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nós sentimentos de mulher, não se tome medida nenhuma para remediar aquilo
que cada uma teme fundamentalmente. Permanecemos aqui, segundo penso,
como se quiséssemos ou devêssemos ser testemunhas de quantos cadáveres são
trazidos à sepultura ou para ouvirmos os frades daqui, cujo número está quase
reduzido a nada, cantam seus ofícios nas horas devidas, ou para demonstrar a
quem quer que apareça, em nossos trajes, a qualidade e a quantidade de nossas
misérias. E, se saímos daqui, vemos mortos ou doentes transportados por todos
os lados, ou então vemos aqueles que, já condenados ao exílio pela autoridade
pública, em decorrência de seus malfeitos, agora escarnecem dessas mesmas leis,
ao saberem que seus executores estão mortos ou doentes, e percorrem a região
com ímpeto desagradável; ou então vemos o poviléu de nossa cidade, aquecido
com nosso sangue, autodenominando-se coveiro, cavalgar e percorrer todos os
lugares, zombar de nós e jogar-nos ao rosto os nossos males com canções
indecorosas. E não ouvimos outra coisa senão: “Fulanos estão mortos” e
“Sicranos estão para morrer”; e, se houvesse gente para chorar, ouviríamos
prantos dolorosos por toda parte. E, se voltamos para casa, não sei se com as
senhoras ocorre o mesmo que a mim: eu, que tinha grande número de serviçais,
encontrando lá agora apenas minha criada, fico apavorada e tenho arrepios por
quase todo o corpo; e, seja qual for a parte da casa aonde vá ou permaneça,
parece que vejo as sombras daqueles que se foram, mas não com as expressões
que costumavam ter, e sim assombrando-me com uma aparência horrível, que
não sei de onde lhes veio depois que morreram. Por todas essas coisas, aqui, fora
daqui e em casa eu me sinto mal; principalmente porque também me parece que
ninguém que tenha alguma energia e lugar aonde ir, como nós, continua aqui,
exceto nós mesmas. (3) E não só ouvi dizer como também vi várias vezes que
esses tais (se é que alguns há), sem fazerem distinção alguma entre coisas
honestas e desonestas, movidos somente pelo apetite, sozinhos ou
acompanhados, de dia e de noite, fazem tudo o que lhes dê na telha. E não só o
fazem as pessoas sem vínculos religiosos, mas também as enclausuradas dos
mosteiros, que, convencidas de que aquilo lhes convém e só é proibido às outras,
transgredindo as leis da obediência, entregam-se aos prazeres carnais e,
imaginando assim salvar-se, tornam-se lascivas e dissolutas. (4) E se assim é
(como se vê claramente que é), que fazemos aqui? Que esperamos? Que
sonhamos? Por que somos mais preguiçosas e lerdas com nossa saúde do que
todo o restante dos cidadãos? Acaso nos consideramos menos importantes que
todas as outras? Ou acreditamos que nossa vida está ligada ao corpo com cadeias
mais fortes do que as dos outros, de modo que não precisamos nos preocupar
com nada que seja capaz de prejudicá-la? (5) Estamos erradas, enganadas; que
estupidez a nossa, se acreditarmos nisso! (6) Sempre que nos lembrarmos de
quantos e quais homens e mulheres foram vencidos por essa cruel pestilência,
encontraremos fortíssimo argumento. Por isso, para não incidirmos, por
renitência ou desleixo, naquilo de que podemos escapar de alguma maneira,
desde que queiramos (não sei se as senhoras pensarão como eu), creio que seria
ótimo se, tal como estamos, tal como muitos antes de nós fizeram e fazem,
saíssemos dessa cidade; e, fugindo como da morte aos exemplos indecorosos dos
outros, fôssemos decorosamente para as propriedades do campo que cada uma
de nós tem em grande quantidade; e ali gozássemos da festa, da alegria e do
prazer que pudéssemos, sem ultrapassar de modo algum os limites da razão. (7)
Ali se ouvem pássaros cantar, veem-se colinas e planícies verdejantes, e os
campos cobertos de trigo não ondeiam menos que o mar; árvores há de muitos
tipos, e o céu, principalmente, por mais tormentoso que esteja, não nos nega suas
belezas eternas, muito mais dignas de admirar do que as muralhas vazias de
nossa cidade. Além disso, o ar ali é bem mais fresco, e das coisas todas de que a
vida carece nestes tempos a quantidade lá é maior, sendo menor o número de
contrariedades. E, embora os lavradores morram tanto quanto aqui os cidadãos,
ali a tristeza é menor porque as casas são mais esparsas e há menos habitantes