divórcio,$ que$ por$ isso$ não$
poderá$ser$aplicado$pelos$tribunais$civis$aos$casamentos$católicos”31$(Maglione$*#"'+,$
1940).$Portanto,$“desta$situação$legal$que$perdura$até$1974,$surgem$os$filhos$de$mãe$
incógnita,$crianças$nascidas$de$segundas$relações,$mas$que$não$podiam$ser$registadas$
nos$ nomes$ das$ suas$ progenitoras,$ pela$ irrevogabilidade$ do$ casamento”$ (Guinote,$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
30$$Consultar: https://dre.pt/web/guest/pesquisa/-/search/315369/details/normal?q=decreto+lei+32171$
31$$Concordata entre a Santa Sé e a República Portuguesa, disponível em:
https://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/archivio/documents/rc_seg-st_19400507_santa-
sede-portogallo_po.html$
$
167$
1997:$58).$No$Anuário$Demográfico$de$1959$das$Nações$Unidas,$Portugal$era$mesmo$o$
país$ da$ Europa$ com$ mais$ nascimentos$ ilegítimos,$ que$ resultavam$ igualmente$ de$
relações$clandestinas$ ou$efémeras$ (Aboim,$ 2013).$Também$ durante$este$ período,$ os$
divorciados$ eram$ vítimas$ de$ reprovação$ social$ e,$ muitas$ vezes,$ afastados$ de$
determinados$eventos$e$convivialidades$(Freire,$2013).$$
Contudo,$ foi$ a$ partir$ da$ década$ de$ sessenta$ que$ os$ casais$ portugueses$
começaram$ a$ reduzir$ efetivamente$ o$ número$ de$ filhos,$ “como$ uma$ estratégia$ de$
adaptação$ aos$ limitados$ recursos$ económicos$ familiares$ típicos$ de$ um$ país$ da$
chamada$periferia$do$centro,$caracterizado$por$baixos$níveis$salariais”$(Vilar,$2009:$13).$
De$ facto,$ além$ desta$ redução$ no$ número$ de$ filhos,$ também$ um$ maior$ controlo$ da$
fecundidade$ associado$ à$ melhoria$ do$ sistema$ de$ saúde$ pública$ nacional$
acompanharam$ o$ forte$ envolvimento$ das$ mulheres$ no$ mercado$ de$ trabalho,$ o$ que,$
por$ sua$ vez,$ constituiu$ uma$ condição$ fundamental$ para$ uma$ melhoria$ dos$ níveis$ de$
vida$das$famílias$portuguesas$e,$em$muitos$casos,$para$a$ascensão$a$condições$de$vida$
mais$aceitáveis$(Wall,$2005).$Também$a$expansão$do$ensino$a$um$número$crescente$
da$população$portuguesa,$ particularmente$nos$meios$urbanos,$ permitiu$a$quebra$ de$
alguns$ constrangimentos$ do$ corpo$ feminino,$ nomeadamente$ através$ da$ presença$
feminina$ em$ novos$ espaços$ como$ a$ universidade,$ o$ local$ de$ trabalho,$ o$ café$ ou$ os$
estabelecimentos$ noturnos$ (Ferreira,$ 2009).$ No$ final$ da$ década,$ precisamente$ em$
1967,$é$ainda$criada$a$Associação$para$o$Planeamento$da$Família$(AFP),$(embora$com$
antipatia$ do$ Estado$ e$ da$ Igreja),$ que$ “teve$ um$ papel$ pioneiro$ na$ divulgação$ do$
conceito$ de$ maternidade/paternidade$ responsáveis,$ assim$ como$ na$ defesa$ dos$
direitos$da$saúde$sexual$e$reprodutiva$dos$cidadãos$(Marreiros,$2007:$37).$
Em$1971$é$de$realçar$a$realização$da$primeira$grande$edição$do$Festival$de$Vilar$
de$Mouros,$onde$decorre,$igualmente,$a$primeira$demonstração$coletiva$de$consumo$
de$substâncias$ilícitas$em$Portugal$(Poiares,$1995;$Ribeiro,$1999;$Marques,$2008).$No$
mesmo$ano,$é$lançada$a$primeira$campanha$nacional$contra$a$droga,$onde$figurava$o$
célebre$ &+$L'1" :B$L'F\$)-)B'F7$B#*$ (Monteiro,$ 2013).$ Esta$ campanha$ visou,$
sobretudo,$ a$ afixação$ de$ cartazes$ maioritariamente$ na$ cidade$ de$ Lisboa,$ que$
ostentavam$uma$caveira$sob$um$fundo$negro$e$com$as$iniciais$da$conhecida$substância$
$
168$
LSD$ (Poiares,$ 1995).$ Contudo,$ esta$ campanha$ acabou$ por$ não$ produzir$ os$ efeitos$
desejados$ de$ inquietação$ social$ acerca$ da$ problemática$ da$ droga$ na$ sociedade$
portuguesa$(Agra,$1995)$e$acabou,$até,$por$despertar$o$interesse$juvenil$pelo$consumo$
deste$tipo$de$substâncias$(Fernandes,$1993).$Neste$sentido,$
$
'"%B$L'"-$.*C$)"'"&*B"*1#*1%0%'"1'"K*B&K*-#0/'"*&#'#'+"-$.$"
)." W'-#$B" *&&*1-0'+" %*" &)K$B#*" S&" #*$B0'&" *nK+0-'#0/'&" %$&"
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*&#'I*+*-0%'"-$.$"LB*/*&,".$/0.*1#$&" *&#)%'1#0&,"'$".*&.$"
#*.K$"()*"E"'&&$-0'%'"S"+$)-)B'"*"S".$B#*"(Dias,$2007:$35).$
!
XM@M;M!,#e%15z{%&!'(%)*&!F%5-5(*!#!P%(8#!
$
Mais$ tarde,$ já$ no$ período$ que$ se$ seguiu$ à$ revolução,$ o$ regresso$ das$ ex-colónias$ ao$
continente$ trouxe$ consigo$ a$ prática$ de$ consumir$ determinadas$ substâncias,$ entre$ as$
quais$ a$ liamba,$ e$ os$ consumos$ saltam$ da$ esfera$ privada$ para$ se$ tornarem$ públicos$
(Quintas,$1997).$Esta$expressão$cada$vez$mais$visível$na$sociedade$portuguesa$trouxe$
consigo$ novas$ linguagens$ e$ práticas$ associadas$ aos$ consumos,$ como$ vemos$ no$
exemplo$ da$ Figura$ 3.3.$ num$ artigo$ acerca$ da$ nova$ linguagem$ juvenil$ em$ torno$ do$
consumo$de$drogas,$que$envolve$termos$como$#B0K,$“ressaca”,$“passa”$ou$“pedrada”$e$
os$associa$à$subcultura$B$-J,$cuja$“introdução$de$palavras$relacionadas$com$o$consumo$
de$drogas$nas$canções$B$-J$não$é$uma$originalidade$portuguesa”$(J.$A.,$1983:$24-25).$
Com$esta$propagação$de$consumos,$instala-se$em$Portugal$um$mercado$rudimentar$de$
drogas,$particularmente$assente$em$cannabinoides$como$a$erva,$a$liamba$ou$o$haxixe$
(Marques,$ 2008).$ Progressivamente,$ “a$ droga"transforma-se$ num$ fenómeno$ de$ rua,$
estabelecendo-se$ em$ locais$ (cafés,$ ruas$ e$ praças)$ onde$ se$ encontravam$ os$
consumidores$e$onde$se$realizavam$as$transações$de$droga”$(Marques,$2008:$48).$Face$
a$esta$situação,$em$1976,$é$lançada$uma$nova$campanha$estatal$assente$no$&+$L'1$4"
W+'L*+$" %'" +0'.I',$ que$ visava$ “uma$ vontade$ política$ de$ ordem,$ de$ estabilidade,$ de$
regeneração$do$corpo$social”$(Agra$*#"'+2,$1993:$37).$É$neste$período,$que$se$criam$os$
primeiros$organismos$de$combate$à$droga,$numa$“reposta,$mais$rápida$do$que$eficaz,$
$
169$
[que]$ produziu$ instituições$ específicas$ de$ controle$ do$ consumidor:$ controle$ duro$
(polícias$ especializadas)$ e$ controle$ mais$ &$W#$(medico-sanitário,$ psicológico$ e$
preventivo”$(Fernandes,$1995:$22).$No$final$da$década,$Portugal$já$integra$os$circuitos$
internacionais$de$comércio$de$substâncias$ilícitas,$contribuindo,$desta$forma,$para$um$
aumento$dos$consumos$psicotrópicos$no$nosso$país$(Monteiro,$2013).$É$a$partir$deste$
momento,$ que$ o$ fenómeno$ da$ droga$ se$ começa$ a$ estabelecer$ como$ um$ sério$
problema$social$em$Portugal.$
$
!!!!U6)5(*!XMXM!Ó%meu,%vamos%a%uma%trip%pelo%português%da%pesada?!
$$$$$Fonte:$=nKB*&&$$(revista),$1$de$abril$de$1983.$
$
De$facto,$após$a$Revolução,$também$as$mudanças$ao$nível$da$vivência$afetiva$e$
sexual$dos$ portugueses$foram$ significativas$(Freire,$ 2013).$ Barreto$(2005)$ argumenta$
que$a$Revolução$de$1974/76$alterou$radicalmente$a$vida$política,$o$que$resultou$em$
profundos$ impactos$ na$ esfera$ social,$ económica$ e$ cultural$ dos$ portugueses.$ Foi,$
sobretudo,$ a$ partir$ da$ década$ de$ setenta,$ que$ se$ verificou$ uma$ “tendência$ ideal$
modernista$em$que$ganham$relevo$orientações$normativas$legitimadoras$da$igualdade$
de$ género,$ do$ primado$ da$ afectividade,$ da$ democraticidade$ da$ vida$ familiar$ e$ da$
realização$pessoal”$(Aboim,$2005:$170).$É,$também,$a$partir$deste$período,$que$emerge$
uma$autonomização$das$famílias$e,$consequentemente,$a$transformação$das$relações$
familiares$formais$e$hierarquizadas$em$relações$assentes$no$companheirismo,$com$o$
foco$na$ educação$ dos$filhos$ e$ numa$progressiva$ igualdade$ de$género$ (Neves,$ 2013).$
Contudo,$ esta$ autonomização$ não$ erradica$ por$ completo$ os$ valores$ tradicionais$ e$
conservadores$da$sociedade$portuguesa$(Torres,$2002),$que$ainda$se$mantem$presente$
em$algumas$mentalidades$até$hoje.$
$
170$
Após$a$queda$do$regime,$o$país$abre-se,$finalmente$e$de$forma$livre,$à$cultura$
popular,$ designadamente$ ao$ cinema,$ à$ literatura$ e$ à$ música,$ proporcionando$ uma$
oferta$ de$ artigos$ que$ versavam$ questões$ sobre$ intimidade$ e$ relações,$ outrora$
interditos$ pela$ censura,$ e$ com$ repercussões$ evidentes$ na$ forma$ como$ alguns$
indivíduos$experienciavam$agora$a$sua$sexualidade$(Neves,$2013).$Também$o$acesso$a$
conteúdos$eróticos$e$pornográficos$se$tornou$mais$facilitado$a$partir$deste$período$e$
intensificou-se$ a$ politização$ de$ questões$ associadas$ à$ sexualidade,$ resultando$ na$
introdução$ de$ algumas$ medidas$ de$ promoção$ da$ saúde$ sexual$ e$ reprodutiva$ dos$
portugueses$(Vieira,$ 2009;$ Policarpo,$ 2011).$ Neste$ sentido,$ Aboim$(2011)$ argumenta$
que$a$satisfação$erótica$adquiriu$relevância$na$conjugalidade,$particularmente$no$seio$
do$ universo$ feminino.$ Com$ efeito,$ “nesta$ geração,$ a$ sexualidade$ começa$ a$ ser$
entendida$ como$ uma$ componente$ importante$ das$ identidades$ femininas$ e$
progressivamente$ assiste-se$ a$ uma$ legitimação$ do$ desejo$ e$ do$ prazer$ sexual$ das$
mulheres”$(Neves,$2013:$60).$Estes$novos$padrões$de$liberdade$e$de$vivências$sexuais$
também$ se$ prendem$ com$ o$ caráter$ revolucionário$ das$ culturas$ juvenis$ emergentes,$
influenciadas$ pela$ música$ B$-J$ anglo$ saxónica$ e$ pelos$ estilos$ de$ vida$ por$ elas$
transmitido.$ Por$ esta$ razão,$ os$ anos$ setenta$ e$ oitenta$ produziram$ o$ culminar$ do$
experiencialismo$ sexual,$ que$ mais$ tarde$ veio$ a$ repercutir-se$ no$ surgimento$ e$
propagação$do$VIH/SIDA,$particularmente$visível$na$década$de$noventa.$É$de$realçar,$
de$igual$modo,$que$o$Serviço$Nacional$de$Saúde$foi$também$implementado$nos$finais$
da$década$de$setenta$(Barreto,$2005).$
Já$nos$anos$ de$1980,$o$consumo$ psicotrópico$alargou-se$ a$ várias$camadas$da$
população$ e$ a$ vários$ grupos$ etários,$ e$ a$ heroína$ alcança$ uma$ posição$ de$ relevo,$
impulsionando$o$nascimento$da$figura$do$i)1J0*$na$sociedade$portuguesa$(Fernandes,$
1993).$A$Figura$3.4.$ilustra$a$preocupação$crescente$relativamente$aos$consumidores$
de$ substâncias$ e$ aos$ toxicodependentes$ em$ Portugal,$ uma$ vez$ que$ “em$ 1983$
existiriam$ em$ Portugal$ 83$ mil$ jovens$ consumidores$ de$ droga,$ com$ idades$
compreendidas$entre$os$12$e$os$22$anos,$dos$quais$36$mil$poderiam$ser$considerados$
consumidores$ habituais$ ou$ regulares”$ (s/a,$ 1984:$ 5).$ Instala-se$ então,$ durante$ esta$
década,$ o$ mercado$ de$ compra$ e$ venda$ de$ heroína$ e$ a$ partir$ deste$ momento$ os$
$
171$
padrões$de$ consumo$ alteram-se$ significativamente$ (Marques,$ 2008).$De$ acordo$ com$
Neto$ (1987),$ teve$ início,$ assim,$ a$ irrupção$ das$ toxicodependências$ pesadas,$ que$ se$
tornou$ evidente$ e$ gritante$ durante$ toda$ esta$ década.$ Associadas$ à$ droga$ e$ à$
toxicodependência,$ outras$ questões$ sociais$ ganham$ também$ algum$ relevo,$
particularmente$ a$ insegurança$ urbana$ e$ a$ criminalidade$ (Marques,$ 2008).$ Neste$
âmbito,$é$sobretudo$a$partir$deste$período,$que$se$verifica$a$proliferação$dos$bairros$
sociais,$particularmente$comuns$nas$periferias$das$cidades$e$que$se$tornam$em$postos$
privilegiados$ de$ compra$ e$ venda$ de$ drogas$ (Cardoso,$ 2001),$ resultando$ no$
desenvolvimento$de$“(...)$uma$microeconomia$que$o$discurso$social$diz$que$é$ali$(ali,$
no$Casal$Ventoso,$na$Buraca,$na$Pedreira-dos-Húngaros;$ali,$na$Sé,$no$Aleixo,$no$São$
João$de$Deus...)”$(Fernandes,$1995:$22).$
$
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!U6)5(*!XM`M!Mais%de%80%mil%jovens%consomem%droga%em%Portugal!
$$$$Fonte:$=nKB*&&$,$21$de$julho$de$1984.$
$
É,$ igualmente,$ durante$ os$ anos$ oitenta,$ que$ o$ Estado$ adota$ determinadas$
medidas$ legislativas$ a$ favor$ do$ tratamento$ do$ problema$ ao$ invés$ da$ punição,$ indo$
gradualmente$ ao$ encontro$ da$ distinção$ entre$ traficante$ e$ consumidor$ (Marques,$
2008).$Essa$preocupação$é$visível,$de$igual$modo,$no$que$toca$ao$consumo$de$álcool,$
como$é$possível$verificar$no$anúncio$publicitário$presente$na$Figura$3.5.,$que$contém$
imagens$ que$ alertam$ o$ leitor$ para$ possíveis$ consequências$ envolvidas$ no$ consumo$
excessivo$desta$substância,$juntamente$com$o$slogan$“As$bebidas$são$feitas$para$gozar$
a$vida.$Não$para$destruir”$(s/a,$1980:$18).$Emerge,$também,$nesta$década,$o$VIH/SIDA,$
condição$que,$de$forma$célere,$atinge$a$população$toxicodependente,$nomeadamente$
através$do$consumo$por$via$endovenosa$(Dias,$2007)$e$agravam-se$vários$problemas$
$
172$
de$ saúde$ pública,$ como$ a$ tuberculose$ ou$ as$ hepatites$ (Costa,$ 2007).$ De$ uma$ forma$
geral,$
$
'" B*+*/T1-0'" %'" KB$I+*.b#0-'" %'" %B$L'" 1'" &$-0*%'%*"
K$B#)L)*&'" 1'" %E-'%'" %*" RQ," &)BL0)" '&&$-0'%'" S&" %*I0+0%'%*&"
*-$1X.0-'&," %*.$LBbW0-'&" *" &$-0'0&" *.*BL*1#*&" %$"
K*&'%c&&0.$"X1)&"#B'Z0%$"K*+$"B*LB*&&$"%$&"%*&'+$i'%$&"%'&"*nF
-$+X10'&," ()*" '$" #*B*." %*" &*B" B*01#*LB'%$&" 1'" &$-0*%'%*"
K$B#)L)*&'," B*W+*#0B'." 1*+'" W*1X.*1$&" %*"').*1#$"
%*.$LBbW0-$,"KB$I+*.'&"*-$1X.0-$&,"&$-0'0&,"K*&&$'0&"*".$B'0&"
-$.$"'"U'I0#'CD$"*"'"'+0.*1#'CD$"(Dias,$2007:$51).$
$
$
! ! U6)5(*!XMAM!G+!~#~67*+!+{%!}#68*+!4*(*!)%•*(!*!e67*M!L{%!4*(*!*!7#+8(56(M!
Fonte:$=nKB*&&$,$3$de$maio$de$1980.$
$
No$início$da$década$de$oitenta,$na$esfera$da$saúde$sexual$dos$portugueses,$já$se$
verificavam$ cerca$ de$ 400$ consultas$ de$ planeamento$ familiar$ nos$ centros$ de$ saúde$ e$
hospitais$ do$ nosso$ país$ (Vilar,$ 2009).$ O$ Inquérito$ Nacional$ de$ Saúde$ de$ 198732$
revelava,$conjuntamente,$que$em$meados$da$década,$a$pílula$já$se$tinha$tornado$no$
método$contracetivo$mais$utilizado$pelas$mulheres$portuguesas,$ultrapassando,$assim,$
o$método$do$coito$interrompido.$Deste$modo,$a$tendência$para$a$redução$do$número$
de$ filhos$ permanece,$ associada$ a$ uma$ renovada$ visão$ de$ liberalização$ dos$
comportamentos$ sexuais$ e$ de$ insubordinação$ das$ relações$ sexuais$ ao$ fenómeno$ da$
procriação$ (Cruz$ *#" '+2,$ 1984).$ Durante$ esta$ década,$ a$ sexualidade$ juvenil$ alcança$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
32$$Ministério da Saúde/DEPS (1987), Inquérito Nacional de Saúde. Lisboa: Ministério da Saúde.$
$
173$
importância$nos$debates$sociais,$assim$como$as$questões$associadas$ao$aborto$legal$e$
seguro$(Vilar,$2009),$e$a$maternidade$na$adolescência$sofre$um$intenso$decréscimo$a$
partir$ deste$ período$ (Almeida$ *#" '+2,$ 2002).$ Na$ Figura$ 3.6.$ temos$ um$ exemplo$ dessa$
importância,$ nomeadamente$ num$ artigo$ publicado$ no$ semanário$ =nKB*&&$,$ que$
questiona$a$noção$tradicional$de$amor$e$a$necessidade$da$sua$reinvenção$e$atualização$
à$época$vigente,$uma$vez$que,$“não$podemos$regressar$à$tese$platónica$ou$aos$ideais$
cristãos$do$amor,$porque$a$biologia$e$as$ciências$modernas$alteraram$as$coisas”$(s/a,$
1980:$ 32).$ Também$ decorrente$ das$ transformações$ ocorridas$ na$ sociedade$
portuguesa,$designadamente$a$expansão$da$escolaridade$obrigatória$e$o$consequente$
retardar$da$entrada$na$vida$ativa,$é$de$realçar$que$em$1980,$a$juventude$representava$
¼$ da$ população$ portuguesa,$ tendo$ demonstrado$ um$ crescimento$ de$ 22%$ em$ 1970$
para$25%$em$1980$(Cruz$*#"'+,$1984).$Neste$sentido,$é$também$a$partir$de$1980$que$a$
juventude$passa$a$ser$um$tema$frequente$na$cobertura$mediática,$nomeadamente$em$
questões$relacionadas$com$consumos$ problemáticos,$sexo$e$desemprego.$ Cruz$*#"'+2$
(1984)$concluíram$em$meados$da$década,$que:$
()'1#$" '$&" -$.K$B#'.*1#$&" &*n)'0&" %'" i)/*1#)%*," B*-*1#*&"
&$1%'L*1&" #M." /01%$" '" B*/*+'B" ).'" -'%'" /*Z" .'0&" KB*-$-*"
010-0'CD$" &*n)'+" %$&" i$/*1&" *," '$" .*&.$" #*.K$," ).'"
+0I*B'+0Z'CD$" %*" #'0&" -$.K$B#'.*1#$&," -$.$" $" -$.KB$/'." '"
.'0$B" '-*0#'CD$" %*" B*+'Cd*&" KBEF.'#B0.$10'0&" *" '" -B*&-*1#*"
$K010D$"%'"1D$"01%0&K*1&'I0+0%'%*"%'"+*L'+0Z'CD$"K'B'"010-0'B"'"
-$1i)L'+0%'%*"(Cruz$*#"'+,$1984:$305)."
"
!U6)5(*!XM=M!Saberemos%reinventar%o%amor?!
Fonte:$=nKB*&&$,$5$de$janeiro$de$1980.$
$
$
174$
De$acordo$com$Pais$(1996),$na$geração$pós-25$de$Abril$(jovens$nascidos$entre$
1971$ e$ 1980),$ 67%$ da$ juventude$ deu$ início$ à$ sua$ vida$ sexual$ antes$ dos$ 18$ anos,$
realidade$ muito$ desigual$ da$ geração$ da$ Grande$ Guerra$ (jovens$ nascidos$ antes$ de$
1941),$na$qual$apenas$21%$se$iniciou$antes$da$maioridade.$Deste$modo,$“(...)$entre$a$
mais$jovem$geração$apanhada$pelo$Inquérito$(dos$15$aos$29$anos)$não$há$dúvidas$de$
que$pelo$menos$24%$se$iniciaram$sexualmente$entre$os$10$e$15$anos$e$43%$entre$os$16$
e$ 18$ anos”$ (Pais,$ 1996:$ 6).$ Durante$ esta$ década,$ também$ o$ culto$ do$ corpo$ e$ do$
hedonismo$ alcançam$ uma$ grande$ relevância$ no$ seio$ da$ juventude$ portuguesa$ e$ a$
homossexualidade$começa$a$marcar$presença$nos$ambientes$recreativos$blicos$das$
grandes$ cidades,$ nomeadamente$ na$ capital$ (Vieira,$ 2000).$ Ainda$ durante$ os$ anos$
oitenta,$aliado$ao$crescimento$económico$e$urbano,$também$se$alarga$o$fenómeno$da$
prostituição$ nas$ cidades$ e$ proliferam$ as$ casas$ de$ alterne,$ que$ conduziram$ a$ uma$
euforia$masculina$“(...)$também$nutrida$por$uma$espécie$de$mobilização$sexual$não$de$
todo$alheia$à$crescente$influência$dos$média”$(Pais,$2016:$305).$
De$acordo$com$Marques$(2008),$o$aparecimento$do$VIH/SIDA$nos$anos$oitenta$
alterou$ profundamente$ a$ perspetiva$ sobre$ a$ toxicodependência$ em$ Portugal.$ Neste$
âmbito,$os$anos$de$1990$e$seguintes$foram$marcados$“(...)$por$um$intenso$reforço$do$
controlo$social$do$fenómeno,$tanto$no$plano$repressivo$como$no$médico-terapêutico”$
(Monteiro,$2013:$47),$e$observa-se$uma$intensificação$crescente$da$mediatização$em$
torno$ da$ questão$ das$ drogas$ e$ da$ sua$ conceptualização$ como$ “pânico$ moral”,$ de$
acordo$com$as$palavras$de$Stanley$Cohen$(2002).$É$a$partir$desta$altura,$então,$que$os$
poderes$ públicos$ começam$ a$ intervir$ ativamente$ no$ campo,$ nomeadamente$ com$ a$
criação$do$projeto$VIDA$com$a$distribuição$de$J0#&"de$injeção$asséptica$e$preservativos,$
e$com$a$divulgação$de$medidas$profiláticas$ao$nível$das$relações$sexuais,$entre$outras$
medidas$ preventivas$ (Poiares,$ 2001).$ Em$ 1993,$ é$ também$ criado$ o$ Observatório$
Europeu$da$Droga$e$da$Toxicodependência$(OEDT),$cuja$estrutura$física$ficou$sediada$
em$ Lisboa,$ e$ nos$ anos$ seguintes$ foram$ gradualmente$ trazidas$ a$ debate$ público$
questões$ polémicas$ como$ a$ liberalização$ dos$ psicoativos,$ a$ sua$ descriminalização,$ o$
seu$uso$terapêutico$e$a$possibilidade$da$sua$distribuição$controlada$(Monteiro,$2013).$
$
175$
Nos$anos$noventa,$algumas$conquistas$internacionais$foram$importantes$para$a$
sexualidade$em$Portugal,$nomeadamente:$a$aprovação$da$Carta$dos$Direitos$Sexuais$e$
Reprodutivos$pela$IPPF$(a$principal$agência$internacional$de$planeamento$familiar$em$
que$a$APF$é$federada),$a$consagração$da$saúde$e$dos$direitos$sexuais$e$reprodutivos$na$
Conferência$ Internacional$ sobre$ População$ e$ Desenvolvimento$ (Cairo$ -$ 1994),$ a$
Conferência$ Internacional$ sobre$ a$ Mulher$ (Pequim$ -$ 1995),$ e$ a$ assembleia$ da$
Associação$ Mundial$ de$ Sexologia$ (Hong$ Kong$ -$ 1996)$ (Vilar,$ 2009).$ A$ partir$ desta$
década,$o$casamento$deixa$de$ser$efetivamente$percecionado$como$para$toda$a$vida$e$
ascende,$ definitivamente,$ um$ culto$ hedonista$ à$ volta$ do$ prazer$ sexual,$ do$ prazer$
convivial$ou$do$prazer$laboral.$Na$Figura$3.7.$podemos$encontrar$um$exemplo$de$um$
artigo$do$semanário$=nKB*&&$$que$retrata,$precisamente,$a$recente$vaga$de$divórcios$a$
acontecer$ no$ nosso$ país,$ que$ se$ tem$ vindo$ a$ acentuar$ ao$ longo$ dos$ anos$ e$ cujas$
“idades$ preferidas$ tanto$ pelos$ homens$ como$ pelas$ mulheres$ para$ se$ divorciarem$ é$
entre$os$trinta$e$os$trinta$e$quatro$anos”$(s/a,$1985:$6).$Com$efeito,$“mais$do$que$os$
adultos,$os$jovens$aspiram$a$realizar-se$profissionalmente,$a$valorizarem$o$prazer$nas$
relações$ sexuais,$ a$ retirarem$ proveito$ dos$ namoros,$ a$ desfrutarem$ da$ vida,$ ouvindo$
música$ ou$ mesmo$ dormindo$ ou$ não$ fazendo$ nada”$ (Pais,$ 1998:$ 46).$ Vigora,$ deste$
modo,$uma$ética$experimentalista,$que$já$vinha$desde$a$década$de$oitenta,$mas$que$se$
acentua$ neste$ período,$ particularmente$ no$ campo$ da$ sexualidade:$ experimenta-se$ a$
coabitação,$alteram-se$parceiros,$diversificam-se$os$locais$onde$decorrem$as$relações$
sexuais,$etc.$(Pais,$ 1998).$Desta$forma,$ “a$ experimentação$sexual$ fora$ do$casamento$
banalizou-se$e$a$sexualidade$ganhou$um$outro$lugar$na$vida$quer$de$mulheres,$quer$de$
homens”$ (Aboim,$ 2013:$ 49).$ Ainda$ segundo$ Pais$ (1998),$ as$ relações$ extraconjugais$
passam$a$ser$mais$toleradas$pelas$gerações$mais$jovens,$assim$como$fenómenos$como$
a$virgindade$ou$o$adultério$perdem$a$sua$importância$como$categorias$sociais.$
$
$
176$
!!!!!!!!!!!!!U6)5(*!XMZM!Divórcios:%a%vaga%dos%30%anos!
$$$$$$$$$$$$$Fonte:$=nKB*&&$,$29$de$junho$de$1985.$
$
XM@M@M!P61€06%!#!(6+-%+!-%08(%1*7%+!
$
Desde$ os$ anos$ 2000$ até$ ao$ presente,$ em$ matéria$ de$ sexualidade,$ que$ os$
comportamentos$ sexuais$ e$ as$ crenças$ dos$ portugueses$ se$ alteraram$ radicalmente.$
Além$da$notória$ditadura$do$hedonismo$e$da$experimentação$sexual$contemporâneas$
que$ já$ vinham$ a$ ganhar$ terreno$ desde$ a$ década$ de$ oitenta,$ alguns$ fenómenos$
começaram$ a$ ser$ mais$ visíveis$ na$ sociedade$ portuguesa,$ como$ é$ o$ caso$ dos$
nascimentos$ fora$ do$ casamento.$ De$ acordo$ com$ Aboim$ (2013),$ hoje$ em$ dia,$ quase$
metade$dos$nascimentos$têm$origem$em$progenitores$não$casados,$na$sua$maioria$em$
situações$ de$ coabitação$ conjugal,$ o$ que$ expressa$ uma$ clara$ desvinculação$ entre$
casamento,$sexualidade$e$procriação.$Esta$realidade$segue$a$lógica$da$experimentação$
iniciada$ anteriormente,$ pois$ mostra$ a$ importância$ do$ namoro$ e$ da$ vida$ em$ comum$
antes$de$ um$ possível$matrimónio.$ Embora$ ainda$ persistam$ algumas$ barreiras$ sociais$
no$ seio$ das$ comunidades$ mais$ conservadoras$ da$ sociedade,$ nomeadamente$
relacionadas$ com$ os$ papéis$ de$ atividade$ e$ passividade$ aplicados$ ao$ homem$ e$ à$
mulher,$é$de$salientar$o$crescente$protagonismo$sexual$das$mulheres$mais$jovens$e$o$
seu$discurso$sexual$cada$vez$mais$despido$de$preconceitos$(Aboim,$2013).$No$tocante$
às$ drogas,$ a$ partir$ de$ 2000$ predomina$ em$ Portugal$ uma$ visão$ descriminalizada$ do$
consumo$na$política$portuguesa$e$que$se$mantém$até$hoje$(Dias,$2007).$$De$facto,$em$
$
177$
2002$ é$ criado$ o$ Instituto$ da$ Droga$ e$ da$ Toxicodependência$ (IDT),$ que$ tinha$ como$
missão$ fundamental$ dedicar-se$ à$ prevenção$ primária$ do$ consumo$ de$ droga$ e$ da$
toxicodependência$(Marques$2008),$e$em$2011$o$Estado$extingue$o$IDT$e$cria$um$novo$
organismo$ assente$ no$ planeamento,$ acompanhamento$ e$ redução$ de$ dependências,$
denominado$ Serviço$ de$ Intervenção$ nos$ Comportamentos$ Aditivos$ e$ nas$
Dependências$(SICAD)33.$Assim,$atualmente,$existem$três$documentos$estratégicos$que$
regem$a$política$da$droga$em$Portugal34:$a$Estratégia$Nacional$de$Luta$contra$a$Droga$
de$ 1999,$ o$ Plano$ Nacional$ para$ a$ Redução$ de$ comportamentos$ Aditivos$ e$
Dependências$de$2013-2020$e$o$Plano$de$Ação$Horizonte$2020.$$
O$primeiro35$é$considerado$um$documento$político$de$longo$prazo$e$define$os$
objetivos$gerais$no$campo$das$drogas.$É$construído$por$oito$princípios,$seis$objetivos$e$
13$ações.$O$segundo36$assenta$na$estratégia$de$1999,$a$partir$de$uma$perspetiva$ampla$
e$integrada$dos$problemas$relacionados$com$as$drogas$e$a$dependência,$incluindo$o$
uso$ de$ substâncias$ ilícitas,$ novas$ substâncias$ psicoativas,$ álcool,$ medicamentos$
prescritos,$esteroides$anabolizantes$ e$jogos.$ É$orientado$ por$cinco$objetivos$ gerais$e$
construído$ em$ torno$ dos$ dois$ pilares$ da$ redução$ da$ procura$ e$ da$ oferta$ destas$
substâncias.$O$Plano$de$Ação$e$Horizonte$definiu,$ainda,$um$conjunto$de$indicadores$e$
metas$ a$ serem$ alcançadas$ durante$ o$ período$ (2013-20).$ Este$ documento$ identifica$
várias$ premissas$ estruturadoras$ da$ intervenção,$ nomeadamente$ a$ consideração$ dos$
contextos$ sociais$ dos$ indivíduos,$ um$ aspeto$ sociológico$ fundamental$ no$ combate$ à$
toxicodependência,$ que$ passa$ a$ considerar,$ nomeadamente,$ “(...)$ o$ meio$ familiar,$
escolar,$ comunitário,$ laboral,$ rodoviário,$ prisional,$ desportivo$ e,$ também,$ o$
recreativo”$ (Carvalho,$ 2016:$ 65).$ Segundo$ o$ V$B#)L'+" 5$)1#Bl" :B)L" 3*K$B#" HQ?P,$ a$
Estrutura$de$Coordenação$para$os$Problemas$da$Droga,$das$Toxicodependências$e$do$
Uso$Nocivo$do$Álcool$compreende$dois$organismos$com$diferentes$funções:$$
$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
33 Consultar em: http://www.sicad.pt/PT/Institucional/Historico/Paginas/default.aspx
34 Portugal Country Drug Report 2019 European Monitoring Centre fro Drugs and Drug Addiction
35 Estratégia Nacional de Luta contra Droga - Despacho do Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro
nº3229/98 publicado no D.R. de 16.02.98 II Série
36 Plano Nacional para a Redução dos Comportamentos Aditivos e das Dependências 2013-2020
- SICAD$
$
178$
O$ Conselho$ Interministerial$ para$ os$ Problemas$ da$ Droga,$ das$
Toxicodependências$ e$ do$ Uso$ Nocivo$ do$ Álcool,$ que$ tem$ como$
responsabilidade$coordenar$e$avaliar$a$ação$política$em$matéria$de$problemas$
de$ uso$ e$ abuso$ de$ substâncias.$ É$ presidido$ pelo$ Primeiro$ Ministro$ e$
compreende$ministros$de$todas$as$áreas$relevantes$(atualmente$são$13)$e$do$
coordenador$ nacional$ de$ drogas.$ É$ suportado$ pela$ Comissão$ Técnica$
Interministerial,$ esta$ presidida$ pelo$ coordenador$ nacional$ e$ composta$ por$
representantes$designados$pelos$diferentes$ministros.$A$sua$principal$função$é$
projetar,$ monitorar$ e$ avaliar$ o$ plano$ nacional$ e$ apoiar$ planos$ de$ ação$ sobre$
substâncias$ilícitas$e$álcool.$
oO$Serviço$de$Intervenção$nos$Comportamentos$Aditivos$e$nas$Dependências$
(SICAD),$ anexado$ ao$ Ministério$ da$ Saúde,$ tem$ como$ objetivo$ apoiar$ a$
implementação$da$estratégia$nacional,$planeando$e$avaliando$a$aplicação$das$
intervenções$ de$ redução$ na$ procura$ e$ fornecendo$ apoio$ técnico$ e$
administrativo$às$Comissões$para$a$Dissuasão$ da$ Toxicodependência$(CDT).$O$
SICAD$é,$assim,$o$órgão$fundamental$a$nível$nacional$do$OEDT$em$Portugal.$O$
Diretor$Geral$do$SICAD$é$também$o$Coordenador$Nacional$para$os$Problemas$
da$Droga,$das$Toxicodependências$e$do$Uso$Nocivo$do$Álcool.$
$
A$principal$lei$sobre$drogas$em$Portugal$consta$no$Decreto-Lei$n.º$15/93,$de$22$
de$ janeiro$ de$ 1993,$ que$ define$ o$ regime$ jurídico$ aplicável$ ao$ tráfico$ e$ consumo$ de$
estupefacientes$e$substâncias$psicoativas.$Na$Lei$n.º$30/2000,$de$29$de$novembro,$o$
consumo,$ aquisição$ e$ posse$ para$ consumo$ próprio$ de$ determinadas$ plantas,$
substâncias$ ou$ preparações$ passa$ a$ constituir$ contraordenação,$ como$ é$ possível$
observar$no$excerto$presente$na$Figura$3.8.$Por$outras$palavras,$o$consumo$e$a$posse$
dessas$ substâncias,$ em$ quantidades$ que$ não$ excedam$ o$ consumo$ médio$ individual$
durante$o$período$ de$dez$dias,$ não$estão$despenalizados,$ mas$constituem$ilícitos$ de$
mera$ordenação$social.$Foi$a$partir$desta$lei,$nomeadamente$desde$novembro$do$ano$
seguinte,$que$a$aquisição,$a$posse$e$o$consumo$de$drogas$deixou$de$ser$considerado$
crime$ em$ Portugal.$ Neste$ sentido,$ uma$ pessoa$ detida$ a$ consumir$ ou$ tendo$ em$ sua$
$
179$
posse$menos$do$que$a$quantidade$máxima$destas$substâncias$para$uso$pessoal,$e$caso$
não$ se$ verifique$ suspeita$ de$ envolvimento$ no$ narcotráfico,$ será$ avaliada$ pela$
Comissão$ local$ de$ Dissuasão$ da$ Toxicodependência.$ Sanções$ punitivas$ podem$ ser$
aplicadas,$ mas$ os$ principais$ objetivos$ são$ explorar$ a$ necessidade$ de$ tratamento$ e$
promover$uma$recuperação$saudável.$
$
! ! !!!!!U6)5(*!XMRM!D$-#(8%!7*!F#6!0Mp!X>j@>>>!!
$
$$$$$$$$$$$$$$$$Fonte:$Diário$da$República$Eletrónico37.$
$
No$que$respeita$aos$consumos$de$droga$atuais$no$nosso$país,$os$dados$relativos$
às$tendências$ das$ ofensas$ à$ lei$e$ apreensões$ fornecem-nos$ um$panorama$ acerca$ da$
quantidade$ de$ substâncias$ que$ circula$ ilegalmente$ em$ território$ nacional.$ Assim,$ de$
acordo$com$os$dados$presentes$no$V$B#)L'+"5$)1#Bl":B)L"3*K$B#$de$2019,$em$2017,$
cerca$de$dois$terços$das$ofensas$à$lei$da$droga$em$Portugal$estavam$relacionadas$com$
a$ posse$ (72%)$ e$ a$ maioria$ envolvia$ a$ canábis,$ seguida$ pela$ cocaína$ e$ heroína.$ Este$
documento$ argumenta,$ assim,$ que$ a$ canábis$ continua$ a$ ser$ a$ substância$ ilícita$ mais$
frequentemente$utilizada$em$Portugal,$seguida$pelo$MDMA/=-&#'&l$e$pela$cocaína.$O$
uso$de$substâncias$ilícitas$é,$ainda,$mais$comum$entre$os$jovens$adultos$(entre$os$15$e$
os$ 34$ anos).$ Contudo,$ o$ mais$ recente$ =&#)%$" &$IB*" $" 5$1&).$" %*" ˆ+-$$+," ^'I'-$,"
:B$L'&" *" $)#B$&" 5$.K$B#'.*1#$&" !%0#0/$&" *" :*K*1%M1-0'&$(ESPAD-Portugal$ 2015)38$
revelou$ que$ o$ consumo$ de$ canábis$ e$ de$ outras$ substâncias$ ilícitas$ ao$ longo$ da$ vida$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
37$$Consultar em: https://dre.pt/web/guest/pesquisa/-
/search/599720/details/normal?q=Lei+n.%C2%BA%2030%2F2000$
38$$Consultar em:
http://www.sicad.pt/BK/Documents/2016/SICAD_ECATD_15_Sum%C3%A1rio%20Executivo.pdf$
$
180$
entre$ estudantes$ portugueses$ foi$ ligeiramente$ inferior$ ao$ da$ média$ europeia$ (com$
base$ em$ dados$ de$ 35$ países).$ Segundo$ o$ Relatório$ Anual$ de$ 2018$ do$ Combate$ ao$
Tráfico$de$Estupefacientes$da$Polícia$Judiciária39,$o$número$total$de$apreensões$foi$de$
3.343,$com$ a$cocaína$ a$ascender$ para$a$ primeira$posição$ no$que$ toca$ à$ quantidade,$
ultrapassando$ a$ canábis$ e$ contrariando$ a$ tendência$ revelada$ anteriormente,$ como$
vemos$na$Figura$ 3.9.$Relativamente$à$ cocaína,$foram$apreendidas$ aproximadamente$
5,53$ toneladas,$ tendo-se$ contabilizado$ um$ total$ de$ 498$ apreensões.$ No$ que$ toca$ à$
canábis,$foram$apreendidos$4.119,98$kg$de$cannabis,$o$que$traduz$uma$diminuição$de$
71,5%$face$a$2017.$Foram$também$apreendidos$27,04$Kg$de$heroína,$registando-se$um$
total$ de$ 221$ apreensões.$ E$ no$ combate$ ao$ tráfico$ de$ *-&#'&l,$ em$ 2018$ resultou$ a$
apreensão$de$quantidades$correspondentes$a$196.627$comprimidos,$registando-se$um$
total$de$184$apreensões.$
$
!
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$
$
$
$
$
$
$
$
$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
39$Polícia Judiciária (2018). Combate ao Tráfico de Estupefacientes em Portugal: Relatório Anual 2018.
Unidade nacional de combate ao tráfico de estupefacientes, secção central de informação criminal.$
$
181$
$U6)5(*! XM<M! '6+8(6~56z{%! 7%! 0„3#(%! 7#! *4(##0+‡#+! 7#! #+854#}*-6#08#+! #! (#+4#86e*+!
ƒ5*0867*7#+$
$$$$$$$$$$$$$$Fonte:$Relatório$Anual$de$2018$do$Combate$ao$Tráfico$de$Estupefacientes$da$PJ.$
$
Segundo$ João$ Goulão,$ responsável$ pelo$ Serviço$ de$ Intervenção$ nos$
Comportamentos$Aditivos$e$Toxicodependências$(SICAD),$o$consumo$de$droga,$álcool$
e$tabaco$tem$vindo$a$aumentar$desde$2012$(Antena$1,$201740).$Os$resultados$de$um$
estudo$desenvolvido$pelo$instituto$norte-americano$para$as$Métricas$em$Avaliação$em$
Saúde$(Figura$ 3.10.),$ financiado$ pela$ Fundação$ Bill$ e$ Melinda$Gates,$ revelam$ que$ os$
jovens$portugueses$têm$hábitos$de$consumo$de$droga$e$álcool,$que$aumentam$o$risco$
de$ morte$ prematura$ e$ que$ “(...)$ é$ esse$ o$ fator$ inicial$ a$ eliminar$ para$ que$ os$
portugueses$ evitem$ uma$ morte$ prematura$ antes$ da$ esperança$ média$ de$ vida$ com$
saúde,$ 72$ anos$ para$ as$ mulheres$ e$ 68$ para$ os$ homens”$ (Arreigoso,$ 2017:$ s/p).$
Portanto,$os$jovens$nacionais$continuam$a$consumir$substâncias$legais$e$ilegais$e$essa$
tendência$é$particularmente$visível$publicamente$em$espaços$de$lazer$ligados$à$música$
e$ somam-se$ numerosas$ detenções$ de$ tráfico$ e$ posse$ de$ substâncias$ ilícitas$ nos$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
40$$Consultar em: https://www.rtp.pt/noticias/pais/consumo-de-droga-alcool-e-tabaco-aumenta-em-
portugal_a1028170$
$
182$
festivais$de$música,$todos$os$anos$(Correio$da$Manhã,$201741;$TVI24,$201742;$Jornal$de$
Notícias,$ 201743;$ SIC$ Notícias,$ 201744).$ Também$ nestes$ espaços$ de$ lazer$ ligados$ à$
música,$ as$ práticas$ sexuais$ tendem$ a$ ser$ visivelmente$ mais$ recorrentes$ (Campos$ &$
Viana,$201745).$
$
$ $
!U6)5(*!XM;>M!W#(68%+!*3#(6-*0%+!*e6+*3!W%(85)*1!4*(*!-%0+53%!…5e#061!7#!C1-%%1!#!7(%)*!
!
$ $ Fonte:$=nKB*&&$$(online),$21$de$outubro$de$201746.$
$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
41$$Consultar em: http://www.cmjornal.pt/exclusivos/detalhe/droga-do-sexo-a-solta-nos-festivais-de-
verao$
42$$Consultar em: http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/detencoes/quase-30-detidos-por-trafico-de-droga-
em-festival-em- ponte-de-sor$
43$$Consultar em: https://www.jn.pt/justica/interior/onze-pessoas-detidas-em-oliveira-do-hospital-por-
suspeita-de-trafico-de-droga-8709063.html$
44$$Consultar em: http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2017-08-16-Onze-pessoas-detidas-no-Freedom-Festival-
por-suspeita-de-trafico-de-droga$
45$Consultar em: https://www.publico.pt/2017/04/05/sociedade/noticia/surto-de-hepatite-a-nao- esta-
controlado-dgs-preocupada-com-festivais-de-verao-1767719$
46$$Consultar em: https://expresso.pt/sociedade/2017-10-21-Peritos-americanos-avisam-Portugal-para-
consumo-juvenil-de-alcool-e-droga$
$
183$
Segundo$Negreiros$(2002),$“Portugal$é$um$dos$países$da$Europa$Ocidental$que$
tem,$ desde$ o$ início$ da$ epidemia,$ uma$ das$ proporções$ acumuladas$ mais$ elevada$ de$
seropositivos$ e/$ ou$ com$ SIDA$ que$ são$ toxicodependentes$ utilizadores$ da$ via$
endovenosa”$(Negreiros,$2002:$33).$No$campo$da$sexualidade,$o$aumento$de$infeções$
sexualmente$transmissíveis,$entre$as$quais$o$VIH/SIDA,$afeta$amplamente$os$jovens$de$
hoje$em$dia.$Apesar$do$decréscimo$de$novos$casos$de$infeção,$Portugal$continua$a$ser$
o$país$da$Europa$Ocidental$e$Central$com$maior$incidência$de$novos$infetados$(Aboim,$
2012).$ Apesar$ de,$ em$ 200347,$ o$ maior$ número$ de$ casos$ de$ infeção$ identificados$
correspondesse$ a$ consumidores$ de$ droga$ por$ via$ endovenosa$ e/ou$
toxicodependentes,$ seguindo-se$ a$ transmissão$ heterossexual$ em$ segundo$ lugar$ e$ a$
homossexual$masculina$em$terceiro,$a$tendência$atual$revela$algumas$transformações$
nestas$ tendências.$ É$ importante$ salientar,$ também,$ que$ o$ sistema$ de$ notificação$ de$
casos$de$infeção$por$VIH/SIDA$em$Portugal$teve$início$em$1985,$embora$com$caráter$
voluntário.$Só$a$partir$de$1$de$fevereiro$de$2005$é$que$a$infeção$ por$ VIH$integrou$a$
lista$de$doenças$de$declaração$obrigatória48.$Atualmente,$as$notificações$são$efetuadas$
$1+01*,$através$do$Sistema$Nacional$de$Vigilância$Epidemiológica$(SINAVE)$ou$através$
do$Sistema$de$Informação$para$a$Infeção$VIH/SIDA$(SI.VIDA)$(Martins$&$Shivaji,$2014).$
Desde$o$primeiro$caso$de$infeção$no$nosso$país,$que$as$tendências$evolutivas$mostram$
algumas$características$relevantes,$nomeadamente$
$
$" ').*1#$" %$" 1f.*B$" %*" 1$/$&" %0'L1X&#0-$&" %*" 01W*CD$" K$B"
;<_"*."i$/*1&"%$"&*n$".'&-)+01$"()*"#M."&*n$"-$."U$.*1&"*"
'" *+*/'%'" K*B-*1#'L*." %*" %0'L1X&#0-$&" #'B%0$&" *."
U*#*B$&&*n)'0&" %*" .*0'F0%'%*" &D$" #*1%M1-0'&" B*-*1#*&"
%$-).*1#'%'&" 1$" KB*&*1#*" B*+'#XB0$," ()*" %*/*." -'K#'B" '"
'#*1CD$"%'&"')#$B0%'%*&"%*" >'f%*"VfI+0-'"(Martins$ &$ Shivaji,$
2014:$5)."
$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
47 Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA (2004).
SIDA: A situação em Portugal em 31 de Dezembro de
2003
. Instituto Nacional de Saúde, Lisboa: Centro de Vigilância Epidemiológica das Doenças
Transmissíveis.
48 Portaria n.º 258/2005, de 16 de março, que integra a infeção pelo VIH na lista das doenças de
declaração obrigatória. D.R. I Série B, nº 53. Revoga a Portaria n.º 103/2005, de 25 de janeiro.
$
$
184$
No$ que$ respeita$ à$ associação$ entre$ droga$ e$ VIH/SIDA,$ a$ partir$ da$ década$ de$
oitenta$o$número$de$consumidores$infetados$aumentou$exponencialmente,$ao$ponto$
de$este$se$ter$tornado$num$grave$problema$de$saúde$pública$em$Portugal$(Godinho$*#"
'+,$1999).$Frequentemente$ligados$à$transmissão$deste$vírus$no$âmbito$dos$consumos$
psicotrópicos,$encontrava-se$também$o$agravamento$de$doenças$como$a$tuberculose$
ou$as$hepatites$(Costa,$2007).$Apenas$em$1998$é$que$foi$registada$a$primeira$redução$
do$ número$ de$ novos$ casos$ em$ toxicodependentes,$ tendência$ que$ se$ tem$ vindo$ a$
manter$desde$então$(Bastos,$2005).$De$certa$forma,$estes$dados$acabam$por$levantar$
questões$ acerca$ da$ eficácia$ da$ prevenção$ na$ população$ em$ geral$ e$ nos$ grupos$ com$
comportamentos$ de$ risco,$ apesar$ dos$ esforços$ desenvolvidos$ pelas$ entidades$
competentes$e$das$respetivas$campanhas$de$sensibilização$direcionadas$ao$público$em$
geral$ (Negreiros,$ 2002).$ Neste$ âmbito,$ Bastos$ (2005)$ refere$ que$ este$ tipo$ de$
campanhas$ “são$ sempre$ muito$ focalizadas$ no$ tempo$ e$ no$ espaço,$ havendo$ maior$
incidência$ de$ campanhas$ publicitárias$ no$ verão$ e$ sendo$ a$ distribuição$ de$ material$
focalizada$sobretudo$nas$grandes$cidades$(...)”$(Barreto,$2005:$76).$O$que,$na$verdade,$
inviabiliza$ o$ acesso$ a$ material$ e$ informação$ a$ todos$ aqueles$ portadores$ que$ não$
residem$nos$grandes$núcleos$urbanos,$e$até$mesmo$àqueles$que$residem,$mas$que$se$
encontram$ impossibilitados$ de$ se$ deslocar$ aos$ espaços$ onde$ decorrem$ este$ tipo$ de$
intervenções.$
Contudo,$a$propagação$galopante$desta$doença$na$sociedade$portuguesa$não$
se$manteve$isenta$de$preconceitos$sociais$e,$rapidamente,$a$imagem$do$i)1J0*$passou$
a$estar$relacionada$no$imaginário$social$ao$medo,$à$insegurança$e$ao$crime$(Poiares,$
2000),$resultando$na$disseminação$de$pânico$moral$na$sociedade.$Grilo$(2001)$sugere$
que$ a$ infeção$ por$ VIH$ se$ encontra$ socialmente$ associada$ à$ delinquência$ e$
marginalização,$ originando$ uma$ elevada$ estigmatização$ e$ rejeição$ social.$ Por$ outras$
palavras,$ “o$ estigma$ criado$ primeiro$ a$ partir$ das$ ligações$ da$ SIDA$ com$
homossexualidade$ e$ depois$ com$ a$ toxicodependência$ terão$ favorecido$ uma$ maior$
passividade$ junto$ do$ grupo$ constituído$ por$ heterossexuais$ (Negreiros,$ 2002:$ 34).$ De$
facto,$ este$ alarme$ social$ generalizado$ acabou$ por$ chamar$ a$ atenção$ das$ entidades$
políticas$ e$ governativas,$ que$ responderam$ com$ medidas$ de$ reforço$ social,$ como$ o$
$
185$
agravamento$legal$e$a$vigilância$policial,$de$forma$a$repor$a$ordem$social$(Fernandes,$
1995).$ Progressivamente,$ os$ toxicodependentes$ passaram$ a$ adquirir$ um$ estatuto$ de$
doentes$ em$ termos$ legais$ e,$ como$ vimos,$ desde$ a$ abolição$ da$ perspetiva$
criminalizante$dos$ consumidores$de$ drogas,$que$ o$enfoque$ assenta$na$ promoção$ de$
medidas$de$tratamento$(Dias,$2007).$De$um$modo$geral,$estas$transformações$legais$
permitiram$um$reforço$no$controlo$da$propagação$do$VIH/SIDA,$através$de$melhorias$
na$garantia$das$condições$sanitárias,$na$diminuição$de$fatores$de$risco$e$no$controlo$
social$ dos$ consumidores$ (Quintas,$ 1997;$ Dias,$ 2007;$ Marques,$ 2008).$ No$ fundo,$
tomaram-se$medidas$básicas$de$prevenção$e$redução$de$riscos,$tais$como$a$“dispensa$
de$ material$ de$ prevenção,$ sejam$ preservativos,$ J0#&$ de$ injeção$ (para$ consumidores$
referenciados$de$novo$pelas$equipas$de$rua)$ou$troca$de$seringas”$(Bastos,$2005:$76).$
No$entanto,$o$facto$de$a$medicação$de$combate$à$infeção$implicar$efeitos$secundários$
desagradáveis,$assim$como$alterações$no$estilo$de$vida$e$nas$rotinas$quotidianas$dos$
doentes,$ continua$ a$ ser$ difícil$ a$ adesão$ terapêutica,$ sobretudo$ no$ seio$ dos$
consumidores$ de$ drogas,$ entre$ os$ quais$ os$ cuidados$ de$ saúde$ tendem$ a$ ser$
negligenciados$ (Grilo,$ 2001).$ Da$ mesma$ forma,$ Oliveira$ (1998)$ confirma$ que$ em$
Portugal,$os$consumidores$de$substâncias$por$via$endovenosa$são$menos$suscetíveis$a$
mudanças$de$atitudes$e$de$rotinas.$
Outro$ aspeto$ relevante$ na$ relação$ entre$ droga$ e$ VIH/SIDA$ no$ período$
contemporâneo$prende-se$com$as$“novas$drogas”.$De$acordo$com$Bastos$(2005),$estas$
substâncias$“apresentam$um$risco$acrescido,$quer$pelas$características$das$substâncias$
consumidas$ com$ grande$ poder$ de$ alteração$ do$ estado$ de$ consciência,$ quer$ pelos$
ambientes$ sociais$ a$ que$ habitualmente$ estão$ ligados”$ (Bastos,$ 2005:$ 77).$ De$ acordo$
com$Walder$e$Amendt$(1999),$o$*-&#'&l,$por$exemplo,$intensifica$a$consciência$do$tato$
e$ aumenta$ a$ proximidade$ e$ o$ movimento$ corporal,$ e$ é$ denominado$ muitas$ vezes,$
como$ a$ “pílula$ do$ sexo”,$ devido$ à$ desinibição$ sexual$ e$ ao$ consequente$ possível$
aumento$ de$ comportamentos$ sexuais$ de$ risco.$ Partilhando$ do$ mesmo$ pensamento,$
Catania"*#"'+$(1990,$1994),$sugerem$que$os$fatores$emocionais$aliados$à$utilização$de$
drogas$ passíveis$ de$ afetar$ os$ estados$ emocionais$ podem$ exercer,$ igualmente,$ um$
papel$ importante$ no$ desenvolvimento$ de$ comportamentos$ sexuais$ de$ risco$ e$ de$
$
186$
potencial$transmissão$desta$doença.$Contudo,$os$valores$presentes$no$Relatório$sobre$
a$Infeção$VIH$e$SIDA$em$Portugal$(2019)49,$revelam$que$no$conjunto$dos$novos$casos$
de$infeção$por$VIH$em$Portugal$diagnosticados$em$2018,$apenas$2,3%$corresponde$à$
transmissão$ associada$ ao$ consumo$ de$ drogas$ injetadas.$ De$ acordo$ com$ o$ mesmo$
Relatório,$ entre$ 2013$ e$ 2018,$ este$ tipo$ de$ casos$ de$ infeção$ representam$ a$ segunda$
maior$fração$com$32,2%,$sendo$que$94,2%$destes$foram$diagnosticados$nas$décadas$
anteriores,$ tal$ como$ se$ pode$ observar$ na$ Figura$ 3.11.$ Portanto,$ o$ contacto$ sexual$
continua$ a$ ser$ a$ principal$ causa$ de$ contágio$ deste$ vírus,$ seja$ por$ transmissão$
heterossexual$ ou$ homossexual,$ particularmente$ entre$ homens$ que$ fazem$ sexo$ com$
outros$homens.$Assim,$
$
*." V$B#)L'+" /*B0W0-$)F&*" )." -B*&-0.*1#$," %*&%*" $" 01c-0$" %'"
*K0%*.0',"%'"K*B-*1#'L*."%*"K*&&$'&"K$B#'%$B'&"%$"/cB)&"()*"
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KB*/*1CD$" #*." &0%$" .'0&" *W0-'Z" ()*" 1$&" $)#B$&" LB)K$&"
(Negreiros,$2002:$33-34).$
$
$
$
$
$
$
$
$
$
$
$
$
$
$
"
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
49$Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde/Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.
Infeção VIH e SIDA em Portugal - 2019. Lisboa: DGS/INSA; 2019.
$
$
187$
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Fonte:$3*+'#XB0$"&$IB*"'"<1W*CD$";<_"*"><:!"*."V$B#)L'+$(2019)."
$
Neste$âmbito,$como$vimos,$a$associação$entre$VIH/SIDA$e$o$sexo$é$de$extrema$
relevância$no$nosso$país$e$mesmo$entre$os$toxicodependentes$o$sexo$tende$a$ser$uma$
forma$de$contaminação$comum$(Guerra,$1991,$1994,$1998).$Segundo$Alvarez$(2005),$
as$ práticas$ de$ proteção$ sexual$ mais$ eficazes$ na$ prevenção$ do$ HIV$ (excluindo$ a$
abstinência)$ envolvem$ comportamentos$ seguros,$ nomeadamente$ através$ do$ uso$ do$
preservativo,$ mas$ também$ da$ realização$ periódica$ de$ testes$ de$ despistagem$ em$
ambos$os$parceiros,$caso$se$justifique.$Contudo,$“a$redução$do$número$de$parceiros$
(casuais)$ foi$ também$ considerada$ um$ comportamento$ de$ proteção,$ pelo$ facto$ de$
reduzir$ a$ probabilidade$ de$ se$ terem$ relações$ sexuais$ com$ um$ parceiro$ infectado”$
(Alvarez,$2005:$69).$Não$obstante,$dois$grupos$sociais$têm$merecido$atenção$especial$
no$ que$ toca$ à$ promoção$ de$ comportamentos$ sexuais$ seguros:$ por$ um$ lado,$ os$
toxicodependentes,$ uma$ vez$ que$ muitos$ ainda$ tendem$ a$ não$ usar$ preservativo$ nas$
suas$práticas$sexuais$(Rhodes$&$Quirk,$1996);$e,$por$outro,$os$jovens,$que$tendem$a$ser$
um$ grupo$ etário$ maioritariamente$ com$ maior$ atividade$ sexual$ e$ menor$
$
188$
consciência/experiência$no$campo$do$sexo$(Reis,$2012).$Porém,$na$verdade,$à$margem$
destes$ dois$ grupos,$ a$ população$ em$ geral$ tende$ a$ praticar$ comportamentos$ sexuais$
inseguros,$ apesar$ de$ ter$ consciência$ dos$ perigos.$ Com$ efeito,$ “em$ termos# gerais,# as#
pessoas&estão&bem&informadas&sobre&a&SIDA&e&sobre&as&formas&de&transmissão&do&vírus&
da# imunodeficiência# humana# (HIV)# e# revelam# vontade# de# se# protegerem# da# infeção,#
mas$não$praticam$sexo$seguro”$(Alvarez,$2005:$14).$
Desde$ o$ surgimento$ e$ propagação$ devastadora$ do$ HIV/SIDA,$ seria$ de$ prever$
uma$intensificação$na$prática$de$sexo$seguro,$decorrente$das$características$mortais,$
na$ maioria$ dos$ casos,$ desta$ doença.$ Porém,$ e$ com$ alguma$ surpresa,$ esta$ inversão$
comportamental$não$se$verificou$e,$quer$o$conhecimento$da$doença,$quer$o$desejo$de$
se$ proteger,$ não$ parecem$ ter$ tido!força& suficiente& para& produzir& as& mudanças&
necessárias)à)redução)generalizada)do)risco)de)infeção)(DiClemente$&$Peterson,$1994;$
Hubert$ *#" '+,$ 1998;$ Ross$ &$ Rosser,$ 1989).$ De$ facto,$ ao$ praticar$ este$ tipo$ de$
comportamentos,$ Alvarez$ (2005)$ acredita$ que$ os$ indivíduos$ o$ fazem$ como$ parte$ de$
uma$ prática$ rotineira$ e$ automática,$ pouco$ focada$ em$ processos$ racionais$ e$
conscientes.$ A$ banalização$ do$ uso$ de$ contracetivos$ orais$ e$ de$ outros$ métodos$ de$
contraceção$hormonal,$particularmente$ entre$as$ mulheres$jovens,$pode,$ igualmente,$
potenciar$ as$ relações$ sexuais$ inseguras.$ Também,$ o$ facto$ de,$ tendencialmente,$ os$
portadores$desta$doença$se$sentirem$estigmatizados$socialmente,$leva$a$que,$muitas$
vezes,$se$perpetuem$sentimentos$de$receio$sobre$a$revelação$da$sua$infeção$a$outras$
pessoas,$ nomeadamente$ aos$ parceiros$ sexuais$ (Black,$ 1993;$ Bor$ *#" '+,$ 1993),$ o$ que$
acaba$ por$ potenciar$ o$ desenvolvimento$ de$ comportamentos$ sexuais$ de$ risco.$
Portanto,$ os$ portadores$ de$ VIH/SIDA$ enfrentam$ o$ dilema$ onde,$ de$ um$ lado,$ está$ a$
possibilidade$ de$ puderem$ transmitir$ a$ doença,$ e,$ de$ outro,$ a$ necessidade$ de$ se$
manterem$sexualmente$ativos$(Schonnesson$&$Clement,$1995).$Não$obstante,$hoje$em$
dia$verifica-se$um,$“aumento$da$esperança$média$de$vida$dos$doentes,$e$a$conceção$
de$que$a$SIDA$deixou$de$ser$uma$doença$mortal$para$se$tornar$uma$doença$crónica,$
traduz-se$ num$ maior$ número$ de$ indivíduos$ infetados$ com$ vida$ sexual$ ativa”$ (Reis,$
2012:$34).$
$
189$
Em$Portugal,$dos$970$novos$casos$diagnosticados$no$decorrer$do$ano$de$2018$
na$ população$ adulta,$ 61,6%$ situam-se$ nas$ faixas$ etárias$ entre$ os$ 25$ e$ os$ 49$ anos,$
apresentando$ uma$ maior$ incidência$ o$ grupo$ etário$ dos$ 30$ aos$ 39$ anos$ com$ 25,9%,$
quer$no$número$de$mulheres,$quer$no$número$de$homens50$(Figura$3.12.).$Estes$dados$
revelam-nos$que$estes$indivíduos$terão$contraído$a$doença$no$final$da$adolescência$ou$
no$início$da$idade$adulta,$o$que$volta$a$colocar$em$ênfase$a$importância$da$prevenção$
de$comportamentos$sexuais$de$risco$nos$grupos$etários$tipicamente$juvenis.$Além$do$
risco$de$contágio$do$VIH,$a$Organização$Mundial$de$Saúde$alertou$em$201151$para$o$
crescimento$ exponencial$ de$ novos$ casos$ de$ doenças$ sexualmente$ transmissíveis$ nas$
camadas$ com$ idades$ compreendidas$ entre$ os$ 15$ e$ os$ 49$ anos.$ Isto,$ pode$ dever-se,$
também,$ao$ facto$ de$ os$jovens$ iniciarem$ a$ sua$vida$ sexual$ cada$ vez$mais$ cedo$ e$ de$
forma$menos$segura52.$Em$suma,$segundo$o$Relatório$sobre$a$Infeção$VIH$e$SIDA$em$
Portugal$ (2019),$ desde$ 1983,$ que$ foram$ diagnosticados$ 59913$ casos$ de$ infeção$ por$
VIH/SIDA$no$nosso$país,$inicialmente$de$forma$crescente$(até$1999)$e$posteriormente$
de$ forma$ decrescente$ até$ ao$ período$ atual,$ o$ que,$ de$ certa$ forma,$ reflete$ um$
considerável$crescimento$na$adoção$de$práticas$sexuais$seguras$no$nosso$país.$
$
!!!!!!!!U6)5(*!XM;@M!L%e%+!-*+%+!7#!60}#z{%!4%(!VOK!:@>;RB^!76+8(6~56z{%!4%(!)(54%!#8C(6%&!+#$%!#!8*$*+!!
Fonte:$3*+'#XB0$"&$IB*"'"<1W*CD$";<_"*"><:!"*."V$B#)L'+$(2019).$ $
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
50 Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde/Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.
Infeção VIH e SIDA em Portugal - 2019. Lisboa: DGS/INSA; 2019.
51 World Health Organization - WHO. (2011). Prevalence and incidence of selected sexually transmitted
infections,
Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae,
syphilis and
Trichomonas vaginalis
: methods
and results used by WHO to generate 2005 estimates. WHO Document Production Services, Geneva,
Switzerland.
52 Global Sex Survey
$
190$
`M Um#trajeto#sonoro#com#uma#pausa#metodológica!
Y$0"1$"K$B#$"%*"\0&I$',"'"I*I*B"*"'"-'1#'B"
5$1U*-0").".'B01U*0B$"%*"()*."/$&"/$)"W'+'B"
;'+*1#*".'B01U*0B$,"1'&-0%$"*."1$0#*"%*"#*.K*&#'%*"
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Y)L01%$"-$."'L)'B%*1#*,"1*1U)."%*0n$)"K*1&'B"
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7'&"%*1#B$"%*").'"L'BB'W'"1)1-'".'0&"&*"K*B%*"$"KE"
Sitiados$(1992)$–$=&#'";0%'"%*"7'B01U*0B$.$
$
`M;M!W%+6-6%0*3#08%!8#†(6-%?3#8%7%1†)6-%!#!7#+#0f%!7*!60e#+86)*z{%!
A$ abordagem$ das$ práticas$ e$ das$ representações$ relativamente$ às$ (sub)culturas$ e$
(neo)tribos$ juvenis$ em$ geral$ e$ ao$ universo$ B$-J$ em$ particular$ têm$ abraçado,$ nas$
últimas$ décadas,$ uma$ metodologia$ de$ estudos$ de$ caso$ de$ recorte$ multidimensional,$
diacrónico,$ sincrónico$ e$ comparativo.$ De$ acordo$ com$ Andy$ Bennett$ (2011),$ a$
importância$destas$abordagens,$quer$do$ponto$de$vista$local$como$global,$prende-se$
com$o$facto$de$estas$se$assumirem$cada$vez$mais$como$algo$imprescindível$na$análise$
das$ práticas$ culturais$ juvenis,$ especialmente$ no$ que$ toca$ à$ fruição$ musical,$ que$ se$
constitui$ a$ problemática$ central$ desta$ investigação.$ No$ entanto,$ apesar$ da$
centralidade$crescente$deste$tipo$de$análises,$estas$questões$continuam$a$denunciar$
alguma$dificuldade$de$ permeabilização$fora$ do$contexto$anglo-saxónico,$ em$especial$
no$contexto$português,$uma$vez$que$são$ainda$escassas$as$investigações$científicas$em$
torno$destas$temáticas.'Neste'contexto,'com'o'objetivo'de'contribuir'para'a'supressão'
desta& carência,& e& partindo& da& premissa& da& prática& da& razão& sociológica,& a& estratégia&
!"#$%$&'()*+, +, -.", /$0, 12$1.0"!$0, 12)3)&"()+, .!+, #2)+/(.&+45$, )/#"2!6#$%$07, !+)0,
precisamente$ uma$ abordagem$ pautada$ pelos$ .0n*%" .*#U$%&!!"#$%&$''() *+,-.() /01)
vista&à&explicação&e&compreensão&das&representações&e&práticas&sociais,&das&vivências&e&
dos$contextos$inerentes$ao$universo$do$B$-J$português.$Note-se$que$o$desenho$desta$
investigação$começou$a$ser$adequadamente$planeado$e$delineado$antes$de$partirmos$
para$a$adoção$das$estratégicas$e$das$técnicas$de$recolha$de$dados$a$adotar,$de$forma$a$
fazer$reflexivamente$as$escolhas$mais$conscientes$e$convenientes$para$o$estudo$(Yin,$
2003).$
$
191$
A$ opção$ pela$ análise$ de$ um$ percurso$ cronológico$ tão$ alargado$ (1960-2015)&
deve-se# à# necessidade# de# sentirmos# a# necessidade# de# abranger# todas# as#
transformações$ sociais,$ económicas$ e$ culturais,$ que$ de$ uma$ forma$ ou$ de$ outra,$
exerceram$ influência$ nos$ comportamentos$ e$ consumos$ dos$ indivíduos,$
particularmente$nos$usos$de$substâncias$lícitas$e$ilícitas,$assim$como$nas$suas$atitudes$
e$práticas$sexuais$e$afetivas$ao$longo$desse$período$temporal.$Este$tipo$de$abordagem$
cronológica,$ além$ de$ uma$ análise$ temporal$ abrangente,$ permite$ a$ possibilidade$ de$
identificação$ de$ causas$ e$ efeitos$ importantes$ numa$ investigação$ (Yin,$ 2003).$ Este$
projeto$ assenta,$ assim,$ numa$ dupla$ hermenêutica$ que$ compreende$ a$ caracterização$
simultânea$de$representações$e$práticas$sobre$e$pelos$indivíduos,$com$um$propósito$
heurístico$ de$ envolver$ todos$ os$ atores$ que$ intervieram$ e$ intervêm,$ direta$ ou$
indiretamente,$nesta$esfera$de$consumo$e$de$lazer,$tais$como$músicos$e$ex-músicos,$
jornalistas$ e/ou$ outros$ profissionais$ dos$ média,$ críticos,$ agentes,$ responsáveis$ por$
estabelecimentos,$ produtores,$ editores,$ colecionadores,$ divulgadores,$ organizadores$
de$eventos,$consumidores,$fãs,$amigos,$familiares.$
Abordar$a$ temática$ do$ B$-J$numa$ investigação$ desta$ natureza$revelou-se$ um$
desafio,$uma$vez$que$os$recursos$bibliográficos$disponíveis$são$ainda$escassos,$embora$
se$encontrem$em$franco$crescimento$no$nosso$país.$A$construção$da$metodologia$de$
investigação$ empírica$ e$ a$ sua$ aplicação$ visaram,$ desta$ forma,$ solidificar$ os$ pilares$
analíticos$e$concetuais$deste$projeto,$indo$ao$encontro$do$fundamento$basilar$referido$
por$Yin$(2003)$para$qualquer$recolha$de$dados,$isto$é,$a$utilização$de$múltiplas$fontes$
de$ informação$ e$ de$ técnicas$ de$ recolha$ de$ dados.$ Nas$ suas$ palavras,$ “de$ facto,$ as$
múltiplas$fontes$são$altamente$complementares$e,$portanto,$um$bom$estudo$de$caso$
desejará$ usar$ o$ maior$ número$ possível”$ (Yin,$ 2003:$ 85).$ Portanto,$ e$ como$ foi$
previamente$referido,$esta$investigação$pautou-se,$fundamentalmente,$pelo$princípio$
da$ triangulação,$ que$ por$ outras$ palavras$ assenta$ na$ concretização$ de$ estratégias$
múltiplas$ de$ pesquisa$ de$ terreno$ (Burgess,$ 1997),$ que$ podemos$ designar$ como$
abordagens$ mistas,$ uma$ vez$ que$ nos$ permitem$ recorrer$ a$ técnicas$ de$ ambos$ os$
métodos$de$investigação$científica,$nomeadamente$os$qualitativos$e$os$quantitativos.$
Segundo$ Creswell$ (2014),$ os$ primeiros$ pensamentos$ acerca$ do$ valor$ dos$ métodos$
$
192$
mistos$residem$na$ideia$de$que$todos$os$métodos$têm$predisposições$e$fraquezas,$e$
que$ a$ recolha$ de$ ambos$ os$ dados,$ quer$ sejam$ eles$ de$ caráter$ qualitativo$ ou$
quantitativo,$ neutralizam$ as$ fraquezas$ um$ do$ outro.$ Deste$ modo,$ o$ nosso$ intuito$
passou$ por$ procurar$ a$ confirmação,$ a$ validação$ cruzada$ e$ a$ corroboração$ das$
conclusões$ deste$ estudo$ (Greene$ *#" '+,$ 1989;$ Morgan,$ 1998;$ Steckler$ *#" '+,$ 1992),$
partindo$dos$dados$recolhidos$através$de$ambos$os$métodos,$que$foram$de$igual$modo$
considerados$na$fase$de$interpretação$e$sistematização$da$informação.$Neste$âmbito,$
recorrendo$ao$pensamento$de$Yin$(2003)$assumimos$que,$
$")&$"%*".f+#0K+'&"W$1#*&"%*"%'%$&"*."*&#)%$&"%*"-'&$"K*B.0#*"
()*" )." 01/*&#0L'%$B" 'I$B%*" ).'" L'.'" .'0&" '.K+'" 1$" ()*"
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&*L)01%$").".$%*+$"-$BB$I$B'#XB0$"(Yin,$2003:$98).$
Sobre$ as$ opções$ metodológicas$ desta$ investigação,$ consideramos$ importante$
começar$por$realçar$a$análise$de$conteúdo$de$fontes$secundárias,$por$via$da$recolha$e$
análise$ de$ notícias$ de$ jornais53$ acerca$ das$ temáticas$ do$ B$-J,$ sexo$ e$ drogas,$
nomeadamente$ em$ dois$ órgãos$ de$ comunicação$ nacionais$ entre$ os$ anos$ de$ 1980$ e$
1985,$ período$ comumente$ identificado$ com$ o$ chamado$ I$$.$do$ B$-J$ português.$
Neste$ percurso$ metodológico,$ também$ nos$ socorremos$ de$ técnicas$ de$ recolha$ de$
informação$ primárias,$ tais$ como$ os$ registos$ de$ observação$ etnográfica$ (Pink,$ 2007a;$
2015)$ e$ as$ entrevistas$ em$ profundidade.$ A$ análise$ de$ fontes$ secundárias,$ em$
particular,$ que$ marca$ presença$ na$ primeira$ fase$ da$ investigação$ e$ que$ se$ refletiu$
maioritariamente$ em$ produções$ científicas,$ técnicas$ e$ audiovisuais$ -$ públicas$ ou$
privadas$ -$$e$ em$ conteúdos$ divulgados$ pelos$ distintos$ meios$ de$ comunicação,$ tem$
como$finalidade$retratar$a$informação$disponível$-$na$perspetiva$dos$seus$criadores$-,$
sobre$o$consumo$de$substâncias$lícitas$e$ilícitas$e$sobre$as$práticas$sexuais$e$afetivas,$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
53 Os órgãos de comunicação analisados correspondem ao Semanário Expresso (1973 - presente) e o
Semanário Se7e (1977 - 1994). A escolha destes jornais recaiu no facto de ambos serem semanários
(logo, o mero de edições ser menor, de forma a facilitar um período de recolha e análise mais
reduzido), de um ser de natureza generalista e outro especializado em cultura e artes, e de ambos serem,
de igual modo, dois dos jornais com maior número de tiragens na década de oitenta.
$
193$
de$ forma$ a$ ir$ ao$ encontro$ dos$ princípios$ da$ credibilidade$ e$ da$ representatividade54.$
Segundo$ Yin$ (2003),$ este$ tipo$ de$ fontes$ constitui$ um$ recurso$ imprescindível$ para$
qualquer$investigação.$Este$-$BK)&"informativo$foi$analisado$à$luz$de$outras$fontes$de$
recolha$ de$ dados,$ nomeadamente$ alguns$ materiais$ visuais$ e$ auditivos$ (Pink,$ 2007b),$
tais$como$o$conteúdo$musical55$e$a$forma$gráfica$dos$discos$e$da$música,$de$filmes,$de$
séries,$ e/ou$ documentários56,$ de$ programas$ mediáticos$ de$ rádio57$ e$ de$ outros$
instrumentos$ de$ divulgação,$ com$ o$ objetivo$ de$ identificar$ a$ presença/ausência$ de$
expressões$e$representações$face$à$tricotomia$B$-J-droga-sexo.$$
No$ que$ diz$ respeito$ à$ observação$ etnográfica,$ esta$ foi$ concretizada$ em$ três$
festivais$de$música,$nomeadamente$o$Festival$de$Vilar$de$Mouros,$o$Gerês$Rock$Fest$e$
ainda$ o$ Viana$ Bate$ Forte,$ cujo$ acesso$ é$ público.58$ Assim,$ a$ realização$ de$ registos$
etnográficos$cimentou-se$no$facto$de$serem$realizados$registos$em$diário$de$campo$e$
também,$ no$ uso$ de$ fotografias$ como$ forma$ de$ dar$ a$ conhecer$ os$ festivais,$ de$ os$
perceber$ por$ si$ mesmos$ e$ pelas$ interações$ que$ proporcionam$ e$ fomentam.$ Note-se$
que$ dos$ três$ eventos$ observados,$ apenas$ num$ houve$ uma$ experiência$ pessoal$ de$
participação$ prévia$ como$ elemento$ do$ público,$ seguindo$ uma$ lógica$ de$ observação$
participante.$ De$ acordo$ com$ a$ linha$ de$ raciocínio$ de$ Yin$ (2003),$ a$ técnica$ de$
observação$ participante,$ frequentemente$ utilizada$ em$ estudos$ de$ natureza$
antropológica,$ proporciona$ ao$ investigador$ a$ ocupação$ de$ um$ contexto$ privilegiado$
para$ a$ recolha$ de$ informação.$ Assim,$ a$ aplicação$ da$ etnografia$ enquanto$ técnica$
(Sharp,$2020;$Hodkinson,$2005b),$pressupôs$uma$observação$e$uma$reflexão$contínua$
sobre$o$próprio$papel$assumido$pelo$investigador$ao$longo$desta$tarefa,$tendo$sempre$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
54$$Referimo-nos, em especial, a relatórios, legislação e informações estatísticas.$
55$$Tais como: Jorge Morreu (1979) UHF; Sémen (1981) Xutos & Pontapés; Marijuana (1980) Arte &
Ofício; Chico Fininho(1080) Chico Fininho; Hardcore (1.º Escalão) (1982) GNR; Talvez Foder (1995) -
Pedro Abrunhosa & Os Bandemónio; 100 Metros Sereia (2010) Linda Martini…
56$$Tais como: Rock Rendez Vous (2010) Ricardo Espírito Santo; Meio Metro de Pedra (2012) Eduardo
Morais; Fado Canibal (2012) Timóteo Azevedo; Os Filhos do Rock (2013) Pedro Varela; Uivo (2014)
Eduardo Morais; A Arte Elétrica em Portugal (2015) RTP; Música em (2015) Eduardo Morais;
Variações (2019) João Maia...
57$$Tais como: Som da Frente (1982-1993) António Sérgio; Na Linha do Prog (2015 - presente) Luís
Filipe Barros; Coyote (2005 - presente) Pedro Costa, Costa a Costa (2011 - presente) Pedro Costa e
José Paulo Alcobia...$
58$$Dos três (Festival de Vilar de Mouros, Gerês Rock Fest e Viana Bate Forte), apenas houve participação
da investigadora em edições anteriores do Festival de Vilar de Mouros.$
$
194$
em$consideração$que$a$dinâmica$estabelecida$entre$a$observação$e$a$participação$se$
traduz,$ simultaneamente,$ num$ intenso$ escrutínio$ do$ envolvimento$ e$ do$
distanciamento$ do$ investigador$ (Pillow,$ 2003).$ Recorremos,$ também,$ a$ técnicas$
associadas$ à$ etnografia$ visual,$ de$ forma$ a$ dar$ sentido$ à$ fotografia$ utilizada$ como$
suporte$ de$ dados$ associada$ à$ observação$ participante.$ Tratam-se,$ portanto,$ de$
registos$fotográficos$produzidos$pelo$próprio$ investigador,$isto$é,$um$olhar$diferente$
sobre$determinada$realidade$(Appadurai,$1996;$Gonçalves,$2008).$
Intimamente$ relacionada$ com$ a$ análise$ de$ fontes$ secundárias$ e$ com$ a$
observação$ etnográfica,$ encontra-se$ a$ análise$ das$ entrevistas$ em$ profundidade,$
através$ das$ quais$ procurámos$ encontrar$ “(...)$ diferentes$ posturas$ vivenciais,$ como$
também$ os$ valores$ e$ as$ práticas$ a$ elas$ associadas”$ (Dantas,$ 2016:$ 265).$ Para$ Yin$
(2003),$ as$ entrevistas$ constituem$ um$ dos$ recursos$ mais$ valiosos$ numa$ investigação.$
Neste$projeto,$a$realização$desta$tarefa$decorreu$entre$os$meses$de$março$e$agosto$de$
2018,$ presencialmente59$ em$ diversos$ espaços60$ e$ localizações$ do$ país61,$ e$ o$
contacto/agendamento$ prévio$ foi$ feito,$ na$ sua$ maioria,$ através$ de$ email,$ telefone$
e/ou$ redes$ sociais.$ Os$ atores$ que$ deram$ voz$ às$ entrevistas$ semiestruturadas$ foram$
selecionados$ com$ recurso$ à$ amostragem$ não$ probabilística$ intencional,$ comumente$
designada$de$amostra$por$conveniência$(Agresti$&$Finlay,$2012),$de$forma$a$que$nos$
fosse$ permitida$ uma$ aproximação$ direta$ aos$ indivíduos$ que$ circularam$ e$ ainda$
circulam$dentro$da$esfera$do$B$-J"português.$Uma$vez$que$o$contacto$próximo$e$direto$
entre$ o$ investigador$ e$ o$ entrevistado$ permite$ o$ surgimento$ de$ novas$ questões$ a$
explorar,$ as$ entrevistas$ em$ profundidade$ implicam$ determinadas$ opções$
metodológicas.$Neste$sentido,$está$subjacente$uma$relação$verbal$e$escrita,$que$não$é$
natural$-$na$medida$em$que$é$criada$pelo$investigador$-,$e$que$se$encontra$delimitada$
pelos$objetivos$da$investigação,$e$consolidada$num$guião$de$entrevista$constituído$por$
questões$ abertas,$ não$ condicionadas$ S" KB0$B0,$ e$ que$ fazem$ com$ que$ o$ entrevistado$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
59$$Apenas duas se realizaram via Skype, uma pelo facto de o entrevistado residir noutro país e outra por
indisponibilidade de agenda do entrevistado para uma entrevista presencial.$
60$$Residências, cafés, restaurantes, bares, estúdios, teatros,
backstages
, centros culturais, salas de
concertos, escritórios, jardins, parques, centros comerciais, estações de transportes públicos.$
61$$Viana do Castelo, Vilar de Mouros, Braga, Terras de Bouro, Porto, Vila Nova de Gaia, Matosinhos, Leça
da Palmeira, Coimbra, Bombarral, Lisboa, Cascais, Seixal.
$
195$
possa$exprimir$ os$seus$ pensamentos$ de$forma$ livre$e$ não$limitada$ de$acordo$ com$o$
tema$(Poirier$*#"'+,$1999).$Atendendo$às$respostas$dos$entrevistados,$estas$questões$
possibilitaram,$paralelamente,$visavam$a$possibilidade$de$surgimento$de$dimensões$e$
de$ tópicos$ complementares,$ que$ permitiram$ captar$ as$ reais$ vivências$ sociais$ e$ os$
modos$ pelos$ quais$ os$ indivíduos$ experienciam$ e$ elaboram$ a$ subjetividade$ da$
experiência$ social$ em$ que$ se$ inserem$ (Lisboa$ *#" '+,$ 2006;$ Kothari,$ 2004).$ A$ este$
respeito,$Sharp$(2020)$caracteriza$este$tipo$de$entrevistas$como$elásticas,$na$medida$
em$ que$ elas$ se$ podem$ desdobrar$ e$ mover,$ à$ medida$ em$ que$ o$ entrevistado$ e$ o$
investigador$se$envolvem$na$tarefa.$Portanto,$
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B*-$+U*B," $" *1#B*/0&#'%$B" #*." +0I*B%'%*" K'B'" 01#B$%)Z0B" 1$/'&"
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#*.K$,"'")#0+0Z'CD$"%*")."L)0D$"&)BL*"1D$"&X"%'"1*-*&&0%'%*"%*"
*&#B)#)B'CD$"%'"-$1/*B&'"e&)KB0.01%$"'"%0&K*B&D$"%'"*1#B*/0&#'g,"
.'&" &*B/*" #'.IE." -$.$" LB*+U'" '1'+c#0-'" K'B'" '" K$&#*B0$B"
'1b+0&*"*"-$.K'B'CD$"%$".'#*B0'+"B*-$+U0%$"(Dantas,$2016:$266).$
Relativamente$ ao$ inquérito$ por$ questionário,$ recorremos$ à$ técnica$ de$
amostragem$ probabilística$ aleatória$ simples,$ uma$ vez$ que$ qualquer$ elemento$ da$
população$alvo$teve$igual$probabilidade$de$ser$selecionado.$O$nosso$objetivo$com$este$
instrumento$ metodológico$ foi$ o$ de$ procurar$ identificar$ as$ representações$ sociais$
hetero$ e$ autoconstruídas$ em$ torno$ da$ associação$ da$ música$ B$-J$ ao$ consumo$ de$
substâncias$ lícitas$ e$ ilícitas$ e$ a$ comportamentos$ sexuais,$ nomeadamente$ os$
comportamentos$ de$ excessos$ e$ os$ riscos.$ Dado$ que$ se$ trata$ de$ um$ inquérito$ por$
questionário$$1+01*,$a$sua$aplicação)foi)indireta)e)alcançou)apenas)os)internautas,)ou)
seja,&o&número&de&indivíduos&assinantes&do&acesso&à&01#*B1*#$(3.012.970$indivíduos$em$
201562).$ A$ sua$ partilha$ e$ divulgação$ decorreu$ entre$ os$ meses$ de$ março$ e$ agosto$ de$
2019$ através,$ maioritariamente,$ das$ redes$ sociais$ (Facebook$ e$ Instagram)$ e$ e-mail$
institucional$da$Universidade$do$Porto63.$Portanto,$a$nossa$amostra$foi$constituída$por$
383$indivíduos,$ com$ uma$ margem$ de$erro$ menor$ que$ 0,5%$ (Arkin$ &$ Colton,$ cit.$ por$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
62$$Fontes: INE (até 2006) | ANACOM; INE (a partir de 2007), PORDATA (Última atualização: 2017- 03-15).$
63$Autorizações obtidas junto da Direção da Faculdade de Letras, do Departamento de Proteção de Dados
da Universidade do Porto e da Comissão Ética do Instituto de Sociologia.$
$
196$
Bravo,$1995:$234).$A$opção$pelo$recurso$$1+01*,$justifica-se$pela$extensa$amplitude$da$
população$e$ da$amostra,$ mas$também$ pela$redução$ de$custos$ na$sua$ aplicação,$por$
princípios$ecológicos$ e$ pela$ facilidade$ na$recolha$ e$ tratamento$de$ dados$volumosos,$
nomeadamente$através$de$ferramentas$como$o$&$W#m'B*$estatístico$IBM$SPSS.$
Para$ levarmos$ a$ cabo$ os$ objetivos$ a$ que$ nos$ propusemos$ neste$ projeto,$
desenhamos$ este$ processo$ de$ pesquisa$ como$ sendo$ assente$ num$ modelo$ técnico-
metodológico$que$procurou,$assim,$fazer$uso$de$uma$triangulação$técnica$e$teórica,$à$
luz$do$que$nos$refere$Teresa$Duarte$(2009),$uma$vez$que$esta$metodologia$se$revelou$
apropriada$ à$ compreensão$ das$ representações$ e$ práticas$ dos$ sujeitos$ no$ âmbito$ de$
um$fenómeno$complexo,$com$a$finalidade$de$compreender$os$contextos$sociais$e$as$
interações'inter'e'intra'sistemas'que'o'caracterizam.'Ao'contrário'daquilo'que'é'prática'
comum,$ou$seja,$passar$pela$submissão$dos$dados$exclusivamente$estatísticos$a$testes$
convencionalmente$estabelecidos,$também$o$método$qualitativo$deve$ser$submetido$a$
critérios$de$rigor.$Um$aspeto$importante$para$nós$passou$pelo$desenvolvimento$de$um$
auto$ escrutínio$ contínuo$ dos$ dados$ que$ recolhemos,$ uma$ vez$ que$ “no$ processo$ de$
análise,$ as$ nossas$ interpretações$ iniciais$ são$ testadas$ pela$ contínua$ avaliação$ e$
verificação,$incluindo$ a$ análise$do$ nosso$próprio$ papel$na$ construção$de$significado”$
(Pyett,$ 2003:$ 1171).$ Procuramos,$ então$ que$ essa$ persistente$ autoanálise$
transparecesse$ao$longo$da$própria$narrativa$do$discurso$para$o$leitor.$
$
`M@M![5#+8‡#+!€86-*+!0*!(#-%1f*!#!8(*8*3#08%!7#!7*7%+!!
$
Relativamente$às$questões$éticas$e$à$sua$relação$com$a$implementação$das$técnicas$
selecionadas,$importa$realçar$ que$independentemente$da$ escolha$das$estratégias$ ou$$
técnicas$ a$ adotar,$ os$ investigadores$ devem$ considerar$ todos$ os$ dados$ recolhidos,$
apresentá-los$isentos$de$qualquer$interpretação$e$demonstrar$uma$abertura$adequada$
para$explorar$interpretações$alternativas,$não$perdendo$de$vista$os$diferentes$tipos$de$
$
197$
audiência$que$poderão$ter$interesse$nos$resultados$do$estudo64$(Yin,$2003).$Segundo$
Yin$(2003),$a$análise$de$dados$é,$justamente,$uma$das$tarefas$mais$complexas$de$uma$
investigação.$Neste$contexto,$consideramos$fulcral$ter$em$consideração$os$princípios$
éticos$recomendados$por$Denier$e$Crandall$(1978)$destacados$por$Bryman$(2012:$135),$
no$ sentido$ em$ que$ se$ organizam$ de$ acordo$ com$ a$ possibilidade$ de$ prejuízo$ para$ os$
participantes,$ mas$ também$ com$ a$ ausência$ de$ consentimento$ informado$ e$ ainda,$ a$
invasão$de$privacidade$e$o$engano.$$
Portanto,$ com$ o$ objetivo$ de$ conseguirmos$ informar,$ respeitar$ e$ garantir$ os$
direitos$dos$participantes,$que$de$forma$voluntária$se$disponibilizaram$a$colaborar$com$
esta$ investigação,$ consideramos$ essencial$ o$ desenvolvimento$ de$ -$1&*1#0.*1#$&"
01W$B.'%$&," quer$ no$ âmbito$ das$ entrevistas,$ quer$ dos$ questionários.$ Através$ desta$
ferramenta$ foi-nos$ possível$ explicar$ quais$ as$ finalidades$ e$ condições$ associadas$ à$
colaboração$ em$ cada$ um$ dos$ instrumentos$ de$ análise,$ de$ modo$ a$ permitir$ aos$
potenciais$ participantes$ conhecerem$ os$ propósitos$ do$ projeto,$ o$ objetivo$ desta$
recolha$de$informação$e$a$utilização$a$ser$dada$à$mesma$dentro$da$investigação$em$
curso.$ Estes$ consentimentos$ permitiram,$ de$ igual$ modo,$ esclarecer$ as$ condições$ de$
participação$ no$ estudo,$ particularmente$ no$ que$ diz$ respeito$ ao$ anonimato$ dos$
participantes$ e$ à$ confidencialidade$ dos$ dados$ recolhidos,$ mas$ também$ realçando$ o$
direito$ de$ cancelar$ a$ sua$ participação$ em$ qualquer$ momento$ do$ processo$ (Bryman,$
2012).$ A$ opção$ pelo$ anonimato$ dos$ participantes$ nesta$ investigação$ em$ particular$
prendeu-se$ com$ o$ facto$ de$ nos$ debatermos$ com$ questões$ pessoais,$ sensíveis$ e$
controversas,$ -$ um$ vez$ que$ envolvem$ a$ descrição$ de$ hábitos$ de$ consumo$ de$
substâncias$ legais$ e$ ilegais$ e$ de$ comportamentos$ sexuais$ e$ afetivos$ –$ e$ com$ a$
possibilidade$ dessa$ informação,$ ao$ ser$ tornada$ pública,$ poder$ vir$ a$ exercer$ um$
impacto$prejudicial$nas$suas$vidas$pessoais$e$profissionais$(Yin,$2003).$Portanto,$estes$
aspetos$levaram-nos$à$necessidade$de$proteger$a$identidade$dos$nossos$participantes.$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
64$À partida, além da audiência de natureza mais científica (júri da defesa, investigadores e colegas da
área ou de outros campos de estudo), esperamos ter também os colaboradores desta investigação
(entrevistados e inquiridos) e outros indivíduos ligados à esfera do
rock
português, órgãos de
comunicação, a Fundação para a Ciência e Tecnologia (responsável pela Bolsa de Doutoramento que
permitiu o desenvolvimento desta investigação), elementos da população em geral que se interessem por
estas temáticas e, possivelmente, entidades de diferentes naturezas, para quem os nossos resultados
possam ser pertinentes ao desenvolvimento do seu trabalho.$
$
198$
No$ caso$ dos$ nossos$ entrevistados,$ procedemos$ ao$ uso$ de$ pseudónimos$ visando$ a$
substituição$ do$ seu$ nome$ próprio,$ de$ terceiros$ ou$ de$ eventuais$ grupos$ ou$ bandas$
mencionadas$ pelos$ mesmos$ durante$ as$ entrevistas,$ de$ forma$ a$ proteger$ qualquer$
possível$referência$ou$associação$às$suas$identidades.$$
Relativamente$à$observação$etnográfica,$partimos$da$ideia$de$que$a$presença$
do$investigador$nos$ambientes$em$que$se$desenvolve$a$interação$social$compreende$a$
impossibilidade$de$antecipar$previamente,$com$maior$ou$menor$precisão,$os$cenários$
e$ os$ comportamentos$ dos$ indivíduos$ com$ os$ quais$ serão$ confrontados$ (Katz,$ 2006).$
Por$ esta$ razão,$ dada$ a$ natureza$ da$ observação$ etnográfica$ e$ das$ condições$ em$ que$
esta$ decorre,$ e$ uma$ vez$ que$ obter$ o$ consentimento$ dos$ sujeitos$ observados$
constituiria$ uma$ tarefa$ difícil,$ impraticável$ e$ potencialmente$ disruptiva$ para$ a$
investigação$(Bryman,$2012),$procuramos$assegurar$um$consentimento$informado$das$
entidades$responsáveis$de$cada$evento$observado.$
Importa$ ressalvar$ que$ ao$ longo$ deste$ projeto,$ o$ respeito$ e$ a$ aplicação$ dos$
princípios$éticos$obrigou$a$uma$reflexividade$permanente,$constantemente$combinada$
com$ os$ papéis$ do$ investigador$ e$ dos$ participantes.$ Segundo$ Sharp$ (2020),$ a$
reflexividade$ incorpora,$ assim,$ as$ próprias$ experiências,$ preconceitos,$ emoções,$
valores$ entre$ outros$ aspetos$ inerentes$ ao$ investigador,$ tomando-os$ como$ parte$
integrante$ da$ afirmação$ de$ conhecimento$ (Sharp,$ 2020:$ 13).$ Neste$ contexto,$ esta$
reflexividade$ compreendeu,$ também,$ a$ minha$ própria$ posição$ simultânea$ de$
investigadora$ e$ participante$ de$ eventos$ B$-J,$ particularmente$ no$ processo$ de$
recrutamento$ de$ intervenientes$ para$ as$ entrevistas,$ a$ etnografia$ e$ o$ inquérito.$ Para$
Yin$(2003),$esta$bagagem$de$conhecimentos,$redes$e$investigação$prévia$sobre$o$tema$
em$questão$desempenha$um$papel$importante$no$estudo,$uma$vez$que$nos$permite$
estar$ mais$ conscientes$ dos$ contextos$ científicos$ e$ sociais$ em$ que$ se$ moveu$ esta$
investigação.$De$acordo$com$Taylor$(2011),$trata-se,$portanto,$de$um$espaço$cultural$
com$o$qual$eu$tenho$contacto$ocasional$e$no$qual$as$minhas$relações$pessoais$estão$
de$alguma$forma$presentes.$No$âmbito$do$meu$posicionamento$nesta$esfera$cultural,$
a$minha$posição$também$me$proporcionou$uma$ampla$potencialidade$para$expandir$
determinadas$temáticas$nas$conversas$e$interações,$aplicar$o$conhecimento$histórico$
$
199$
às$circunstâncias$temporais$e$utilizar$as$possibilidades$de$uma$pesquisa$mais$dinâmica$
(Breen,$2007;$Tang,$2007).$No$entanto,$estas$possibilidades$não$se$encontram$isentas$
de$limitações$e$desafios$éticos,$que$exigiram$uma$gestão$diligente$entre$subjetividade$
e$objetividade$(Sharp,$2020).$Mais$concretamente,$algumas$experiências$vividas$pelos$
participantes$e$ seus$significados$ acabaram$por$ moldar,$ em$ certo$ momento,$a$ minha$
parcialidade$ em$ relação$ a$ determinadas$ bandas,$ locais$ e$ pessoas$ e,$ portanto,$
precisaram$de$um$questionamento$reflexivo,$especialmente$se$eu$não$compartilhasse$
dos$ mesmos$ pontos$ de$ vista.$ Neste$ âmbito,$ Sharp$ (2020)$ alerta$ para$ o$ pouco$
reconhecimento$que$tem$sido$prestado$nos$estudos$juvenis$ao$facto$de$muitas$vezes$
os$ próprios$ entrevistados$ se$ sentirem$ afetivamente$ envolvidos$ com$ o$ assunto$ ou$
projeto$em$causa$e$de,$consequentemente,$isso$poder$moldar$em$algum$sentido$a$sua$
participação.$ De$ forma$ a$ fazer$ uma$ gestão$ mais$ eficiente$ entre$ essa$
objetividade/subjetividade,$ procurei$ permanentemente$ confirmar$ os$ discursos$ dos$
meus$entrevistados$e$questionar-me$a$mim$própria$(mentalmente$e$também$através$
das$minhas$notas)$acerca$do$meu$papel$como$investigadora$no$decorrer$deste$projeto,$
tomando$ o$ exercício$ da$ reflexividade$ como$ uma$ rotina$ de$ trabalho$ (Sharp,$ 2020)$ e$
tendo$sempre$presente$a$noção$de$que$$
$
'&" 1$&&'&" #'B*W'&" -$.$" 01/*&#0L'%$B*&" ()'+0#'#0/$&," '" ()*."
%*B'." $" KB0/0+EL0$" %*" $)/0B" '&" U0&#XB0'&" %$&" 1$&&$&"
K'B#0-0K'1#*&,"E"$"%*"&*B.$&"B*W+*n0/$&"F"1D$"'K*1'&"1'"W$B.'"
-$1W$B#b/*+"*"&*L)B'"%*"B*W+*n0/0%'%*"()*" .)0#'&"/*Z*&"&$.$&"
*1-$B'i'%$&" '" W'Z*B"F" .'&"'1#*&"$"#0K$"%*"B*W+*n0/0%'%*"()*"E"
-U$-'1#*" *" &)BKB**1%*1#*," *" ()*" 1$&" K*B.0#*" KB'#0-'B" '" E#0-'"
-$.$" )." '&K*-#$" '#0/$" *" -$1#c1)$" 1'" 1$&&'" 01/*&#0L'CD$"
(Thurairajah,$2019:$146)."
Ainda,$ durante$ a$ preparação$ e$ desenvolvimento$ desta$ investigação,$ tivemos$
em$ consideração$ o$ Código$ Deontológico$ que$ vigora$ na$ Associação$ Portuguesa$ de$
Sociologia$ (APS),$ não$ violando$ os$ princípios$ da$ voluntariedade$ dos$ participantes$ do$
estudo,$ a$ identificação$ dos$ investigadores$ e$ dos$ objetivos$ do$ estudo$ ou$ a$
confidencialidade$dos$dados$recolhidos.$Partimos,$deste$modo,$da$premissa$de$que$“o$
exercício$ dessas$ competências$ pressupõe$ grande$ autonomia$ de$ critérios$ no$
desempenho$da$atividade$profissional.$Em$contrapartida$e$indissociavelmente,$implica$
$
200$
consideráveis$responsabilidades$profissionais$e$sociais”$(Código$Deontológico,$APS65).$
Além$disso,$submetemos$este$projeto$à$Comissão$Ética$do$Instituto$de$Sociologia$para$
revisão,$ assim$ como$ os$ consentimentos$ informados$ para$ todos$ os$ intervenientes$
respeitaram$o$atual$regulamento$de$proteção$de$dados$pessoais.$
`MXM!Let%the%music%play!!U#((*3#08*+!#!4(%-#763#08%+!7#!(#-%1f*!#!
8(*8*3#08%!7%+!7*7%+!
`MXM;M!G!*0C16+#!*(ƒ56e|+86-*!#!7%-53#08*1!
$
A$ análise$ documental$ desenvolvida$ no$ âmbito$ desta$ investigação$ partiu$ da$ uma$
primeira$ realização$ e$ intensificação$ de$ pesquisa$ bibliográfica$ e$ de$ leituras$
fundamentais$dentro$do$campo$de$estudos$deste$projeto,$que$nos$permitiu$ressaltar$
as$teorias$e$conceitos$relevantes,$assim$como$problematizar$o$nosso$objeto$de$estudo,$
sob$a$forma$de$uma$problemática$teórica$com$enfoque$no$B$-J"como$pós-(sub)cultura.$
A$ modelização$ teórica$ desenvolveu-se,$ neste$ sentido,$ em$ torno$ e$ a$ partir$ das$
propostas$de$ Steve$Redhead$ (1997),$ David$Muggleton$ (2000)$e$ Andy$ Bennett$(2011)$
face$ à$ existência$ de$ uma$ pós-(sub)cultura,$ complementadas$ por$ abordagens$ de$
enquadramento$ no$ tempo$ presente,$ nomeadamente$ assentes$ nas$ conceções$ de$
modernidade$tardia$(Giddens,$1991)$e$de$-)+#)B'+"#)B1"(Chaney,$1994),$com$o$objetivo$
de$alcançar,$sobretudo,$um$entendimento$da$música$a$partir$das$representações$das$
experiencias$e$vivências$dos$indivíduos/grupos$associados$a$esta$pós-(sub)cultura.$
Portanto,$ durante$ esta$ pesquisa$ procedemos,$ igualmente,$ à$ procura$ e$ à$
seleção$ de$ fontes$ documentais$ e$ de$ conteúdos$ mediáticos$ alusivos$ às$ dinâmicas$ de$
lazer$e$de$consumo$desta$pós-(sub)cultura,$com$a$finalidade$de$obtermos$um$retrato$
assente$ no$ conhecimento$ disponível$ das$ rotinas$ e$ dos$ hábitos$ de$ consumo$ de$
substâncias$lícitas$e$ilícitas,$mas$também$de$atitudes$e$de$práticas$sexuais$e$afetivas,$
desde$ 1960$ até$ 2015.$ Esta$ tarefa$ incidiu,$ na$ sua$ generalidade,$ em$ livros,$ trabalhos$
académicos$ (teses$ e$ artigos),$ relatórios$ (nacionais$ e$ europeus),$ sondagens,$ peças$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
65$$Consultar em: https://aps.pt/pt/codigo-deontologico/$
$
201$
jornalísticas$ de$ imprensa,$ rádio$ e$ televisão$ (notícias,$ entrevistas$ e$ reportagens)$ e$
documentários,$ que$ tentámos$ tornar$ visíveis$ ao$ longo$ dos$ capítulos$ deste$ trabalho.$
Como$ resultado$ da$ pesquisa$ e$ análise$ documental,$ foram$ desenvolvidos$ os$
instrumentos$de$recolha$de$dados$(guiões$de$entrevista,$de$observação$etnográfica$e$
inquérito)$ a$ utilizar$ posteriormente.$ Este$ tipo$ de$ análise$ também$ nos$ permitiu,$ nas$
fases$ seguintes,$ servir$ de$ base$ para$ corroborar$ e$ aumentar$ as$ evidências$ de$
informações$ recolhidas$ através$ de$ outras$ fontes,$ nomeadamente$ as$ utilizadas$ nas$
restantes$técnicas$de$recolha$de$dados,$tendo$sido$extremamente$úteis$para,$a$título$
de$ exemplo,$ “(...)$ verificar$ corretamente$ grafias,$ designações$ ou$ nomes$ de$
organizações$que$podem$ter$sido$mencionadas$numa$entrevista”$(Yin,$2003:$87).$
Contudo,$ importa$ realçar$ que$ os$ suportes$ bibliográficos$ consultados$ nesta$
análise$ podem$ reproduzir$ visões$ e$ pontos$ de$ vista$ particulares,$ e$ que$ não$ se$
encontram$"isentos$de$erro$e$distorções"$(Scott,$1990,$cit.$por$Bryman,$2012:$551).$Por$
isso,$procuramos$sempre$analisá-los$em$contraste$com$outras$fontes,$de$forma$a$lidar$
convenientemente$com$as$questões$relativas$à$sua$credibilidade$e$representatividade$
(Yin,$ 2003).$ Portanto,$ foi$ necessário$ manter$ um$ processo$ permanente$ de$ escrutínio$
dos$ documentos,$para$ aferir$ a$ sua$ autenticidade,$ credibilidade,$ representatividade$ e$
compreensibilidade,$ mantendo$ sempre$ presente$ a$ ideia$ de$ que$ estas$ fontes$
representam$ um$ nível$ distinto$ da$ realidade,$ uma$ vez$ que$ assentam$ nos$ contextos$
específicos$em$que$foram$produzidos$e$na$audiência$primordial$à$qual$se$direcionam$
(Atkinson$e$Coffey,$2011,$cit.$por$Bryman,$2012:$554).$
$
`MXM@M!G!%~+#(e*z{%!#80%)(C}6-*!#!%!contacto%carnal!-%3!%!rock’n’roll!!
!
A$metodologia$de$investigação$empírica$deste$projeto$assentou$-$como$já$foi$referido$-$
no$ exercício$ de$ trabalho$ de$ campo$ etnográfico$ com$ recolha$ de$ dados$ a$ partir$ da$
observação$direta,$da$fotografia$social$e$do$diário$de$campo,$com$vista$a$desenvolver$
um$ cruzamento$ com$ a$ informação$ recolhida$ nos$ restantes$ procedimentos$
metodológicos,$e$consolidar$as$bases$analíticas$e$concetuais$desta$investigação.$Neste$
$
202$
sentido,$ o$ contacto$ direto$ com$ o$ objeto$ de$ estudo$ especificamente$ a$ partir$ da$
perspetiva$ etnográfica,$ teve$ como$ finalidade$ conhecer$ de$ perto$ as$ dinâmicas$
multiculturais,$assim$como$as$práticas$de$interação$e$consumo$inerentes$aos$contextos$
observados,$ que$ de$ outra$ forma,$ seriam$ mais$ difíceis$ de$ apreender.$ Segundo$ Yin$
(2003),$ esta$ técnica$ permite-nos,$ portanto,$ conhecer$ mais$ fielmente$ a$ realidade$ do$
nosso$ objeto$ de$ estudo,$ a$ partir$ de$ uma$ visão$ interna.$ Neste$ sentido,$ procurámos$
selecionar$três$eventos$musicais$públicos$de$grande,$média$e$pequena$dimensão,$que$
decorressem$em$espaços$físicos$de$diferentes$características$e$com$distintas$estruturas$
e$modalidades$de$organização,$de$forma$a$observar$e$comparar$os$respetivos$tipos$de$
público,$nomeadamente$os$seus$comportamentos,$ tendo$ em$conta$as$características$
de$cada$tipo$de$festival.$Note-se,$que$a$seleção$destes$e$não$de$outros$festivais$deveu-
se,$ de$ igual$ modo,$ à$ recetividade$ e$ à$ disponibilidade$ das$ entidades$ organizadoras$
destes$ eventos$ em$ colaborar$ nesta$ investigação,$ nomeadamente$ através$ da$
autorização$concedida$para$o$desenvolvimento$do$nosso$trabalho$de$campo.$Portanto,$
os$ eventos$ escolhidos$ foram$ três$ festivais$ de$ música$ que$ decorreram$ ao$ ar$ livre,$
durante$o$verão$de$2018.$
A$nível$cronológico,$o$primeiro$festival$observado$foi$o$Gerês$Rock$Fest$(Figura$
4.1.),$que$corresponde$ao$festival$de$pequena$dimensão,$e$que$decorreu$nos$dias$27$e$
28$de$julho,$tendo$sido$esta$a$sua$segunda$edição.$A$escolha$deste$festival$prendeu-se$
com$o$facto$de$privilegiar$o$B$-J$no$seu$cartaz$e$na$sua$identidade,$que$é$um$aspeto$
essencial$da$nossa$investigação,$mas$também$por$ser$um$festival$bastante$recente,$o$
que$ nos$ permitiu$ observar$ as$ modalidades$ de$ organização$ praticadas$ e$ compará-las$
com$ as$ dos$ demais$ festivais$ observados.$ Outra$ característica$ importante$ para$ esta$
escolha$ foi$ a$ sua$ pequena$ dimensão,$ a$ proximidade$ relativamente$ ao$ meu$ local$ de$
residência$e,$também,$o$facto$de$se$encontrar$localizado$num$espaço$completamente$
rural$e$distinto$dos$demais$eventos$observados,$ou$seja,$em$pleno$Parque$do$Gerês,$
afastado$de$qualquer$tipo$de$comércio,$serviços$ou$mesmo$residências,$o$que$poderia$
constituir$um$desafio$para$a$adesão$do$público.$A$observação$teve$lugar$no$primeiro$
dia$ do$ evento$ (27$ de$ julho).$ O$ festival$ realiza-se,$ então,$ no$ concelho$ de$ Terras$ de$
Bouro,$ mais$ especificamente$ no$ Campo$ do$ Gerês,$ às$ portas$ do$ Parque$ Nacional$
$
203$
Peneda-Gerês.$ Este$ festival$ tem$ o$ seu$ foco$ no$ B$-J,$ envolvendo$ diferentes$ sub-
géneros,$como$tivemos$oportunidade$de$verificar$no$programa$deste$ano,$que$contou$
dois$grandes$nomes$do$B$-J$nacional,$os$7$$1&K*++$e$os$\01%'"7'B#010,$como$cabeças$
de$ cartaz$ dos$ dois$ dias,$ respetivamente66.$ De$ acordo$ com$ o$ artigo$ apresentado$ na$
Figura$4.2.,$pela$sua$localização$privilegiada,$o$Gerês$Rock$Fest$oferecia$uma$agenda$de$
atividades$desportivas$e$radicais$a$acontecer$durante$os$dos$dois$(gratuitas$e$pagas),$e$
que$ incluíam$ trilhos$ pedestres,$ canoagem$ e$ K'01#I'++]G,$ “(...)$ tendo$ os$ participantes$
oportunidade$de$visitar$locais$e$pontos$de$referência$como$a$via$romana$da$Geira,$os$
museus$ da$ Geira$ e$ de$ Vilarinho$ das$ Furnas,$ a$ Mata$ da$ Albergaria$ e$ a$ barragem$ de$
Vilarinho$das$Furnas,$onde$se$encontra$uma$aldeia$submersa”$(Lusa,$2018:$s/p).$
$
! ! !!!!U6)5(*!`M;M!W*1-%!4(60-64*1!7%!N#(•+!,%-.!U#+8!
$$$$Fonte:$Autora.$
! !
$
$
$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
66$$Ver cartaz em anexo Anexo I.$
67$O$ festival teve a Antena 3 como
media partner
e a cerveja Sagres como cerveja oficial, além do
patrocínio da conhecida marca de preservativos
Harmony
. O interesse deste tipo de entidades em
patrocinar festivais de música vai ao encontro da importância dos consumos e comportamentos sexuais
comummente vivenciados nestes ambientes.$
$
204$
!!!!!
!U6)5(*!`M@M!P%%0+4#11!#!F607*!P*(8606!-*~#z*+?7#?-*(8*•!7#!}#+86e*1!0%!N#(•+!
$$$$$$Fonte:$Notícias$ao$Minuto$(online),$12$de$junho$de$201868.$
Seguiu-se$o$festival$de$grande$dimensão,$que$correspondeu$ao$mítico$Festival$
de$Vilar$de$Mouros$(Figura$4.3.)$e$que$decorreu$nos$dias$23,$24$e$25$de$agosto,$tendo$a$
observação$acontecido$nos$dias$23$e$25$(primeiro$e$último$dia$do$evento).$A$escolha$
deste$ festival$ assentou$ na$ importância$ da$ música$ B$-J$ na$ biografia$ deste$ histórico$
festival69$ e$ na$ sua$ longa$ cronologia$ de$ edições,$ sendo$ o$ festival$ mais$ antigo$ em$
atividade$ nos$ dias$ de$ hoje.$ Outras$ características$ cruciais$ para$ a$ escolha$ recaíram,$
igualmente,$na$sua$grande$dimensão$-$uma$vez$que$se$trata$de$um$dos$mais$populares$
festivais$de$verão$que$decorrem$no$nosso$país$-,$na$sua$localização$–$porque$se$realiza$
numa$ aldeia$ rural$ -$ e,$ também,$ pela$ proximidade$ relativamente$ ao$ meu$ local$ de$
residência.$Tal$como$nos$confirma$o$artigo$apresentado$na$Figura$4.4.,$este$festival$é$
apelidado$por$muitos$como$o$|$$%&#$-J"V$B#)L)M&"“(...)$após$a$mítica$edição$de$1971,$
[que]$ foi$ na$ época$ palco$ para$ grandes$ músicos,$ mas$ também$ para$ pequenas$
revoluções$de$costumes,$ que$desafiaram$a$ moral$imposta$pelo$ Estado$Novo”$(Judas,$
2018:$ s/p).$ Tal$ como$ o$ nome$ indica,$ o$ festival$ realiza-se$ na$ freguesia$ de$ Vilar$ de$
Mouros,$concelho$de$Caminha,$precisamente$junto$ao$rio$Coura$e$à$ponte$românica,$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
68$$Consultar em: https://www.noticiasaominuto.com/cultura/1028071/moonspell-e-linda-martini-
cabecas-de-cartaz-de-festival-no-geres$
69$$Como cabeças de cartaz desta edição, o festival apresentou os
Pretenders
e Peter Murphy no primeiro
dia, os
Incubus
e
Editors
no segundo e os
DEUS
e James no terceiro (ver cartaz em anexo Anexo II).
$
205$
sendo$ este$ também$ um$ espaço$ rural.$ É$ de$ realçar,$ ainda,$ que$ não$ existiu$ aqui$ o$
conceito$de$ 'W#*B"U$)B&," ou$seja,$ o$ cartaz$ fechava$ sem$a$ existência$de$ um$momento$
dedicado$exclusivamente$a$DJs$ou$música$eletrónica.$
! !
!!!!!!!!!!!U6)5(*!`MXM!W*1-%!4(60-64*1!U#+86e*1!7#!V61*(!7#!P%5(%+!
$$$$$$$$$$Fonte:$Autora.$
!!!!!!!!!!!!U6)5(*!`M`M!Vilar%de%Mouros,%um%festival%com%muita%história!
$$$$$$$$$$$$$Fonte:$Diário$de$Notícias$(online),$24$de$agosto$de$201870.$
$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
70$$Consultar em: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/24-ago-2018/vilar-de-mouros-um-festival-com-muita-
historia-9754343.html$
$
206$
Finalmente,$ o$ último$ festival$ observado$ correspondeu$ ao$ Viana$ Bate$ Forte$
(Figura$ 4.5.),$ que$ decorreu$ nos$ dias$ 14$ e$ 15$ de$ setembro,$ tratando-se$ esta$ da$ sua$
terceira$edição.$Apesar$de$ainda$ser$um$evento$recente,$este$ano$foram$criados$mais$
dois$ palcos$ além$ dos$ três$ já$ existentes,$ que$ vieram$ permitir$ ao$ seu$ público,$
inclusivamente,$segundo$o$artigo$apresentado$na$Figura$4.6.,$uma$“(...)$vista$para$um$
rico$património$arquitetónico$com$várias$igrejas,$monumentos$e$edifícios$centenários$
e$ também$ com$ o$ Rio$ Lima$ por$ companhia”$ (Azevedo,$ 2018:$ s/p).$ A$ escolha$ deste$
evento$prendeu-se$com$a$sua$natureza$muito$própria,$nomeadamente$com$o$facto$de$
ser$ um$ festival$ urbano,$ gratuito$ e$ eclético,$ que$ decorre$ em$ diferentes$ palcos$
espalhados$pelo$centro$histórico$da$cidade,$mas$tendo$igualmente$o$B$-J$presente$no$
seu$cartaz7172.$Ainda,$importante$para$a$escolha$foi$a$sua$média$dimensão$e$o$facto$de$
se$encontrar$próximo$do$meu$local$de$residência.$Aqui,$a$observação$focou-se$em$dois$
concertos$específicos$de$B$-J,$um$em$cada$dia$do$evento:$^U*"\*L*1%'Bl"^0L*B.'1$e$
de$:*'%"5$.I$GO2$
$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
71$$O Viana Bate Forte teve, ainda, o apoio da RTP e da Rádio Comercial como
media partners
e não se
quis associar a nenhuma marca de bebida, de forma a promover a restauração e comércio local. Note-se,
que ao contrário dos outros dois eventos que tinham organização partilhada entre uma empresa privada
e organismos públicos (câmaras municipais e/ou juntas de freguesia), o Viana Bate Forte é da exclusiva
organização do município de Viana do Castelo.
72$$Uma vez que ao contrário dos outros dois eventos, este festival tinha entrada livre e, devido à sua
natureza urbana, não contemplava a oferta de campismo ou outro tipo de alojamento oficial.$
73$$Ver cartaz em anexo Anexo III.$
$
207$
! ! !!U6)5(*!`MAM!W*1-%!7*!F6~#(7*7#!q!V6*0*!S*8#!U%(8#!
$$$$$$$$$$$Fonte:$Autora.$
$
!!! ! !!U6)5(*!`M=M!Viana%bate%forte%a%14%e%15%de%setembro!
$Fonte:$Rádio$Comercial$(online),$2$de$agosto$de$201874.$
!
`MXMXM!D08(#e6+8*+!#!76+-5(+%+!7%!rock’n’roll%
!
De$ forma$ a$ empreender" uma" análise" sobre" a" evolução" das" práticas" e" das"
representações* do* consumo* de* substâncias* lícitas* e* ilícitas* e* das* atitudes* face* às*
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
74$$Consultar em: https://radiocomercial.iol.pt/noticias/82080/viana-bate-forte-a-14-e-15-de-setembro$
$
208$
práticas) sexuais,) desde) 1960) até4) 2015,) procurámos) desenvolver) um) mapeamento)
identificativo$de$rotinas$e$de$consumos,$que$permitisse$evidenciar$as$apropriações$e$as$
recriações$ dos$ intervenientes$ na$ esfera$ profissional$ do$ B$-J$ nacional.$ Tendo$ sempre$
como$ premissa$ de$ que$ o$ social$ é$ um$ campo$ complexo,$ que$ envolve$ inúmeras$
representações$e$interações,$tentámos$fazer$uma$aproximação$à$realidade$a$partir$de$
um$conjunto$de$leituras$possíveis$(Guerra,$2010).$Para$tal,$o$primeiro$passo$passou$por$
focarmos$o$nosso$olhar$nos$protagonistas$do$B$-J$português,$através$da$realização$de$
um$ conjunto$ de$ cinquenta$ entrevistas$ semiestruturadas$ (dez$ por$ cada$ década),$ a$
atores$ cruciais$ do$ subcampo$ do$ B$-J!português) (músicos) e) ex-músicos,( jornalistas,(
críticos,$ promotores,$ produtores,$ editores,$ agentes),$ com$ o$ fim$ de$ compreender$ os$
sentidos$ sociais$ subjacentes$ às$ narrativas$ destes$ agentes.$ Estas$ entrevistas$ em$
profundidade$ permitiram-nos,$ assim,$ obter$ dados$ de$ natureza$ subjetiva,$ tais$ como$
crenças,$ sentimentos,$ pensamentos,$ atitudes,$ entre$ outros,$ fulcrais$ para$ o$
entendimento$dos$universos$de$significação$dos$sujeitos.$$
Neste$ sentido,$ definimos$ quatro$ perfis$ de$ entrevistados:$ (a)$
Donos/gestores/programadores$ de$ espaços;$ (b)$ Músicos/ex-músicos;$ (c)$
Jornalistas/críticos$ e$ afins;$ e$ (d)$ Promotores$ de$ eventos.$ A$ opção$ tomada$ para$ a$
seleção$de$dez$entrevistados$por$cada$década$assentou$na$tentativa$de$obtenção$de$
um$princípio$de$exploração$de$possíveis$diferenças$nos$seus$valores$orientadores,$nas$
suas$vivências,$nas$suas$experiências$e$nas$suas$práticas,$tendo$em$conta$a$evolução$
temporal$e$social$do$país.$Na$construção$dos$guiões$das$entrevistas75$assumimos$estes$
quatro$ eixos$ de$ exploração$ categorial$ transversal$ (categorias$ gerais/macro)$ dos$
agentes$inter-atuantes$e$que$se$encontram$apresentados$no$esquema$que$se$segue:$I.$
Discussão$do$projeto$e/ou$área$de$intervenção$do$entrevistado;$II.$Posicionamentos$e$
representações$ face$ à$ música$ B$-J,$ aos$ modos$ de$ vida$ e$ vinculações;$ III.$ Consumos,$
gostos$ e$ posições$ dentro$ da$ pós-(sub)cultura$ B$-J$ nacional;$ e$ em$ IV.$ Abordagem$
acerca$das$experiências$associadas$aos$processos$de$estigmatização$social.$$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
75$$Ver Anexo IV.$
$
209$
$
$
Com$a$finalidade$de$obtermos$não$só$uma$visão$do$conjunto$do$extenso$-$BK)&$
recolhido,$ mas$ também$ uma$ análise$ em$ profundidade$ dos$ casos$ particulares,$
recorremos$à$técnica$de$Análise$de$Conteúdo,$contemplando$orientações$quantitativas$
e$ qualitativas.$ Por$ um$ lado,$ centrámo-nos$ na$ interpretação$ dos$ discursos$ dos$
entrevistados$ (Elo$ *#" '+2," 2014)$ e$ nos$ significados$ que$ dão$ às$ suas$ ações$ individuais;$
I. Discussão do projeto e/ou área de intervenção do entrevistado
Surgimento e consolidação do interesse pela música, pelo
rock
e pela indústria
cultural.
Construção de um percurso profissional na área musical/cultural.
Enunciação dos principais momentos da carreira profissional.
Planos, desejos e projetos futuros.
II. Posicionamentos e representações face à música
rock
, aos modos de vida e
vinculações
Meio urbano vs. não urbano e possíveis influências na construção da identidade e
do gosto.
Construção e caracterização do gosto musical.
Descrição de hábitos e rotinas associados ao vínculo musical e cultural.
Considerações estéticas pessoais e/ou profissionais.
III. Consumos, gostos e posições dentro da pós-(sub)cultura
rock
nacional
Situação perante o consumo de substâncias legais e ilegais.
Caracterização de relacionamentos, sexualidade e afectos.
Relatos de momentos de excessos, riscos e experiências.
Importância pessoal/social da subcultura
rock
.
IV. Abordagem acerca das experiências associadas aos processos de estigmatização
social
Sexo, drogas e r
ock’n’roll
em Portugal.
Considerações familiares e sociais acerca do vínculo musical.
Relatos de estigmatização social, desconfiança ou marginalização.
Referências a envolvimentos com autoridades e/ou forças de segurança.
$
210$
mas$também$na$identificação$e$quantificação$de$temas$pertinentes$nos$discursos$dos$
indivíduos,$ de$ forma$ a$ encontrar$ elementos$ comuns$ estruturadores$ das$ suas$ ações.$
Portanto,$ para$ analisarmos$ os$ percursos$ individuais$ e$ compará-los$ com$ as$ demais$
trajetórias$procedemos,$em$primeiro$lugar,$à$definição$das$unidades$de$categorização$
semântica$ e$ à$ modalidade$ de$ codificação$ para$ a$ organização$ do$ material$ recolhido.$
Assim,$ definimos$ as$ seguintes$ categorias$ e$ subcategorias:$ A.$ 3$-J:$ cena,$ interesse,$
participação$ e$ percursos;$ B.$ 3$-J:$ posicionamentos$ e$ representações;$ C.$ 3$-J:$
consumos$e$posições;$D.$3$-J:$experiências$e$estigmatização.$
No$primeiro$ponto$(3$-J:$cena,$interesse,$participação$e$percursos),$agregamos$e$
exploramos$todos$os$discursos$ou$referências$relativos$ao$surgimento$e$consolidação$
do$ interesse$ dos$ entrevistados$ pela$ música$ em$ geral$ e$ pelo$ B$-J$ em$ particular,$
nomeadamente$os$contextos$quotidianos,$os$atores$sociais$,$tais$como$os$amigos$e$os$
familiares,$ determinantes$ para$ esse$ interesse,$ os$ hábitos$ de$ lazer$ associados$ como$
ouvir$rádio,$ouvir$e/ou$comprar$discos/cassetes$ou$imprensa$especializada,$as$bandas$
e/ou$ artistas$ fundamentais$ numa$ primeira$ fase$ para$ o$ despertar$ desse$ interesse$ e,$
também,$ a$ importância$ ou$ não,$ nesta$ primeira$ etapa,$ da$ aproximação$ a$ um$
instrumento$ musical.$ Analisamos$ também$ todos$ os$ discursos$ acerca$ da$
consciencialização$ da$ música$ como$ profissão$ e$ carreira,$ mais$ precisamente$ aqueles$
associados$ao$surgimento$do$seu$vínculo$profissional$à$música,$tais$como$os$primeiros$
grupos,$os$primeiros$discos,$os$primeiros$contratos,$entre$outros.$Mais$ainda,$também$
nos$ focamos$ na$ profissionalização,$ isto$ é,$ na$ consolidação$ da$ sua$ carreira,$ e$ seus$
contextos,$ nomeadamente,$ o$ possível$ abandono$ ou$ não$ dos$ estudos;$ também$ nos$
focamos$ em$ momentos$ importantes$ dos$ percursos$ profissionais$ dos$ entrevistados,$
não$ descurando$ as$ eventuais$ dificuldades,$ como$ por$ exemplo,$ advindas$ do$ período$
sócio$ histórico$ português,$ e$ nos$ seus$ projetos,$ perspetivas$ e$ desejos$ profissionais$
atuais$a$curto,$médio$e$longo$prazo.$$
No$ segundo$ ponto$ (3$-J:$ posicionamentos$ e$ representações)$ incluímos$ todos$ os$
discursos$ou$referências$acerca$da$importância$ou$não$do$meio$urbano,$não$urbano,$
rural,$e$da$presença$de$hábitos$relevantes$dos$entrevistados,$atuais$ou$não$associados$
às$suas$vivências$musicais$e$vínculos$profissionais,$mas$também$outros$relevantes$para$
$
211$
a$construção$da$vontade$e/ou$interesse$no$universo$da$música;$também$nos$focamos$
nos$gostos$musicais$ao$nível$dos$artistas$e$das$bandas,$visuais$(aspetos$característicos$
da$ aparência:$ roupa,$ cabelos,$ acessórios...)$ e$ intelectuais$ (linhas$ de$ pensamento,$
ideologias,$lemas...)$com$os$quais$os$entrevistados$se$identificam$e$orientam.$$
No$terceiro$ponto$(3$-J:$consumos$e$posições),$englobamos$todos$os$discursos$e$
referências$ acerca$ dos$ hábitos$ e$ posicionamentos$ dos$ entrevistados$ perante$ o$
consumo$ de$ substâncias$ legais$ e$ ilegais$ e$ eventuais$ dependências$ ou$ excessos,$ mas$
também$ os$ seus$ percursos$ sexuais$ e/ou$ afetivos$ em$ termos$ de$ estabilidade$ ou$
instabilidade$e$sobre$a$perceção$e$importância$pessoal$e$social$da$cultura$B$-J.$$
No$ quarto$ e$ último$ ponto$ de$ análise$ (3$-J:$ experiências$ e$ estigmatização),$
contemplamos$ todos$ os$ discursos$ ou$ referências$ acerca$ do$ posicionamento$ dos$
entrevistados$ face$ ao$ epítome$ “sexo$ drogas$ e$ B$-J[1[B$++”$ aplicado$ ao$ nosso$ país,$
organizando-o$ de$ acordo$ com$ a$ dicotomia$ realidade-mito;$ aglomeramos$ também$
todos$os$discursos,$relatos$ou$situações$relacionadas$com$sentimentos$ou$situações$de$
estigmatização$ social$ (ou$ ausência$ desta),$ vivenciados$ pelos$ entrevistados$ ou$ por$
terceiros,$assim$como$situações$e/ou$comportamentos$que$resultaram$em$incidentes$
envolvendo$as$autoridades,$seja$na$primeira$ou$terceira$pessoa.$
Relativamente$ à$ codificação,$ definimos$ o$ tema$ como$ unidade$ de$ registo$ e$ o$
parágrafo$ como$ unidade$ de$ contexto$ (excerto)$ e$ foram$ respeitados$ os$ critérios$ de$
objetividade$ e$ sistematicidade$ na$ agregação$ e$ organização$ dos$ dados,$ tendo$ as$
categorias$sido$aplicadas$de$forma$idêntica$a$todo$o$material.$De$seguida,$procedeu-se$
à$elaboração$simultânea$de$uma$análise$vertical$e$horizontal$das$entrevistas$(Guerra,$
2010;$Elo$*#"'+,"2014;$Deterding$&$Waters,$2018)76.$Esta$análise$permitiu-nos$apurar$a$
forma$como$os$diferentes$temas$são$abordados$por$cada$um$dos$entrevistados$e$quais$
as$suas$ações,$ao$nível$da$análise$horizontal,$mas$também$compreender$e$explorar$os$
significados$empreendidos$pelos$entrevistados$nas$suas$próprias$posições,$através$da$
análise$vertical.!!
!
`MXMXM;M!G+!e%•#+!#!%+!(%+8%+!7%!rock’n’roll!
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
76$$Através de grelhas de análise que se encontram reproduzidas nos Anexos V e VI, respetivamente$
$
212$
!
Partindo$de$uma$abordagem$compreensiva,$tentamos$conhecer$o$universo$subjetivo$e$
as$diferentes$posturas$vivenciais$dos$entrevistados,$assim$como$os$seus$pensamentos,$
representações,$ valores,$ sentimentos$ e$ as$ práticas$ a$ ela$ associadas.$ Portanto,$
procuramos$ entrevistar$ atores$ relevantes$ para$ a$ nossa$ investigação,$ que$ se$
mostrassem$ disponíveis$ para$ falar$ das$ suas$ trajetórias$ de$ vida,$ incluindo$ os$ seus$
sucessos$ e/ou$ os$ seus$ insucessos.$ Uma$ síntese$ das$ principais$ características$
sociográficas$dos$entrevistados$encontra-se$apresentada$nas$Figuras$e$Tabelas$que$se$
seguem.$ Assim,$ a$ nossa$ amostra$ revelou-se$ heterogénea,$ do$ ponto$ de$ vista$ em$ que$
entrevistamos$homens$e$mulheres,$porém$a$mesma$não$estava$distribuída$de$forma$
equitativa,$sendo$que$verificamos$a$existência$de$43$homens$e$sete$mulheres77,$como$
vemos$na$Figura$4.7.,$o$que$vai$ao$encontro$de$uma$leitura$sobre$o$género$dentro$do$
próprio$ espaço$ global$ do$ B$-J" e$ que$ no$ nosso$ país$ tende$ a$ assumir$ uma$ quase$
exclusividade$ masculina,$ em$ particular$ nas$ gerações$ séniores.$ Em$ termos$ etários,$ as$
idades$encontram-se$compreendidas$entre$os$29$e$os$78$anos,$com$o$grupo$etário$dos$
61$ aos$ setenta$ anos$ a$ assumir$ um$ maior$ número$ de$ efetivos$ (18$ entrevistados),$
seguido$ do$ grupo$ dos$ 31$ aos$ 40$ anos$ (11$ entrevistados),$ como$ se$ verifica$ na$ Figura$
4.8..$Fazendo$uma$leitura$geral,$verificamos,$então,$que$em$termos$etários,$se$trata$de$
um$grupo$onde$predomina$a$geração$de$sessenta,$acompanhada$de$perto$pela$geração$
dos$trinta.$
$
$
$
$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
77$$facto de a nossa amostra ser maioritariamente constituída por indivíduos do sexo masculino, prende-
se com o facto de a história do
rock
português, especialmente do seu princípio, ser marcada pela forte
presença masculina, uma vez que as condições políticas, económicas e sociais do nosso país
apresentadas em capítulos anteriores, não previam grandes liberdades à mulher.$
$
213$
$$ $ U6)5(*!`MZM!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7%+!#08(#e6+8*7%+!4%(!)€0#(%!
$ $ Fonte:$Autora.$
$
!!!!U6)5(*!`MRM!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7%+!#08(#e6+8*7%+!4%(!#+-*1‡#+!#8C(6%+!
$$$ $$$$$$$$$Fonte:$Autora.$
$
Em$ termos$ de$ presença$ espacial,$ todos$ os$ entrevistados$ apresentam$
características$ maioritariamente$ urbanas,$ embora$ nem$ todos$ residam$ em$ cidades,$
assinalando-se$aqui$a$preponderância$das$áreas$metropolitanas$de$Lisboa$e$do$Porto,$
em$ particular$ a$ de$ Lisboa,$ onde$ residem$ 57%$ dos$ entrevistados,$ como$ é$ possível$
observar$ na$ Figura$ 4.9..$ É$ de$ realçar$ que$ esta$ distribuição$ espacial$ dos$ agentes$ aqui$
$
214$
considerados$vai$ao$encontro$da$distribuição$espacial$dos$agentes$do$campo$artístico$
em$geral,$onde$se$revelam$tendencialmente$este$tipo$de$assimetrias$territoriais.$$
!!!! !U6)5(*!`M<M!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7%+!#08(#e6+8*7%+!4%(!1%-*1!7#!(#+67•0-6*!
,#+67•0-6*!
U(#ƒ5•0-6*!
Cascais$
2$
Lisboa$
15$
Matosinhos$
2$
Amadora$
2$
Estoril$
3$
Paço$de$Arcos$
1$
Porto$
10$
New$Jersey$
1$
Bombarral$
1$
Aroreira$
1$
Corroios$
1$
Vigo$
1$
V.$N.$Gaia$
1$
Seixal$
1$
Braga$
4$
Leça$da$Palmeira$
1$
Coimbra$
1$
Palmela$
1$
Viana$do$Castelo$
1$
Q%8*1!
A>!
$$$$$$$$$$Fonte:$Autora.$
$
Trata-se$ de$ um$ grupo$ profissionalmente$ inserido$ e$ com$ diferentes$ profissões$
e/ou$ U$II0*&$ relacionados$ com$ a$ música$ e$ com$ as$ indústrias$ criativas,$ tal$ como$
confirmam$ os$ dados$ da$ Figura$ 4.10.,$ nomeadamente$ com$ 37$ dos$ entrevistados$ a$
$
215$
pertencerem$ao$grupo$de$especialistas$das$profissões$intelectuais$e$científicas$e$11$aos$
dirigentes.$ Revelam,$ ainda,$ fortes$ competências$ escolares,$ que$ se$ encontram$
apresentadas$na$Figura$4.11.,$e$que$se$situam$entre$o$ensino$básico$e$o$doutoramento,$
dos$ quais$ 23$ dos$ 50$ entrevistados$ possui$ o$ ensino$ superior$ e$ 10$ deles$ possuem$
mestrados$e/ou$pós-graduações,$todos$com$diferentes$estilos$de$vida,$mas$partilhando$
pontos$de$contacto$comuns.$Portanto,$estamos$perante$um$grupo$de$agentes$sociais$
na$ sua$ maioria$ qualificado$ escolar,$ profissional$ e$ socialmente,$ tendo$ em$ conta$ a$
generalidade$da$população$portuguesa.$
$
!!!!!!!!!U6)5(*!`M;>M!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7%+!#08(#e6+8*7%+!4%(!4(%}6++‡#+!
W(%}6++{%!
U(#ƒ5•0-6*!
Músico/autor/intérprete$como$única$profissão$
16$
Músico/autor/intérprete$como$profissão$secundária$
13$
5U'0B.'1"
1$
Profissional$dos$média$(rádio,$imprensa,$tv,$online...)$
8"
Empresário$
2$
Inspetor/$investigador$governamental$
1$
Engenheiro$eletrotécnico$
1$
Professora$de$Inglês$aposentada$
1$
Bancário$aposentado$
1$
Eletricista$
1$
Autor$de$programas/livros$
1$
Promotor/Programador$
2$
Cargo$político$
1$
DJ/B$'%0*/técnico$de$som/VJ/agente$
1$
Q%8*1!
A>!
$$$$$$$$$$$$Fonte:$Autora.$
!
!
!
$
216$
U6)5(*!`M;;M!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7#!#08(#e6+8*7%+!4%(!)(*5!7#!#+-%1*(67*7#$
$$$$$$$$$$$$$Fonte:$Autora.$
$
`MXM`M!J+!60ƒ5€(68%+!#!%!506e#(+%!7*+!(#4(#+#08*z‡#+!*-#(-*!7%!rock’n’roll!
!
A$partir$de$um$ponto$de$vista$distinto,$com$o$objetivo$de$captarmos$as$representações$
sociais$ hétero-construídas$ em$ torno$ da$ associação$ do$ B$-J" ao$ sexo$ e$ às$ drogas,$ a$
excessos$ e$ a$ riscos$ no$ nosso$ país,$ optamos$ pela$ aplicação$ de$ um$ inquérito$ por$
questionário$ $1+01*GR.$ Neste$ inquérito,$ procuramos$ organizar$ a$ recolha$ de$ dados$ de$
acordo$com$a$seguinte$estrutura:$$
$
$
$
$
$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
78$$Ver Anexo VII.$
8%
$
2%
$
20%$
4%$
46%$
20%$
Ensino$básico$ 2º$e$3º$Ciclos$
Ensino$Secundário/Profissional$ Frequência$Universitária$
Ensino$Superior/Equivalente$ Pós-graduação$
$
217$
$
Assim,$ a$ nossa$ amostra$ é$ composta$ por$ 383$ indivíduos,$ com$ idades$
compreendidas$entre$os$18$e$os$66$anos,$sendo$os$29$anos$a$idade$mais$frequente$da$
amostra$com$23$inquiridos$(Figura$4.12.),$embora$os$20$anos$(com$20$inquiridos),$os$24$$
anos$ (com$ 18$ inquiridos),$ os$ 27$ (com$ 21$ inquiridos)$ e$ os$ 28$ (com$ 18$ inquiridos)$
também$sejam$idades$bastante$frequentes$na$nossa$amostra.$Portanto,$podemos$dizer$
que$ se$ trata$ de$ uma$ amostra$ maioritariamente$ constituída$ por$ adultos$ jovens$ e$
equilibrada$ em$ termos$ de$ género,$ uma$ vez$ que$ 51%$ dos$ inquiridos$ são$ do$ sexo$
feminino$e$49%$do$sexo$masculino$(Figura$4.13.).$Grande$parte$encontra-se$a$residir$no$
norte$do$país$(Figura$4.14.),$particularmente$nos$concelhos$do$Porto$(18,7%),$Ponte$de$
Lima$(12,1%)$e$Braga$(11,6%)79.$
$
$
$
$
$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
79$$Uma vez que resido em Ponte de Lima, é natural que das partilhas do questionário tenha resultado
uma percentagem significativa de inquiridos a residir nesta localidade.$
A: Universo
rock
,
gostos e apropriações,
com o objetivo de
conhecer os géneros
musicais e os artistas
e/ou bandas mais
apreciados e qual a sua
influência na vida dos
inquiridos, mas
também conhecer os
hábitos de frequência
de eventos musicais e
a sua importância;
B: Consumos, rituais e
práticas de Interação,
de forma a recolher
dados acerca dos
hábitos de consumo de
substâncias legais
(álcool) e ilegais, a
situação perante
relacionamentos
afetivos e intimidades
e a eventual relação
entre estes indicadores
com os eventos
musicais e com a
cultura
rock
no nosso
país;
C: Trajeto e condição
sociográfica, centrado
nos contextos
sociográficos da nossa
população, com o
intuito de
conhecermos a sua
caracterização, como
veremos de seguida.
$
218$
U6)5(*!`M;@M!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7#!60ƒ56(67%+!4%(!67*7#+!:#3!*0%+B!
$
Fonte:$Autora.!
$ $
!U6)5(*!`M;XM!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7#!60ƒ56(67%+!4%(!)€0#(%!
$$$$$$$$$$$Fonte:$Autora.$
!
!
!
$
$
51%
49%
Feminino Masculino
0
5
10
15
20
25
18 20 22 24 26 28 30 32 34 36 38 40 42 44 46 48 50 52 54 56 58 60 64 66
Total
Idades
Total
$
219$
!
!!!!!!!U6)5(*!`M;`M!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7#!60ƒ56(67%+!4%(!(#)6{%!7#!(#+67•0-6*!:L2Q"!OOB!
,#)6{%!7#!(#+67•0-6*^!
U(#ƒ5•0-6*!
Ilhas$
4$
Lisboa$e$Vale$do$Tejo$
44$
Antwerpen$
1$
Norte$
297$
Alentejo$
2$
Centro$
29$
Macau$
1$
Algarve$
4$
Victoria,$Australia$
1$
Q%8*1!
XRX!
$$$$$$$$$$$$Fonte:$Autora.$
$
No$ que$ se$ refere$ ao$ estado$ civil,$ aferimos$ que$ a$ maioria$ da$ amostra$ se$
identifica$ como$ solteiros$ com$ 68%$ das$ respostas$ (Figura$ 4.15.),$ seguido$ dos$ casados$
com$26%,$o$que$vai$ao$encontro$da$tendência$do$nosso$próprio$país$como$o$terceiro$da$
União$ Europeia$ onde$ acontecem$ menos$ casamentos80.$ Relativamente$ ao$ grau$ de$
escolaridade,$ apuramos$ que$ 78%$ dos$ inquiridos$ possuem$ o$ Ensino$ Superior$ como$
principal$habilitação$literária$(Figura$4.16.),$seguindo-se$o$Ensino$Secundário$com$20%$
das$respostas.$É$de$realçar,$que$na$nossa$amostra$não$encontramos$nenhum$inquirido$
com$escolaridade$inferior$ao$terceiro$ciclo$do$Ensino$Básico$(correspondente$ao$7º,$8º$
e$9º$anos),$o$que$revela$um$elevado$grau$de$escolaridade$dos$nossos$inquiridos$e$pode$
ser$ um$ reflexo,$ de$ igual$ modo,$ da$ sua$ condição$ etária$ e$ do$ alargamento$ da$
escolaridade$obrigatória$em$Portugal$até$aos$18$anos$de$idade81.$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
80$$Consultar em: https://www.jn.pt/nacional/portugal-e-o-terceiro-pais-da-uniao-europeias-com-menos-
casamentos-11821150.html
81$$Consultar em: https://dre.pt/web/guest/legislacao-
consolidada//lc/115653798/view?q=escolaridade+obrigat%C3%B3ria$
$
220$
U6)5(*!`M;AM!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7#!60ƒ56(67%+!4%(!#+8*7%!-6e61!
Fonte:$Autora$
$
!U6)5(*!`M;=M!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7#!60ƒ56(67%+!4%(!)(*5!7#!#+-%1*(67*7#$
Fonte:$Autora.$
$
Na$sua$maioria,$a$amostra$é$constituída$por$agregados$familiares$intermédios,$
tal$como$ podemos$observar$ na$ Figura$4.17.,$ uma$vez$ que$ 110$dos$ nossos$inquiridos$
têm$os$ seus$ agregados$ constituídos$ por$ três$ elementos,$ 96$por$ dois$ elementos$e$ 88$
por$quatro$elementos,$o$que$pode$ser$um$reflexo$da$própria$condição$de$adulto$jovem$
mais$frequente$nesta$amostra,$uma$vez$que$se$podem$encontrar$ainda$a$viver$em$casa$
dos$pais$ou$a$partilhar$habitação$com$outros$familiares,$colegas$e/ou$amigos.$De$uma$
78%
20%
2%
Ensino Superior Ensino Secundário 3º. Ciclo (7º, 8º, 9º)
$
221$
forma$ geral,$ a$ dimensão$ média$ dos$ agregados$ da$ amostra$ revela-se$ ligeiramente$
superior$à$dimensão$média$dos$agregados$domésticos$privados$do$nosso$país$(2,5$em$
2019)82.$Como$atividade$principal,$a$generalidade$da$amostra$encontra-se$a$trabalhar$
(65%),$sendo$este$trabalho$na$sua$maioria$remunerado$(75%)$e$por$conta$de$outrem$
(75%),$havendo,$assim,$uma$expressão$bastante$reduzida$de$desemprego$(2%),$como$
podemos$verificar$nas$Figuras$4.18.,$4.19.$e$4.20.$
$
U6)5(*! `M;ZM! '6+8(6~56z{%! 7%! 0„3#(%! 7#! 60ƒ56(67%+! 4%(! 0„3#(%! 7#! 6076e|75%+! ƒ5#! -%0+8685#3! %!
*)(#)*7%!}*3616*(!:864%1%)6*!7#!*)(#)*7%+B!
Fonte:$Autora$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
82$$Consultar em:
https://www.pordata.pt/Portugal/Dimens%C3%A3o+m%C3%A9dia+dos+agregados+dom%C3%A9sticos+
privados+-511$
0
20
40
60
80
100
120
0 1 2 3 4 5 6 7 8
Total
Número de indivíduos que constituem o agregado familiar
$
222$
U6)5(*!`M;RM!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7#!60ƒ56(67%+!4%(!*86e67*7#!4(60-64*1!7#+#0e%1e67*!
Fonte:$Autora.$
!
U6)5(*!`M;<M!'6+8(6~56z{%!7%+!60ƒ56(67%+!7#!*-%(7%!-%3!%!#$#(-|-6%!7#!53*!*86e67*7#!(#350#(*7*!
$ $
Fonte:$Autora.$
$
!
0 50 100 150 200 250 300
Desemprego
Estuda
Estuda e trabalha
Ocupa-se das tarefas domésticas
Reforma
Trabalha
Total
Atividade principal
Total
25%
75%
Não
Sim
$
223$
U6)5(*! `M@>M! '6+8(6~56z{%! 7%+! 60ƒ56(67%+! #3! }50z{%! 7*! +685*z{%! 7#! #34(#)*~6167*7#! #3! ƒ5#! +#!
#0-%08(*3!
$
Fonte:$Autora.$
$
Portanto,$ no$ decurso$ da$ análise$ dos$ dados$ sociográficos$ recolhidos$ através$
deste$ instrumento,$ podemos$ identificar,$ de$ forma$ direta,$ uma$ tendência$ etária,$ na$
medida$em$que$ nos$foi$ possível$verificar$ que$a$ nossa$amostra$ foi$constituída$ na$sua$
totalidade$ por$ indivíduos$ adultos,$ na$ sua$ generalidade$ portadores$ da$ condição$ de$
adultos$jovens$e$a$residir$no$norte$do$país,$revelando$uma$percentagem$de$mulheres$
ligeiramente$ superior$ à$ dos$ homens.$ Na$ nossa$ amostra,$ verificamos,$ de$ igual$ modo,$
que$ os$ inquiridos$ são$ maioritariamente$ solteiros,$ características$ que,$ à$ partida,$
tendem$ a$ estar$ mais$ associadas$ a$ uma$ maior$ abertura$ às$ atividades$ criativas$ e$ de$
entretenimento,$ nomeadamente$ através$ de$ uma$ maior$ valorização$ e$ interesse$ pela$
cultura$ e$ pelas$ artes.$ De$ uma$ forma$ geral,$ trata-se$ de$ um$ conjunto$ de$ sujeitos$
independentes$financeiramente,$ como$vimos,$ e,$por$ isso,$com$ poder$financeiro$ para$
despender$em$atividades$culturais$e$de$lazer,$nomeadamente$musicais.$$
São$ também$ caracterizados$ por$ uma$ escolaridade$ muito$ qualificada$ assente$
num$ diploma$ universitário,$ na$ sua$ esmagadora$ maioria,$ indo$ ao$ encontro$ de$ uma$
massificação$escolar,$ que$ coloca$ os$ sujeitos$mais$ jovens$ da$ pirâmide$ etária$ como$ os$
mais$ escolarizados.$ No$ fundo,$ estas$ características$ da$ nossa$ amostra$ refletem$ as$
transformações$ sócio$ económicas$ que$ têm$ vindo$ a$ ocorrer$ no$ nosso$ país,$
25%
75%
Trabalhador(a)
independente
Trabalhador(a) por
conta de outrem
$
224$
especialmente$ nos$ últimos$ trinta$ anos,$ e$ que$ assentam$ na$ alteração$ dos$
comportamentos$ demográficos,$ na$ alteração$ das$ estruturas$ e$ da$ organização$ das$
famílias,$ na$ composição$ da$ população$ ativa,$ na$ estrutura$ de$ classes,$ na$ estrutura$
económica,$na$evolução$das$taxas$de$escolaridade,$entre$outras$(Silva$*#"'+,$2002;$Silva,$
2006).$Assim,$estas$transformações$também$se$traduzem$nos$estilos$de$vida$e$hábitos$
de$lazer,$uma$vez$que$os$indivíduos$tendem$a$valorizar$mais$o$entretenimento.$
$ $
$
225$
5.!Rock,"identidades"e"apropriações!
Duma$existência$banal$
Até$ás$luzes$da$ribalta$
Há$dois$carris$de$metal$
Desde$a$baixa$á$vida$alta$
Desde$o$triste$anónimato$
Desde$a$ralé$e$a$escória$
Até$á$fama$e$ao$estrelato$
Há$o$elevador$da$glória$
Rádio$Macau$(1987)$–$4"=+*/'%$B"%'"w+XB0'.$
$$
AM;M!G!3„+6-*!-%3%!#1#3#08%!67#0868C(6%!#!4%8#0-6*7%(!7#!-*((#6(*+!
De$uma$forma$geral,$a$gradual$popularização$e$massificação$do$B$-J,$particularmente$
impulsionadas$ pelos$ contextos$ de$ emergência$ das$ subculturas$ juvenis$ britânicas$
associadas$a$este$estilo$de$música,$assentou,$especialmente,$nos$anseios$e$frustrações$
da$geração$ mais$jovem,$ emergindo$como$ uma$nova$ possibilidade$ identitária$para$ os$
indivíduos.$ De$ acordo$ com$ Guerra$ (2015c),$ o$ B$-J$ veio,$ assim,$ quebrar$ os$ padrões$
sociais$ estabelecidos$ até$ à$ data,$ proporcionando$ uma$ nova$ forma$ de$ experienciar$ a$
cultura$e$a$música,$nomeadamente$através$de$práticas$de$resistência$face$aos$padrões$
sociais$ estanques$ (Carvalho,$ 2007).$ Neste$ sentido,$ “tratava-se$ não,$ apenas,$ de$ um$
simples$estilo$de$música,$mas,$acima$de$tudo,$de$uma$fuga$às$possíveis$contrariedades$
da$vida$quotidiana,$vividas$até$então”$(Martins$&$Guerra,$2019:$172).$Assim,$ao$longo$
das$décadas$e$até$ao$momento$presente,$este$género$musical$viu$os$contornos$da$sua$
génese$ alterarem-se,$ transformarem-se,$ evoluírem$ e$ indo$ ao$ encontro$ das$
“identidades$ camaleónicas”$ (Ribeiro,$ 2010:$ 196)$ características$ do$ período$
contemporâneo,$aliando-se,$também$ele,$ao$consumo$de$massas$e$a$novas$formas$de$
vivenciação$musical.$É$neste$âmbito,$que$a$partir$de$meados$da$década$de$noventa,$se$
começa$ a$ empregar$ o$ termo$ de$ pós-subculturas,$ como$ vimos,$ com$ o$ intuito$ de$
conseguir$ abarcar$ os$ diferentes$ tipos$ de$ cenas$ musicais$ locais,$ translocais$ e$ virtuais$
que$caracterizam$o$panorama$musical$contemporâneo.$
Assim,$ dada$ a$ clara$ importância$ da$ música$ na$ formação$ identitária$ dos$ seus$
ouvintes$e$na$estruturação$do$tecido$social,$foi$fulcral$para$esta$investigação$apurar$e$
refletir$ acerca$ dessa$ importância$ junto$ dos$ protagonistas$ e$ públicos$ deste$ tipo$ de$
$
226$
música$no$Portugal$contemporâneo.$Em$primeiro$lugar,$centrando$a$nossa$atenção$nos$
protagonistas$a$ partir$ das$ entrevistas$em$ profundidade83$ realizadas$ no$âmbito$ deste$
projeto,$ conseguimos$ apurar$ que$ a$ grande$ maioria$ dos$ entrevistados,$ mais$
precisamente$37$deles,$revelaram$que$o$seu$interesse$por$música$surgiu$ainda$durante$
a$ infância,$ embora$ apenas$ alguns$ tenham$ especificado$ a$ idade$ aproximada$ desse$
início,$ e$ que$ varia$ entre$ os$ quatro$ e$ os$ doze$ anos$ de$ idade.$ O$ surgimento$ deste$
interesse$ esteve,$ frequentemente,$ alicerçado$ a$ contextos$ familiares$ musicais,$ que$
incluíam,$ muitas$ vezes,$ a$ presença$ de$ familiares$ músicos$ profissionais$ ou$ amadores$
(pais,$tios,$avós...),$ou$apenas$a$presença$regular$de$música$nos$convívios$de$família,$
quer$nos$entrevistados$mais$novos,$ quer$naqueles$de$idade$mais$ avançada.$Note-se,$
que$ para$ alguns$ dos$ entrevistados$ foi$ já$ nesta$ altura,$ que$ determinados$ artistas$ ou$
grupos$ musicais$ começaram$ a$ despertar-lhes$ atenção$ e$ interesse$ relativamente$ ao$
B$-J.$
V*+'".f&0-'"*."L*B'+,"-$."$0#$"'1$&,"'+0b&,"-$.".)0#$".*1$&"
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anos,$músico,$Cascais)."
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.*"'"*1&01'B")1&"'-$B%*&2"(Catarina,$37$anos,$músico,$Lisboa).$
!-U$"()*"Ub").'"'+#)B',"*."()*"*)"%*/0'"#*B"*1#B*"?Q" $)"??"
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1$.*'%'.*1#*"$"W'%$"(André,$63$anos,$músico,$Aroeira).$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
83$$Realização de um conjunto de cinquenta entrevistas semiestruturadas (dez por cada década), a atores
cruciais do subcampo do
rock
português (músicos e ex-músicos, jornalistas, críticos, promotores,
produtores, editores, agentes), com o fim de compreender os sentidos sociais subjacentes às narrativas
destes agentes.$
$
227$
Também$ alguns$ hábitos$ familiares$ acabaram$ por$ influenciar$ os$ entrevistados$
para$ o$ desenvolvimento$ deste$ interesse$ musical,$ nomeadamente$ o$ hábito$ de$ ouvir$
rádio,$comprar$ou$ouvir$discos$ou$ainda$o$facto$de$existirem$instrumentos$musicais$em$
casa,$ mais$ uma$ vez,$ independentemente$ da$ sua$ geração$ etária.$ Nestes$ contextos,$ o$
género$ B$-J,$ em$ particular,$ foi$ muitas$ vezes$ introduzido$ aos$ entrevistados$ por$
familiares$na$sua$maioria$mais$velhos,$como$irmãos,$primos,$pais$ou$tios,$quer$através$
da$ apresentação$ de$ artistas$ e/ou$ bandas$ e$ da$ oferta$ de$ discos;$ quer$ por$ amigos$ já$
conhecedores$ do$ género$ musical,$ alguns$ com$ experiência$ a$ tocar$ instrumentos$
musicais$e/ou$com$bandas$já$formadas.$
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64$anos,$músico,$Corroios).$
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YB'1C',"-$.$"$&"5U'#&">')/'L*&,"U'/0'"#'.IE."$&">U'%$m&,"$"
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.f&0-'2$(Fernando,$38$anos,$músico,$Braga).$
O$ interesse$ particular$ pelo$ género$ B$-J$ surgiu,$ também,$ para$ alguns$
entrevistados$mais$próximo$da$adolescência$ou$mesmo$já$durante$esta$fase$(entre$os$
doze/treze$ anos$ e$ os$ dezasseis$ anos$ de$ idade),$ numa$ altura$ em$ que$ já$ se$ sentiam$
capazes$de$distinguir$as$sonoridades$que$mais$os$atraíam$dentro$deste$género$musical$
e$ de$ fazer,$ posteriormente,$ as$ suas$ próprias$ escolhas.$ Ao$ longo$ deste$ processo$ de$
interpretação$e$consciencialização$musical,$os$jovens$tendem$a$desenvolver$as$práticas$
culturais$e$de$lazer$no$seio$de$redes$grupais$(Pais,$1990).$Portanto,$além$dos$familiares,$
também$ nesta$ fase$ os$ amigos$ desempenharam$ para$ os$ entrevistados$ um$ papel$
fundamental$na$construção$do$gosto$ afetivo$pela$música$e$na$ vontade$maior$e$mais$
direcionada$ de$ investir$ na$ aprendizagem$ de$ instrumentos$ musicais,$ com$ vista$ a$
poderem$tocar$em$grupo.$
9'"'%$+*&-M1-0',"*)"-$.*-*0"'"#$-'B"L)0#'BB'"*"S".*%0%'"()*"$"
#*.K$" K'&&$)" W)0" '+'&#B'1%$" K'B'" $&" &0&#*.'&" *+*-#BX10-$&,"
&01#*#0Z'%$B*&," KB$-*&&'.*1#$" %*" &01'+," *#-2" (Leonel,$ 36$ anos,$
diretor$artístico,$Braga)."
<&#$"E").'"-$0&'"()*"/*." %'" 01W+)M1-0'"%$&"K'0&,".'&" ()'1%$"
'1%'/'"1$"&*-)1%bB0$"-$.*-*0"'"#*B"$"KB0.*0B$"-$1#'-#$"-$."
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Porto).$
$
229$
Assim,$neste$âmbito,$a$maioria$dos$entrevistados$começou$a$aprender$a$tocar$
instrumentos$musicais$relativamente$cedo,$sendo$que$aqui$podemos$destacar$um$tipo$
de$aprendizagem$autodidata$ou$ainda,$uma$aprendizagem$feita$através$do$ensino$por$
parte$ de$ familiares$ próximos$ (especialmente$ pelos$ pais),$ pois$ poucos$ tiveram$ a$
oportunidade$de$aprender$música$com$professores$ou$em$escolas$especializadas.$Para$
os$ músicos$ das$ gerações$ mais$ velhas,$ as$ próprias$ escolas$ eram,$ muitas$ vezes,$
inexistentes$ ou$ dedicavam-se$ apenas$ ao$ ensino$ da$ música$ erudita,$ uma$ vez$ que$ as$
novas$ linguagens$ musicais$ associadas$ a$ sonoridades$ mais$ modernas$ ainda$ eram$
fortemente$desconhecidas$e/ou$marginalizadas$no$meio$musical$do$nosso$país.$
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01&#B).*1#$2$(Camilo,$42$anos,$músico,$Coimbra).$
Este$momento$de$aproximação$a$um$instrumento$musical$acabou$por$ser,$para$
alguns,$ um$ momento$ determinante$ na$ definição$ das$ suas$ ambições$ profissionais$
futuras,$ mas$ para$ outros,$ esse$ momento$ de$ definição$ assentou$ na$ importância$ que$
muitas$ músicas,$ artistas$ e$ bandas$ tiveram$ no$ despertar$ do$ seu$ interesse$ particular$
para$ a$ música.$ É$ neste$ sentido,$ que$ muitos$ entrevistados$ de$ gerações$ mais$ velhas$
destacam$a$importância$da$música$B$-J$anglo-saxónica$da$década$de$sessenta,$por$ter$
vindo$ marcar$ uma$ rutura$ entre$ aquilo$ que$ estavam$ habituados$ a$ ouvir$ aqui$ em$
Portugal$ (nomeadamente$ W'%$," W$+-+$B*,$ nacional$ cançonetismo$ e$ alguma$ música$ de$
protesto)$e$um$som$que$lhes$era$totalmente$novo,$diferente$e$atraente.$É$de$realçar$
aqui,$ que$ os$ entrevistados$ atravessaram$ períodos$ sócio-históricos$ distintos,$ tendo$
alguns$ deles$ vivido$ a$ sua$ infância$ e$ juventude$ durante$ a$ época$ do$ Estado$ Novo$ e$
assistido,$deste$modo,$à$sua$queda$e$à$posterior$ascensão$da$democracia$em$Portugal.$
Por$ isso,$ é$ comum$ encontrarmos$ muitas$ referências$ à$ importância$ de$ bandas$ da$
década$ de$ sessenta$ como$ os$ ^U*" p*'#+*&$ou$ os$ ^U*" 3$++01L" >#$1*&,$ mas$ também$ de$
alguma$ música$ B$-J$ francesa$ do$ mesmo$ período84.$ É$ de$ salientar,$ ainda,$ que$ para$
outros$entrevistados$ foram$os$ espetáculos$ ao$vivo$ a$que$ tiveram$a$ oportunidade$ de$
começar$ a$ assistir$ desde$ cedo,$ que$ se$ tornaram$ cruciais$ para$ esse$ momento$ de$
definição$das$aspirações$profissionais$futuras.$$
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84$$Durante o Estado Novo, a cultura francesa tinha uma presença bastante forte no nosso país.$
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231$
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músico,$Lisboa)."
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De$uma$maneira$geral,$o$desenvolvimento$de$um$vínculo$profissional$à$música$
começou$a$surgir$cedo$na$vida$de$todos$os$entrevistados,$na$sua$maioria$ainda$durante$
o$ período$ escolar,$ no$ qual$ muitos$ deles$ ainda$ em$ idade$ jovem$ (nomeadamente,$
durante$a$adolescência)$começaram$a$formar$e/ou$a$integrar$os$seus$primeiros$grupos$
musicais$ amadores.$ À$ medida$ que$ esses$ ou$ outros$ grupos$ posteriores$ foram$
alcançando$ algum$ reconhecimento,$ quer$ local$ quer$ nacional,$ muitos$ foram$
conseguindo$ gravar$ os$ seus$ primeiros$ discos$ e$ ter$ os$ seus$ primeiros$ contratos$
discográficos.$Consequentemente,$começaram,$então,$a$ganhar$algum$dinheiro$com$a$
música$ e$ esta$ realidade$ levou$ alguns$ dos$ entrevistados$ a$ abandonar$ os$ estudos$ e$ a$
dedicar-se$ exclusivamente$ à$ música,$ em$ especial,$ os$ entrevistados$ mais$ velhos,$
embora$outros$tenham$mantido$ambas$as$atividades$em$paralelo,$com$o$objetivo$de$
dedicar-se$exclusivamente$à$música$no$final,$devido$aos$receios$acerca$da$viabilidade$
$
232$
da$ profissão$ de$ músico$ em$ Portugal.$ Neste$ sentido,$ alguns$ acabarampor$ apostar,$
posteriormente,$ em$ melhorar$ as$ suas$ competências$ musicais$ à$ medida$ que$ foram$
progredindo$na$carreira.$$
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Estoril)."
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).'"1$/'"+01L)'L*.2"(César,$71$anos,$músico,$Lisboa)."
Relativamente$às$suas$carreiras$profissionais,$independentemente$da$duração,$
uma$vez$que$temos$músicos$de$diferentes$gerações,$ou$da$exclusividade$à$música$(a$
tempo$inteiro$ou$K'B#F#0.*),$os$entrevistados$realçam$a$importância$de$alguns$discos$
para$ os$ seus$ percursos$ profissionais,$ particularmente$ os$ primeiros$ gravados$ em$
estúdio,$porque,$para$muitos,$terá$sido$a$primeira$vez$que$entraram$num$estúdio$de$
gravação,$ mas$ também$ alguns$ concertos$ e$ experiências$ internacionais$ que$ os$
marcaram.$ Também$ aqui,$ importa$ ter$ em$ consideração$ os$ condicionamentos$ sócio-
históricos$do$nosso$país$que$acabaram$por$marcar,$igualmente,$os$percursos$de$muitos$
dos$entrevistados$mais$ velhos$de$ forma$menos$positiva,$ indo$assim$ ao$encontro$das$
nossas$ hipóteses$ de$ trabalho$ que$ vão$ ao$ encontro$ da$ lógica$ da$ desvalorização$ das$
carreiras,$na$medida$em$que$se$revelaram$na$suspensão$temporária$de$alguns$projetos$
musicais,$ ou$ porque$ os$ seus$ elementos$ se$ exilaram$ forçosamente$ noutro$ país$ para$
escapar$à$tropa/guerra$colonial,$ou$porque$tiveram$de$participar$nela.$Contudo,$ainda$
no$âmbito$da$música$como$profissão$e$carreira,$a$maioria$dos$entrevistados$encontra-
$
233$
se$ musicalmente$ ativa$ e$ com$ projetos$ a$ curto,$ médio$ e$ longo$ prazo,$ que$ passam,$
essencialmente,$ pela$ composição$ de$ novos$ discos,$ por$ mais$ concertos,$ ensaios$ ou$
tournês,$ mas$ também$ por$ projetos$ e$ desejos$ que$ guardam$ na$ gaveta$ para$ um$ dia$
poder$apresentar$ao$público.$
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músico,$Lisboa)."
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anos,$músico,$Cascais).$
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Bombarral).$
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Juntamente$ com$ as$ primeiras$ manifestações$ desta$ subcultura,$ como$ vimos,$ foram$
muitas$ as$ transformações$ sociais$ que$ decorreram$ e$ que$ foram$ cruciais$ para$ a$
estruturação$ das$ práticas$ culturais$ dos$ nossos$ entrevistados,$ para$ as$ dinâmicas$ das$
suas$vidas$quotidianas$e$para$o$posterior$desenvolvimento$do$próprio$espaço$em$que$
se$ encontravam$ inseridos$ (Guerra,$ 2015a),$ rumo$ a$ uma$ rutura$ entre$ os$ mundos$ da$
música$ e$ os$ mundos$ da$ vida.$ Há,$ de$ facto,$ uma$ sensibilidade$ cultural$ (Olalquiaga,$
1998)$ urbana$ para$ as$ práticas$ musicais,$ não$ apenas$ devido$ a$ uma$ presença$ mais$
intensa$de$atividades$lúdicas$e$de$produtos$relacionados$com$a$música,$mas$também$
devido$a$uma$ rede$maior$de$ articulações$entre$indivíduos$ e$grupos$(Prysthon,$ 2008)$
presentes$ nas$ m$B+%" -0#0*&$ (Featherstone,$ 1995b)$ contemporâneas.$ Nas$ cidades,$ os$
diferentes$ espaços$ de$ encontro$ constituem$ ambientes$ favoráveis$ para$ a$ partilha$ de$
emoções$ através$ da$ música,$ criando,$ deste$ modo,$ um$ espaço$ potencial$ de$
acolhimento$ (Souza$ *#" '+,$ 2014:$ 169).$ E,$ frequentemente,$ as$ próprias$ composições$
musicais$ incorporam$ experiências$ e$ práticas$ urbanas,$ podendo$ conter$ sons$
particulares$ da$ cidade,$ de$ forma$ a$ permitir$ a$ criação$ de$ paisagens$ sonoras$ nos$ seus$
ouvintes.$ Neste$ sentido,$ para$ Prysthon$ (2008),$ nestas$ comunidades$ de$ sentido$
urbanas,$
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1)."-$1#*n#$"L+$I'+0Z'%$2$(Prysthon,$2008:$9).$
$
235$
Assim,$para$alguns$dos$entrevistados$foi$determinante$terem$nascido,$crescido$
ou$vivido$num$meio$urbano$para$o$despoletar$do$seu$interesse$e$futura$vinculação$à$
música.$ Alguns$ realçam,$ inclusivamente,$ o$ papel$ particular$ que$ as$ cidades$ onde$
residiam$tiveram$sobre$essa$associação,$referindo$que$algumas$características$próprias$
de$cada$cidade$foram$importantes$para$a$construção$do$gosto$e$do$seu$futuro$vínculo$
musical.$ Esta$ associação$ assenta,$ para$ eles,$ num$ maior$ acesso$ a$ bens$ culturais$ de$
diferentes$ naturezas,$ onde$ não$ só$ a$ música$ e$ os$ concertos$ estavam$ presentes,$ mas$
também$ o$ acesso$ a$ lojas$ de$ música,$ lojas$ de$ instrumentos$ musicais,$ bibliotecas,$
escolas$ de$ música,$ entre$ outros.$ Também$ em$ Portugal,$ os$ jovens$ foram$ alvo$ de$
assimilação$ de$ uma$ cultura$ de$ consumo$ direcionada$ exclusivamente$ para$ eles$
(Abrams,$ 1959),$ em$ virtude$ da$ melhoria$ das$ suas$ condições$ de$ vida$ e$ poder$ de$
compra.$
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(Tiago,$66$anos,$músico,$Cascais)."
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músico,$Seixal).$
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.f&0-'2"(Duarte,$36$anos,$programador$cultural,$Porto).$
$
236$
Por$ outro$ lado,$ outros$ acreditam$ que$ foi$ o$ meio$ rural$ onde$ cresceram$ e$ a$
inerente$ dificuldade$ no$ acesso$ a$ esses$ mesmos$ bens$ culturais$ e$ a$ uma$ maior$
diversidade$de$ocupações$de$lazer,$que$os$terá$levado$a$refugiarem-se$na$sica$e$na$
criação$musical,$ encarando-a$ como$ uma$ forma$ de$ escape.$Neste$ âmbito,$ no$ próprio$
contexto$ da$ modernidade$ tardia$ (Giddens,$ 1991)$ vigente,$ a$ cidade$ como$ o$ espaço$
privilegiado$para$as$práticas$e$atividades$musicais$tem$vindo$a$perder$alguma$da$sua$
força.$Também$encontramos,$porém,$alguns$relatos$de$entrevistados$que$afirmam$que$
o$meio,$independentemente$de$ser$rural$ou$urbano,$não$terá$sido$determinante$para$o$
seu$futuro$vínculo$à$música,$mas$sim$outros$fatores$característicos$dos$seus$contextos$
quotidianos,$ como$ o$ já$ mencionado$ ambiente$ familiar$ musical$ (onde$ existiam$ já$
familiares$ próximos$ músicos)$ ou$ a$ presença$ de$ instrumentos$ musicais$ em$ casa;$ ou$
ainda$os$grupos$de$pares,$ou$seja,$novamente$as$amizades$e$os$convívios$com$outros$
jovens$ que$ já$ se$ interessavam$ por$ música,$ ou$ que$ já$ tocavam$ algum$ instrumento.$
Assim,$dentro$de$um$mesmo$grupo$tendia$a$vivenciar-se$uma$simetria$identitária,$uma$
vez$que$vigorava$a$partilha$de$crenças,$valores,$gostos$ou$práticas$sociais$entre$todos.$
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237$
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(Henrique,$38$anos,$músico,$Lisboa)."
$
$ Ao$longo$do$percurso$musical$dos$entrevistados$e$à$medida$que$a$música$se$foi$
tornando,$ cada$ vez$ mais,$ numa$ realidade$ possível,$ começa$ a$ concretizar-se$ a$
representação$ de$ uma$ carreira$ profissional,$ independentemente$ de$ esta$ ser$
desenvolvida$ a$ tempo$ inteiro$ ou$ parcial.$ Ou$ seja,$ gradualmente,$ os$ nossos$
entrevistados$ foram$ construindo$ um$ trajeto$ musical$ reconhecido$ e$ marcado$ por$
diferentes$etapas$e$experiências,$algumas$delas$comuns$e$partilhadas$por$vários,$e$que$
contribuíram$ para$ assinalar$ o$ auge$ dos$ seus$ percursos$ no$ mundo$ da$ música.$ Neste$
âmbito,$são$muitos$aqueles$que$referem$a$visibilidade$internacional$como$um$marco$
fulcral$ das$ suas$ carreiras,$ relatando$ alguns$ desses$ momentos$ marcantes$ que$
contribuíram$para$a$intensificação$do$sentimento$de$pertença$e$identificação$com$uma$
verdadeira$B$-J"&#'B.$
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músico,$Matosinhos).$
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Já$vimos$ao$longo$deste$trabalho,$que$a$cultura$e,$em$particular$a$música,$podem$ser$
usadas$ simbolicamente$ pelos$ indivíduos$ para$ construir$ e$ expressar$ uma$ identidade$
individual$e$coletiva$(Hall$&$Jefferson,$1976).$Partindo$do$pensamento$de$Tia$DeNora$
no$qual$“(...)$a$música$articula$a$vida$social$e$a$vida$social$articula$a$música”$(DeNora,$
2004:$5),$o$estilo$visual$é$apreendido$e$utilizado$como$um$recurso$simbólico$(Clarke,$
1976;$Hebdige,$1979),$ através$do$ qual$os$ indivíduos$adotam$ uma$estética$particular.$
Esta$expressão$estilística$constitui,$desta$forma,$uma$função$crucial$na$consolidação$da$
autoidentidade$ e$ da$ consciência$ de$ grupo$ (Campos,$ 2010).$ Portanto,$ “o$ que$ faz$ um$
estilo$ é$ a$ atividade$ de$ estilização$ -$ a$ organização$ ativa$ de$ objetos$ com$ atividades$ e$
perspetivas,$que$produzem$uma$identidade$de$grupo$organizada$numa$forma$coerente$
e$distinta$de$'estar$no$mundo'$(Clarke$*#"'+,$1976:$54).$A$moda$é,$neste$sentido,$uma$
ferramenta$ de$ expressão$ privilegiada$ utilizada$ pelos$ participantes$ da$ cena$ B$-J" e$
permite-lhes$conferir$unidade$ao$grupo,$assim$como$conservar$os$seus$sentimentos$de$
pertença$ a$ afeto.$ Neste$ contexto,$ dentro$ da$ imensa$ ‘teia’$ que$ é$ a$ música$ B$-J$
constituem-se,$ como$ já$ vimos,$ diferentes$ formas$ identitárias$ e$ a$ cada$ sonoridade$
estão$ associados$ os$ seus$ próprios$ símbolos,$ que$ permitem$ a$ identificação$ com$ o$
grupo.$Neste$contexto,$
eug"$"*&#0+$"E"*1#*1%0%$"*1()'1#$"&01X10.$"%*"B*&0&#M1-0',").'"
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i$/*1&"(Guerra$&$Quintela,$2016:$198).$
$
239$
Portanto,$ ao$ olharmos$ para$ os$ relatos$ feitos$ na$ primeira$ pessoa$ pelos$ nossos$
entrevistados,$ confirmamos$ que$ as$ referências$ estéticas$ são$ um$ aspeto$ essencial$ no$
seu$percurso,$sejam$elas$visuais$ou$intelectuais,$nomeadamente$na$construção$de$uma$
cena$ B$-J$ em$ Portugal.$ Relativamente$ às$ estéticas$ visuais,$ referimo-nos$
especificamente$à$importância$ da$aparência,$ nomeadamente$do$ vestuário,$do$estilo,$
dos$ cabelos,$ e$ dos$ acessórios,$ que$ para$ os$ entrevistados$ incorporam$ uma$ forma$ de$
expressão$das$suas$referências$estéticas,$crenças,$ideologias$ou$linhas$de$pensamento,$
que$independentemente$do$período$sócio-histórico$vivido$por$cada$um$deles$no$nosso$
país,$muitas$vezes,$acabou$por$chocar$com$o$conservadorismo$enraizado$na$sociedade$
portuguesa.$E,$neste$aspeto,$as$gerações$de$entrevistados$mais$velhos$experienciaram$
uma$dificuldade$maior$em$conseguir$reproduzir$o$estilo$visual$que$desejavam,$uma$vez$
que$ná$época$pré-I$$.$do$B$-J$português$não$era$fácil$ter$acesso$a$artigos$de$moda$
alternativos$no$nosso$país.$Por$isso,$uma$das$estratégias$passava$por$recorrer$a$+$$J&$
DIY.$
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No$fundo,$independentemente$da$adoção$ou$não$de$visuais$mais$arrojados,$o"B$-J$
constituiu-se$ sempre$ como$ uma$ espécie$ de$ linguagem$ simbólica,$ que$ permite$
enquadrar$ um$ vasto$ tipo$ de$ experiências$ e$ práticas$ inerentes$ a$ esta$ subcultura$
(Fernandes,$2002).$Além$disso,$permite$a$distinção$face$aos$participantes$da$sociedade$
“normal”$(e$de$outras$subculturas),$mas$também$o$fortalecimento$de$uma$identidade$
subcultural$específica$(Haenfler,$2014).$Portanto,$uma$vez$que$o$fenómeno$de$subir$a$
um$ palco$ e$ apresentar-se$ perante$ um$ público$ tende$ a$ ser$ um$ ato$ primordial$ da$
profissão$ de$ músico,$ a$ maioria$ dos$ entrevistados$ músicos$ não$ concebe$ fazê-lo$ sem$
prestar$ alguma$ atenção$ à$ forma$ como$ se$ apresenta$ publicamente.$ Neste$ contexto,$
alguns$revelaram$mesmo$serem$incapazes$de$subir$a$um$palco$com$a$mesma$roupa$do$
dia-a-dia,$pelo$facto$de$acharem$ser$uma$falta$de$consideração$e$de$respeito$perante$a$
audiência$que$pagou$para$os$ver.$Outros$revelam,$também,$serem$menos$preocupados$
$
241$
com$o$visual$hoje$do$que$eram$noutros$tempos,$o$que$vai$ao$encontro$da$progressiva$
diluição$subcultural$vigente$(Muggleton,$2005)$no$momento$presente.$
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$
É$nesta$medida$que$para$alguns$entrevistados$-$independentemente$de$se$refletir$
na$aparência$visual$-$o$significado$do$seu$estilo$e$da$estética$com$a$qual$se$identificam$
é,$ efetivamente,$ um$ aspeto$ orientador$ muito$ importante$ para$ as$ suas$ práticas$
quotidianas$ e$ profissionais.$ À$ imagem$ da$ linha$ de$ pensamento$ de$ Tia$ DeNora,$ “a$
$
242$
música$ é$ um$ dispositivo$ ou$ recurso,$ através$ do$ qual$ as$ pessoas$ recorrem$ para$ se$
regularem$como$agentes$estéticos,$como$seres$de$sentimento,$pensamento$e$ação$no$
seu$ dia-a-dia”$ (DeNora,$ 2000:$ 62).!E,$ de$ facto,$ esses$ recursos$ e$ essa$ busca$ de$
identificação$também$envolvia$práticas$DIY,$que$permitiam$uma$maior$intensidade$na$
expressão$ da$ estética$ que$ partilhavam,$ muitas$ vezes$ através$ de$ uma$ colagem,$ onde$
eram$utilizados$elementos$pré-existentes,$esvaziando-os$do$seu$significado$original,$e$
dando-lhes$um$novo$significado$(Hebdige,$1979).!
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músico,$Porto).$
$
243$
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AM;M`M!Fazer%parte%da%cena!rock!
Podemos$ dizer$ que$ os$ sentimentos$ de$ pertença$ à$ cena$ B$-J$ se$ refletem,$ de$ certa$
maneira,$ através$ de$ formações$ sociais$ construídas$ como$ respostas$ coletivas$ às$
experiências$individuais$e$partilhadas$por$cada$elemento$de$um$mesmo$grupo$(Clarke$
*#" '+,$ 1976).$ No$ fundo,$ as$ produções$ culturais,$ neste$ caso$ as$ musicais,$ são$
influenciadas$ pelos$ contextos$ sociais$ em$ que$ se$ inserem$ (Becker,$ 1986;$ Guerra,$
2015a;).$ É$ neste$ sentido$ que,$ segundo$ Pais$ (2008),$ cada$ subcultura$ representa$ um$
momento$ particular,$ ou$ seja,$ constitui-se$ como$ uma$ resposta$ particular$ a$ um$
determinado$conjunto$de$circunstâncias.$E$essa$resposta$coletiva$surge,$muitas$vezes,$
como$uma$crítica$face$aos$valores$sociais$dominantes$e$aos$pilares$em$que$assenta$a$
sociedade$regida$pela$cultura$de$massas$(Clarke,$1976).$Por$isso,$a$cena$B$-J$tem$para$
os$ entrevistados$ importâncias$ distintas,$ que$ variam$ com$ a$ idade,$ com$ a$ duração$ da$
carreira,$com$os$contextos$sócio-históricos$vividos,$entre$outros$fatores.$Contudo,$na$
sua$maioria,$verifica-se$a$tendência$para$atribuir$grande$parte$da$importância$do$B$-J$
aos$sentimentos$partilhados$de$revolta$e$resistência$face$às$dinâmicas$da$sociedade,$e$
até$mesmo$à$dominação$cultural$vigente.$
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Outros$revelam$a$importância$vital$que$o"B$-J$teve$e$tem$na$orientação$das$suas$
vidas.$De$facto,$os$atores$sociais$empregam$ativamente$a$música$para$criar$o$seu$*)"
emocional$e$biográfico$contínuo,$o$que$revela$como$a$música$age$para$moldar$a$vida$
sonora$ interna$ das$ subjetividades$ individuais$ (DeNora,$ 2000).$ Neste$ âmbito,$ Wicke$
(1995)$associa$a$ música$ao$ crescimento$individual,$ na$medida$em$ que$o$ B$-J$não$se$
trata,$apenas,$de$ um$género$musical,$ mas$antes$de$ um$movimento,$de$ um$estilo$de$
vida,$ de$ uma$ expressão$ de$ cultura$ e,$ possivelmente,$ de$ uma$ ideologia$ de$ vida$
Townsend$ (1997).$ Neste$ sentido,$ para$ os$ nossos$ entrevistados$ a$ cena$ B$-J$ constitui$
um$ estilo$ autêntico$ e$ é$ considerado$ uma$ filosofia$ de$ vida$ regida$ com$ princípios$
particulares,$ situados$ em$ oposição$ à$ produção$ e$ ao$ consumo$ em$ massa$ (Thornton,$
1996).$
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(Mário,$48$anos,$músico,$Porto)."
Contudo,$também$são$muitos$aqueles$que$acreditam$que$o$B$-J$é$hoje$um$género$
enfraquecido,$que$perdeu$a$sua$ força$social$e$se$perdeu$ nas$memórias$da$nostalgia.$
Indo$ ao$ encontro$ do$ pensamento$ de$ Hebdige$ (1979),$ alguns$ acreditam$ que$ a$ cena$
B$-J,$ à$ semelhança$ de$ outras$ subculturas$ juvenis,$ foi$ gradualmente$ absorvida$ pelas$
dinâmicas$do$mercado$e$pela$cultura$massas,$acabando$por$se$tornar$numa$expressão$
datada,$ banalizada$ e$ normalizada.$ A$ promessa$ de$ um$ novo$ panorama$ social$ que$ se$
encontrava$ agregada$ a$ esta$ subcultura,$ e$ dentro$ da$ qual$ os$ problemas$
socioeconómicos$ seriam$ superados$ pelas$ liberdades$ proporcionadas$ nas$ várias$
dimensões$ das$ suas$ vidas$ individuais$ e$ coletivas,$ foi$ para$ alguns$ entrevistados$
gradualmente$ diluída,$ absorvida$ e$ substituída$ por$ novas$ expressões$ identitárias.$ No$
$
246$
entanto,$ não$ deixam$ de$ assinalar$ a$ sua$ centralidade$ na$ vida$ e$ o$ seu$ poder$
transformador$na$sociedade$e$na$cultura,$especialmente$em$décadas$anteriores.$
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Nova$de$Gaia).$
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247$
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(Paulino,$44$anos,$músico,$Porto)."
Na$sociedade$ contemporânea,$ a$ juventude$ tem$ vindo$ a$demonstrar$ ao$ longo$ das$
décadas$uma$capacidade$de$intervenção$social$cada$vez$maior,$que$se$expressa$através$
de$ diferentes$ costumes$ e$ práticas$ sociais.$ E,$ neste$ panorama,$ o$ B$-J$ é$ para$ muitos$
uma$ ferramenta$ de$ afirmação$ social,$ que$ potencia,$ ao$ mesmo$ tempo,$ o$ próprio$
processo$ de$ construção$ identitária$ juvenil$ (Fernandes,$ 2002).$ Apesar$ de$ ser$
considerado,$à$partida,$um$produto$geracional,$esta$subcultura$tende$a$manter$a$sua$
essência$ e$ identidade' marcada' nos' entrevistados' ao' longo' da' vida,' porque' “(...)' a'
unidade'de'um'todo'complexo'não'significa'outra'coisa'senão'a'coesão'dos'elementos'
e"essa"coesão")"pode"ser"obtida"através"da"participação"mútua"das"forças"presentes”"
(Simmel,$1983:$50).$Neste$sentido,$podemos$compreender$o$B$-J$como$uma$expressão$
cultural$que$transcende$barreiras$sociais,$culturais$e$geográficas$(Amaral,$2002),$cujo$
impacto$na$sociedade$é$inegável$(Brake,$1980).$Perante$esse$seu$impacto$fortemente$
mundializado,$ o$ )10/*B&$" %$" B$-J$ e$ os$ seus$ protagonistas$ acabam$ por$ assumir$ um$
papel$de$precursores$de$uma$viragem$cultural$do$final$do$século$XX.$
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248$
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L$&#'/'," -$.$" $" W'%$2" (Álvaro,$ 69$ anos,$ músico,$ Paço$ de$
Arcos)."
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Lisboa)."
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U0&#XB0'," 1D$" &*0" -$.$" /'0" '-'I'B.$ (Tomás,$ 30$ anos,$ sico,$
Porto)."
De$uma$forma$geral,$o$B$-J$constitui-se$como$um$elemento$geracional$e$capta$
intensamente$a$atração$dos$jovens,$especialmente$porque$parece$haver$uma$simetria$
entre$autores$e$recetores,$ou$seja,$os$ouvintes$tendem$a$identificar-se$com$aquilo$que$
ouvem.$Neste$sentido,$a$música$B$-J$promove$o$incentivo$e$o$envolvimento$do$público$
na$participação$subcultural.$Por$isso,$foi$igualmente$importante$para$esta$investigação$
$
249$
analisar$ a$ importância$ da$ música$ e$ do$ B$-J$ através$ da$ perspetiva$ do$ público,$
nomeadamente$recorrendo$aos$dados$recolhidos$pelo$inquérito$aplicado85.$$
E$ao$olharmos$para$as$preferências$musicais$da$nossa$amostra,$verificamos$que$
os$ géneros$ K$KzB$-J$ e$ alternativo/01%0*" B$-J$ aparecem$ como$ os$ mais$ frequentes$
perfazendo$ 54,3%$ e$ 54%$ das$ respostas,$ respetivamente,$ seguindo-se$ os$ géneros$
i'ZZzI+)*&z3op$com$29,5%$e$o$.*#'+zU'B%$com$27,9%$das$respostas$dos$inquiridos,$tal$
como$podemos$observar$na$Figura$5.1..$Por$outro$lado,$aos$géneros$menos$frequentes$
correspondem$ ao$ &J'zB*LL'*$ com$ 6,8%,$ ao$ B$-J'I0++l,$ ao$ -$)1#Bl$ e$ ao$
*+*-#B$z%B).[1[I'&&$ com$ 5,7%$ das$ respostas$ e,$ ainda,$ ao$ fado$ com$ 6%.$ Quanto$ aos$
restantes$géneros$musicais$analisados86$a$representatividade$obtida$é$similar.$A$partir$
destes$ dados,$ podemos,$ então,$ concluir$ que$ o$ B$-J,$ independentemente$ do$
subgénero,$ ocupa$ um$ lugar$ de$ destaque$ nas$ preferências$ musicais$ dos$ nossos$
inquiridos,$ o$ que$ revela$ que$ não$ se$ trata$ de$ um$ género$ musical$ exclusivo$ das$
preferências$juvenis,$uma$vez$que$a$nossa$amostra$é$constituída$por$indivíduos$adultos$
com$idades$compreendidas$entre$os$18$e$os$66$anos.$De$facto,$esta$conclusão$vai$ao$
encontro$da$premissa$de$Haenfler$(2014),$na$qual$fatores$como$a$idade,$a$classe$social,$
o$ género$ ou$ a$ raça$ são$ cada$ vez$ menos$ relevantes$ para$ a$ participação$ nas$ pós-
subcultras,$que$hoje$refletem$um$caráter$plástico$do$indivíduo$pós-moderno$(Guerra$&$
Quintela,$2016).$
$
U6)5(*!AM;M!N%+8%!#3!}50z{%!7%!)€0#(%!35+6-*1!:+|08#+#!7%+!7*7%+&!4%(!e*1%(#+!3*6+!#!3#0%+!#1#e*7%+!
7#!}(#ƒ5•0-6*!7#!(#4%+8*BRZ!
N€0#(%+!
P*6%(!}(#ƒ5•0-6*!
W#(-#08*)#3!
Pop/rock%
208$
54,3%$
G18#(0*86e*jindie%rock!
207$
54%$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
86$$Hip Hop/Rap/Trap/Grime, Punk/New Wave, Ska/Reggae, Dark/Goth/Industrial,
Trance/Techno/House/Acid, World music/Folk, Bossa Nova/Lounge music/Chill Out,
Soul/Funk/Boogie/Disco, Garage/Acid rock, Clássica/Erudita, Grunge, Música Popular/Tradicional.$
87$Note-se, que os totalis de frequência e de percentagem desta tabela não correspondem ao total de
indivíduos (383) nem a 100%, porque cada inquirido poderia selecionar mais do que ume estilo musical
da lista apresentada. Portanto, apresentamos os géneros musicais mais e menos escolhidos da amostra.
$
$
250$
Jazz/blues/R&B%
113$
29,5%$
Metal/hard%
107$
27,9%$
N€0#(%+!
P#0%(!}(#ƒ5•0-6*!
W#(-#08*)#3!
Ska/reggae%
26$
6,8%$
Rockabilly%
22$
5,7%$
Country%
22$
5,7%$
Electro/drum’n’bass%
22$
5,7%$
U*7%!
23$
6%$
$Fonte:$Autora.$
$
Relativamente$à$influência$da$música$na$vida$dos$nossos$inquiridos$foi-nos$possível$
verificar$que$ 51,2%$da$ amostra$afirmou$ que$ se$ prende$ com$a$ sua$potencialidade$ de$
proporcionar$diferentes$estados$de$espírito,$tais$como$a$alegria,$a$euforia,$a$evsão,$etc.$
e$ 23,5%$ com$ a$ sua$ importância$ enquanto$ banda$ sonora$ do$ *),$ ou$ seja,$ como$ um$
elemento$ associado$ a$ momentos$ marcantes$ das$ suas$ vidas.$ Na$ Figura$ 5.2.$ podemos$
ainda$ observar$ que$ a$ música$ enquanto$ potenciadora$ de$ consumo$ económico,$ é$ a$
categoria$que$apresenta$o$menor$mero$de$respostas,$com$apenas$1,6%.$Em$suma,$a$
música$continua$a$desempenhar$um$forte$peso$no$processo$de$construção$identitária$
individual,$assim$como$se$encontra$intensamente$presente$nos$quotidianos$individuais$
e$ coletivos$ dos$ inquiridos.$ Embora,$ no$ momento$ contemporâneo,$ o$ coletivo$ tenha$
perdido$ alguma$ da$ sua$ força$ em$ prol$ do$ indivíduo$ que$ hoje$ se$ move,$ relocaliza$ e$
assume$diferentes$identidades$sociais.$
$
$
251$
!
U6)5(*!AM@M!D3!ƒ5#!3#767*!*!3„+6-*!60}15#0-6*!*!e67*!7%!60ƒ56(67%M!
$
Fonte:$Autora.$
$
Inevitavelmente,$ ao$ abordarmos$ este$ tipo$ de$ questões$ relacionadas$ com$ as$
identidades$e$apropriações$associadas$ao$B$-J,$temos$forçosamente$de$considerar$as$
experiências$ e$ práticas$ de$ sociabilidade$ e$ consumos$ inerentes$ a$ esta$ subcultura$ em$
Portugal.$Esses$consumos$e$sociabilidades$desempenham,$igualmente,$um$importante$
papel$ na$ afirmação$ das$ identidades$ individuais$ e$ grupais$ e$ assumem-se,$ também,$
como$rituais$de$resistência$(Fernandes,$2002)$face$a$padrões$sociais$antagónicos,$como$
veremos$ de$ seguida.$ Assim,$ como$ em$ qualquer$ outro$ rito,$ também$ no$ B$-J$os$
comportamentos$e$condutas$assumidos$revelam$ações$simbólicas$inerentes$à$própria$
cena$musical.$Por$isso,$importa$analisá-los$à$luz$do$enquadramento$sócio-histórico$do$
nosso$país.$
$ $
0$ 50$ 100$ 150$ 200$ 250$
Enquanto$elemento$
referenciador$de$estilos$de$vida$$
Enquanto$elemento$
potenciador$de$estados$de$
Enquanto$banda$sonora$do$eu$
Enquanto$profissão$$
Como$potenciadora$de$
consumo$seconómicos$
Enquanto$matriz$de$referência$
de$lazeres$e$convivialidades$
Como$veículo$de$discussão$de$
questões$sociais,$políticas$e$
Outro$
Frequência$Total$
$
252$
6."Vivências,"riscos"e"sociabilidades!
$
V*1&'&"()*"*)"&$)")."-'&$"0&$+'%$"
9D$"&$)"$"f10-$"'"$+U'B"$"-E)"
!"/*B"$&"&$1U$&"K'B#0B*."
„"*&K*B'"()*"'+L$"'-$1#*C'"
!"%*&K*i'B"'".01U'"B'0/'"
!"/0/*B"'&"*.$Cd*&"
!"%*&*i'B"$"()*"1D$"#0/*"
!L'BB'%$"S&"#*1#'Cd*&2"
Xutos$&$Pontapés$(1987)$–$9D$"&$)"$"f10-$.$
$
=M;M!U#+86e*16•*z{%!#!f#7%06+3%+!-%08#34%(90#%+!
$
É$inegável,$que$a$droga$constitui$um$fenómeno$global$e,$dado$o$seu$caráter$social$e$
humano,$há$muito$que$tem$vindo$a$ser$alvo$de$estudos$nos$mais$variados$campos$e$
vertentes,$ um$ pouco$ por$ todo$ o$ mundo.$ O$ álcool$ e$ as$ substâncias$ psicotrópicas$ de$
venda$ilegal$(às$quais$reservamos,$para$aproveitar$sociologicamente$o$uso$comum,$o$
termo$ de$ drogas),$ constituem$ eixos$ referenciais$ da$ cultura$ B$-J,$ tal$ como$ acontece$
com$outras$culturas$musicais$no$pós-guerra.$Assim,$é$bem$conhecida$a$associação$da$
cultura$ B$-J" à$ experimentação$ e$ consumo$ de$ tais$ substâncias,$ premissa$ que$ se$
inscreve$na$ mais$longa$ tradição$dita$ boémia$dos$ círculos$artísticos$ (que$remonta,$ na$
versão$ moderna,$ ao$ século$ XIX),$ mas$ apresenta$ também$ caraterísticas$ novas.$ Entre$
estas$encontra-se$a$sua$integração$num$mais$amplo$posicionamento$anticonvencional$
por$ parte$ das$ juventudes$ urbanas,$ desafiando$ explicitamente$ normas$ sociais;$ assim$
como$ a$ orientação$ para$ o$ experimentalismo,$ forçando$ os$ limites$ do$ conhecimento$
consciente$ e$ desbravando$ novos$ caminhos$ de$ experiência$ sensorial,$ fundando$ o$
sentido$da$vida$numa$aceleração$do$tempo,$na$vivência$intensa,$rápida$e$tanto$quanto$
possível$ sem$ barreiras$ de$ si$ próprio$ e$ do$ mundo.$ O$ elevado$ consumo$ de$ tabaco$ e$
álcool,$ o$ contacto$ com$ alucinogénios$ e$ outros$ facilitadores$ de$ “paraísos$ artificiais”$
(Xiberras,$ 1989:$ 135-136),$ a$ banalização$ do$ recurso$ às$ chamadas$ drogas$ leves,$ em$
particular$o$haxixe,$e$a$experimentação$mais$ou$ menos$ continuada$de$drogas$duras,$
como$a$cocaína$ e$a$heroína,$ bem$como$de$ substâncias$sintéticas,$não$ começam$nos$
$
253$
meios$juvenis$dos$anos$1960$e$estão$longe$de$ser$exclusivos$da$I*'#"L*1*B'#0$1,$dos$
U0KK0*&" ou$ do$ B$-J" '1%" B$++" e$ seus$ derivados.$ Mas,$ assumem,$ desde$ então,$ uma$
expressão$própria,$quer$em$dimensão$quer$em$significado$ideológico$e$cultural.$
$ Partindo,$ assim,$ do$ princípio$ de$ que$ desde$ o$ início,$ o$ B$-J$ se$ encontra$
associado$ a$ excessos$ que$ incorporam$ o$ famoso$ lema$ “sexo,$ drogas$ e$ B$-J[1[B$++”$
(Guerra,$2010),$foi$crucial$para$esta$investigação$tentar$compreender$como$as$práticas$
de$ consumo$ psicotrópico$ e$ as$ atitudes$ afetivas$ foram$ e/ou$ são$ apreendidas$ e$
representadas$ pelos$ públicos$ e$ protagonistas$ da$ cena$ B$-J" nacional.$ Com$ esta$
finalidade,$ torna-se$ pertinente$ começar$ por$ refletir$ acerca$ das$ práticas$ de$
sociabilidade$ dos$ portugueses,$ nomeadamente$ olhando$ para$ os$ dados$ do$ nosso$
inquérito,$ pois$ é$ a$ partir$ delas$ que$ se$ desenvolvem$ os$ consumos$ e$ as$ experiências$
afetivas.$Nesta$matéria,$os$festivais$ocupam$hoje$um$lugar$de$destaque,$uma$vez$que$
se$tornaram$em$espaços$privilegiados$para$este$tipo$de$práticas$de$celebração$de$um$
modo$de$vida$hedonista$(Ferreira,$2009).$Na$realidade,$estes$eventos$permitem$que$os$
que$participam$neles$se$sintam$livres$das$restrições$da$vida$quotidiana$e$que$adotem$
práticas$hedonistas,$que$lhes$possibilitem$exprimir$o$seu$verdadeiro$“eu”$(Kim$&$Jamal,$
2007;$Pielchaty,$2015).$Neste$ âmbito,$na$nossa$ amostra$apuramos,$então,$ que$a$sua$
esmagadora$maioria,$ou$seja,$73,6%,$costuma$frequentar$festivais,$concertos$ou$outro$
tipo$de$eventos$musicais,$tal$como$podemos$verificar$na$Figura$6.1..$
$
$
254$
U6)5(*!=M;M!!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7#!60ƒ56(67%+!4%(!}(#ƒ5•0-6*!7#!}#+86e*6+&!-%0-#(8%+!%5!%58(%+!#e#08%+!
35+6-*6+!!
Fonte:$Autora.$
$
Entre$as$principais$motivações88$para$a$frequência$(ver$Figura$6.2)$deste$tipo$de$
eventos$por$parte$dos$inquiridos$encontramos,$em$primeiro$lugar,$a$programação,$ou$
seja,$as$bandas$ e/ou$artistas$que$ integram$o$cartaz$ de$um$determinado$ evento$com$
91,5%$ das$ respostas,$ seguida$ pela$ importância$ da$ companhia,$ nomeadamente$ dos$
amigos,$ familiares$ ou$ namorado(a)$ com$ quem$ se$ assiste$ a$ esses$ mesmos$ eventos$ e$
que$apresentam$44,2%$das$repostas.$Este$ponto$reforça$a$importância$dos$grupos$de$
pares$para$as$práticas$musicais$dos$inquiridos,$bem$como$para$a$manifestação$das$suas$
identidades$ culturais$ e$ estilos$ de$ vida$ (Bennett,$ 2004;$ Bennett$ *#" '+,$ 2014;$ McKay,$
2000).$Em$terceiro$lugar,$encontra-se$o$fenómeno$da$busca$pela$novidade/descoberta$
de$ novas$ pessoas,$ bandas,$ espaços$ e$ interações$ durante$ os$ eventos$ musicais$ com$
40,9%$das$respostas,$como$é$possível$observar$na$Figura$6.2..$De$facto,$os$ambientes$
alternativos$ e$ a$ localização$ dos$ festivais$ tendem$ a$ facilitar$ as$ ligações$ com$ outras$
pessoas$ e$ com$ o$ meio$ envolvente,$ possibilitando$ o$ surgimento$ de$ diferentes$
comportamentos$e$práticas,$que$podem$envolver,$também,$o$uso$de$drogas$(Gilmore,$
2010;$Luckman,$2003;$Tramacchi,$2000).$$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
88$$Nesta questão, os inquiridos poderiam assinalar mais do que um motivo, até um máximo de três. Os
restantes motivos apresentados na lista eram: localização do evento, preços do evento, condições do
recinto/espaço, potenciador de relações de sociabilidade e ritual de frequência deste tipo de eventos,
que apresentam valores de representatividade semelhantes.$
73,6%$
26,4%$
Sim$
Não$
$
255$
Por$ outro$ lado,$ entre$ as$ motivações$ menos$ frequentes$ referidas$ pelos$
inquiridos$ para$ a$ participação$ em$ festivais,$ concertos$ ou$ outro$ tipo$ de$ eventos$
musicais$encontram-se$os$tipos$de$públicos$que$frequentam$o(s)$evento(s)$em$questão$
com$ 6,4%$ das$ repostas,$ a$ diversidade$ da$ funcionalidade$ do$ espaço$ do$ evento,$
nomeadamente$ através$ de$ outro$ tipo$ de$ ofertas$ e$ da$ interdisciplinaridade,$ que$
obteve,$também,$ 6,4%,$ o$facto$ de$ se$ encontrar$envolvido$ na$ organização$ do$evento$
com$ 6%,$ e,$ ainda,$ devido$ aos$ consumos$ praticados$ nesses$ eventos$ com$ 5,3%$ das$
respostas.$ É$ de$ salientar,$ aqui,$ que$ a$ prática$ de$ consumos$ psicotrópicos$ como$
motivação$ para$ a$ frequência$ de$ eventos$ musicais$ surge$ apenas,$ com$ 5,3%$ das$
respostas,$ao$ contrário$do$ pensamento$ corrente$acerca$ dos$consumos$ neste$ tipo$de$
eventos$(ver$Figura$6.2).$$
$
U6)5(*! =M@M! '6+8(6~56z{%! 7%! 8%8*1! 7#! 60ƒ56(67%+! ƒ5#! }(#ƒ5#08*3! #e#08%+! 35+6-*6+! 4#1*+! 3%86e*z‡#+!
3*6+!}(#ƒ5#08#+R<!
P%86e%+!
P*6%(!}(#ƒ5•0-6*!!
W#(-#08*)#3!!
S*07*+j*(86+8*+!
259$
91,5%$
E%34*0f6*!
125$
44,2%$
L%e67*7#j7#+-%~#(8*!
115$
40,9%$
P%86e%+!
P#0%(!}(#ƒ5•0-6*!!
W#(-#08*)#3!!
E%0+53%+!
15$
5,3%$
U50-6%0*167*7#!7%!
#+4*z%!
18$
6,4%$
J()*06•*z{%!
17$
6%$
W„~16-%+!
18$
6,4%$
$Fonte:$Autora.$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
89$$Note-se, que os totais de frequência e de percentagem desta tabela não correspondem ao total de
indivíduos (383) nem a 100%, porque cada inquirido poderia selecionar mais do que um motivo da lista
apresentada. Portanto, apresentamos os motivos mais e menos escolhidos da amostra.$
$
256$
$
Desta$feita,$apesar$de$alguns$autores$não$considerarem$os$consumos$como$um$
aspeto$ essencial$ na$ investigação$ acerca$ da$ participação$ em$ festivais$ (Gilmore,$ 2010;$
Tramacchi,$2000),$tendo$como$base$a$informação$anterior,$parece$inegável$que$estes$
tipos$ de$ eventos$ se$ constituam$ como$ uma$ interrupção$ nos$ hábitos$ diários$ dos$
indivíduos$ e,$ como$ tal,$ como$ uma$ possível$ oportunidade$ para$ consumir$ álcool$ e/ou$
drogas$(Borlagdan$*#"'+2,$2010;$Luckman,$2003).$
A$ partir$ da$ Figura$ 6.3.$ verificamos$ que$ entre$ os$ eventos90$ aos$ quais$ os$
inquiridos$mais$pretendem$participar$durante$o$ano$de$2019$se$encontram$o$Festival$
Vodafone$ Paredes$ de$ Coura$ em$ primeiro$ lugar$ com$ 40,4%$ das$ repostas,$ seguido$ do$
Vilar$ de$ Mouros$ com$ 18,7%$ (ambos$ festivais$ que$ acontecem$ em$ espaço$ rural)$ e$ do$
Primavera$Sound$com$17,7%$(que$é$um$festival$urbano),$todos$a$acontecer$no$Norte$
do$ país,$ tal$ como$ os$ principais$ concelhos$ de$ residência$ da$ amostra$ se$ localizam$
também$a$norte.$Aqui,$conseguimos$perceber$que$os$três$festivais$se$caracterizam$por$
privilegiar$ na$ sua$ programação$ os$ géneros$ K$KzB$-J$ e$ alternativa/01%0*,$ indo$ ao$
encontro$ das$ preferências$ musicais$ da$ amostra.$ Por$ outro$ lado,$ entre$ os$ eventos$
mencionados$ com$ menor$ peso$ estão$ o$ SWR$ Barroselas$ Metalfest$ com$ 4%,$ o$ Sonic$
Blast$com$5,1%,$o$Vagos$Open$Air$que$apresenta$4,6%$e,$por$fim,$o$Neopop$com$3,5%$
das$ respostas$ da$ nossa$ amostra91.$ Relativamente$ a$ estes,$ os$ três$ primeiros$ festivais$
correspondem$a$eventos$que$acontecem$em$ambientes$rurais$e$são$todos$do$género$
.*#'+zU'B%,$que$é$também$um$dos$géneros$mais$frequente$das$preferências$musicais$
dos$nossos$inquiridos92.$E,$à$semelhança$dos$demais,$dois$deles$também$se$localizam$a$
norte$do$país$-$O$SWR$Barroselas$Metalfest$acontece$em$Barroselas$(concelho$de$Viana$
do$ Castelo)$ e$ o$ Sonic$ Balst$ em$ Moledo$ (Caminha)$ e$ o$ Vagos$ Open$ Air$ acontece$ em$
Vagos,$Aveiro.$Relativamente$ao$Neopop,$que$se$trata$de$um$festival$urbano$de$música$
eletrónica,$ também$ localizado$ a$ norte,$ mais$ precisamente$ na$ cidade$ de$ Viana$ do$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
90$$Os restantes eventos (festivais e/ou concertos isolados) mencionados não são representativos, uma
vez que surgem apenas referidos uma, duas ou três vezes. Nesta questão, os inquiridos poderiam
introduzir o(s) nome(s) dos festivais e/ou eventos.
91$$Nas preferências musicais da nossa amostra, verificamos que os géneros
pop/rock
e alternativo/
indie
rock
aparecem como os mais frequentes com 54,3% e 54% das respostas, respetivamente.$
92$$O género
metal/hard
representa 27,9% das preferências musicais dos inquiridos.$
$
257$
Castelo.$ Apesar$ deste$ tipo$ de$ música$ não$ constar$ das$ preferências$ dos$ nossos$
inquiridos,$ a$ sua$ representatividade$ na$ amostra$ pode$ estar$ relacionada$ com$ o$ fator$
novidade/descoberta$ de$ novas$ pessoas,$ bandas,$ espaços,$ interações,$ novas$
musicalidades$ e$ experiências$ assinalada$ como$ um$ dos$ principais$ motivos$ dos$
inquiridos$ frequentaram$ este$ tipo$ de$ eventos.$ O$ mesmo$ pode$ ser$ explicado$ pela$
companhia,$seja$ dos$amigos,$ familiares$ou$ namorado(a)$com$ quem$participam$ neste$
festival,$ que$ é$ também$ outra$ das$ motivações$ mais$ frequentes$ dos$ inquiridos$ para$ a$
participação$em$eventos$musicais.$$
É$ de$ salientar$ ainda,$ que$ a$ partir$ da$ década$ de$ noventa,$ nomeadamente$ no$
período$ pós-K)1J,$ novas$ sonoridades$ e$ culturas$ de$ dança$ associadas$ à$ música$
eletrónica$foram$ganhando$cada$vez$mais$espaço$no$panorama$musical,$mesmo$dentro$
do$ género$ B$-J,$ (Anderson,$ 2009;$ Tagg,$ 1982),$ o$ que$ pode$ ser$ também$ um$ fator$
explicativo$para$a$representatividade$deste$festival$na$amostra.$De$facto,$mesmo$nos$
festivais$de$música$ K$KzB$-J$ ou$alternativa/01%0*,$(tais$ como$os$três$referidos$ acima,$
que$ apresentam$ maior$ frequência$ nesta$ amostra),$ é$ uma$ prática$ comum$ constarem$
nomes$ de$ música$ eletrónica$ no$ cartaz$ e$ até$ existirem$ palcos$ destinados$
especificamente$ a$ passar$ este$ tipo$ de$ música.$ Segundo$ Reynolds$ (2007),$ apesar$ da$
música$ eletrónica$ ser$ intensamente$ física,$ ela$ apela$ à$ “compreensão$ em$ virtude$ de$
toda$a$complexidade$que$a$ música$encerra,$nomeadamente$a$partir$da$ sua$vertente$
rítmica,$das$suas$texturas$e$profundidade$espacial”$(Guerra,$2010:$153).$$
$
$
258$
U6)5(*!=MXM!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7#!60ƒ56(67%+!4%(!4(60-64*6+!#e#08%+!3#0-6%0*7%+!
Fonte:$Autora.$
$ $
$ Ainda$ dentro$ deste$ eixo$ da$ festivalização$ enquanto$ potenciadora$ de$
hedonismos$contemporâneos$é$importante$relembrar$que,$historicamente,$os$festivais$
têm$vindo$a$construir-se$como$espaços$facilitadores$para$a$prática$de$consumos$legais$
e$ilegais,$muitas$vezes$excessivos,$especialmente$desde$o$Festival$de$Woodstock.$Este$
festival$marcou,$indiscutivelmente,$uma$revolução$nos$eventos$de$música$ao$ar$livre,$
na$medida$em$ que$proporcionavam$ uma$intensa$ liberdade$nas$ práticas$ sexuais$e$ de$
consumos$dos$indivíduos$(Santos,$2018).$Assim,$estes$primeiros$festivais$deram$o$mote$
para$que$os$seus$participantes$se$pudessem$exprimir$verdadeiramente$num$ambiente$
informal$e$não$controlado$por$regras$socialmente$restritas$e$essa$expressão$acontecia,$
na$ sua$ maioria,$ através$ da$ experimentação$ com$ drogas,$ sexo,$ nudez,$ música$ e$
permissividade$ (Bendure,$ 2017).$ No$ entanto,$ hoje$ em$ dia,$ face$ às$ transformações$ e$
evoluções$ sociais,$ os$ festivais$ parecem$ ter$ perdido$ a$ sua$ essência$ libertadora$ de$
outrora$e$este$tipo$de$práticas$já$não$são$socialmente$associadas$a$eles,$porque$elas$
próprias$ já$ integram$ os$ quotidianos$ individuais$ e$ coletivos.$ Assim,$ é$ importante$
olharmos$ para$ os$ hábitos$ de$ consumo$ psicotrópicos$ em$ Portugal$ na$ época$
contemporânea.$
$
$
259$
=M@M!'(%)*+&!-%0+53%+!#!4(C86-*+!
Incorporada$nesta$lógica$festiva$e$de$celebração$de$valores$hedonistas$(Ferreira,$2009),$
tais$ como$ a$ procura$ incessante$ por$ sensações$ e$ experiências$ acaba$ por$ envolver,$
também,$consumos$psicotrópicos,$que,$muitas$vezes,$resultam$em$práticas$excessivas$
e/ou$ aditivas.$ Neste$ sentido,$ historicamente,$ o$ B$-J$ e$ as$ B$-J" &#'B&$ têm$ vindo$ a$ ser$
associados,$frequentemente,$a$comportamentos$abusivos$de$consumo$de$substâncias$
e$de$sexo$irresponsável$(Grossberg,$1993).$ De$ facto,$de$acordo$com$Miller$e$Quigley$
(2011)$ o$ consumo$ de$ substâncias$ encontra-se$ associado$ aos$ géneros$ musicais$ mais$
rebeldes/intensos,$como$é$o$exemplo$do$B$-J,$e$esta$premissa$aplica-se$não$só$a$fãs,$
mas$ igualmente$ aos$ músicos$ e$ outros$ agentes$ que$ participam$ na$ cena$ B$-J2$ Neste$
contexto,$Ian$Inglis$(2007)$tem$vindo$a$refletir$acerca$das$B$-J"&#'B&$e$da$sua$relação$
com$ o$ consumo$ de$ drogas.$ Portanto,$ partindo$ destas$ ideias,$ foi$ fundamental$ neste$
projeto$tentar$compreender$qual$a$sua$aplicabilidade$ao$panorama$do$B$-J$português$
contemporâneo,$ nomeadamente$ olhando$ para$ os$ consumos$ e$ práticas$ dos$ seus$
principais$ intervenientes.$ Assim,$ analisando$ os$ hábitos$ de$ consumo$ quer$ de$
substâncias$ legais$ quer$ ilegais$ dos$ nossos$ entrevistados,$ encontramos$ diferentes$
hábitos,$que$vão$desde$a$simples$experimentação,$passando$pelo$consumo$recreativo$
até$ao$consumo$aditivo.$Relativamente$às$substâncias$legais,$nomeadamente$o$tabaco$
e$o$álcool,$além$do$consumo$moderado$ou$“social”,$alguns$entrevistados$confessaram$
beber$ ou$ ter$ bebido$ a$ mais$ em$ determinadas$ situações,$ tais$ como$ eventos$ ou$
contextos$específicos,$acabando$por$prejudicar$as$suas$performances$em$palco$ou$em$
diferentes$fases$do$seu$percurso$(fases$etárias$ou$profissionais).$E$o$mesmo$acontece$
com$o$tabaco,$descrito$por$alguns$dos$entrevistados$como$o$maior$vício$que$já$tiveram$
e$aquele$que$mais$difícil$foi$de$largar.$
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()*" &X" -'1#b/'.$&" K$B" /$+#'" %'" .*0'" 1$0#*z).'" U$B'," *" $"
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$
260$
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%0'," .'&" %*K$0&" 1)1-'" .'0&2" (Vicente,$ 78$ anos,$ músico,$
Amadora)."
>*.KB*" W$0" ).'" I$'" B*+'CD$," 1)1-'" #0/*" ()'+()*B" KB$I+*.',"
1*."-$."'&"+*L'0&"1*."-$."'&"0+*L'0&,"1D$"#*1U$"#*1%M1-0'"'"
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W'-0+.*1#*" %*" )." %0'" K'B'" $" $)#B$," 'K*&'B" %*" #*B" W).'%$"
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'-U$" ()*" $" #'I'-$" .'#'" .)0#$" .'0&" ()*" '+L).'&" %B$L'&"
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W).$"1).'"W*&#'"$)"()'+()*B"-$0&',".'&"1D$".*"/0-0'2"{)'1%$"
'$"b+-$$+,"*)"&X"I*I$"#BM&"I*I0%'&A"bL)',"/01U$"e()*"&*i'"I$.g"
*"-*B/*i'"KB*#'2"5'WE"%*0n*0"%*"I*I*B"1'"'+#)B'"*."()*"%*0n*0"%*"
W).'B," W$B'." %$0&" /c-0$&" ()*" W$B'." S" /0%'2$ (Cláudio,$67$anos,$
radialista,$Porto).$
Neste$ ponto,$ a$ partir$ da$ perspetiva$ do$ público,$ nomeadamente$ através$ do$
inquérito$ aplicado,$ verificamos$ que$ a$ maioria$ dos$ inquiridos$ referiu$ que$ consumia$
álcool$ (79,9%)$ contra$ 20,1%$ que$ não$ consome,$ enquanto$ que$ cerca$ de$ 73%$
mencionaram$não$consumir$substâncias$consideradas$ilícitas$contra$27%$que$assumiu$
fazê-lo.$Relativamente$à$frequência$do$consumo$de$álcool,$40%$dos$nossos$inquiridos$
consome$ de$ forma$ ocasional,$ 25%$ consome$ duas$ a$ três$ vezes$ por$ semana$ e$ 24%$
consome$uma$vez$ por$semana.$ Com$menor$ representatividade$das$respostas,$ temos$
6%$ dos$ inquiridos$ que$ consome$ diariamente$ e$ 5%$ que$ consome$ uma$ vez$ por$ mês.$
Apesar$ de$ a$ maior$ parte$ dos$ inquiridos$ consumir$ álcool$ ocasionalmente,$ o$ consumo$
semanal$registou$uma$elevada$representatividade$e$ambas$as$categorias$(uma$ou$duas$
a$três$vezes$por$semana),$apresentam$valores$de$frequência$muito$próximos.$Vejamos$
a$frequência$destes$consumos$na$Figura$6.4.:$
$
$
$
261$
U6)5(*!=M`M!'6+8(6~56z{%!7%!8%8*1!7#!60ƒ56(67%+!4%(!}(#ƒ5•0-6*!7%!-%0+53%!7#!C1-%%1!
$
$
Fonte:$Autora.$
$
Por$outro$lado,$para$ o$ consumo$de$drogas$entre$ os$27%$de$consumidores$ da$
nossa$ amostra,$ facilmente$ observamos$ na$ Figura$ 6.5.$ que$ mais$ de$ metade,$ ou$ seja,$
65%$ consome$ apenas$ ocasionalmente.$ No$ entanto,$ encontramos$ alguma$
expressividade$no$consumo$diário,$que$registou$14%$das$respostas.$Dos$inquiridos$que$
referiram$ não$ consumir$ substâncias$ ilícitas,$ 243$ indivíduos$ mencionam$ não$ querer$
experimentar,$ o$ que$ representa$ mais$ de$ metade$ destes$ (83,2%),$ 8$ afirmam$ querer$
experimentar$(2,7%)$e$41$equacionam$essa$possibilidade$(14,1%).$
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Fonte:$Autora.$
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25%$
24%$
5%$
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Uma$vez$por$semana$
Uma$vez$por$mês$
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7%$
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Diariamente$
Duas$a$três$vezes$por$
semana$
Uma$vez$por$semana$
Uma$vez$por$mês$
Ocasionalmente$
$
262$
Nos$hábitos$de$consumo$de$substâncias$ilegais$dos$entrevistados$encontramos$
diferentes$experiências$e$historiais:$desde$indivíduos$que$nunca$consumiram;$a$alguns$
que$ experimentaram;$ a$ outros$ que$ consumiam$ ou$ consomem$ socialmente;$ a$
indivíduos$que$consomem$com$alguma$frequência$de$forma$recreativa;$a$outros$que$
consomem$ou$já$consumiram$diariamente;$e$até$a$pessoas$que$confessam$já$ter$sido$
dependentes$de$alguma$ destas$substâncias.$ Temos,$ainda$ -$ embora$poucos$ -,$alguns$
entrevistados$ que$ confessam$ já$ ter$ experimentado$ todas$ ou$ quase$ todas$ as$
substâncias$ que$ conhecem$ sob$ o$ ponto$ de$ vista$ científico,$ de$ forma$ a$ conhecer$ os$
efeitos$de$ cada$uma$ delas.$É$ de$ notar,$que$ apenas$um$ dos$entrevistados$ recorreu$ à$
palavra$ “toxicodependência”$ para$ classificar$ o$ seu$ historial$ de$ consumo$ aditivo$
precedente$ e$ admitiu$ ter$ feito$ reabilitação$ médica$ para$ tratar$ a$ dependência.$ Dos$
restantes$ que$ admitiram$ ter$ tido$ consumos$ aditivos$ em$ determinados$ períodos$ da$
vida,$nenhum$deles$recorreu$a$este$termo$para$os$descrever.$
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263$
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Bombarral).$
Alguns$ entrevistados$ confessam,$ ainda,$ ter$ vivenciado$ algumas$ experiências$
com$excessos$associados$a$consumos$psicotrópicos,$que$se$revelaram$nocivas$para$a$
sua$saúde$física$e$mental$ou$a$de$terceiros.$Neste$âmbito,$relembram$ainda$situações$
infelizes$que$aconteceram$com$amigos$e/ou$conhecidos$de$que$tiveram$conhecimento$
ou$às$quais$assistiram.$Neste$ponto$importa$relembrar$algumas$situações$de$excesso$
que$abaram$por$se$revelar$fatais$para$várias$B$-J"&#'B&$internacionais,$nomeadamente$
par$aquelas$que$integram$o$que$mais$tarde$viria$a$ser$designado$por$Club$dos$27,$onde$
constam$jovens$músicos$que$morreram$de$forma$repentina$(particularmente$devido$a$
overdoses)$com$apenas$27$anos$de$idade93.$
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93 Nesta lista constam grandes nomes como: Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Brian Jones, Kurt
Cobain, Robert Johnson, ou, mais recentemente, Amy Winehouse.
$
264$
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(Vasco,$60$anos,$jornalista,$Lisboa).$
De$ uma$ forma$ geral,$ alguns$ dos$ nossos$ entrevistados$ associam$ os$ consumos$
psicotrópicos$ou$a$sua$intensificação$ao$universo$do$B$-J"e$aos$contextos$em$que$este$
se$ desenrola,$ ou$ seja:$ falamos$ de$ contextos$ noturnos$ (Nofre$ &$ Eldridge,$ 2018),$ de$
viagens$constantes,$de$cansaço,$de$sentimentos$de$solidão,$de$ambientes$em$que$os$
consumos$ estão$ fortemente$ presentes$ nas$ pessoas$ pelas$ quais$ se$ encontram$
rodeados,$de$formas$de$lidar$com$a$possível$pressão$social$sobre$o$seu$trabalho,$entre$
outros$ fatores.$ Alguns,$ defendem$ mesmo$ que$ o$ B$-J$ está$ associado$ a$ determinadas$
substâncias,$ tal$ como$ outros$ géneros$ musicais$ estão$ associadas$ a$ outras.$ Neste$
âmbito,$Arnett$(1991)$acredita$que$determinados$tipos$de$música$possuem$diferentes$
resultados$nos$indivíduos,$nomeadamente$no$que$diz$respeito$ao$consumo$de$drogas,$
ideia$ esta$ também$ partilhada$ por$ outros$ autores$ como$ Vuolo$ e$ Uggen,$ 2005,$ que$
defendem$ que$ existem$ substâncias$ específicas$ associadas$ a$ determinados$ tipos$ de$
música.$$
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(Artur,$57$anos,$músico,$Lisboa).$
$
265$
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*nK*B0M1-0'"%'".f&0-'2"(Duarte,$36$anos,$programador$cultural,$
Porto).$
Porém,$ a$ partir$ da$ Figura$ 6.6.,$ rapidamente$ percebemos$ que$ o$ inquérito$
demonstra$que$entre$67,9%$dos$inquiridos$da$nossa$amostra$não$se$verifica$que$haja$
um$aumento$de$consumos$durante$a$sua$frequência$de$festivais$de$música,$concertos$
e$outros$eventos$musicais$e$entre$os$restantes$32,1%$que$responderam$haver,$apenas$
13,8%$responderam$que$esse$consumo$se$deva$a$uma$associação$direta$entre$a$música$
B$-J$ e$ o$ consumo$ de$ substâncias$ ilícitas.$ Esta$ realidade$ pode$ estar$ relacionada$ com$
novas$ ideologias$ e$ movimentos$ culturais,$ como,$ por$ exemplo,$ o$ &#B'0LU#" *%L*,$ que$
preconiza$ um$ estilo$ de$ vida$ alternativo,$ livre$ de$ drogas,$ álcool,$ tabaco$ ou$ sexo$
promíscuo$ (Haenfler,$ 2006,$ 2015),$ e$ que$ contrasta$ forçosamente$ com$ o$ lendário$ e$
clássico$ epítome$ do$ &*n$," %B$L'&" o" B$-J[1[B$++.$ Note-se,$ ainda,$ que$ um$ número$
significativo$ de$ inquiridos$ assumiu$ consumir$ este$ tipo$ de$ substâncias$ diariamente94,$
portanto,$à$partida,$o$meio$envolvente$não$terá$influência$no$aumento$do$consumo,$
uma$vez$ que$ este$ tipo$ de$prática$ faz$ parte$ dos$ seus$ quotidianos.$ Ainda,$ o$ facto$ dos$
consumos$ ilícitos$ não$ se$ encontrarem$ mais$ correntemente$ circunscritos$ a$
determinados$contextos$sociais,$como$acontecia$há$décadas$atrás,$pode$explicar$este$
antagonismo$ entre$ entrevistados$ e$ inquiridos,$ na$ medida$ em$ que$ o$ uso$ destas$
substâncias$ se$ generalizou$ gradualmente$ na$ sociedade$ e$ se$ tornou$ numa$ prática$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
94$$Ver Figura 6.5.$
$
266$
corrente.$ Em$ décadas$ anteriores,$ fora$ de$ determinados$ meios$ (particularmente,$
urbanos$ e$ artísticos),$ estes$ tipos$ de$ consumos$ não$ eram$ visivelmente$ comuns$ nos$
quotidianos$sociais$dos$indivíduos$em$geral.$
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$
Fonte:$Autora.$
$
$
Como$ já$ vimos$ e$ temos$ vindo$ a$ explorar,$ um$ dos$ pontos$ fulcrais$ desta$
investigação$prende-se$com$a$aplicação$do$mito$“sexo,$drogas$e$B$-J[1[B$++”$à$realidade$
social$ portuguesa.$ Por$ isso,$ considerámos$ enriquecedor$ colocar$ diretamente$ esta$
questão$aos$entrevistados,$de$ forma$a$poder$ cruzar$ as$suas$respostas$ com$os$factos$
detalhados$ que$ nos$ foram$ dando$ aos$ longo$ das$ entrevistas$ e$ verificar$ se$ existe,$ ou$
não,$ uma$ correspondência$ (consciente$ ou$ inconsciente)$ nas$ suas$ linhas$ de$
pensamento.$ De$ uma$ forma$ geral,$ as$ opiniões$ dividem-se,$ uma$ vez$ que$ 50%$ dos$
entrevistados$ (25$ indivíduos)$ responderam$ que$ consideram$ ser$ ou$ ter$ sido$ uma$
realidade,$justificando$as$suas$respostas$com$exemplos$na$primeira$ou$terceira$pessoa,$
porém,$ à$ semelhança$ das$ respostas$ apuradas$ no$ nosso$ inquérito,$ 10$ entrevistados$
responderam$ diretamente$ que$ se$ trata$ e/ou$ tratou$ de$ um$ mito.$ Relativamente$ aos$
entrevistados$que$ afirmaram$ter$sido$ e/ou$ser$ uma$realidade$ em$Portugal,$ todos$ou$
quase$todos$realçam$que$sucedeu$à$nossa$escala,$ou$seja,$com$uma$dimensão$aplicada$
ao$ nosso$ país$ e,$ consequentemente,$ em$ menor$ proporção$ que$ o$ fenómeno$ anglo-
13.8%$
32.1%$
86.2%$
67.9%$
0$
10$
20$
30$
40$
50$
60$
70$
80$
90$
100$
Rock$e$Consumos$ Festivais$e$Consumos$
Sim$
Não$
$
267$
saxónico.$ Ainda$ neste$ âmbito,$ alguns$ entrevistados$ chegam$ a$ afirmar$ ter$ vivido$
pessoalmente$ esta$ realidade$ e$ outros$ dão$ exemplos$ de$ músicos$ que$ a$ viveram.$ Por$
outro$ lado,$ dentro$ dos$ entrevistados$ que$ afirmaram$ tratar-se$ de$ um$ mito,$ a$
justificação$prende-se$com$o$reduzido$número$de$casos$de$indivíduos$(de$que$tenham$
conhecimento)$ que$ tivessem$ realmente$ experienciado$ ou$ continuado$ a$ experienciar$
este$ estilo$ de$ vida$ em$ Portugal.$ Ou$ seja,$ consideram$ que$ as$ poucas$ pessoas$ que$
viveram$e/ou$vivem$este$lema$não$são$significativas$para$o$podermos$aplicar$ao$nosso$
país$e$que$se$trata,$também,$de$uma$expressão$datada,$que$marcou$um$período$sócio$
histórico$específico,$nomeadamente$os$anos$sessenta$no$mundo$anglo-saxónico$e$anos$
oitenta$em$Portugal,$e$que$hoje$em$dia$já$não$faz$qualquer$sentido.$Além$de$referirem,$
também,$não$se$tratar$de$uma$prática$associada$à$cena$B$-J,$mas$à$cultura$notívaga$
em$geral$e$a$grupos$sociais$menos$escolarizados.$
†").'"B*'+0%'%*"-$.$"*."#$%$"+'%$,"'L$B',"/'0".)0#$"%'"W$B.'"
-$.$" '" &$-0*%'%*" &*" B*+'-0$1'" *" -$.$" &*" B*+'-0$1'" -$." $"
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268$
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.$BB*." Ub" .)0#$&" '1$&," -$." $/*B%$&*&2" (Leonardo,$ 67$ anos,$
radialista,$Lisboa)."
No$ entanto,$ contrariamente$ à$ opinião$ de$ alguns$ dos$ entrevistados,$ cerca$ de$
60%$ dos$ inquiridos$ responderam$ que$ a$ questão$ do$ “sexo,$ drogas$ e$ B$-J[1[B$++j$se$
tratou$ de$ uma$ realidade$ no$ contexto$ português,$ como$ podemos$ observar$ na$ Figura$
6.7..$Podemos$daqui$depreender,$que$este$antagonismo$pode$revelar$um$estereótipo$
coletivo$relativamente$a$esta$associação$da$música$B$-J$ao$sexo$e$à$droga.$Estes$tipos$
de$imagens$estereotipadas$acabam,$posteriormente,$por$ser$assimiladas$e$veiculadas$
pelos$média$(Sallas$&$Bega,$2006),$transferindo$à$cena$B$-J$um$cunho$de$%*/0+[&".)&0-$
(Guerra$&$Quintela,$2018:$8).$E,$com$frequência,$este$tipo$de$imagens$estigmatizadas$
do$B$-J$baseiam-se$em$atributos$discriminatórios$associados$a$determinados$estilos$de$
vida,$ resultando$ na$ construção$ de$ representações$ enviesadas$ de$ todos$ os$ seus$
intervenientes.$
U6)5(*!=MZM!,#1*z{%!#08(#!%!1#3*!s+#$%&!7(%)*+!#!rock’n’rollt!#3!W%(85)*1!0*!4#(+4#86e*!7%+!60ƒ56(67%+!
Fonte:$Autora.$
É$de$realçar,$que$os$entrevistados$referem,$ainda,$uma$diferença$geracional$no$
consumo$de$drogas,$ou$seja,$consideram$ter$sido$uma$realidade$mais$visível$a$partir$da$
59.3%$
40.7%$ Realidade$
Mito$
$
269$
década$ de$ oitenta$ no$ nosso$ país.$ Antes$ desse$ período,$ de$ acordo$ com$ as$ suas$
considerações,$os$consumos$ilícitos$em$Portugal$eram$atos$e/ou$experiências$pontuais$
e$pouco$significativas,$relativamente$ao$que$ se$passava$no$panorama$anglo-saxónico$
na$mesma$época,$posição$esta$também$corroborada$por$autores$como$Costa$(2007),$
Quintas$ (1997),$ Ribeiro$ (1999)$ ou$ Marques$ (2008).$ Também$ com$ o$ regresso$ das$ ex-
colónias$ ao$ continente$ após$ a$ revolução$ trouxeram$ a$ prática$ de$ consumir$
determinadas$substâncias,$como$a$liamba,$e$marcam$o$momento$em$que$os$consumos$
saltam$ da$ esfera$ privada$ para$ se$ tornarem$ públicos$ (Quintas,$ 1997).$ Ainda,$ o$ atraso$
que$ o$ nosso$ país$ apresentava$ relativamente$ ao$ mundo$ ocidental$ resultava,$ muitas$
vezes,$ na$ demora$ em$ ter$ acesso$ não$ só$ a$ mercadorias,$ mas$ também$ a$ modas$ e$
ideologias.$Por$isso,$todos$as$vivências,$experiências$e$crenças$associadas$à$década$de$
sessenta$no$panorama$internacional$acabaram$por$acontecer$em$Portugal$na$década$
de$oitenta.$
!-U$"()*"W$0").'"B*'+0%'%*,"KB01-0K'+.*1#*"1'"%B$L',".'&"0&&$"
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(Vicente,$78$anos,$músico,$Amadora)."
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'-$1#*-0%$" 1$&" '1$&" &*&&*1#'2" (Vasco,$ 60$ anos,$ jornalista,$
Lisboa)."
$
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$
270$
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&*" i)&#0W0-'" K*1&'B" 1)." .f&0-$" -$.$" +$)-)B',"%B$L'&," &*n$" *"
rock'n'roll2"(Rute,$37$anos,$músico,$Lisboa).$
Relativamente$ ao$ momento$ presente,$ se$ olharmos$ especificamente$ para$ as$
substâncias$mais$e$menos$consumidas$(ver$Figuras$6.8$e$6.9)$pelos$inquiridos$da$nossa$
amostra95,$rapidamente$visualizamos$na$figura$abaixo$que$a$mais$consumida$se$refere$
ao$trio$cannabis/marijuana/U'n0n*$com$mais$de$metade$das$respostas$(66,2%).$Esta$é$a$
droga$ilícita$mais$consumida$não$só$na$Europa$em$todas$as$faixas$etárias,$mas$também$
no$mundo,$pois$“estima-se$em$300$milhões$o$número$de$utilizadores$a$nível$planetário$
(cerca$de$5%$da$população$total),$e$em$cerca$de$100$000$o$número$de$portugueses$que$
o$faz”$(Cordeiro,$2016:$83).$Em$segundo$lugar$surge$a$cocaína$com$15,5%$das$respostas$
e$esta$substância$trata-se,$também,$do$estimulante$ilícito$mais$consumido$na$Europa.$
Segue-se$ o$ MDMA/Ecstasy$ com$ 12,7%,$ também$ conhecida$ por$ %B$L'" %$" '.$B,$ que$
tem$a$capacidade$de$acelerar$o$metabolismo$e$afetar$o$raciocínio,$através$da$alteração$
da$perceção$da$realidade$(Cordeiro,$2016).$$
$ $
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
95 Os dados apresentados nas Figuras 6.8 e 6.9. refletem as substâncias mais e menos consumidas pelos
inquiridos face às substâncias listadas, as quais podiam ser assinaladas, no máximo, quatro opções de
resposta. Portanto, o total não corresponde a 100. Note-se, ainda, que a lista apresentava apenas mais
uma opção (Solventes) que não obteve nenhuma resposta.
$
271$
U6)5(*!=MRM!'6+8(6~56z{%!7%+!60ƒ56(67%+!4%(!+5~+890-6*+!3*6+!-%0+5367*+!
Fonte:$Autora.$
$ Entre$as$menos$consumidas$(ver$Figura$6.9)$temos$a$heroína$com$3,1%,$que$de$
acordo$ com$ Cordeiro$ (2016)$ “(...)$ é$ a$ droga$ aditiva$ ilegal$ que$ atualmente$ mais$
problemas$causa,$desde$os$problemas$de$saúde$aos$de$tráfico,$assaltos$e$homicídios,$e$
a$ própria$ adição.$ Dir-se-ia$ que$ a$ heroína$ representa$ o$ que$ pode$ haver$ de$ pior$ no$
mundo$ da$ droga”$ (Cordeiro,$ 2016:$ 149).$ Seguem-se$ as$ anfetaminas$ com$ 2,5%,$ cujo$
sulfato$de$anfetamina$é$o$mais$comum,$ também$ conhecido$por$&K**%$por$funcionar$
como$estimulante$que$suprime$o$cansaço$e$o$apetite$(Cordeiro,$2016).$Surge,$depois,$o$
ópio,$1,7%$das$respostas$dos$inquiridos,$como$podemos$observar$na$Figura$6.9..$
$$
$
272$
U6)5(*!=M<M!'6+8(6~56z{%!7%+!60ƒ56(67%+!4%(!+5~+890-6*+!3#0%+!-%0+5367*+!
Fonte:$Autora.$
$
=MXM!G}#8%+&!#3%z‡#+&!+#$%!#!6086367*7#!
$Há$ já$ vários$ anos,$ que$ a$ sexualização$ e$ a$ pornificação$ se$ tornaram$ dois$ conceitos$
populares$ no$ nosso$ quotidiano$ contemporâneo,$ uma$ vez$ que$ imagens$ e$ práticas$ de$
teor$ sexual$ se$ encontram$ cada$ vez$ mais$ amplamente$ disseminadas$ pelo$ domínio$
público$ e$ a$ pornografia$ se$ tornou$ num$ artigo$ de$ fácil$ acesso,$ abundantemente$
disponível$e$usado$(Wouters,$2010).$Neste$âmbito,$desde$os$anos$sessenta,$o$sexo$tem$
vindo$ gradualmente$ a$ invadir$ a$ música$ popular,$ na$ medida$ em$ que,$ de$ acordo$ com$
Christenson$ e$ Roberts$ (1998),$ este$ género$ musical$ é$ especialmente$ popular$ na$
juventude,$que$tende$a$sentir-se$mais$atraída$pela$intensidade$sexual$da$música$e$das$
letras$(Arnett,$2002).$Face$a$este$cenário,$a$música$B$-J,$desde$os$seus$primórdios,$tem$
vindo$a$ ser$povoada$ de$imagens$ e/ou$ referências$sexuais,$ uma$vez$ que$este$ tipo$de$
música$ integra$ nos$ seus$ conteúdos$ muitos$ dos$ problemas$ mais$ comuns$ dos$
quotidianos$juvenis$(Frith$&$McRobbie,$1978).$Como$vimos,$o$próprio$termo$B$-J"'1%"
B$++$foi$empregue$a$este$tipo$de$música,$também,$devido$à$analogia$que$promove$com$
o$movimento$dos$corpos$durante$o$ato$sexual$(Zhang,$2013).$No$fundo,$esta$simetria$
entre$ sexo$ e$ B$-J$ traduz-se$ na$ própria$ criação$ individual$ de$ um$ repertório$ de$
comportamento$sexual$entre$os$fãs$e$protagonistas$da$cena$B$-J.$Assim,$neste$projeto,$
1.4%$
1.7%$
0.3%$
0.3%$
0.6%$
2.5%$
3.1%$
0$ 1$ 2$ 3$ 4$
Mescalina$
Ópio$
Barbitúricos$
Morfina$ou$semelhantes$
GHB$
Anfetaminas$
Heroína$
Substâncias$menos$
consumidas$
$
273$
e$à$margem$de$qualquer$juízo$de$valor,$consideramos$pertinente$focar$a$nossa$atenção$
nas$experiências$de$afetos,$sexo$e$intimidades,$nomeadamente$em$comportamentos$
sexuais$ocasionais$e/ou$de$ risco,$ no$domínio$do$B$-J" português,$sob$uma$perspetiva$
sociológica$ e$ imparcial,$ partindo$ de$ uma$ perspetiva$ analítica$ assente$ na$ dicotomia$
&*n$FB$-J.$
No$ contexto$ do$ lema$ &*n$," %B$L'&" o$B$-J[1[B$++$ importa,$ assim,$ explorar$
igualmente$a$questão$dos$ afetos$nos$nossos$entrevistados,$ sem$ nunca$esquecer$que$
vivemos$num$ país$democraticamente$recente$ e$com$ uma$ mentalidade$conservadora$
ainda$ fortemente$ enraizada.$ Relativamente$ a$ esta$ associação$ entre$ o$ B$-J$ e$ a$
afetividade,$ verificamos$ que$ quer$ nos$ músicos$ de$ gerações$ mais$ velhas,$ quer$ nas$
gerações$mais$ novas,$ tende$ a$ persistir$ um$ encanto$ emocional$ sobre$ os$ músicos,$ em$
especial$do$sexo$masculino.$E$isso$não$só$acontece$no$ambiente$da$música,$mas$das$
artes$ em$ si$ de$ uma$ maneira$ geral.$ Esta$ tendência$ vem,$ deste$ modo,$ corroborar$ o$
encantamento$sexual$(Marcus,$2000)$que$as$B$-J"&#'B&$têm$vindo$a$receber$ao$longo$
das$ décadas.$ Neste$ sentido,$ por$ um$ lado,$ há$ aqueles$ que$ revelam$ que$ o$ facto$ de$
serem$músicos$ou$se$encontrarem$ligados$a$este$meio$acabou$e/ou$acaba$por$suscitar$
nas$pessoas$um$interesse$especial.$$
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)."%*&'W0$"enorme.$(José,$64$anos,$músico,$Matosinhos).$
$
$
274$
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/$+#'," -$.*#*.F&*" '&1*0B'&" *W*#0/'.*1#*," 1D$" '-$1#*-*)"
-$11$&-$," .'&" -$1U*-0" -$+*L'&" 1$&&$&" ()*" K'B#0'." $&" U$#E0&"
#$%$&" *" U'/0'" U$#E0&" ()*" 1D$" '-*0#'/'." I'1%'&," 1'" '+#)B'2"
(Sofia,$47$anos,$músico,$Palmela).$
Por$outro,$há$aqueles$que$admitem$mesmo$ter$traído,$porque,$segundo$eles,$o$
estilo$de$vida$instável$e$imprevisível$que$a$música$pode,$por$vezes,$proporcionar$acaba$
por$não$permitir$a$consolidação$de$relacionamentos$ou$laços$afetivos,$daí$ser$comum$a$
prática$de$envolvimentos$ocasionais.$Como$resultado,$o$sexo$tende$a$banalizar-se$e$a$
perder$a$sua$ligação$aos$sentimentos.$Um$dos$entrevistados$confessou,$mesmo,$que$o$
seu$ casamento$ terminou$ devido$ a$ esse$ tipo$ de$ comportamentos$ e$ práticas.$ Neste$
âmbito,$ importa$ ressalvar$ que$ ao$ longo$ das$ décadas,$ várias$ transformações$ têm$
ocorrido$ no$ campo$ da$ sexualidade$ e$ a$ literatura$ parece$ apontar,$ assim,$ para$ uma$
alteração$ significativa$ na$ sexualidade$ das$ sociedades$ ocidentais,$ nomeadamente$ a$
partir$ da$ década$ de$ 1960.$ Ao$ longo$ dos$ anos,$ verificamos$ um$ crescente$
libertarianismo,$ que$ se$ traduziu$ numa$ perspetiva$ mais$ recreativa$ do$ sexo$ e$ numa$
maior$democratização$da$própria$intimidade$(Plummer,$1995).$Deste$modo,$a$geração$
do$milênio$adotou$uma$'cultura$de$ conexão',$que$se$caracteriza,$principalmente,$por$
sexo$desconectado$do$compromisso$e$por$algumas$transformações$fundamentais$nas$
práticas$ de$ namoro$ dos$ indivíduos,$ designadamente$ através$ da$ adoção$ de$ acordos$
como$ WB0*1%&" m0#U" I*1*W0#&$ entre$ outros$ (Bogle,$ 2007).$ De$ facto,$ nas$ sociedades$
contemporâneas$cada$vez$mais$individualistas,$tende$a$verificar-se$um$abrandamento$
das$regras$sociais$em$torno$do$casamento$e$da$sexualidade,$o$que$pode$incentivar$uma$
maior$ aceitação$ do$ comportamento$ sexual$ fora$ do$ casamento$ (Twenge,$ Sherman$ &$
Wells,$2015).$É$neste$contexto,$que$de$acordo$com$Cohen$(2001),$os$músicos$de$B$-J$
$
275$
elaboram$itinerários$de$práticas$sexuais$e$criam,$muitas$vezes,$padrões$de$expetativas$
que$acabam$por$incorporar$no$seu$comportamento$sexual$e$no$dos$seus$fãs.$$
4)"&*i',"I'1'+0Z$)F&*"$"&*n$,"1D$"&*"I'1'+0Z$)"$"'.$B,"K$B()*"
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#01U'"()'+()*B" K*&$" 1*." 'W*#0/$" 1*." emocional.$ (Tiago,$ 66$
anos,$músico,$Cascais).$
_$)/*"'+L).'"W'&*"1$&"'1$&"1$/*1#',"*."()*%$&":*+W01&"W$B'."
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-$1()0&#'2"(Mário,$48$anos,$músico,$Porto).$
De$facto,$o$período$que$se$seguiu$após$a$década$de$sessenta$incorporou$uma$
revolução$ sexual,$ que$ envolveu$ a$ geração$ I'Il" I$$.*B$ e$ a$ adoção$ de$ atitudes$ e$
comportamentos$sexualmente$permissivos$(Singh,$1980;$Smith,$1990;$Walsh,$1989)$e$
que$foi$perpetuada$com$a$Geração$X$que$lhe$seguiu$(Howe$&$Strauss,$1993;$Wells$&$
Twenge,$ 2005).$ Esta$ nova$ realidade,$ que$ envolveu$ uma$ ética$ mais$ tolerante$ e$
experimentalista$ (nomeadamente,$ através$ de$ vínculos$ afetivos$ instáveis,$ coabitação$
$
276$
pré-matrimonial,$ iniciação$ sexual$ precoce$ ou$ relações$ heterogâmicas)$ (Pais,$ 1998),$ e$
que$ contrastava$ com$ uma$ moral$ sexual$ conservadora$ das$ gerações$ mais$ velhas$
defensoras$do$puritanismo$sexual,$também$se$alastrou$ao$nosso$país.$$
4" rock'n'roll," -+'B$" *&#'/'" KB*&*1#*," $" &*n$" *)" '-U$" ()*" *B'"
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músico,$Paço$de$Arcos)."
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Corroios).$
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Lisboa).$
$
277$
Se$olharmos$para$os$dados$apurados$a$partir$do$inquérito,$concluímos$que$268$
inquiridos,$ou$seja,$a$esmagadora$maioria$(70%)$do$total$dos$383$mencionaram$estar$
num$relacionamento$afetivo,$os$restantes$responderam$não$estar.$E$desses$268,$172$
(cerca$de$45%)$referiram$que$ a$frequência$de$ambientes$ musicais$não$os$deixa$ mais$
estimulados$para$a$prática$de$relações$sexuais.$Ainda$sobre$este$ponto,$dos$115$(30%)$
que$referiram$não$estar$num$relacionamento$afetivo,$cerca$de$65%$mencionou$não$se$
sentir$estimulados$para$a$ocorrência$de$W+0B#&$nesse$tipo$de$contextos.$Portanto,$para$
esta$ amostra,$ os$ festivais$ e$ outros$ eventos$ musicais$ do$ género$ não$ promovem$ a$
prática$sexual$dos$seus$participantes.$$
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$
Outro$ eixo$ central$ para$ esta$ investigação$ prende-se$ com$ os$ processos$ de$
estigmatização$ social$ associados$ à$ cultura$ B$-J$ e$ aos$ seus$ estilos$ de$ vida.$ Desde$ a$
década$de$sessenta,$que$o$B$-J"tem$carregado$um$conjunto$de$estereótipos$associados$
aos$ seus$ consumos,$ práticas$ sexuais,$ aparência,$ entre$ outros$ aspetos$ (Encarnação,$
2019),$que$acabaram$por$se$repercutir$nos$modos$através$dos$quais$as$B$-J"&#'B&$são$
apreendidas$ pela$ sociedade$ em$ geral.$ Por$ essa$ razão,$ considerámos$ crucial$ explorar$
questões$ relacionadas$ com$ o$ posicionamento$ familiar$ dos$ nossos$ entrevistados$ face$
ao$seu$vínculo$profissional$à$música,$especialmente,$porque$muitos$dos$entrevistados$
iniciaram$as$suas$carreiras$há$já$ várias$ décadas$atrás,$quando$Portugal$era$ainda$ um$
país$ fortemente$ conservador$ e$ a$ música$ era,$ muitas$ vezes,$ olhada$ com$ desdém$ e$
considerada$como$um$futuro$profissional$pouco$seguro$ou$promissor.$Neste$sentido,$
aqueles$entrevistados$que$sentiram$desaprovação$familiar,$esta$terá$acontecido$na$sua$
maioria$numa$primeira$fase,$acabando$posteriormente$a$família$por$aceitar$a$decisão$
do$entrevistado.$Por$outro$lado,$alguns$entrevistados$tiveram$sempre$apoio$familiar,$
que$muitas$vezes$se$traduziu$ em$estímulo$através$do$ investimento$em$instrumentos$
musicais,$educação$musical$ou$disponibilização$de$espaço$para$ensaios$e/ou$treinos.$
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56$anos,$músico,$Lisboa).$
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(Leonardo,$67$anos,$radialista,$Lisboa).$
Além$ do$ posicionamento$ familiar,$ foi$ também$ fundamental$ analisar$ os$
posicionamentos$ sociais$ e$ conhecer,$ igualmente,$ os$ sentimentos$ e$ as$ reações$
desenvolvidas$pelos$nossos$entrevistados,$perante$situações$de$estigmatização$social,$
que$ poderão$ ter$ resultado$ ou$ não$ na$ criação$ e$ disseminação$ de$ pânicos$ morais$
(Cohen,$2002)$na$sociedade$portuguesa,$como$veremos$a$seguir.$Importa,$igualmente,$
cruzar$ aqui$ as$ vivências,$ experiências$ ou$ situações$ dos$ nossos$ entrevistados$ de$
diferentes$ idades$ de$ forma$ a$ tentar$ perceber$ se$ se$ verificam$ alterações$ nestes$
contextos$ ao$ longo$ do$ tempo.$ Relativamente$ à$ estigmatização$ social$ são$ muitos$ os$
relatos$de$ situações$vivenciadas$ pelos$entrevistados$ que$ incluem$desde$ estereótipos$
relacionados$com$a$profissão,$com$o$visual$ou$com$o$estilo$de$vida$B$-J*B.$
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0%*0'"%*+*&2"(Álvaro,$69$anos,$músico,$Paço$de$Arcos).$
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*)"-$1U*-02"(Cláudio,$67$anos,$radialista,$Porto).$
$
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$
280$
7.# Sexo,# drogas# &# rock’n’roll." Estigmas," riscos" e"
representações*mediáticas!!
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GNR$(1992)$–$>)I"?]2"
$
ZM;M!D+86)3*+&!7#+e6%+!#!4906-%+!3%(*6+!!
No$ contexto$ português,$ como$ vimos$ anteriormente$ através$ da$ perspetiva$ dos$
inquiridos$do$nosso$questionário,$o$epítome$sexo,$drogas$e$B$-J[1[B$++$tende$a$ser$uma$
realidade$ no$ seio$ do$ imaginário$ social96.$ Consequentemente,$ estas$ imagens$
estereotipadas$ resultam,$ com$ frequência,$ na$ criação$ de$ estigmas,$ quer$ a$ nível$
individual$ quer$ coletivo,$ nos$ músicos$ e$ outros$ intervenientes$ do$ panorama$ B$-J$
nacional,$mas$na$sociedade$no$seu$todo.$Portanto,$para$se$compreender$a$construção$
da$realidade$deste$universo$musical$no$período$atual,$devemos$ter$em$consideração$as$
representações$ sociais$ que$ a$ ele$ se$ encontram$ vinculados,$ bem$ como$ os$ respetivos$
mecanismos$ de$ dominação$ social,$ que$ são$ produzidos$ e$ reproduzidos$ dentro$ deste$
mesmo$ cenário$ (Martins,$ 2019).$ Neste$ ponto,$ é$ de$ salientar,$ de$ acordo$ com$ Cohen$
(1993),$o$papel$privilegiado$que$os$média$desempenham$na$disseminação$deste$tipo$
de$ representações,$ nomeadamente$ na$ sociedade$ portuguesa,$ dando$ espaço$ à$
emergência$de$“pânicos$morais”.$A$esta$luz,$Champagne$(1993)$argumenta$que$estas$
“pânicos$ morais”$ (Cohen,$ 1993)$ só$ se$ tornam$ visíveis,$ se$ os$ órgãos$ de$ comunicação$
social$as$abordarem.$Portanto,$
$&" .E%0'" '#)'." &$IB*" ).".$.*1#$" *" W'IB0-'." -$+*#0/'.*1#*"
).'" B*KB*&*1#'CD$" &$-0'+," ()*," .*&.$" *&#'1%$" %0&#'1#*" %'"
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96$59,3% dos inquiridos responderam que a questão do “sexo, drogas uma e
rock’n’roll”
se tratou de
realidade no contexto português.$
$
281$
Assim,$ nos$ quadros$ de$ interação$ quotidiana,$ quando$ um$ ou$ mais$ indivíduos$
ostentam$ comportamentos$ que$ não$ vão$ ao$ encontro$ das$ normas$ socialmente$
compartilhadas$pela$generalidade$da$população,$as$premissas$organizacionais$levam$à$
reativação$ de$ sanções$ que,$ neste$ âmbito,$ resultam$ em$ estigmas,$ rotulações$ e$
apropriações$ para$ esses$ indivíduos$ (Martins,$ 2019).$ No$ entanto,$ de$ acordo$ com$ o$
ponto$de$vista$de$Pinto$(1994),$apenas$podemos$falar$em$comportamentos$desviantes$
quando$ a$ infração$ à$ norma$ é$ reconhecida$ e$ designada$ como$ tal,$ dando$ lugar$ a$ um$
processo$ em$ que$ o$ transgressor$ assume$ esse$ desvio$e$ o$ confirma$ (Goffman,$ 1982).$
Aplicado$ao$contexto$do$B$-J$português,$muitos$dos$nossos$entrevistados$confessaram$
ter$vivenciado$situações$de$estigmatização$social$associadas$aos$modos$de$vida$B$-J*B,$
mas$que$estas$não$conduziram$à$alteração$dos$seus$comportamentos.$$
=B'." )1&" -'I*+)%$&," )1&" .'+#B'K0%$&222*B'" '&&0." ()*" *B'."
#B'#'%$&," '" I'0n$F%*F-D$," -$.$" &*" -$&#).'" %0Z*B"*." I$."
K$B#)L)M&,".'&"*&#'"*B'"'"&$-0*%'%*"*&#'I*+*-0%',"'".'+#'"i$/*."
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K$B#)L)M&" *" 'c" ib" Ub" ).'" 'I*B#)B'" #$#'+" '$" B$-J2$ (Cláudio,$ 67$
anos,$radialista,$Porto).$
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punk,"'+E."%'".f&0-'"*"%'&"+*#B'&,"$"/0&)'+"#'.IE."-U$-'B")."
I$-'%01U$2$(Manuel,$52$anos,$músico,$Cascais).$
Reagindo$ao$modelo$positivista$de$Comte$(1869)$que$considerava$os$indivíduos$
como$instrumentos$usados$em$prol$do$desenvolvimento$da$sociedade,$este$paradigma$
salienta$a$possibilidade$de$os$indivíduos$poderem$construir$e$desconstruir$a$realidade$
social,$de$poderem$fazer$escolhas$individuais$e$de$criarem$as$suas$interpretações$nos$
quadros$de$interação$social$(Moore,$1988).$E$é,$então,$no$processo$interacional,$que$os$
símbolos$ adquirem$ um$ papel$ essencial$ bem$ como$ funcional,$ na$ medida$ em$ que$
possibilitam$ a$ atribuição$ de$ significados$ ao$ próprio$ comportamento$ e$ ao$
comportamento$ dos$ outros.$ Segundo$ Guerra$ (2002),$ as$ respostas$ que$ os$ diferentes$
$
282$
intervenientes$elegem$no$processo$de$interação$social$não$são$rígidas,$mas$resultantes$
de$uma$negociação$acerca$dos$símbolos$utilizados.$Também$Moore$(1988)$considera$
que$
'&"K*&&$'&"-B0'."$"&*)"KBXKB0$".)1%$,"W'Z*."$KCd*&"*"'+#*B'."$"
&*)" -$.K$B#'.*1#$" %*" '-$B%$" -$." '&" &)'&" KBXKB0'&" K*B-*Cd*&"
%'&"&0#)'Cd*&2"\$1L*"%*"&*B").'"K$%*B$&'"W$BC'"-$1#B$+'%$B',"'"
&$-0*%'%*" K'&&$)" '" &*B" /0&#'" -$.$" )." KB$%)#$" %'&" 01#*B'Cd*&"
%'&"K*&&$'&2$(Moore,$1988:$44).$$
Assim,$ no$ processo$ de$ etiquetagem$ social,$ os$ precursores$ desta$ teoria$
designam$ o$ desvio$ como$ uma$ categoria$ que$ permite$ identificar$ os$ indivíduos$ de$
acordo$com$uma$postura$intencionalmente$desviante$e$não$como$uma$característica$
inerente$ aos$ próprios.$ Isto$ é,$ a$ rotulagem$ de$ determinados$ comportamentos$ como$
desviantes,$ ou$ a$ própria$ assunção$ de$ uma$ postura$ desviante$ por$ parte$ de$ alguns$
indivíduos,$não$significa$que$o$desvio$é$uma$característica$inerente$aos$atores$sociais.$
O$conceito$de$desvio$insere-se,$assim,$num$quadro$relacional$de$oposições,$onde$uma$
categorização$social$distingue$e$contrapõe$os$comportamentos$legítimos$e$ilegítimos,$
como$nos$confirmam$as$entrevistas.$Neste$contexto,$os$entrevistados$realçam$o$papel$
da$ cultura$ B$-J$ como$ instrumento$ de$ expressão$ de$ uma$ oposição$ relativamente$ às$
normas$ sociais$ estabelecidas,$ através$ de$ diferentes$ práticas$ e$ sentimentos.$ Neste$
ponto,$ importa$ relembrar$ que$ para$ mais$ de$ metade$ dos$ inquiridos$ a$ música$ é$ um$
elemento$ potenciador$ de$ estados$ de$ espírito97$ que$ muitas$ vezes$ podem$ ser$
antagónicos$face$à$sociedade$em$geral.$
=)"'-U$"()*"'"-)+#)B'"B$-J,"*."L*B'+,"E")."%$&" *n*.K+$&".'0&"
'-'I'%$&" %$" ()*" E" '" &$-0*%'%*" 1$&" 1$&&$&" #*.K$&," 0&#$" E,"
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KB$%)#0/$" *" .'0&" -B0'#0/$" ()*" E" '" -$1/0/M1-0'" %*" -$1#BbB0$&2$
(Joaquim,$70$anos,$radialista,$Lisboa).$
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#01U'"+0L'CD$"S&"'B#*&"*"'").'"-*B#'"-$1#B'-)+#)B'2"(Alberto,$58$
anos,$radialista,$Porto).$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
97$$51,2% da amostra afirmou que influência dasica nas suas vidas se prende com a sua potencialidade
de proporcionar diferentes estados de espírito, tais como a alegria, a euforia, a evasão, etc.$
$
283$
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K'B'c&$&" 'B#0W0-0'0&," .)0#'&" /*Z*&," *B'." )." *&-'K*" K'B'" '&"
K*&&$'&2"(Rafael,$63$anos,$músico,$Leça$da$Palmeira).$
Lemert$(1994)$distinguiu$o$desvio$primário$do$desvio$secundário,$uma$vez$que$
um$ primeiro$ ato$ de$ rotulação$ corresponde$ a$ um$ desvio$ primário,$ e$ a$ possível$ e$
consequente$ aceitação$ desse$ rótulo$ por$ parte$ do$ outro,$ corresponde$ a$ um$ desvio$
secundário,$ou$seja,$
1$" B*&K*0#'1#*" '$&" *W*0#$&" %'" *#0()*#'L*." 1$" .$%$" -$.$" '&"
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-$.$"$&"$)#B$&"'L*."W'-*"'"1X&2"(Guerra,$2002:$26).$$
Deste$ modo,$ se$ alguém$ realça$ de$ forma$ negativa$ uma$ característica$ física$ ou$
psíquica$ relativamente$ a$ nós$ mesmos,$ o$ mais$ provável$ é$ nós$ vermos$ essa$ mesma$
característica$presente$em$nós,$e$consequentemente,$essa$(nova)$perceção$sobre$nós$
próprios$ vai$ influenciar$ a$ forma$ como$ interagimos$ com$ os$ outros.$ Neste$ sentido,$ as$
pessoas$ que$ irão$ interagir$ connosco$ após$ o$ processo$ de$ etiquetagem,$ irão$ fazê-lo$
tendo$ sempre$ esse$ rótulo$ presente.$ Este$ processo$ de$ 01#*B'CD$" W'+&',$ segundo$ a$
designação$ de$ Goffman$ (1982),$ acaba$ por$ funcionar$ como$ uma$ espécie$ de$ carreira,$
que$passa$a$fazer$parte$do$nosso$percurso$social$(Becker,$2008).$Assim,$no$processo$de$
estigmatização$ defendido$ por$ Erving$ Goffman$ (1982),$ este$ faz$ uma$ distinção$
importante$ entre$ dois$ tipos$ de$ identidades$ sociais:$ a$ identidade$ social$ virtual$ e$ a$
identidade$social$real.$A$primeira$diz$respeito$ao$conjunto$de$características$aplicadas$
ao$ *)$ que$ são$ recolhidas$ durante$ o$ processo$ de$ interação$ social;$ e$ a$ segunda$
corresponde$ às$ características$ reais$ da$ pessoa.$ No$ entanto,$ durante$ as$ interações$
sociais,$“alguns$destes$atributos$implicam$o$«descrédito»$imediato$dos$indivíduos$que$
os$ possuem”$ (Guerra,$ 2002:$ 27),$ na$ medida$ em$ que$ estão$ relacionados$ socialmente$
com$“pânicos$morais”$(Cohen,$2002).$Porém,$se$esses$atributos$não$se$revelarem$de$
forma$imediata$ durante$ a$ interação$social,$ o$ indivíduo$ tende$a$ adotar$ determinadas$
técnicas$ para$ os$ encobrir,$ de$ forma$ a$ fazer$ com$ que$ a$ sua$ identidade$ social$ virtual$
$
284$
corresponda$à$sua$identidade$social$real,$evitando,$desta$forma,$a$emergência$de$um$
estigma.$E$este$tipo$de$situações$também$sucederam$com$os$nossos$entrevistados,$na$
medida$em$que$também$tentaram$ocultar,$de$alguma$forma,$a$sua$identidade$visual$e$
aqueles$ que$ não$ o$ faziam,$ acabavam,$ muitas$ vezes,$ por$ ser$ alvo$ de$ preconceitos$
associados$à$crença$social$da$cultura$B$-J"como"W$+J"%*/0+"(Cohen,$2002).$
=)"1)1-'"W)0".)0#$"$)&'%$"1$".*)"/0&)'+,"-$.$"#B'I'+U'/'"1)."
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Gaia).$
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W$0,"*B'"*&#'B"-$."'.0L$&2$(Catarina,$37$anos,$música,$Lisboa).$
Portanto,$de$forma$geral,$podemos$definir$a$estigmatização$como$um$processo$
de$ classificação$ que$ realça$ a$ identidade$ negativa$ do$ indivíduo$ e$ que$ descredibiliza$
determinadas$ categorias$ sociais$ perante$ as$ categorias$ dominantes$ (Goffman,$ 1982)$
detentoras$ de$ poder$ social.$ Este$ poder$ corresponde$ ao$ “uso$ intencional$ de$ poderes$
causais$ para$ afetar$ a$ conduta$ de$ outros$ agentes”$ (Scott,$ 2007:$ 25).$ E$ os$ nossos$
entrevistados$ sempre$ permaneceram$ muito$ permeáveis$ a$ este$ processo.$ Nesta$
situação,$a$pessoa$sente-se$“anormal”$perante$uma$sociedade$que$tende$a$excluí-la$e$a$
rejeitar$o$que$é$diferente$ou$estranho.$Note-se,$ainda,$que$
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B*1%0.*1#$," +$-'+" %*" B*&0%M1-0'," 1'#)B'+0%'%*," *#-2" (Guerra,$
2002:$27).$
À$luz$deste$processo,$o$paradigma$do$interacionismo$simbólico$expõe$um$olhar$
reconfigurado$da$interação$social,$particularmente$da$tripla$relação$que$se$estabelece$
entre$as$normas$sociais,$os$processos$de$socialização$e$os$comportamentos$de$desvio$
face$a$essas$mesmas$normas$(Martins,$2019).$Becker$(2008)$considera$o$conceito$de$
$
285$
$)#&0%*B,$relacionando-o$com$a$desconfiança$com$que$os$indivíduos$apontados$como$
desviantes$ encaram$ os$ indivíduos$ não$ desviantes$ e$ vice-versa.$ É$ neste$ âmbito,$ que$
muitos$ protagonistas$ da$ esfera$ da$ música$ B$-J" foram$ e$ tendem$ a$ ser$ julgados$ e$
rotulados$ como$ desviantes$ ou$ transgressores,$ face$ às$ normas$ estabelecidas$ na$
sociedade$ portuguesa.$ Como$ pudemos$ verificar$ através$ da$ aplicação$ do$ nosso$
inquérito,$ a$ B$-J$.)&0-$ está$ tradicionalmente$ associada$ a$ um$ conjunto$ de$ práticas,$
experiências$ e$ estilos$ de$ vida$ marginais,$ que$ escapam$ ao$ que$ é$ considerado$ normal$
pela$generalidade$ dos$atores$ sociais.$Consequentemente,$ este$ tipo$ de$ etiquetas$que$
são$aplicadas$não$só$a$músicos$de$B$-J,$mas$a$todo$o$conjunto$de$atores$que$circulam$
neste$campo$musical,$acabam$por$se$transformar$num$estigma$evidente$e$inerente$à$
perceção$que$estes$indivíduos$têm$de$si$mesmos,$e$à$forma$como$constroem$as$suas$
próprias$identidades,$vejamos:$
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anos,$músico,$Matosinhos).$
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&*1#0%$2$(Samuel,$63$anos,$músico,$Vigo).$
$
Considerando$as$ três$ fases$do$ desvio$ propostas$ por$Becker$ (1994),$ é$possível$
relacioná-las$com$a$própria$evolução$do$comportamento$dos$músicos$de$B$-J$no$nosso$
país.$Ou$seja,$a$primeira$fase$envolve$o$não$cumprimento$das$regras$sociais$por$parte$
de$ um$ determinado$ indivíduo$ de$ forma$ intencional.$ Isto$ é,$ quando$ alguns$ jovens$
$
286$
portugueses$ começaram$ a$ ouvir$ este$ tipo$ de$ música$ durante$ o$ período$ político$ do$
Estado$Novo98,$sabendo$que$não$era$do$agrado$dos$ideais$defendidos$pelos$órgãos$de$
poder,$fizeram-no$de$forma$intencionada.$Esta$prática$acontecia,$muitas$vezes,$através$
da$ escuta$ de$ estações$ radiofónicas$ internacionais,$ e$ ainda$ que$ muitos$ jovens$ não$
compreendessem$ a$ língua,$ ouvir$ aquela$ música$ nova$ e$ diferente$ bastava$ para$
alimentar$as$suas$ânsias$de$transgressão.$$
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'#B'/E&"%'"pp5,".)0#$".'+2$(Cláudio,$67$anos,$radialista,$Porto).$
$
A$ segunda$ fase$ proposta$ pelo$ autor,$ está$ associada$ ao$ desenvolvimento$ de$
interesses$ e$ motivações$ desviantes.$ Ou$ seja,$ esses$ jovens$ mostravam$ um$ nítido$
interesse$ pelo$B$-J" que$ eclodia$ em$ território$ anglo-saxónico$ durante$ o$ período$
salazarista,$fosse$ através$ do$contacto$ com$a$ imprensa$especializada$ internacional$ou$
com$ discos$ trazidos$ do$ estrangeiro$ por$ terceiros.$ Portanto,$ eles$ já$ se$ encontravam$
instruídos$ relativamente$ aos$ progressos$ deste$ género$ musical$ no$ panorama$
internacional$ e$ começavam,$ também,$ a$ exteriorizar$ o$ seu$ fascínio$ por$ este$ género$
musical"nos$seus$estilos$de$vida$e$práticas$quotidianas,$como$podemos$ver$através$das$
entrevistas.$$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
98$$Ouviam-na, na maioria das vezes, às escondidas, uma vez que esta não era uma prática favorável, de
acordo com as normas impostas por este regime político ditatorial, que restringia as liberdades
individuais e coletivas através da imposição de valores patriotas (Alves, 2007).$
$
287$
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()*."*)"#B$-'/'2$(Nelson,$48$anos,$radialista,$Lisboa).$
A$terceira$fase$de$desvio$integra$o$processo$de$rotulação$de$que$estes$jovens$
eram$alvo$diariamente,$ainda$durante$o$período$do$Estado$Novo.$Por$outras$palavras,$
muitos$ destes$ jovens$ que$ começaram$ a$ exteriorizar$ visuais$ análogos$ aos$ dos$ seus$
ídolos$de$B$-J,"()*"/0'."através$de$revistas$ou$das$capas$de$discos,$começaram$a$ser$
desprezados$ pela$ sociedade$ portuguesa$ conservadora,$ como$ vimos$ nas$ entrevistas,$
acostumada$ aos$ seus$ hábitos$ convencionais$ e$ pouco$ aberta$ a$ transformações$ das$
normas$ sociais.$ Isto$ resultava,$ muitas$ vezes,$ na$ criação$ e$ disseminação$ de$ pânicos$
morais$acerca$da$cultura$B$-J"(Cohen,$2002).$
9D$"*B'"I*."$"#0K$"%*".f&0-',"*B'".'0&"$"/0&)'+,"K$B()*"$"1$&&$"
K'c&"*B'".)0#$"-$1&*B/'%$B"*"-'#X+0-$"*"'01%'"U$i*"&*"&*1#*"0&&$2"
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*B'"I*." '" .f&0-'," *B'" .'0&"'"0%*0'"%'"B)#)B'"/0&)'+,"%'"B)#)B'"
-$." $" K'%BD$2" =B'" '" .f&0-'" %$" %0'I$2$(Alberto,$ 58$ anos,$
radialista,$Porto).$
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*B'" -$1&0%*B'%$" )." freak"*" &*.KB*" W)0" U$&#0+0Z'%$2" !&" .01U'&"
KB0.*0B'&"B*'Cd*&"%$"KfI+0-$,"%0L'.$&"()*"W0()*0"+$L$"/'-01'%$,"
K$B()*"W$.$&".)0#$"U$&#0+0Z'%$&"*"*B'").'"'#0#)%*"%*"-$1WB$1#$"
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).'" -0%'%*" .)0#$" -$1&*B/'%$B'" 1*&&*" &*1#0%$," .)0#$"
-01Z*1#01U'" *" -*B#01U'2$(Rafael,$ 63$ anos,$ músico,$ Leça$ da$
Palmeira).$
$
288$
A$quarta$fase$corresponde$ao$processo$de$interiorização$do$desvio$e$à$criação$
de$uma$perceção$de$fracasso$perante$a$sociedade,$isto$é,$esses$jovens$acabam$por$se$
consciencializar$ de$ que$ eram$ julgados$ como$ desviantes$ e$ marginais.$ Esta$ fase$
corresponde$ao$período$de$pós-revolução$e$ao$início$da$década$de$oitenta,$quando$os$
jovens$ainda$estavam$a$digerir$a$queda$do$regime$autoritário$e$a$refletirem$sobre$as$
transformações$ sociais$ que$ daí$ decorreriam.$ Perante$ este$ tipo$ de$ situações$ de$
marginalização$ e$ incerteza,$ a$ música$ é$ um$ instrumento$ de$ auxílio$ emocional$ muito$
importante$para$os$entrevistados.$
9$"01c-0$,"*1#D$,"()'1%$"*B'".'0&"1$/$"*"*&#'/'"'"%*0n'B"-B*&-*B"
$"-'I*+$"W$0"U$BBc/*+,"K$B()*"*B'"1'"*&-$+',"*B'"1'"B)',".'&".'0&"
1).'"W'&*"010-0'+"*"1'"*&-$+'"S&"/*Z*&"'#E"K*+$&"KB$W*&&$B*&2"7'&,"
*&&'".'BL01'+0Z'CD$"'-'I$)"K$B".*"*.K)BB'B"'01%'".'0&"K'B'"$"
+'%$"%'".f&0-'".'0&"K*&'%',"K$B()*"%*K$0&"ib"*B'").'"()*&#D$"
%*".'B-'CD$"#*BB0#$B0'+2$(Rui,$40$anos,$músico,$Estoril).$
!-U$" ()*" '" .f&0-'" K'B'" .0." &*.KB*" W$0" .)0#$" 0.K$B#'1#*,"
&*.KB*" -$1&*L)0" *1-$1#B'B" K$1#$&" %*" -$1#'-#$2" †" .)0#$" Wb-0+"
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/0%'" *," K$B" 0&&$," '-U$" ()*" &*.KB*" #0/*" ).'" B*+'CD$" I$'" -$."'"
.f&0-'"*"&*.KB*"W*Z".)0#$"K'B#*"()'&*"%*")."KB$-*&&$"%*"-)B'"
*.$-0$1'+"$)"'#E"%*"-*+*IB'CD$"*.$-0$1'+2"(Henrique,$38$anos,$
músico,$Lisboa).$
Finalmente,$segue-se$a$ quinta$fase$proposta$ pelo$autor$que$ se$ prende$com$a$
aproximação$desses$indivíduos$a$grupos$estruturados$de$desviantes,$que$partilham$um$
mesmo$sentimento$de$exclusão.$Na$realidade$do$B$-J"português,$os$jovens$acabaram$
por$ se$ aproximar$ daqueles$ com$ quem$ partilhavam$ os$ mesmos$ interesses,$ práticas$ e$
estigmas,$ reorganizando$ as$ suas$ próprias$ identidades$ desviantes.$ Esta$ fase$
corresponde$à$época$do$I$$.$do$B$-J"português$e$tende$a$permanecer$até$aos$dias$de$
hoje.$ Segundo$ Martins$ (2019),$ este$ tipo$ de$ rotulações$ desviantes$ relativamente$ aos$
indivíduos$associadas$à$cena$B$-J"nacional$parece$continuar$a$ter$uma$presença$forte$
na$sociedade$portuguesa,$dificultando$e/ou$impossibilitando$o$dia-a-dia$social$destes$
indivíduos,$e$desvirtuando$as$suas$próprias$perceções$e$construções$identitárias.$Nas$
entrevistas$ pudemos$ encontrar$ múltiplas$ experiências$ que$ confirmam$ este$ tipo$ de$
pânicos$morais$na$nossa$sociedade$(Cohen,$2002).$$
$
289$
7'&," '()0" Ub" )1&" %*Z" '1$&" '#Bb&," &*" #0/*&&*&" )1&" IB01-$&" *"
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U$i*"*."%0'"#$%'"'"L*1#*"#*."K0*B-01L&,"#'#)'L*1&"*"'"*&#E#0-'"
%$" rock'n'roll"U$i*" *." %0'" E" K*BW*0#'.*1#*" '-*0#*2$ (Nelson,$ 48$
anos,$radialista,$Lisboa).$
=)" '$&" ?]" '1$&" '1%'/'" %*" -B0&#'" *" U'I0#)*0F.*" %*&%*" -*%$" '"
+0%'B" -$." 0&&$," .'&" *B'" U$BBc/*+," &*" &X" U'/0'" )." *&K'C$" 1$"
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*&#0+$"*"#*1U$"-$1W0'1C'"1$"()*"*&#$)"'")&'B2$(Tomé,$39$anos,$
DJ,$Lisboa).$
Em$ suma,$ os$ participantes$ da$ cena$ B$-J$ nacional$ também$ são$ alvo$ de$ um$
processo$ de$ homogeneização,$ que$ ignora$ a$ existência$ da$ diversidade$ das$ suas$
vivências$e$modos$de$vida$e$que$tende$a$designá-los$como$$)#&0%*B&$(Becker,$2008).$De$
facto,$ as$ identidades$ criadas$ por$ estes$ processos$ de$ estigmatização$ são,$
posteriormente,$determinantes$ para$as$ interações$sociais$ destes$ indivíduos$ao$ longo$
de$ toda$ a$ vida.$ Assim,$ do$ ponto$ de$ vista$ simbólico,$ como$ vimos,$ a$ associação$ entre$
música$ B$-J" e$ consumo$ de$ substâncias$ ilícitas$ reúne$ domínios$ de$ exclusão,$ e$ o$ B$-J$
assume-se$ no$ imaginário$ coletivo$ como$ um$ campo$ profícuo$ a$ uma$ maior$ prática$ e$
experimentação$ de$ comportamentos$ desviantes.$ Essa$ questão$ está,$ então,$
inextricavelmente$ ligada$ ao$ facto$ de$ a$ cristalização$ da$ imagem$ dos$ músicos$ de$ B$-J$
ser,$ muitas$ vezes,$ baseada$ em$ episódios$ negativos$ (como$ o$ não$ acatamento$ de$
normas$ das$ autoridades,$ por$ exemplo),$ levando$ à$ criação$ desses$ estigmas$ e$ pânicos$
morais$(Cohen,$2002)$e$aumentando$a$sua$rutura$entre$estabelecidos$e$$)#&0%*B&$(Elias$
&$Scotson,$2000).$
ZM@M!J+!s4906-%+!3%(*6+t!#!*+!(#4(#+#08*z‡#+!3#76C86-*+!
$
290$
De$ forma$ a$ tentar$ verificar$ o$ comportamento$ mediático$ português$ perante$ estas$
questões,$procedemos$a$uma$breve$análise$de$dois$órgãos$de$comunicação$nacionais$
entre$ as$ décadas$ de$ 1980$ e$ 1985:$ o$ Semanário$ =nKB*&&$,$ fundando$ em$ 1973,$ e$ o$
Semanário$>*G*,$fundado$em$1977$e$findado$em$1994.$O$primeiro$corresponde$a$um$
jornal$ generalista,$ mas$ com$ um$ suplemento$ cultural;$ o$ segundo$ a$ um$ jornal$
especializado$em$cultura.$A$escolha$do$período$selecionado$para$recolha$e$análise$da$
produção$mediática$deveu-se$à$identificação$com$a$época$do$I$$.$do$B$-J"português$
e$a$escolha$dos$órgãos$de$comunicação$ao$facto$de$ambos$serem$semanários99$$e$de$
ambos$serem,$também,$dois$dos$jornais$com$maior$número$de$tiragens$na$década$de$
oitenta$(Teles,$2001).$Note-se,$que$foram$apenas$selecionados$alguns$exemplos$dentro$
de$ cada$ secção$ e$ de$ cada$ ano.$ Importa$ realçar,$ ainda,$ que$ ao$ longo$ dos$ capítulos$
anteriores$ já$ foram$ apresentados$ alguns$ exemplos$ desta$ recolha,$ pelo$ que$ esses$ já$
utilizados$não$constarão$neste$ponto.$
Como$ veremos$ nesta$ análise,$ para$ o$ semanário$ =nKB*&&$$ não$ é$ dado$ um$
destaque$ significativo$ a$ assuntos$ relacionados$ com$ as$ artes$ e$ com$ a$ cultura,$
particularmente$ com$ a$ música.$ Porém,$ esse$ enfoque$ é$ colmatado$ pela$ revista$ que$
acompanhava$cada$edição$do$jornal.$De$uma$maneira$geral,$dentro$dos$assuntos$para$
nós$pertinentes,$o$jornal$focava-se$em$apresentar$estas$questões$partindo$sempre$de$
uma$perspetiva$política$e/ou$económica,$ou$seja,$abordava$questões$relacionadas$com$
o$ narcotráfico,$ com$ as$ leis$ do$ consumo$ de$ estupefacientes,$ com$ as$ políticas$ de$
fiscalização$do$álcool$e$do$tabaco,$com$a$regulamentação$do$acesso$ao$planeamento$
familiar,$ com$ a$ educação$ sexual,$ entre$ outras,$ como$ veremos.$ Portanto,$ a$ música$ é$
quase$ exclusivamente$ tratada$ nas$ páginas$ da$ revista,$ assim$ como$ outros$ tópicos$
relevantes$ e$ menos$ burocráticos$ sobre$ os$ assuntos$ em$ questão.$ Neste$ sentido,$ foi$
feita$ uma$ separação$ dos$ conteúdos$ pertinentes$ pelas$ seguintes$ secções$ temáticas:$
>)I&#T1-0'&$ (conteúdo$ referente$ a$ substâncias$ legais$ e$ ilegais),$ >*n$$ (conteúdo$ que$
envolva$ comportamentos$ e$ práticas$ de$ natureza$ sexual$ e$ afetiva)$ e$ 3$-J" (conteúdo$
sobre$música$B$-J).$$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
99$$Logo, o número de edições é menor, de forma a facilitar o tempo de recolha e análise.$
$
291$
Por$outro$lado,$o$>*G*,$tratando-se$de$um$órgão$de$comunicação$especializado$
em$artes$e$cultura,$dedica$uma$atenção$maior$a$estes$temas$e$à$sua$relação$entre$si$
(sexo,$drogas$&$B$-J),$como$veremos$a$seguir.$E$apresenta,$ainda,$um$enfoque$intenso$
sobre$o$B$-J,$especialmente$o$B$-J$português,$que$nos$interessa$particularmente$para$
esta$ investigação.$ Portanto,$ a$ análise$ dos$ conteúdos$ mediáticos$ do$ semanário$ >*G*"
assenta$ numa$ tipologia$ de$ organização$ relativamente$ distinta$ do$ jornal$ anterior.$
Assim,$em$virtude$da$abundância$de$conteúdos$sobre$B$-J,$optamos$por$distingui-los$
entre$3$-J"9'-0$1'+$e$3$-J"<1#*B1'-0$1'+$e$as$restantes$matérias$associadas$ao$>*n$$e$
às$>)I&#T1-0'&$-$que$se$revelaram$pouco$significativas$nos$conteúdos$publicados$pelo$
jornal$-$encontram-se$agregadas$numa$mesma$secção.$
É$ de$ salientar,$ finalmente,$ que$ a$ recolha$ foi$ feita$ em$ dois$ espaços$ físicos$
distintos:$na$Biblioteca$Pública$Municipal$do$Porto$e$na$Biblioteca$Pública$de$Braga,$e$
que$se$verificaram$ausências$de$conteúdo$e/ou$páginas$em$algumas$edições$de$ambos$
os$semanários.$Uma$última$nota$prende-se$com$a$qualidade$fotográfica$dos$conteúdos$
recolhidos,$ uma$ vez$ que$ as$ encadernações$ de$ ambos$ os$ órgãos$ de$ comunicação$
dificultaram$uma$captação$fotográfica$clara$e$consistente$das$peças$informativas.$
ZM@M;M!J+!s*((%…*7%+t!*0%+!;<R>!
ZM@M;M;M!"%~(#!+5~+890-6*+!4+6-%*86e*+!#!+#$%!
Ao$olharmos$para$o$conteúdo$publicado$pelo$=nKB*&&$,$quer$no$jornal$quer$na$revista,$
relativamente$à$secção$das">)I&#T1-0'&$no$ano$de$1980$no$nosso$país,$de$uma$forma$
geral,$ apercebemo-nos,$ rapidamente,$ de$ uma$ preocupação$ social$ e$ política,$
relativamente$ao$tráfico$de$droga,$e$menos$ao$seu$consumo.$Neste$âmbito,$podemos$
observar$a$partir$da$Figura$7.1.$a),$que$é$dado$um$enfoque$especial$ao$envolvimento$
alegadamente$corrupto$da$Polícia$Judiciária$no$tráfico$de$estupefacientes,$uma$vez$que$
“(...)$ as$ entidades$ internacionais$ responsáveis$ pelo$ combate$ ao$ abuso$ de$
estupefacientes$classificam$Portugal$como$a$zona$de$trânsito$de$drogas$que$substituiu$
Marselha”$(s/a,$1980:$capa).$$
$
292$
No$que$diz$respeito$às$substâncias$legais$como$o$tabaco$e$o$álcool,$começam$a$
ser$ visíveis$ algumas$ preocupações$ relacionadas$ com$ os$ seus$ efeitos$ para$ a$ saúde,$
nomeadamente$ resultantes$ do$ consumo$ excessivo$ destas$ substâncias$ por$ parte$ da$
população$portuguesa.$Relativamente$ao$tabaco,$além$das$consequências$nocivas$para$
a$saúde$já$conhecidas,$(...)$descreveram-se$recentemente$duas$novas$situações,$aliás$
de$ extraordinária$ gravidade,$ que$ alargam$ a$ já$ comprida$ lista$ dos$ “malefícios$ do$
tabaco”’$ (s/a,$ 1980:$ 13).$ De$ facto,$ este$ exemplo$ procura$ chocar,$ de$ certa$ forma,$ os$
leitores$do$jornal,$ numa$tentativa$de$ promover$consumos$mais$ conscientes$e$alertá-
los,$ igualmente,$ para$ os$ possíveis$ resultados$ destas$ práticas$ para$ a$ saúde,$ como$
podemos$observar$na$Figura$7.1.$b).$
!
!
U6)5(*!ZM;M!*B!E%((54z{%!0*!…576-6C(6*u!~B!G607*!#!+#34(#MMM%!8*~*-%!
!
Fonte:$=nKB*&&$,$23$de$fevereiro$de$1980.$$$$$$$$$$$$$$Fonte:$=nKB*&&$$(revista),$12$de$abril$de$1980.$
$
Na$ secção$ >*n$$ começa$ a$ observar-se$ neste$ ano$ algum$ avanço$ nas$ mentalidades,$
impulsionado$pelos$novos$ideais$revolucionários$e$liberais$celebrados$pelo$>)..*B"$W"
\$/*$da$década$de$sessenta,$assim$como$pelo$derrube$do$Estado$Novo$em$Portugal.$
Esta$realidade$é-nos,$também,$confirmada$pelas$entrevistas:$
^0/*"'"&$B#*"%*"$"01c-0$"%'".01U'"&*n)'+0%'%*"&*"#*B"%'%$"1).'"
%E-'%'" *." ()*" 'K'B*-*B'." .)0#'&" -$0&'&" 1$/'&" *" ()*"
()*IB'B'." .)0#$&" #'I)&" *" KB*-$1-*0#$&," ()*" W$0" '" %E-'%'" %*"
$0#*1#'2"€b"#01U'"&0%$").'"W'&*"%*"+0I*B#'CD$"&*n)'+"'"%E-'%'"%*"
&*#*1#'"'+0"1$"W01'+,".'&"'01%'")."I$-'%01U$"-$1&*B/'%$B,".'&"
1$&"'1$&"$0#*1#'"*B'").'"-$0&'"1$B.'+"1X&"0B.$&"K'B'"$"p'0BB$"
$
293$
!+#$" K'B'" $" YBbL0+," -$1/0/*B" -$." #$%'" '" L*1#*" *" 101L)E." *&#'B"
.)0#$"KB*$-)K'%$"-$."'"-$B"$)"-$."$"LE1*B$"&*n)'+,"&*"-'+U'B"
W$0"'"KB0.*0B'"L*B'CD$"%*"\0&I$'"()*"-$1/0/*)"I*."-$."0&&$2"!&"
1$&&'&" B*W*BM1-0'&" ib" 1D$" *B'." &X" K$B#)L)*&'&," *B'."
01#*B1'-0$1'0&2$(Manuel,$52$anos,$músico,$Cascais).$
=1#D$,"'-U$"()*"1$&"'1$&"$0#*1#',"%*"'+L).'"W$B.',"$"&*n$"*B'"
+*/'%$" K'B'" '" -$1#*&#'CD$" )." I$-'%01U$," K$B#'1#$," *B'" ).'"
'#0#)%*".)0#$"+0/B*2":*K$0&,"'"-$0&'"-$.*C'"'"'IB'1%'B,".'&"&$)"
*)" ()*" -$.*C$" '" #*B" )." K*B-)B&$" %0W*B*1#*," '" #*B" )." K'B-*0B$"
W0n$,"'"#*B"W0+U$&222".'&"'#E"+b,"&0.,"c'.$&"#$%$&"K'B'"$"U$#*+"1$"
W0." %$&" -$1-*B#$&" *" *B'" 1$B.'+" W'ZMF+$" *1#B*" -$+*L'&" $)"
'&&0&#*1#*&2$(Amélia,$55$anos,$música,$Porto).$
$
Neste$ sentido,$ verificámos$ que$ começam$ a$ ser$ agora$ questionados$ valores$
outrora$remotamente$discutíveis$num$órgão$de$comunicação$desta$natureza,$como$é$o$
caso$ do$ casamento,$ “agora$ que$ muitos$ pretendem$ promover$ a$ união$ de$ facto$ a$
matrimónio”$(s/a,$1980:$12).,$numa$época$em$que$o$divórcio$já$se$havia$tornado$numa$
prática$cada$vez$mais$recorrente,$como$nos$confirma$informação$que$consta$na$Figura$
7.2.a)$ Ainda$ nesta$ secção$ do$ >*n$,$ verificamos$ que$ Portugal$ começa$ a$ adotar$ um$
caminho$ cada$ vez$ mais$ no$ sentido$ da$ trivialização$ do$ sexo$ ou$ da$ já$ mencionada$
sexualização$da$cultura$(Pinto,$Nogueira$&$Oliveira,$2010),$na$medida$em$que$assuntos$
e$produtos$de$teor$sexual$são$agora$abordados$publicamente$e$têm$o$seu$acesso$mais$
facilitado.$ Neste$ contexto,$ na$ Figura$ 7.2.b)$ encontramos$ publicidade$ a$ duas$ edições$
literárias:$um$ensaio$sobre$arte$erótica$“com$41$fotografias$a$cores$e$400$fotografias$a$
preto$e$branco”$(s/a,$1980:$22)$e$um$manual$de$terapia$sexual,$que$oferece$“a$resposta$
científica$ aos$ diferentes$ problemas$ sexuais$ do$ homem$ e$ da$ mulher”$ (s/a,$ 1980:$ 22).$
Note-se,$ que$ os$ anúncios$ contêm$ um$ vale$ destacável$ para$ a$ sua$ compra$ através$ de$
correio$postal,$talvez$para$facilitar$aos$leitores$a$sua$aquisição,$sem$que$seja$necessário$
fazê-la$presencialmente$e$em$público.$
$
$
294$
U6)5(*! ZM@M! *B! G! 7#+e*1%(6•*z{%! 7%! e|0-51%! 3*8(63%06*1! 0%! '6(#68%! W%(85)5•+!~B! L{%! 7#6$#! ƒ5#! +#!
#+)%8#3v!D0-%3#07#!f%…#!3#+3%!%+!„1863%+!#$#341*(#+!
$
$
Fonte:$=nKB*&&$,$1$de$novembro$de$1980.$ $ $$$$$$$$$$Fonte:$=nKB*&&$,$16$de$fevereiro$de$1980.$
$
Relativamente$à$secção$>*n$"o">)I&#T1-0'&$do$semanário$>*G*,$a$dimensão$de$
conteúdo$ sobre$ estas$ temáticas$ encontrada$ durante$ este$ ano$ não$ é$ significativa.$
Contudo,$ destacamos$ o$ artigo$ acerca$ dos$ ^U*" 3$++01L" >#$1*&$ apresentado$ na$ Figura$
7.3.a),$que$realça$o$percurso$desviante$(Goffman,$1982)$da$banda$e$a$sua$vida$“toda$
desenrolada$no$cume$da$transgressão,$do$excesso$e$de$uma$espetacularidade$sagaz”$
(s/a,$1980:$11),$relatando$ que$“quando$toda$a$ gente$se$começou$a$ viciar$na$cocaína$
tiveram$ necessidade$ de$ encontrar$ qualquer$ coisa$ nova”$ (s/a,$ 1980:$ 11).$$
Aqui,$ ao$ referir-se$ à$ banda,$ o$ >*G*$recorre$ a$ narrativas$ culturais,$ que$ refletem$ as$
suposições$ culturais$ mais$ amplas$ sobre$ os$ músicos$ de$ B$-J$ em$ geral$ e$ facilitam$ a$
disseminação$deste$tipo$de$identidades$(Copes,$Hochstetler$&$Williams,$2008;$Copes,$
2016).$
Encontramos,$também,$um$anúncio$publicitário$a$tabaco,$num$período$em$que$
as$campanhas$contra$o$abuso$desta$substância$ainda$não$tinham$entrado$legalmente$
em$ vigor.$ No$ entanto,$ também$ aqui$ é$ visível$ uma$ preocupação$ acerca$ dos$ efeitos$
nocivos$desta$substância$para$a$saúde,$nomeadamente$a$através$de$um$novo$cigarro$
com$ “(...)$ baixo$ teor$ de$ alcatrão$ e$ menos$ nicotina”$ (s/a,$ 1980:$ 21).$ Finalmente,$ foi$
possível$verificar$que$este$jornal,$em$praticamente$todas$as$suas$edições,$possuía$uma$
página$dedicada$ao$erotismo$masculino,$particularmente$através$da$apresentação$de$
$
295$
fotografias$de$mulheres$famosas,$muitas$vezes$com$os$seios$à$vista$como$podemos$ver$
na$Figura$7.4.a).$Ainda$sobre$este$último$tópico,$o$jornal$publicou$também$uma$notícia$
acerca$da$eleição$da$Miss$Europa$nua,$que$decorreu$(...)$em$ambiente$devidamente$
climatizado$(...)$num$-'I'B*#$parisiense”$(s/a,$1980:$12),$vejamos$a$Figura$7.4.b).$Mais$
uma$ vez,$ as$ entrevistas$ confirmam$ uma$ transformação$ que$ decorreu$ nos$ percursos$
sexuais$e$afetivos$em$Portugal,$especialmente$no$papel$da$mulher.$
4" &*n$" *." V$B#)L'+," 1'" '+#)B'," *B'" ).'" -$0&'" -$.K+*n'," U'/0'"
KB$&#0#)0CD$" $)" U'/0'" -'&'.*1#$2" 4" ()*" '-$1#*-*)" -$.0L$" W$0"
()*"*)"&'c"%$"K'c&".)0#$"-*%$,"-$."?R"'1$&"*"'&"+$0B'&"L$&#'/'."
%*".0."1'"'+#)B',"$)"&*i',"'".01U'"B*+'CD$"-$."'&".)+U*B*&"E"
.)0#$" 01#*B*&&'1#*2" =)" #0/*" *&&'&" *nK*B0M1-0'&" %*" 0B" K'B'" W$B',"
K'B'" '" _$+'1%'," K'B'" '" >)cC'," K'B'" '" !+*.'1U'," K'B'" '"
Y01+T1%0',"K'B'"'"9$B)*L',"K'B'"'":01'.'B-'222$1%*,"ib"1'"'+#)B'"
e'1$&" &*#*1#'g," '&" .)+U*B*&" #01U'." #$#'+" ')#$1$.0'2" =."
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K'&&b/'.$&" ).'" 1$0#*," 1$" %0'" &*L)01#*" -'%'" )." 0'" K'B'" &*)"
+'%$,"1D$"U'/0'"-)+K'2"V$B#)L'+,"1'"'+#)B',"*B'")."%*&*B#$,".'&"$"
K'K*+" %'" .)+U*B" '+#*B'F&*" 1$&" '1$&" $0#*1#'2$(Alberto,$ 58$ anos,$
radialista,$Porto).$
>0.," W$B'." .$.*1#$&".)0#$"'L0#'%$&," K$&&$" %0Z*B"()*")."%$&"
.*)&"K$*#'&"KB*W*B0%$&"%*1#B$"%$"K$K"B$-J,"%0Z0',"K$B"*n*.K+$,"
1$&"'1$&"$0#*1#'"sex$was$like$a$hand$shake$between$friends,"1'"
.*%0%'" *." ()*" U'/0'" '+0" ).'" -*B#'" B*+'CD$" %*" KB$.0&-)0%'%*,"
()*"ib"-$.*C$)"1$&"'1$&"&*#*1#'2$(Rafael,$63$anos,$músico,$Leça$
da$Palmeira).$
!
$$
$
296$
U6)5(*!ZMXM!P6-.!Y*))#(&!%+!"8%0#+&!*!4%1|86-*!#!*!7(%)*!~B!W%(85)5•+!+5*e#^!@w!)#(*z{%!
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Fonte:$>*G*,$26$de$março$de$1980.$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$ $ $$Fonte:$>*G*,$26$de$novembro$de$1980.!
!
U6)5(*!ZM`M!*B!"h}0#!,%3#^!*!~#1*!*3#(6-*0*!76•!*7#5+!‚!D5(%4*!~B!D1#6z{%!7#!sP6++t!D5(%4*!L5*!
!
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Fonte:$>*G*,$10$de$dezembro$de$1980.$ $ $$$$Fonte:$>*G*,$17$de$dezembro$de$1980.$
!
ZM@M;M@M!"%~(#!%!rock!
$
Relativamente$ ao$ 3$-J,$ no$ =nKB*&&$$ são$ mencionados$ vários$ intervenientes$ deste$
género$musical,$nomeadamente$através$de$referências$a$lançamentos$de$discos$e/ou$
concertos.$Entre$estes$destacamos$o$disco$=/*Bl$1*"-'1"B$-J"o"B$++$de$Bill$Halley$a$ser$
$
297$
lançado$no$final$do$ mês,$ como$nos$mostra$a$Figura$ 7.5.a).$Neste$artigo,$Bill$Halley$ é$
retratado$ como$ o$ autor$ de$ um$ tema$ “(...)$ símbolo$ de$ uma$ geração$ musical$ –$ “a$ do$
B$-J[1[B$++””$ cujas$ “estradas$ (...)$ viraram$ atalhos$ difíceis$ para$ a$ maioria$ e$ abismos$
inevitáveis$ para$ alguns”$ (s/a,$ 1980:$ 21).$ Neste$ ponto,$ o$ jornal$ realça$ novamente$ a$
carreira$de$excessos$associados$a$este$género$musical$(Goffman,$1982).$$
Um$outro$exemplo$relevante$nesta$secção$está$na$Figura$7.5.b),$que$expõe$um$
artigo$acerca$de$três$intérpretes$femininas$de$B$-J$–$Rickie$Lee$Jones,$Annette$Peacock$
e$Geyna$Ravan$-,$que$põem$em$causa$a$supremacia$masculina$neste$género$musical.$
Este$ artigo$ faz,$ ainda,$ alusão$ a$ Janis$ Joplin$ “(...)$ ironicamente$ aquela$ que$ a$ morte$
tornou$primeira$vítima$entre$as$grandes$figuras$femininas$do$B$-J”$(Pyrrait,$1980:$27).$
Novamente,$o$=nKB*&&$$faz$referência$aos$percursos$de$excesso$de$algumas$B$-J"&#'B&,$
que$ terminaram$ de$ forma$ trágica.$ Também$ a$ partir$ do$ inquérito$ apuramos,$ que$ há$
uma$tendência$para$associar$muitas$mortes$de$músicos$de$B$-J"ao$consumo$excessivo$
de$ drogas100.$ De$ uma$ forma$ geral,$ as$ descrições$ feitas$ dos$ músicos$ deste$ género$
retratam$ e$ permitem$ construir$ representações$ discriminatórias$ assentes$ em$
sentimentos$ e$ atitudes$ de$ rebeldia,$ perversão,$ liberdade$ ou$ visceralidade,$ que$
colocam$ o$ B$-J$ numa$ posição$ de$ %*/0+[&" .)&0-$ (Guerra$ &$ Quintela,$ 2018:$ 8).$
Historicamente,$este$período$temporal$ficou,$também$em$Portugal,$associado$a$algum$
descontrolo$nas$práticas$de$consumo$inerentes$à$cena$B$-J:$
:*K$0&," -$." $" %*&K*B#'B" %$" K)1J" *." V$B#)L'+" *" -$." $"
'K'B*-0.*1#$"%*"LB)K$&"-$.$"$&"8_Y,"$&"‚)#$&"*"V$1#'KE&"$)"$&"
!()0":y*+"3$-J"ib"1'"%E-'%'"%*"$0#*1#',"'-U$"()*"'0"'-'I$)"K$B"
&*B" .)0#$" .'0&" %*#*B.01'1#*" '" U0&#XB0'" %$" s&*n$," %B$L'&" *"
rock'n'rolls,"*."()*"$&"/bB0$&".$/0.*1#$&"B$-J"&*"i)1#'."#$%$&"*"
-$.*C'." '" '&&01'B" -$1#B'#$&" *" '" '#01L0B" )." LB'1%*" &)-*&&$"
-$.*B-0'+2" =" #0/*.$&" '+L)1&" .f&0-$&" %*" B$-J" '$" +$1L$" %'&"
%E-'%'&," ()*" W$B'." /c#0.'&" %*" $/*B%$&*&" $)" %*" '+L).'&"
/0/M1-0'&" +0L'%'&" '" *n-*&&$&" %*" %B$L'2$(Jorge,$ 40$ anos,$
historiador,$Lisboa)$
$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
100$$Dos 383 inquiridos, 172 concordaram com que “muitas das mortes de músicos de
rock
deveram-se ao
consumo excessivo de rogas”, 42 concordaram totalmente, 37 discordaram, 10 discordaram totalmente e
122 não concordaram nem discordaram.$
$
298$
U6)5(*!ZMAM!*B!Bill%Halley:%o%regresso%do!s(%-.#(t!*%+!AA!*0%+!~B!,%-.%que%vibra%no%feminino!
$
Fonte:$=nKB*&&$,$15$de$março$de$1980.$$$$Fonte:$=nKB*&&$,$15$de$março$de$1980.$
!
No$>*G*,$na$secção$3$-J"9'-0$1'+$destacamos$o$artigo$da$Figura$7.6.a)$acerca$
de$um$dos$programas$radiofónicos$mais$célebres$focado$neste$ tipo$ de$música,$o$=."
4BI0#',$ da$ Rádio$ Comercial,$ que$ celebrava$ 15$ anos$ de$ existência.$ Através$ deste$
programa,$“músicos$e$intérpretes,$até$então$quase$desconhecidos$entre$nós,$surgiam$
pela$primeira$vez$na$telefonia”$o$que$“significou$uma$autêntica$revolução,$não$só$em$
termos$musicais,$mas$também$no$que$respeita$à$linguagem$radiofónica”$(s/a,$1980:$2).$
Encontrámos$ também,$ uma$ notícia$ relevante$ presente$ na$ Figura$ 7.6.b)$ a$ anunciar$ a$
abertura$do$lendário$3$-J"3*1%*ZF;$)&,$que$se$assumia$como$“um$novo$“espaço”$para$
se$ ouvir$ B$-J$ ao$ vivo,$ beber$ um$ copo$ e$ dar$ duas$ de$ conversa”$ (s/a,$ 1980:$ 12).$ Este$
espaço,$que$marcou$a$história$do$B$-J$português,$foi$também$crucial$para$os$percursos$
individuais$ dos$ entrevistados,$ quer$ no$ acesso$ a$ concertos,$ quer$ como$ palco$ para$ a$
disseminação$dos$seus$próprios$projetos$musicais.$
=)"'1%*0"1'":2"V*%B$";,"'1#*&"%*"0B"K'B'"'"!1#X10$"!BB$0$"*"1$"
KB01-cK0$"%$&"'1$&"$0#*1#'"'IB0)"$"3$-J"3*1%*ZF;$)&"e'$"+'%$"%$"
:2" V*%B$" ;g" *" '" K'B#0B" %'c" -$.*-*0" '" K'B'" +b" -$." .'0&" )1&"
'.0L$&2" 7'0&" #'B%*," K'B#0-0K'.$&" 1$" -$1-)B&$" %*" .f&0-'"
.$%*B1'"-$."$&"e222g2$(Tadeu,$52$anos,$músico,$Seixal).$
$
$
299$
V$B" '-'&$," 1$" KB0.*0B$" -$1-*B#$" %$&" e222g," *&#'/'" #$%'" '" L*1#*"
.)0#$"1*B/$&',"K$B()*"'01%'"K$B"-0.'"1X&" '01%'"1D$"#c1U'.$&"
K*1&'%$"I*."1$"'&&)1#$"*"$"3$-J"3*1%*ZF;$)&"#01U'".'B-'%$"$"
1$&&$" KB0.*0B$" -$1-*B#$" K'B'" $" %0'" H@" %*" 1$/*.IB$," $" %0&-$"
#01U'"&'c%$"*."&*#*.IB$2"(Ricardo,$55$anos,$músico,$Lisboa).$
$
U6)5(*!ZM=M!*B!sD3!J(~68*t!fC!;A!*0%+^!'%•#!f%(*+!+#3*0*6+!7#!,C76%!76(6)67*+!*!s53!%5e608#!67#*1t!~B!
t,%-.!,#07#•?V%5+t!-%3!3„+6-*!*%!e6e%!
$
Fonte:$>*G*,$16$de$julho$de$1980.$ $ $ $$$$$$$$$$$$$$$Fonte:$ >*G*,$ 17$ de$ dezembro$ de$ 1980.
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
Já$na$secção$3$-J"<1#*B1'-0$1'+,$encontrámos$não$só$conteúdos$referentes$ao$
percurso$ e$ ao$ lançamento$ de$ discos$ de$ artistas$ e/ou$ bandas$ do$ panorama$ B$-J"
mundial,$mas$também$artigos$que$versam$sobre$concertos$a$realizar$ou$já$realizados$
no$nosso$país.$Contudo,$consideramos$pertinente$destacar$na$Figura$7.7.a)$uma$capa$
que$contém$Jimi$Hendrix$em$celebração$dos$dez$anos$da$sua$morte,$retratado$por$este$
jornal$ como$ “um$ guitarrista$ rebelde$ e$ violento,$ terno$ e$ sensual”,$ que$ morrera$ de$
overdose$“quando$já$não$conseguia$libertar-se$da$dependência$de$drogas$fortes,$a$que$
fora$forçado$pelas$circunstâncias”$(s/a,$1980:$2).$Este$tipo$de$abordagens$revelam$um$
estigma$associado$ao$epítome$&*n$,"%B$L'&"*"B$-J[1[B$++,$na$medida$em$que$tendem$a$
reforçar$ao$longo$dos$seus$textos$situações,$sentimentos$e/ou$características$negativas$
de$artistas$ou$bandas,$como$vimos$(Champagne,$1993).$$
Ainda$ na$ Figura$ 7.7.b)$ temos$ outra$ capa,$ esta$ sobre$ o$ lançamento$ do$ novo$
álbum$ dos$ ^U*" 3$++01L" >#$1*&,$ “o$ grupo$ B$-J$ com$ o$ qual$ principiou$ o$ culto$ pela$
$
300$
violência$ musical”$ (s/a,$ 1980:$ 10),$ associando$ aqui,$ mais$ uma$ vez,$ a$ música" B$-J$ a$
intensidade$ e$ excessos,$ ao$ mesmo$ tempo$ que$ reforça$ o$ seu$ papel$ mediático$ nos$
processos$ de$ fabricação$ de$ representações$ sociais$ (Campos,$ 2010).$
Consequentemente,$este$tipo$de$abordagem,$ao$realçar$atributos$que$se$desviam$das$
normas$ sociais,$ acabam,$ inevitavelmente,$ por$ promover$ a$ construção$ de$
representações$sociais$ estereotipadas$ acerca$ da$ cultura$B$-J" (Sallas$ &$ Bega,$ 2006)$ e$
isto$ repercute-se,$ necessariamente,$ no$ processo$ de$ construção$ identitária$ dos$
intervenientes$deste$género$musical$(Abramovay$*#"'+,$1999).$Neste$âmbito,$também$
as$entrevistas$confirmam$o$historial$de$excessos$de$algumas$B$-J"&#'B&$internacionais.$
$
=)"'-U$"E"()*"$"B$-J"K$%*"&*B"'"%B$L'"*"()*"B*.*#*"'")."+'%$"%*"
KB0.0#0/0&.$," '" )." +'%$" -'B1'+," '10.'+," .'&" K$&0#0/$2" 7'&," Ub"
.f&0-$&"-$.$"$"6*0#U"30-U'B%&,"()*"'1%'/'"S"U*B$c1'"*"-$-'c1'"
*" 1'" '+#)B'" *B'" .)0#$" .'0&" /)+L'B," #$%'" '" L*1#*" )&'/'" *" *."
V$B#)L'+"E")."I$-'%$"-$.$"1$&"$)#B$&"K'c&*&"*"W$0"'-$1#*-*1%$2$
(Tomé,$39$anos,$DJ,$Lisboa).$
!-U$" ()*" Ub" .)0#$" K$)-'" L*1#*" ()*" K$&&'" /0/*B" -$." *&&*"
*Kc#$.*,"$"6*0#U"30-U'B%&"E").,"$"}E"V*%B$"*B'"$)#B$,"%*"B*&#$,"'"
.'0$B" K'B#*" %'" .'+#'," E" ).'" .'+#'" .'0&" #B'1()0+'2" =)" *B'" )."
.0f%$" 1$&" '1$&" &*#*1#'" *" '()*+*&" *n-*&&$&" #$%$&" %$&" '1$&"
&*#*1#'"%$"p$m0*,"%$"<LLl" V$K"*"%'()*+'"L*1#*"#$%',"'-U$" ()*"
0&&$" ib" 1D$" *n0&#*," KB$KB0'.*1#*," U$i*" *." %0'" ib" 1D$" &*" W'Z*."
K*&&$'&"-$."'()*+'"W0IB',"%*" #$.'B*." '()*+'&" %B$L'&" #$%'&" *"
-$1#01)'B" '&" -$0&'&" ()*" #01U'." %*" W'Z*B2$(Ricardo,$55$ anos,$
músico,$Lisboa).$
!
!!
$
301$
U6)5(*! ZMZM! *B! Y636! K#07(6$^! G! 7€-*7*! 7#! 53! 368%!~B! '#4%6+! 7*! 3%(8#! 7#! P*%^! ,%1160)! "8%0#+!
(#)(#++*3!-%3!0#)†-6%!7*!Ef60*!
$
$
$
$
$
$
$
!
Fonte:$>*G*,$17$de$setembro$de$1980.$ $ $$$$$$$$$$$$$Fonte:$>*G*,$26$de$março$de$1980.$
$
$Em$suma,$ambos$os$semanários$refletem$algumas$transformações$de$hábitos,$
mentalidades$ e$ comportamentos,$ que$ começam$ a$ ser$ visíveis$ a$ partir$ da$ década$ de$
oitenta$em$Portugal.$Segue-se$um$esquema$síntese$deste$ano.$
!
!!!!!!!!!!!!!U6)5(*!ZMRM!"6+8#3*86•*z{%!7*+!8#3C86-*+!*~%(7*7*+!0%+!3€76*!
$
$
D_W,D""J!
!"5~+890-6*+!
$Preocupão$social$e$política$relativamente$
ao$tráfico$de$drogas$
$Precoupão$com$os$efeitos$do$tabaco$e$do$
álcool$para$a$sde$
!"#$%!
$Debate$público$de$novas$queses,$tais$
como$o$valor$do$matrimónio,$as$uniões$de$
facto$e$o$divórcio$
$Acesso$mais$facilitado$a$produtos$culturais$
de$teor$sexual$
"DZD!
!"#$%!#!+5~+890-6*+!
$Percurso$de$excessos$dos$The$Rolling$Stones$
$Preocupão$com$os$efeitos$nocivos$do$
tabaco$
$Presença$de$uma$rubrica$erótica$
$Destaque$para$nocias$de$teor$erótico$
$
302$
$$$$$$$$Fonte:$Autora.$
$
ZM@M@M!;<R;!#!*!*+-#0+{%!7%!boom!7%!rock%4%(85)5•+!
$
ZM@M@M;M"%~(#!+5~+890-6*+!4+6-%*86e*+!#!+#$%!
$
No$ano$de$1981,$novamente$na$secção$>)I&#T1-0'&,$continua$a$verificar-se$no$=nKB*&&$$
uma$grande$atenção$ao$empenho$policial$no$combate$ao$tráfico$de$drogas$no$nosso$
país,$e$é$relatada$a$primeira$detenção$(ver$Figura$7.9.a))$de$uma$rede$de$drogas$duras,$
constituída$ exclusivamente$ por$ cidadãos$ de$ nacionalidade$ portuguesa,$ “depois$ da$
apreensão$de$cerca$de$45$mil$contos$de$heroína”$onde$“foram$detetadas$ligações$com$
elementos$suíços”$(s/a,$1981:$10).$É,$portanto,$bastante$notória$a$preocupação$$face$ao$
crescente$ tráfico$ de$ estupefacientes$ no$ nosso$ país.$ Verifica-se,$ também,$ alguma$
indignação$relativamente$aos$benefícios$financeiros$do$tabaco$para$o$Estado,$uma$das$
indústrias$ mais$ rentáveis$ à$ data,$ realçando-se$ a$ sua$ função$ social$ e$ lúdica,$
particularmente$importante$para$os$jovens$que$o$fazem$“motivados$por$um$espírito$de$
aventura$ que,$ supõem,$ levará$ à$ descoberta$ de$ novas$ sensações”$ (Matos,$ 1981:$ 7),$
como$ vemos$ na$ Figura$ 7.9.b).$ Alguns$ entrevistados$ confirmam$ esta$função$ social$ do$
tabaco,$ que$ inicialmente$ não$ aparentava$ constituir$ um$ perigo$ substancial$ para$ a$
saúde,$quando$comparado$a$outras$substâncias.$
D_W,D""J!
!Rock%
$Destaque$para$o$novo$disco$de$Bill$Halley$
$Percurso$de$excessos$de$Janis$Joplin$
"DZD!
!Rock!L*-6%0*1!
$Aniversário$do$programa$radiofónico$"Em$
Órbita"$
$Abertura$do$Rock$Rendez-Vous$
%Rock%O08#(0*-6%0*1!
$Percurso$de$excessos$de$Jimi$Hendrix$
$Percurso$de$excessos$dos$The$Rolling$
Stones$
$
303$
!"K0$B"()*".*"K'&&$)"K*+'&".D$&"W$B'."$&"-0L'BB$&"*"'"10-$#01'"
*"*&&'"W$0"%0Wc-0+,"K$B()*"*)"1D$"#01U'"101L)E."1'".01U'"L*B'CD$,"
1'()*+'" '+#)B'" 1D$" &*" W'+'/'" 1$&" .'+*Wc-0$&" %$" #'I'-$" *" *)"
W).'/'," $" .*)" K'0" W).'/',"$" .*)" '/t" W).'/'," '" .01U'" .D*"
W).'/',"#$%'"'"L*1#*"W).'/'"+b"*."-'&'"*,"K$B#'1#$,"*)"W).'/'"
#'.IE.,"-$.*-*0"'"W).'B" -$." ?@" '1$&2"5$.*-*0"%*/'L'B01U$,"
-$.$" #$%'" '" L*1#*," '" W).'B" K$)-$," '$&" /01#*" ib" W).'/'"
I'&#'1#*," K$B()*" ib" *B'" .f&0-$," ib" *&#'/'" 1$" {)'B#*#$" ????,"
W).'/'"'c"%$0&".'C$&"%*"-0L'BB$&"*"'"K'B#0B"%$".$.*1#$"*."()*"
B*LB*&&*0"%*"\$1%B*&,"-$.*-*0"'"W).'B"#BM&".'C$&,"K$B()*"W'Z0'"
1$0#'%'&"'#E"S&"-01-$z&*0&"%'".'1UD".*#0%$"1)."*&#f%0$2$(Tiago,$
66$anos,$músico,$Cascais).$
$
U6)5(*!ZM<M!*B!,#7#!4%(85)5#+*!7#!7(%)*!7#+-%~#(8*!0%!W%(8%!~B!Q*~*-%^!%!3*6%(!s4(*•#(t!*-*~*!4%(!
+#(!4*(*!%!D+8*7%!
$
$
Fonte:$=nKB*&&$,$27$de$junho$de$1981.$ $ $ $$$$$$$$$Fonte:$=nKB*&&$,$27$de$junho$de$1981.
$!
$
Na$secção$>*n$$verifica-se$uma$intensa$mediatização$neste$tipo$de$conteúdos,$
confirmando$ o$ já$ crescente$ interesse$ e$ preocupação$ social$ sobre$ o$ tema.$ Assim,$
continuam$ a$ debater-se$ assuntos$ novos$ e$ modernos$ como$ é$ o$ caso$ de$ métodos$
contracetivos$ como$ a$ pílula,$ “o$ mais$ revolucionário$ dos$ métodos$ contracetivos”$
(Bevione,$1981:$17)$presente$na$Figura$7.10.a).$A$importância$do$planeamento$familiar,$
em$particular$durante$a$juventude,$é,$igualmente,$um$aspeto$crucial$neste$ano,$como$
vemos$na$Figura$7.10.b),$uma$vez$que$“prisioneiros$de$um$sucedâneo$da$ideologia$e$
moral$vitoriana,$decidiram$os$responsáveis$pela$Saúde$em$Portugal$atentar$contra$um$
$
304$
dos$ mais$ elementares$ direitos$ dos$ jovens,$ ao$ lhes$ negar$ o$ acesso$ a$ consultas$ de$
Planeamento$Familiar$sem$prévia$autorização$dos$pais”$(Silva,$1981:$14).$Neste$âmbito,$
através$das$entrevistas$conseguimos$encontrar$um$reflexo$da$pouca$relevância$que$a$
contraceção$assumia$no$discurso$público$até$à$data.$
9'" '+#)B'" 1D$" &*" W'+'/'" .)0#$" *." -$1#B'-*CD$," *B'" .'0&" '"
.)+U*B"()*")&'/',".'&"*&#'.$&"'"W'+'B"1).'"W'&*"*."()*"1*."
&*()*B" &*" W'+'/'" *." ><:!," 1D$" U'/0'," %0L'.$&," *&&'"
KB*$-)K'CD$,"*B'".'0&"S"I'&*"%*" .E#$%$&"1'#)B'0&2$(André,$63$
anos,$músico,$Aroeira).$
$
U6)5(*!ZM;>M!*B!A%pílula%vinte%*0%+!7#4%6+!~B!Adolescentes:%que%direito%à%sexualidade?!
Fonte:$=nKB*&&$,$24$de$outubro$de$1981.$$ $ $$$$$$$$$$Fonte:$=nKB*&&$,$17$de$outubro$de$1981.$
$
$No$>*G*,$na$secção$>*n$"o">)I&#T1-0'&,$mais$uma$vez,$o$conteúdo$encontrado$
foi$bastante$reduzido,$menor$ainda$que$no$ano$anterior.$Contudo,$verificámos$que$se$
mantém$ a$ prática$ de$ incluir$ fotografias$ sensuais$ de$ figuras$ femininas$ (e$ nunca$
masculinas),$ que$ possam$ ou$ não$ envolver$ nudez.$ Esta$ prática$ socialmente$ aceite$
reflete,$ de$ certo$ modo,$ o$ pendor$ machista$ e$ conservador$ do$ nosso$ país.$ É$ notória,$
também,$uma$ preocupação$significativa$ acerca$ dos$efeitos$ nocivos$ do$tabaco$ para$ a$
saúde,$ tal$ como$ já$ se$ verificou$ também$ no$ Expresso.$ Esta$ preocupação$ resultou$ na$
criação$de$produtos$ que$permitiriam$fazer$ face$ a$esta$dependência,$ como$vemos$na$
Figura$7.11.,$na$medida$em$que$durante$este$período,$o$cigarro$era$considerado$por$
muitos$ como$ um$ “companheiro$ quase$ que$ indispensável$ para$ o$ homem$ moderno”$
(s/a,$1981:$12).$
$
305$
! ! ! U6)5(*!ZM;;M!É%possível%deixar%de%fumar?!
$
$
$
$
$
$
$
$
$
$
$$$Fonte:$>*G*,$1$de$abril$de$1981.$
$$$$$$$$
ZM@M@M@M!"%~(#!%!rock!
$
Já$ na$ secção$ 3$-J$do$ =nKB*&&$$observa-se$ um$ enfoque$ cada$ vez$ maior$ sobre$ o$ B$-J$
português,$e$o$próprio$jornal$decide$apoiar$um$festival$de$B$-J$em$Coimbra,$através$da$
oferta$de$uma$viagem$a$Londres$aos$vencedores.$Várias$B$-J"&#'B&$nacionais$são$agora$
notícia,$como$é$o$caso$de$Rui$Veloso,$8_Y,$^bn0,$ou$^B'I'+U'%$B*&"%$"5$.EB-0$.$Neste$
contexto,$a$partir$da$Figura$7.12.a)$podemos$observar$um$debate$acerca$do$I$$.$do$
B$-J$português,$descrito$como$“uma$certa$desorientação$resultante$dos$muitos$nomes$
que$ recentemente$ preencheram$ o$ quotidiano$ da$ música$ B$-J$ portuguesa”$ (Arinto,$
1981:$26).$$
Ainda,$ em$ 1981$ é$ lançada$ a$ confirmação$ do$ regresso$ de$ Festival$ de$ Vilar$ de$
Mouros$a$decorrer$no$ano$seguinte,$onde$podemos$ler$na$Figura$7.12.b)$que$trará$à$
juventude$ “a$ hipótese$ de$ reviver$ nas$ margens$ do$ rio$ Coura$ o$ seu$ pequeno$
‘Woodstock’$à$escala$ nacional”$(s/a,$1981:$ 7).$De$facto,$ este$ despoletar$do$I$$.$do$
B$-J" português$ foi$ vivenciado$ por$ muitos$ dos$ entrevistados,$ que$ o$ descrevem$ como$
um$salto$em$direção$ao$futuro$e$à$modernidade$do$nosso$país,$assim$como$uma$forma$
de$expressão$da$juventude.$
7'&,"*."V$B#)L'+"U$)/*").'"0.K$B#T1-0'"%*".$%*B10%'%*"1$&"
'1$&" $0#*1#'," ).'" -*B#'" 'W0B.'CD$" B*I*+%*" %'" i)/*1#)%*" ()*"
K'&&$)"'"*n0&#0B"*."V$B#)L'+2"4"()*"U'/0'"'1#*&"*B'.".$C$&,"()*"
$
306$
*B'." *1/0'%$&" K'B'" ˆWB0-'" *" 1$&" '1$&" $0#*1#'" K'&&$)" '" *n0&#0B,"
*W*#0/'.*1#*,").'"i)/*1#)%*"*"$"B$-J"W$0"$"&*)"*&K*+U$,"W$0"'"&)'"
*nKB*&&D$," '01%'" ()*" -$." %0W*B*1#*&" -'.I0'1#*&," E" 1$B.'+2$
(Alfredo,$58$anos,$músico,$Braga).!
$
U6)5(*!ZM;@M!*B!D$6+8#!%5!0{%!53!s~%%3t!0%!(%-.!4%(85)5•+u!~B!U#+86e*1!7#!V61*(!7#!P%5(%+!(#)(#++*!
;;!*0%+!7#4%6+!
Fonte:$=nKB*&&$"(revista),$19$de$setembro$de$1981.$ $ $$Fonte:$=nKB*&&$,$3$de$outubro$de$1981.$
$
Na$ secção$ 3$-J" 9'-0$1'+$do$ >*G*$ encontrámos$ uma$ imensa$ variedade$ de$
conteúdos.$ No$ entanto,$ como$ temos$ vindo$ a$ fazer,$ apenas$ mencionaremos$ breves$
exemplos,$ de$ modo$ a$ evitar$ uma$ descrição$ demasiado$ extensa.$ Assim,$ encontrámos$
artigos$sobre$ alguns$músicos$ e$algumas$ bandas$que$ já$tinham$ sido$ destaque$ no$ ano$
anterior,$ como$ é$ o$ caso$ de$ Rui$ Veloso$ ou$ dos$ ^B'I'+U'%$B*&" %$" 5$.EB-0$,$ e$ vemos$
novos$nomes$ em$ destaque$ neste$ jornal,$tais$ como$ >'+'%'" %*" YB)#'$ou$€'W)F7*L'.$ A$
Figura$7.13.a)$ mostra-nos$um$ conteúdo$ extremamente$importante$ para$esta$ secção,$
que$foi$a$ publicação$de$ um$destacável$sobre$ o$B$-J$português$ numa$das$ edições$do$
mês$ de$ junho$ deste$ ano,$ com$ o$ “intuito$ informativo”$ e$ como$ uma$ “forma$ de$
contribuirmos$para$o$elaborar$dessa$história$que$é$urgente,$que$se$começa$a$fazer$já,$
porque$decerto$ela$nos$ajudará$a$compreender$ muito$do$que$está$a$passar-se$neste$
país”$(s/a,$1981:$17).$$
Ainda$ pertinente,$ vejamos$ na$ Figura$ 7.13.b)$ a$ criação$ de$ uma$ nova$ empresa$
destina$ a$ trabalhar$ apenas$ com$ grupos$ de$ B$-J$ nacionais,$ com$ o$ objetivo$ de$
$
307$
“dinamizar$ o$ circuito$ de$ concertos$ e$ festivais$ com$ bandas$ portuguesas$ de$ 3$-J”$ e$
“dotar$ esses$ grupos$ e$ uma$ nova$ dinâmica”$ (s/a,$ 1981:$ 16).$ Vemos$ aqui,$ portanto,$ o$
despoletar$do$desenvolvimento$da$indústria$de$B$-J$nacional,$que$até$à$data$carecia$de$
meios$ e$ materiais$ especializados$ que$ pudessem$ garantir$ as$ melhores$ condições$ às$
performances$deste$género$musical.$Esta$situação$foi-nos,$também,$relatada$durante$
as$entrevistas.$
:*K$0&," +*.IB$F.*" %*" )." *&K*#b-)+$" $)" $)#B$" .'0&"
-'B'-#*Bc&#0-$&,"*."()*"#$-'/'&"*."#*BB'&"*"1'"'+#)B'"1D$"U'/0'"
KB$KB0'.*1#*")."K'+-$"-$.$"%*/*"&*B"*"*1#D$"#01U'&")."+'L$"S"
WB*1#*"%$"K'+-$"*"%*K$0&"'&"K*&&$'&"+b"'$"W)1%$,"U'/0'"'&&0.")1&"
K$B.*1$B*&"*1LB'C'%$&"1*&&'"'+#)B',"%*/0%$"S"W'+#'"%*".'#*B0'+"
*"%*"-$1%0Cd*&2$(Sofia,$47$anos,$música,$Palmela).$
$
U6)5(*!ZM;XM!*B!,%-.!Português!:7#+8*-Ce#1B!~B!Empresa%(%-k%só%para%portugueses!
Fonte:$>*G*,$24$de$junho$de$1981.$ $ $ $ $$$$$$$FonteA">*G*,$29$de$abril$de$1981.$
$
A$secção$3$-J"<1#*B1'-0$1'+,$à$semelhança$do$que$verificámos$no$ano$anterior,$
também$se$foca$nos$percursos,$nos$lançamentos$de$discos$e$nos$concertos$de$figuras$
de$ relevo$ do$ panorama$ internacional.$ Neste$ ano$ vemos,$ novamente,$ os$ ^U*" 3$++01L"
>#$1*&?Q?$na$Figura$7.14.a),$descritos$como$“as$maiores$pestes$que$o$3$-J$conheceu$ao$
longo$de$mais$de$duas$décadas$de$vida”,$que$lançam$^'##$$"`$),$um$“excelente$disco”$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
101$$Os
The Rolling Stones
foram um dos nomes mais frequentemente abordados no panorama do
rock
internacional por ambos os jornais.$
$
308$
que$comporta$um$“reencontro$com$o$velho$som”$(Peixoto,$1981:$4).$De$facto,$vemos$
uma$vez$mais$aqui$o$grupo$retratado$pelo$jornal$de$forma$desviante.$$
Relativamente$ aos$ concertos,$ destacamos$ na$ Figura$ 7.14.b)$ o$ artigo$ sobre$ a$
vinda$de$Iggy$Pop$“malucão$de$34$anos,$marginal$e$V)1J”,$considerado$neste$período$
“o$ melhor$ &U$m.'1$do$ 3$-J$ em$ todo$ o$ mundo”$ (Duarte,$ 1981:$ 8)$ e$ associado,$
também$ ele,$ a$ uma$ certa$ marginalização$ por$ parte$ do$ >*G*.$ À$ semelhança$ do$ ano$
anterior,$ este$ jornal$ volta$ a$ descrever$ bandas$ e$ músicos$ de$ B$-J$ internacional$ como$
$)#&0%*B&,"ou$seja,$“aquele[s]$que$se$desvia[m]$das$regras$do$grupo”$(Becker,$2008:$17).$
!
U6)5(*!ZM;`M!*B!Qf#!,%1160)!"8%0#+^!Q*88%%!l%5!!~B!O))h!W%4!‚!e6+8*^!V#3!*|!%!,%-.!s63%(*1t!
!
$
$
$
$
$
$
$
$
$
$
$
Fonte:$>*G*,$7$de$outubro$de$1981.$$$$$$$$$ $Fonte:$>*G*,$24$de$junho$de$1981.!
$
$
De$ uma$ forma$ geral,$ verificamos$ que$ o$ tipo$ de$ conteúdos$ e$ abordagens$ de$
1980$mantém-se,$mas$existe$um$maior$relevo$relativamente$a$conteúdos$sobre$o$B$-J$
português.$Segue$o$quadro$síntese$deste$ano.$
$ $
309$
!!!!!!!U6)5(*!ZM;AM!"6+8#3*86•*z{%!7*+!8#3C86-*+!*~%(7*7*+!0%+!376*!
$$$$$$$$Fonte:$Autora.$
ZM@MXM!J!rock!4%(85)5•+!3%((#5!#3!;<R@u!
ZM@MXM;M!"%~(#!+5~+890-6*+!4+6-%*86e*+!#!+#$%!
No$ano$de$1982$na$secção$>)I&#T1-0'&"do$=nKB*&&$,$Portugal$continua$a$unir$esforços$
no$combate$ao$tráfico$de$drogas$duras,$aliando-se$a$forças$policiais$de$outros$países$no$
desmantelamento$ de$ redes$ internacionais,$ tal$ como$ aconteceu$ juntamente$ com$ a$
Holanda$numa$investigação$desta$natureza$que$decorreu$na$cidade$do$Porto$e$vemos$
publicada$ na$ Figura$ 7.16.a),$ com$ o$ objetivo$ de$ “investigar$ as$ ramificações$ de$ uma$
D_W,D""J!
!"5~+890-6*+!
$Preocupão$social$e$política$
relativamente$ao$tráfico$de$drogas$
$Preocupão$com$os$lucros$do$tabaco$para$
o$Estado$
!"#$%!
$Preocupão$com$o$planeamento$familiar$
"DZD!
!"#$%!#!+5~+890-6*+!
$Presença$de$uma$rubrica$erótica$
$Preocupão$com$os$efeitos$nocivos$do$
tabaco$para$a$sde$
D_W,D""J!
%Rock%
$Debate$acerca$do$B$-J$português$
$Regresso$do$Festival$de$Vilar$de$Mouros$
"DZD!
!Rock!L*-6%0*1!
$Publicão$de$um$destacável$sobre$o$B$-J$
português$
$Crião$de$empresa$destinada$a$apoiar$
grupos$de$B$-J"nacionais$
!Rock!O08#(0*-6%0*1!
$Percurso$de$excessos$dos$The$Rolling$
Stones!
Percurso$de$excessos$de$Iggy$Pop$
$
310$
importante$ rede$ internacional$ de$ tráfico$ de$ drogas$ duras”$ (s/a,$ 1982:$ 6).$ É$ realçado$
nesta$ matéria,$ também,$ o$ facto$ de$ a$ lei$ da$ droga$ se$ encontrar$ desatualizada,$ na$
medida$em$que$“não$faz$qualquer$distinção$entre$o$consumo$de$drogas$leves$(haxixe$e$
marijuana)$ e$ drogas$ duras$ (heroína$ e$ morfina)$ nem$ distingue$ os$ ‘consumidores-
traficantes’$ dos$ ‘consumidores$ dependentes’”$ (s/a,$ 1982:$ 3),$ como$ consta$ na$ Figura$
7.16.b).$ Esta$ reivindicação$ extremamente$ importante$ acaba$ por$ ser$ uma$ expressão$
clara$de$um$apelo$legal$a$esta$situação,$que$se$veio$a$concretizar$posteriormente.$
$
U6)5(*!ZM;=M!*B!W%1|-6*+!7#!W%(85)*1!#!7*!K%1*07*!60e#+86)*3!7(%)*+!0%!W%(8%!~B!F#6!+%~(#!*!7(%)*!#+8C!
7#+*-85*16•*7*!
Fonte:$=nKB*&&$,$16$de$janeiro$de$1982.$$$$$$$$$$$$$$$$$$Fonte:"=nKB*&&$,$13$de$março$de$1982.$
!
$ Na$secção$>*n$,$o$ano$de$1982$foi$profundamente$marcado$pelo$debate$sobre$
a$legalização$do$aborto$em$Portugal,$uma$vez$que$de$acordo$com$a$Figura$7.17.a),$o$
novo$Código$de$Direito$Penal$a$ser$promulgado$nesse$ano$previa$a$manutenção$“quase$
idêntica$ da$ mesma$ prática$ penal$ para$ castigar$ a$ interrupção$ voluntária$ de$ gravidez”$
(s/a,$ 1982:$ capa).$ Este$ debate$ resultou$ numa$ intensa$ quantidade$ de$ artigos,$ que$
refletiam$ a$ diversidade$ de$ opiniões$ acerca$ do$ assunto$ na$ sociedade$ portuguesa,$
nomeadamente$ opiniões$ favoráveis$ à$ legalização$ na$ defesa$ do$ direito$ a$ uma$
maternidade$ livre,$ consciente$ e$ desejada,$ ou$ desfavoráveis$ sob$ o$ ponto$ de$ vista$ da$
Igreja$ Católica,$ que$ adotou$ uma$ visão$ de$ repúdio$ acerca$ do$ projeto$ lei.$ Este$ aceso$
debate$levou$o$próprio$jornal$a$conduzir$uma$sondagem$acerca$do$tema,$na$qual$foi$
possível$ concluir$ que$ “71%$ admite$ aborto$ em$ situações$ especiais”$ (s/a,$ 1982:$ capa),$
$
311$
como$podemos$observar$na$Figura$7.17.b).$Esta$sondagem$permitiu$revelar,$também,$
que$ a$ maioria$ dos$ filhos$ nasceu$ por$ acaso,$ devido$ à$ ausência$ de$ uma$ estratégia$ de$
planeamento$ familiar$ efetiva$ no$ nosso$ país.$ A$ partir$ das$ entrevistas$ também$ foi$
possível$ confirmar,$ que$ apesar$ dos$ ideais$ de$ liberdade$ e$ experimentação$ se$ terem$
afirmado$a$partir$desta$década,$as$práticas$sexuais$ocasionais$e$não$planeadas$sempre$
foram$uma$realidade$dentro$do$meio$artístico$do$nosso$país.$$
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B*+'CD$" groupiezWD" F" .f&0-$z'B#0&#'" *" -$." $" W'-#$" %*" 1'" .'0$B"
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B*K*1#*"K'&&$)"%*")."#'I)"K'B'").'"-*B#'"*W*B/*&-M1-0'"%*&&'"
+0I*B%'%*2$(Artur,$57$anos,$músico,$Lisboa).!
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Fonte:$=nKB*&&$,$13$de$fevereiro$de$1982.$$$$$$$$$$$$$$$ $ $Fonte:$=nKB*&&$,$20$de$fevereiro$de$1982.$
$
312$
$
Por$ outro$ lado,$ a$ secção$ Sexo$ &$ Substâncias$ do$ Se7e,$ da$ mesma$ forma$ que$
aconteceu$em$1981,$ apresentou$um$número$ reduzido$de$conteúdos$ alusivos$a$ estes$
temas.$ Contudo,$ destacamos$ alguns$ exemplos$ pertinentes,$ nomeadamente,$ dois$
acerca$ da$ primeira$ grande$ edição$ do$ Festival$ de$ Vilar$ de$ Mouros$ de$ 1971,$ que$ se$
preparava$para$acontecer$durante$este$ano$e$que$apresentamos$nas$Figuras$7.18.a)$e$
7.18.b).$ No$ primeiro,$ recorre-se$ à$ ironia$ para$ descrever$ a$ estratégia$ utilizada$ pelas$
forças$policiais$para$a$operação$e$que$envolveu$a$tentativa$de$apreender$substâncias$
ilícitas,$ nomeadamente$ a$ canábis.$ Nas$ suas$ palavras,$ o$ profissional$ responsável$ pela$
operação$ “mandou$ então$ que$ todos$ os$ seus$ subalternos$ vestissem$ roupas$ iguais$ às$
utilizadas$por$aqueles$que$costumam$encontrar-se$com$a$tal$-'11'I0&”$(s/a,$1982:$4).$$
Também$ em$ Vilar$ de$ Mouros$ o$ segundo$ exemplo$ faz$ referência$ ao$ célebre$
lema$do$>)..*B"$W"\$/*,$7'J*"+$/*"1$#"m'B,$que$neste$festival$se$viveu$intensamente$
na$ primeira$ edição,$ uma$ vez$ que$ muitos$ consideraram$ que$ “assumir$ em$ público$ a$
libertação$e$o$amor$era,$em$Portugal,$afirmar$a$recusa$da$guerra”$(Dacosta,$1982:$4).$
Assim,$ durante$ esse$ período,$ “nas$ casernas,$ a$ moral$ dissolve-se;$ a$ erva,$ o$ sexo,$ a$
música,$ a$ fuga$ são$ ondulações$ incontroláveis”$ (Dacosta,$ 1982:$ 4).$ Portanto,$ vemos$
aqui$uma$clara$associação$mediática$entre$a$música$(B$-J),$o$sexo$e$as$drogas,$que$não$
é$ corroborada$ pelos$ inquiridos$ da$ nossa$ amostra102.$ No$ entanto,$ estas$ vivências$ e$
experiências$em$torno$de$um$espírito$livre$e$pacifista$que$se$viveram$neste$festival$em$
particular$foram,$também,$assinaladas$pelos$entrevistados.$
7)0#$&"i$/*1&" 0'.,"B*'+.*1#*,"&*." )." #$&#D$"*,"K$B#'1#$,"*+*&"
/0/*B'."'"&)'"')#*1#0-0%'%*,"'"&)'"B*I*+%0'"*"$"&*)".$.*1#$"%*"
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K'B'" '" EK$-'," .'&" '-U$" ()*" '&" K*&&$'&" /0/*B'." '+0" *."K'Z2"
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
102$$O inquérito demonstrou que para 52,2% dos inquiridos da nossa amostra não se verifica que haja um
aumento de consumos durante a sua frequência de festivais de música, concertos e outros eventos
musicais e 65,6% não se sente mais estimulado(a) para a prática de relações sexuais com o(a) seu/sua
parceiro(a).
$
313$
{)*." *&#*/*" +b" *1()'1#$" i$/*.," *)" '-U$" ()*" #*." ).'" I$'"
.*.XB0'"%'()0+$,"K$B#'1#$,"$"K'&&'B")."I$-'%$"%*"W$.*"$)"%*"
1D$"K$%*B"#$.'B"I'1U$"#$%$&"$&"%0'&,"$)"%*"1D$"K$%*B"%$B.0B"
1'" &)'" -'.01U'," %*" 1D$" #*B" $" -$1W$B#$" %*" ).'" -'&'" *" #*B"
I0-U'B$-$&"'+0"S"/$+#'," '-U$" ()*"#)%$" 0&&$" W$0"&*-)1%bB0$2$(Inês,$
67$anos,$professora,$Lisboa).$
!" .f&0-'" *)" '-U$" ()*" E" %'&" 'B#*&" ()*" B*f1*" *" i)1#'" .'0&" '&"
K*&&$'&" '$" 1c/*+" %*" -*+*IB'CD$," %*" %0/*B&D$," %*" .*1#'+0%'%*,"
'-U$"()*"E"'"f10-'"'B#*"()*"#*."*&&*"K$%*B"%*"i)1#'B"'&"K*&&$'&"
*"%*"W'Z*B"-$."()*"*+'&"W'C'."'#E"-*B#$"#0K$"%*"-$0&'&,"%*"#*B*."
&*n$," %*" &*" -$1U*-*B*.," %*" &*B*." +0/B*&" *" %*" #*B*." *&&*"
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%$&" K'0&" *" '-U$" ()*" $" B$-J" *" '&" %B$L'&" #B'Z*." *&&*" +'%$" %*"
+0I*B#'CD$,"%*"&'0B"W$B'"%*"#)%$"'()0+$"()*"1$&"$KB0.*"1$"%0'F'F
%0'2" V'B'" '" .'+#'" 1$/'" '-U$" ()*" E" *n#B*.'.*1#*" 0.K$B#'1#*2$
(Tadeu,$52$anos,$músico,$Seixal).!
!
U6)5(*!ZM;RM!*B!G!-*z*!‚+!#(e*+!~B!G!7#++*-(*16•*z{%!7#!V61*(!7#!P%5(%+!
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Fonte:$>*G*,$4$de$agosto$de$1982.$$$$$$$$$$$$$$ $ $ Fonte:$>*G*,$4$de$agosto$de$1982.$
$
ZM@MXM@M!"%~(#!rock!
$
Também$a$secção$3$-J$do$=nKB*&&$$neste$ ano$é$fortemente$dedicada$ao$ Festival$ de$
Vilar$de$Mouros,$mas$também$ao$lançamento$de$discos$e$concertos$de$protagonistas$
do$B$-J$nacional.$Vários$conteúdos$foram$publicados$acerca$do$Festival$antes$e$depois$
do$ evento,$ nomeadamente$ a$ relembrar$ a$ primeira$ grande$ edição$ de$ 1971,$ que$
$
314$
anunciou$os$novos$tempos$de$mudança$e$inaugurou$a$chegada$dos$grandes$festivais$
de$ música$ ao$ ar$ livre$ no$ nosso$ país.$ Mas,$ também$ a$ partilhar$ balanços$ e$ a$ fazer$ a$
cobertura$da$edição$desse$ano,$onde,$segundo$a$Figura$7.19.a)$“a$loucura$instalou-se$
numa$ aldeia$ perdida$ do$ Minho,$ episódico$ cenário$ do$ único$ certame$ português$ de$
música$ao$ar$livre”$(Anhanguera,$1982:$25).$$
Ainda$ este$ ano,$ o$ jornal$ divulgou$ alguns$ conteúdos$ relativamente$ ao$
lançamento$ de$ discos$ de$ B$-J$ nacionais$ de$ bandas$ como$ os$ ^bn0,$ os$ w93$ ou$ o$ Rui$
Veloso,$assim$como$artigos$sobre$os$_*BX0&"%$"7'B,$na$Figura$7.19.b),$considerado$o$
“conjunto$musical$de$maior$sucesso$da$atualidade”$(Melo,$1982:$26)$e,$ainda,$sobre$as$
^U*"3'01-$'#&,$que$incluía$a$portuguesa$Ana$da$Silva$na$sua$composição$a$propósito$de$
atuações$do$grupo$no$3$-J"3*1%*ZF;$)&2"
"
U6)5(*!ZM;<M!*B!sDf&!4C&!€+!}#16•ut!~B!K#(†6+!7%!P*(^!sG!(#+4%+8*!€!W%(85)*1t!
!
$
$
$
Fonte:$=nKB*&&$"(revista)$7$de$agosto$de$1982.$$$$$$Fonte:"=nKB*&&$$(revista)$4$de$setembro$de$1982.$
$
Já$na$ secção$3$-J" V$B#)L)M&$do$>*G*!grande$parte$ dos$ conteúdos$ publicados$
durante$ este$ ano$ também$ foram$ sobre$ o$ Festival$ de$ Vilar$ de$ Mouros,$ mas$ também$
sobre$ o$ possível$ fim$ do$ B$-J" português.$ Mais$ uma$ vez,$ a$ quantidade$ de$ publicações$
encontradas$ pertinentes$ para$ esta$ secção$ foi$ extensa,$ pelo$ que$ precedemos$ a$ uma$
seleção$apertada.$Assim,$o$jornal$dá$conta$na$Figura$7.20.a)$do$lançamento$do$mini-LP$
dos$8_Y"=&#$)"%*"V'&&'L*.,$que$descreve$como$um$“canal$maldito”,$que$se$faz$“de$
$
315$
experiências$ do$ quotidiano,$ de$ revolta,$ de$ denúncia,$ de$ subversão$ e$ de$ amor”,$
características$tradicionalmente$associadas$à$cena$B$-J$(Duarte,$1982:$6).$$
Os$^*+*-#)$são$também$alvo$de$atenção$na$Figura$7.20.b),$nomeadamente$com$
o$seu$disco$5#)"^*+*-#),$cuja$música$o$semanário$define$como$“uma$#B0K$e$que$Jorge$
Lima$ Barreto$ define$ como$ B$-J$ português$ de$ vanguarda”,$ “porque$ é$ um$ som$ que$
ainda$ não$ existe”.$ Os$ títulos$ dos$ temas$ homenageavam$ Philip$ Dick,$ um$ escritor$ de$
ficção$ científica,$ que$ “aborda$ um$ tipo$ de$ interpretação$ da$ realidade$ através$ das$
drogas,$por$exemplo,$e$morreu$de$overdose”$(Melo$e$Castro,$1982:$22),$expressando$
aqui$a$importância$que$o$jornal$deu$a$este$detalhe$do$escritor$serviu$de$inspiração$ao$
disco.$$
Finalmente,$ sobre$ a$ morte$ eminente$ do$ B$-J$ português,$ o$ >*G*$ abriu$ um$
debate$ nas$ páginas$ do$ jornal,$ que$ teve$ de$ ser,$ rapidamente,$ encerrado,$ devido$ à$
quantidade$de$cartas$ recebidas$ em$resposta$a$ esta$discussão,$umas$a$ favor$e$outras$
contra$acerca$da$existência$de$um$movimento$B$-J$português.$Curiosamente,$já$neste$
período$se$discutia$acerca$da$iminente$morte$do$B$-J,$tópico$também$abordado$pelos$
nossos$entrevistados.$
4"B$-J"E")."*&#0+$"%*".f&0-'"'1#0"K$%*B,"%0L'.$&,"*1#B*#'1#$,"W$0"
&*1%$" '&&0.0+'%$" -)+#)B'+.*1#*," -$.$" $" K)1J," *" '$" &*B"
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$
316$
1)1-'"W0Z"1*1U)."*&#)%$"K'B'"#*B"'"-*B#*Z'"%0&&$2"9$"KB*&*1#*,"$"
B$-J"*&#b"'"%'B"'&"f+#0.'&2"4"W)#)B$k"9D$"Ub"W)#)B$"K'B'"$"B$-J2"
4"B$-J"*&#b"()'&*"'".$BB*B,"*&#$)"'"W'+'B"%*"B$-J"*"1D$"%*"K$K2"
{)'1%$" $&" >#$1*&" %*&'K'B*-*B*.," $)" $&" w)1&y1y3$&*&," $)" $&"
!5z:5"*"$)#B'&"I'1%'&"()*"'01%'"U$i*"-$1#01)'."'"I'#*B"'"K$K,"
'-'I$),"/'0"K'&&'B"'"&*B"-$.$"$&"I+)*&A").'"-$0&'"K*()*1'"*."
-+)I&" K*()*1c&&0.$&," /'0" &*B" ).'" -$0&'" *+0#0&#'," 1D$" ).'" -$0&'"
K$K)+'B," *&&'" E" '" .01U'" 0.KB*&&D$," $&" %0'&" *&#D$" -$1#'%$&" *"
#*1U$".)0#'"K*1'2$(Adriano,$70$anos,$músico,$New$Jersey).$
$
U6)5(*! ZM@>M! *B! 2KU! 0%! s%58(%! 1*7%! 7*! ~*((6-*7*t^! sD+8*3%+! 7#! 4*++*)#3! 3*+! ƒ5#(#3%+! 7#6$*(!
3*(-*+t!~B!sE85!Q#1-85!€!,%-.!4%(85)5•+!7#!e*0)5*(7*t!
$
Fonte:$>*G*,$7$de$abril$de$1982.$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$Fonte:$>*G*,$22$de$dezembro$de$1982.$$
$ $
Na$secção$3$-J"<1#*B1'-0$1'+,$voltamos$a$encontrar$referências$a$concertos$no$
nosso$ país$ ou$ a$ acontecer$ ou$ já$ ocorridos$ noutros$ países,$ como$ o$ dos$ ^U*" 3$++01L"
>#$1*&$em$Madrid.$Sobre$este$concerto$dos$Stones$apresentado$na$Figura$7.21.a),$“um$
dos$grupos$mais$importantes$do$3$-J$mundial”,$o$jornal$dá$conta$de$que$tocaram$para$
mais$ de$ setenta$ mil$ pessoas$ “numa$ orgia$ dançante”,$ debaixo$ de$ chuva$ e$ trovoada,$
com$a$mesma$energia$e$entusiasmo$de$um$dia$de$sol.$E$acrescenta,$que$“nos$anos$60,$
eles$ personificaram$ a$ transgressão,$ o$ “mau$ exemplo”$ que$ milhões$ de$ jovens$
seguiram”,$contudo,$continuavam$a$ arrastar$milhares$de$pessoas$ para$ os$ver$e$ouvir$
volvidos$vinte$anos$da$sua$fundação$(Costa,$1982:$17).$Mais$uma$vez,$o$>*G*$associa$os$
^U*" 3$++01L" >#$1*&$ a$ uma$ carreira$ de$ desvio$ e$ delinquência$ (Goffman,$ 1982),$
apelidando-os$mesmo$de$“maus$exemplos”$que$muitos$jovens$seguiram.$No$ponto$de$
$
317$
vista$ de$ Lippman$ (1922),$ este$ tipo$ de$ retratos$ acaba$ por$ moldar$ a$ consciência$ e$
crenças$ coletivas$ acerca$ da$ banda$ e$ da$ cena$ rock$ em$ geral,$ na$ medida$ em$ que$ os$
indivíduos$creem$neles,$na$falta$de$outras$fontes$de$conhecimento$mais$preciso.$Neste$
contexto,$ o$ inquérito$ aplicado$ também$ revela$ que$ há$ uma$ tendência$ para$ associar$
mais$a$juventude$ao$consumo$de$substâncias$ilícitas,$do$que$outros$grupos$etários103.$
Há$ também$ artigos$ que$ fazem$ alusão$ aos$ percursos$ de$ algumas$ B$-J" &#'B&,$
como$é$o$caso$do$aniversário$de$doze$anos$da$morte$de$Janis$Joplin.$A$este$respeito,$o$
>*G*$ escreve$ no$ artigo$ da$ Figura$ 7.21.b),$ que$ esta$ terá$ sido$ encontrada$ morta$ num$
quarto$ de$ hotel$ em$ Hollywood,$ “sobre$ a$ cama,$ com$ os$ cabelos$ desgrenhados$ e$ os$
braços$ brancos,$ picados$ de$ seringas”,$ o$ que$ faz$ claramente$ uma$ referência$ ao$ seu$
conhecido$ historial$ de$ consumos$ e$ excessos$ psicotrópicos.$ O$ artigo$ continua$ com$
inúmeras$ menções$ ao$ consumo$ de$ álcool$ e$ drogas$ em$ passagens$ como$ “com$ álcool$
nas$veias”,$das$suas$“viagens$de$heroína”$ou$“desinfeta$a$seringa$e$introduz,$no$tubo,$o$
pó$ mágico”$ e$ arrisca$ ao$ dizer,$ que$ “a$ sua$ mensagem$ vocal$ apenas$ seria$ –$ e$ é$ –$
completamente$ descodificada$ por$ espetadores-ouvintes$ em$ estados$ semelhantes”$
(s/a,$1982:$10).$De$acordo$com$Cohen$(2002),$este$tipo$de$cobertura$mediática$acaba$
por$ desvirtuar$ a$ forma$ como$ o$ público$ recebe,$ processa$ e$ apreende$ a$ informação,$
resultando$num$descrédito$social$e$na$ elevação$ das$B$-J"&#'B&$a$um$estatuto$de$W$+J"
%*/0+&$sociais$(Cohen,$2002)$e$símbolos$de$declínios$morais$(Haenfler,$2014).$
$
$
$
$
$
$
$
$
$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
103$Dos 383 inquiridos, 193 concordam que “os jovens são mais propícios ao consumo de substâncias
ilegais do que os adultos”, contra 63 que não concordam nem discordam com a afirmação, 54 que
concordam totalmente, 59 que discordam e 14 que discordam totalmente.$
$
318$
U6)5(*!ZM@;M!*B!"8%0#+^!8(%e‡#+!#3!P*7(67!~B!Y*06+!Y%4160^!3*08€3?+#!%!~(61f%!7*!sW€(%1*t!
$
$$$Fonte:$>*G*,$14$de$julho$de$1982.$ $ $$$$$$$$$$$$$$Fonte:$>*G*,$13$de$outubro$de$1982.!
$
De$um$modo$geral,$mantem-se$o$trajeto$evolutivo$relativamente$à$abertura$de$
mentalidades$ da$ sociedade$ portuguesa,$ mas$ permanecem$ o$ mesmo$ tipo$ de$
abordagens$ tendencialmente$ desviantes$ para$ caracterizar$ determinados$ ícones$
musicais.$É$de$realçar$o$debate$acerca$do$possível$fim$do$B$-J$português$durante$este$
ano,$vejamos$o$quadro$síntese.$
$
!!!!!!!U6)5(*!ZM@@M!"6+8#3*86•*z{%!7*+!8#3C86-*+!*~%(7*7*+!0%+!376*!
!$
D_W,D""J!
!"5~+890-6*+!
$Preocupão$social$e$política$
relativamente$ao$tráfico$de$drogas$
$Lei$da$droga$desatualizada$
!"#$%!
$Debate$sobre$a$legalização$do$aborto$
"DZD!
!"#$%!#!+5~+890-6*+!
$Importância$da$primeira$edição$do$Festival$
de$Vilar$de$Mouros$
$Cobertura$mediática$da$segunda$edição$do$
festival$com$enfoque$nos$consumos$e$
práticas$dos$participantes$
$
319$
$$$$$$$$Fonte:$Autora.$
!
ZM@M`M!;<RX!#!%!}1*)#1%!7*!"O'G!
$
ZM@M`M;M!"%~(#!+5~+890-6*+!4+6-%*86e*+!#!+#$%!
!
Na$secção$Substâncias$do$semanário$Expresso,$verificamos$que$a$luta$contra$o$tráfico$
de$drogas$continua$a$ser$uma$forte$preocupação$dos$poderes$políticos$nacionais,$que$
procuram,$inclusivamente,$ proceder$ ao$ agravamento$ das$penas$ no$ ano$ em$ questão.$
Contudo,$o$consumo$de$estupefacientes$continua$a$ser$alvo$de$atenção,$não$só$no$que$
toca$ a$ penalizações,$ mas$ também$ no$ que$ diz$ respeito$ aos$ consumos,$
toxicodependência$ e$ reabilitação,$ através$ do$ desenvolvimento$ de$ comunidades$
terapêuticas$ especializadas,$ o$ que$ revela$ um$ avanço$ muito$ positivo$ no$ tratamento$
destas$situações.$Na$Figura$7.23.a)$podemos$observar$que$é$publicado$um$conjunto$de$
conclusões$ de$ um$ estudo$ demográfico$ acerca$ do$ consumo$ de$ drogas$ no$ nosso$ país,$
que$sugere$que$$
$
'" %0&#$BCD$" B*'+" %$" '1*+" W'.0+0'B" .'1#E." ).'" *&#B*0#'"
-$BB*&K$1%M1-0'" -$." $" )&$" %*" %B$L'&" %$" #0K$" 01i*#b/*+,"
K'B#0-)+'B.*1#*" $K0b-*$&," *1()'1#$" )." K'%BD$" %*"
#$n0-$.'10'" %$.01'%$" K*+'&" %B$L'&" +*/*&" .'1#*B0'" ).'"
-$BB*&K$1%M1-0'" -$." ).'" K'#$+$L0'" 1)." B*L0&#$" .'0&"
-$1W+0#)'+"*"hW'1#'&.b#0-$.$(C.A.,$1983:$18)."
$
D_W,D""J!
%Rock%
$Destaque$para$a$segunda$grande$edição$
do$Festival$de$Vilar$de$Mouros$$
$Lançamento$de$discos$
$Divulgão$e$cobertura$de$concertos$
"DZD!
!Rock!L*-6%0*1!
$Destaque$para$a$segunda$grande$edição$do$
Festival$de$Vilar$de$Mouros$
$Debate$sobre$o$fim$do$B$-J$português$
!Rock!O08#(0*-6%0*1!
$Percurso$de$excessos$dos$The$Rolling$
Stones!
Percurso$de$excessos$de$Janis$Joplin$
$
320$
$Ainda$nesta$matéria,$uma$notícia$que$abalou$o$país,$particularmente$o$Bairro$Alto,$foi$
a$ morte$ de$ uma$ jovem$ de$ 16$ anos$ por$ overdose,$ “encontrada$ no$ domingo$ já$
moribunda$e$ seminua$no$ quarto$ de$cama$ do$arquiteto...”$ (Fernandes,$ 1983:$16).$ No$
corpo$ do$ artigo$ da$ Figura$ 7.23.b),$ verificamos$ que$ muitas$ das$ notícias$ divulgadas$ e$
referidas$ aqui$ culpabilizavam$ o$ narcotráfico$ por$ este$ trágico$ desfecho,$ ou$ seja,$ “os$
malandros$que$os$meteram$na$droga”$(Fernandes,$1983:$16),$partilhando$a$perspetiva$
permanente$ de$ combate$ ao$ tráfico$ já$ imposta$ pelo$ poder$ político$ e$ ignorando$ a$
possível$vontade$e$consciência$de$consumo$dos$sujeitos$envolvidos.$Como$vemos,$há$
aqui$ posicionamentos$ que$ revelam$ sentimentos$ de$ estigmatização$ e$ poder$ social$
dominante$ (Scott,$ 2007)$ face$ aos$ consumidores$ de$ drogas$ e$ uma$ associação$ dos$
consumos$a$contextos$familiares$fragilizados.$
!
U6)5(*!ZM@XM!*B!'#3%)(*}6*!7%!-%0+53%!7*!7(%)*!~B!G!0%8|-6*!ƒ5#!*~*1%5!%!S*6((%!G18%!
$
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Fonte:"=nKB*&&$$(revista),$9$de$abril$de$1983.$$$$Fonte:$=nKB*&&$$(revista),$2$de$julho$de$1983.$
$
A$ secção$ >*n$$ continua$ a$ ser$ marcada$ pelo$ debate$ político$ acerca$ da$
legalização$ do$ aborto$ em$ Portugal$ com$ opiniões$ contra$ e$ a$ favor$ dos$ principais$
partidos$políticos.$De$acordo$com$o$artigo$apresentado$na$Figura$7.24.a),$é$assinalado$
o$pendor$conservador$da$sociedade$portuguesa,$apelidando-a$de$hipócrita,$na$medida$
em$ que$ “é$ uma$ velha$ tradição$ a$ dos$ portugueses$ viverem$ tranquilos$ a$ vida$ em$
$
321$
sociedade$de$ forma$ permissiva$ e$ liberal$ desde$ que$devidamente$ encoberta$ “diáfano$
manto$da$respeitabilidade””$(Sousa,$1983:$12).$$
Outro$assunto$que$foi$alvo$de$um$grande$destaque$por$parte$do$jornal$prende-
se$com$o$vírus$da$SIDA,$que$depois$de$aterrorizar$os$EUA,$o$SIDA,$novo$vírus$mortal$
transmissível$através$do$sangue,$do$sémen,$ou$da$saliva$ameaça$a$Europa,$onde$atingiu$
já$ todos$ os$ países$ à$ exceção$ de$ Portugal”$ (Malheiros$ &$ Trindade,$ 1983:$ 12).$ O$ que$
vemos$na$Figura$7.24.b)$trata-se$de$um$artigo$alarmante,$pois$durante$este$período$o$
vírus$ ainda$ se$ encontrava$ em$ fase$ de$ investigação$ e$ o$ desconhecimento$ acerca$ da$
doença$ (como$ a$ suposição$ de$ que$ era$ transmitido$ através$ da$ saliva)$ causava$ uma$
intensa$ preocupação,$ receio$ e$ interesse$ mediático$ e$ social.$ Também$ nas$ entrevistas$
esta$ocultação$das$práticas$sexuais$de$que$nos$fala$o$jornal$é$confirmada,$e$é$apontada$
a$ SIDA$ como$ uma$ limitação,$ que$ surgiu$ e$ conduziu$ a$ um$ repensar$ desta$ libertação$
sexual.$
=&&*"+*.'"W'Z"K'B#*"%'".0#$+$L0'"+0L'%'"'$"B$-J,"()*"#*."'"/*B"
-$."$&"'1$&"&*&&*1#',"K$B#'1#$,"#*."'"/*B"-$.").'"EK$-',"()*"
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K$B()*" ib" 1D$" *B'" '" +0I*B#'CD$" &*n)'+," .'&" U$)/*," %*" -*B#'"
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#'.IE.,"*."V$B#)L'+2$(Alfredo,$58$anos,$músico,$Braga).$
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322$
U6)5(*!ZM@`M!*B!G!*(3*!4%1|86-*!7%!*~%(8%!~B!"O'G^!*!+6)1*!3%(8*1!ƒ5#!*++5+8*!*!D5(%4*!
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$
$$Fonte:$=nKB*&&$$(revista),$5$de$novembro$de$1983.$$$$$$Fonte:$=nKB*&&$$(revista)$25$de$junho$de$1983.!
$
Na$ secção$ >*n$" o" >)I&#T1-0'&$do$ >*G*,$ e$ seguindo$ a$ tendência$ que$ se$ tem$
vindo$a$verificar$nos$anos$anteriores,$os$conteúdos$são$cada$vez$mais$reduzidos,$pelo$
que$ apenas$ selecionamos$ um$ exemplo,$ este$ referente$ a$ um$ anúncio$ publicitário$ de$
preservativos$ da$ marca$ Durex$ apresentado$ na$ Figura$ 7.25.,$ e$ descrito$ como$ “o$
preservativo$ mais$ seguro$ de$ sempre$ a$ planear$ a$ família”.$ Trata-se$ de$ um$ produto$
novo,$ “o$ único$ a$ utilizar$ um$ lubrificante$ anticoncecional”,$ para$ alcançar$ a$ máxima$
segurança$ e$ uma$ maior$ sensibilidade$ (s/a,$ 1983:19).$ Este$ produto$ acaba$ por$ ser$ um$
reflexo$ das$ recentes$ preocupações$ sociais$ relativamente$ à$ contraceção$ e$ ao$
planeamento$familiar.$
$
$
323$
!
U6)5(*!ZM@AM!Durex%nu-form%extra%safe!
Fonte:">*G*,$19$de$outubro$de$1983.!
!
ZM@M`M@M!"%~(#!rock%
$
Ao$analisarmos$a$secção$3$-J$do$=nKB*&&$$encontramos,$mais$uma$vez,$artigos$sobre$a$
agenda$ de$ concertos$ de$ r$-J$ nacionais,$ assim$ como$ sobre$ o$ lançamento$ de$ novos$
discos$ de$ B$-J$ português.$ Encontramos$ ainda$ um$ artigo$ sobre$ o$ B$-J$ português$ na$
Figura$7.26.a),$porque$“não$existe,$portanto,$razão$para$negar$a$existência$de$um$B$-J$
feito$em$Portugal$e$por$portugueses,$desde$que$ele$seja$fruto$de$um$quotidiano$que$é$
o$nosso,$aplicado$a$uma$realidade$que$é$a$nossa,$sentimentalmente$ligado$aos$sonhos$
e$aos$desencantos$que$são$nossos”$(P.P.,$1983:$31).$É$de$notar,$por$fim,$a$presença$de$
anúncios$publicitários$ a$anunciar$ a$ venda$de$ instrumentos$musicais$ elétricos,$que$se$
popularizaram$ com$ o$ I$$.$do" B$-J$ português,$ como$ podemos$ observar$ na$ Figura$
7.26.b).$Portanto,$foi$impossível$isolar$Portugal$do$fenómeno$da$música$B$-J.$
9X&"1D$"K$%*.$&"0&$+'B"V$B#)L'+"%$".)1%$"*"$"()*"'-$1#*-*)"
1$" .)1%$," '-$1#*-*)" *." V$B#)L'+," KB01-0K'+.*1#*" 1$&" '1$&"
&*#*1#'," S" .*%0%'" ()*" &*" W$0" 'IB01%$" '$" .)1%$," K'&&$)" '" &*B"
0L)'+" '$" .)1%$2" =" '&" -$0&'&" *&#D$" +0L'%'&," &*n$" *" .f&0-'" *"
%B$L'&" #'.IE.," .'&" K*&&$'+.*1#*," K*1&$" ()*" %B$L'&" .*1$&,"
.'0&" &*n$" *" .f&0-'2$(Cristiano,$ 63$ anos,$ autor,$ vila$ Nova$ de$
Gaia).$
!
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$
324$
U6)5(*!ZM@=M!*B!r!4(%-5(*!7%!s(%-.t!4%(85)5•+!~B!N568*((*+!D1€8(6-*+!#!8*3~€3&!4(%758%+!-%3~%!
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$
$
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$
$
$
$$$Fonte:$=nKB*&&$$(revista),$8$de$janeiro$de$1983.$$$$$$$$Fonte:$=nKB*&&$$(revista),$12$de$novembro$de$1983.$
$
Neste$ ano$ na$ secção$ 3$-J" V$B#)L)M&" do$ >*G*$ encontramos$ alguns$ artigos$ de$
nomes$menos$retratados$no$jornal$até$à$data,$como$é$o$caso$de$!1#X10$";'B0'Cd*&$ou$
dos$‚)#$&"o"V$1#'KE&.$Assim,$na$Figura$7.27.a)$temos$António$Variações,$que$surge$em$
duas$ capas$ deste$ ano$ e$ o$ >*G*$ retrata-o$ como$ alguém$ “diferente”,$ que$ “tem$ nas$
expressões$ a$ marca$ do$ desafio,$ do$ jogo$ de$ imagens,$ da$ atração$ e$ da$ repulsa$
simultânea”$ (s/a,$ 1983:$ 4).$ Aquando$ do$ lançamento$ do$ seu$ primeiro$ disco$ !1i$" %'"
w)'B%',$o$jornal$descreve-o$como$“estranho,$misterioso,$provocador”$(s/a,$1983:$4),$o$
que$ não$ deixa$ de$ revelar$ algum$ preconceito$ por$ parte$ deste$ órgão$ de$ comunicação$
relativamente$àquilo$que$é$novo,$diferente$e$se$desvia$da$norma.$$
Já$os$ Xutos$&$ Pontapés$presentes$ na$Figura$ 7.27.b),$denominados$ por$“filhos$
ilegítimos$ do$ K)1J”$ são$ descritos$ pelo$ jornal$ como$ um$ “grupo$ que$ assume$ o$ 3$-J$
como$forma$de$contestação,$para$o$qual$“a$música$não$é$uma$profissão,$é$uma$função$
que$se$tornou$já$numa$necessidade”$(s/a,$1983:$18).$Neste$artigo$é$relembrado,$assim,$
o$ espírito$ contestatário$ da$ banda$ através$ da$ referência$ a$ episódios$ conflituosos$ em$
concertos,$ e$ associando-os$ a$ sentimentos$ de$ raiva,$ revolta$ e$ rebeldia,$ que$ reforçam$
uma$ posição$ de$ resistência$ face$ às$ normas$ sociais$ estabelecidas$ (Hebdige,$ 2004).$$
Note-se,$que$o$>*G*$publicou,$também,$um$suplemento$numa$das$suas$edições$do$mês$
de$junho,$exclusivamente$dedicado$ao$B$-J$português,$que$como$vimos,$foi$alvo$de$um$
$
325$
aceso$ debate$ no$ ano$ anterior.$ Esta$ função$ social$ e$ contestatária$ do$ B$-J$ é$ também$
partilhada$pelos$entrevistados.$
4"rock,"%*&%*"+$L$,"E").'"bB*'".)0#$"'IB'1L*1#*,"1D$"&*"&'I*"
$1%*"-$.*C'"*"$1%*"'-'I'2"4"rock"1D$"&*Bb"K$B"'-'&$,"()*"W$0"'"
.f&0-'"%*"B*W*BM1-0'"%$&"'1$&"&*&&*1#'"*"&*#*1#',"()*"-$1#01)$)"
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W)1%'.*1#'+"1$"&E-)+$"‚‚,"1D$"&*0"&*"&*Bb"1$"&E-)+$"‚‚<,".'&"$"
&E-)+$" ‚‚" &*." $" B$-J" #*B0'" &0%$" %0W*B*1#*.$ (Vasco,$ 60$ anos,$
jornalista,$Lisboa).!
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U6)5(*!ZM@ZM!*B!G08†06%!V*(6*z‡#+^!sG-(#768%!3*6+!053!)5*(7*?-%+8*+t!~B!_58%+!c!W%08*4€+^!-%3!(*6e*!
#!-%3!,%-.!
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Fonte:$>*G*,$30$de$março$de$1983.$$$$$$$$Fonte:$>*G*,$3$de$agosto$de$1983.!
!
Na$secção$3$-J"<1#*B1'-0$1'+$durante$o$ano$de$1983$destacamos$David$Bowie$
que$ surge$ em$ três$ capas,$ o$ aniversário$ de$ vinte$ anos$ dos$ ^U*" 3$++01L" >#$1*&$e,$
novamente,$a$recordação$de$duas$lendas$da$música$B$-JA$Jim$Morrison$e$Elvis$Presley.$
Na$ Figura$ 7.28.a)$ temos$ os$ ^U*" 3$++01L" >#$1*&,$ que,$ segundo$ o$ jornal,$ “se$ não$
$
326$
existissem,$teriam$de$ser$inventados”,$pois$permitiram$“o$aparecimento$de$nove$mil$e$
quinhentas$bandas$que$neles$foram$beber$a$inspiração$(s/a,$1983:$12)”.$Porém,$o$>*G*$
relembra$ também$ alguns$ episódios$ menos$ felizes$ da$ banda,$ nomeadamente$ alguns$
que$ envolveram$ “centenas$ de$ milhares$ de$ processos$ relativos$ a$ desmaios,$ suicídios,$
loucuras,$ zangas$ entre$ namorados,$ fugas$ de$ casa,$ assaltos$ à$ mão$ e$ máquina”$ (s/a,$
1983:$12),$realçando$os$comportamentos$menos$padronizados$do$grupo$e$associando-
os$a$alguma$marginalidade$e$delinquência.$$
Vemos$ na$ Figura$ 7.28.b)$ Jim$ Morrison,$ “o$ maior$ e$ mais$ fascinante$ mito$ da$
música$B$-J”,$que$é$relembrado$pelo$jornal$como$“um$K*BW$B.*B”$tão$notável$quanto$
obsceno,$ um$ alcoólico$ irrecuperável”$ (s/a,$ 1983:$ 30),$ o$ que$ mostra$ claramente$ uma$
abordagem$desviante$na$descrição$do$percurso$de$Jim$Morrison.$Sobre$Elvis$Presley,$
que$ surge$ na$ Figura$ 7.29.a),$ o$ jornal$ recorda$ um$ pouco$ da$ sua$ carreira,$ não$
esquecendo$ também$ episódios$ menos$ felizes,$ como$ quando$ teve$ um$ colapso$ pouco$
tempo$antes$da$sua$morte$ao$qual$o$jornal$designa$de$habituais$“acidentes$ocorridos$
com$ B$-J*B&”$ (J.G.,$ 1983:$ 16).$ É,$ também,$ evidente$ aqui,$ a$ expressão$ de$ um$
estereótipo$ relativamente$ aos$ estilos$ de$ vida$ dos$ músicos$ de$ B$-J" e$ à$ sua$
concetualização$como$W$+J"%*/0+[&$(Cohen,$2002).$$
Considerámos$ pertinente,$ também,$ o$ lançamento$ do$ álbum$ de$ Marianne$
Faithfull,$ que$ vemos$ na$ Figura$ 7.29.b).$ Marianne$ é$ apelidada$ de$ LB$)K0*”,$ descrita$
como$ex$namorada$do$lendário$líder$dos$^U*"3$++01L">#$1*&$e$comparada$a$Syd$Barrett,$
não$apenas$pela$veia$criativa,$mas$porque$“ambos$foram$drogados$convictos,$ambos$
permaneceram$ alguns$ anos$ em$ hospitais$ psiquiátricos,$ os$ dois$ estiveram$ perto$ da$
morte”$(Peixoto,$1983:$18).$Como$vemos,$a$propósito$do$lançamento$de$um$disco$de$
Marianne,$ o$ jornal$ aproveita$ para$ relembrar$ o$ percurso$ desviante$ da$ cantora,$
descrevendo-a$a$partir$de$uma$ perspetiva$de$$)#&0%*B"(Becker,$ 2008)$e$recorrendo$a$
uma$ narrativa,$ que$ permite$ criar$ e/ou$ reforçar$ essa$ identidade$ social$ da$ cantora$
(Pedersen,$Copes$&$Gashi,$2021).$
$
$
327$
U6)5(*!ZM@RM!*B!,%1160)!"8%0#+!}*•#3!@>!*0%+!~B!Y63!P%((6+%0^!*~+%158*3#08#!e6e%!
$
Fonte:$>*G*,$8$de$junho$de$1983.$ $ $$$$$$$$$$$$Fonte:$>*G*,$21$de$dezembro$de$1983.$
$
$
$
U6)5(*! ZM@<M! *B! Elvis% Presley:% um% mito% no!s8%4t! ~B! Marianne% Faithfull:% O% regresso% de% uma% se#1f*!
+#0f%(*t!
$
$
!
!
!
!
!
!
!
!
$
Fonte:$>*G*,$16$de$novembro$de$1983.$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$Fonte:$>*G*,$18$de$maio$de$1983.$
$
$
À$ semelhança$ do$ ano$ anterior,$ permanecem$ as$ mesmas$ preocupações$
relativamente$ ao$ tráfico$ de$ droga$ e$ ao$ apoio$ terapêutico$ aos$ toxicodependentes$ e$
continua$ a$ verificar-se$ a$ discussão$ de$ assuntos$ antes$ considerados$ tabu.$ Este$ ano$ o$
destaque$assenta$no$surgimento$e$disseminação$do$vírus$da$SIDA.$As$caracterizações$
desviantes$ de$ B$-J" &#'B&$ continuam$ a$ manifestar-se,$ como$ podemos$ ver$ no$ quadro$
síntese.$
$
328$
!
!!!!!!!U6)5(*!ZMX>M!"6+8#3*86•*z{%!7*+!8#3C86-*+!*~%(7*7*+!0%+!376*!
$
Fonte:$Autora.$
$
ZM@MAM!;<R`^!*!"O'G!-f#)*!W%(85)*1!
ZM@MAM;M!"%~(#!+5~+890-6*+!4+6-%*86e*+!#!+#$%!
$
No$ =nKB*&&$,$ a$ secção$ >)I&#T1-0'&$ revela,$ à$ semelhança$ dos$ anos$ anteriores,$ uma$
contínua$ preocupação$ com$ o$ combate$ ao$ tráfico$ de$ drogas$ no$ nosso$ país,$
especialmente$ através$ do$ desmantelamento$ de$ redes$ internacionais,$ de$ um$ maior$
D_W,D""J!
!"5~+890-6*+!
$Preocupão$social$e$política$
relativamente$ao$tráfico$de$drogas$
$Procupão$relativamente$aos$consumos,$
toxicodependência$e$reabilitação$
!"#$%!
$Debate$sobre$a$legalização$do$aborto$
$Início$da$disseminão$o$vírus$da$SIDA$na$
Europa$
"DZD!
!"#$%!#!+5~+890-6*+!
$Sexo$é$cada$vez$menos$um$tabu$
$Anúncio$publicitário$a$uma$marca$de$
preservativos$
D_W,D""J!
%Rock%
$O$B$-J"português$volta$a$ser$alvo$de$
destaque$
$Lançamento$de$discos$
$Divulgão$e$cobertura$de$concertos$
Anúncios$publicitários$de$venda$de$
instrumentos$musicais$elétricos$
"DZD!
!Rock!L*-6%0*1!
$Destaque$para$Annio$Variões$e$Xutos$
&$Pontapés$
!Rock!O08#(0*-6%0*1!
$Percurso$de$excessos$dos$The$Rolling$
Stones,$Jim$Morrison$e$Elvis$Presley!
Caracterização$desviante$de$Marianne$
Faithfull$
$
329$
controlo$ alfandegário$ e$ de$ uma$ cooperação$ mais$ forte$ entre$ forças$ policiais$
internacionais$na$luta$contra$esta$atividade.$Ainda$sobre$este$reforço$na$cooperação$é$
de$realçar$o$encontro$entre$os$ministros$da$Justiça$de$Portugal$e$de$Espanha,$com$o$
intuito$ de$ unir$ esforços$ “para$ combater$ o$ aumento$ do$ tráfico$ e$ consumo$ de$ droga$
verificado$ nos$ últimos$ anos$ na$ Península$ Ibérica”$ (Tristão,$ 1984:$ 5),$como$ vemos$ no$
artigo$apresentado$na$Figura$7.31.a).$$
Ainda$sobre$o$consumo$juvenil,$note-se$que$o$jornal$noticia$a$partir$da$Figura$
7.31.b),$que$o$tribunal$ de$Aveiro$iniciou$ o$ julgamento$de$“36$ jovens,$na$sua$maioria$
estudantes$ do$ ensino$ secundário,$ acusados$ de$ consumo$ e$ tráfico$ de$ droga”$ (C.A.,$
1984:$4).$Portanto,$verificamos$que$o$consumo$e$tráfico$deste$tipo$de$substâncias$já$se$
terá$alastrado$ às$camadas$ juvenis.$Constatamos,$ deste$ modo,$que$ esta$preocupação$
com$os$consumidores$e$toxicodependentes$resultou$na$criação$do$primeiro$Centro$de$
Apoio$ de$ Emergência$ Psicoterapêutica$ aos$ toxicómanos,$ a$ funcionar$ no$ Banco$ do$
Hospital$de$São$José,$em$Lisboa.$Nesta$matéria,$é$possível$ainda$encontrar$uma$notícia$
acerca$da$adesão$de$Portugal$ao$Grupo$Pompidou$no$âmbito$da$luta$contra$a$droga.$Se$
compararmos$esta$realidade$da$década$de$oitenta$com$a$atual,$podemos$concluir$que$
a$toxicodependência$tem$hoje$um$peso$menor$na$sociedade,$uma$vez$que$a$partir$da$
nossa$amostra$apuramos$que$mais$de$70%$não$consome$substâncias$ilícitas104.$Ainda$
neste$ ano,$ é$ importante$ referir$ a$ aprovação$ de$ uma$ campanha$ contra$ o$ abuso$ do$
tabaco$ e$ relativamente$ ao$ álcool,$ chamamos$ apenas$ a$ atenção$ para$ o$ aumento$ do$
álcool$nas$estradas$portuguesas.$
$
$
$
!
!
!
!
!
!
!
!
!
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
104$72,6% dos inquiridos não consome substâncias ilegais e desses, 83,2% não pretende experimentar.$
$
330$
U6)5(*!ZMX;M!*B!'(%)*^!%!-%((#7%(!6~€(6-%!~B!X=!…%e#0+!…51)*7%+!4%(!-%0+53%!7#!7(%)*!
Fonte:$=nKB*&&$,$5$de$outubro$de$1984.$Fonte:$=nKB*&&$,$4$de$fevereiro$de$1984.$
!
$ A$secção$>*n$$é,$mais$uma$vez,$fortemente$caracterizada$por$conteúdos$acerca$
da$ lei$ de$ despenalização$ do$ aborto$ em$ Portugal,$ que$ se$ encontrava$ em$ votação$ no$
momento.$A$este$respeito,$várias$organizações$de$mulheres$enviaram$um$comunicado$
ao$Presidente$da$República$exigindo$a$promulgação$da$lei.$Também$a$SIDA$continuou$a$
ser$matéria$de$trabalho$em$1984,$porque$foi$precisamente$neste$ano$que$se$confirmou$
o$primeiro$caso$da$doença$em$hospitais$portugueses.$Posteriormente,$o$jornal$revela$o$
surgimento$de$mais$casos$portugueses,$nomeadamente$de$“um$português$de$32$anos,$
homossexual,$que$viveu$emigrado$durante$dois$anos$num$país$da$América$do$Norte”$
(N.V.,$1984:$6),$como$vemos$na$Figura$7.32.a).$Aqui,$o$facto$de$a$orientação$sexual$do$
sujeito$ser$identificada,$poderá,$de$alguma$forma,$refletir$e,$posteriormente,$produzir$
algum$ tipo$ de$ estigma,$ que$ poderá$ conduzir$ os$ leitores$ a$ associar$ a$ doença$ à$
homossexualidade.$ Portanto,$ vemos$ que$ o$ poder$ social$ atribuído$ aos$ média$
compreende$a$possibilidade$de$um$determinado$órgão$de$comunicação$ser$capaz$de$
controlar$as$ações$dos$indivíduos$(Scott,$2007).$
Encontramos,$ igualmente,$ conteúdos$ que$ abordam$ a$ temática$ da$ educação$
sexual,$que$segundo$o$semanário$continuava$a$ser$um$tabu$no$nosso$país,$apesar$da$
aprovação$da$ lei$ que$previa$ o$ direito$à$ educação$ sexual$e$ o$ acesso$ao$ planeamento$
familiar.$O$conceito$de$sexologia$é$debatido$nas$páginas$deste$jornal$a$partir$da$Figura$
7.32.b),$em$virtude$ da$ realização$do$ I$ Congresso$Nacional$de$ Sexologia,$que$permite$
$
331$
concluir$ que$ nos$ encontrávamos,$ ainda,$ “na$ cauda$ da$ Europa”$ no$ estudo$ do$
comportamento$ sexual$ (Melo,$ 1984:$ 41).$ O$ =nKB*&&$$ divulga,$ ainda,$ a$ existência$ de$
uma$rede$portuguesa$de$prostituição$de$jovens$portuguesas$na$Galiza$e$a$realização$do$
Pornex$84,$uma$iniciativa$da$Universidade$Nova$que$promoveu$uma$exposição$sobre$
pornografia$e$um$olhar$renovado$sobre$velhos$tabus.$Em$suma,$assuntos$relacionados$
com$sexualidade$e$intimidade$são$cada$vez$mais$abordados$nas$páginas$deste$jornal,$o$
que$revela$uma$crescente$liberalização$de$costumes$e$abertura$de$mentalidades.$
!
U6)5(*!ZMX@M!*B!P*6+!53!-*+%!7#!"O'G!-%0}6(3*7%!#3!F6+~%*!~B!J!+#$%!7#!53!-%0)(#++%!
!
Fonte:$=nKB*&&$,$22$de$dezembro$de$1984.$$$ $Fonte:$=nKB*&&$"(revista),$17$de$novembro$de$1984.!
$
Já$ a$ secção$ >*n$" o" >)I&#T1-0'&$do$ >*G*$ continua$ a$ revelar-se$ pouco$
significativa,$ pelo$ menos,$ no$ que$ toca$ a$ exemplos$ explicitamente$ relacionados$ com$
este$ tema.$ No$ entanto,$ para$ este$ ano$ selecionámos$ estes$ dois$ exemplos:$ a$ Figura$
7.33.a),$que$ incide$ sobre$uma$ fotografia$de$ uma$ das$capas$ do$ >*G*$ acerca$ de$David$
Bowie,$que$revela$o$músico$numa$cena$de$intensa$intimidade$com$uma$mulher,$sob$o$
título$“As$fotos$proibidas$de$5U01'"w0B+[”$(s/a,$1984:$capa).$O$outro$exemplo$refere-se$
a$um$anúncio$publicitário$de$uma$bebida$alcoólica$destilada$ou$denominada$no$senso$
comum$por$bebida$branca,$a$Smirnoff,$que$como$vemos$na$Figura$7.33.b)$mostra$uma$
foto$de$uma$jovem$supostamente$sentada$sobre$uma$i)J*I$n,$juntamente$com$outros$
elementos$visuais$como$um$disco$de$vinil,$o$que$faz$desde$logo$uma$associação$entre$
música$e$álcool.$
$
$
332$
U6)5(*!ZMXXM!*B%David%Bowie:%o%canto%do%vampiro!~B!Que%bebes,%~*~h?!
$
$
$
$
$
!
!
!
!
$
Fonte:$>*G*,$22$de$fevereiro$de$1984.$$ $ $ $ Fonte:$>*G*,$20$de$junho$de$1984.!
!
ZM@MAM@M!"%~(#!%!rock!
$
A$secção$3$-J$do$=nKB*&&$$é$também$ela,$à$semelhança$dos$anos$anteriores,$marcada$
por$lançamentos$de$discos.$Muito$importante$nesta$secção$é$ainda$o$conteúdo$relativo$
às$ suspeitas$ ainda$ não$ confirmadas$ de$ SIDA$ na$ morte$ de$ António$ Variações,$ como$
podemos$ ver$ na$ Figura$ 7.34.a),$ uma$ vez$ que$ “o$ estado$ de$ debilidade$ física$ a$ que$ o$
artista$ chegou$ e$ a$ sintomatologia$ presentada$ durante$ o$ internamento$ são$ muito$
idênticos$aos$casos$de$SIDA”$(s/a,$1984:$capa).$No$que$toca$ao$B$-J$internacional$é$de$
realçar$ a$ publicação$ de$ um$ artigo$ acerca$ da$ Nina$ Hagen$ na$ Figura$ 7.34.b),$
caracterizada$como$“a$“diva”$do$B$-J”,$“uma$cantora$de$B$-J$que$cantava$com$voz$de$
ópera;$uma$provocadora;$uma$mulher$dirigindo$um$grupo$de$homens”,$a$propósito$do$
seu$concerto$em$Portugal$(A.M.S.,$ 1984:$ 3).$Esta$descrição$constitui,$de$ certo$modo,$
um$contributo$positivo$para$colmatar$a$supremacia$masculina$no$B$-J.$
$
$
$
$
$
$
333$
U6)5(*!ZMX`M!*B!G08†06%!V*(6*z‡#+!e|863*!7#!"O'Gu!~B!L60*!K*)#0&!*!s76e*t!7%!,%-.!
!
!
!
!
!
!
!
!
!
$
$
Fonte:$=nKB*&&$,$16$de$junho$de$1984.$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$Fonte:$=nKB*&&$$(revista),$24$de$março$de$1984.!
$
No$>*G*,$a$secção$3$-J"V$B#)L)M&$exibe$artigos$sobre$nomes$já$conhecidos$do$
B$-J$nacional,$como$os$8_Y$ou$os$w93.$Na$Figura$7.35.a),$os$8_Y,$“o$grupo$maldito”,$
tenta$refazer-se$após$algumas$saídas$e$entradas$de$músicos$e$“entre$o$álcool$inevitável$
e$a$grande$desilusão$das$palavras$gastas$sem$troco”$(Duarte,$1984:$18).$No$corpo$do$
artigo,$o$jornal$relembra$um$incidente$recente$num$concerto$em$que$“por$pouco,$não$
se$atingiu$a$violência$física$por$via$do$cansaço$e$da$frustração”$(Duarte,$1984:$18),$o$
que$volta$a$associar$ao$B$-J$características$desviantes$como$agressividade,$rebeldia$e$
até$violência,$além$do$consumo$excessivo$de$álcool.$$
Os$ w93$ surgem$ na$ Figura$ 7.35.b)$ em$ virtude$ do$ seu$ espírito$ interventivo$ e$
inconveniente,$confessando$que,$muitas$vezes,$esse$espírito$os$leva$a$sofrer$ações$de$
censura,$exemplificando$que$“há$sempre$boas$desculpas,$desde$a$entrevista$que$não$
cabe$até$à$montagem$televisiva$onde$o$mais$importante$fica$de$fora”$e$acrescentando$
já$terem$sido$banidos$da$rádio$(Gobern,$1984:$20).$Aqui,$o$>*G*$coloca-se$na$posição$
de$ divulgar$ as$ posições$ da$ banda,$ que$ reclamam$ um$ tratamento$ diferente$ e$ uma$
cobertura$mediática$de$censura,$face$à$natureza$dos$seus$discursos$provocatórios.$Esta$
posição$é$já$um$reflexo$de$um$estigma$social,$que$os$próprios$meios$de$comunicação$
ajudaram$ a$ criar$ na$ banda$ e$ que$ se$ estende,$ depois,$ à$ ação$ de$ outras$ entidades,$
nomeadamente$através$de$exercícios$de$censura$e$penalização$por$parte$das$forças$de$
$
334$
segurança,$que$assumem$um$papel$de$guardiões$morais$da$sociedade$(Cohen,$2002).$
Neste$contexto,$constatamos$que$este$tipo$de$abordagens$mediáticas$face$aos$atores$
que$circulam$na$cena$B$-J$nacional,$e$que$são$criadas$através$de$narrativas$culturais,$
acabam$por$gerar$classificações$sociais$mais$amplas.$De$acordo$com$Pedersen,$Copes$E$
Gashi$ (2021),$ esta$ prática$ resulta,$ inevitavelmente,$ na$ transformação$ de$ atores$
abstratos$ em$ tipos$ sociais$ genéricos,$ que$ neste$ caso,$ incorporam$ características$
desviantes$associadas$a$este$género$musical.$
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()'1%$"&)I0.$&"'$"K'+-$"*&#b/'.$&"-$."$"KfI+0-$"*"W0Z*.$&"'"
B*/$+#'" *" #$%'" '" L*1#*" 'K$0$)" '" -')&'," .'&" %*)" K'B'" $" #$B#$,"
K$B()*" *+*&" *1#B'B'." 1$" K'+-$" K'B'" 1$&" -'+'B2$(Fernando,$ 38$
anos,$músico,$Braga).$
Há$também$um$conteúdo$sobre$os$‚)#$&"o"V$1#'KE&$visível$na$Figura$7.36.a),$
onde$a$banda$surge$associada$à$defesa$de$uma$atitude$face$ao$sistema,$preservando$
sempre$ “a$ liberdade$ (levada$ às$ últimas$ consequências)$ como$ única$ e$ derradeira$
resposta$às$ estruturas$ repressivas$da$ sociedade”$ (Pego,$ 1984:$ 13).$ De$ acordo$com$ o$
jornal$“é,$talvez,$esta$rebeldia$que$arrasta$atrás$da$banda$uma$legião$de$incondicionais$
seguidores”$(Pego,$1984:$13).$Como$vemos,$o$jornal$reforça,$mais$uma$vez,$a$narrativa$
cultural$ (Pedersen,$ Copes$ &$ Gashi,$ 2021)$ do$ B$-J$ como$ veículo$ de$ sentimentos$ de$
rebeldia,$ revolta$ e$ resistência$ face$ à$ ideologia$ dominante$ (Hebdige,$ 1979)$ com$ a$
música$B$-J.$$
Finalmente,$ durante$ este$ ano,$ o$ >*G*$ publica$ mais$ um$ exemplo$ importante$
acerca$do$renascimento$do$B$-J$português,$que$nos$remete$a$Figura$7.36.b),$onde$são$
mencionados$alguns$nomes$importantes$na$história$do$B$-J$nacional,$mas$também$se$
reflete$ acerca$ do$ papel$ do$ B$-J$ no$ ano$ em$ questão,$ defendendo-se$ que$ “cabe$ à$
juventude$portuguesa$deste$começo$da$década$de$80,$decidir$se$o$B$-J$é$uma$forma$
de$expressão$de$protesto$contra$uma$sociedade$alienante,$ou$um$fator$de$alienação...”$
(Gobern,$ 1984:$ 14).$ Aqui,$ o$ jornal$ coloca$ o$ B$-J" novamente$ numa$ posição$ de$
antagonismo$contra$as$estruturas$sociais$dominantes.$
$
335$
U6)5(*!ZMXAM!*B!L%e*+!-*(*+!0%+!2KU!~B!NL,!e%18*3!‚!-*()*^!sF#e*3%+!#+8*!~(60-*7#6(*!3568%!*!+€(6%t!
$
$
$
$
$
$
$
$
$
$
Fonte:$>*G*,$26$de$setembro$de$1984.$$ $ $ $$Fonte:$>*G*,$23$de$maio$de$1984.$
!
!
U6)5(*!ZMX=M!*B!,#3*(!*%+!_58%+!#!*%+!W%08*4€+!~B!,%-.!4%(85)5•+!e%18*!*!#08(*(!0*!7*0z*!
!
!
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!
!
!
!
!
!
Fonte:$>*G*,$1$de$agosto$de$1984.$$$ $ $$$$$$$$$$$$$Fonte:$>*G*,$25$de$janeiro$de$1984.!
!
Na$secção$3$-J"<1#*B1'-0$1'+$o$>*G*"dá$relevância$a$partir$da$Figura$7.37.a)$ao$
facto$ de$ uma$ banda$ como$ os$ 8H,$ “que$ será$ o$ melhor$ agrupamento$ dos$ anos$ 80”,$
preferir$manter$a$sua$residência$em$Dublin,$em$vez$de$ceder$“às$pressões$da$indústria$
no$ sentido$ de$ passarem$ a$ residir$ em$ Londres”$ (s/a,$ 1984:$ 10).$ Já$ neste$ período,$ o$
jornal$dava$conta$do$sentido$interventivo$e$participativo$da$banda,$logo$a$partir$do$seu$
nome$“U2,$transcrição$fonética$de$l$)"#$$$(também$tu$ou$também$vocês,$traduzido$à$
$
336$
letra)”,$ mas$ também$ do$ álbum$ |'B,$ um$ “disco$ do$ desencanto$ e$ da$ tomada$ de$
consciência$de$que$o$romantismo,$por$si$só,$não$leva$a$parte$alguma”$(s/a,$1984:$10).$
Como$vemos,$a$banda$é$relacionada$a$atitudes$de$resistência,$revolta$e$ intervenção,$
que$ popularmente$ se$ encontram$ associados$ às$ macro-narrativas$ culturais$ veiculadas$
pela$música$B$-J"(Loseke,$2007).$Já$a$vocalista$dos$^U*"VB*#*1%*B&,$Chrissie$Hynde,$que$
vemos$na$Figura$7.37.b),$representa$para$o$semanário$“a$voz$sensual$de$uma$mulher$
madura”$e$é$apresentada$como$“a$senhora$do$couro$e$das$rendas$(70&&"\*'#U*B"'1%"
\'-*),$que$prende$as$atenções,$independentemente$do$virtuosismo$ou$dos$“trabalhos$
forçados”$ dos$ seus$ companheiros”$ (Gobern,$ 1984:$ 10).$ Podemos$ encontrar$ neste$
ponto$algum$preconceito$relativamente$à$descrição$que$fazem$da$cantora,$na$medida$
em$que$se$focam$em$aspetos$físicos$de$uma$figura$feminina,$descredibilizando$a$sua$
qualidade$profissional.$Esta$situação$é-nos$também$relatada$nas$entrevistas.$
{)'1%$" *B'" .'0&" 1$/'" &0.," I'&#'1#*," ()'+()*B" K*&&$'" ()*"
#0/*&&*" '+L).'" -$0&'" %0W*B*1#*" $)" -$B#'&&*" $" -'I*+$" $)" )&'&&*"
).'" B$)K'" .'0&" -)B#'" $)" .'0&" i)&#'222U'/0'" .)0#'" .0&$L010'" *"
.)0#$"U$.*."'"%0Z*B"-$0&'&" *" .)+U*B*&"#'.IE.,".'&"0&&$"*B'"
WB)#$" %'" EK$-'2" _$i*" *." %0'" E" I$." /*B" '&" .0f%'&" %*" -'+Cd*&,"
1*."&*0"$"()*"E"()*"*+'&"$)/*.,".'&"1$".*)"#*.K$"&*"'1%'&&*"
'&&0." 1D$" K$%0'" &'0B" S" B)'," K$B()*" *B'" +$L$" 01&)+#'%'" $)"
'K'+K'%'" *" K'B*-*F.*" 'L$B'" ()*" '&" -$0&'&" *&#D$" .)0#$" .'0&"
#B'1()0+'&2$(Amélia,$55$anos,$música,$Porto).$
$
O$ mesmo$ artigo,$ ao$ abordar$ a$ morte$ próxima$ de$ dois$ ex-membros$ da$ banda$
escreve$que$$
.$B#$&"K$B" '-0%*1#*" $)"K$B"*n-*&&$,"1D$"E"-$0&'"()*"W'+#*" '$"
B$-Jj" *" B*+*.IB'," '01%'," '+L)1&" *n*.K+$&" #BbL0-$&" -$.$" $" %*"
h€$U1" p$1U'.," *n-*&&$" %*" b+-$$+‡"^0." p)-J+*l," $/*B%$&*‡" <'1"
5)B#0&," &)0-c%0$" K$B" *1W$B-'.*1#$‡" €0.0" _*1%B0n," *n-*&&$" %*"
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'-0%*1#'+"eag‡"p$1">-$##"b+-$$+,">0%";0-0$)&,"$/*B%$&*222$(Gobern,$
1984:$10).""
Encontramos$ aqui$ uma$ afirmação$ evidente$ do$ processo$ de$ etiquetagem$
manifestado$pelo$jornal$perante$os$músicos$de$B$-J$e$a$prática$de$comportamentos$de$
excesso$ relacionados$ com$ o$ consumo$ de$ drogas.$ Destacamos$ também$ este$ ano$ a$
$
337$
presença$de$duas$vozes$femininas:$Nina$Hagen$e$Siouxsie$Sioux,$que$vêm$a$Portugal.$
Particularmente,$na$Figura$7.38.a)$ vemos$Nina$Hagen,$“uma$ cantora$de$excessos,$de$
êxito$ e$ de$ passado”$ (Gobern,$ 1984:$ 8),$ volta$ a$ Portugal$ para$ mais$ três$ concertos.$ O$
>*G*$caracteriza$a$cantora$pelas$“suas$atitudes$desabridas,$provocadoras,$inesperadas,$
subversivas”,$nomeadamente$realçando$o$facto$de$ela$dizer$que$queria$mostrar-se$nua$
a$cantar$B$-J$e$não$a$deixarem.$Devido$à$sua$excentricidade,$“o$disco$provocou$uma$
tremenda$ onda$ de$ choque”$ e$ os$ seus$ “caminhos$ do$ escândalo”$ acabaram$ por$
transformá-la$ numa$ andeira$ privilegiada$ da$ inquietude$ juvenil”$ (Gobern,$ 1984:$ 8).$ O$
jornal$ exalta,$ assim,$ a$ diferença$ de$ Nina$ Hagen$ relativamente$ ao$ comportamento$
padronizado$ da$ população$ em$ geral,$ na$ medida$ em$ que$ acentua$ as$ suas$
excentricidades$e$a$sua$vocação$antissistema,$apresentando-a$como$uma$$)#&0%*B"face"
à$sociedade$estabelecida"(Elias$&$Scotson,$2000).$$
Na$ Figura$ 7.38.b),$ a$ propósito$ do$ lançamento$ de$ uma$ compilação$ de$ Eric$
Clapton,$o$Se7e$aproveita$para$escrever$sobre$o$percurso$do$músico,$incluindo$nele$o$
retrato$ de$ “um$ dos$ vagabundos$ mais$ prolíferos$ dos$ I+)*&$e$ do$ B$-J$ britânico”$ e$
apelidando-o$ de$ “viciado$ em$ heroína”$ durante$ um$ período$ e$ “com$ peso$ de$ alguns$
vícios”$na$sua$bagagem$(Gobern,$1984:$12),$voltando$a$colocar$em$evidência$consumos$
e$excessos$de$músicos$de$B$-J.$De$facto,$estes$rótulos$aplicados$ao$B$-J,$que$os$média$
portugueses$ também$ ajudam$ a$ disseminar$ na$ sociedade,$ acabam$ por$ ser$ aceites$ no$
imaginário$social$e$reproduzidos$nas$práticas$de$interação$quotidianas.$Esta$realidade$
foi-nos$confirmada$no$inquérito$aplicado,$mesmo$que$para$muitos$dos$entrevistados,$
como$vimos,$não$corresponda$aos$seus$reais$estilos$de$vida.$Tratam-se$de$narrativas$
culturais,$ que$ influenciam$ e$ moldam$ as$ próprias$ identidades$ individuais$ destes$
indivíduos$ (Pedersen,$ Copes$ &$ Gashi,$ 2021).$ Como$ consequência,$ estas$ etiquetas$
resultam$em$processos$de$estigmatização$social$(Goffman,$1982)$também$vivenciados$
pelos$nossos$entrevistados.$
>0.,"1$"01c-0$,"1$&"'1$&"$0#*1#',"&*1#0'"%*&-$1W0'1C'"%'"K'B#*"%*"
L'i$&" ()*" *)" ib" 1D$" -)B#0'" .)0#$," ()*" *B'." %$&" I'1-$&" *"
-$.K'1U0'&"%*"&*L)B$&"*"'01%'"U$i*"&01#$"0&&$2"!".'1*0B'"-$.$"
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.'1*0B'&,".'&"1D$"#'1#$"-$.$"*B'"1'"'+#)B'2$(Tadeu,$52$anos,$
músico,$Seixal).$
$
338$
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0.'L*." *&#*B*$#0K'%'" %*" W*0$&," %)B$&," .')&," .'+)-$&" *"
%B$L'%$&2"5+'B$,"()*"-$.$"*."#)%$,"U'/0'")."W)1%$"%*"B'ZD$,"
K$B"$"KBXKB0$"-$.K$B#'.*1#$"%$"star$system"$)"%'&"K*&&$'&"()*"
01#*LB'/'." $" star$ system"*." V$B#)L'+," *B'" #'.IE."
B*+'#0/'.*1#*"%0W*B*1#*2"4)"&*i',"1D$"U'/0'".f&0-$&".0+0$1bB0$&"
S" -$1#'" %'" .f&0-'" $)" &*" U'/0'," *B'." .)0#$" K$)-$&," K$B#'1#$,"
'()0+$" ()*" *)" '-U$" &$IB*" *&#*" +*.'" E" ()*" 0.K$B#b.$&" )."
I$-'%01U$"0&&$2$(Artur,$57$anos,$músico,$Lisboa).$
$
U6)5(*!ZMXZM!*B!2@^!%!,%-.!7%+!*0%+!R>!~B!W(#8#07#(+^!,#8(*8%!7#!53!)(54%!-%3!+#0f%(*!
$
$
Fonte:$>*G*,$22$de$janeiro$de$1984.$ $ $$$$$$$$$$$$$$Fonte:$>*G*,$16$de$maio$de$1984.$
$
U6)5(*!ZMXRM!*B!L60*!K*)#0^!D08(#!'#5+!#!%!'6*~%!~B!D(6-!E1*48%0^!*!N568*((*!7%!(%-.!
$
$
!
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!
!
!
!
!
!
!
Fonte:$>*G*,$21$de$março$de$1984.$$ $ $$$$$$$$$$$$$Fonte:$>*G*,$17$de$outubro$de$1984.!
!
$
339$
$ 1984$continua$ a$ ser$ um$ano,$ que$ revela$uma$ consolidação$ das$ preocupações$
face$ao$consumo$e$tráfico$de$drogas,$mas$com$a$tónica$cada$vez$maior$na$importância$
da$reabilitação.$É$de$notar,$que$foi$este$ano$que$a$SIDA$chegou$ao$nosso$país.$Segue-se$
o$quadro$síntese.$
$
!!!!!!!!U6)5(*!ZMX<M!"6+8#3*86•*z{%!7*+!8#3C86-*+!*~%(7*7*+!0%+!3€76*!
$$$$$$$Fonte:$Autora.$
$
!
!
D_W,D""J!
!"5~+890-6*+!
$Preocupão$social$e$política$
relativamente$ao$tráfico$de$drogas$
$Preocupão$relativamente$aos$
consumos,$toxicodependência$e$
reabilitação$
!"#$%!
$SIDA$chega$a$Portugal$
Importância$da$educão$sexual$
"DZD!
!"#$%!#!+5~+890-6*+!
$Sessão$fotográfica$íntima$de$David$Bowie$
$Anúncio$publicitário$a$uma$bebida$
alcóolica$
D_W,D""J!
%Rock%
$Suspeitas$não$confirmadas$de$SIDA$na$
morte$de$Annio$Variões$
$Lançamento$de$discos$
$Divulgão$e$cobertura$de$concertos$
$Caracterização$positiva$de$Nina$Hagen$
"DZD!
!Rock!L*-6%0*1!
$Destaque$para$UHF,$GNR$e$Xutos$&$
Pontapés$
Renascimento$do$B$-J$português$
!Rock!O08#(0*-6%0*1!
$Destaque$para$os$U2!
$Caracterização$machista$de$Chrissie$
Hynde$
$Percurso$de$excessos$de$Nina$Hagen$e$Eric$
Clapton!
$
340$
ZM@M=M!;<RA&!,,V&!%+!E%0-5(+%+!7#!P„+6-*!P%7#(0*!#!*!e6+6~6167*7#!
ZM@M=M;M!"%~(#!+5~+890-6*+!4+6-%*86e*+!#!+#$%!!
!
A$ secção$ >)I&#T1-0'&$do$ =nKB*&&$$ volta$ a$ focar-se$ no$ combate$ ao$ tráfico$ de$ drogas$
através$do$desmantelamento$de$redes$a$nível$nacional$e$internacional,$como$podemos$
ver,$ por$ exemplo,$ na$ notícia$ da$ Figura$ 7.40.a),$ que$ nos$ dá$ conta$ de$ um$ taxista$ de$
Tavira$ que$ era$ “aparentemente$ uma$ das$ figuras$ mais$ importantes”$ de$ uma$ rede$
internacional$de$droga,$“cuja$cabeça$da$organização$estaria,$em$princípio,$neste$país”$
(J.C.B.,$1985:$7).$Deparamo-nos$com$investigações$que$incidiram$em$plantações$ilegais$
em$território$nacional$e$observamos,$igualmente,$que$o$controlo$rodoviário$continua$a$
ser$uma$estratégia$de$controlo$praticada$em$Portugal.$Neste$âmbito,$o$jornal$revela,$
ainda,$através$da$notícia$reproduzida$na$Figura$7.40.b),$que$os$condutores$portugueses$
continuam$a$ beber$em$ excesso,$particularmente$ “as$ pessoas$de$ entre$os$ 22$e$ os$ 30$
anos”$ (s/a,$ 1985:$ 2),$ ou$ seja,$ jovens.$ Também$ no$ questionário$ aplicado,$ verificamos$
que$cerca$de$80%$dos$inquiridos$consome$álcool105.$
$
U6)5(*!ZM`>M!*B!Q*$6+8*!-%075•6*!(#7#!7#!7(%)*!~B!E%0758%(#+!-%08605*3!*!ˆˆ~#~#(!~#3‰‰!
$
!
Fonte:$=nKB*&&$,$31$de$agosto$de$1985.$$ $$$$$$$$Fonte:$=nKB*&&$,$6$de$julho$de$1985.!
!
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
105$$79,9% dos inquiridos consome bebidas alcoólicas. Entre estes, 39,9% fá-lo de forma ocasional..
$
341$
Na$ secção$ >*n$" deste$ semanário,$ a$ SIDA$ volta$ a$ ser$ tema$ de$ destaque,$ mas$
também$ o$ aborto.$ Assim,$ verificamos$ a$ existência$ já$ de$ sete$ casos$ do$ vírus$
confirmados$nos$hospitais$portugueses,$número$preocupante$para$o$período,$mas$não$
considerado$“alarmante”$para$os$especialistas,$como$podemos$comprovar$pela$Figura$
7.41.a),$ “já$ que$ as$ percentagens$ de$ casos$ por$ milhão$ de$ habitantes$ verificadas$ em$
vários$países$com$um$figurino$económico-social$idêntico$ao$nosso,$como$é$o$caso$de$
Espanha,$ são$ substancialmente$ superiores”$ (s/a,$ 1985:$ capa).$ A$ importância$ deste$
tema$para$a$sociedade$portuguesa$reflete-se$na$organização$de$um$debate$televisivo$
na$ estação$ pública,$ “no$ qual$ participarão$ vários$ especialistas$ portugueses$ que$ serão$
convidados$a$comentar$um$filme$sobre$a$doença$realizado$nos$EUA”$(s/a,$1985:$24),$
como$se$pode$ver$a$seguir$na$Figura$7.41.b).$Ainda$sobre$este$tema,$o$jornal$informa$
os$ leitores$ sobre$ a$ morte$ da$ primeira$ criança$ portuguesa$ vítima$ de$ SIDA$ e,$
posteriormente,$ a$ confirmação$ de$ novas$ infeções,$ totalizando$ 27$ casos$ do$ vírus$ no$
nosso$ país.$ A$ lei$ do$ aborto$ é$ novamente$ votada$ favoravelmente$ pelo$ Tribunal$
Constitucional$e$o$semanário$alerta$a$este$propósito,$para$o$facto$de$14$mil$jovens$com$
idades$compreendidas$entre$os$14$os$25$anos$já$terem$abortado.$$
$
U6)5(*!ZM`;M!*B!"#8#!-*+%+!7#!"O'G!-%0}6(3*7%+!0%+!f%+468*6+!~B!'#~*8#!+%~(#!*!"O'G!ƒ5608*?}#6(*!0*!
,QW!
$
$
$
!
$
Fonte:$=nKB*&&$,$5$de$abril$de$1985.$$ $ $ $$Fonte:$=nKB*&&$,$21$de$setembro$de$1985.$
!
A$ secção$ >*n$" o" >)I&#T1-0'&$do$ >*G*$ foi$ mais$ abundante$ de$ exemplos$
pertinentes$durante$este$ano.$Assim,$além$das$fotografias$a$envolver$alguma$nudez$na$
$
342$
capa$ em$ diferentes$ edições$ jornais,$ verificamos$ também$ a$ presença$ de$ artigos$
desenvolvidos$acerca$ de$temáticas$ que$se$ enquadram$nesta$ secção.$Falamos,$ então,$
das$ imagens$ que$ vemos$ na$ Figura$ 7.42.a)$ de$ Madonna$ nua$ “e$ sem$ preconceitos$
morais”,$ em$ virtude$ da$ sua$ participação$ num$ filme,$ ao$ que$ o$ jornal$ acrescenta$ de$
forma$ provocatória,$ que$ “não$ foi$ como$ uma$ virgem$ que$ ela$ pousou$ para$ este$
conhecido$fotógrafo”$(Pereira,$1985:$14).$$
Também$o$vírus$da$SIDA$é$destaque$durante$este$ano,$nomeadamente$no$meio$
cinematográfico$de$Hollywood,$depois$da$doença$ter$sido$diagnosticada$ao$ator$Rock$
Hudson.$ De$ acordo$ com$ o$ semanário$ e$ a$ partir$ do$ artigo$ apresentado$ na$ Figura$
7.42.b),$ “a$ “meca”$ do$ Cinema$ alberga$ uma$ enorme$ comunidade$ L'l,$ mas$ a$ já$
chamada$ “psicose$ do$ SIDA”,$ alastrou$ na$ cidade$ por$ razões$ que$ têm$ a$ ver$ com$ o$
segredo$ de$ que$ muitas$ vedetas$ estariam$ a$ revestir$ a$ eventualidade$ de$ terem$ sido$
contaminadas$pela$doença”$(s/a,$1985:$7).$Podemos$encontrar$algum$receio$no$modo$
como$ este$ assunto$ é$ apresentado,$ assim$ como$ uma$ vez$ mais$ a$ associação$ clara$ da$
SIDA$à$comunidade$homossexual,$especialmente$masculina,$no$que$toca$ao$contágio$
desta$doença.$Talvez$este$pânico$moral$(Cohen,$2002)$acerca$da$SIDA$tenha$resultado$
neste$ artigo$ muito$ importante$ sobre$ sexologia,$ que$ podemos$ ver$ na$ Figura$ 7.43.a),$
que$ informa$ os$ leitores$ que$ o$ uso$ do$ preservativo$ aumentou$ e$ se$ encontra$ muito$
próximo$ do$ uso$ da$ pílula,$ uma$ vez$ que$ “os$ efeitos$ secundários$ provocados$ pelos$
métodos$químicos$de$anticonceção$acabaram,$assim,$por$levar$a$um$novo$e$crescente$
consumo$de$preservativos”$(s/a,$1985:$22).$$
$Verificamos,$também,$mais$um$anúncio$publicitário$à$venda$de$livros$de$teor$
sexual,$ desta$ vez$ sobre$ sadomasoquismo.$ O$ que$ nos$ leva$ a$ crer,$ que$ apesar$ do$
interesse$neste$tipo$de$literatura$educativa,$os$tabus$e$constrangimentos$sociais$para$
os$ obter$ física$ e$ publicamente$ ainda$ permanecem.$ Selecionámos,$ ainda,$ mais$ um$
anúncio$publicitário$pertinente$sobre$uma$marca$de$tabaco,$que$em$letras$pequeninas$
já$ contém$ o$ aviso$ a$ informar$ que$ “o$ Governo$ adverte$ que$ o$ uso$ de$ tabaco$ pode$
prejudicar$a$saúde”$(s/a,$1985:$XV),$como$nos$confirma$a$Figura$7.43.b).$
$
$
$
343$
U6)5(*!ZM`@M!*B%Madonna:%Como%uma%virgem?!~B!SIDA%agita%Hollywood!
$
$
!
!
!
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$
Fonte:$>*G*,$25$de$setembro$de$1985.$$ $$ $ Fonte:$>*G*,$28$de$agosto$de$1985.$
$
U6)5(*!ZM`XM!*B!W(#+#(e*86e%!*1-*0z*!4|151*!~B!V*13%08^!G!%4z{%!-%3!-1*++#M!
!
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$
$
Fonte:$>*G*,$4$de$dezembro$de$1985.$ $ $$ Fonte:$>*G*,$4$de$dezembro$de$1985.!
$
ZM@M=M@M!"%~(#!%!rock!
$
A$ secção$ 3$-J" de$ 1985$ do$ =nKB*&&$$ apresenta$ dois$ temas$ que$ foram$ alvo$ de$ uma$
maior$ mediatização$ por$ parte$ do$ jornal:$ a$ realização$ do$Live$ Aid$ e$ a$ importância$ do$
Rock$Rendez-Vous$ e$ dos$ seus$ Concursos$de$ Música$ Moderna.$Relativamente$ ao$ Live$
Aid,$é$noticiado$através$da$Figura$7.44.a),$que$a$“Etiópia$motiva$maior$concerto$B$-J$de$
$
344$
sempre”,$a$decorrer$em$simultâneo$em$Londres$e$Filadélfia$no$mês$seguinte$e$ “será$
transmitido$ através$ de$ sete$ satélites$ para$ um$ total$ aproximado$ de$ mil$ milhões$ de$
telespetadores$ do$ mundo$ inteiro”$ (Guerreiro,$ 1985:$ 13).$ Este$ evento$ constituiu$ um$
marco$na$música$mundial$e$relembrou$o$poder$interventivo$e$social$desta$arte.$Sobre$o$
RRV$ encontramos$ diferentes$ conteúdos$ alusivos$ ao$ concurso,$ quer$ na$ agenda,$ quer$
em$ artigos,$ nomeadamente$ na$ Figura$ 7.44.b)$ acerca$ do$ conceito$ do$ espaço$ em$ si,$
porque$“é$do$RRV$(e$não$do$Coliseu)$que$as$novidades$podem$surgir”$(Falcão,$1985:$
26).$$
Internacionalmente,$destacamos$a$referência$à$primeira$edição$do$Rock$in$Rio$
na$ Figura$ 7.45.a),$ “o$ festival$ que$ atraiu$ ao$ Rio$ de$ Janeiro$ mais$ de$ um$ milhão$ de$
pessoas$“$(Freaza,$1985:$28)$e$destacamos,$ainda,$um$artigo$exposto$na$Figura$7.45.b)$
acerca$ das$ novas$ mulheres$ no$ B$-J,$ em$ virtude$ de$ até$ ao$ momento$ “nunca$ tantas$
mulheres$ gravaram$ discos$ e$ nunca$ tantas$ obtiveram$ êxitos$ tão$ grandes$ em$ todo$ o$
mundo”$(s/a,$1985:$32),$o$que$revela$uma$crescente$permeabilização$das$mulheres$nos$
espaços$da$música$B$-J,$outrora$quase$exclusivos$do$universo$masculino.$
$
U6)5(*!ZM``M!*B!D86†46*!3%86e*!3*6%(!-%0-#(8%!(%-.!7#!+#34(#!~B!,%-.!,#07#•!V%5+^!%!%58(%!}#+86e*1!
$
$
Fonte:$=nKB*&&$,$15$de$junho$de$1985..$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$Fonte:$=nKB*&&$$(revista),$9$de$março$de$1985.$
!$
$
345$
U6)5(*!ZM`AM!*B%Dez%dias%de%(%-.%na%terra%do%samba!~B!As%novas%mulheres%do%(%-.!
!
$
$
$
Fonte:$=nKB*&&$"(Revista),$19$de$janeiro$de$1985.$$$$$$$$FonteA"=nKB*&&$$(Revista),$30$de$março$de$1985.$
$
Na$secção$3$-J"V$B#)L)M&"do$>*G*"selecionamos$artigos$sobre$os$3b%0$"7'-'),$
os$ 8_Y" e$ Rui$ Veloso.$ Na$ Figura$ 7.46.a)$ vemos$ os$ 3b%0$" 7'-'),$ “um$ grupo$
intransigente$e$coerente”$lança$disco$novo$e$é$assumido$pelo$jornal$como$uma$banda$
sempre$ pronta$ a$ “remar$ contra$ a$ maré”$ e$ “marcada$ pelas$ mil$ e$ uma$ esquinas$ dos$
recantos$da$cidade”$(Gobern,$1985:$11).$No$fundo,$trata-se$de$uma$música$“esmagada$
pelo$cinzento$da$cidade”,$que$pode$ser$também$“uma$atitude”$(Gobern,$1985:$11),$que$
corresponde$ à$ faceta$ de$ resistência$ e$ intervenção$ características$ da$ cultura$ B$-J2$Os$
8_Y$são$descritos$no$artigo$presente$na$Figura$7.46.b)$como$um$grupo$“de$estrada$e$
de$ palco”$ (Duarte,$ 1985:$ 11)$ e$ é$ realçada$ a$ importância$ dos$ concertos$ ao$ vivo$ tão$
distintivos$neste$género$musical.$Sobre$os$seus$temas,$o$jornal$escreve$que$assentam$
“sobre$ os$ casos$ de$ passagem,$ sempre$ entre$ vidas$ e$ mortes,$ sempre$ amores$ e$
desamores”,$ temas$ também$ comuns$ no$ quotidiano$ e$ no$ vocabulário$ deste$ género$
musical.$$
Sobre$a$entrevista$a$ Rui$Veloso$que$ se$ segue$na$Figura$ 7.47.a)$é$destacado$a$
sua$ situação$ financeira,$ que$ o$ jornal$ resume$ como$ uma$ situação$ transversal$ aos$
músicos$de$B$-J,"na$qual$criar,$entre$as$contas$da$mercearia$e$da$eletricidade,$parece$
ser$ o$ destino$ de$ toda$ uma$ classe”$ (Pego,$ 1985:$ 16).$ Neste$ contexto$ particular,$
encontramos$ ecos$ na$ primeira$ pessoa$ através$ das$ entrevistas,$ sobre$ o$ facto$ de$ a$
música$ainda$ hoje$ não$ ser$ aceite$ socialmente$ como$ uma$ profissão,$ mas$antes$ como$
um$U$II0*.$
$
346$
4" .*)" K'0" *B'" -$1#B'," &*.KB*" W$0" -$1#B'2" 4" .*)" K'0" '%$B'/'"
.f&0-',"%*K$0&"#$B1$)F&*"1$".*)".'0$B"WD,".'0&"#'B%*2"7'&,"1'"
'+#)B',"()'1%$"*)"-$."?R"'1$&"'-'I*0"$"+0-*)"*"%0&&*"s/$)"#$-'B"
-$."$"e222gs"*"'01%'"K$B"-0.'"0.K+0-'/'").'".)%'1C'"%$"V$B#$"
K'B'"\0&I$',"$"()*"1'()*+*&"#*.K$&"1D$"*B'").'"-$0&'"Wb-0+,"*."
?P]P,"$".*)"K'0"W0-$)".)0#$"'&&)&#'%$"*"%0&&*"s1D$,"1D$"W'C'&"
0&&$,"-$1#01)'"'"W'Z*B".f&0-',".'&"1)1-'"K*1&*&"1'".f&0-'"-$.$"
&*1%$" '" #)'" KB$W0&&D$," *&#)%'," W'Z" )." -)B&$" )10/*B&0#bB0$," /'0"
K'B'"'"W'-)+%'%*,"&*L)*"$"()*"()0&*B*&"*"/'0F#*"%0/*B#01%$"'"W'Z*B"
.f&0-',".'&"-)0%'%$,"K$B()*"&*"-'+U'B"%'()0"'"-01-$z%*Z"'1$&,"
#)" 1D$" -$1&*L)*&" /0/*B" %'" .f&0-'2$(Tiago,$ 66$ anos,$ músico,$
Cascais).$
;*1U$" %*" ).'" W'.c+0'" '&&0." .'0&" -$1&*B/'%$B'" *" -'#X+0-'" *"
1*1U)." %$&" .*)&" W'.0+0'B*&" #01U'" '+L)." K'&&'%$" +0L'%$" S"
.f&0-'2"{)'1%$"-$.*-*0"*"()'1%$"%0&&*"()*"#01U'"LB)K$&,"-+'B$"
()*"'K$0'B'."-$.$"&*"W$&&*")."U$II0*,"1D$"*&#'/'."S"*&K*B'"
()*" .*" %*%0-'&&*" #'1#$" *" ()*" L$&#'&&*" #'1#$2" =)" -$1&0%*B$" '"
.f&0-'" $" .*)" '.$B" KB*%0+*#$," #0B'1%$" '&" K*&&$'&,".'&" &*.KB*"
'K$0'B'." %'" W$B.'" ()*" K$%0'.2$(Fernando,$ 38$ anos,$ músico,$
Braga).$
$
O$ 3$-J" 3*1%*ZF;$)&,$ bem$ como$ o$ seu$ 5$1-)B&$" %*" 7f&0-'" 7$%*B1',$ volta$ a$
dar$cartas$este$ano$e$é$também$um$tema$relevante$para$o$jornal.$Na$Figura$7.47.b)$o$
Se7e$faz$uma$crítica$à$final$desta$edição,$na$medida$em$que$o$concurso$excluiu$da$final$
os$V$K"%*++["!B#*,$“que$foi$a$sua$presença$a$mais$diferente$de$toda$a$tarde”$e$premeia$
os$ vencedores$ ^_5,$ cuja$ “música$ não$ fica$ especialmente$ distante$ da$ fórmula$ que$
alguns$dos$grupos$de$“plástico”$do$I$$.”$que$se$seguiu$a$1980$conseguiram$impor”$
(Gobern,$1985:$20).$Por$outras$palavras,$o$>*G*$critica$o$espírito$.'01&#B*'."do$grupo$
vencedor,$que$se$afasta$dos$ideais$alternativos$e$provocadores$do$B$-J$tradicional.$
$
$
$
$
$
347$
U6)5(*!ZM`=M!*B!,C76%!P*-*5^!s"%3%+!)5#((61f#6(%+!-5185(*6+t!~B!2KU!(#+6+86(!#!(#)(#++*(!
!
$
Fonte:$>*G*,$3$de$julho$de$1985.$ $ $ $$$$$$$$$$$$$$Fonte:$>*G*,$22$de$maio$de$1985.$
!
U6)5(*!ZM`ZM!*B!,56!V#1%+%!+*6!7*!-1*07#+86067*7#!~B!P„+6-*!P%7#(0*!0%!,%-.?,#07#•?V%5+^!J!3#1f%(!
0{%!e60f*!0%!-%0-5(+%!
!
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!
Fonte:$>*G*,$20$de$março$de$1985.$$$$$$$$$$$$$$$$$$$ $ $Fonte:$>*G*,$8$de$maio$de$1985.$
$
Na$secção$3$-J"<1#*B1'-0$1'+$encontramos$artigos$sobre$nomes$já$referidos$em$
anos$ anteriores,$ mas$ também$ referências$ a$ novos$ protagonistas.$ Dessas$ referências$
constam$os$w*1*&0&$e$Tom$Waits.$Sobre$os"w*1*&0&,$o$jornal$dá$conta$na$Figura$7.48.a)$
da$reedição$em$Portugal$de$oito$álbuns$ da$banda,$“considerados$o$melhor$grupo$do$
mundo$pelos$norte-americanos”$e$responsável$“por$fazer$profundas$reflexões$poéticas$
sobre$o$momento$social$britânico”$(Gobern,$1985:$2),$indo$ao$encontro,$mais$uma$vez,$
$
348$
dos$ideais$interventivos$do$B$-J.$Tom$Waits,$que$vemos$na$Figura$7.48.b)$é$tema$pela$
edição$ de$ um$ novo$ disco,$ 41*" YB$." #U*" _*'B#,$ a$ banda-sonora$ de$ um$ filme$ de$
Coppola.$ O$ >*G*$ descreve,$ então,$ as$ composições$ deste$ disco$ “carregadas$ como$
habitualmente$de$ todos$os$cigarros$ de$todas$ as$noites$ sem$sono,$de$ todos$os$ copos$
para$ todas$ as$ noites$ sem$ sono”$ (s/a,$ 1985:$ 12),$ o$ que$ mostra,$ de$ certa$ forma,$ uma$
imagem$estereotipada$quanto$aos$hábitos$de$consumo$e$às$rotinas$de$composição$de$
Tom$Waits.$Ou$seja,$esta$descrição$sustenta$e$reproduz$um$conjunto$de$informações$e$
crenças$estereotipadas$relacionadas$com$os$músicos$de$B$-J$(Mazzara,$1999).$
Das$B$-J"&#'B&$com$menor$protagonismo$neste$jornal$durante$este$período$de$
análise$encontramos$Frank$Zappa,$que$podemos$observar$na$Figura$7.49.a).$No$artigo$
sobre$ este$ músico,$ o$ semanário$ escreve$ que$ os$ músicos$ de$ B$-J$ são,$ normalmente,$
“considerados,$ geralmente,$ grosseiros$ e$ incultos”$ (Gobern,$ 1985:$ 12)$ e$ para$
acrescentar$a$esta$visão$desviante$dos$músicos$deste$género$musical,$resume$ainda$o$
percurso$próprio$de$Frank$Zappa,$como$“uma$série$de$canções$falhadas,$uma$gravação$
“porno”$ por$ “necessidade”$ e...$ dez$ dias$ de$ cadeia$ mais$ três$ anos$ de$ liberdade$
condicional”$(Gobern,$1985:$12),$sintetizando,$assim,$a$carreira$de$um$músico$de$B$-J"a$
estes$episódios$negativos$da$sua$vida.$Esta$visão$abusiva$das$B$-J"&#'B&$como$W$+J"%*/0+&$
é,$também,$sentida$em$Portugal$pelos$nossos$entrevistados.$
!L$B',"'-U$"()*"'&"K*&&$'&"()'1%$".*"-$1U*-*."W0-'."'&&0."'"
$+U'B,"1D$"&*0"&*"E"$"K'B'%0L.'"$)"'()*+'"0%*0'"$)"'()*+*"-+0-UM"
%*" '-U'B*." ()*" )." .f&0-$" %*" B$-J" E" )." s#'B'+U$-$s," .'&" *)"
&$)" )." I$-'%$" $" K'B'%0L.'" -$1#BbB0$" *" '#E" .*" -U'.'.," S&"
/*Z*&," s0.KB$/b/*+s2" =&-B*/$" +0/B$&," %0&-)#$" K$+c#0-'," L$&#$" %*"
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-$1#BbB0$"%'()0+$"()*"E"'"-$BB*1#*"%$.01'1#*,"L$&#$"%*")."I$."
%*I'#*"K$+c#0-$222"*)"&0L$"'".01U'"/0%'j2$(André,$63$anos,$músico,$
Aroeira).$
$
Importante$ é$ também$ um$ artigo$ acerca$ da$ poderosa$ influência$ dos$ grandes$
ícones$da$música,$ no$qual$ Jim$ Morrison$é$ relembrado,$ como$podemos$ ver$na$Figura$
7.49.b),$mas$pelos$seus$“excessos$conhecidos$–$prisões$por$posse$e$consumo$de$droga,$
detenções$ por$ “práticas$ sexuais$ pouco$ ortodoxas”,$ envolvimento$ em$ projetos$
$
349$
condenados”$ (Gobern,$ 1985:$ 11),$ revelando$ novamente$ um$ conjunto$ de$ rótulos$ e$
preconceitos$relativamente$aos$comportamentos$de$Morrison$da$mesma$forma$que$o$
associa$ a$ comportamentos$ desviantes$ e$ $)#&0%*B&$ face$ aos$ estabelecidos$ (Elias$ &$
Scotson,$2000).$
!
U6)5(*!ZM`RM!N#0#+6+^!0%!4(60-|46%!#(*!%!)€06%MMM!~B!Q%3!y*68+^!7%!}507%!7%!-%(*z{%!8(•+!*0%+!7#4%6+!
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U6)5(*!ZM`<M!*B!U(*0.!\*44*^!s*!s8#(-#6(*!67*7#t!~B!G!1#)6{%!7%+!)(*07#+!368%+!
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Fonte:$>*G*,$6$de$fevereiro$de$1985.$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$Fonte:$>*G*,$21$de$agosto$de$1985.$
!
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!
!
Fonte:$>*G*,$30$de$abril$de$1985.$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$Fonte:$>*G*,$3$de$abril$de$1985.
$
$
350$
Durante$ o$ ano$ de$ 1985$ mantem-se$ o$ esforço$ de$ combate$ ao$ tráfico$ de$
estupefacientes$e$a$SIDA$continua$a$alastrar-se$no$nosso$país$e$no$mundo.$De$notar,$é$
ainda$a$organização$do$Live$Aid$e$a$primeira$edição$dos$concursos$de$Música$Moderna$
do$RRV,$como$vemos$no$quadro$síntese$que$se$segue.$
!!!!!!!!U6)5(*!ZMA>M!"6+8#3*86•*z{%!7*+!8#3C86-*+!*~%(7*7*+!0%+%3€76*!
$$$$$$$$Fonte:$Autora.$
$$$$$$$$
$ $
D_W,D""J!
%Rock%
$Destaque$para$o$Live$Aid$
$Destque$para$o$RRV$e$os$Concursos$de$
sica$Moderna$
$Primeira$edição$do$Rock$in$Rio$$
"DZD!
!Rock!L*-6%0*1!
$Destaque$para$os$Rádio$Macau$e$Rui$
Veloso$
$Caracterização$desviante$dos$UHF$
Destaque$para$os$$RRV$e$os$Concursos$de$
sica$Moderna$
!Rock!O08#(0*-6%0*1!
$Destaque$para$os$Genesis!
$Percurso$de$excessos$de$Tom$Waits,$Frank$
Zappa$e$Jim$Morrison!
D_W,D""J!
!"5~+890-6*+!
$Preocupão$social$e$política$
relativamente$ao$tráfico$de$drogas$
$Preocupão$relativamente$ao$consumo$
de$álcool$nas$estradas,$especilamente$nas$
camadas$jovens$
!"#$%!
$Mais$casos$de$SIDA$em$Portugal$
$Destaque$para$a$lei$do$aborto$
"DZD!
!"#$%!#!+5~+890-6*+!
$SIDA$ataca$estrelas$de$Hollywood$
$Anúncio$de$venda$de$literatura$de$teor$
sexual$
$
351$
Considerações,Finais!
Os$ sete$ capítulos$ desta$ banda-sonora$ aqui$ apresentados$ conduziram-nos,$
inevitavelmente,$ até$ este$ ponto,$ que$ não$ se$ constitui$ como$ final,$ mas$ é$ antes$
acrescido$de$uma$vírgula.$Primeiro,$porque$um$projeto$de$investigação$é$sempre$mais$
do$ que$ um$ mero$ contributo$ científico$ e,$ segundo,$ porque,$ servirá$ de$ mote$ a$ outros$
que$virão$no$futuro.$Portanto,$pretende-se$que$esta$última$parte,$a$que$apelidámos$de$
considerações$finais,$assuma$antes$uma$lógica$reflexiva$face$e$sobre$as$dinâmicas$do$
passado,$ do$ presente$ e,$ claro$ está,$ que$ nos$ encaminhem$ para$ o$ reconhecimento$
daquilo$que$poderá$ser$o$futuro$do$estudo$das$representações$sociais$do$B$-J[1[B$++$e$
seus$intervenientes,$a$partir$da$perspetiva$dos$consumos,$da$sexualidade$e$do$estilo$de$
vida,$no$âmbito$da$sociologia$e$das$ciências$sociais$em$Portugal.$
$Desde$que$me$lembro,$sempre$ouvi$B$-J[1[B$++.$A$primeira$frase$que$me$vem$à$
cabeça$quando$escrevo$estas$linhas$é$do$Jim$Morrison:$“Daqui,$ninguém$sai$vivo”.$Por$
isso,$ cresci$ a$ admirar$ os$ seus$ ícones$ e$ a$ fascinar-me$ com$ as$ suas$ histórias.$ E,$ tendo$
crescido$ num$ meio$ pequeno$ e$ predominantemente$ rural,$ vi-me,$ muitas$ vezes,$
confrontada$ com$ ideologias$ e$ mentalidades$ distintas$ da$ minha:$ fechadas,$
conservadoras$ e$ preconceituosas.$ No$ âmbito$ da$ música$ B$-J,$ deparava-me,$
frequentemente,$ com$ associações$ de$ músicos$ a$ estilos$ de$ vida$ e$ comportamentos$
desviantes$e$estigmatizados$à$luz$daquilo$que$é$preconizado$através$do$famoso$+*.'"
&*n$," %B$L'&" *" B$-J[1[B$++.$ No$ entanto,$ à$ medida$ que$ fui$ crescendo,$ fui$ confrontada,$
gradualmente,$com$o$pendor$fortemente$tradicional$e$convencional$do$nosso$país.$E,$
este$ facto,$ ajudava$ a$ explicar$ a$ imagem$ estereotipada$ que$ me$ foi$ apresentada$ dos$
músicos$ e$ da$ música$ B$-J" durante$ a$ infância.$ Portanto,$ este$ sempre$ foi$ um$ assunto$
sensível$ e$ intrigante$ para$ mim,$ uma$ vez$ que$ nunca$ ponderei$ fazer$ julgamentos$
baseados$ na$ normatividade$ das$ convenções$ sociais.$ Portanto,$ no$ momento$ em$ que$
decidi$ingressar$no$Doutoramento$em$Sociologia,$como$amante$que$fui,$sou$e$acredito$
que$ continuarei$ a$ ser,$ deste$ tipo$ de$ música,$ não$ tive$ dúvidas$ quanto$ às$ temáticas$
sobre$as$quais$desejava$conduzir$o$meu$estudo.$
$
352$
De$acordo$com$Giddens$(1991),$o$mundo$da$modernidade$tardia$“é$um$mundo$
repleto$ de$ riscos$ e$ perigos,$ ao$ qual$ se$ aplica$ adequadamente$ o$ termo$ -B0&*,$ não$
apenas$ no$ sentido$ de$ mera$ interrupção,$ mas$ no$ de$ um$ estado$ de$ coisas$ mais$ ou$
menos$contínuo”$(Giddens,$1991:$11).$Neste$sentido,$as$relações$pessoais$tornaram-se$
cada$vez$mais$arriscadas$e$perigosas$nos$sistemas$abstratos$da$modernidade$tardia,$o$
que$ significa$ reconhecer$ que$ nenhum$ aspeto$ das$ nossas$ atividades$ segue$ um$ curso$
prévio$talhado$(Giddens,$1991).$Logo,$a$partir$desta$premissa$podemos$caracterizar$o$
período$contemporâneo$como$ sendo$uma$&$-0*%'%*" %*"B0&-$,$segundo$ a$abordagem$
de$Beck$(2011),$na$qual$a$vida$social$moderna$introduz$novas$formas$de$perigo,$que$a$
humanidade$deve$estar$preparada$para$enfrentar.$Neste$âmbito,$a$análise$das$culturas$
juvenis$ (Campos,$ 2010;$ Nofre$ &$ Eldridge,$ 2018)$ no$ espaço$ contemporâneo$ coloca$ a$
sua$ênfase$nas$atividades$quotidianas$em$que$os$jovens$se$envolvem$(Costa,$Guerra$&$
Oliveira,$2015).$Nesta$1$/'$realidade,$encontramo-nos$perante$diversas$tendências$e$
práticas,$que$convivem$entre$si,$sendo$possível$aferir$a$existência$de$um$sentimento$de$
pertença$ simultânea$ a$ mais$ do$ que$ uma$ cultura$ juvenil$ (Pais,$ 2013),$ bem$ como$
presenciámos$uma$passagem$por$diferentes$estilos$–$quer$sejam$eles$musicais$ou$não$-$
ao$ longo$ da$ vida$ (McCracken,$ 1998)$ de$ cada$ indivíduo.$ Ainda$ de$ referir$ são$ os$
contributos$ de$ Carles$ Feixa$ (1999),$ no$ sentido$ em$ que$ o$ autor$ defende$ como$
características$ fundamentais$ das$ culturas$ juvenis$ na$ contemporaneidade:$ a$
heterogeneidade$e$o$dinamismo.$Tais$características$enunciam$que$as$fronteiras$entre$
as$diferentes$culturas$juvenis$são$ténues,$confirmando-se$uma$partilha$intensa$entre$
estilos$ de$ vida,$ experiências,$ gostos$ e$ vivências$ (Nunes,$ 2012;$ Guerra,$ 2019c,$ 2020).$
Assim,$é$importante$mencionar$o$conceito$de$microculturas$juvenis$contemporâneas$
(Ferreira,$ 2008,$ 2002),$ na$ medida$ em$ que$ se$ relaciona$ com$ a$ ideia$ de$ identidades$
juvenis$ plurais$ (Pais,$ 2013).$ Estas$ possuem$ uma$ lógica$ de$ estruturação$ das$
sociabilidades$ juvenis$ em$ rede,$ o$ que$ torna$ as$ relações$ mais$ frágeis,$ temporárias,$
maleáveis$ e$ transitórias,$ e$ resulta$ numa$ mobilidade$ e$ mutabilidade$ intergrupal$
acentuada$(Reguillo,$2004).$De$relevo$é$ainda$conceito$de$hibridação$que$Carles$Feixa$
(2014)$ germina$ como$ a$ “criatividade$ cultural$ a$ partir$ de$ múltiplas$ fontes,$ como$ a$
realização$ de$ algo$ novo$ a$ partir$ de$ materiais$ pré-existentes,$ ou$ seja,$ quando$ as$
$
353$
condições$ da$ participação$ cultural,$ quer$ sejam$ antagónicas$ ou$ complementares,$ são$
produzidas$ de$ forma$ performativa”$ (Feixa,$ 2014:$ 34).$ Esta$ questão$ é$ crucial$ para$ as$
abordagens$pós-subculturais,$uma$vez$que$se$entende$que$as$tendências$e$os$produtos$
da$ cultura$ juvenil$ global$ podem$ ser$ tidos$ como$ sendo$ ferramentas$ e$ recursos$
relevantes$para$a$constituição$criativa$de$culturas$juvenis$globais,$diferentes$da$cultura$
local$(Canclini,$ 2001;$ Pais$ &$ Blass,$2004;$ Reguillo,$ 2004;$ Appadurai,$ 1996;$Bennett$ &$
Kahn-Harris,$2004;$Bennett$&$Peterson,$2004).$Em$suma,$os$jovens$já$não$se$confinam,$
nem$ mantêm$ fidelidade$ a$ um$ só$ estilo$ (e$ modo$ de$ vida).$ Pelo$ contrário,$ sofrem$
múltiplas$ e$ variadas$ influências$ que,$ essencialmente,$ fazem$ com$ que$ se$ construam$
estilos$ pessoais$ dentro$ dessa$ panóplia$ de$ possibilidades,$ estilo$ esse$ que$ é$
especialmente$ influenciado$ pelos$ gostos$ musicais$ e$ pelas$ sociabilidades$ com$ pares$
(Abreu$et.$'+2,"2017).$$
Como$ vimos$ a$ partir$ dos$ dados$ recolhidos$ para$ este$ projeto,$ os$ quadros$ de$
interação$ e$ de$ sociabilidade$ são$ cruciais$ para$ a$ construção$ de$ um$ estilo$ individual.$
Paralelamente,$temos$a$música$que$assume$uma$importância$clara,$especialmente$no$
âmbito$ de$ uma$ formação$ identitária$ dos$ seus$ amantes.$ Neste$ sentido,$ além$ das$
instâncias$ familiares,$ não$ podemos$ deixar$ de$ fazer$ referência$ à$ importância$ que$ os$
grupos$de$pares$cumprem$na$determinação$das$identidades.$Assim,$estes$arrogam-se$
como$ tanto$ mais$ importantes$ quando$ pensámos,$ de$ forma$ concreta,$ sobre$ os$
processos$ de$ criação$ e$ de$ desenvolvimento$ de$ um$ gosto$ musical.$ Estes$ tipos$ de$
influências$ podem$ acontecer$ de$ forma$ direta$ ou$ indireta,$ ou$ seja,$ quer$ a$ partir$ da$
partilha$ específica$ de$ determinados$ grupos$ ou$ artistas$ musicais,$ quer$ a$ partir$ de$
determinadas$ práticas$ quotidianas$ que$ envolvem$ música$ e$ não$ necessariamente$ um$
género$ em$ particular,$ tais$ como$ ouvir$ rádio,$ discos,$ comprar$ imprensa$ especializada$
ou,$ ainda,$ ter$ instrumentos$ musicais$ por$ perto.$ Todos$ estes$ fatores$ se$ revelaram$
pontos-chave$ para$ o$ despertar$ do$ interesse$ pelo$ B$-J[1[B$++$ por$ parte$ dos$ nossos$
entrevistados$ e,$ consequentemente,$ contribuíram$ para$ construção$ do$ seu$ estilo$ e$
modo$de$vida.$De$facto,$na$conjuntura$dos$gostos$musicais$e$das$sociabilidades$com$os$
pares,$ estes$ atores$ sociais$ tendem$ a$ revelar-se$ mais$ propensos$ a$ gostar$ de$
determinada$ música$ e$ a$ identificarem-se$ com$ certos$ géneros$ musicais$ através$ do$
$
354$
consumo$desses$mesmos.$Porém,$esse$consumo$não$se$prende$apenas$com$a$escuta,$
mas$também$com$a$manifestação$visual$do$gosto$(Guerra,$2019b;$Nunes,$2012).$Deste$
modo,$ confirmamos$ que$ a$ moda$ constitui$ um$ recurso$ simbólico$ de$ extrema$
importância$para$a$preservação$e$partilha$do$vínculo$musical$ao$B$-J[1[B$++$pelos$seus$
participantes.$ Neste$ contexto,$ a$ partir$ do$ momento$ em$ que$ se$ identificam$ com$ a(s)$
microculturas$musicais$ ligadas$ a$ este$ tipo$ de$ música,$ os$ jovens$ começam$a$ partilhar$
dos$ valores$ e$ atividades$ que$ daí$ advêm,$ e$ esses$ valores$ ou$ atividades$ podem,$
igualmente,$incluir$definições$positivas$ou$negativas$sobre$o$consumo$de$drogas,$que$
poderão$resultar,$por$sua$vez,$na$iniciação/cessação$ou$no$aumento/diminuição$do$seu$
consumo$(Becker,$1963).$
Tende$a$ser$claro$o$facto$de$a$música$popular$(Salema,$2017)$frequentemente$
incorporar$temas$relacionados$com$substâncias$lícitas$e$ilícitas$e$expressar$referências$
relativas$ a$ essas$ substâncias$ (Christenson,$ Roberts$ &$ Bjork,$ 2012).$ Partindo$ do$
argumento$de$que$os$jovens$são$fortes$consumidores$de$K$K)+'B".)&0-"(Christenson$&$
Roberts,$1998;$Roberts,$Henriksen$&$Foehr,$2009),$e$dada$a$crescente$evidência$de$que$
a$ exposição$ à$ música$ popular$ pode$ influenciar$ as$ atitudes$ e$ os$ comportamentos$ da$
juventude$ (Roberts$ &$ Christenson,$ 2011),$ foi$ importante$ comprovar$ -$ nesta$
investigação$-$que$o$consumo$(psicoativo)$de$substâncias$legais$e$ilegais$constitui$uma$
prática$ comum$ entre$ os$ participantes$ da$ cena$ B$-J[1[B$++" nacional.$ Já$ são$ vários$ os$
autores$ que$ têm$ desenvolvido$ investigações$ em$ torno$ destas$ matérias,$
nomeadamente$ Vuolo," Uggen$ e$ Lageson$ (2013),$ que$ argumentam$ que$ os$ jovens$
constroem$ as$ suas$ identidades$ em$ torno$ da(s)$ microculturas$ musicais.$ Como$ nos$
reitera$Guerra$*#"'+2$(2016),$partindo$das$normas$e$valores$partilhados$por$essas$redes,$
as$culturas$juvenis$plurais$definem$a$aceitação$das$práticas$do$grupo$como$normais$e$
agradáveis$ou$como$desviantes$e$desagradáveis.$No$contexto$do$B$-J[1[B$++"português$
dos$últimos$quarenta$anos,$encontramos$diferentes$padrões$de$consumo$psicotrópico$
entre$ os$ nossos$ entrevistados,$ quer$ de$ substâncias$ legais$ quer$ ilegais:$ indo$ desde$ a$
simples$experimentação,$passando$pelo$consumo$recreativo,$chegando$mesmo$até$ao$
consumo$ aditivo.$ E$ o$ mesmo$ acontece$ com$ os$ inquiridos$ –$ a$ população$ em$ geral-,$
embora$ com$ um$ menor$ peso$ no$ que$ toca$ ao$ consumo$ de$ substâncias$ ilícitas.$ No$
$
355$
entanto,$ dos$ fãs$ aos$ músicos,$ Miller$ e$ Quigley$ (2011)$ determinaram$ que$ o$ uso$ de$
substâncias$ lícitas$ e$ ilícitas$ está$ positivamente$ associado$ aos$ géneros$
rebeldes/intensos,$ como$ é$ o$ caso$ do$ B$-J[1[B$++.$ Igualmente$ central$ na$ abordagem$
sobre$ os$ comportamentos$ de$ risco$ é$ o$ sexo.$ Autores$ como$ Christenson$ e$ Roberts$
(1998)$alegam$que,$desde$a$década$de$sessenta$até$ao$presente,$o$sexo$tem$vindo$a$
penetrar$de$forma$crescente$a$K$K)+'B".)&0-$e$este$tipo$de$música$é$particularmente$
popular$ junto$ da$ juventude,$ cujos$ indivíduos$ estão$ mais$ atraídos$ pela$ intensidade$
sexual$das$suas$músicas$e$letras$(Arnett,$2002).$Nesta$matéria,$face$à$cena$B$-J[1[B$++$
nacional,$desfechámos$ que$ existe$ um$encantamento$ emocional$ em$ relação$ aos$ seus$
atores$no$que$ tange$a$uma$ sexualidade$de$risco,$ ousada,$heterodoxa,$o$ que$ resulta,$
por$vezes,$num$excesso$e$posterior$banalização$da$atividade$sexual.$
Na$realidade,$estas$questões$inerentes$ao$estilo$de$vida$B$-J*B,$nomeadamente$
relacionadas$com$o$aspeto$visual,$os$padrões$de$consumo$de$substâncias$e$as$práticas$
afetivas$ acabam$ por$ embater$ em$ mitos,$ preconceitos$ e$ tabus;$ e$ resultar,$
consequentemente,$em$processos$de$estigmatização$social,$indo$assim$ao$encontro$da$
nossa$ primeira$ hipótese$ de$ trabalho.$ Muitos$ dos$ estereótipos$ sentidos$ pelos$
intervenientes$ do$ B$-J[1[B$++$ português$ começam$ logo$ no$ seio$ familiar,$ que$ tende$ a$
desaprovar$um$estilo$de$vida$que$considera$desviante$(Becker,$2008),$aspeto$esse$que$
também$contribuiu$para$o$facto$de$as$carreiras$serem$frequentemente$desvalorizadas,$
ainda$ mais$ quando$ as$ mesmas$ estão$ envoltas$ no$ misticismo$ do$ consumo$ de$
substâncias,$quer$sejam$elas$lícitas$ou$ilícitas.$Neste$ponto,$também$nos$apercebemos,$
facilmente,$ que$ não$ só$ nos$ contextos$ familiares,$ mas$ na$ sociedade$ em$ geral,$ ainda$
persiste$ a$ ideia$ de$ não$ se$ considerar$ a$ música$ B$-J$ (Oliveira,$ 2019b)$ como$ uma$
profissão,$mas$antes$como$um$U$II0*$ou$como$uma$atividade$secundária$e$incapaz$de$
promover$ o$ autossustento$ (Guerra,$ 2010,$ 2015).$ Ao$ equacionarmos$ o$ epítome$ que$
encabeça$estra$Dissertação,$foi$possível,$na$verdade,$a$existência$de$uma$reconstrução$
social$ e$ mediática$ do$ estereótipo$ mesmo$ por$ parte$ dos$ próprios$ B$-J*B&.$ E$ esta$
tendência$de$posicionamento$é$particularmente$importante$para$os$atores$sociais$das$
gerações$mais$velhas$que$remontam$a$um$quadro$geracional$juvenil$situado$no$final$
dos$anos$setenta$e$anos$oitenta.$
$
356$
Estas$ questões$ levam-nos$ necessariamente$ para$ aquela$ que$ era$ a$ nossa$
segunda$hipótese$de$trabalho,$no$sentido$em$que$mencionamos$que$existem$impactos$
do$ ponto$ de$ vista$ social,$ no$ que$ concerne$ as$ representações$ construídas$ em$ torno$
destes$ comportamentos$ que,$ posteriormente,$ se$ fazem$ sentir$ em$ constrangimentos$
económicos$ que$ afetam$ não$ só$ as$ carreiras$ individualmente,$ bem$ como$ a$ própria$
indústria,$ no$ sentido$ em$ que$ a$ mesma$ fica$ rotulada$ como$ sendo$ propícia$ para$ a$
construção$de$um$comportamento$ aditivo$ou$desviante.$De$igual$ importância$são$as$
questões$relacionadas$com$a$aparência$e$com$a$expressão$visual$da$pertença$à$cena$
B$-J[1[B$++,$ nomeadamente$ o$ uso$ de$ vestuário,$ acessórios,$ penteados$ ou$ consumos$
alternativos$ (Hebdige,$ 2004).$ A$ partir$ das$ entrevistas$ verificámos$ que$ apesar$ das$
transformações$ sociais$ que$ se$ têm$ vindo$ a$ desenrolar$ no$ nosso$ país$ ao$ longo$ das$
décadas,$ ainda$ permanece$ algum$ preconceito$ relativamente$ ao$ aspeto$ visual$ dos$
intervenientes$ deste$ género$ musical$ e$ que$ resulta,$ em$ muitas$ situações,$ em$
tratamentos$ diferenciados$ face$ à$ generalidade$ da$ população.$ Ainda$ em$ matéria$ de$
representações$ sociais$ foi$ possível$ concluir$ que$ persiste,$ igualmente,$ uma$ crença$ no$
epítome$&*n$"%B$L'&"o"B$-J[1[B$++$relativamente$ao$universo$musical$português,$como$
nos$ foi$ possível$ apurar$ através$ do$ nosso$ inquérito.$ E$ ainda$ que$ os$ média"nacionais$
contribuem$ para$ a$ disseminação$ dessa$ imagem$ estereotipada$ dos$ atores$ da$ cena$
B$-J[1[B$++,$como$verificámos$a$partir$da$análise$mediática$efetuada$(Cohen,$2002)$nos$
dois$ jornais$ selecionados.$ Com$ efeito,$ apesar$ de$ alguns$ entrevistados$ fazerem$ uma$
aplicação$deste$epítome$com$as$respetivas$ressalvas$à$realidade$social$portuguesa,$são$
muitos$ aqueles$ que$ confessam$ já$ terem$ experienciado$ situações$ de$ estigmatização$
social$ fundadas$ neste$ mito$ e$ que,$ factualmente,$ não$ correspondem$ à$ realidade.$
Importante$ é$ ainda$ ressaltar$ que$ no$ quadro$ das$ representações$ sociais$ dos$ nossos$
protagonistas,$médias$e$sociedade$em$geral,$esse$epítome$é$um$traço$de$cultura,$não$
obstante$existir$um$reconhecimento$de$que$a$sua$produção$e$reprodução$especial$vai$
de$ encontro$ às$ especificidades$ socio-históricas$ de$ Portugal$ como$ país$ semiperiférico$
em$ transição$ para$ o$ Sul$ Global.$ Como$ a$ indústria$ do$ B$-J[1[B$++$foi$ e$ é$ incipiente$ e$
alicerçada$ num$ campo$ claramente$ subalterno$ e$ periférico$ à$ realidade$ anglo-
americana,$o$epítome$também$tem$uma$especial$tradução$portuguesa.$
$
357$
É$importante$relembrar$que$esta$banda-sonora$não$chegou$ao$fim,$mas$antes$a$
um$momento$de$pausa.$E$o$que$retemos$dela,$essencialmente,$é$que$ainda$persiste$o$
.0#$$ acerca$ do$ &*n$," %B$L'&" *" B$-J[1[B$++$ na$ sociedade$ portuguesa,$ não$ obstante$ as$
gerações$ mais$ jovens$ se$ afastem$ dele:$ o$ perspetivem$ em$ heteronomia.$ Conquanto$
este$se$aplique$à$nossa$realidade$e$dimensão,$uma$vez$que$não$tivemos$-nem$temos$-$
músicos$com$os$recursos$disponíveis$para$viver$intensamente$o$estilo$e$vida$das$B$-J"
&#'B&$internacionais,$também$#0/*.$&"-b$excessos$no$mundo$do$B$-J[1[B$++$ao$ponto$de$
algumas$pessoas$terem$perdido$as$suas$vidas$à$custa$excessos.$Tivemos,$igualmente,$
participantes$ desta$ pós-subcultura$ que$ acabaram$ por$ ficar$ dependentes$ de$
determinadas$ substâncias$ em$ algum$ período$ ou$ durante$ todas$ as$ suas$ vidas.$ No$
entanto,$ não$ há$ dúvidas$ de$ que,$ no$ fundo,$ continuamos$ a$ ser$ um$ país$ de$ caráter$
conservador,$ no$ qual$ os$ músicos$ e$ as$ pessoas$ ligadas$ às$ artes,$ de$ uma$ forma$ geral,$
tendem$ a$ ser$ representar$ das$ franjas$ invisíveis$ da$ sociedade,$ como$ se$ a$ música$ ou$
qualquer$outra$expressão$artística$não$formassem$uma$fonte$de$rendimento$legítima.$
Neste$caso$específico,$os$músicos$e$outros$intervenientes$da$cena$B$-J[1[B$++,$além$de$
terem$ profissões$ precárias$ e$ incertas,$ continuam$ a$ ser$ marginalizados$ na$ sociedade$
portuguesa,$devido,$igualmente,$aos$seus$visuais$muitas$vezes$mais$alternativos$(que$
podem$ incluir$ tatuagens,$ penteados$ fora$ do$ comum,$ vestuário$ diversificado,$
acessórios$ incomuns…)$ e$ aos$ seus$ consumos$ presumidos.$ Sabemos$ que$ somos$ uma$
sociedade$ marcada$ por$ um$ desenvolvimento$ rápido,$ mas$ tardio,$ pleno$ de$
contradições.$ Contudo,$ já$ são$ visíveis$ transformações$ nos$ contextos$ quotidianos$ ao$
longo$da$análise$entre$entrevistados$de$diferentes$faixas$etárias$e$residentes$nas$áreas$
metropolitanas.$ Resta-nos,$ então,$ aguardar$ que$ as$ evoluções$ sociais$ se$ continuem$ a$
desenvolver$e$se$reflitam,$posteriormente,$numa$mudança$efetiva$de$mentalidades$e$
de$representações$relativamente$ao$B$-J[1[B$++$e$aos$seus$estilos$de$vida$em$Portugal.$
Como$em$todos$os$bons$concertos$-$aqueles$que$nos$marcam$-$existe$sempre$
um$*1-$B*.$ Com$ o$ término$ desta$Dissertação,$ é$ essa$ a$ sensação$ que$ sobressai.$ Que$
necessitámos$de$um$*1-$B*.$Precisámos$de$sentir$e$de$viver$o$convívio,$a$partilha$e$a$
música.$O$B$-J[1[B$++.$Terminar$uma$Dissertação$sobre$o$B$-J$em$tempos$de$pandemia$
parece$um$pouco$controverso,$pois$as$dinâmicas$e$as$vivências$aqui$retratadas$tanto$
$
358$
se$assemelham$a$uma$memória$longínqua,$como$também$nos$trazem$nostalgia$e$uma$
sensação$fervorosa$ de$que$ queremos$que$ as$mesmas$ sejam$preservadas$ e$mantidas$
nos$ nossos$ imaginários.$ Sempre.$ Assim,$ não$ podemos$ deixar$ de$ sentir$ que$ esta$
Dissertação$surge$nesse$sentido.$Que$tudo$tem$uma$razão$de$ser$-$e$que,$por$sua$vez,$
uma$ multiplicidade$ de$ razões,$ de$ escolhas,$ de$ interesses$ e$ de$ paixões,$ fez$ com$ que$
chegássemos$a$este$ponto,$neste$momento.$$
Além$do$ *1-$B*,$ aqui$ também$apresentámos$ todo$ o$ +01*F)K,$o$ I'-J&#'L*$e$ o$
palco.$E$ que$ visão$bonita$ esta.$ Deste$modo,$ podemos$ dizer$que$ estes$ sete$ capítulos$
foram$o$nosso$bilhete$para$o$concerto.$A$minha$banda$de$eleição.$Desde$2016$que$o$
B$-J[1[B$++,$ paralelamente$ a$ ser$ o$ meu$ género$ musical$ favorito,$ é$ o$ meu$ objeto$ de$
estudo$ predileto.$ É$ como$ aquela$ data$ especial$ que$ não$ nos$ conseguimos$ esquecer.$
Como$o$aniversário$da$nossa$Mãe.$Então,$aqui$termina$a$minha$banda-sonora.$Este$é$o$
meu$*1-$B*$que$não$se$constitui$como$um$ponto$final,$mas$sim$apenas$mais$uma$das$
minhas$paragens$que$ainda$me$esperam.$A$minha$#$)B1E*$pelo$mundo$do$B$-J[1[B$++$e$
seu$emblema,$mostrando$continuidades$e$ ruturas,$construções$e$reconstruções$num$
contexto$cultural,$artístico$e$criativo$que$só$no$dealbar$da$segunda$década$do$século$
presente$ tem$ vindo$ a$ reconhecer$ uma$ sociologia$ do$ B$-J[1[B$++2$ Terminando$ aqui$ a$
nossa$incursão$pelo$B$-J[1[B$++"português,$faço$minhas$as$palavras$de$David$Bowie,$no$
sentido$em$que$1D$"&*0"K'B'"$1%*"0B*0,"'K*1'&"K$&&$"KB$.*#*B"()*"'"/0'L*."1D$"&*Bb"
'I$BB*-0%'.$O$mesmo$se$pode$dizer$sobre$o$B$-J[1[B$++"em$Portugal.$
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359$
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Ele$andava$por$aí/$como$tu$e$eu$andamos$
queimando$o$cigarro,$queimando$os$nervos.$
Nevoeiro$no$cérebro$num$bailado$de$fantasmas$
entre$o$frio$e$o$zelo$e$a$importância$dos$notáveis.$
Jorge$Morreu$$
Ele$tinha$a$tua$cara$
Ele$tinha$a$minha$cara$
Ele$era$ninguém$que$a$vida$desafiava$
Jorge$um$dia$passou$à$frente$da$ventania$
entoando$o$refrão$e$uma$velha$melodia$
Jorge$morreu$(…)$
Quem$te$matou?$
Quem$te$matou?$
Deixou$a$cidade,$subiu$à$montanha$
entrando$na$paisagem$onde$um$homem$se$amanha.$
Jorge$parou$os$ponteiros$da$vida$
mergulhando$os$olhos$no$mar$de$água$fria.$
UHF$(1979)$–$€$BL*"7$BB*)106$
$
!$
$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$
106
Jorge Morreu
é a primeira gravação da banda portuguesa de
rock
UHF. Editado em outubro de 1979
no formato
extended play
(EP) pela Metro-Som. Com este disco, os UHF quebraram o
status quo
do uso
dominante da língua inglesa nas canções de
rock
. Foi também a primeira canção do
rock
português
escrita em homenagem a um amigo da banda que se tornou heroinómano e morreu de overdose no final
dos anos setenta no Barreiro.
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!"#$%!&'()!*#!"+,"!(-./,(!*#0'1,2!,)*&/03'-./,(0)3)*'14$
$
416$
!
!
!
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!
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!
Anexos!
$
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417$
G0#$%!O!q!E*(8*•!7%!U#+86e*1!N#(•+!,%-.!U#+8!@>;R!
$
Fonte:$Facebook$Oficial.$ $
$
418$
G0#$%!OO!q!E*(8*•!7%!U#+86e*1!D'W!V6*1(!7#!P%5(%+!@>;R!
$
Fonte:$Facebook$Oficial.$
$
419$
G0#$%!OOO!q!E*(8*•!U#+86e*1!V6*0*!S*8#!U%(8#!@>;R!
$
Fonte:$Facebook$Oficial.$
$
420$
G0#$%!OV!q!N56‡#+!7*+!#08(#e6+8*+!
'JLJ"jND"QJ,D"jW,JN,GPG'J,D"!'D!D"WGHJ"!
Entrevistado(a):$
Entrevista$nº.:$
Data:$
Local:$
Duração:$
Hora$de$realização:$
Designação$do$espaço$em$análise:$
$
D1#3#08%+!)#(*6+!7#!-*(*-8#(6•*z{%!+%-6%)(C}6-*^!
Idade:$
Sexo:$
Profissão:$
Percurso$Profissional:$
Escolaridade:$
Residência:$
$
;M '6+-5++{%!7%!4(%…#8%!#j%5!C(#*!7#!608#(e#0z{%!7%!#08(#e6+8*7%!
;M;M Quando$ é$ que$ sentiu$ interesse$ pela$ música,$ em$ geral,$ e$ pelo$ B$-J,$ em$
particular?$
;M@M Quando$é$que$sentiu$vontade$de$ter$uma$experiência$profissional$em$torno$
da$música?$
;MXM Quando$é$que,$efetivamente,$esse$desejo$se$concretizou?$
;M`M Como$e$quando$é$que$surgiu$a$sua$ligação$a$este$espaço?$
;MAM Quais$ os$ principais$ marcos$ e$ elementos$ determinantes$ na$ sua$ atividade$
profissional,$relacionados$com$este$espaço?$
;M=M Como$descreve$esteticamente$este$espaço?$
;MZM Qual$a$localização$precisa$do$espaço$e$qual$a$sua$localização$na$cidade?$
;MRM Tem$ planos$ que$ quer$ desenvolver$ neste$ espaço,$ a$ curto,$ médio$ e$ longo$
prazo?$
$
$
421$
@M J+!4%+6-6%0*3#08%+!#!(#4(#+#08*z‡#+!}*-#!‚!3„+6-*!(ock&!*%+!3%7%+!7#!e67*!
#!e60-51*z‡#+!
@M;M Considera$que$ter$vivido,$ou$não,$numa$cidade,$influenciou$a$sua$vivência$e$
o$seu$estilo$de$vida?$Em$que$medida?$
@M@M Quais$os$principais$marcos$musicais$que$destaca$ao$longo$da$vida,$tendo$em$
consideração$a$idade$e$a$condição$profissional?$
@MXM Considera$que$se$o$espaço$não$tivesse$esta$localização,$isso$se$refletiria$na$
sua$importância$sociocultural?$
@M`M Como$ descreve$ esteticamente$ o$ público$ que$ frequenta$ o$ espaço?$ Há$
diferenças$ao$longo$dos$anos?$
@MAM Como$caracteriza$os$hábitos$e$rotinas$observadas$no$público$que$frequenta$
o$espaço?$
$
XM J+!-%0+53%+&!)%+8%+!#!4%+6z‡#+!7#08(%!7*!4†+?:+5~B-5185(*!rock%0*-6%0*1!!
XM;M Como$descreve$a$sua$relação,$do$passado$ao$presente,$com$as$substâncias$
legais$e$ilegais,$enquanto$profissional$que$intervém$na$indústria$musical?$
XM@M Como$descreve$a$sua$relação,$do$passado$ao$presente,$com$a$sexualidade,$
enquanto$profissional$que$intervém$na$indústria$musical?$
XMXM Considera$que$teve$e$tem$consciência$relativamente$aos$excessos?$
XM`M Como$descreve$os$consumos$de$substâncias$lícitas$e$ilícitas$do$público$e$dos$
artistas$no$espaço?$
XMAM Como$descreve$ os$ comportamentos$ afetivos$ do$ público$ e$ dos$ artistas$ no$
espaço?$
XM=M Qual$é$a$importância$do"B$-J$no$espaço?$
$
`M G! *~%(7*)#3! *-#(-*! 7*+! #$4#(6•0-6*+! *++%-6*7*+! *%+! 4(%-#++%+! 7#!
#+86)3*86•*z{%!+%-6*1!
`M;M Sexo,$drogas$e$B$-J[1[B$++"em$Portugal:$mito$ou$realidade?$
`M@M Como$ situa$ este$ mito/realidade$ português$ relativamente$ ao$ panorama$
internacional?$
`MXM Consegue$descrever$as$considerações$sociais$acerca$do$espaço?$
`M`M Alguma$ vez$ sentiu$ desconfiança$ e/ou$ marginalização,$ relativamente$ ao$
espaço,$em$função$dos$consumos,$da$estética,$da$música?$
`MAM Qual$a$relação$do$espaço$com$as$autoridades?$
!
!
!
$
422$
Pn"OEJ"jD_?Pn"OEJ"!
Entrevistado(a):$
Entrevista:$
Data:$
Local:$
Duração:$
Hora$de$realização:$
$
D1#3#08%+!)#(*6+!7#!-*(*-8#(6•*z{%!+%-6%)(C}6-*^!
Idade:$
Sexo:$
Profissão:$
Escolaridade:$
Percurso$Profissional:$
Residência:$
$
;M '6+-5++{%!7%!4(%…#8%!#j%5!C(#*!7#!608#(e#0z{%!7%!#08(#e6+8*7%!
;M;M Quando$é$que$ sentiu$interesse$pela$música,$ em$geral,$e$pelo$ B$-J,$em$
particular?$
;M@M Quando$é$que$sentiu$vontade$de$se$dedicar$à$música?$
;MXM Quando$é$que,$efetivamente,$esse$desejo$se$concretizou?$
;M`M Quais$os$principais$marcos$e$elementos$determinantes$na$sua$carreira?$
;MAM Tem$planos$que$quer$desenvolver$na$área$da$música,$a$curto,$médio$e$
longo$prazo?$
$
@M J+!4%+6-6%0*3#08%+!#!(#4(#+#08*z‡#+! }*-#! ‚!3„+6-*! (ock&!*%+! 3%7%+!7#!
e67*!#!e60-51*z‡#+!
@M;M Considera$ que$ ter$ vivido,$ ou$ não,$ numa$ cidade,$ influenciou$ a$ sua$
vivência$e$o$seu$estilo$de$vida?$Em$que$medida?$
@M@M Quais$os$principais$marcos$musicais$que$destaca$ao$longo$da$vida,$tendo$
em$consideração$a$idade$e$a$condição$profissional?$
@MXM Que$ preocupações$ estéticas$ teve$ e/ou$ tem,$ relativamente$ ao$ seu$
visual?$
$
423$
@M`M Teve$ ou$ tem$ algum$ hábito$ ou$ rotina,$ despoletado$ pelo$ seu$ vínculo$ à$
música?$
@MAM Como$ se$ descreve,$ enquanto$ músico$ de$ B$-J,$ e$ como$ pensa$ que$ os$
outros$o$descrevem$a$si?$
$
XM J+!-%0+53%+&!)%+8%+!#!4%+6z‡#+!7#08(%!7*!4†+?:+5~B-5185(*!rock%0*-6%0*1!!
XM;M Como$ descreve$ a$ sua$ relação,$ do$ passado$ ao$ presente,$ com$ as$
substâncias$legais$e$ilegais,$enquanto$músico?$
XM@M Como$ descreve$ a$ sua$ relação,$ do$ passado$ ao$ presente,$ com$ a$
sexualidade$e$contracepção,$enquanto$músico?$
XMXM Como$ caracteriza$ a$ estabilidade$ e/ou$ instabilidade$ dos$ seus$
relacionamentos$afetivos$do$passado$ao$presente?$
XM`M Os$ seus$ hábitos$ de$ consumo$ e$ de$ afecto$ (ou$ a$ ausência$ destes),$
refletiram-se$ e/ou$ refletem-se$ no$ seu$ desempenho$ como$ músico$ e$
K*BW$B.*B?$E$nas$suas$composições$musicais?$
XMAM Considera$que$teve$e$tem$consciência$relativamente$aos$excessos?$
XM=M Como$era$e$é$a$sua$relação$com$LB$)K0*&$e/ou$&#'+J*B&?$
XMZM Qual$é,$para$si,$a$importância$do$B$-J$“ontem,$hoje$e$amanhã”?$
$
`M G! *~%(7*)#3! *-#(-*! 7*+! #$4#(6•0-6*+! *++%-6*7*+! *%+! 4(%-#++%+! 7#!
#+86)3*86•*z{%!+%-6*1!
`M;M Sexo,$drogas$e$B$-J[1[B$++"em$Portugal:$mito$ou$realidade?$
`M@M Como$situa$este$mito/realidade$português$relativamente$ao$panorama$
internacional?$
`MXM Consegue$descrever$as$considerações$sociais$e$familiares$em$torno$de$si$
enquanto$ músico$ de$ B$-J" e$ (ex)$ consumidor$ (ou$ não)$ de$ substâncias$
legais$e$ilegais?$
`M`M Alguma$vez$sentiu$algum$tipo$de$desconfiança$e/ou$marginalização,$em$
função$do$seu$visual,$dos$seus$consumos$ou$da$sua$profissão?$
`MAM Já$ presenciou$ algum$ contacto$ com$ as$ autoridades,$ na$ primeira$ ou$
terceira$pessoa,$em$função$desta$desconfiança$e/ou$marginalização?$
`M=M Como$se$desenvolve$o$processo$de$superação$destes$sentimentos?$
!
!
!
!
!
!
$
424$
YJ,LGFO"QG"jE,TQOEJ"!D!GUOL"$
$
Entrevistado(a):$
Entrevista:$
Data:$
Local:$
Duração:$
Hora$de$realização:$
$
D1#3#08%+!)#(*6+!7#!-*(*-8#(6•*z{%!+%-6%)(C}6-*^!
Idade:$
Sexo:$
Profissão:$
Escolaridade:$
Percurso$Profissional:$
Residência:$
$
;M '6+-5++{%!7%!4(%…#8%!#j%5!C(#*!7#!608#(e#0z{%!7%!#08(#e6+8*7%!
;M;M Quando$é$que$sentiu$interesse$pela$música,$em$ geral,$ e$ pelo$B$-J,$em$
particular?$
;M@M Quando$ é$ que$ sentiu$ vontade$ de$ ter$ uma$ experiência$ profissional$ em$
torno$da$música?$
;MXM Quando$é$que,$efetivamente,$esse$desejo$se$concretizou?$
;M`M Quais$os$principais$marcos$e$elementos$determinantes,$na$sua$atividade$
profissional,$relacionada$com$a$música?$
;MAM Tem$ planos$ que$ quer$ desenvolver$ nesta$ área,$ a$ curto,$ médio$ e$ longo$
prazo?$
$
@M J+!4%+6-6%0*3#08%+!#!(#4(#+#08*z‡#+!}*-#!‚!3„+6-*!(ock&!*%+!3%7%+!7#!e67*!
#!e60-51*z‡#+!
@M;M Considera$ que$ ter$ vivido,$ ou$ não,$ numa$ cidade,$ influenciou$ a$ sua$
vivência$e$o$seu$estilo$de$vida?$Em$que$medida?$
@M@M Quais$os$principais$marcos$musicais$que$destaca$ao$longo$da$vida,$tendo$
em$consideração$a$idade$e$a$condição$profissional?$
$
425$
@MXM Que$ preocupações$ estéticas$ teve$ e/ou$ tem,$ relativamente$ ao$ seu$
visual?$
@M`M Teve$ ou$ tem$ algum$ hábito$ ou$ rotina,$ despoletado$ pelo$ sua$ vínculo$ à$
música?$
$
XM J+!-%0+53%+&!)%+8%+!#!4%+6z‡#+!7#08(%!7*!4†+?:+5~B-5185(*!rock%0*-6%0*1!!
XM;M Como$ descreve$ a$ sua$ relação,$ do$ passado$ ao$ presente,$ com$ as$
substâncias$legais$e$ilegais,$enquanto$profissional$vinculado$à$indústria$
da$música?$
XM@M Como$ descreve$ a$ sua$ relação,$ do$ passado$ ao$ presente,$ com$ a$
sexualidade,$enquanto$profissional$vinculado$à$indústria$da$música?$
XMXM Considera$que$teve$e$tem$consciência$relativamente$aos$excessos?$
XM`M Qual$é,$para$si,$a$importância$do$B$-J$“ontem,$hoje$e$amanhã”?$
$
`M G! *~%(7*)#3! *-#(-*! 7*+! #$4#(6•0-6*+! *++%-6*7*+! *%+! 4(%-#++%+! 7#!
#+86)3*86•*z{%!+%-6*1!
`M;M Sexo,$drogas$e$B$-J[1[B$++"em$Portugal:$mito$ou$realidade?$
`M@M Como$situa$este$mito/realidade$português$relativamente$ao$panorama$
internacional?$
`MXM Consegue$ descrever$ as$ considerações$ sociais$ em$ torno$ do$ B$-J,$ no$
passado$e$no$presente?$O$que$mudou?$
`M`M Alguma$vez$sentiu$algum$tipo$de$desconfiança$e/ou$marginalização,$em$
função$ do$ seu$ gosto$ musical,$ do$ seu$ visual,$ dos$ seus$ consumos$ ou$ da$
sua$profissão?$
`MAM Já$ presenciou$ algum$ contacto$ com$ as$ autoridades,$ na$ primeira$ ou$
terceira$pessoa,$em$função$desta$desconfiança$e/ou$marginalização?$ $
$
426$
W,JPJQJ,D"!'D!DVDLQJ"!
Entrevistado(a):$
Entrevista:$
Data:$
Local:$
Duração:$
Hora$de$realização:$
$
D1#3#08%+!)#(*6+!7#!-*(*-8#(6•*z{%!+%-6%)(C}6-*^!
Idade:$
Sexo:$
Profissão:$
Escolaridade:$
Percurso$Profissional:$
Residência:$
$
;M '6+-5++{%!7%!4(%…#8%!#j%5!C(#*!7#!608#(e#0z{%!7%!#08(#e6+8*7%!
;M;M Quando$ é$ que$ sentiu$ interesse$ pela$ música,$ em$ geral,$ e$ pelo$ B$-J,$ em$
particular?$
;M@M Quando$é$que$sentiu$vontade$de$ter$uma$experiência$profissional$em$torno$
da$música?$
;MXM Quando$é$que,$efetivamente,$esse$desejo$se$concretizou?$
;M`M Como$e$quando$é$que$surgiu$a$sua$ligação$a$este$evento?$
;MAM Quais$ os$ principais$ marcos$ e$ elementos$ determinantes,$ na$ sua$ atividade$
profissional,$como$promotor$deste$evento?$
;M=M Como$descreve$este$evento?$
;MZM Qual$é$a$localização$precisa$do$evento$e$qual$a$sua$localização$na$cidade,$na$
região$e$no$país?$
;MRM Tem$ planos$ que$ quer$ desenvolver$ neste$ espaço,$ a$ curto,$ médio$ e$ longo$
prazo?$
$
@M J+!4%+6-6%0*3#08%+!#!(#4(#+#08*z‡#+!}*-#!‚!3„+6-*!(ock&!*%+!3%7%+!7#!e67*!
#!e60-51*z‡#+!
$
427$
@M;M Considera$que$ter$vivido,$ou$não,$numa$cidade,$influenciou$a$sua$vivência$e$
o$seu$estilo$de$vida?$Em$que$medida?$
@M@M Quais$os$principais$marcos$musicais$que$destaca$ao$longo$da$vida,$tendo$em$
consideração$a$idade$e$a$condição$profissional?$
@MXM Considera$que$se$o$evento$não$tivesse$esta$localização,$isso$se$refletiria$na$
importância$sociocultural?$
@M`M Como$ descreve$ esteticamente$ o$ público$ que$ frequenta$ o$ evento?$ Há$
diferenças$ao$longo$dos$anos?$
@MAM Como$caracteriza$os$hábitos$e$rotinas$observadas$no$público$que$frequenta$
o$espaço?$
$
XM J+!-%0+53%+&!)%+8%+!#!4%+6z‡#+!7#08(%!7*!4†+?:+5~B-5185(*!rock%0*-6%0*1!!
XM;M Como$descreve$a$sua$relação,$do$passado$ao$presente,$com$as$substâncias$
legais$e$ilegais,$enquanto$profissional$que$atua$na$esfera$musical?$
XM@M Como$descreve$a$sua$relação,$do$passado$ao$presente,$com$a$sexualidade,$
enquanto$profissional$que$atua$na$esfera$musical?$
XMXM Considera$que$teve$e$tem$consciência$relativamente$aos$excessos?$
XM`M Como$descreve$os$consumos$de$substâncias$lícitas$e$ilícitas$do$público$e$dos$
artistas$no$evento?$
XMAM Como$ descreve$ os$ comportamentos$ afetivos$ do$ público$ e$ dos$ artistas$ no$
evento?$
XM=M Qual$é$a$importância$do"B$-J$no$evento?$
$
`M G! *~%(7*)#3! *-#(-*! 7*+! #$4#(6•0-6*+! *++%-6*7*+! *%+! 4(%-#++%+! 7#!
#+86)3*86•*z{%!+%-6*1!
`M;M Sexo,$drogas$e$B$-J[1[B$++"em$Portugal:$mito$ou$realidade?$
`M@M Como$ situa$ este$ mito/realidade$ português$ relativamente$ ao$ panorama$
internacional?$
`MXM Consegue$descrever$as$considerações$sociais$acerca$do$evento?$
`M`M Alguma$ vez$ sentiu$ desconfiança$ e/ou$ marginalização,$ relativamente$ ao$
evento,$em$função$dos$consumos,$da$estética,$da$música?$
`MAM Qual$a$relação$do$evento$com$as$autoridades?$
$
$ $
$
428$
G0#$%!V!q!N(#1f*+!7#!*0C16+#!-*8#)%(6*1!e#(86-*1!
$
GM 'O"E2""IJ!'J!W,JYDQJ!DjJ2!d,DG!'D!OLQD,VDLHIJ!'J!DLQ,DVO"QG'J!
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D08(#e6+8*7%!
D$-#(8%!
"|08#+#!
!
$
$
@M!E%0+8(5z{%!7#!53!4#(-5(+%!4(%}6++6%0*1!0*!C(#*!35+6-*1j-5185(*1M!
Entrevistado$
Excerto$
Síntese$
!
$
$
XM!D050-6*z{%!7%+!4(60-64*6+!3%3#08%+!7*!-*((#6(*!4(%}6++6%0*1M!
D08(#e6+8*7%!
D$-#(8%!
"|08#+#!
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D08(#e6+8*7%!
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$
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VO'G!D!VOLE2FGHaD"$
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D$-#(8%!
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D$-#(8%!
"|08#+#!
$
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$
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D08(#e6+8*7%!
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$
$
$
$
429$
`M!E%0+67#(*z‡#+!#+8€86-*+!4#++%*6+!#j%5!4(%}6++6%0*6+M!
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"|08#+#!
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$
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EM EJL"2PJ"&!NJ"QJ"!D!WJ"OHaD"!'DLQ,J!'G!W]"?:"2SBE2FQ2,G!ROCK%
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D$-#(8%!
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$
$
$
$
'M GSJ,'GNDP! GED,EG! 'G"! D_WD,ObLEOG"! G""JEOG'G"! GJ"! W,JED""J"! 'D!
D"QONPGQO\GHIJ!"JEOGF!
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D08(#e6+8*7%!
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D08(#e6+8*7%!
D$-#(8%!
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$
430$
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D$-#(8%!
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D08(#e6+8*7%!
D$-#(8%!
"|08#+#!
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$
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$
431$
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$
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3„+6-*&!4#1%!(%-.!#!4#1*!607„+8(6*!-5185(*1M!
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60}15•0-6*+!0*!-%0+8(5z{%!7*!67#0867*7#!#!7%!
)%+8%M!
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XM!'#+-(6z{%!7#!fC~68%+!#!(%860*+!*++%-6*7%+!*%!
e|0-51%!35+6-*1!#!-5185(*1M!
!
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4(%}6++6%0*6+M!
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;M!"685*z{%!4#(*08#!%!-%0+53%!7#!+5~+890-6*+!
1#)*6+!#!61#)*6+M!
!
@M!E*(*-8#(6•*z{%!7#!(#1*-6%0*3#08%+&!
+#$5*167*7#!#!*}#8%+M!
!
XM!,#1*8%+!7#!3%3#08%+!7#!#$-#++%+&!(6+-%+!#!
#$4#(6•0-6*+M!
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`M!O34%(890-6*!7*!4#++%*1j+%-6*1!7*!+5~-5185(*!
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!
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e|0-51%!35+6-*1M!
!
XM!,#1*8%+!7#!#+86)3*86•*z{%!+%-6*1&!7#+-%0}6*0z*!
%5!3*()60*16•*z{%M!
!
`M!,#}#(•0-6*+!*!#0e%1e63#08%+!-%3!*58%(67*7#+!
#j%5!}%(z*+!7#!+#)5(*0z*M!
!
$
$ $
$
432$
G0#$%!VOO!q!Layout!60ƒ5€(68%!
$
$OL[2k,OQJ!"JS,D!G!G""JEOGHIJ!'J!ROCK%r"!',JNG"!D!GJ!"D_J
LJQG:$ O$presente$inquérito$tem$como$finalidade$servir$de$instrumento$de$
recolha$de$informação,$junto$do$público$utilizador$da$01#*B1*#,$para$
ser$posteriormente$utilizada$como$base$empírica$de$discussão$para$
a$ Dissertação$ de$ Doutoramento,$ intitulada$ >*n$," %B$L'&" *"
B$-Jy1yB$++:$Um$percurso$pela$sociedade$portuguesa$contemporânea$
(1960-2015)”.$
$
JSYDQOVJ^$ Identificar$ as$ representações$ sociais$ hétero-construídas$ em$ torno$
da$ associação$ da$ música$ B$-J$ ao$ consumo$ de$ substancias$ lícitas$ e$
ilícitas$ e$ a$ comportamentos$ sexuais,$ nomeadamente$ os$
comportamentos$ de$ excessos$ e$ os$ riscos,$ na$ definição$ dos$ seus$
modos$ de$ vida$ e$ na$ determinação$ das$ suas$ práticas$ de$ lazer$ e$ de$
convivialidade.$
$
,D"2FQG'J"^$$$ Mapeamento$ de$ práticas$ e$ representações$ de$ consumo$ de$
substâncias$lícitas$e$ilícitas$e$de$comportamentos$sexuais,$ao$longo$
de$ distintas$ décadas$ e$ identificação$ de$ comportamentos$ de$
estigma,$associados$à$tricotomia$B$-J-droga-sexo.$
$
;M G-#68*! ƒ5#! %+! 7*7%+! (#-%1f67%+! 0#+8#! 60ƒ5€(68%! *0†063%! #! -%0}67#0-6*1&! +#…*3!
8(*8*7%+!4%(!363!0%!93~68%!7#+8#!4(%…#8%!7#!60e#+86)*z{%u!!!
Sim____$Não____$
!
LpM!7%!O0ƒ5€(68%:____$
GM!206e#(+%%rock&!)%+8%+!#!*4(%4(6*z‡#+!$
@M [5*6+!+{%!%+!+#5+!)€0#(%+!35+6-*6+!}*e%(68%+u!:O076ƒ5#!*4#0*+!XB!
$
Alternativa/<1%0*"B$-J$
$
$
433$
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$
_0K"U$Kz3'Kz^B'KzwB0.*$
$
Me#'+zU'B%$
$
Vu1Jz9*m"m'/*$
$
>J'z3*LL'*$
$
:'BJzw$#Uz<1%)&#B0'+$
$
=+*-#B$z:B).[1[I'&&$
$
^B'1-*z^*-U1$z_$)&*z!-0%$
$
€'ZZzp+)*&z3op$
$
|$B+%".)&0-zY$+J$
$
Bossa$Nova/\$)1L*".)&0-z5U0++"$)#$
$
>$)+zY)1Jzp$$L0*z:0&-$$
$
3$-J'I0++l$
$
w'B'L*z!-0%"B$-J$
$
Clássica/Erudita$
$
wB)1L*$
$
Música$Popular/Tradicional$
$
Country$
$
Fado$
$
Outro:$$
$
$
XM O076ƒ5#!8(•+!~*07*+j*(86+8*+!-%3!ƒ5#!3*6+!+#!67#086}6-*M!
!
__________________________________________________________$$
__________________________________________________________$$
$
434$
__________________________________________________________$!
!
`M D3!ƒ5#!3#767*!*!3„+6-*&!%:+B!+#5:+B!)€0#(%:+B!}*e%(68%:+B!%5!*+!~*07*+j*(86+8*+!
-%3!ƒ5#!3*6+!+#!67#086}6-*&!60}15#0-6*3!*!+5*!e67*u!:O076ƒ5#!*4#0*+!53*!}%(3*B!
!
Enquanto$ elemento$ referenciador$ de$ estilos$ de$ vida$ (identidades,$ formas$ de$
vestir,$escolhas…)$
$
Enquanto$elemento$potenciador$de$estados$de$espírito!
$
Enquanto$banda$sonora$do$eu!
$
Enquanto$profissão!
$
Como$potenciadora$ de$consumes$ (dinheiro$ gasto$com$ consumos$associados$ à$
música)$
$
Enquanto$matriz$de$referência$de$lazeres$e$convivialidades!
$
Como$veículo$de$discussão$de$questões$sociais,$políticas$e$ideológicas!
$
Outras:$!
$
!
AM E%+853*!}(#ƒ5#08*(!}#+86e*6+!7#!3„+6-*&!-%0-#(8%+!#!%58(%+!#e#08%+!35+6-*6+u!
$
Sim____$$Não$____$$
$
AM;M!"#!"OP&!ƒ5*1!%!4(60-64*1!3%86e%u!:O076ƒ5#!*4#0*+!53B!
Bandas/artistas$
$
Consumos$(álcool$e$drogas)!
$
Companhia$(amigos,$namorado(a))!
$
Localização$do$evento!
$
Preços$do$evento!
$
$
435$
!Ritual$de$frequência$deste$tipo$de$eventos!
$
Envolvimento$no$funcionamento/organização$do$evento!
$
Condições$do$recinto/espaço!
$
Potenciador$de$relações$de$sociabilidade$(amizades,$novos$conhecimentos,$
W+0B#&)!
$
Públicos$que$frequentam$o$evento!
$
Diversidade$da$funcionalidade$do$espaço(ofertas)/interdisciplinaridade$
$
Novidade/Descoberta!
$
Outra:!!
$
!
AM@M D+8C!*!41*0#*(!}(#ƒ5#08*(!53!%5!3*6+!}#+86e*6+j-%0-#(8%+!7#!(%-.&!#+8#!*0%u!$
$
Sim____$$Não$____$$
$
A-M@M;M$"#!"OP&![5*6+u!__________________________________________________$
!
SM!E%0+53%+&!(685*6+!#!4(C86-*+!7#!608#(*z{%!!
$
=M!E%0+%3#!C1-%%1u!
=M;M$Sim____$$Não$____$!
!
=M@M!"#!"OP&!-%3!ƒ5#!}(#ƒ5•0-6*u!
Diariamente$
$
Duas$a$três$vezes$por$semana$
$
Uma$vez$por$semana$
$
$
436$
Uma$vez$por$mês$
$
Ocasionalmente$
$
!
ZME%0+%3#!+5~+890-6*+!-%0+67#(*7*+!61|-68*+!:7(%)*+Bu!
!
Sim____$$Não$____$$
$
ZM;M!"#!"OP&!-%3!ƒ5#!}(#ƒ5•0-6*u!
Diariamente$
$
Duas$a$três$vezes$por$semana$
$
Uma$vez$por$semana$
$
Uma$vez$por$mês$
$
Ocasionalmente$
$
!
ZM@M!"#!LIJ&!#+8C!*!41*0#*(!#$4#(63#08*(u!
Sim____$$Não____$Talvez____!
ZMXM! '*! 16+8*! +#)5608#&! 3*(ƒ5#! %! 864%! 7#! 7(%)*+! ƒ5#! -%0+%3#! %5! …C! -%0+5365M!
:G++60*1#!0%!3C$63%!`!%4z‡#+BM!
Nenhuma!
!
Cannabis/marijuana/haxixe$$!
!
Cocaína$$!
!
Heroína$$!
!
Solventes$$!
!
LSD/ácidos$$!
!
$
437$
Anfetaminas$!
!
MDMA/Ecstasy$$!
!
GHB!
!
Benzodiazepinas$(Xanax,$Valium...)!
!
Morfina$ou$semelhantes$$!
!
Barbtúricos$$!
!
Cogumelos$$!
!
Ópio$$!
!
Mescalina$$!
!
Outro:!
!
!
RM [5*07%! }(#ƒ5#08*! }#+86e*6+! 7#! 3„+6-*&! -%0-#(8%+! #! %58(%+! #e#08%+! 35+6-*6+&!
-%0+67#(*! ƒ5#! #$6+8#! 53! *53#08%! 7#! -%0+53%+! :7#! 53*! %5! 3*6+! +5~+890-6*+!
3#0-6%0*7*+!0*+!ƒ5#+8‡#+!*08#(6%(#+B!7*!+5*!4*(8#u!
$
Sim____$$Não$____$$Não$frequento_____$$
$
RM;M!"#!"OP&!4%(ƒ5•u!
Ambiente$de$diversão$e$bem-estar$
$
Amigos$que$consomem$
$
Facilidade$de$acesso$às$substâncias$legais$e$ilegais$
$
Sensação$de$liberdade$aumentada$
$
Localização$do$evento$distante$da$residência$
$
Brindes$e$ofertas$
$
Aumento$da$auto-estima$
$
$
438$
Outras:$
$
<ML#+8#!3%3#08%&!#+8C!053!(#1*-6%0*3#08%!*}#-86e%u!
$
Sim____$$Não$____$$
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Sim____$$Não$____$$Não$se$aplica____$$
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Mito____$$Realidade____$$
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+#)5#3&!+#07%!ƒ5#!%!;!(#4(#+#08*!E%0-%(7%!8%8*13#08#!#!%!A!'6+-%(7%!8%8*13#08#^!!
Todas$as$pessoas$experimentam$substâncias$ilegais,$pelo$menos,$uma$vez$
na$vida.$
$
Os$jovens$são$mais$propícios$ao$consumo$de$substâncias$ilegais,$do$que$os$
adultos.$
$
$
439$
Há$maior$probabilidade$de$os$músicos$de$B$-J$consumirem$(mais)$drogas,$
do$que$os$músicos$de$outros$géneros$musicais.$
$
Há$ maior$ probabilidade$ de$ os$ músicos$ de$ B$-J$ serem$ mais$ sexualmente$
atrativos,$do$que$os$músicos$de$outros$géneros$musicais.$
$
Quem$ ouve$ música$ B$-J$ e$ frequenta$ eventos$ musicais,$ já$ experimentou$
algum$tipo$de$droga.$
$
Quem$ ouve$ música$ B$-J$ e$ frequenta$ eventos$ musicais,$ é$ menos$
desinibido(a).$
$
A$ determinados$ géneros$ musicais$ estão$ associados$ diferentes$ tipos$ de$
drogas.$
$
A$música$B$-J$está$associada$à$rebeldia$e$à$loucura$e,$por$conseguinte,$a$
excessos$em$termos$de$consumos$de$substâncias$ilíciitas.$
$
Sinto$ mais$ vontade$ de$ consumir$ substâncias$ legais$ (como$ o$ álcool$ ou$ o$
tabaco)$e$ilegais,$quando$oiço$música$B$-J$ou$quando$estou$em$eventos$a$
ela$associados.$
$
Sinto$mais$vontade$de$me$envolver$com$o$meu/minha$parceiro(a)$ou$com$
alguém,$durante$um$concerto$de$música$B$-J$como$forma$de$revolta,$de$
libertação$e$de$resistência$contra$as$regras$convencionais.$
$
Quem$pertence$à$cena$B$-J,$bebe$álcool,$fuma$e$consome$drogas.$
$
Quem$ pertence$ à$ cena$ B$-J,$ não$ tem$ relacionamentos$ afetivos$ de$ longa$
duração.!
$
Quem$pertence$à$cena$B$-J$tende$a$não$ser$fiel$nos$seus$relacionamentos.!
$
Muitas$das$mortes$de$músicos$de$B$-J$deveram-se$ao$consumo$excessivo$
de$drogas.!
$
Nos$eventos$musicais$de$B$-J,$circulam$muitas$substâncias$ilegais$e$existe$
um$apelo$constante$ao$seu$consumo.!
$
$
440$
!
EM!Q(*…#8%!#!-%076z{%!+%-6%)(C}6-*!!
;@M!O7*7#^!ŠŠŠŠŠ!!
;XM!D+8*7%!E6e61^!
Solteiro:____!!
Casado:$____!!
Divorciado:$____$
!Viúvo:____$
;`M!E%0-#1f%!7#!(#+67#0-6*^____________________!
;AM!N€0#(%^!M_____$$F$_____$Outro________________$
;=M!D+-%1*(67*7#^!
1º$Ciclo$do$ensino$básico$(educação$primária)$$!
$
2º$Ciclo$do$ensino$básico$(5º$e$6º$ano)$$!
$
3º$Ciclo$do$ensino$Básico$(7º,$8º$e$9º$ano)!
$
Ensino$Secundário$!
$
Ensino$Superior!
$
$
;ZM![5*1!*!+5*!*86e67*7#!4(60-64*1u!
!
Trabalha!
$
Estuda!
$
Ocupa-se$das$tarefas$domésticas$!
$
Estuda$e$trabalha!
$
Inválido/Incapacitado!
$
Desempregado$!
$
$
441$
Reformado!
$
!
;ZM;M!G!+5*!*86e67*7#!4(%}6++6%0*1!€!(#350#(*7*u!
Sim____$$Não$____$$
$
;ZM@M!Se SIM, indique em que situação se encontra^
Trabalhador(a)$por$conta$própria_______
Trabalhador(a)$por$conta$de$outrem_____$
$
;RM!W%(!ƒ5*08*+!4#++%*+!€!-%0+8685|7%!%!+#5!*)(#)*7%!}*3616*(u$____$
$
;RM;M![5*1!*!+685*z{%!4(%}6++6%0*1!7%+!#1#3#08%+!7%!+#5!*)(#)*7%!}*3616*(u!
Estudam!
$
Empregados(as)!
$
Reformados$(as)!
$
Desempregados$(as)!
$
Vivem$de$rendimentos!
$
Outra:!
$
$
;RM@M![5*1! *!#+-%1*(67*7#! 3*$63*! 7%!#1#3#08%! 7%!+#5! *)(#)*7%! }*3616*(!ƒ5#! 3*6+!
-%08(6~56!4*(*!%!(#0763#08%!}*316*(u!
1º$Ciclo$do$ensino$básico$(educação$primária)$$!
$
2º$Ciclo$do$ensino$básico$(5º$e$6º$ano)$$!
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3º$Ciclo$do$ensino$Básico$(7º,$8º$e$9º$ano)!
$
Ensino$Secundário$!
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Ensino$Superior!
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JS"D,VGHaD"^!