ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS: TIPOGRAFIA COMO TECNOLOGIA ASSISTIVA PDF Free Download

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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS: TIPOGRAFIA COMO TECNOLOGIA ASSISTIVA PDF Free Download

ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS: TIPOGRAFIA COMO TECNOLOGIA ASSISTIVA PDF free Download. Think more deeply and widely.

editora
CONSELHO EDITORIAL
ANA BEATRIZ PEREIRA DE ANDRADE, D.Sc.
Docente do Departamento de Design da FAAC/UNESP
ANDRÉ DE FREITAS RAMOS, D.Sc.
Departamento de Comunicação Visual/UFRJ
ADRIANA YUMI SATO DUARTE, D.Sc.
Docente do Departamento de Design e Programa de
Pós-Graduação em Design da FAAC/UNESP
ÁLVARO SOUSA, D.Sc.
Professor Associado com Agregação em Design da
Universidade de Aveiro - Portugal
EDNA CUNHA LIMA, D.Sc.
Professora aposentada da PUC-RIO e colaboradora do
Programa de Pós-Graduação da UFPE na Linha de Design
de Informação
LUCY NIEMEYER, D.Sc.
Programa de Pós-Graduação em Design da ESDI-UERJ
RODOLFO NUCCI PORSANI, D.Sc.
Pesquisador do LED - Laboratório de Ergonomia e Design
- Università degli Studi di Firenze - Itália
José Guilherme Santa Rosa
Márcia Yamaguchi
Yanna Medeiros
Natal, 2025
Catalogão da Publicação na Fonte.
Bibliotecária/Documentarista:
Rosa Milena dos Santos - CRB 15 / 847
S232p Santa Rosa, José Guilherme.
Ergonomia visual na leitura em telas: tipografia como
tecnologia assistiva [recurso eletrônico] / José Guilherme
Santa Rosa; Márcia Yamaguchi; Yanna Medeiros. – Natal:
Caule de Papiro, 2025.
188 p. : il.
ISBN 978-65-5477-104-7
1. Educação inclusiva. 2. Tecnologia assistiva - dislexia.
3. Educão especial. I. Yamaguchi, Márcia. II. Medeiros,
Yanna. III. Título.
CDU 376
Editora Caule de Papiro
Rua Serra do Mel, 7989, Cidade Satélite
Pitimbu | 59.068-170 | Natal/RN | Brasil
Telefone: (84) 3218 4626
www.cauledepapiro.com.br
©2025. José Guilherme Santa Rosa, Márcia Yamaguchi e Yanna Medeiros.
Reservam-se os direitos e responsabilidades do conteúdo desta edição aos
autores(as). A reprodão de pequenos trechos desta publicão pode ser real-
izada por qualquer meio, sem a prévia autorizão dos autores, desde que citada
a fonte. A violão dos direitos do autor (Lei n. 9610/1998) é crime estabelecido
pelo artigo 184 do Código Penal. Depósito legal na Biblioteca Nacional conforme
Lei N° 10.994, de 14 de dezembro de 2004.
Revisão
Capa
Projeto Gráfico e
Diagramação Eletrônica
Ricardo Alexandre de Andrade Macedo
José Marinho
Caule de Papiro
Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo.
(Virginia Woolf)
Tipografia é o design da linguagem.
(Erik Spiekermann)
O que eu não consigo construir, não consigo entender.
(Richard Feynman)
Em memória da Professora Doutora Anamaria
de Moraes, que continua iluminando gerações de
pesquisadores com suas ideias e seu conhecimento
sobre pesquisa em ergodesign.
Olhares da academia
Como o meu filho Léo é disléxico e levou tempo para ser diag-
nosticado, sempre me interessei pelo assunto. Elese curou com
imaginação, creio eu. Mas sofreu. Hoje em dia as coisas estão mais
fáceis. Mas descobri por acaso o que estava acontecendo, vendo,
no chão da universidade, uns livros à venda e um deles dizia: como
seu filho escreve ao contrário? E curiosa, fui ler.
Edna Cunha Lima, D.Sc.
Professora aposentada da PUC-RIO e colaboradora do Programa
de Pós-Graduação da UFPE na Linha de Design de Informação
O desenvolvimento de interfaces digitais voltadas para usuários com
dislexia exige uma atenção redobrada às questões da tipografia.
Nesses casos, a garantia de que a informação seja acessível e
cognitivamente compreensível constitui um requisito fundamen-
tal, o que implica um elevado rigor nos critérios de usabilidade e
acessibilidade digital. Esta obra propõe uma síntese atualizada e
indispensável sobre a aplicação da tipografia em ambientes digitais
inclusivos, especialmente no contexto da dislexia, superando a função
meramente estrutural do texto para afirmar o papel central que este
tem na mediação da compreensão e na promoção da acessibilidade
para pessoas com dislexia.
Álvaro Sousa, D.Sc.
Professor Associado com Agregação em Design
da Universidade de Aveiro - Portugal
A obra torna-se referência historiográfica convidando o leitor à
compreensão de caminhos em tecnologias, interfaces e tipografia.
Leitura agradável e clara, embora abordando conteúdos complexos.
Ressalto a contemporaneidade de proposta referente a ‘suporte
pedagógico e educacional’. Idem quanto à abordagem metodológica
de ‘Revisão Sistemática Integrativa’. Uma ‘intimação’ de reflexão aos
pesquisadores quanto às possibilidades em Tecnologias Assistivas.
Ana Beatriz Pereira de Andrade, D.Sc.
Docente do Departamento de Design da FAAC/UNESP
A obra aprofunda e promove a difusão do conhecimento sobre uma
questão fundamental do design: promoção da inclusão digital, como
afirmação da cidadania! Desse modo possibilita a ampliação da
leitura do mundo.
Lucy Niemeyer, D.Sc.
Programa de Pós-Graduação em Design da ESDI-UERJ
A obra como um todo demonstra como o Design está a serviço
da acessibilidade em seus vários âmbitos, reforçando meios de
garantir a quebra de barreiras físicas e digitais para proporcionar
uma sociedade justa, equitativa e plena.
Adriana Yumi Sato Duarte, D.Sc.
Docente do Departamento de Design e Programa de
Pós-Graduação em Design da FAAC/UNESP
O olhar do designer sobre a acessibilidade, ganha com o texto, uma
concretude sustentada por uma profunda reflexão metodologica-
mente precisa. A complexidade do material produzido e a leveza
do processo de leitura se complementam perante paradigma de
uma ubiquidade digital inerente à contemporaneidade. O livro vem
a contribuir com a pesquisa científica aplicada fundamentando as
práticas de acessibilidade. O design tem a possibilidade de colocar
luz sobre o invisível e a obra é sobre isso.
André de Freitas Ramos, D.Sc.
Departamento de Comunicação Visual/UFRJ
Esta obra explora a relação entre interfaces digitais, usabilidade,
acessibilidade e dislexia, com ênfase especial no uso da tipografia
como tecnologia assistiva. Oferece recomendações para o design
de interfaces digitais acessíveis e contribui para a inclusão digital
e social, promovendo a autonomia e melhorando a qualidade da
interação para pessoas com dislexia. Mais do que uma abordagem
teórica, esta é uma obra que estimula a prática e valoriza os princípios
do Design Centrado no Usuário. Uma contribuição relevante para o
desenvolvimento de soluções mais empáticas, eficazes e inclusivas.
Rodolfo Nucci Porsani, D.Sc.
Pesquisador do LED - Laboratório de Ergonomia e
Design - Università degli Studi di Firenze - Itália
Sumário
Apresentação, 13
I – USABILIDADE E ACESSIBILIDADE DIGITAL, 17
II – DISLEXIA, AUTONOMIA E INTERAÇÃO, 47
III – TIPOGRAFIAS ACESSÍVEIS PARA PESSOAS COM DISLEXIA, 67
IV – PESQUISAS E RECOMENDAÇÕES EM TIPOGRAFIAS PARA
ACESSIBILIDADE, 123
V – OUTRAS TECNOLOGIAS ASSISTIVAS DIGITAIS PARA PESSOAS
COM DISLEXIA, 145
Considerações finais, 159
Referências, 165
Sobre os autores, 177
Índice remissivo, 181
13
Apresentação
Quando a informática surgiu, com os computadores de
médio e grande porte, seu foco principal estava volta-
do para cientistas da computação, programadores, técnicos e
operadores — o público que manipulava os computadores.
Isso ocorria, predominantemente, devido à complexidade dos
equipamentos (hardwares), das linguagens de programação,
dos sistemas operacionais, dos programas (softwares) e dos
dispositivos de entrada e saída. No início da informática, não
existiam mouses, nem monitores coloridos ou de alta resolu-
ção.
De certo modo, pode-se dizer que a informática era pra-
ticada por poucos para gerar impacto e oferecer benefícios a
muitos. Não havia, portanto, a figura do usuário comum como
existe hoje. Todos eram especialistas que operavam os sistemas
e equipamentos. Os usuários, de modo geral, eram profissionais
capacitados e treinados para a utilização e manipulação dos equi-
pamentos e softwares. A sociedade, por sua vez, era beneficiada
pelo uso indireto desses computadores. Um exemplo ptico
disso é a conta de energia elétrica, que chegava à residência das
pessoas, processada por sistemas informatizados.
Com o advento da microinformática, os computadores
pessoais passaram a estar presentes nas residências. Em um pri-
meiro momento, eram acessíveis principalmente às pessoas mais
privilegiadas, com maiores recursos e instrução — geralmente
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aquelas com interesse e habilidades para raciocínio lógico e
programação. Aos poucos, no entanto, eles se disseminaram
de forma mais igualitária pela população.
Nesse contexto, engenheiros de software, designers e pro-
gramadores perceberam a necessidade de desenvolver progra-
mas considerando a facilidade de uso — a usabilidade — como
um dos atributos fundamentais da engenharia de software. As
interfaces gráficas, dispositivos de entrada como o mouse e os
monitores coloridos, além dos sistemas operacionais baseados em
janelas, tornaram-se elementos essenciais. A redução do preço
dos componentes eletrônicos também desempenhou um papel
crucial na disseminação dos microcomputadores na sociedade.
A partir desse momento, os engenheiros de software
entenderam que não era mais viável desenvolver programas
sem considerar as necessidades e limitações dos usuários, pois
os computadores passaram a ser utilizados por pessoas sem
treinamento técnico especializado.
Conforme Moraes e Mont’Alvão (2009), tecnologias como
computadores, mesmo que rápidos, precisos e eficazes, são
inúteis caso o usuário não consiga operá-los. Nesse sentido, a
ergonomia atua como mediadora entre os problemas da relação
do homem com os instrumentos utilizados para a realização
de suas tarefas, solucionando os conflitos entre as pessoas e a
tecnologia (Moraes; MontAlvão, 2009).
O desenvolvimento de dispositivos como mouses, canetas
óticas, mesas digitalizadoras, teclados ergonômicos, touchpads,
rastreadores oculares (eyetrackers), sistemas de reconhecimento
de voz, leitores de tela e outras tecnologias acessíveis ampliou
o perfil de usuários dos microcomputadores. Esses avanços
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contribuíram para promover a autonomia, a inclusão digital e
social, e a igualdade entre cidadãos.
Embora a popularização dos microcomputadores, e pos-
teriormente dos smartphones e dispositivos móveis, tenha
permitido um acesso mais igualitário à informação e aos serviços
digitais, também trouxe consigo a necessidade de uma atenção
especial ao perfil e às necessidades dos usuários. A comunidade
de pesquisa e desenvolvimento em design de interfaces passou
a dar ainda mais importância às questões de usabilidade e
a c e s s i b i l i d a d e d i g i t a l .
Com o avanço da tecnologia e a diversificação dos usuários
no ambiente digital, torna-se cada vez mais importante adotar
uma abordagem centrada no usuário. Compreender seus objeti-
vos, necessidades, características físicas, cognitivas, emocionais,
sociais e culturais, além de suas limitações, é essencial para
o desenvolvimento de softwares e sistemas acessíveis, úteis,
eficazes, eficientes e que proporcionem satisfação. Dessa forma,
a tecnologia pode contribuir tanto para o bem-estar, a saúde e
a qualidade de vida dos indivíduos quanto para o desempenho
global dos sistemas.
Nesse sentido, a acessibilidade digital envolve pesquisas
e o desenvolvimento de interfaces físicas e digitais para faci-
litar a interação de pessoas cegas, com baixa visão, surdas ou
com deficiência auditiva, indivíduos com diferentes níveis do
espectro do autismo, com Transtorno do Déficit de Atenção e
Hiperatividade ( TDAH), paralisia cerebral, deficiência física ou
intelectual, dislexia, discalculia, entre outras condições.
Esta obra é um dos produtos do projeto de pesquisa
Aspectos de Acessibilidade Digital e Usabilidade em
Dispositivos Móveis”, com foco específico na acessibilidade
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de interfaces digitais para indivíduos com dislexia. São abor-
dados temas como usabilidade e acessibilidade digital, além de
conceitos sobre dislexia — explicados em linguagem simples,
não cienfica e não médica, voltada para o público leigo —
incluindo sua influência no aprendizado, na autonomia e na
interação digital e social. A obra também apresenta análises de
pesquisas e recomendações, baseadas em revisões sistemáticas e
assistemáticas da literatura, além de explorar outras tecnologias
assistivas digitais para pessoas com dislexia.
Você descobrirá que pequenas escolhas — como a tipo-
grafia, a organização dos textos e a apresentação do conteúdo
— podem fazer uma enorme diferença na vida de alguém.
Esperamos que este livro inspire suas pesquisas e o desenvol-
vimento de interfaces digitais que considerem a usabilidade e
a acessibilidade digital.
José Guilherme Santa Rosa
Márcia Yamaguchi
Yanna Medeiros
17
I
USABILIDADE E
ACESSIBILIDADE DIGITAL
As tecnologias digitais seguem um ciclo de transformação
constante, caracterizado por processos mutáveis, dinâ-
micos e adaptáveis. Esse movimento contínuo é responsável
por impulsionar o desenvolvimento, aprimoramento e atu-
alização de interfaces, garantindo uma experiência cada vez
mais funcional. Em um cenário composto por uma constela-
ção de usuários, diversos e múltiplos, a integração entre aces-
sibilidade digital e usabilidade vem ganhando relevância no
design de interfaces.
Ao analisar as interfaces digitais sob a ótica da usabili-
dade e da acessibilidade para pessoas com dislexia é possível
compreender as tecnologias assistivas como extensões das capa-
cidades cognitivas relacionadas à leitura, organização mental
e expressão. Sendo assim, essas tecnologias desempenham o
papel de mediadoras, permitindo que o usuário interaja com o
conteúdo de maneira mais eficiente, enquanto proporcionam
uma experiência personalizada que respeita suas necessidades
individuais. A forma como as tecnologias assistivas são incor-
poradas ao design da interface pode impactar diretamente a
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
autonomia e a interação desses usuários em ambientes digitais.
Assim, embora aspectoscnicos como estrutura, arquitetura
e desenvolvimento sejam essenciais, a eficácia do software
depende da atenção dedicada à usabilidade e à acessibilidade
desde as etapas iniciais do projeto.
A usabilidade, enquanto conceito fundamental na inte-
ração humano-computador, refere-se à facilidade com que um
usuário consegue atingir seus objetivos por meio de um sistema
ou produto. Entretanto, de acordo com Santa Rosa e Santa
Rosa (2020), a usabilidade não deve ser entendida como um
atributo fixo e intrínseco ao produto, mas como uma propriedade
que emerge da interação entre as características dos usuários
e os contextos específicos de uso. Assim, para proporcionar
uma experiência satisfatória, a interface precisa ir além das
expectativas e desejos de seus usuários, adotando diretrizes
de acessibilidade e usabilidade, que assegurem a autonomia
na execução de tarefas, de maneira funcional, sem obstáculos
ou dificuldades desnecessárias.
Nos anos 2000, Jakob Nielsen (Nielsen, 2000), pesquisa-
dor-consultor e evangelista da usabilidade no mundo, destacava
que, inicialmente a web era predominantemente acessada por
pessoas muito inteligentes, pioneiras na tecnologia avançada. No
entanto, com a crescente popularidade da web, mais usuários
iniciantes, com pouca familiaridade e conhecimento sobre
ambiente digital, começaram a acessá-la. Para atender e satisfazer
as demandas desses novos perfis de usuários, Nielsen (2000)
destaca que seria essencial aumentar e melhorar a usabilidade
para garantir que o conteúdo fosse compreensível em níveis de
leitura primária. Em sua análise, Nielsen (2000) destaca, também,
a importância de oferecer suporte a usuários com deficiências
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
cognitivas, que podem ser altamente inteligentes, mas ainda
assim enfrentar dificuldades específicas.
Nos anos 2000, Nielsen (2000) observou que as deficiências
cognitivas eram menos priorizadas no design de interfaces do
que as deficiências físicas, de modo que nessa época, as diretrizes
para oferecer suporte a esses usuários ainda não estavam bem
definidas. Destacamos que, atualmente, a realidade do cenário de
pesquisas em usabilidade e acessibilidade digital para interfaces
digitais destinadas à neurodivergentes é bastante diferente
desse contexto apresentado por Nielsen (2000). Essa evolução
é observada não apenas em países mais desenvolvidos e com
mais recursos e investimentos em pesquisas, mas também em
nosso cenário brasileiro. Percebemos que, atualmente, existe uma
conscientização maior por parte da sociedade e da comunidade
científica, que buscam respostas e soluções para promover a
inclusão digital e social, considerando os diversos tipos de
deficiências e a diversidade.
A exemplo disso, destacamos no Nordeste e Norte do
Brasil os projetos de pesquisas coordenados pelo professor
Santa Rosa (Universidade Federal do Rio Grande do Norte — no
Laboratório de Ergodesign de Interfaces, Experiência do Usrio
e Usabilidade) sobre Acessibilidade Digital para Dispositivos
Mobile e sobre Interfaces Digitais para Neurodivergentes, além
de seu projeto de pós-doutoramento, intitulado “Abordagem
otimizadora baseada em cognição humana e computacional
para aplicação em interface de sistema de gestão de informações
acadêmicas no contexto universitário”, desenvolvido no âmbito
do Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Biologia
Celular da Universidade Federal do Pará, sob a supervisão do
professor e parceiro de pesquisa Antônio Pereira Júnior — autor,
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
juntamente com o professor Santa Rosa e Allan Pablo Lameira,
do Livro Neurodesign: o cérebro e a máquina (Santa Rosa; Pereira
Junior; Lameira, 2021). Dentro da mesma linha de atuação
citam-se as pesquisas de mestrado de Yamaguchi cujo tema
é o Design Inclusivo e Dislexia, sendo realizada no âmbito
do Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade
Federal de Campina Grande, e a pesquisa de Medeiros cujo
tema é a Acessibilidade Digital e a Usabilidade para pessoas
com Dislexia, em desenvolvimento no âmbito do Programa de
Pós-Graduação em Inovação em Tecnologias Educacionais no
Instituto Metrópole Digital da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, ambas sob a orientação do professor Santa
Rosa.
Exemplos práticos de soluções de interfaces a partir de
pesquisas sobre usabilidade e acessibilidade digital já eram
apresentados por Nielsen em 2000. Segundo Nielsen (2000),
muitas ideias provenientes da pesquisa de recuperação de infor-
mação poderiam ser usadas na web para eliminar a necessidade
de ortografia em interfaces de busca. A busca com ortografia
reduzida seria uma grande ajuda para usuários com dislexia
e também melhoraria a usabilidade para todos — o que, como
todos nós sabemos, de fato aconteceu. Mais uma vez, nosso
guru” da usabilidade estava certo.
Nesse sentido, é importante termos em mente que ao
pensarmos em interfaces digitais para pessoas com dislexia,
as fontes são elementos fundamentais. Contudo, não são os
únicos elementos que interferem na qualidade da interação
entre usuários com dislexia e computadores. Discutiremos, ao
longo deste livro, que existem outros elementos da tipografia
e do design de interfaces que também podem influenciar a
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
qualidade da leitura e compreensão das informações, como por
exemplo, a densidade informacional, contraste, hierarquia visual,
entre linhas, quantidade de caracteres por linha, legibilidade,
leiturabilidade, dentre outros aspectos.
Nielsen (2000) destaca, também, que usuários com dislexia
podem ter dificuldades para ler páginas longas na web e que,
se os títulos forem elaborados e projetados adequadamente
(inclusive com âncoras de hipertexto) esses usuários poderão
navegar de modo mais fácil e rápido — sem muito esforço
cognitivo. Outro aspecto interessante, seria oferecer um cor-
retor ortográfico ou uma lista de palavras dentro de caixas
de busca ou de pesquisa, permitindo que os usuários com
dislexia pudessem digitar as palavras de suas pesquisas sem
se preocuparem tanto com ocorrências de erros decorrentes da
troca de caracteres ou letras.
Além dessas recomendões, Lupton (2006) destaca que,
no ambiente digital, o texto assume uma função que ultrapassa a
simples comunicação, tornando-se um meio de direcionamento
para o usuário. Nesse sentido, o texto não apenas transmite sig-
nificado, mas também atua sobre o comportamento do usuário
de maneira sutil e contínua. O ambiente digital, assim, cria uma
dinâmica onde o usuário, ao interagir com a interface, responde
aos sinais do texto, mas também é moldado e direcionado por
ele, muitas vezes sem plena consciência disso. Por exemplo,
durante a interação em uma interface de e-commerce podem
surgir textos com mensagens como “quem comprou este item
também comprou...” ou “você concluiu esta etapa, agora siga
para a pxima, em que o texto, além de informar, assume uma
função estratégica, guiando a navegação e sugerindo percursos.
Lupton (2006) ilustra bem essa dimensão interativa da leitura
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
ao discutir o modelo proposto por Roland Barthes, no qual o
texto é visto como uma rede aberta de referências e não como
uma obra fechada e perfeita. Nessa perspectiva, Barthes afirma
que “o texto aciona sua leitura (como uma porta, como uma
máquina com botão 'play') e o leitor a sobreaciona, jogando com
o texto como quem joga um jogo, procurando uma prática que
o reproduza” (Barthes 2004 apud Lupton, 2006, p. 73). Assim,
a leitura se torna uma performance dinâmica, em que o leitor
interage com o texto e, ao mesmo tempo, o texto também joga
com o leitor, influenciando suas interpretações e escolhas. Para
pessoas com dislexia, essa relação torna-se ainda mais delicada,
visto que, o texto ao “jogar com o usuário, pode se transformar
em um desafio frustrante quando não é construído a partir de
princípios de acessibilidade e usabilidade.
Nesse jogo entre leitor e texto, os elementos gráficos,
tipográficos e estruturais da interface atuam como mediadores.
Quando o design é projetado sem considerar as diferentes formas
de processamento cognitivo, ele desequilibra o “jogo” entre
interface e usuário. Isso evidencia a importância de refletirmos
sobre a autonomia dos usuários com dislexia na web, conside-
rando que a leitura é um processo ativo de interação, no qual
usuário e texto influenciam um ao outro de forma contínua.
A autonomia digital, ou seja, a capacidade de interagir
com sistemas digitais sem necessidade de assistência constante,
depende diretamente da aplicão de princípios do design
centrado no usuário. Norman (2018) destaca que o bom design
é aquele que oferece soluções fáceis de usar, baseadas na com-
preensão das limitações e necessidades dos usuários. No caso
de pessoas com dislexia, a construção de interfaces inclusivas
vai além de adaptações e ajustes pontuais, é fundamental
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
considerar que, quando mal projetadas, essas interfaces podem
gerar sobrecarga cognitiva, exigindo do usuário um esforço
mental excessivo para compreender e processar as informações
apresentadas.
De acordo com Manakhov e Ivanov (2016) apud Santa
Rosa e Santa Rosa (2020), um problema de usabilidade, ou falha
de usabilidade, refere-se a um conjunto de dificuldades que
impedem o usuário de atingir seus objetivos, resultando em
interões ineficazes e/ou insatisfarias. Esses problemas são
causados por uma combinação de fatores relacionados tanto
ao design da interface quanto ao contexto de uso. No caso dos
usuários com dislexia, obstáculos como textos longos, tipografia
inadequada, baixo contraste e navegação confusa dificultam a
leitura e afetam negativamente sua autonomia digital.
Cabe ressaltar que a usabilidade, embora seja um fator
essencial, não deve ser vista como um critério isolado e absoluto
no desenvolvimento de um projeto (Niemeyer, 2010). Enquanto
a usabilidade busca tornar a interação mais eficiente, eficaz e
satisfatória para o maior número possível de usuários, a acessi-
bilidade visa garantir que essa experiência seja possível mesmo
para aqueles que enfrentam barreiras específicas. Assim, ambas
se complementam e devem caminhar juntas no desenvolvimento
de interfaces digitais inclusivas.
Essa abordagem integrada remete aos princípios da ergo-
nomia que conforme a ABERGO (2020) orienta a construção de
sistemas centrados no ser humano e define a ergonomia como:
a ciência do trabalho” deriva do grego ergon (traba-
lho) e nomos (leis). Ergonomia (ou fatores humanos) é
a disciplina científica preocupada com a compreensão
das interações entre humanos e outros elementos de um
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
sistema, e a profissão que aplica teoria, princípios, dados
e métodos para projetar a fim de otimizar o bem-estar
humano e o desempenho geral do sistema (ABERGO,
2020).
Segundo Moraes e Mont’Alvão (2009), a ergonomia inves-
tiga a complexa interação entre pessoas, ambiente, ferramentas
e tecnologias. Complementando essa definição, Iida e Buarque
(2016) caracterizam a ergonomia como o estudo da relação entre
o ser humano e seu trabalho, destacando três áreas principais
de especialização: ergonomia física, ergonomia organizacional
e e r g o n o m i a c o g n i t i v a .
Embora todas essas áreas sejam relevantes, este livro
tem como foco a ergonomia cognitiva, por estar diretamente
relacionada aos aspectos mentais envolvidos na interação com
interfaces digitais e à influência da composição gráfica dessas
interfaces nas atividades do usuário. Dessa forma, de acordo
com Moraes e MontAlvão (2009) e Iida e Buarque (2016), a
ergonomia cognitiva se ocupa dos processos mentais envolvidos
na atividade humana — como percepção, memória, raciocínio e
resposta a estímulos — além de outros elementos que compõem
um sistema de trabalho. Tais aspectos influenciam diretamente
a maneira como as pessoas interagem com os sistemas.
D e n t r o d e s s e c a m p o , c o m o u m d e s d o b r a m e n t o d a e r g o -
nomia cognitiva, destaca-se a ergonomia visual, voltada para
a organização dos elementos gráficos de modo a facilitar a
percepção e a compreensão da informação. Seu objetivo é
garantir que a comunicação visual seja eficiente, funcional e
harmônica, considerando fatores como legibilidade, tipografia,
cor e composição visual (Sarmento, 2021). Conforme Blum e
Merino (2015), a ergonomia visual está alinhada ao conceito
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
de usabilidade descrito pela ABNT (2002, p. 3), o qual orienta
que “o produto pode ser usado por usuários específicos para
alcançar objetivos específicos com eficácia, eficiência e satisfação
em um contexto específico de uso”.
Essa perspectiva reforça a importância da ergonomia como
base para a integração entre usabilidade e acessibilidade, áreas
que têm ganhado destaque por promoverem o desenvolvimento
de recomendações de design específicas para garantir que as
interfaces sejam acessíveis para todos os perfis de usuários.
Essa integração entre usabilidade e acessibilidade, vem
ganhando cada vez mais relevância, impulsionando o desenvol-
vimento de recomendações de design específicas para garantir
que as interfaces sejam acessíveis para todos os perfis de usu-
ários. Nesse sentido, Santa Rosa e Santa Rosa (2020) destacam
que “há um crescente aumento no número de propostas de
heurísticas e princípios de design destinados à avaliação de
interfaces sob a ótica da acessibilidade”, o que reforça a impor-
ncia de incorporar esses critérios desde as etapas iniciais do
desenvolvimento, garantindo solões mais adaptadas às reais
necessidades dos usuários.
Porém, ainda que a acessibilidade e a usabilidade sejam
conceitos interligados, é importante destacar que elas pos-
suem diferenças fundamentais que impactam diretamente
a experiência do usuário. “A acessibilidade busca prover o
acesso às informações a todas as pessoas, independentemente
de suas deficncias, não devendo, porém, ser confundida com
a usabilidade” (Godoy et al., 2019 apud Santa Rosa; Santa Rosa,
2020, p. 78). Embora uma interface possa ser acessível a pes-
soas com deficiências, ela ainda pode apresentar problemas
de usabilidade que comprometem a eficácia e a satisfação do
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
usuário. De maneira semelhante, uma interface projetada com
foco em usabilidade não garante, por si só, que será acessível a
todos os usuários, o que exige a aplicação de uma abordagem
integrada e cuidadosa.
Entre as limitações enfrentadas, destaca-se a ausência
de abordagens que considerem a diversidade das deficiências.
As diretrizes desenvolvidas para usuários com baixa visão,
como o alto contraste e a compatibilidade com leitores de tela,
são essenciais para garantir a navegabilidade e a autonomia
desse grupo. No entanto, quando aplicadas a indivíduos com
transtornos específicos de aprendizagem, como a dislexia,
essas mesmas diretrizes podem apresentar limitações, uma vez
que as necessidades desse público vão além desses recursos,
exigindo estratégias como a adaptação tipográfica e o ajuste de
espaçamento para melhor legibilidade.
Da mesma forma, ao considerar usuários com Transtorno
de Déficit de Atenção e Hiperatividade ( TDAH), as barreiras de
acesso tendem a estar mais associadas a desafios cognitivos,
como dificuldade de concentração e sobrecarga informacional,
exigindo abordagens que minimizem distrações e promovam
uma estruturação mais clara dos conteúdos.
Por isso, a acessibilidade é um conceito, cuja compreensão
envolve diferentes definições que dependem do contexto de
aplicação. De maneira fundamental, a acessibilidade refere-se
ao direito de todas as pessoas, inclusive aquelas com limita-
ções físicas, sensoriais ou cognitivas, de acessar e usufruir, em
igualdade de condições, de espaços, servos e informações. A
partir dessa compreensão ampliada, é possível reconhecer que
a acessibilidade se desdobra em diferentes dimensões, entre
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
as quais se destacam: a acessibilidade física, comunicacional,
atitudinal, metodológica e digital.
De acordo com a definição apresentada na Cartilha de
Acessibilidade na Web, elaborada pelo W3C Brasil (2014), a aces-
sibilidade digital é definida como uma garantia de condições
que permitem que todas as pessoas possam acessar, perceber,
compreender e interagir com os conteúdos, serviços e funcio-
nalidades disponíveis nos ambientes digitais, de forma segura
e autônoma. Assim, o acesso deve estar ao alcance de todos,
contemplando as diferentes condões motoras, visuais, auditi-
vas, cognitivas, culturais ou sociais dos indivíduos, assegurando
o uso em qualquer tempo, ambiente físico ou computacional, e
por meio de múltiplos dispositivos tecnogicos.
Nos últimos anos, a acessibilidade digital tem se consoli-
dado como um tema central no campo da inclusão tecnológica,
impulsionada pela crescente presença das tecnologias digitais
no cotidiano, sobretudo após a popularização dos dispositivos
veis. Apesar do avanço no acesso, essa transformação também
expôs limitações estruturais e funcionais que comprometem a
experiência dos usuários, restringindo o uso por uma parcela
significativa da população. Segundo dados do Google (2022),
estima-se que 1,3 bilhão de pessoas em todo o mundo convivam
com algum tipo de deficiência e, frequentemente, enfrentam
barreiras no acesso às plataformas digitais.
Projetar interfaces acessíveis implica compreender a
diversidade dos perfis dos usuários, entendendo quem são as
pessoas beneficiadas, considerando suas características, limi-
tações, necessidades, habilidades e contextos de uso. Além das
deficiências, outras condições específicas também demandam
recursos de acessibilidade, mesmo que não sejam oficialmente
28
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
classificadas como tal. Diante disso, torna-se necessária a elabo-
ração e adoção de diretrizes que reconheçam a multiplicidade
dos perfis de usuários e dispositivos, considerando a diversidade
das naturezas das deficiências. De acordo com Brasil (2023),
existem três naturezas principais de deficiência: a congênita ou
hereditária, que acompanha o indivíduo desde o nascimento;
a adquirida, que surge ao longo da vida; e a temporária, que
ocorre de maneira provisória, como no caso de uma pessoa que,
após sofrer uma lesão nas mãos, precisa usar comandos de voz
para interagir com um smartphone. Nesse caso, a pessoa pode
utilizar assistentes de voz, como o Google Assistente ou a Siri,
para navegar por aplicativos, enviar mensagens ou realizar
pesquisas, sem a necessidade de tocar na tela.
A norma ABNT NBR 17225 (Hand Talk, 2025) também
reforça esse entendimento ao reconhecer as limitões temporá-
rias ou situacionais, demonstrando que até mesmo pessoas sem
deficiência podem se beneficiar de recursos de acessibilidade em
determinados contextos. Situações como dificuldade de leitura
em ambientes muito iluminados, necessidade de legendas em
locais barulhentos ou silenciosos, exemplificam como o ambiente
pode impor barreiras momentâneas à interação digital. Portanto,
projetar para a acessibilidade é, acima de tudo, considerar a
diversidade de experiências humanas e criar interfaces que
sejam adaptáveis.
A adoção das diretrizes da WCAG (Web Content Accessibility
Guidelines) — principais recomendações internacionais para
tornar a web acessível — contribui de forma significativa para
ampliar o acesso de pessoas com deficiência, como aquelas com
cegueira, surdez ou limitações motoras, ao ambiente digital.
Ademais, seus benefícios estendem-se também ao público em
29
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
geral, contemplando, entre outros, idosos com habilidades
reduzidas pelo envelhecimento e indivíduos com baixa profi-
ciência em leitura, como os analfabetos funcionais ( W3C Brasil,
2015). De acordo com o Google (2022), uma comunicação digital
acessível deve ser projetada para todas as pessoas, com ou sem
deficiência, abrangendo diferentes formatos como sites, blogs,
postagens em redes sociais, e-mails, entre outros.
(...) a acessibilidade deve ser pensada desde as fases
iniciais do projeto – desse modo, todo o processo fica
mais fácil, rápido, econômico e menos estressante para a
equipe do que se for pensada apenas no teste ou verifi-
cação final do sistema (Boudreau, 2020 apud Santa Rosa;
Santa Rosa, 2020, p. 83).
Esse planejamento antecipado não otimiza os recursos e
tempo, mas também garante que as interfaces sejam cuidadosamente
planejadas considerando a inclusão digital durante todo o processo
de desenvolvimento, resultando em interfaces mais inclusivas e
funcionais para todos os usuários, independentemente de suas
necessidades específicas.
WCAG (Web Content Accessibility Guidelines)
As WCAG (Web Content Accessibility Guidelines) são
diretrizes internacionais de acessibilidade para conteúdo da
web, desenvolvidas e mantidas pelo W3C – World Wide Web
Consortium ( W3C, 2024). Em 2024, foi publicada a versão mais
recente, a WCAG 2.2, composta por 87 critérios de sucesso.
Essa atualização teve como objetivo principal ampliar a cober-
tura das diretrizes para atender, de forma mais eficaz, a três
30
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
grupos específicos: usrios com deficiências cognitivas ou
de aprendizagem, pessoas com baixa visão e indivíduos com
deficiência que utilizam dispositivos móveis ( W3C, 2024). Como
parte dessa atualização, foram incluídos nove novos critérios,
enquanto conteúdos relativos a “controles escondidos”, “pontos
de refencia fixos” e espaçamento de alvo de ponteiro” foram
realocados para outras seções do documento (Ferraz, 2023).
Apenas um critério foi removido: o 4.1.1, que exigia a ausência
de erros na marcação HTML, como o uso de tags completas
(Ferraz, 2023).
De forma geral, a WCAG é estruturada em camadas
hierárquicas compostas por princípios, diretrizes, critérios de
sucesso e técnicas (suficientes e aconselhadas). Essa organização
visa orientar os desenvolvedores na criação de conteúdos digi-
tais acessíveis, incentivando-os a alcançar o mais alto nível de
conformidade possível, de modo a beneficiar o maior número
de usuários.
Na imagem 1, apresentada a seguir, é possível observar
um diagrama informativo que oferece uma visão geral dos
princípios e diretrizes da WCAG 2.2, organizados de maneira
visual e categorizada para facilitar a compreensão dos requisitos
de acessibilidade digital.
31
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Imagem 1 – Diagrama informativo das diretrizes de
Acessibilidade para Conteúdos Web (WCAG 2.2)
Fonte: modelo criado por IA e adaptado pelos autores com base nas
diretrizes WCAG 2.2.
Essas técnicas são acompanhadas por Critérios de Sucesso,
organizados em trêsveis de conformidade: A (vel mínimo),
AA (vel intermediário) e AAA (nível máximo). Cadavel
expressa o grau de conformidade e a importância da aplicação
do critério correspondente, refletindo diretamente no potencial
32
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
de acessibilidade do conteúdo digital. A não conformidade com
critérios de nível A, por exemplo, pode comprometer signifi-
cativamente a acessibilidade da informação, mesmo diante do
uso de tecnologias assistivas (WCAG, 2024).
Como exemplo, pode-se verificar a técnica 1.1.1 – Conteúdo
não textual, que está associada ao critério de sucesso do nível
A, o que significa que sua aplicação é essencial para garantir
que informações básicas sejam compreensíveis por todos os
usuários, incluindo aqueles que utilizam leitores de tela. Em con-
trapartida, a técnica 1.2.6 – Língua de sinais (pré-gravada) – está
vinculada ao nível “AAA, indicando um critério de excelência.
Isso significa que, embora sua adão não seja obrigatória para
a acessibilidade básica, a técnica 1.2.6, contribui para um grau
elevado de inclusão, ampliando significativamente a experiência
de usuários com diferentes necessidades comunicacionais.
Dessa forma, a estrutura da hierarquia da WCAG 2.2 pode ser
verificada no diagrama (imagem 2) a seguir:
33
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Imagem 2 – Diagrama da aplicação das recomendações
de acessibilidade da WCAG 2.2
Fonte: desenvolvido pelos autores com base na WCAG 2.2 .
O diagrama apresenta um esquema visual que representa
o processo de aplicação das Diretrizes de Acessibilidade para
Conteúdo Web (WCAG). O fluxo inicia no Princípio “Perceptível”.
A partir dele, desdobra-se a Diretriz “1.1 – Alternativa em texto,
em seguida a Técnica “1.1.1 – Conteúdo não textual”, que indica
como a diretriz deve ser aplicada. Por fim, essa técnica se conecta
a um Critério de Sucesso, nesse exemplo, classificado como nível
A (o nível mínimo de conformidade exigido).
34
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Embora as Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo na
Web (WCAG) existam desde 1999, seu conteúdo é considerado
bastante complexo, com orientações detalhadas e extensas
(Google, 2022), o que pode dificultar a sua aplicação. Pensando
nisso, Marcelo Sales (especialista em acessibilidade digital)
elaborou o Toolkit de Acessibilidade — para facilitar e simplificar
as diretrizes do WCAG (Google, 2022). Essa ferramenta consiste
em um conjunto de cards, um para cada técnica, constando:
descrição resumida da diretriz, o princípio, a recomendação,
critério de sucesso, nível de conformidade, nota e observação; e
link para consulta da diretriz completa (como mostra a imagem
3). O Toolkit de Acessibilidade é disponibilizado gratuitamente
e está disponível para impressão e livre para edição (Sales, 2019).
Imagem 3 – Elementos presentes nos cards do Toolkit de Acessibilidade
Fonte: adaptado de Sales (2019).
35
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
A ferramenta Toolkit de Acessibilidade (Sales, 2019) con-
figura-se como um recurso estratégico para o desenvolvimento
de produtos digitais acessíveis, ao simplificar e tornar mais
interativo o conteúdo disponibilizado pelo portal do W3C.
Diferentemente da leitura tradicional das diretrizes da WCAG,
considerada muitas vezes complexa, o Toolkit proporciona uma
compreensão facilitada por meio da apresentação de resumos
das diretrizes e possibilita a aplicação de dinâmicas colabo-
rativas. Essa abordagem favorece a aprendizagem em equipe,
estimula o engajamento dos participantes e contribui para a
internalizão dos conceitos de acessibilidade de maneira mais
prática e aplicada.
Outras iniciativas também orientam e/ou disponibilizam
guias e recomendações para a acessibilidade digital. Uma dessas
iniciativas foi promovida pelo Google, quando, em 2021, rea-
lizou um evento de quatro dias com consultorias, palestras e
apresentações dedicadas ao tema. Como resultado desse evento,
em 2022, a empresa Google lançou um guia voltado à acessi-
bilidade e inclusão digital, no qualo oferecidas orientações
práticas para o desenvolvimento de projetos digitais inclusivos
(Google, 2022). Destacam-se ainda, ações do Governo Federal
voltadas à promoção da inclusão digital, como o Guia de Boas
Práticas para Acessibilidade Digital (Brasil, 2023), elaborado
em parceria com o Reino Unido; o Modelo de Acessibilidade
em Governo Eletrônico – eMAG (Brasil, 2014), que utiliza
como base as diretrizes da WCAG para oferecer recomendações
técnicas a desenvolvedores de sistemas digitais; e a legislação
como a ABNT NBR 17225 (Hand Talk, 2025) que dispõe sobre
acessibilidade para web.
36
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Quadro 1 – Outras iniciativas com recomendações
de acessibilidade na web
Referência Documento Pontos importantes
Google (2022) Guia de Acessibilidade
Digital para Marcas
Diversas e Inclusivas
(Google, 2022).
Conceitos, dicas, sites,
aplicativos e ferramentas para
projetos digitais inclusivos.
Brasil (2023) Guia de boas
práticas para
acessibilidade digital.
Conceitos, exemplos
abordados, dúvidas levantadas,
recomendações sugeridas,
ferramentas indicadas,
entre outros tópicos.
Hand Talk (2025) ABNT NBR 17225 -
Acessibilidade Web.
Estabelece critérios técnicos para
garantir acessibilidade a sites e
aplicações digitais para pessoas
com de ciência, limitações
temporárias ou situacionais.
Brasil (2014) eMAG - Modelo de
Acessibilidade em
Governo Eletrônico.
Recomendações técnicas para
o desenvolvimento de sistemas
digitais baseadas na WCAG.
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Os documentos mencionados, apresentam prinpios e
orientações fundamentais para a promão da acessibilidade
em ambientes digitais. Essas orientações são voltadas para
promover a acessibilidade de forma ampla, abrangendo dife-
rentes perfis de usuários. No entanto, neste livro, optamos por
reunir e destacar recomendações específicas direcionadas às
necessidades de pessoas com dislexia e neurodivergentes, com
o objetivo de abordar as particularidades dessas condições.
37
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Recomendações e diretrizes de
acessibilidade textual para o meio digital
Para compreender de forma mais aprofundada como
a acessibilidade pode beneficiar a interação de pessoas com
dislexia na web, foram selecionadas recomendações e dire-
trizes voltadas para acessibilidade textual e/ou direcionadas
especificamente para dislexia e neurodivergência. A escolha
desses critérios se baseia no potencial impacto da experiência de
leitura e navegabilidade na web, sobretudo por meio de ajustes
na apresentação e organização de textos nas interfaces digitais.
Essas orientações contribuem para tornar a informação mais
clara, legível e acessível.
A primeira delas, a associação brinica British Dyslexia
Association (BDA), internacionalmente reconhecida por seu
trabalho em prol da inclusão de pessoas com dislexia, dispo-
nibiliza entre outros materiais, o BDA Dyslexia Style Guide, um
guia de estilos que apresenta princípios para tornar o material
escrito mais acessível e de fácil leitura para pessoas com dislexia
(BDA, 2023).
Além disso, também selecionamos as recomendações
relacionadas ao conteúdo textual da WCAG, e aspectos especí-
ficos do Guia de Acessibilidade Digital para Marcas Diversas e
Inclusivas (Google, 2022) que disponibiliza dicas baseadas nas
principais barreiras enfrentadas por pessoas neurodivergentes.
Ressaltamos que tanto a WCAG quanto o Guia de
Acessibilidade Digital para Marcas Diversas e Inclusivas (Google,
2022) tratam a acessibilidade de maneira ampla e abrangente.
Embora tenhamos focado nas diretrizes e recomendações
38
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
voltadas especificamente para o conteúdo textual, é importante
destacar que, para garantir a plena acessibilidade de um sistema,
todas as recomendações e diretrizes devem ser consideradas
e aplicadas.
BDA (British Dyslexia Association)
As recomendações da BDA Dyslexia Style Guide abrangem
especialmente questões relacionadas à tipografia, layout e cores,
tanto para meio impresso como digital. Dessa forma, direciona-
mos as recomendações para o meio digital, como apresentado
no quadro 2 a seguir:
Quadro 2 – Recomendações para acessibilidade de
material escrito da BDA
Dyslexia Style Guide
Elemento Recomendações
Fontes Uso de fontes legíveis, deve-se considerar:
Fontes sem serifa como: Arial, Comic Sans, Verdana,
Tahoma, Century Gothic, Trebuchet, Calibri, Opens Sans;
Tamanho 12 a 14 pontos;
Espaçamento entre letras aumentado: em torno
de 35% da largura média das letras ( espaçamento
excessivo pode prejudicar a legibilidade);
Espaçamento entre palavras: Pelo menos
3,5 vezes o espaçamento entre letras;
Espaçamento entre linhas: 1,5/ 150%
Usar negrito para dar ênfase;
Evitar sublinhado e itálico;
Evitar letras maiúsculas em textos corridos.
39
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Títulos Utilizar pelo menos um tamanho 20%
maior que o texto do corpo;
Usar negrito para dar ênfase (quando necessário);
Usar ferramentas de formatação para:
alinhamento de texto, justi cação, recuos, listas,
espaçamento entre linhas e parágrafos;
Adicionar espaço extra ao redor dos
títulos e entre parágrafos.
Hiperlink Necessário ter a aparência diferente
dos títulos e corpo do texto.
Layout Alinhamento do texto: à esquerda e sem justi cação;
Evitar múltiplas colunas (como usado em jornais);
Tamanho de frases: 60 a 70 caracteres;
Usar espaços em branco: recurso para
remover desordem e agrupar conteúdos;
Dividir documentos longos: usar títulos
nas seções e um índice.
Estilo de escrita Usar voz ativa;
• Ser conciso;
Evitar parágrafos longos e densos;
Linguagem simples e clara (palavras do dia a dia);
Usar imagens para complementar textos como
fluxogramas, pictogramas e grá cos;
Usar marcadores e numerações;
• Instruções claras;
Evitar duplas negativas;
Evitar jargões e abreviações;
Fornecer um glossário de jargões.
Cor Fundo de cor única (evitar imagens de fundo);
• Contraste su ciente entre fundo e texto;
Texto com cor escura e fundo claro (não branco
puro, considere uma cor pastel suave);
Evitar as cores verde e vermelho/rosa.
Fonte: BDA (2023).
Em síntese, as recomendações do BDA Dyslexia Style Guide
oferecem diretrizes práticas e detalhadas que, ao considerar
aspectos como tipografia, layout, uso de cores e estilo de escrita,
promovem uma experiência de leitura mais fluida e menos
40
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
sobrecarregada cognitivamente. Devem ser aplicadas em con-
junto com as Diretrizes de Conteúdo para Acessibilidade na
Web - WCAG (BDA, 2023), que fornecem a base técnica essencial
para garantir a acessibilidade digital de forma mais ampla.
WCAG para acessibilidade textual
Apesar dos avanços introduzidos pela nova versão das
diretrizes da WCAG 2.2 ( W3C, 2024), ainda persistem desafios
na abordagem da acessibilidade para pessoas com deficiências
cognitivas e/ou transtornos de aprendizagem em especial
devido à ausência de consenso sobre práticas, metodologias
de avaliação e diretrizes específicas no cenário internacional
( W3C, 2024) — a WCAG não fornece diretrizes específicas
para dislexia, porém uma série de recomendações podem ser
observadas para minimizar os impactos causados por esta
condição. Assim, foram selecionadas as recomendações mais
alinhadas às demandas específicas decorrentes das limitações
da dislexia. Para isso, foram escolhidas diretrizes que abordam
aspectos diretamente relacionados ao conteúdo textual, bem
como as recomendações tipográficas. Embora a aplicação inte-
gral das diretrizes da WCAG seja essencial para assegurar a
acessibilidade em produtos digitais, destacamos, no quadro 3 a
seguir, aquelas se aplicam diretamente ao tema aqui investigado:
41
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Quadro 3 – Diretrizes da WCAG sobre acessibilidade
de conteúdo textual em dispositivos móveis
Recomendação
WCAG
Critério
de
sucesso
Descrição
1.1.1 – Conteúdo
Não textual
A Necessário trazer descrição
em texto (visível ou não).
1.2.1; 1.2.2 e 1.2.3 –
Sobre áudio e Vídeo
(pré-gravados)
A Qualquer conteúdo pré-
gravado (áudio ou vídeo)
deve possuir legenda.
Fornecer transcrição descritiva em
texto para todo o conteúdo do vídeo.
1.2.4 – Legendas
(ao vivo)
AA Conteúdo ao vivo (formato de áudio
ou vídeo) deve possuir legenda.
1.4.3 – Contraste
(mínimo)
AA Garante contraste adequado
entre texto e fundo (razão
de 4.5:1 no mínimo).
Em textos com tamanho mínimo
de 18 pt ou 14 pt bold, a relação
de contraste pode ser 3.1.
1.4.4 –
Redimensionamento
de texto
AA Permite que o texto seja
ampliado até 200% na tela sem
perda de funcionalidade.
1.4.5 – Imagens de texto AA Texto não deve ser apresentado
em formato de imagem.
1.4.6 – Contraste
(melhorado)
AAA Relação de texto e contraste
com o fundo de ao menos 7.1.
Em textos com tamanho mínimo
de 18 pt ou 14 pt bold, a relação
de contraste pode ser 3.1.
1.4.8 – Apresentação
visual
AAA Controles especí cos para
acessar informações sem
comprometer a legibilidade:
Permitir ajustar cores do 1° e 2°
plano; Larguras de parágrafos
tem até 80 caracteres;
Texto pode ser redimensionado até
200% sem tecnologia assistiva.
42
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
1.4.9 – Imagem de
texto (sem exceção)
AAA Usar imagem de texto apenas
quando são decorativas
e não essenciais para a
compreensão do contexto.
(ex. logotipos).
1.4.10 – Realinhar AA Ao aplicar o zoom de até 400%
os elementos precisam se
adaptar para que não ocorra
scroll horizontal ou vertical.
1.4.12 – Espaçamento
de texto
AA O conteúdo deve permanecer
legível com ajustes de
espaçamento quando realizados
manualmente pelo usuário
Espaçamento entre linhas: pelo
menos 1,5 x o tamanho da fonte;
• Espaçamento entre
parágrafos: pelo menos 2x
o tamanho da fonte;
Espaçamento entre letras:
pelo menos 0,12 vezes
o tamanho da fonte;
Espaçamento entre palavras:
pelo menos 0,16 vezes
o tamanho da fonte.
2.4.4 – Finalidade do
link (em contexto)
A Finalidade descrita no próprio
link ou no seu entorno.
Critério é aplicável para
botões e ícones clicáveis.
43
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
2.4.6 – Cabeçalhos
e rótulos
AA Títulos (todos os níveis) e rótulos
(campos de formulário) devem
descrever de forma clara a
nalidade do conteúdo evitando
ambiguidade na interpretação.
2.4.9 – Finalidade do
link (apenas link)
AAA Finalidade do link determinada
pelo próprio texto.
3.1.3 – Palavras
incomuns
AAA Fornecer uma forma de tradução
ou explicação da informação.
(ex. link para glossário).
3.1.5 – Nível de leitura AAA Conteúdo complexo
(incompreensível para uma
pessoa do nível fundamental
completo), necessário revisão
ou inserção de conteúdo
complementar para explicação.
3.3.1 – Identi cação
do erro
A A mensagem de erro deve
identi car o que a gerou de
forma visual e audível.
(ex. ícone de alerta + cor destaque
+ mensagem de texto).
3.3.2 – Rótulos
ou instruções
A Rótulos devem descrever
claramente a nalidade dos
campos de formulário (cuidado
com ambiguidade).
3.3.3 – Sugestão de erro AA A mensagem de erro deve fornecer
dicas de como resolvê-lo.
Fonte: desenvolvido pelos autores com base no Toolkit de Acessibilidade -
WCAG (Sales, 2019).
O quadro 3 apresenta as recomendações, descrições resu-
midas e os critérios de sucesso que correspondem às diretrizes
da WCAG mais diretamente relacionadas à acessibilidade de con-
teúdos textuais em dispositivos móveis. Para aprofundamento
e aplicação completa das diretrizes, recomendamos a consulta
direta ao portal oficial da W3C, que disponibiliza o conteúdo
integral das Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web.
44
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Google - Guia de Acessibilidade e
inclusão digital para neurodiversidade
Outras recomendações de acessibilidade direcionadas
especificamente para neurodiversidade podem ser encontra-
das no Guia de Acessibilidade Digital para Marcas Diversas e
Inclusivas (Google, 2022). Considerando que a neurodiversidade
engloba uma ampla variedade de perfis, incluindo pessoas
com autismo, TDAH, dislexia, discalculia, além de condições
neurológicas, transtornos neurodegenerativos e transtornos
mentais, como esclerose múltipla, comprometimentos de memó-
ria, depressão, ansiedade, entre outros (Google, 2022), o Google
destaca as diversas barreiras que indivíduos neurodivergentes
podem enfrentar na web.
Essas barreiras podem dificultar a interação de diferentes
perfis de usuários com interfaces digitais, tais como: excesso de
informação que comprometem a atenção e foco no conteúdo;
propagandas e vídeos reproduzidos automaticamente; carrosséis
de conteúdo que alternam de forma automática; tempo limitado
para a interação com a página; lembrança de informações com-
plexas e temporárias como código de acesso; formulários que
não apontam o erro quando cometido; conteúdo com passagens
longas e com erros ortográficos; conteúdo com muitos memes,
ironia ou mensagens indiretas (Google, 2022).
Dessa forma, o Guia de Acessibilidade Digital para Marcas
Diversas e Inclusivas (Google, 2022) fornece algumas orientações
práticas para evitar essas barreiras e promover a acessibilidade
digital para pessoas neurodivergentes, como mostra o quadro
4 a seguir:
45
Quadro 4 – orientações de acessibilidade digital para neurodiversidade
Elemento Recomendações
Foco • Eliminar distrações;
Evitar o uso de muitos elementos na página;
Fornecer um modo de foco ou leitura;
Evitar conteúdos repentinos
(como janelas pop-up);
• Não usar players (músicas ou
vídeos automáticos).
Previsibilidade Informar onde a pessoa está e quanto falta
para terminar (usado em processo de compra,
formulários, tópicos ou páginas sequenciais).
Tolerância a erros Ajudar a entender onde o usuário errou (mostrar a
resposta errada e indicar a correção logo abaixo);
Aceitar pequenas falhas (ex. ao escrever
uma palavra errada - mostrar o erro
e apontar a forma correta).
Objetividade Usar textos claros, concisos e com voz ativa;
Evitar metáforas, jargões e expressões;
Começar o texto, notícia ou artigo com
um tópico de resumo do conteúdo.
Consistência Buscar consistência entre as versões
desktop e mobile, sem mudar os
locais do menu, ferramentas de busca,
disposição de ícones e elementos;
Utilizar símbolos facilmente reconhecíveis.
Múltiplos meios Oferecer conteúdo em vários formatos
(texto, infográ co, imagem, áudio);
Oferecer várias formas de encontrar
informações (acesso via menu,
ferramenta de pesquisa, disponibilizada
na home ou links mais acessados).
Fonte: Google (2022).
As recomendações apresentadas no quadro 4 visam redu-
zir barreiras comuns encontradas por pessoas neurodivergentes
durante a navegação digital, promovendo uma experiência
mais acessível, previsível e amigável. Muitas das dificuldades
46
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
enfrentadas por esse público estão relacionadas à organização
da informação, à redação inadequada e à falta de estrutura clara
nos conteúdos, dessa forma, aplicar esses princípios contribui
para otimizar o foco, a compreensão, a interação e a autonomia
desses usuários.
Dessa forma, entendemos que seguir as recomendações
e diretrizes da BDA (British Dyslexia Association), da WCAG,
e do Guia de Acessibilidade Digital para Marcas Diversas e
Inclusivas (Google, 2022) descritas anteriormente, contribui
para uma interação mais eficaz para pessoas neurodivergentes,
incluindo aquelas com dislexia. Respeitar os tamanhos mínimos
de fontes e elementos, conferir o espaçamento adequado entre
palavras e linhas, títulos e layouts com formatação adequada,
e atenção ao estilo de escrita (BDA, 2023), adotar cores com
bom contraste entre texto/imagem e fundo, alternativa para
explicação de conteúdos complexos ( W3C, 2024), e apresentar
informações de forma direta, clara e bem organizada facilita a
compreensão de pessoas neurodivergentes (Google, 2022), assim
como todos os usuários se beneficiam, elevando a qualidade
geral da experiência digital.
47
II
DISLEXIA, AUTONOMIA
E INTERAÇÃO
A
leitura, mais do que um instrumento de decodi cação
textual, constitui uma habilidade essencial para o aces-
so ao conhecimento, vinculada à construção social, cultural e
acadêmica dos indivíduos. Trata-se de uma competência es-
truturante, que exerce in uência signi cativa sobre os modos
de vida, processos formativos e a organização sociocultural
das sociedades (Mousinho et al., 2020). Imagine tentar ler esse
livro e sentir que as letras parecem se mover, como se esti-
vessem dançando ou embaralhando diante dos seus olhos?
Ou que você ao longo dessa leitura, sentiu diversas vezes que
por mais que se concentrasse, as palavras simplesmente não
faziam sentido. Esses são exemplos metafóricos que ilustram
alguns dos desa os enfrentados por pessoas com dislexia,
que transformam a tarefa da leitura em um esforço exaustivo
e, muitas vezes, frustrante.
A dislexia é uma condição específica que afeta a aprendi-
zagem, principalmente a leitura e escrita. Embora pessoas com
dislexia tenham habilidades cognitivas dentro do esperado para
a idade e motivações adequadas, como condições favoráveis
48
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
à escolarização e apoio da família, ainda assim apresentam
grandes dificuldades para a escrita e leitura (Nunes, Buarque
e Bryant, 2003; BDA, 2018; ABD, 2016; Instituto ABCD, 2019).
Porém, é importante ressaltar que é necessário ter cuidado
para não confundir a dislexia com falta de oportunidades e
questões culturais. Nunes, Buarque e Bryant (2003) alertam
que as diferenças socioeconômicas e culturais não devem ser
enquadradas dentro da dislexia. Quando uma criança apresenta
dificuldades de leitura incompatíveis com seu QI, é necessá-
rio considerar as condições de aprendizagem a que ela teve
acesso. Crianças que vivem em contextos de desigualdade social
podem enfrentar barreiras que limitam suas oportunidades
de aprendizado, especialmente em comparação com aquelas
inseridas em ambientes mais privilegiados. Fatores como acesso
limitado a recursos educacionais, infraestrutura precária e
menor estímulo acadêmico podem impactar significativamente
o desenvolvimento dessas crianças. Além disso, Nunes, Buarque
e Bryant (2003) destacam que a interferência de fatores culturais
e geográficos, como os dialetos regionais e culturais de grupos
e comunidades, também podem interferir na forma como o
fonema é interpretado.
A Associação Internacional de Dislexia (2002), reforça
que o diagnóstico precoce é fundamental para garantir que o
indivíduo receba o suporte pedagico e emocional necessário,
reduzindo os impactos negativos no desempenho escolar e
na autoestima. Isso porque, quanto mais cedo a dislexia for
identificada, maiores são as chances de desenvolver estratégias
eficazes e de evitar o acúmulo de frustrações ao longo da traje-
tória educacional, como orientam Shaywitz e Shaywitz (2023).
49
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
O diagnóstico da dislexia pode ocorrer na infância, espe-
cialmente durante a alfabetização, quando os primeiros sinais
de dificuldade na leitura e escrita se tornam mais evidentes.
No entanto, muitos casos só são identificados na vida adulta,
devido à falta de informações sobre o transtorno e à persistência
de estigmas, como a crença equivocada de que dificuldades
escolares resultam de falta de esforço, de desinteresse ou até
mesmo de preguiça.
Mesmo quando a criança é diagnosticada e acompanhada
desde cedo, estudos longitudinais conduzidos por Shaywitz
e Shaywitz (2023) demonstram que as diferenças nas habili-
dades de leitura e escrita entre indivíduos com e sem dislexia
tendem a persistir ao longo dos anos. Isso indica que, embora
intervenções precoces possam auxiliar, a dislexia permanece
como uma condição contínua, exigindo acompanhamento e
suporte ao longo da vida. Nesse sentido, a British Dyslexia
Association (BDA, 2018) reforça que a dislexia acompanha o
indivíduo de forma permanente, demandando adaptações e
estratégias específicas para garantir seu pleno desenvolvimento
educacional, profissional e social.
Nesse contexto, existem instituições que, além de forne-
cerem informações e orientações para pessoas com dislexia e
seus familiares, também oferecem uma variedade de serviços
de apoio. A BDA (British Dyslexia Association), por exemplo, é
uma organização de referência internacional no apoio a pessoas
com dislexia, a instituição oferece suporte para diagnóstico,
programas de treinamento, cursos e diversas publicações, como
informativos, guias e folhetos sobre o tema. No Brasil, as insti-
tuições que se destacam são a Associação Brasileira de Dislexia
(ABD) e o Instituto ABCD.
50
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
A Associação Brasileira de Dislexia (ABD) oferece materiais
de apoio como a venda de livros e downloads gratuitos de
trabalhos cienficos, cursos, e parcerias com universidades e
centros educacionais que dispõem de pesquisas na área (ABD,
2016). Enquanto o Instituto ABCD oferece cursos gratuitos para
o público em geral e cursos específicos para professores, além
de testes rápidos para detecção de possíveis sinais de dislexia
em adultos e em crianças (ABCD, 2019).
Para uma compreensão mais aprofundada da dislexia, é
essencial considerar as definições propostas por essas organi-
zações e pesquisadores especializados na área, que contribuem
para o reconhecimento clínico e educacional da condição, con-
forme apresentado no quadro 5:
Quadro 5 – Definições e considerações segundo organizações
e pesquisadores especializados em estudos sobre dislexia
Autores De nição
Nunes, Buarque e
Bryant (2003)
Essas crianças, embora com as mesmas
oportunidades que as outras crianças têm para
aprender a ler, recebendo motivação adequada,
pais que as apoiam su cientemente e capacidade
intelectuais normais ou até mesmo acima do
normal, mostram progresso na alfabetização
surpreendentemente mais lento que os seus colegas
da mesma idade e do mesmo nível intelectual.
Bachmann e Mengheri
(2018)
Crianças com dislexia leem mais lentamente e de
forma imprecisa, embora tenham inteligência média,
acesso adequado à instrução convencional e ausência
de transtornos neurológicos e/ou psiquiátricos.
51
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
BDA, British Dyslexia
Association (2018).
A dislexia é uma di culdade especí ca de
aprendizagem que afeta principalmente as
habilidades de leitura e escrita. No entanto, ela
não afeta apenas essas habilidades. A dislexia,
na verdade, está relacionada ao processamento
de informações. Pessoas com dislexia podem ter
di culdade em processar e lembrar informações que
veem e ouvem, o que pode afetar a aprendizagem
e a aquisição de habilidades de alfabetização.
A dislexia também pode afetar outras áreas,
como as habilidades organizacionais.
ABD, Associação
Brasileira de
Dislexia (2016);
IDA – International
Dyslexia Association
(2002);
NICHD – National
Institute of Child
Health and Human
Development.
A dislexia do desenvolvimento é considerada um
transtorno especí co de aprendizagem de origem
neurobiológica, caracterizada por di culdade no
reconhecimento preciso e/ou fluente da palavra,
na habilidade de decodi cação e em soletração.
Essas di culdades costumam estar associadas a
um dé cit no componente fonológico da linguagem,
e, levando em consideração o desenvolvimento
cognitivo são consideradas inesperadas porque
surgem em indivíduos com idade adequada e
com outras habilidades cognitivas preservadas.
Instituto ABCD (2019) A dislexia é um transtorno do neurodesenvolvimento
que afeta habilidades básicas de leitura e linguagem.
É considerada um transtorno especí co da
aprendizagem porque seus sintomas geralmente
afetam o desempenho acadêmico dos estudantes,
sem que haja outra alteração (neurológica, sensorial
ou motora) que justi que as di culdades observadas.
Fonte: Nunes, Buarque e Bryant (2003); BDA - British Dyslexia Association
(2018); ABD - Associação Brasileira de Dislexia (2016); IDA (2002); Instituto
ABCD (2019); Bachmann e Mengheri (2018).
Tipos de dislexia
Inicialmente, é fundamental distinguir dois tipos prin-
cipais de dislexia: a adquirida e a congênita. Historicamente, o
primeiro relato documentado da dislexia data de 1676, quando
um homem de 65 anos, após sofrer um acidente vascular
52
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
cerebral, perdeu a capacidade de ler, apesar de manter intactas
suas funções visuais, sem nenhum tipo de comprometimento
de ordem oftalmológica. Esse caso foi descrito comocegueira
verbal adquirida” (Shaywitz; Shaywitz, 2023). Por se tratar de
uma perda súbita e perceptível da habilidade de leitura, os
estudos iniciais sobre dislexia concentraram-se na cegueira
verbal adquirida. Apenas no início do século XX começaram a
ser registrados os primeiros relatos da dislexia em crianças —
então denominada cegueira verbal congênita.
A identificação da cegueira verbal congênita era dificul-
tada por fatores econômicos. Segundo Oliveira e Lacerda (2018),
a condição era mais facilmente detectada em crianças filhas
de pais escolarizados, que demonstravam maior atenção ao
processo de leitura. Em contraste, crianças em situação de vulne-
rabilidade econômica, muitas vezes sem acesso à escolarização,
tinham suas dificuldades ignoradas ou sequer percebidas. Esse
fator contribuiu para que a investigação e reconhecimento da
dislexia em crianças ocorresse muitos anos depois. Nos Estados
Unidos, o primeiro registro formal da chamada “ cegueira verbal
connita surgiu em 1905 e, até 1909 o Dr. W. E. Bruner havia
identificado 41 casos semelhantes em diferentes partes do mundo
(Shaywitz; Shaywitz, 2023), evidenciando a necessidade de uma
compreensão mais ampla e sistemática desde a infância.
A cegueira verbal congênita foi posteriormente denomi-
n a d a estrefossimbolia” — simbolização distorcida — pelo
médico norte-americano Samuel T. Orton (1879-1948). Orton
propôs a mudança de nomenclatura por considerar que as
principais características dessa condição eram: inversões, tro-
cas e omissões de letras. Não existe um consenso das datas
das publicações de Orton (Oliveira; Lacerda, 2018), mas sua
53
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
contribuição significou um grande avao para a compreensão
da dislexia em crianças.
Na década de 1960, os distúrbios de leitura derivados da
dislexia passaram a ser relacionados ao déficit no processamento
fonológico de palavras e passou a ser reconhecido como trans-
torno específico da aprendizagem da linguagem (Oliveira;
Lacerda, 2018). Com o avanço dos estudos sobre os transtornos de
aprendizagem — especialmente após a década de 1970 (Oliveira;
Lacerda, 2018) —, a dislexia passou a ser compreendida como
uma disfunção no sistema de linguagem, especificamente no
nível fonológico. Atualmente, é posvel identificar com precisão
a área neuroanatômica afetada, permitindo uma compreensão
mais detalhada da condição (Shaywitz; Shaywitz, 2023).
O desenvolvimento connuo de estudos sobre a dislexia
fornece desdobramentos importantes que rompem com teorias
antigas e estigmas sociais. Um exemplo disso, é a ideia de que
a dislexia afetava apenas os falantes de línguas alfabéticas.
No entanto, estudos mais recentes demonstraram que a con-
dição também impacta falantes de línguas logográficas, como
o chinês e o japonês, rompendo com a teoria de que a dislexia
seria restrita a línguas específicas (Shaywitz; Shaywitz, 2023).
Essa descoberta é crucial para entendermos que os problemas
de interação causados pela dislexia afetam indivíduos de dife-
rentes idades, independentemente da língua que falam ou da
localização geográfica em que vivem.
As dificuldades associadas à dislexia não se manifes-
tam de forma uniforme entre os indivíduos. Cada pessoa com
dislexia apresenta características únicas, e diferentes graus de
comprometimento (Damiano; Gena; Venturini, 2019). Por essa
razão, é fundamental evitar a generalização de que a dislexia
54
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
se resume apenas àtroca de letras. Na verdade, a dislexia
envolve uma série de sintomas que podem variar em intensi-
dade e manifestação, sendo posvel observar quadros leves,
moderados ou severos (ABCD, 2019; BDA, 2018). Além disso, a
dislexia pode ocorrer simultaneamente com outros transtornos
de desenvolvimento, como discalculia, TDAH e transtornos de
desenvolvimento da coordenação (BDA, 2018).
É importante destacar que a dislexia não se limita apenas
aos problemas de leitura e escrita. A BDA (2018) aponta que
outras habilidades, como o processamento e a lembrança de
informações, bem como as habilidades organizacionais, também
podem ser afetadas, uma vez que a dislexia está diretamente
relacionada ao processamento de informações. A partir disso,
abordaremos como os problemas relacionados à dislexia
impactam a interação com textos de acordo com os problemas
de leitura e escrita (1) e como os déficits no processamento da
informação afetam a fluência de leitura e compreensão de textos
em interfaces digitais (2).
1. Problemas de leitura e escrita
Nunes, Buarque e Bryant (2003) identificaram onze tipos
de erros ortográficos frequentemente observados no processo de
alfabetização de crianças com dislexia. Esses erros, detalhados
no quadro 6, ajudam a compreender os padrões linguísticos que
caracterizam a escrita de crianças com dificuldades persistentes
na leitura e na escrita.
55
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Quadro 6 – Categorização de erros comuns
observados em crianças com dislexia
Tipo de erro Exemplo
Erros de transição de fala istrela, bulacha, pexe, nuveim,
aneu, passia (r).
Erros de supercorreção sel (céu), ágoa (água), vasolra
(vassoura), professoura.
Erros por não considerar
regras contextuais
camtor, enpada, rrolha, profesora, asim.
Erros por não marcar a nasalização oça (onça), aida (ainda), nuvei
(nuvem), mostro (monstro).
Erros por não conhecer a
origem da palavras
jema, bluza, dansaram, omen, omsa.
Erros em sílabas complexas uroso (urso), guada (guarda),
jonalismo/ jornalimo (jornalismo).
Erros por trocas de letras
com sons parecidos
encrassado (engraçado), glima
(clima), blástico (plástico).
Erros de marcação da sílaba tônica peixi, passea (passear), infeiti
(enfeite), casto (castor).
Fonte: adaptado de Carraher (1985) apud Nunes, Buarque e Bryant (2003).
É importante destacar que os erros cometidos por crianças
com dislexia não são diferentes dos erros cometidos por outras
crianças em processo de alfabetização. A distinção está na
frequência e na persistência com que esses erros ocorrem, o
que de acordo com Nunes, Buarque e Bryant (2003, p. 73-75)
sugere-se a existência de diferenças quantitativas, e não
qualitativas, entre as criaas com dislexia e as outras crianças.
Dessa forma, todas as crianças em fase de alfabetização cometem
esses erros de linguagem, mas, nas crianças com dislexia, esses
erros tendem a ser mais frequentes.
Com o tempo, tanto crianças com dislexia quanto aquelas
sem dificuldades específicas de leitura apresentam avanços em
56
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
suas habilidades de leitura e escrita. No entanto, a diferença
entre os dois grupos geralmente persiste ao longo dos anos. Essa
lacuna, porém, pode ser significativamente reduzida quando são
implementadas, desde cedo, intervenções pedagógicas, voltadas
para o desenvolvimento de habilidades fundamentais para a
leitura — como a consciência fonológica, a correspondência entre
grafemas e fonemas, e a construção do vocabulário (Shaywitz;
Shaywitz, 2023).
Nesse contexto, o Instituto ABCD (2019) organizou os
principais sinais e dificuldades observados em pessoas com
dislexia em três áreas fundamentais: linguagem oral, leitura
e escrita. Essa divisão permite uma melhor compreensão da
complexidade da dislexia, conforme apresentado no quadro 7:
Quadro 7 – Dificuldades observadas em pessoas com dislexia
Linguagem
oral Leitura Escrita
Atraso da fala;
• Inversão na
ordem dos sons
(popica - pipoca);
Confusão de palavras
semelhantes
(umidade/
humanidade);
• Trocas, omissões,
substituições,
adições ou misturas
de fonemas;
Nomeação de letras,
números e cores;
Aliteração e rima;
• Expressar-se de
forma clara.
• Decodi cação
de palavras;
• Reconhecimento
de vocábulos;
• Comprometimento na
compreensão textual;
• Vocabulário reduzido.
Erros de soletração
e ortogra a (mesmo
nas palavras de
uso frequente);
• Omissões,
substituições e
inversões de letras
e/ou sílabas;
Velocidade de escrita
inferior ao esperado
para a idade e nível
de escolarização.
Fonte: ABCD (2019).
57
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Na linguagem oral, por exemplo, os sinais podem surgir
ainda na primeira inncia. É comum que crianças com dislexia
apresentem desenvolvimento tardio da fala, dificuldade em
nomear letras, números e cores, ou confundir palavras que
possuem sons semelhantes — como “umidade” e “humanidade”.
Outro indicativo é a inversão de fonemas, como dizer “popica
no lugar de “pipoca. Dificuldades em habilidades fonológicas
mais refinadas, como perceber aliterações, rimar palavras ou se
expressar com clareza, também são recorrentes. Esses desafios,
embora possam parecer pequenos em um primeiro momento,
costumam impactar o desenvolvimento posterior da leitura e
da escrita.
no campo da leitura, os obstáculos tornam-se mais evi-
dentes à medida que a criança inicia o processo de alfabetização.
Entre os principais sinais estão a dificuldade em decodificar
palavras, reconhecer vocábulos e compreender textos simples.
Essa dificuldade pode estar associada a um vocabulário mais
restrito, que limita o entendimento da mensagem a ser comu-
nicada por meio de textos. Em muitos casos, a leitura é lenta,
e marcada por erros que podem comprometer a fluência e o
prazer de ler.
Na escrita, por sua vez, os erros costumam ser persistentes
e não acompanham a evolução esperada para a faixa etária e
o nível de escolarização. Omissões, substituições e inversões
de letras ou sílabas são frequentes, assim como dificuldades
constantes com a ortografia — mesmo em palavras de uso
cotidiano. Além disso, a velocidade de escrita tende a ser inferior
à dos colegas, o que pode dificultar o acompanhamento das
atividades em sala de aula e gerar frustração.
58
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Com base na descrição dos sinais e dificuldades observa-
das em pessoas com dislexia, é possível aprofundar ainda mais
a compreensão sobre como essa condição afeta, entre outras
habilidades, o ato de ler. Shaywitz e Shaywitz (2023), em seus
estudos sobre o tema, identificaram uma série de dificuldades
que são comuns entre leitores com dislexia, destacando especial-
mente o impacto emocional e cognitivo que essas dificuldades
podem gerar. Entre os principais desafios enfrentados durante
a leitura, Shaywitz e Shaywitz (2023) listam:
Pavor de leitura em voz alta: algumas pesso-
as com dislexia experimentam um verdadeiro
misto de medo, ansiedade, vergonha e pâni-
co, quando são convidados a ler em público.
Esse medo é frequentemente alimentado por
experiências passadas de exposição, correções
constantes ou situações de constrangimento.
• Problemas com a soletração: para dislexia a
di culdade em soletrar as palavras é uma ca-
racterística recorrente, mesmo entre adultos
com bom nível de escolaridade.
• Di culdade em encontrar a palavra certa: re-
fere-se à sensação de saber o que se quer dizer,
mas não conseguir acessar imediatamente a
palavra adequada.
Palavras mal pronunciadas: a leitura oral
pode ser prejudicada por uma articulação im-
precisa, fruto das di culdades fonológicas que
marcam a dislexia.
• Di culdade em usar a memória mecânica:
especialmente em tarefas que exigem memori-
zação de sequências (como o alfabeto, dias da
semana ou fórmulas), as pessoas com dislexia
podem ter um desempenho inferior ao espe-
rado.
59
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
É importante lembrar que esses sinais não se apresentam de
forma isolada ou uniforme. Cada pessoa com dislexia manifesta
essas dificuldades de maneira individual, em diferentes graus
e combinações. Reconhecer essa variedade é essencial para que
não reduzam a dislexia a uma lista fixa de sintomas, mas sim
como um conjunto de desafios que requerem sensibilidade,
acompanhamento e estratégias personalizadas.
2. Problemas na fluência de leitura e compreensão
textual em interfaces digitais
Willberg e Forssman (2007) nos lembram que a tipografia
não serve apenas para ser lida, mas também para ser sentida,
como uma atmosfera que se instala antes mesmo de compreen-
dermos as palavras. Como a fachada de uma casa, o desenho
das letras pode convidar ou afastar, transmitir acolhimento ou
impor distância. Mesmo que de maneira quase invisível, ela
molda nossa relação emocional com o texto.
A leitura deve ser um processo fluido e contínuo. Quando
há dificuldades na decodificação de letras, a leitura da palavra é
prejudicada e por consequência a leitura da frase fica fragmen-
tada e o texto perde o sentido. Medved, Podlesek e Mozina (2023)
definem a flncia de leitura como a habilidade de percorrer
um texto de maneira contínua, com fluidez, rapidez e naturali-
dade, sem esforço aparente, de forma automática e sem precisar
dedicar atenção consciente aos processos mecânicos da leitura,
como a decodificação de palavras. A relação entre fluência
de leitura e compreensão textual é direta (Medved; Podlesek;
Mozina, 2023), o foco desproporcional no reconhecimento das
palavras não pode ocorrer simultaneamente à compreensão,
uma vez que o leitor ao se concentrar no significado do texto
60
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
ao invés dos processos mecânicos da leitura, compreende de
forma natural o que está escrito (Samuel, 1979 apud Medved;
Podlesek; Mozina, 2023).
Diversos fatores podem influenciar a fluência da leitura
e, consequentemente, a compreensão textual. Entre os aspectos
mais estudados atualmente estão as características tipográficas,
como os tipos das fontes, formatos das letras, espaçamento entre
palavras e entre linhas, além do contraste entre a cor da fonte
e o fundo. Esses elementos podem interferir de forma positiva
ou negativa no processo de leitura (Bakar; Zhiang, 2021; Bratic;
Loknar; Ivancevic, 2022a; Bratic; Loknar; Ivancevic 2022b; Cai
et al., 2022; Medved; Podlesek; Mozina, 2023 e 2025; e Sheppard
et al., 2023).
Nesse sentido, as pessoas com dislexia são mais afeta-
das quando as características tipográficas são mal projetadas,
pois, além do comprometimento da consciência fonológica,
dificuldade na correspondência entre grafemas e fonemas, e
vocabulário limitado como citado por Shaywitz e Shaywitz
(2023), o emprego incorreto da tipografia pode agravar outros
aspectos característicos da dislexia como trocas, inversões e
espelhamento de letras (ABCD, 2019), assim como a aglomeração
visual.
A aglomeração visual, em se tratando de textos, refe-
re-se à dificuldade na identificação correta de letras isoladas,
especialmente no seu reconhecimento quando estão próximas
umas das outras (Bachmann e Mengheri, 2018). Essa condição
resulta em maiores dificuldades de leitura e possibilita maior
ocorrência de erros. Além disso, pessoas com dislexia podem ser
afetadas pelos distúrbios do processamento visual que causam
distorções visuais conforme Wolanska e Wolanski (2016).
61
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
As distorções visuais são sintomas frequentes da
ndrome de Meares-Irlen (também conhecida como estresse
visual). Embora a dislexia e a síndrome Meares-Irlen sejam trans-
tornos distintos, Evans (2001) e Wilkins (2003) apud Wolanska
e Wolanski (2016) apontam que entre 10% e 60% das pessoas
com dislexia apresentam esses sintomas, o que provoca uma
percepção distorcida do texto e compromete a leitura. O quadro
8 apresenta as principais distorções visuais causadas por essa
síndrome de acordo com Wolanska e Wolanski (2016) e Frensch
[s.d.]:
62
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Quadro 8 – Distorções visuais comuns na dislexia
Autores Efeito Percepção visual
Wolanska e
Wolanski (2016)
Percepção do
texto distorcida
com palavras
difusas e
borradas
Algumas letras
cam apagadas
Sobreposição de
letras e palavras
( efeito de halo)
Letras se
curvam e criam
efeito de linha
ondulada
Corredores
verticais:
algumas
palavras se
aproximam
enquanto outras
se afastam
63
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Efeito de onda:
algumas letras
sobem e outras
descem
Perspectiva
convergente
tridimensional
Texto gira em
torno de um
ponto central
Fresch [s.d]. Efeito de
lavagem
Efeito Rio
Efeito
Redemoinho
Fonte: Wolanska e Wolanski (2016); Frensch [s.d.].
64
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
As distorções visuais descritas no quadro 8, como pala-
vras borradas, sobreposição de letras, linhas onduladas e
movimentos visuais do texto, impactam diretamente a leitura
fluida e contínua do texto, afetando a compreensão textual e,
consequentemente, a interação com o dispositivo digital. Além
dos aspectos tipográficos, cabe ressaltar que a qualidade e o
tamanho do dispositivo utilizado para a leitura, seja digital ou
impresso, influencia significativamente o processo de leitura,
podendo ser benéfico ou prejudicial à interação.
O impacto da usabilidade e da acessibilidade na interação
digital é importante e merece atenção, pois interfere direta-
mente na qualidade da experiência e na autonomia das pessoas
com dislexia, por determinar a forma como elas conseguem
acessar, compreender e utilizar conteúdos e funcionalidades
em ambientes digitais. No caso das interfaces acessíveis, ela
se revela como um recurso fundamental para contribuir para
autonomia — entendida aqui como a capacidade de interagir
com sistemas de forma independente, sem a mediação constante
de terceiros.
A interação em ambientes digitais precisa ser pensada
como um processo que envolve não apenas ação e resposta,
mas também compreensão, pertencimento e autonomia. A
autonomia é um componente fundamental da inclusão digital
e social, especialmente para pessoas adultas com dislexia, cujos
desafios e barreiras de acesso frequentemente são invisibilizados
nos processos de desenvolvimento de tecnologias. Quando
interfaces digitais não consideram as barreiras enfrentadas por
pessoas com dislexia, acabam por restringir sua interação e
participação no ambiente digital. A garantia da autonomia digital
constitui um direito que transcende a mera funcionalidade da
65
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
usabilidade, inserindo-se no campo social ao reconhecer que a
interação com o meio digital representa, na contemporaneidade,
uma extensão concreta da cidadania. Esse processo envolve a
promoção da acessibilidade, da inclusão digital e da equidade,
assegurando que indivíduos possam exercer plenamente seus
direitos e deveres no ambiente digital, de forma independente
e significativa.
Quando falamos de usabilidade, interação, autonomia e
acessibilidade digital, é comum pensarmos em recursos como
leitores de tela, descrições de imagens e controle por voz. Mas
há um aspecto fundamental que, muitas vezes, passa desper-
cebido: a tipografia. A maneira como as letras são desenhadas,
organizadas e exibidas em uma tela impacta diretamente a
experiência de leitura, principalmente para pessoas com dislexia.
Assim, percebemos que a usabilidade, acessibilidade digital,
autonomia e interação se encontram relacionadas com o design
tipográfico. Por isso, ao desenvolvermos interfaces digitais
inclusivas, precisamos nos perguntar: como a tipografia está
mediando a relação entre o usuário com dislexia e o conteúdo
da interface? Estamos ajudando ou dificultando sua jornada
digital?
Nos capítulos a seguir serão exploradas as particula-
ridades da tipografia, evidenciando como estudos recentes
identificaram características tipográficas que contribuem para
tornar o conteúdo digital mais acessível, assim como fontes
desenvolvidas para dislexia e sua relação com a fluência de
leitura e compreensão textual.
67
IIIb
TIPOGRAFIAS ACESSÍVEIS
PARA PESSOAS COM DISLEXIAɸ
A
tipogra a está presente em diversos aspectos do nosso
cotidiano, seja em meios impressos como livros, car-
tazes, embalagens e sinalizações, ou em ambientes digitais
como sites, aplicativos, e-books, redes sociais e plataformas
de leitura. Esse recurso é essencial para a comunicação, e mol-
da a forma como recebemos e interpretamos informações. De
acordo com Niemeyer (2010), o crescente volume de informa-
ções que nos cerca, na era da comunicação de massa, exige
um cuidado maior com a construção e percepção dessas in-
formações. Apenas aquelas que se apresentam de forma clara
e adequada são percebidas, compreendidas e utilizadas pelos
seus destinatários.
Com o avanço da tecnologia e a ampla disseminação
da Internet — presente em 90% dos lares brasileiros em 2021
(Brasil, 2022) e acessada por 87,6% da população com 10 anos
ou mais por meio de telefone celular em 2023 (Uol, 2024) —, o
volume de informações textuais no meio digital tem crescido
de forma significativa.
68
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Nesse cenário, a tipografia se mostra ainda mais influente,
impactando diretamente nossa experiência de leitura e a maneira
como interagimos com o mundo digital.
Samara (2011) alerta que existem tipografias boas e ruins
dependendo da forma como foram construídas, da definição do
espacejamento e até mesmo da pontuação que a compõe. Sendo
a boa tipografia aquela “fácil de se usar, bonita de se olhar e
consciente da maneira como as formas são arranjadas para se
chegar a esse resultado” (Samara, 2011, p. 7).
O alfabeto romano, a qual, a tipografia ocidental foi ori-
ginada obedece a forma arquetípica onde através de seus traços
horizontais, verticais, diagonais e traços curvos, cada letra tem
características que a diferencia da outra (Samara, 2011).
As letras do alfabeto podem se apresentar de duas formas:
as letras maiúsculas e minúsculas. Samara (2011) informa que as
maiúsculas também chamadas de capitulares, versais ou letras
de caixa-alta são as formas mais antigas do alfabeto e possuem
formas mais simples, porém, detêm algumas funções específicas,
como indicar o início de frases e palavras próprias. Enquanto as
letras minúsculas ou também chamadas de caixa-baixa possuem
mais variedade e distinção visual (Samara, 2011). A imagem 4
a seguir exemplifica como o contorno externo de uma palavra
escrita em caixa-baixa é mais distinto, e conforme Samara (2011),
aumenta a eficiência de leitura e compreensão textual.
69
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Imagem 4 – Contorno externo da mesma
palavra em caixa-alta e caixa-baixa
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
No contexto do design gráfico, o termo tipografia refere-se
à criação e desenvolvimento de fontes digitais. Ele abrange tanto
o letreiramento, que envolve o desenho de palavras únicas e
personalizadas, como na criação de logotipos, quanto a caligra-
fia, caracterizada pela execução manual das letras (Lorencini,
2025). Baer (1999 apud Niemeyer, 2010) complementa que fonte
tipográfica é um conjunto de sinais alfabéticos, formados pelas
letras maiúsculas e minúsculas, e sinais para-alfabéticos, que
integram os algarismos e sinais de pontuação.
Nesse sentido, seo apresentados os principais elementos
que compõem a construção tipográfica e que desempenham
um papel fundamental na diferenciação entre as letras e os
diversos estilos de tipografia.
A legibilidade, primeiro dos três pilares destacados por
Niemeyer (2010), refere-se à clareza perceptiva dos caracteres.
É a capacidade de cada letra ser diferenciada com facilidade e
precisão. Para o leitor com dislexia, no entanto, essa distinção não
é automática da visão. Umb pode se transformar visualmente
em um “d”, um “p” pode ser confundido com um “q”, e assim,
o alfabeto torna-se um campo minado de armadilhas visuais.
A legibilidade, nesse contexto, precisa ser potencializada por
70
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
escolhas tipográficas que evitem simetrias excessivas, reforcem
as diferenciações entre caracteres e reduzam o risco de inversões
ou espelhamentos. A tipografia acessível, portanto, não se
contenta com o mínimo da distinção; ela busca o máximo da
diferenciação funcional.
Diante das diversas classificações da tipografia, Farias
(2013) destaca a importância de diferenciar conceitos como
legibilidade e leiturabilidade, como proposto pelo tipógrafo
Walter Tracy (1986). Segundo Tracy (1986 apud Farias, 2013), a
legibilidade refere-se à percepção dos caracteres, enquanto a
leiturabilidade diz respeito ao conforto na leitura contínua. Em
outras palavras, Tracy (1986 apud Farias, 2013) explica que, na
prática, "legibilidade" é o termo adequado para abordar a clareza
e a percepção de um caractere, enquanto "leiturabilidade" se
aplica à descrição do conforto visual do leitor. Essa distinção
é essencial quando falamos em design tipográfico acessível,
porque não basta que a letra seja reconhecível; ela precisa se inte-
grar ao fluxo da leitura sem exigir esforço cognitivo adicional.
Nesse sentido, a ergonomia visual está diretamente ligada
à qualidade da leitura, ao considerar aspectos como legibilidade,
leiturabilidade e visibilidade, buscando criar condições visuais
que favoreçam a leitura “em menor esforço e incorrência a erros”
de interpretação (Blum; Merino, 2015, p. 3).
Lorencini (2025) classifica a tipografia em três elementos
principais: a anatomia do tipo que define as características
estruturais de cada letra; a classificação, que agrupa diferentes
estilos tipográficos com base em traços comuns como os estilos
Arcaico, Antigo, Transicionais, Modernos, Sem serifa, Serifa qua-
drada e Gráficos (Samara, 2011). Enquanto, para Williams (1995),
os tipos podem ser classificados em 6 categorias: Estilo antigo,
71
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
moderno, Serifa Grossa, Sem Serifa, Manuscrito e Decorativo;
e a família tipográfica que envolve variações de uma mesma
fonte, oferecendo maior flexibilidade ao design.
Para compreender melhor a tipografia, e em especial, os
estudos que envolvem testes de eficácia tipográfica, é funda-
mental compreender esses elementos, pois suas variações e/ou
combinações, podem impactar diretamente na acessibilidade
da tipografia.
Anatomia da Tipografia
No contexto da tipografia, a anatomia refere-se a análise
detalhada de cada elemento de um tipo (Lorencini, 2025),são
características estruturais básicas que seguem convenções simi-
lares no desenho e nos detalhes” (Samara, 2011, p. 17). Niemeyer
(2010, p. 34) complementa ao afirmar que:
As principais partes que compõem os tipos são as hastes
(linhas verticais) e as barras (horizontais), as barrigas
e os bojos (curvas ou circulares), as ascendentes e as
descendentes, as montanhas, as ápices e os vértices, as
serifas e as esporas, os ocos.
Disto isto, serão enfatizados alguns elementos da anatomia
tipográfica, c o m o a l t u r a - x , l i n h a d e b a s e , l i n h a s d a s d e s c e n d e n -
tes e ascendentes, braços, hastes, olhos e bojos, espacejamento
( kerning e tracking), serifa, terminal, tamanho do corpo, largura,
eixo, junta, filete e conexão.
A altura-x corresponde à altura das letras minúsculas,
sem considerar ascendentes ou descendentes (Lorencini, 2025),
72
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
essa altura encontra-se situada na linha mediana (Samara, 2011).
A a l t u r a - x r e p r e s e n t a u m d o s e l e m e n t o s c e n t r a i s d a a n a t o m i a
tipográfica, sendo fundamental para assegurar a uniformidade
visual entre os caracteres de uma fonte. Essa medida corres-
ponde à distância vertical entre a linha de base e o topo das
letras minúsculas sem traços ascendentes, como “o, “c” e “e”.
Embora possa variar conforme o estilo e o design tipográfico,
a altura-x influencia diretamente a legibilidade e a aparência
h a r m ô n i c a d e u m t e x t o . D e f o r m a r e s u m i d a , a altura-x é a
altura do corpo principal da letra minúscula, excluindo seus
ascendentes e descendentes (Lupton, 2006).
A linha de base, por sua vez, constitui a referência estru-
tural a partir da qual as letras se organizam. É sobre ela que se
assentam os caracteres, conferindo estabilidade visual ao texto.
Essa linha invisível é essencial para a construção tipográfica,
já que proporciona uma base sólida para o arranjo das letras,
contribuindo para a fluidez da leitura. Segundo Lupton (2006), a
linha de base é o eixo mais estável em uma linha de texto, sendo
essencial para alinhar textos a imagens e/ou a outros textos.
Imagem 5 – A ‘malha’ interna de uma fonte tipográfica
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Na anatomia tipográfica, os traços ascendentes e des-
cendentes são elementos fundamentais para legibilidade das
letras. Abaixo da linha mediana, fica a linha das descendentes,
que delimita a parte inferior de letras como “j”, “p” e “q”, são
73
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
os traços que ultrapassam a linha de base em direção à parte
i n f e r i o r . A c i m a d a l i n h a m e d i a n a e s t á a l i n ha das ascendentes
que define e marca a altura das hastes superiores de caracteres
como “d”, “h” e “k”, que se estendem acima da altura-x. Por fim,
a linha das capitulares define a altura das letras maiúsculas, que,
e m a l g u n s c a s o s , p o d e c o i n c i d i r c o m a l i n h a das ascendentes,
conforme apontado por Lorencini (2025).
Imagem 6 – Ascendentes e descendentes das letras
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
O braço é um traço horizontal ou diagonal que se projeta a
partir de uma haste vertical e termina de forma aberta, ou seja,
sem se conectar a outro elemento da letra. Ele é encontrado em
caracteres como o “E” e o “F”, nos quais os traços horizontais se
estendem lateralmente a partir da haste principal. A haste é o
principal traço vertical e estrutural de caracteres, principalmente
os verticais, comol,b ed. Se pensarmos na tipografia
como um esqueleto do corpo humano, poderíamos dizer que
a haste funciona como uma espécie de “coluna vertebral” do
corpo da letra, sobre a qual os elementos podem se apoiar. O
bojo é um traço em forma de curva que forma uma área fechada
ou semifechada da letra, como emo, b ed. O olho, por sua
vez, é a representação do espaço vazio na letra de caixa baixa.
Esses dois elementos da anatomia, olhos e bojos, possuem
74
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
uma relação direta, como explicado por Clair e Busic-Snyder
(2009, p. 161):
O bojo é um traço em curva que encerra um espaço, e
o olho é o espaço que fica encerrado. Se o bojo toca um
traço da haste, cria um olho fechado como pode ser
visto nas letras a, b, d, g, o, p e q. Se o bojo não toca o
traço da haste, resulta um olho aberto. Um olho aberto
pode ser reconhecido em muitas versões das letras, c,
h, v e u, independente do traço curvo ou anguloso que
encerra o espaço.
Imagem 7 – Anatomia Tipográfica
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
A anatomia tipográfica envolve uma série de componentes
que definem o estilo, a funcionalidade e a legibilidade de cada
letra, entre eles a serifa. Segundo Clair e Busic-Snyder (2009),
as serifas são categorizadas de acordo com sua forma física,
por isso existe uma grande variedade de nomes e formas. Um
exemplo bastante conhecido são os pequenos prolongamentos
75
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
aplicados nas extremidades das hastes, típicos de fontes como
a Times New Roman, que ajudam a guiar a leitura.
Imagem 8 – Estruturas das serifas
Fonte: Samara (2011).
Outro componente importante na anatomia é conhecido
como terminal, que corresponde ao final das hastes ou curvas
de algumas letras. Segundo Clair e Busic-Snyder (2009), trata-
-se do “final de um traço com alguma espécie de tratamento
autônomo em vez de uma serifa ou remate. O terminal pode
assumir diversas formas, como arredondado, reto ou inclinado,
dependendo do estilo da fonte, e se diferencia da serifa por não
servir como prolongamento estrutural. Um exemplo comum é
o final curvo do “e” em fontes sem serifa.
O tamanho do corpo refere-se à altura total da fonte,
abrangendo áreas ascendentes e descendentes, afetando tanto a
proporção vertical quanto o espaçamento. Além disso, é impor-
tante destacar a largura do caractere que diz respeito ao espaço
horizontal que cada letra ocupa dentro de uma composição
tipográfica, sendo um fator crucial para a harmonia e o ritmo
visual do texto. Segundo Lupton (2006):
76
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
As letras também possuem medidas horizontais, chama-
das de largura de composição. Essa largura equivale ao
corpo da letra mais um pequeno espaço que a protege das
outras. A largura de uma letra é intrínseca à proporção da
fonte. Em algumas fontes ela é generosa, em outras estreita.
Além dos componentes já mencionados, outros elementos
da anatomia tipográfica desempenham funções essenciais. O
eixo, por exemplo, é uma linha imagiria que indica a inclina-
ção natural das curvas internas de letras como “s”, influenciando
a percepção de movimento e fluidez. A junta é o ponto de
conexão de um traço secundário com a haste principal, como
ocorre na transição da perna para o traço diagonal da letra
“k”; esse detalhe, muitas vezes discreto, impacta a estrutura e
o equibrio visual do caractere. Segundo Clair e Busic-Snyder
(2009), a juão também pode ser entendida como a área de
conexão em curva entre o traço da letra e a serifa. Essa junção
pode variar em peso ou espessura, como se observa nas letras
n” e “m”, contribuindo para o estilo da fonte e sua identificação.
O filete é um traço fino que pode estar presente em partes
das letras, como o traço superior do “t. Já a conexão é o elo
entre diferentes partes de um mesmo caractere — visível, por
exemplo, na junção entre o arco e a perna do “r” — sendo um
fator importante para a legibilidade da letra.
Para compreender a complexidade da construção das
letras, é importante reconhecer que o termo tro pode ser
utilizado, de forma geral, para designar qualquer linha reta ou
curva que come uma face tipográfica (Farias, 2004). Porém,
quando se deseja maior precisão na descrição dos elementos
que formam os caracteres, Farias (2004) recomenda o uso de
termos específicos, como apresentado no quadro a seguir:
77
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Quadro 9 – Termos específicos para os traços que
compõem os caracteres tipográficos
Termo De nição Exemplo de letras
Haste Traços verticais principais
de uma letra.
“I”
Barra Traços horizontais que unem
dois pontos de um caractere
ou cruzam uma haste.
“H”, “A”, “e”, “T”, “f”
Bojo Traços curvos que fecham
uma área do caractere
(diferente de “barriga”).
“D”, “b”, “d”
Braço Traços horizontais ou inclinados
em direção à linha das capitulares.
“K” (superior direita), “X”
(superior), “L” (inferior)
Cauda Traços geralmente curvos que
avançam abaixo da linha de base.
“g”, “Q”
Gancho Traços curvos partindo do bojo
ou da haste, terminando no ar.
“a”, “f”, “r
Ligação Traços que unem duas
partes de uma letra.
“g”, “e”, “Q” (em
algumas fontes)
Ombro Traços que partem da haste
e se curvam ou se juntam
a outro traço seguindo em
direção a linha de base.
“h”, “m”, “n
Orelha Traços curtos, com pequena
projeção, normalmente no
lado direito do bojo.
“g” (em algumas fontes)
Perna Traços horizontais ou inclinados
que se estendem para baixo,
em direção a linha de base.
“K”, “X”, “R” (inferior)
Vértice Ponto de encontro das
extremidades de duas hastes.
A”, “V”
Ápice Termo usado para o ponto mais
elevado do desenho do caractere.
A”, “N”, “M”
Fonte: adaptado de Farias (2004).
Esses elementos da anatomia tipográfica revelam como
cada detalhe é cuidadosamente projetado com precisão e
78
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
propósito. É importante lembrar que, diante da diversidade
de elementos que comem a anatomia tipográfica, nenhum
caractere necessariamente possui todos os elementos (Niemeyer,
2010). A tipografia é mais do que o simples arranjo de letras
— é uma arte e um ofício que lida com unidades visuais de
duplo significado, como destaca Bringhurst (2005), exigindo
do tipógrafo um olhar atento e cuidadoso para conduzir um
trabalho inteligente, coerente e senvel.
Famílias tipográficas
A família tipográfica é “um conjunto de caracteres que
guardam as mesmas características essenciais de seu dese-
nho, independentemente do peso, da inclinação e do corpo”
(Niemeyer, 2010, p. 40), apresentando variações dentro de um
mesmo tipo de letra. Cada variação mantém caractesticas
comuns, mas apresenta diferentes pesos, posturas e larguras
para atender a diferentes propósitos visuais.
Samara (2011) refere-se ao peso como a espessura geral
dos traços das letras em relação a sua altura. Em uma família
tipográfica básica, os pesos mais comuns incluem claro (ou
light), médio (ou regular), negrito (ou bold) e preto (ou black).
Esses pesos podem se apresentar de maneira proporcional entre
si, com traços de espessura uniforme (letra “A” médio, negrito
e preto da imagem 9) ou apresentar contrastes dentro de uma
mesma letra, em que partes diferentes possuem espessuras
distintas (letra “A” – Contraste de traços da imagem 9).
Williams (1995) afirma que o contraste de peso é uma das
melhores formas de organizar o texto. Para tornar o contraste
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
mais eficaz é necessário combinar o peso regular com a fonte
Bold mais evidente Williams (1995). Esse recurso é capaz de
enfatizar informações, facilitar a leitura, tornar o design mais
atrativo ou até mesmo possibilitar ao leitor identificar postos-
-chave em um texto denso.
Imagem 9 – Diferentes Pesos das letras
Fonte: Samara (2011).
A postura de uma letra diz respeito à sua inclinação
em relação à linha de base. Quando a letra se apresenta ereta,
formando um ângulo de 90° com a linha base, ela é denominada
Romana. Já as letras inclinadas recebem o nome de Itálicas. Em
geral, o uso do itálico pode exigir um esforço maior de leitura,
mas desempenha funções importantes no texto, como destacar
trechos específicos ou diferenciar informações (Samara, 2011).
Imagem 10 – Postura Romana e Itálica
Fonte: Samara (2011).
Por último, a largura do caractere, que conforme especifica
Samara (2011) é a relação entre a largura e altura das letras. A
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
largura Regular segue uma proporção visualmente equilibrada,
sendo aproximadamente tão alta quanto larga. Quando essa
proporção é reduzida, resultando em caracteres mais estreitos,
a variação é chamada de Condensada ou Estreita. Já quando os
caracteres apresentam maior largura, denomina-se Estendida
ou Larga.
Imagem 11 – Largura regular e Condensada
Fonte: Samara (2011).
Niemeyer (2010) reconhece a dificuldade de se escolher
a família tipográfica mais adequada para o projeto, visto que
existem milhares de famílias dispoveis. Deve-se observar,
por exemplo, que algumas famílias não são adequadas para
determinados tamanhos ou mantêm sua qualidade após deter-
minadas modelagens e deformações.
Dessa forma, a imagem 12 demonstra a variação da família
tipográfica da fonte Inria Serifada e sem serifa apresentada em
caixa-alta:
81
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Imagem 12 – Variação da falia tipográfica
Fonte: Desenvolvido pelos autores (2025).
As variações regular, light, bold e italic, com serifa e sem
serifa da fonte Inria demonstram como uma falia tipográfica
pode se apresentar de diferentes formas. O uso dessas variações,
quando bem planejado, possibilita enfatizar informações e
direcionar a ordem de leitura, tornando a leitura mais fluida.
Niemeyer (2010, p. 87) alerta que:
Ao escolher uma família, leve em conta os efeitos que
ela terá sobre os demais elementos do layout. Tamanho
e peso estão sujeitos às mesmas regras que os outros
elementos da composição visual: dimensões do suporte,
hierarquização dos elementos, mancha gráfica, cabeça-
lho, rodapé, fólio.
Espaço entre palavras e entre linhas
O espaço entre palavras, aqui definido como espaçamento
ou espacejamento, é responvel por conectar a última letra de
uma palavra à primeira letra da seguinte. O espaçamento pode
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
variar: sendo mais amplo quando o espacejamento é aberto, ou
mais estreito. No entanto, é comum que o espaçamento entre
palavras seja definido com base na largura da letra “i” minúscula
(Samara, 2011). Samara (2011) também alerta que, quando esse
espaço é excessivo, pode ocorrer a quebra visual da linha de
leitura, gerando lacunas que formam os chamados “rios” —
falhas visuais compostas por excessos de espaços em branco.
Esse fenômeno compromete a fluidez da leitura, dificultando a
capacidade de seguir uma linha tipográfica de forma contínua.
Enquanto o espaço entre linhas é como uma “medida
vertical que define a distância entre uma linha base e a linha base
seguinte em um parágrafo” Samara (2011, p. 33). Atualmente,
com as novas possibilidades do digital, o espaçamento tem
ficado cada vez mais sofisticado e permite maior flexibilidade
(Lupton, 2006). Conforme Samara (2011), essa característica
deve ser vista com bastante atenção pois influencia diretamente
na legibilidade do texto. Assim, como alerta a W3C (2024), o
espaçamento desproporcional entre letras e entre palavras, por
exemplo, prejudica a acessibilidade do texto. As recomendões
de acessibilidade para os espaçamentos entre letras e palavras
podem ser observados no quadro 2 - recomendações da BDA
Dyslexia Style Guide e quadro 3 - recomendação 1.4.12 da WCAG.
Existem alguns fatores que interferem no espaçamento
entre linhas ideal, Samara (2011) relata que as hastes descenden-
tes e ascendentes das letras minúsculas não podem sobrepor
a próxima linha, já que dificultaria no reconhecimento dos
caracteres. Assim, as fontes com ascendentes e descendentes
mais longos precisam de maior espaçamento entre linha para
evitar esse tipo de problema. Outro fator descrito por Samara
( 2 0 1 1 ) é a a l t u r a - x d a s l e t r a s q u e , e m f o n t e s q u e a p r e s e n t a m e s s a
83
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
característica mais alongada, necessitam de mais espaço entre
linhas para compensar a densidade das letras. A imagem 13
exemplifica as diferenças visuais do texto ao alterar o espaça-
mento entre linhas:
Imagem 13 – Composição compacta (acima) e entre linha
corrigida para 150% conforme diretrizes de acessibilidade
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Em contextos nos quais a leitura acontece letra por letra
— e não por palavras inteiras — o espacejamento tipográfico
assume um papel ainda mais crítico. Segundo Bringhurst (2005),
ao isolar elementos individuais, o espacejamento tem um
papel garantido onde as palavras são menos importantes que
as letras”. Bringhurst (2005) explica que este princípio se aplica
especialmente em composições como acrônimos e endereços
eletrônicos, nos quais cada caractere deve ser lido e distinguido
de forma clara e isolada.
O espaçamento entre caracteres ( kerning) e entre palavras
ou grupos de letras ( tracking) é utilizado para manter uma
harmonia visual e facilitar a leitura, sendo parte essencial na
composição tipográfica. Segundo Niemeyer (2010), “o kern atua
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
sobre a parte da letra que se estende ao espaço de um outro
caractere”, portanto, o kerning é o ajustamento horizontal dos
espaços entre pares específicos de caracteres para criar uma
percepção visualmente harmônica. Sem kerning, a combinação
de alguns caracteres pareceria desproporcional, prejudicando
a fluidez da leitura (Niemeyer, 2010).
Por fim, cabe destacar que nas últimas décadas houve um
crescente interesse pelo desenvolvimento de fontes acessíveis à
dislexia (a mais antiga nessa revisão foi desenvolvida em 2003).
Apesar da proposta de aumentar a eficiência da leitura, ainda
não existe um consenso sobre o assunto. Diante disso, surge
a importância de compreender se as chamadas tipografias
acessíveis realmente favorecem a leitura e a compreensão textual
de pessoas com dislexia e outras dificuldades de leitura, ou se
ajustes em aspectos como espaçamento entre letras e palavras,
escolha adequada de cores e contraste, ou até mesmo se deter-
minadas tipografias de uso padrão já seriam suficientes para
melhorar a fluência de leitura, como sugerem muitas diretrizes
atuais.
Tipografias Acessíveis para Dislexia
As fontes acessíveis são uma proposta para diminuir ou
eliminar problemas relacionados à dislexia como a confusão
de letras com formato semelhante e/ou o espelhamento delas.
Além disso, essas fontes são geralmente maiores e apresentam
maior espaçamento entre letras e palavras, esperando causar
menos cansaço mental, porém ainda não se tem um consenso
sobre sua eficácia. Algumas dessas fontes serão apresentadas
85
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
a seguir enfatizando suas características que as diferenciam
de fontes padrão.
Read Regular
A família tipográfica “Read” foi desenvolvida para ofere-
cer suporte à leitura e escrita de pessoas com dislexia, buscando
minimizar os desafios enfrentados por essa condição por meio
do design tipográfico. Criada por Natascha Frensch entre 2002
e 2003, a falia Read tem como principal representante a fonte
Read Regular, além de incluir duas variões: Read Smallcaps
e Read Space.
No design da fonte, foi adotado uma abordagem indi-
vidualizada, na qual, cada caractere foi desenhado de forma
única, fugindo da lógica tradicional de consistência homogênea.
Os caracteres foram cuidadosamente equilibrados para evitar
confusões visuais entre eles (Frensch, 2003). Um exemplo pode
ser observado na letra “a” que foge do usual “dois andares” e
passou a ter uma forma fechada e oval, enquanto a letra “o”
é mais arredondada. O mesmo acontece com a relação “q-p,
o interior da letra “q” é ovalado em relação ao “p” que é arre-
dondado. Os traços ascendentes e descendentes do “d” e “p”
também foram alongados para ajudar a diferenciá-los.
As letras foram desenvolvidas com características sans-
-serif para reduzir forma e detalhe, e têm um espaçamento
ligeiramente aumentado, essa alteração foi realizada após a
autora identificar por meio de testes com usuários que apenas
aumentar o tamanho da fonte não seria o suficiente. A seguir
as características da fonte Read Regular conforme Frensch [s.d.]:
86
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Imagem 14 – Fontes da Família Read: Read Regular
(principal) e variações: Read Space; e Read Smallcaps
Fonte: Frensch [s.d.].
Formas internas das letras mantidas grandes
e abertas;
Ênfase em não espelhar caracteres e evitar
versões invertidas da mesma forma de letra;
Criação do máximo diferencial entre carac-
teres individuais que podem gerar confusão,
como ‘b-d-p-q’, ‘f-t’ e ‘m-n-r’;
Otimização da ponderação de cada caractere;
Aumento ligeiro do espaçamento entre carac-
teres;
Descendentes longos nas letras como ‘p’ e as-
cendentes longos nas letras como ‘d’ para ga-
rantir a legibilidade;
Números distintivos para evitar confusões.
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Sylexiad
A fonte Sylexiad, disponível nas versões com e sem serifa,
foi desenvolvida por Hillier (2006) como o resultado final de
uma série de testes conduzidos em três versões anteriores:
Dine 1, Dine 2 e Dine 3. Seu desenvolvimento contou com a
colaboração de tipógrafos e psicólogos e é definida como “as
primeiras versões de uma fonte para leitor com dislexia adulto
(Hillier, 2006, p. 139, tradução nossa).
O formato das letras minúsculas proporcionais e arredon-
da da s, c om a s a lt u ra s -x do s c ar ac t e res a”, d ”,h”, n”, r ”, u”,
e “y” mais alongados foi determinante para garantir um visual
mais confortável entre os descendentes e ascendentes de acordo
com o Hillier (2006). Já as letras maiúsculas são perpendiculares,
proporcionais, claras e arredondadas, as letras “D, “I, “Q”, “R”,
“S” e “W” foram especialmente projetadas para serem mais
largas, o que de acordo com Hillier (2006) confere melhor ritmo
e distribuição dentro da linha. As alturas dos ascendentes e
descendentes também foram projetadas para serem mais longas
em relação a altura x, o que, naquele momento, contrariava a
moda tipográfica. As diferenças entre caracteres facilmente
confundidos também foram aumentadas, especialmente nas
formas minúsculas do “b” e “d” e formas maiúsculas “I” e “J.
Já o espaçamento entre palavras foi aumentado com cautela
especialmente após verificar que na fonte Dine 3 o espaçamento
exagerado entre as palavras interrompia o fluxo de leitura. A
seguir as fontes Sylexiad Serif e Sans Serif:
88
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Imagem 15 – Fontes Sylexiad Serif e Sylexiad Sans Serif
Fonte: Hillier (2006).
Assim, ao design da Fonte Sylexiad foi incorporado
(Hillier, 2006, p. 128):
Opção de fonte com Serifa e sem Serifa;
Alfabeto em caixa dupla (maiúsculas e minús-
culas);
Traços de letras relativamente leves;
Ascendentes e descendentes alongados;
Diferenciação clara entre cada letra;
Espaçamento amplo entre palavras.
Hillier (2006) argumentou ainda que alguns recursos não
foram incorporados à fonte Dyslexie, como a forma de letras
em ilico, letras compactas e letras em negrito.
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ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
D y s l e x i e
A fonte Dyslexie foi desenvolvida em 2008 por Christian
Boer (Ramsey 2014; Marinus et al., 2016; Kuster et al., 2018),
projetada por um designer com dislexia, a fonte amigável para
dislexia foi projetada para aumentar a distinção visual entre os
caracteres e reduzir o esforço mental do leitor, garantindo uma
melhor fluência de leitura ( Dyslexie Font, 2024). A principal
característica da fonte é sua forma que, diferente das formas
tradicionais, incorpora uma linha base com fundos mais pesados
o que, conforme Dyslexie Font (2024), impede que o leitor gire
mentalmente a letra. Também foram acrescidas técnicas como
aberturas mais largas, inclinação das letras e maior espaçamento
entre letras e palavras.
Imagem 16 – Exemplo da fonte Dyslexie
Fonte: dyslexiefonte (2024).
Conforme o Dyslexie Font (2024), o design da fonte
D y s l e x i e i n c l u i :
Fundo Pesado - apresentando a linha base dis-
tinta;
90
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
• Formas distintas;
Aberturas maiores para facilitar o reconheci-
mento do formato da letra;
• Letras inclinadas;
Traços ascendentes e descendentes longos;
Espaçamento entre letras e palavras aumenta-
dos;
Letras maiúsculas e pontuação em negrito;
Altura x aumentada sem alargá-las.
OpenDyslexic
A fonte OpenDyslexic foi projetada para minimizar os
impactos causados pela dislexia, com a proposta de aumentar
a legibilidade dos textos. Seu uso gratuito permite o uso da
fonte tanto para uso pessoal ou comercial e disponibiliza código
aberto. A fonte inclui a versão OpensDyslexic e OpenDislexic-
Alta, nas variações de estilos: Regular, Negrito (Bold), Ilico e
Bold-Itálico (opendyslexic.org, s/d).
As letras da OpenDyslexic têm um peso visual acentuado,
o que facilita a identificação da parte de baixo das letras e
indica a direção do texto ao formar uma linha na parte inferior
(opendyslexic.org, s/d). De acordo com os desenvolvedores da
fonte, essa característica evita que o usuário gire mentalmente a
letra. Além disso, o formato de cada letra é exclusivo para evitar
confusões de inversão e trocas de letra, e o espaçamento entre
letras é mais largo (opendyslexic.org, s/d). Laddusaw e Brett
(2019) apontam que várias plataformas, entre elas a Amazon
e o Kindle, disponibilizam a tipografia OpenDyslexic para
personalizão da leitura.
91
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Imagem 17 – Variações da fonte OpenDyslexic
Fonte: opendyslexic.org [s.d.].
Assim, o design da fonte OpenDyslexic inclui (opendys-
lexic.org, s/d):
Fundo Pesado – formando uma linha inferior;
letras desenhadas individualmente;
Variação de fonte Regular, Negrito (Bold), Itá-
lico e Bold-Itálico;
Alfabeto em caixa alta;
• Espaçamento aumentado;
Estilo itálico exclusivo.
92
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Easy Reading
A Easy Reading foi desenvolvida a partir de um projeto
colaborativo liderado por Federico Alfonsetti e de propriedade
da Easy Reading Mutimedia, resultado de quase uma década de
estudos, e foi criada para ajudar as pessoas a lerem e interpreta-
rem palavras escritas de forma fluida e imediata. O intuito era
promover a facilidade de leitura para todos por meio da criação
de uma fonte que superasse as barreiras de leitura, inclusive
para pessoas com dislexia ( Easy Reading Multimedia, [s.d].).
É composta por 1.528 caracteres contando as letras, números,
acentos, símbolos e pontuações e suporta todos os idiomas que
usam alfabeto Latim estendido, Cirílico, Grego e Copta.
A principal característica da fonte é o design híbrido
que envolve letras com serifa e letras sem serifa dentro de
uma mesma classificação. A exemplos pode-se citar as letras
a, d, g” que possuem serifa, enquanto as letras “e, s, r” não
têm serifa. Além disso, a fonte apresenta as variações Regular,
Ilico, Negrito e Negrito Ilico (EasyReading Multimedia,
2024). A fonte também conta com espaçamento amplo entre
letras, palavras e entre linhas (Bachmann; Mengheri, 2018).
93
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Imagem 18 – Variações da fonte Easy Reading
Fonte: Easy Reading Multimedia, [s.d.].
Dessa forma, o design da fonte EasyReading envolve:
Design híbrido (mescla letras com serifa e sem
serifa);
Formas claras e distintas;
Espaçamento amplo entre letras, palavras e
entre linhas.
Lexia Readable
A Lexia Readable foi desenvolvida em 2004 por Keith Bates
(Portal da dislexia, 2014). Projetada para máxima legibilidade,
a fonte busca reproduzir a clareza e acessibilidade da Comic
Sans (K-Type, 2008). A Lexia Readable, inicialmente chamada
Lexie Readable, transmite a leveza da escrita à caneta. Sua
distribuição é gratuita e é usada em alguns sites internacionais
na área da dislexia (Portal da dislexia, 2014).
94
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Imagem 19 – Variações da fonte Easy Reading
Fonte: Portal da dislexia (2014).
Estudos com as fontes acessíveis
para pessoas com dislexia
Para analisar a eficácia das fontes acessíveis, foi realizada
uma revisão de literatura do tipo narrativa com base em critérios
previamente definidos. Foram selecionadas pesquisas primárias
que abordassem tipografias acessíveis voltadas para pessoas
com dislexia, independentemente do meio de publicão
artigos, dissertações, teses ou livros. O recorte temporal foi
livre, com o objetivo de reunir o maior número possível de
estudos relevantes sobre o tema, abrangendo tanto fontes digitais
quanto impressas. Como resultado desse levantamento, foram
identificadas 17 pesquisas, organizadas em ordem cronológica
como demonstra o quadro 10 a seguir:
95
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Quadro 10 – Estudos selecionados para a revisão de literatura
Autores/ano Título Fonte
Frensch (2003) Read developing a typeface
for people with dyslexia.
Criação de 3 Fontes:
Read Regular, Read
Smallcaps e Read Space.
Hillier (2006) A typeface for the adult
dyslexic reader.
Fontes existentes: Arial,
Sanssoon Primary,
Times New Roman.
Fontes criadas: Sylexiad
(serifada e sem serifa).
Leeuw (2010) Special font for dyslexia? Dislexie comparada
com Arial.
Ramsey (2014) The effects of the font
dyslexie on oral reading
fluency skills in students
grades 8 through
12 with and without
reading disabilities.
Dislexie (tamanho 10)
comparada a Times
New Roman (12).
Zikl et al. (2015) The possibilities of ICT
use for compensation of
dif culties with reading
in pupils with dyslexia.
Open Dyslexic
comparada à Arial.
Marinus et
al. (2016)
A Special Font for People
with Dyslexia: Does it
Work and, if so, why?
Fonte Dyslexie e Arial
manipulada, chegando a 4
opções de fontes distintas:
1: Fonte Dyslexie com seu
espaçamento original.
2: Fonte Arial com a mesma
altura-x da fonte Dyslexie.
3: Fonte Arial com o
mesmo espaçamento
da fonte Dyslexie.
4: Fonte Arial e fonte
Dyslexie com a mesma
altura-x e espaçamento
entre palavras.
Wery e Diliberto
(2017)
The effect of a
specialized dyslexia font,
OpenDyslexic, on reading
rate and accuracy.
Open Dyslexic (tamanho
10) comparada à Arial (12)
e Times New Roman (12).
96
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Kuster et al.
(2018)
Dyslexie font does not
bene t reading in children
with or without dyslexia.
Experimento 1:
Dyslexie e Arial;
Experimento 2: Dyslexie,
Arial e Times New Roman.
Bachmann e
Mengheri (2018)
Dyslexia and fonts: Is a
speci c font useful?
Easy Reading comparada
à Times New Roman.
Duranovic,
Senka e Babic-
Gavric (2018)
Influence of increased
letter spacing and font
type on the reading ability
of dyslexic children.
Fontes Dyslexie, Times
New Roman, Times New
Roman Italic e Curlz
MT com manipulação
do espaçamento entre
letras e palavras.
Damiano, Gena,
Venturini (2019)
Testing web-based
solutions for improving
reading tasks in dyslexic
and neuro-typical users.
Easy Reading
comparada à Arial.
Laddusaw e
Brett (2019)
Dyslexia-friendly fonts:
Using Open Dyslexic to
increase exhibit access.
Open Dyslexic.
Galliussi et
al. (2020)
Inter-letter spacing, inter-
word spacing, and font
with dyslexia-friendly
features: testing text
readability in people with
and without dyslexia.
Criação de uma fonte
amigável à dislexia (DF)
semelhante à Easy Reading
em comparação com a
fonte padrão Verdana
Pro Condensed.
Criação de 8 variáveis: 2
(forma da letra: padrão
vs. DF) × 2 ( espaçamento
entre letras: padrão
vs. aumentado) × 2
( espaçamento entre
palavras: padrão vs.
aumentado).
Joseph e
Powell (2022)
Does a specialist typeface
affect how fluently
children with and without
dyslexia process letters,
words, and passages?
Dyslexie comparada à
Calibri ( espaçamento
original mantido).
Karatay e
Unal (2023)
The Effect of OpenDyslexic
Font on Fluent
Reading and Reading
Comprehension Skills of
Students with Dyslexia.
Open Dyslexic comparada
à fonte padrão dos
livros didáticos.
97
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Filipovska,
Ajdinski e
Ristovska (2023)
Dyslexia typeface: does it
affect reading fluency?
Dyslexic EZF comparada
à Times New Roman.
Whitmire (2023) The Impact of Opendyslexic
Font on the Reading
Comprehension of Tier
II and Tier III Reading
Intervention Students.
Open Dyslexic comparada
à Times New Roman.
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Esses estudos abordaram experimentos com usuários com
dislexia ou com dificuldades de leitura e analisaram em sua
maioria a eficiência de leitura comparando as fontes projetadas
especificamente para pessoas com dislexia com fontes tipog-
ficas convencionais. Muitos estudos apresentaram evidências
qualitativas, como preferências subjetivas e alguns já apresen-
taram medidas mais mensuráveis. As pesquisas, dessa forma,
foram organizadas por tipo de fonte e organizadas por ordem
cronológica para analisar a eficácia das fontes e a evolução das
pesquisas ao longo do tempo.
Read Regular
A pesquisa de Frensch (2003) envolveu cerca de 100 pessoas
com dislexia de idades variadas, dessa forma a autora dividiu
os participantes em três grupos por faixa etária. A pesquisa
envolveu testes com usuários e consulta com especialistas
em tipografia e designers de tipo. Apesar de não apresentar
claramente os resultados e a metodologia para análise utilizada,
Frensch (2003) argumenta melhorias significativas na facilidade
de leitura para as pessoas com dislexia .
98
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Quadro 11 – Resumo dos resultados dos artigos
sobre a tipografia Read Regular
Autor/ano Resultado Participantes Observações
Frensch (2003) Melhoria na
leitura.
Cerca de 100
pessoas com
dislexia.
Não apresentou
a análise dos
resultados.
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Sylexiad
Na tese de Hillier (2006), foi realizada uma comparação
entre o desempenho e as preferências de leitura de grupos com
dislexia e neurotípicos em diferentes tipos de letra, incluindo
Arial, Sassoon Primary, Times New Roman e as versões serifada
e sem serifa da Sylexiad, desenvolvidas pelo autor. Os testes
envolveram 22 pessoas com dislexia. Inicialmente, os testes de
leitura foram organizados com base em áreas de dificuldades
associadas à dislexia, como velocidade de leitura, decodificação
de palavras, estresse visual, compreensão textual e dificuldades
de escrita. Os principais resultados foram:
Velocidade de leitura: A maior taxa de pala-
vras lidas por minuto ocorreu com a fonte Sas-
soon, enquanto a Sylexiad Serif apresentou a
menor taxa. As fontes preferidas desse grupo
foram Arial e Times.
• Decodi cação de palavras: As fontes mais bem
avaliadas foram Sylexiad Serif e Arial.
Interpretação errada de palavras: 75% dos lei-
tores preferiram Sylexiad Serif e 25% Arial.
Releitura de texto: 75% dos participantes pre-
99
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
feriram Sylexiad Serif e Sassoon.
Omissão de palavras: Os leitores demonstra-
ram preferência por fontes serifadas, como
Sylexiad Serif e Times.
Estresse ou distorção visual: 50% dos partici-
pantes preferiram Arial, seguida por Sylexiad
Serif (33%), o que foi atribuído à aparência
mais limpa dessas fontes.
• Di culdade de concentração: Metade dos par-
ticipantes preferiu Sylexiad Serif e a outra me-
tade Sassoon Primary.
• Di culdades de compreensão: 60% dos leito-
res escolheram Sylexiad Serif.
• Di culdade de escrita: Os resultados foram in-
conclusivos.
Com base nos achados, Hillier (2006) destacou que a
Sylexiad Serif foi a fonte mais bem avaliada para a maioria das
dificuldades analisadas, seguida pela Arial. Por outro lado, a
Times New Roman foi a menos favorecida entre os participantes.
Em seguida, Hilier (2006) direcionou os testes para iden-
tificação de palavras lidas individualmente de forma correta e
a fonte com menor número de erros foi a Times New Roman. Já
as fontes responsáveis por 69% de todas as respostas incorretas
foram a Arial e Sassoon. Os resultados sugeriram as preferências
pelos traços leves das fontes Sylexiad e Times, e leitura mais
eficaz em letras minúsculas.
Em relação a frases individuais, das 39 frases mal inter-
pretadas, 10 foram escritas com Arial, 9 em Sylexiad Serif e 8 em
Times New Roman. Hilier (2006) afirma que essas evidências
sugerem que a fonte Sylexiad Sans e Sassoon Primary são favo-
ráveis à leitura. Em relação à velocidade de leitura, as sentenças
100
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
lidas de forma mais rápida foram escritas em ambas as fontes
Sans Serif, enquanto a menos preferida foi a Times New Roman.
Quadro 12 – Resumo dos resultados da
pesquisa sobre a tipografia Sylexiad
Autor/ano Resultado Participantes Observações
Hillier (2006) Di culdades da
dislexia: Preferência
pela Sylexiad Serif;
Palavras: Sylexiad
e Times;
Frases: Sylexiad
Sans e Sasson;
Sentenças: Ambas
Sylexiad.
22 pessoas
com dislexia. -
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Dyslexie
A Dyslexie teve o maior número de pesquisas envolvendo
a análise da tipografia.
Leeuw (2010), comparou a fonte Dyslexie com a fonte Arial.
Foram 43 estudantes com idade entre 19 e 28 anos, sendo 21 pes-
soas com dislexia e 22 neurotípicos. Os resultados indicaram que
não houve diferenças significativas na velocidade de leitura entre
as duas fontes para ambos os grupos. No entanto, as pessoas
com dislexia cometeram menos erros de leitura ao ler palavras
impressas na fonte Dyslexie que leitores neurotípicos, podendo
significar que a fonte Dyslexie diminui a quantidade de erros,
embora tenha proporcionado mais erros de adivinhação para os
leitores com dislexia. Em relação a opinião sobre a fonte, houve
101
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
uma contradição, onde embora tenha sido vista positivamente
pelas pessoas com dislexia, eles não usariam a fonte.
Já os estudos de Ramsey (2014) usaram uma pontuação
mediana de ORF (Medida de fluência de leitura oral) do sistema
de avaliação desenvolvida pela Universidade de Oregon para
verificar a fluência de leitura e preferência pela fonte Dyslexie.
O estudo contou com um número de participantes menor do
que o esperado, 34 pessoas, sendo 8 pessoas com dificuldades
de leitura e 26 neurotípicos e por esse motivo não foi possível
realizar análises estasticas para determinar a significância
dos resultados. As pontuações medianas sobre a fluência de
Leitura (ORF) indicaram um desempenho ligeiramente melhor
para a fonte Times New Roman do que para a fonte Dyslexie
em termos de fluência de leitura para ambos os grupos, porém
não houve uma diferença clara na porcentagem de erros entre
as duas fontes para ambos os grupos:
Grupo neurotípico: Times New Roman (183.08)
e Dyslexie ( 181.38);
Grupo com di culdade de leitura: Times New
Roman (145) e Dyslexie ( 134.5).
Em relação à preferência, Ramsey (2014), relatou que as
opiniões foram divididas em ambos os grupos, e a preferência
nem sempre se correlacionou com a pontuação ORF mais alta.
O estudo sugere que a familiaridade com a fonte Times pode
ter influenciado os resultados onde 42,31% consideraram a fonte
Dislexie mais fácil de ler, 26.92% preferiram a Times e 30,77%
não manifestaram preferência entre as fontes.
Nos estudos de Marinus et al. (2016), os pesquisadores
observaram que, ao aumentar o tamanho da fonte Arial para
102
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
equipará-la à fonte Dyslexie, os participantes leram a Dyslexie
mais rapidamente. No entanto, quando o espamento da Arial
também foi ajustado para equivaler ao da Dyslexie, não houve
diferenças na eficiência de leitura entre as duas fontes. De
acordo com Marinus et al. (2016), isso sugere que a eficácia da
fonte Dyslexie está relacionada principalmente às configurações
de espaçamento , especialmente ao fato de o espaçamento entre
palavras ser maior do que o espaçamento entre letras. Em relação
à análise de distinção de letras, a fonte Arial se mostrou mais
distinguível visualmente que a fonte Dyslexie. Marinus et al.
(2016) sugerem que as características específicas das letras da
fonte não proporcionam benefícios adicionais à leitura quando
o espaçamento é controlado.
Em 2018, uma nova pesquisa envolvendo a fonte Dyslexie
foi desenvolvida. Kuster et al. (2018) realizam uma pesquisa
dividida em dois experimentos. No Experimento 1, foi ava-
liada a leitura de textos, e não foram observadas melhorias no
desempenho de leitura, tanto entre crianças com dislexia quanto
entre aquelas sem dificuldades de leitura. Da mesma forma,
no Experimento 2, que envolveu a leitura de palavras, também
não foram constatadas melhorias. Em relação à preferência
tipográfica, a fonte Dyslexie o foi a mais escolhida em nenhum
dos dois experimentos. As fontes que apresentaram melhor
desempenho foram a Arial, no Experimento 1, e Arial e Times,
no Experimento 2. Com base nesses resultados, Kuster et al.
(2018) concluíram que, embora a fonte Dyslexie não comprometa
a leitura, ela também não contribui de maneira significativa
para o processo de leitura de crianças com ou sem dislexia.
Conscientes das pesquisas anteriores as quais indicavam
que a eficácia da fonte Dyslexie poderia estar mais relacionada ao
103
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
espaçamento ampliado do que ao desenho das letras, Duranovic,
Senka e Babic-Gavric (2018) realizaram uma nova pesquisa
utilizando a tipografia Times New Roman ao invés da Arial,
devido a maioria dos livros impressos utilizarem tipografias
serifadas. A pesquisa envolveu um estudo comparativo entre
a fonte acessível e a Times New Roman e as fontes Times new
roman Italic e Curlz MT consideradas “hostis” pelos pesqui-
sadores supracitados. Duranovic, Senka e Babic-Gavric (2018)
manipularam o espaçamento entre letras e palavras das fontes
para equivaler a fonte Dislexie e testaram em frases simples e
significativas e os resultados foram os seguintes: a fonte Dislexie
não teve um melhor resultado de leitura comparada à fonte
Times new roman com espaçamento corrigido; o efeito negativo
das fontes hostis foi eliminado após a correção do espaçamento ,
embora Duranovic, Senka e Babic-Gavric (2018) sugiram evitar a
fonte Curlz MT para crianças mais novas e tenham identificado
uma influência negativa na fonte Times New Roman Italic
quanto à velocidade de leitura. Como conclusão do estudo,
Duranovic, Senka e Babic-Gavric (2018) sugeriram que apenas
alterar as configurações de espaçamento das fontes padrão
pode ser suficiente para melhorar a capacidade de leitura de
pessoas com dislexia, sem a necessidade de fontes especialmente
projetadas para esse fim.
Em 2022, uma nova pesquisa, conduzida desta vez por
Joseph e Powell (2022) comparou a fonte Dyslexie com a Calibri.
Os resultados não mostraram difereas significativas na leitura
de palavras ou textos para ambos os grupos de crianças, no
entanto, na nomeão de palavras a fonte Dyslexie apresentou
melhores resultados, indicando que as formas mais distintas da
tipografia acessível podem facilitar a identificação das letras.
Dessa forma, o estudo conclui que, embora a Dyslexie o pareça
104
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
melhorar a leitura de palavras e textos, pode ser utilizada na
alfabetização, especialmente para crianças em risco de dislexia.
Outro aspecto relevante foi a confirmação, por Joseph e Powell
(2022), de que as diferenças percebidas na leitura das palavras e
textos se devem ao espaçamento aumentado da fonte Dyslexie
e o ao formato da fonte.
Quadro 13 – Resumo dos resultados dos artigos sobre a tipografia Dislexie
Autores/
ano
Resultado Participantes Observações
Leeuw
(2010)
Não houve
diferenças
signi cativas na
velocidade de leitura;
Dyslexie diminuiu a
quantidade de erros.
21 pessoas com
dislexia/ 22
neurotípicos. -
Ramsey
(2014)
Pontuação ORF
ligeiramente mais
alta em Times;
Erros: não houve
diferença clara.
Preferência: Dyslexie.
8 pessoas com
di culdade
de leitura/ 26
neurotípicos.
Sem
signi cância
estatística.
Kuster et
al. (2018)
Não auxilia nem
impede processo de
leitura de crianças
com ou sem dislexia.
Distinção entre as
letras é contestada.
Participantes não
preferem a letra.
Experimento 1:
170 pessoas
com dislexia
Experimento 2:
102 pessoas
com dislexia/ 45
neurotípicos.
-
Marinus et
al. (2016)
E cácia da fonte
Dyslexie se deve
ao espaçamento.
A fonte Dyslexie é
menos distinguível
que a Arial.
39 pessoas com
di culdades
de leitura. -
105
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Duranovic,
Senka e
Babic-Gavric
(2018)
A e cácia da Dislexie
pode estar ligada
ao espaçamento
mais amplo e não
às características
das letras.
23 pessoas com
dislexia/ 23
neurotípicos. -
Joseph
e Powell
(2022)
Fonte Dyslexie
não melhora a
leitura de palavras
ou textos, mas
pode oferecer um
pequeno benefício
para identi cação
de letras.
37 pessoas com
dislexia/ 34
neurotípicos.
-
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
A fonte Dyslexie não apresentou diferenças significativas
no desempenho de leitura para Leeuw (2010); Kuster et al. (2018);
Duranovic, Senka e Babic-Gavric (2018) e Joseph e Powell (2022),
mas diminuiu a quantidade de erros cometidos por indivíduos
com dislexia (Leeuw, 2010). Joseph e Powell (2022) também
sugerem que pode ser benéfica para a alfabetização de crianças
em risco de dislexia por beneficiar na identificação e distinção
entre letras.
Quanto à preferência, a fonte Dyslexie teve uma leve
aceitação nos estudos de Ramsey (2014). No entanto, usuários
afirmaram nos estudos de Leeuw (2010) que não a utilizariam,
e ela não foi a preferida nos estudos de Kuster et al. (2018).
Um ponto em comum entre as pesquisas de Marinus
et al. (2016); Duranovic, Senka e Babic-Gavric (2018) e Joseph
e Powell (2022) é a atribuição da eficácia da fonte Dyslexie ao
espaçamento usado entre letras e palavras e não ao formato
das letras, sugerindo que apenas aumentar o espaçamento em
fontes padrão seria suficiente para melhorar a eficiência de
leitura, sem a necessidade de se projetar uma fonte específica.
106
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
A imagem 20 exemplifica as tipografias utilizadas nas
pesquisas. Embora, em algumas pesquisas, o tamanho e espa-
çamento entre letras tenham sido alterados para corresponder
ao da fonte Dyslexie, no nosso exemplo (imagem 20) aplicamos
o tamanho 20 para as fontes padrão, mantendo o espaçamento
entre letras original como demonstra a seguir:
Imagem 20 – Tipografias utilizadas nas pesquisas da fonte Dyslexie
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Os estudos sobre a tipografia Dyslexie sugerem que
sua eficácia está mais associada ao espaçamento aumentado
entre as letras do que ao seu formato específico. Além disso,
as estatísticas indicam que não há diferenças significativas na
velocidade de leitura, na compreensão textual ou na quantidade
de erros cometidos pelos participantes ao comparar essa fonte
com uma fonte padrão . No entanto, não se pode presumir que
seu uso seja neutro, pois essa questão pode ser analisada sob
duas perspectivas.
Com os avanços tecnogicos atuais, é possível ajustar
os espaçamentos tipográficos até mesmo em fontes padrão.
No entanto, se esses ajustes forem aplicados de forma inade-
quada — como ao criar um espaçamento entre letras que não
seja proporcional ao espaçamento entre palavras — podem
comprometer a legibilidade do texto. Nesse sentido, o uso de
uma fonte projetada especificamente para acessibilidade, com
107
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
espaçamentos cuidadosamente definidos, pode oferecer van-
tagens significativas.
Por outro lado, acreditar que uma tipografia, por si só,
pode solucionar dificuldades de leitura pode gerar expectativas
excessivas. Isso pode resultar em frustração para a pessoa
com dislexia, seus familiares e educadores, caso os resultados
esperados não se concretizem.
OpenDyslexic
Os resultados da pesquisa de Zikl et al. (2015) com 150
alunos do ensino fundamental na República Tcheca (sendo 75
pessoas com dislexia e 75 neurotípicos) mostraram que o uso
da fonte Open Dyslexic não levou a nenhuma melhora, nem na
velocidade de leitura, nem nas taxas de erro, em comparação
à fonte Arial. Embora as diferenças encontradas (ligeiramente
mais rápido e menos erros com OpenDyslexic) não fossem
estatisticamente significativas para o grupo como um todo,
observou-se que alunos com dificuldades de leitura mais sérias
cometeram um número um pouco menor de erros ao utilizar a
fonte OpenDyslexic. Em relação à opinião dos alunos, alguns
relataram uma sensação subjetiva de melhor legibilidade com
a OpenDyslexic, e outros alegaram pior legibilidade. Os autores
mencionados atribuíram essa condição à familiaridade com a
fonte Arial.
Anos mais tarde, Wery e Diliberto (2017) afirmaram a hipó-
tese de que a fonte OpenDyslexic não melhora significativamente
a taxa de leitura ou precisão nos resultados individuais, nem
nos resultados do grupo. Para o estudo foi utilizado o tamanho
108
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
10 para a fonte OpenDyslexic e tamanho 12 para as fontes Arial
e Times New Roman. O estudo envolveu três tarefas de leitura:
nomeação de letras, palavras e não-palavras (palavras sem
sentido) e preferências subjetivas aplicadas em 12 alunos com
dislexia. A análise visual e estatística não mostrou melhorias
na leitura, e nenhum participante preferiu essa fonte para o
material impresso.
Em contrapartida aos resultados de Zikl et al. (2015) e Wery
e Diliberto (2017), Karatay e Unal (2023) converteram um texto
com fonte padrão de um livro didático na fonte OpenDyslexic e
recrutaram três crianças (todas com 10 anos) para participarem
do experimento. Foram 16 sessões divididas em seis semanas.
Os autores mencionados concluíram que a fonte OpenDyslexic
aumentou a eficácia da leitura considerando a velocidade e
compreensão textual dos três alunos ao comparar com a fonte
padrão . O estudo concluiu que a fonte acessível é um método
de intervenção apropriado para crianças com dislexia.
No mesmo ano, Whitmire (2023) confirmou, parcial-
mente, a hipótese de eficácia da fonte Open Dyslexic em seu
estudo realizado com alunos participantes do MTSS (Multi-
Tiered System of Supports) — um sistema de suporte usado
nas escolas da Carolina do Sul para identificar e apoiar alunos
com dificuldades de aprendizagem a atingirem o desempenho
acadêmico esperado — nos níveis II e III. Whitmire (2023),
identificou a melhora na capacidade de compreensão textual
da fonte OpenDyslexic no grupo de alunos de intervenção de
leitura Nível II, mas os resultados foram inconclusivos para os
alunos de intervenção de leitura do Nível III. A pesquisa também
investigou a percepção dos professores sobre o desempenho dos
alunos ao utilizarem a Tipografia OpenDyslexic e os professores
109
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
notaram um progresso positivo na leitura de muitos alunos
do nível II. O estudo concluiu que embora tenha apresentado
algum resultado positivo, há a necessidade de mais estudos
com diferentes populações e a inclusão da voz dos alunos e
pais em pesquisas futuras.
Por último, Laddusaw e Brett (2019) aplicaram a fonte
OpenDyslexic em duas exposições: “Shifting Frontiers: Texas
from Spain to Space”, e após alguns meses, “Worlds Imagined:
The Maps of Imaginary Places Collection.” Com o intuito de
aumentar a acessibilidade do local e dos materiais da exposição,
apenas os rótulos principais foram mantidos como: título do
mapa; data da composição; nome do cartógrafo; título, ano e
data de origem do material. Não foi incluído nenhum texto
explicativo ou informação contextual, mas os visitantes puderam
optar por escolher um guia impresso na fonte OpenDyslexic
com informações detalhadas dos mapas expostos. Apesar de
não terem aplicado uma avaliação formal, consideram que
tiveram uma experiência positiva por meio dos relatos dos
visitantes e alguns registros de gratidão no livro de comenrios
da exposição.
110
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Quadro 14 – Resumo dos resultados dos artigos
sobre a tipografia OpenDyslexic
Autores/
ano Resultado Participantes Observações
Zikl et al.
(2015)
Não houve melhoria
na velocidade de
leitura nem nas
taxas de erros.
75 pessoas com
dislexia/ 75
neurotípicos. -
Wery e
Diliberto
(2017)
Os resultados da
análise visual e
estatística não
mostraram nenhuma
melhoria signi cativa
na taxa de leitura
ou precisão.
Nenhum participante
preferiu a fonte.
12 pessoas
com dislexia.
-
Karatay e
Unal (2023)
Aumentou a
fluência de leitura e
compreensão textual.
3 alunos do 4° ano,
2 com di culdade
de aprendizagem e
1 com transtorno
tipo misto em
habilidades
escolares. (todos
com 10 anos
de idade).
Amostra de
participantes
pequena.
Whitmire
(2023)
Alunos de
intervenção
de leitura de Nível
II - Melhoria na
compreensão
de leitura.
Alunos de
intervenção
de leitura do MTSS
Nível III - Resultados
inconclusivos.
90 alunos. -
Laddusaw e
Brett (2019)
Resposta positiva
dos visitantes.
Visitantes e
funcionários.
Não realizou
análise de
resultados.
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
111
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Os resultados das pesquisas que envolveram a tipografia
OpenDyslexic apresentou resultados divergentes. De um lado
os estudos de Zikl et al. (2015) e Wery e Diliberto (2017) afirmam
que a fonte não levou a melhoria no desempenho de leitura,
além disso Wery e Diliberto (2017) afirmam que os participantes
não preferiram a fonte.
Por outro lado, a pesquisa realizada por Karatay e Unal
(2023) indicam que a fonte melhorou a fluência de leitura, porém
em uma amostra de apenas três crianças. Whitmire (2023)
relatou um aumento na capacidade de compreensão com a
tipografia OpenDyslexic apenas em um dos grupos estudados
e Laddusaw e Brett (2019) relataram uma experiência positiva
dos visitantes que utilizaram o serviço com o novo recurso do
uso da tipografia nos guias da exposição, mas não foi realizada
uma pesquisa formal para avaliar os impactos da fonte. A
imagem 21 apresenta as tipografias utilizadas nas pesquisas
sobre a fonte OpenDyslexic:
Imagem 21 – Tipografias utilizadas nas pesquisas da fonte OpenDyslexic
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Os resultados positivos relacionados à tipografia
OpenDyslexic devem ser analisados com cautela, pois estão
relacionados a pesquisas subjetivas ou com uma amostra redu-
zida. As pesquisas com rigor científico maior apresentaram
pouca ou nenhuma melhora nos resultados relacionados à
fonte acessível.
112
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Easy Reading
Bachmann e Mengheri (2018) compararam a fonte Easy
Reading com a Times New Roman. Participaram do estudo 533
alunos do ano do ensino fundamental, divididos em quatro
grupos (leitores neurotípicos, com dificuldades de leitura, com
dislexia e crianças com déficit cognitivo). Os participantes
realizaram três tarefas de leitura: trechos , palavras e não-pala-
vras. Os resultados mostraram impacto positivo na fluência de
leitura em todos os testes, inclusive para crianças com dislexia.
O desempenho das crianças neurotípicas também melhorou
com a tipografia acessível. Embora a pesquisa conclua que a
fonte Easy Reading se mostrou eficaz facilitando a leitura para
crianças com dificuldades de leitura, inclusive as com dislexia
e neurotípicas, o sucesso da Easy Reading pode ser devido ao
espaçamento maior presente na fonte e sugere pesquisas futuras
para esclarecer se os resultados são devidos a fonte específica,
tamanho da letra ou espaçamento entre letras, palavras e linhas.
Além disso, pesquisas futuras devem comparar a fonte Easy
Reading com a Times New Roman com espaçamento expandido.
Damiano, Gena e Venturini (2019) verificaram o tempo de
leitura e a compreensão textual em dois websites especialmente
desenvolvidos para o experimento: no site A, foi utilizada a
fonte Arial e configurações sugeridas pela WCAG; e no site B,
a fonte Easy Reading e configurações específicas para dislexia
sugeridas por estudos anteriores. Damiano, Gena e Venturini
(2019) compararam vários pametros além da tipografia, mas
destacamos os resultados obtidos das fontes estudadas. O
Experimento dividido em dois momentos contou com 26 alunos
pessoas com dislexia no 1° experimento e 229 participantes no
113
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
2° experimento, sendo 199 neurotípicos e 30 com dislexia. No
1° experimento os resultados mostraram uma preferência pelo
site B, mas não houve diferenças significativas na velocidade
de leitura ou na compreensão textual. Já no 2° experimento os
autores identificaram que houve maior preferência pela fonte
Easy Reading tanto pelos participantes neurotípicos quanto
pelos com dislexia. A pesquisa propôs ainda diretrizes pre-
liminares para melhoria da acessibilidade web para usuários
com dislexia, incluindo além das considerações sobre o tipo de
fonte, outras características como contraste, cor e espaçamento,
enfatizando a imporncia da personalização das preferências
de acessibilidade.
Quadro 15 – Resumo dos resultados dos artigos
sobre a tipografia Easy Reading
Autor/ano Resultado Participantes Observações
Bachmann e
Mengheri (2018)
Impacto positivo
na fluência de
leitura em todos
os testes (trecho,
palavras e não
palavras).
Efeito positivo
pode ser devido
ao espaçamento
da fonte.
533 alunos
com dislexia,
com di culdade
de leitura e
neurotípicos.
-
114
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Damiano, Gena,
Venturini (2019)
Não houve
diferenças
signi cativas na
fluência de leitura
e compreensão
textual.
Preferência
pela Easy
Reading tanto
para usuários
neurotípicos
quanto para
pessoas com
dislexia.
Experimento
1: 26 pessoas
com dislexia.
Experimento 2:
30 pessoas com
dislexia/ 199
neurotípicos.
-
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Em ambas as pesquisas, a fonte Easy Reading demonstrou
um impacto positivo. Nos testes conduzidos por Bachmann
e Mengheri (2018), observou-se melhoria na fluência de lei-
tura, para todas as crianças, incluindo aquelas com dislexia. E
nos testes conduzidos por Damiano, Gena e Venturini (2019),
dessa vez no meio digital, o site B, escrito com a tipografia
Easy Reading, foi preferido nos testes de leitura online, porém
não foram encontradas diferenças significativas na velocidade
ou compreensão textual nos testes. A imagem 22 ilustra as
tipografias analisadas nas pesquisas acima descritas:
Imagem 22 – Tipografias usadas nas pesquisas da fonte Easy Reading
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
115
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
As divergências nos resultados das duas pesquisas ana-
lisadas podem, a nosso ver, estar relacionadas a três fatores
principais. O primeiro refere-se ao suporte utilizado: comparar
o desempenho de leitura em meios impressos e digitais pode
gerar variações significativas devido às características da tela
ou ao tamanho do dispositivo eletrônico. O segundo fator
envolve a fonte padrão adotada como referência para compa-
ração com a fonte acessível. Enquanto Bachmann e Mengheri
(2018) utilizaram a Times, uma fonte com serifa, Damiano,
Gena e Venturini (2019) optaram pela Arial, uma fonte sem
serifa — distinção que pode ter influenciado os resultados. O
terceiro fator diz respeito à idade dos participantes: o estudo de
Bachmann e Mengheri (2018) concentrou-se em crianças com
média de 9,5 anos, ao passo que Damiano, Gena e Venturini
(2019) contaram com um grupo mais heterogêneo, com idades
entre 8 e 65 anos. Pesquisas apontam que crianças e adultos
respondem de forma distinta a características tipográficas como
tamanho e espaçamento. Considerando que a fonte acessível
utilizada apresenta espaçamento e tamanho maiores e que
nas pesquisas mencionadas não houve ajustes para equiparar
essas variáveis entre as fontes, é possível que essas diferenças
tenham impactado os resultados observados.
Dyslexic FZF
Filipovska, Ajdinsk e Ristovska (2023) compararam a fonte
cilica Dyslexic FZF com a Times New Roman. A Dyslexic
FZF, desenvolvida com foco na acessibilidade, foi baseada na
fonte OpenDyslexic. O estudo incluiu dois testes de fluência de
leitura: o primeiro utilizou um texto de 200 palavras, enquanto
116
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
o segundo apresentou palavras sem significado. Ao todo, par-
ticiparam 24 indivíduos com dislexia.
Para avaliar a influência da idade nos resultados, os par-
ticipantes foram divididos em dois grupos: menores de 15 anos
e maiores de 15 anos. Os resultados indicaram que a leitura
com a fonte Dyslexic FZF permitiu que os participantes lessem
mais palavras por minuto, tanto em textos comuns quanto em
palavras isoladas sem sentido. No entanto, as diferenças esta-
tisticamente significativas foram observadas apenas no grupo
com 15 anos ou mais, que apresentou maior fluência de leitura
e menor índice de erros. Essa melhoria pode estar relacionada
à maior experiência de leitura dos participantes desse grupo.
Filipovska, Ajdinsk e Ristovska (2023) destacam que,
embora não seja possível determinar se os resultados positivos
da fonte Dyslexic FZF derivam do formato das letras ou do
espaçamento entre elas, o aprimoramento do espaçamento
pode ser um fator benéfico na escolha de uma tipografia mais
acessível.
Quadro 16 – Resumo dos resultados dos artigos
sobre a tipografia Dyslexic FZF
Autor/ano Resultado Participantes Observações
Filipovska,
Ajdinsk e
Ristovska (2023)
Participantes leram
mais palavras
por minuto e
cometeram menos
erros com a fonte
Dysexic FZF
(especialmente no
grupo 15 anos +).
24 pessoas
com dislexia. -
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
117
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Tipografia Experimental
Galliussi et al. (2020) desenvolveram uma fonte acessível
para dislexia, baseada na Easy Reading, resultando em oito
variações que combinam o formato padrão das letras com
a versão adaptada para dislexia, além da comparação entre
espaçamento padrão e espaçamento aumentado entre letras e
palavras. Participaram dos testes 128 crianças, sendo 64 com
dislexia e 64 neurotípicas. Cada participante leu 9 textos, sendo
o primeiro texto base e os outros 8 textos com as varveis tipo-
gráficas manipuladas. Os resultados sugerem que a forma da
letra não trouxe nenhum efeito no desempenho da leitura, não
apresentando diferenças significativas na velocidade e precisão
de leitura aos participantes (tanto com dislexia quanto do grupo
controle) ao lerem os textos com fonte padrão ou acessível.
Quanto ao espaçamento, os resultados indicam que o
aumento inadequado do espaçamento entre letras, combinado
ao espaçamento entre palavras, prejudica a velocidade de leitura
em ambos os grupos. O espaçamento entre letras mostrou-se
mais eficaz em textos com espaçamento padrão, enquanto o
espaçamento entre palavras proporcionou uma leitura mais
pida na versão com espaçamento aumentado.
Para leitores com dislexia, a combinação de fonte acessí-
vel com espaçamento padrão reduziu a velocidade de leitura,
enquanto a fonte padrão com espaçamento padrão não apre-
sentou essa diminuição. Galliussi et al. (2020) sugerem que
as características da fonte acessível podem ter influenciado a
percepção do espaçamento entre palavras.
118
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Por não terem sido encontrados efeitos significativos das
variáveis tipográficas na precisão de leitura para ambos os
grupos, os Galliussi et al. (2020) sugerem que a forma específica
de fontes amigáveis à dislexia não melhora a eficiência de leitura,
mas a combinação adequada de espaçamento entre letras e
palavras pode ser benéfico para fluência de leitura, ainda que
o efeito na prática tenha sido limitado. Por fim, a manipulação
do espaçamento entre letras e palavras deve ser analisada com
cautela, pois o aumento isolado do espaçamento entre letras
pode ser prejudicial.
Quadro 17 – Resumo dos resultados dos artigos
sobre a tipografia Experimental
Autor/ano Resultado Participantes Observações
Galliussi et
al. (2020)
Forma da letra não
oferece vantagem
na leitura;
Aumento isolado
do espaçamento
entre letras sem
considerar o
espaçamento entre
palavras pode
ser prejudicial;
Combinação do
espaçamento
adequado
entre letras e
palavras parece
ser bené co.
64 com dislexia/
64 neurotípicos.
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
A análise dos estudos voltados às tipografias acessíveis
revela que diversos fatores influenciaram os resultados das
pesquisas, além do formato das letras. Elementos como espa-
çamento, tamanho, familiaridade e personalização exercem
119
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
impacto direto na experiência de leitura, tanto positiva quanto
negativamente. O quadro a seguir apresenta uma síntese dos
principais achados identificados na literatura, organizando-os
de acordo com suas características e implicações no contexto
da acessibilidade tipográfica.
Quadro 18 – Principais elementos dos estudos das tipografias acessíveis
Características comuns Aumento do tamanho das letras;
Maior espaçamento entre
letras, palavras e linhas.
Características das
principais tipogra as
Read Regular e Sylexiad -
cada caractere único;
OpenDyslexic e Dyslexie - Formato
das letras alterado, apresentando
a parte inferior mais densa;
Easy Reading - Híbrida, mescla
letras com e sem serifa.
Espaçamento Principal característica apontada para
justi car o melhor desempenho da
velocidade de leitura e compreensão
textual. Alguns estudos apontam
que o espaçamento por si só já traria
benefícios para a e ciência da leitura.
Familiaridade Indicado como principal fator de
preferência das fontes padrões em
detrimento das fontes acessíveis.
Preferência Não está diretamente relacionada à fonte com
melhor desempenho individual de leitura.
Personalização Oferecer opções de escolha é a melhor
alternativa para a acessibilidade
relacionada à tipogra a.
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
As fontes acessíveis voltadas para pessoas com dislexia
compartilham algumas características comuns, como o aumento
do tamanho das letras, maior espaçamento entre letras, palavras
e linhas, além do uso de caracteres com design diferenciado
para minimizar confusões visuais entre letras semelhantes.
120
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Duas fontes em particular, a Dyslexie e a OpenDyslexic, se
destacam por incorporar um traço mais espesso na parte infe-
rior das letras. De acordo com os desenvolvedores das fontes
citadas, esse recurso contribui para a formação de uma linha
de base mais estável, o que ajudaria a evitar a rotação mental
das letras e promover uma leitura mais fluida. Apesar dessas
propostas, apenas a fonte Easy Reading apresentou eficácia
significativa nos testes de leitura. No entanto, Bachmann e
Mengheri (2018) sugerem que o bom desempenho observado
pode estar mais relacionado ao espaçamento ampliado do que
ao desenho específico das letras.
A escassez de pesquisas relacionadas a determinadas fon-
tes, o número limitado de participantes em algumas pesquisas,
os resultados contraditórios e as melhorias discretas, muitas
vezes estatisticamente irrelevante, dificultam a generalização
dos resultados. Ainda assim, foi possível identificar alguns
fatores recorrentes e relevantes, como o impacto do espaçamento
entre letras e palavras, a influência da familiaridade com a
tipografia nas preferências dos usuários e, especialmente, a
importância da personalização tipográfica para atender às
diferentes necessidades individuais.
Estudos destacam o espaçamento como o principal fator
responsável pelos discretos efeitos positivos observados, sendo
o espaçamento e não o formato da letra benéfico para eficácia
da leitura (Marinus et al ., 2016; Duranovic; Senka; Babic-Gavric,
2018; Joseph; Powell, 2022; Galliussi et al., 2022). Duranovic,
Senka e Babic-Gravic (2018) inclusive sugerem que, ao aumentar
o espaçamento em fontes pado, é possível obter resultados
semelhantes aos de fontes especialmente desenvolvidas para
pessoas com dislexia. A fonte Dyslexie, por ter sido objeto de
121
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
um número maior de testes e das metodologias empregadas
compararem a Dyslexie a fontes padrão com espaçamento
alterado, permitiu observações mais consistentes nesse sentido.
Porém, o espaçamento deve ser empregado com cautela, já que
o aumento desproporcional do espaçamento entre letras e entre
palavras pode atrapalhar a fluidez da leitura (Galiussi et al ., 2020).
A familiaridade com as fontes mostrou-se um fator rele-
vante, especialmente nas análises de preferência subjetiva. Esse
aspecto impactou negativamente a aceitação da maioria das
tipografias acessíveis avaliadas, sendo a Easy Reading a que
obteve as avaliações mais positivas nesse quesito. No entanto,
Damiano, Gena e Venturini (2019) observaram que alguns
participantes da pesquisa demonstraram preferência pela fonte
padrão devido ao hábito com essa tipografia.
Zikl et al. (2015) alertam que não só as preferências, mas
os resultados dos testes de leitura podem ter sido influenciados
pelo grau de familiaridade dos participantes com a tipografia,
questionando se a performance teria sido diferente caso os
leitores estivessem mais acostumados com a fonte acessível
avaliada. Damiano, Gena e Venturini (2019) afirmam que a
escolha de alguns participantes por fontes e cores padrão reflete
o esforço das pessoas com dislexia para se adaptarem a novas
características. Eles também apontam que algumas mudanças
só geram melhorias a longo prazo, o que pode indicar que o
tempo de exposição à fonte impacta na eficácia percebida.
Por fim, alguns autores como Frensch (2003) e Hillier
(2006) encontraram dificuldades para identificar prefencias
tipográficas comuns entre os participantes no processo de desen-
volvimento das tipografias Read Regular e Sylexiad, respecti-
vamente. Frensch (2003) afirmou que não haveria duas pessoas
122
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
com a mesma opinião. Destaca-se dessa forma, a importância
da personalização tipográfica como estratégia para promover
acessibilidade. Considerando que diferentes indivíduos reagem
de maneira distinta aos elementos tipográficos (Ramsey, 2014),
oferecer opções de personalização se torna essencial. Essa
recomendação é reforçada por Zikl et al. (2015), que sugerem
que usuários devem poder escolher a fonte e ajustar suas carac-
terísticas tipográficas. A mesma perspectiva é defendida por
Damiano, Gena e Venturini (2019), que também apontam a
personalização como um elemento fundamental para atender
às necessidades de acessibilidade de cada usuário.
123
IV
PESQUISAS E
RECOMENDAÇÕES EM
TIPOGRAFIAS PARA
ACESSIBILIDADE
A
tipogra a constitui um amplo campo de possibilidades
na busca por soluções e cientes para a composição tex-
tual. Pereira (2007) destaca que cada decisão, como a altura e
o corpo dos caracteres, a disposição dos elementos textuais,
os alinhamentos e os espaçamentos, in uencia diretamente a
experiência de leitura. Esse processo, denominado marcação
tipográ ca, transcende a mera questão estética, pois determi-
na a forma como a informação será percebida, compreendida
e interpretada pelo leitor.
Com uma variedade de combinações de características
tipográficas surge o questionamento sobre quais elementos
de fato contribuem ou dificultam o processo de leitura e com-
preensão textual no meio digital. Outra questão relevante é se
essas características beneficiam pessoas com dificuldades de
leitura e pessoas neurodivergentes do mesmo modo.
124
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Nesse sentido, foi realizada uma Revisão Sistemática
Integrativa para reunir e sintetizar o conhecimento atual sobre
a influência da tipografia e suas características — como tipo
de fonte, tamanho e espaçamento, am de outras propriedades
visuais — na experiência de leitura e interação de pessoas
com dislexia em interfaces digitais. Ao integrar esses achados,
pretendeu-se compreender através de um panorama abrangente
quais melhores pticas têm sido adotadas e recomendações
para a escolha de tipografias para tornar a leitura em interfaces
digitais acessível e eficaz. Dessa forma, a visão geral das quatorze
pesquisas selecionadas, foram organizadas no quadro 19, como
mostra a seguir:
Quadro 19 – Pesquisas da Revisão Sistemática Integrativa (RSI)
sobre a acessibilidade tipográfica em interfaces digitais
Autores Título Participantes Tipogra as
envolvidas
Bakar,
Zhiang
(2021)
Reading speed
performance
based on interface
design elements
for web interfaces.
64 alunos de
graduação (39
masculinos e 35
femininos).
Time New Roman,
Georgia, Garamond,
Arial e Verdana
(combinações de
cores de fonte
e fundo).
Bylinskii et
al. (2022)
Towards
Individuated
Reading
Experiences:
Different Fonts
Increase Reading
Speed for Different
Individuals.
352 participantes
com idade entre
18 – 71 anos.
16 fontes divididas
em 4 categorias:
PDF: Times, Eb
Garamond, Calibri,
Arial. Jornal: Franklin
Gothic, Utopia,
Helvetica, Poynter
Gothic. Web: Oswald,
Lato, Roboto, Open
Sans. Especialistas
em legibilidade:
Avenir Next, Noto
Sans, Avant Gard
e Montserrat.
125
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Bratic,
Loknar,
Ivancevic
(2022A)
Fuzzy Logic-Based
Evaluation Model
of Handwritten
Font Sizes
Readability on
Extra Small
Devices.
5 participantes. Fonte Manuscrita
variável ( na,
ultraleve, leve, regular,
seminegrito, negrito
e ultra- negrito) – 4
tamanhos (14,
22, 26 e 34pt).
Bratic,
Loknar,
Ivancevic
(2022B)
Readability
Evaluation
of Variable
Handwritten
Fonts on Different
Screen Sizes Using
Fuzzy Logic.
5 participantes. Fonte Manuscrita
Variação tipográ ca
( na, ultraleve, leve,
regular, semi- negrito,
negrito e ultra- negrito.
Cai et al.
(2022)
Personalized font
recommendations:
Combining ml
and typographic
guidelines
to optimize
readability.
252 participantes. Montserrat, Open
Sans, Arial, Roboto,
Merriweather,
Georgia, Source
Serif Pro e Times.
Sulaiman,
Hipiny, Ujir
(2022)
Empirical Insights
on Gender-Based
Computer Font
Preference of
Dyslexic Juvenile
Learners: A Case
Study in Sarawak,
Malaysia.
16 alunos entre
6 e 17 anos (9
masculinos e 7
femininos).
Sans Serif: Arial,
Verdana (indicação
British Dyslexia
Association),
Helvertica, Myriad.
Serif: Times New
Roman, Georgia,
Baskerville e
Garamond
Tamanho 12px.
Vecino et
al. (2022)
How does serif
vs sans serif
typeface impact
the usability of
e-commerce
websites?
246 participantes. Roboto e Roboto Serif
(tamanho 16px).
126
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Bollini,
Brambilla,
Stucchi
(2023)
Le font ad alta
leggibilità e
dislessia: una
valutazione
sperimentale
dell’esperienza
di lettura.
48 Participantes:
16 com dislexia e
32 neurotípicos.
8 fontes: Times New
Roman, Simoncini
Garamond, Verdana,
Futura, Comic Sans,
Open Dyslexic,
Easy Reading e
Bianco e Nero.
Tamanho 12pt,
espaçamento entre
linhas 1,5, texto preto
em fundo branco.
Phalke,
Shrivastava,
Sahgal
(2023)
Identi cation of
digital font size
and font type
to enhance the
attention span
of children living
with ADHD in a
typical learning
environment.
5 crianças (5 a
14 anos) todas
com TDAH.
9 combinações
tipográ cas: 3 tipos
de fonte: Mali, Cavoli,
Lucida Handwriting.
3 variações
de tamanhos:
16,24,32px.
Medved,
Podlesek,
Mozina
(2023)
Influence of
letter shape on
readers’ emotional
experience, reading
fluency, and text
comprehension
and memorisation.
35 participantes
divididos em 2
grupos: 15 Crianças
- leitores menos
experientes (4° ao
6° ano do ensino
fundamental) e 20
adultos - leitores
experientes
(estudantes
universitários).
8 fontes:
arredondadas
(Chaperral Pro, FG
April Trial, Matilda e
Times) e angulares
(Arial Nova, Nogamet,
Sans Forgotica
e Verdana).
Sheppard et
al. (2023)
One Font
Doesn’t Fit All:
The Influence
of Digital Text
Personalization on
Comprehension
in Child and
Adolescent
Readers.
94 crianças
divididas em 2
grupos: Jardim de
infância à 2° série
e 3° a 8° série.
Roboto Flex
6 variações de
fonte manipulando
espaçamento entre
letras e a largura
dos caracteres.
Seward et
al. (2024)
Impacting literacy
through the power
of a font: Design
research for
inclusive reading
experiences.
3 participantes. Seetype.
127
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Vecino et
al. (2024)
The Impact of
Serif vs Sans-
Serif Typefaces
on e-Commerce
Websites.
70 participantes
(31 feminino e 39
masculinos) entre
18 e 25 anos.
Roboto Serif e Roboto
Sans-Serif (tamanho
10pt – testes 1,2 e 3 e
200pt para o teste 4.
Medved,
Podlesek,
Mozina
(2025)
Eye-Tracking
Study on Reading
Fluency in Relation
to Typeface
Pleasantness
Influenced by
Cross-Modal
Correspondence
Between Taste
and Shape.
88 Participantes.
2 grupos etários:
36 estudantes
universitários
(19-25 anos) e
49 estudantes do
ensino fundamental
(10-12 anos).
Fontes arredondadas:
Chaparral Pro, FG
April Trial, Matilda,
Times New Roman,
Comic Sans.
Fontes angulares:
Arial Nova, Nogomet,
Sans Forgetica,
Verdana e Anka.
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Todas as pesquisas analisadas buscaram identificar quais
tipografias ou características tipográficas proporcionam uma
melhor experiência de leitura ou preferências . Algumas foram
direcionadas especificamente a pessoas com dislexia, TDAH ou
com outras dificuldades de leitura, enquanto outras focaram em
participantes neurotípicos. Entendemos que, mesmo os estudos
voltados a indivíduos sem comprometimentos na linguagem,
ao investigarem formas de otimizar a eficácia da leitura, podem
gerar benefícios amplos inclusive para pessoas neurodivergentes,
como é o caso de pessoas com dislexia.
Dessa forma, para analisar os resultados das pesqui-
sas e verificar semelhanças e divergências entre elas, foram
organizadas em grupos de acordo com o enfoque do estudo
nas categorias: legibilidade, velocidade e fluência de leitura;
preferência e agradabilidade da fonte; compreensão textual;
retenção de atenção e usabilidade. Algumas pesquisas inves-
tigaram mais de uma questão e por isso podem aparecer em
categorias diferentes, como demonstra a seguir o quadro 20:
128
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Quadro 20 – Categorização das pesquisas por enfoque
Autor/ano Enfoque da Pesquisa
Medved, Podlesek e Mozina (2023
e 2025); Bollini, Brambilla e Stucchi
(2023); Sheppard et al. (2023);
Cai et al. (2022); Bratic, Loknar e
Ivancevic (2022A e 2022B); Bakar
e Zhiang (2021); Vecino et al.
(2024); Bylinskii et al. (2022)
Legibilidade, velocidade e
fluência de leitura.
Medved, Podlesek e Mozina (2025);
Sulaiman, Hipiny e Ujir (2022);
Medved, Podlesek e Mozina
(2023); Vecino et al. (2024)
Preferência e agradabilidade.
Vecino et al. (2022); Seward et al.
(2024); Sheppard et al. (2023)
Compreensão Textual.
Phalke, Shrivastava e Sahgal (2023) Retenção de Atenção.
Vecino et al. (2022); Vecino et al. (2024) Usabilidade.
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Legibilidade, velocidade e fluência de leitura
1. Formato da fonte: arredondada vs. angular
Medved, Podlesek e Mozina (2023) investigaram a influ-
ência do formato tipográfico — arredondado ou angular —
sobre a legibilidade textual. Os resultados indicaram que fontes
de traços arredondados, como Chaparral Pro, FG April Trial,
Matilda, Times New Roman e Comic Sans, apresentaram um
menor tempo de leitura por caractere em comparação às fontes
de traços angulares ou pontiagudos, tais como Arial Nova,
Nogomet, Sans Forgetica, Verdana e Anka. Esses achados suge-
rem que o uso de letras arredondadas pode contribuir para
uma leitura mais fluida. Além disso, identificaram que os mais
129
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
jovens liam mais lentamente que os mais velhos e experientes.
Em 2025, em uma nova pesquisa, Medved, Podlesek e Mozina
(2025) correlacionaram fontes arredondadas com o aumento da
velocidade de leitura em ambas as faixas etárias estudadas (1°
grupo de estudantes universitário entre 19-25 anos; e 2° grupo
de estudantes do ensino fundamental entre 10-12 anos de idade).
2. Legibilidade de fontes manuscritas
Bratic, Loknar e Ivancevic (2022a) realizaram uma avalia-
ção de legibilidade com fontes manuscritas em um estudo piloto.
Os autores mencionados identificaram que a legibilidade mais
alta se dava a fontes manuscritas em negrito tamanho 22pt e 26pt
em dispositivos pequenos e a pontuação mais baixa se deu com
a fonte manuscrita regular, tamanho 14 em dispositivos extra
pequenos. Posteriormente, Bratic, Loknar e Ivancevic (2022b)
realizaram novamente a pesquisa, repetindo a metodologia
anterior. Nessa etapa, foi testada a fonte variável manuscrita
Monoline básica nas seguintes variações: fina, ultraleve, leve,
regular, semi-negrito , negrito e ultra-negrito . A avaliação foi con-
duzida em quatro diferentes tamanhos de tela (extra pequeno,
pequeno, médio e grande), resultando nos seguintes achados:
A fonte manuscrita testada não é apropriada para blocos de
textos, porém pode ser usada para dar ênfase ou destaque em
pequenos textos, embora não tenha se mostrado adequado para
ambientes responsivos. Verificou-se, também, que a pontuação
mais alta de legibilidade nesse tipo de fonte foi na variação
semi-negrito , negrito e ultra-negrito , enquanto a mais baixa foi
obtida em letras mais finas em todos os dispositivos.
130
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
3. Fontes amigáveis para pessoas com dislexia e fontes
padrão
Em outro estudo, Bollini, Brambilla e Stucchi (2023)
buscaram avaliar a legibilidade e a velocidade de leitura de 8
fontes diferentes entre elas as fontes específicas para indivíduos
com dislexia (OpenDislexic, Easy Reading e Bianco e Nero)
em meio digital (tablet) e papel. O experimento contou com a
participação de dois grupos, o primeiro com 16 pessoas com
dislexia e o segundo grupo com 32 pessoas sem dislexia. A
variação no tempo de leitura e a quantidade de erros cometi-
dos pelos participantes com dislexia não apresentou diferença
estatisticamente significativa em relação ao uso das diferentes
tipografias, assim como não houve diferença estatisticamente
significativa no dispositivo escolhido (papel ou digital).
Bollini, Brambilla e Stucchi (2023) não apresentaram os
resultados das fontes acessíveis para dislexia de forma isolada,
mas relataram que o desempenho na leitura não pôde ser atribu-
ído a nenhuma das tipografias avaliadas, sejam elas acessíveis
ou convencionais. O único dado com diferença estatisticamente
significativa foi o desempenho de leitura entre participantes
com dislexia e neurotípicos.
4. Personalização tipográfica
Bylinskii et al. (2022) investigaram se a leitura poderia
ser otimizada apenas por meio da escolha da fonte, ajustando
o tamanho percebido das tipografias. Para isso, utilizou uma
abordagem de normalização pela percepção humana para
padronizar os tamanhos das fontes com base na referência Times
16px. Os autores mencionados identificaram que a tipografia
influencia a velocidade de leitura individual. Eles concluíram
131
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
que diferentes fontes podem funcionar melhor para diferentes
pessoas e que nenhum fator isolado é capaz de prever esse
desempenho com precisão. Em vez de identificar uma fonte
universalmente mais eficaz, a pesquisa de Bylinskii et al. (2022)
revelou que nenhuma tipografia beneficiou a todos os partici-
pantes de maneira uniforme. Com base nesses resultados, os
autores concluíram que oferecer ao usuário a possibilidade de
escolher a fonte pode otimizar a leitura individualmente. Os
resultados também indicaram que os participantes não apre-
sentaram melhor desempenho ao ler em sua fonte preferida.
Além disso, a familiaridade com a tipografia não determinou
sua preferência, o que pode sugerir que as pessoas não são
capazes de identificar qual seria a melhor fonte para otimizar
sua leitura. Por fim, os pesquisadores observaram que as fontes
EB Garamond e Montserrat tendem a melhorar a velocidade de
leitura em leitores com mais de 35 anos, embora essas recomen-
dações não possam ser generalizadas.
5. Variações no espaçamento entre letras e largura dos
caracteres
Em relação à variação da largura dos caracteres e espa-
çamento entre letras, Sheppard et al. (2023) verificaram se essas
características aumentavam a velocidade de leitura realizando
um estudo comparativo alterando o espaçamento entre letras e
largura dos caracteres da fonte Roboto Flex e chegaram a seis
variações de fontes. Assim, realizaram dois experimentos: 1°
teste de leitura com palavras e 2° teste de leitura envolvendo
textos. Os participantes foram divididos em dois grupos: crian-
ças do jardim de infância à 2° série; e alunos da 3ª a 8ª série,
incluindo 12 crianças neurotípicas. Os resultados variaram em
cada experimento.
132
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
No primeiro experimento, que analisou a leitura e com-
preensão de palavras, foram obtidos os seguintes resultados: a
interação com o formato Wide_Space (espaçamento amplo entre
letras, mantendo a largura padrão dos caracteres) proporcionou
uma reação mais rápida (74 ms) entre os alunos com dislexia em
comparação à fonte base. No entanto, considerando a análise
por grupos, nenhuma variação tipográfica influenciou signi-
ficativamente a velocidade da leitura.
No segundo experimento, dessa vez analisando passagens
de texto descobriram que a fonte Wide_space foi associada a
tempos de leitura mais longos e nenhuma variação pareceu sig-
nificativamente benéfica para as crianças com dislexia. Sheppard
et al. (2023) identificaram que nenhuma das variações havia
beneficiado a um grande número de participantes e sugeriram
que a personalização da fonte deve ser individual, chegando a
um aumento na precisão média de leitura em 18,4% no expe-
rimento 1 e 21,3% no experimento 2 quando os participantes
leram o texto na variação de fonte que consideraram mais
adequada, equivalente a um aumento em mais de três páginas
lidas em uma hora.
6. Recomendação tipográfica personalizada
Cai et al. (2022) em sua pesquisa, propuseram o desenvol-
vimento de uma ferramenta para recomendação personalizada
de fontes utilizando aprendizado de máquina (LambdaMART),
considerando as características individuais dos usuários para
otimizar a velocidade de leitura. O modelo relaciona fatores
pessoais, como idade, freqncia e velocidade de leitura, além da
familiaridade com a fonte, com atributos tipográficos, incluindo
peso, espaçamento entre caracteres, altura x, comprimento dos
133
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
ascendentes e contraste dos traços. Segundo Cai et al. (2022), foi
observado que a escolha da tipografia pode beneficiar diferentes
faixas etárias, com a fonte Poppins sendo mais adequada para
participantes mais jovens (até 25 anos) e a Georgia para os mais
velhos (acima de 40 anos). Por fim, a análise da velocidade
média de leitura, medida em palavras por minuto (WPM) para
cada participante e tipografia, indicou que não há uma fonte
universalmente mais rápida para todos os leitores.
7. Cor de fonte e de fundo
Em outro estudo, Bakar e Zhiang (2021) utilizaram uma
abordagem experimental para examinar a velocidade de leitura
em uma interface web, relacionando o texto a outros elementos
de interface, como o tipo de fonte, a cor da fonte e a cor do
fundo. Os resultados indicaram que a melhor combinação
para aumentar a velocidade de leitura foi a cor da fonte azul, a
cor do fundo amarelo e o tipo de fonte Arial. Por outro lado, a
combinação que resultou na menor velocidade de leitura foi a
cor da fonte preta, a cor do fundo branco e o tipo de fonte Arial.
Além disso, outra conclusão relevante foi que a combinação entre
as cores do texto e do fundo apresentou um impacto maior na
velocidade de leitura do que o tipo de fonte.
8. Fontes com e sem serifa
Vecino et al. (2024) investigaram a legibilidade de fontes
sem serifa em comparação a fontes com serifa por meio de
rastreamento ocular (medida objetiva) e identificaram que não
houve diferenças significativas relacionadas à legibilidade ao
comparar os dois tipos de fonte, reforçando estudos anteriores
134
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
de que não há evidências de que fontes sem serifa melhoram
a legibilidade de um texto.
Quadro 21 – Resultado das pesquisas sobre
legibilidade, velocidade e fluência de leitura
Autor/ano Pesquisa Melhoria na
legibilidade
Medved, Podlesek e
Mozilla (2023 e 2025)
Formato da fonte
(arredondada vs. angular).
Fontes arredondadas
apresentam melhor
legibilidade.
Bratić, Loknar e
Ivancevic (2022a
e 2022b)
Fontes manuscritas. Melhor variação
semi- negrito, negrito
e ultra- negrito.
Bollini, Brambilla e
Stucchi (2023)
Fontes para pessoas com
dislexia em meio
digital vs. impresso.
Não apresentou
diferenças signi cativas.
Bylinskii, et al. (2022) Fontes diferentes com
tamanho ajustado
para Times 16px.
Melhora o desempenho
quando se escolhe
a melhor tipogra a
individualmente.
Sheppard et al. (2023) Largura dos caracteres e
espaçamento entre letras.
Personalização da fonte
aumenta a velocidade
de leitura na melhor
variação pessoal.
Cai et al. (2022) Personalização de
tipogra as diferentes .
Escolhas individuais
podem aumentar a
precisão de leitura.
Bakar e Zhiang (2021) Relação tipogra a, cor
de fonte e cor de fundo.
Combinação de cores
tem mais impacto
que tipos de fonte.
Vecino et al. (2024) Fontes sem serifa
e com serifa.
Sem evidências
de melhoria.
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
135
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Preferência e agradabilidade
1. Formato da fonte: arredondada vs. angular
Um fator observado por Medved, Podlesek e Mozina (2023
e 2025) foi a relação entre o formato da fonte (arredondadas ou
angulares/agudas) com a preferência dos usuários e as respostas
emocionais às formas das letras na fluência de leitura. Os autores
mencionados confirmaram que tipografias arredondadas foram
mais agraveis para os dois grupos, mas os resultados foram
mais significativos entre os leitores mais jovens. A classificação
de leveza da fonte foi correlacionada à velocidade de leitura
em ambos os grupos e pode tornar a leitura mais agravel.
2. Fonte com serifa e sem serifa - usuários com dislexia
Sulaiman, Hipiny e Ujir (2022) identificaram que, de modo
geral, os participantes com dislexia preferiam fontes sem serifa
do que as serifadas e que a fonte preferida, entre as sem serifa, foi
a Myriad seguida pela Helvetica. as fontes serifadas preferidas
foram a Times e Georgia. Nos estudos não houve diferenças
estatisticamente relevantes quanto à preferência por gênero,
apenas que as fontes sem serifa foram as mais escolhidas. As
fontes proporcionais (Adobe Caslon e Arial) foram preferidas
em comparação às monoespaçadas (Courier e Lucida Console).
Outro fator foi a preferência por texto maior, maiúsculo e não
itálico. Em relação às cores, observou-se uma tendência na
preferência por contrastes, com o baixo contraste sendo mais
apreciado pelo gênero masculino e o alto contraste pelo gênero
feminino. No que se refere às fontes consideradas amigáveis
136
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
para pessoas com dislexia, o estudo comparou a fonte Open
Dyslexic com a Arial. Os resultados indicaram que a fonte
Arial foi a preferida pelos participantes, possivelmente devido
à familiaridade com essa tipografia, conforme sugerido por
Sulaiman, Hipiny e Ujir (2022).
3. Fonte sem serifa e com serifa
Vecino et al. (2024) também investigaram a preferência dos
usuários por fontes com serifa e sem serifa, bem como possíveis
diferenças relacionadas ao gênero. Para avaliar as preferências
subjetivas dos participantes, utilizaram questionários e obser-
varam uma maior predileção por fontes serifadas. Além disso,
Vecino et al. (2022) já haviam identificado uma tendência entre
participantes do gênero feminino de preferirem fontes serifadas.
Quadro 22 – Resultado das pesquisas sobre Preferência e agradabilidade
Autor/ano Pesquisa Preferência
Medved, Podlesek e
Mozilla (2023 e 2025)
Formato da fonte
(arredondada
vs. angular).
Fontes arredondadas.
Sulaiman, Hipiny
e Ujir (2022)
Fontes sem serifa
e com serifa.
Pessoas com dislexia
preferiram fontes
sem serifa com as
características: Letra
maior, maiúscula
e não itálica.
Vecino et al. (2024) Fontes sem serifa
e com serifa.
Fontes com serifa
(obs.: os participantes
não tinham
neurodivergências).
Fonte: desenvovlido pelos autores (2025).
137
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Compreensão Textual
1. Fontes com serifa e sem serifa
Vecino et al. (2022) analisaram o impacto da serifa na
compreensão de leitura a partir da condução de testes de leitura
e aplicação de questionários que revelaram que a tipografia, a
idade e o gênero dos participantes não tinham impacto signifi-
cativo na compreensão da leitura. Da mesma forma, não foram
observadas diferenças relevantes na compreensão entre textos
escritos com ou sem serifa.
2. Personalização de espaçamento e largura de fontes
padrão
Sheppard et al. (2023) em seu estudo sobre os efeitos da
personalização da largura dos caracteres e espaçamento entre
letras, observaram que crianças com menor desempenho de
leitura se beneficiaram mais da personalização tipográfica,
alunos de séries mais baixas, por exemplo, obtiveram melhor
resultado com a variação Wide_space (espaçamento amplo entre
letras, largura dos caracteres padrão da letra) que o segundo
grupo de alunos mais velhos. Apesar da velocidade de leitura
não ter tido resultados significativos entre as melhores e piores
variações de fonte individual, a compreensão da leitura foi
onsideravelmente mais eficiente na vero otimizada. Sendo,
a compreensão da leitura, a mais beneficiada com a mudança
na variação de fonte, inclusive para aquelas com dislexia. No
segundo experimento, que analisou a leitura e compreensão de
textos, identificou-se que a versão Nar_width (com caracteres de
138
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
largura estreita) apresentou a menor precisão na compreensão
da leitura por crianças com dislexia.
3. Fonte com suporte visual e auditivo para alfabetização
de pessoas com dislexia
Seward et al. (2024 ) desenvolveram uma fonte para alfabe-
tização (Fonte Seetype) cujo objetivo era oferecer dicas visuais e
auditivas para auxiliar na leitura e diminuir o esforço e tempo
de leitura para crianças com dificuldades de leitura. A tipogra-
fia associa pictogramas dinâmicos incorporando-os às letras,
respeitando seu contorno anatômico e possibilitando associar
os pictogramas aos sons das letras. Quando não habilitada,
a ferramenta exibe a fonte Roboto sem serifa, que, segundo
Seward et al. (2024), é mais fácil de distinguir e reconhecer, além
de ser amplamente utilizada em interfaces digitais. Para o teste
piloto, foram selecionados três participantes, dos quais um não
atendia aos requisitos do experimento. Os dois participantes
restantes leram passagens de 200 a 250 palavras e, sob orientação
do pesquisador, utilizaram a ferramenta apenas quando não
conseguiam ler corretamente uma palavra. O participante 1
iniciou a intervenção com nível de leitura instrucional corres-
pondente à 6ª série e concluiu no nível da 8ª/9ª série, enquanto
o participante 2 começou no nível da 7ª/8ª série e terminou no
nível da 9ª/10ª série.
139
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Quadro 23 – Resultado das pesquisas sobre compreensão textual
Autores/ano Pesquisa
Melhoria na
compreensão
textual
Vecino et al. (2024) Fontes sem serifa
e com serifa.
Sem evidências
de melhoria.
Sheppard et al. (2023) Largura dos caracteres e
espaçamento entre letras.
Variação Wide_space
melhorou a compreensão
de leitura inclusive para
pessoas com dislexia.
Seward et al. (2024) Fonte para alfabetização. Pode trazer melhorias.
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Retenção de Atenção
1. Tipo e tamanho de fonte para crianças com TDAH
Phalke, Shrivastava e Sahgal (2023) investigaram quais
tipos e tamanhos de fonte são mais eficazes para aumentar o
tempo de atenção de crianças com TDAH em ambientes web. O
estudo combinou três fontes (Mali, Cavoli e Lucida Handwriting)
em três tamanhos diferentes (16, 24 e 32 pt), totalizando nove
variações tipográficas. As crianças leram em voz alta enquanto
seus movimentos faciais e corporais eram monitorados. Os
resultados mostraram que a combinação que mais reteve a
atenção foi a fonte Mali com tamanho 24 pt, possivelmente por
se assemelhar a uma escrita manual. Em contrapartida, a fonte
Cavoli causou confusão visual, especialmente entre as letras
“b” e “k”, prejudicando a fluidez da leitura.
140
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Quadro 24 – Resultado das pesquisas sobre retenção de atenção
Autor/ano Pesquisa Melhoria na
retenção de atenção
Phalke, Shrivastava
e Sahgal (2023)
Tipo e tamanho
de fontes.
Mali,24pt.
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Usabilidade
1. Fontes com serifa e sem serifa
O principal objetivo dos estudos de Vecino et al. (2022 e
2024) era analisar o impacto do uso de fontes com e sem serifa
em um site de comércio eletrônico, buscando identificar qual
delas poderia melhorar a usabilidade, a estética e a satisfação
dos usuários. Em 2022, no primeiro estudo, verificaram que não
houve diferenças significativas na usabilidade e no tempo de
conclusão das tarefas ao comparar as fontes Roboto e Roboto
Serif no protótipo utilizado para os testes, concluindo que essas
características não impactavam na usabilidade de websites.
Em 2024, os autores repetiram o experimento utilizando, desta
vez, um ambiente controlado e acrescentaram medidas de
avaliação objetivas (Rastreamento ocular) além das preferências
subjetivas (questionários) dos participantes. Mais uma vez, os
resultados indicaram que não há evidências de que fontes sem
serifa melhorem a legibilidade em sites de comércio eletrônico.
Além disso, não foram encontradas diferenças estatisticamente
significativas nas medidas registradas pelo rastreamento ocular
que relacionassem a legibilidade ao tipo de fonte ou à redução
141
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
do tempo de conclusão das tarefas em textos escritos com ou
sem serifa.
Quadro 25 – Resultado das pesquisas sobre usabilidade
Autores/ano Pesquisa Melhoria na
usabilidade
Vecino et al.
(2022 e 2023)
Tipo com serifa
e sem serifa.
Sem evidências de melhoria.
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
Reflexões sobre os achados
tipográficos para dislexia
Em relação às pesquisas voltadas para pessoas com dis-
lexia, foram identificados quatro estudos:
Sulaiman, Hipiny e Ujir (2022) veri caram que
as pessoas com dislexia de modo geral prefe-
riram fontes sans serif e fontes proporcionais
em vez de fontes serifadas ou monoespaçadas.
Além disso, ao comparar a fonte Open Dysle-
xic com a Arial, a maioria dos leitores preferiu
a Arial.
Bollini, Brambilla e Stucchi (2023) não en-
contraram melhorias signi cativas no tempo
de leitura ou na quantidade de erros cometi-
dos ao comparar diferentes fontes, incluindo
aquelas desenvolvidas especi camente para
os indivíduos com dislexia.
• Sheppard et al. ( 2023) identi caram que pala-
vras isoladas escritas com uma tipogra a que
apresentava maior espaçamento entre letras
142
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
foram lidas mais rapidamente por leitores com
dislexia. No entanto, ao aplicar essa mesma ti-
pogra a em textos completos, não houve ga-
nho signi cativo na velocidade de leitura, mas
houve uma melhora na compreensão textual.
• Seward et al. (2024) desenvolveram uma fonte
acessível para a alfabetização de crianças com
dislexia (Seetype) identi cando melhorias no
nível de leitura dos participantes.
Nos demais artigos analisados, foram investigadas ques-
tões relacionadas à tipografia e suas características e como estas
influenciam a velocidade e compreensão da leitura, retenção da
atenção, preferências e usabilidade em interfaces digitais. Foram
explorados fatores como tipo e tamanho da fonte, combinação
com outros elementos da interface (como cor da fonte e do
fundo), variações na forma (mais arredondada ou angular),
fontes com e sem serifa, espaçamento entre letras, largura dos
caracteres e fontes acessíveis para dislexia.
Esses estudos testaram hipóteses, confirmaram ou refuta-
ram pesquisas anteriores e levantaram reflexões sobre a validade
das pticas tipográficas atualmente adotadas.
Um aspecto relevante é que, a preferência por deter-
minadas tipografias nem sempre está relacionada ao melhor
desempenho na leitura. Em alguns casos, uma fonte preferida
proporcionou uma experiência de leitura mais fluida e prazerosa
(Medved; Podlesek; Mozina, 2023; 2025), enquanto, em outros,
foi associada a uma redução na velocidade e compreensão do
texto (Bylinskii et al., 2022; Cai et al., 2022).
De modo geral, esta revisão alerta para o risco de escolhas
baseadas em convenções, que muitas vezes não se sustentam
143
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
quando testadas. Um exemplo é o uso de fontes sem serifa em
interfaces digitais, amplamente adotado como padrão, mas que,
conforme estudos de Vecino et al. (2022, 2024), não demonstrou
impacto significativo na fluência de leitura, compreensão textual
ou usabilidade do sistema.
Resultados divergentes também foram observados em
relação às preferências tipográficas: pessoas com dislexia
demonstraram preferência por fontes com serifa ( Sulaiman;
Hipiny; Ujir, 2022), enquanto estudos com leitores neurotípicos
indicaram preferência por fontes sem serifa (Vecino et al., 2022,
2024). Já Bollini, Brambilla e Stucchi (2023) mostraram que a
escolha da fonte, isoladamente, não promove melhorias signi-
ficativas na leitura — em contraste com Bylinskii et al. (2022),
que identificaram melhorias na velocidade de leitura ao testar
tipografias diferentes.
Contudo, alguns achados merecem destaque por impactar
na melhoria da fluência de leitura, compreensão textual, retenção
de atenção e preferências como observado no quadro 26:
144
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Quadro 26 – Resumo dos principais achados das
pesquisas sobre características tipográficas
Melhora a legibilidade,
velocidade e fluência
de leitura
• Fontes arredondadas;
• Personalização tipográ ca como escolha
do tipo e espaçamento pré-de nido;
Cor da fonte azul com fundo amarelo.
Melhora a compreensão
textual
Espaçamento entre letras e largura do
caractere na melhor versão individual
melhora a compreensão textual inclusive
para crianças com dislexia.
Retém maior atenção Em crianças de 5 a 14 anos de idade
com TDAH a tipogra a que apresentou
melhores resultados foi: Mali, 24 pontos.
Ênfase em pequenos textos Ao utilizar fontes manuscritas a melhor variação
é semi- negrito, negrito ou ultra- negrito.
Preferências Usuários com dislexia preferem fontes sem
serifa, letras maiúsculas e não itálico;
Usuários neurotípicos preferem
fontes serifadas;
Mulheres preferem composições
com alto contraste;
Homens preferem composições
com baixo contraste;
Preferência por fontes Padrão em
detrimento às acessíveis.
Fonte: desenvolvido pelos autores (2025).
145
V
OUTRAS TECNOLOGIAS
ASSISTIVAS DIGITAIS PARA
PESSOAS COM DISLEXIA
Tecnologias Assistivas (TAs) são recursos, serviços, estra-
tégias e práticas desenvolvidas para minimizar desa os
enfrentados por pessoas com de ciência (Cook; Polgar; Hus-
sey, 1995 apud Gomes Filho, 2023). Essas ferramentas devem
ser compreendidas como um suporte para ampliar funções
comprometidas ou viabilizar ações impedidas por limitações
decorrentes de de ciência ou do envelhecimento, promoven-
do maior autonomia, qualidade de vida e inclusão social, por
meio de melhorias na comunicação, mobilidade, controle am-
biental, aprendizagem e desempenho pro ssional (Bersch,
2017).
Alguns países estabeleceram normas que exigem a adoção
de instrumentos compensatórios para minimizar as dificuldades
e n f r e n t a d a s p o r a l u n o s c o m d i f i c u l d a d e s e s p e c í f i c a s d e a p r e n -
dizado (DAE), incluindo a dislexia. Na Ilia, por exemplo, a
legislação determina a disponibilização de livros didáticos em
formato digital, permitindo que os estudantes utilizem recursos
146
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
tecnogicos para tornar o texto mais acessível (Bachmann;
Mengheri, 2018).
As tecnologias assistivas têm desempenhado um papel
fundamental na promoção da acessibilidade de pessoas com dis-
lexia ao meio digital na contemporaneidade. Pesquisas recentes
destacam diferentes abordagens e ferramentas desenvolvidas
para atender às necessidades desse público, como: ferramen-
tas de texto acessível (Heuer; Glassman, 2023); extensões de
navegador, como WebHelpDyslexia e Firefixia; réguas de leitura
digital, como Grey Bar, Lightbox, Shade e Underline (Niklaus et al.,
2023); interfaces digitais para auxílio na leitura e escrita de pes-
soas com dislexia (Abdul Aziz, Husni; Hashim, 2022); LaMPost
(Goodman et al., 2022); e aplicativos voltados para esse público
(Gupta; Aflatoony; Leonard, 2021). No entanto, a divulgação
limitada e o desconhecimento sobre essas ferramentas ainda
representam barreiras à sua adoção, uma vez que muitas vezes
sua existência sequer é reconhecida, conforme apontam Niklaus
et al. (2023), Abdul Aziz, Husni e Hashim (2022).
Para conferir acessibilidade digital aos projetos, é neces-
sário conhecer o funcionamento e interação das Tecnologias
Assistivas (TAs) com sites e aplicativos (Google, 2022). Dessa
forma, serão listadas as principais TAS disponíveis para esses
canais conforme o Google (2022):
147
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Quadro 27 – Tecnologias Assistivas (TAs)
disponíveis para Smartphone e Desktop
Dispositivo
Digital
Tecnologias
Assistivas Funcionalidade
Smartphone
(Aplicativos
Android)
Menu de
acessibilidade
• Permite con guração com serviços
mais usados no seu cotidiano;
Acesso via software a botões
físicos do celular.
Acesso com
interruptor
Permite a interação com o telefone
por meio de um botão pequeno
ou par de botões externos.
Selecionar
para ouvir
Permite ouvir o que está sendo
apresentado na tela do aparelho.
A partir de um toque na tela é
possível pausar, acelerar, diminuir a
velocidade ou cancelar a leitura.
Talkback Leitor de tela para smartphones.
A interação é feita por meio de
toques e gestos especiais.
Lookout: visão
assistida
Reconhece imagens e descreve
o ambiente ao redor.
Voice Access Permite operar o celular por meio da voz.
Google
BrailleBack
Integra o celular com display ou
teclado Braille reduzidos.
Ampliador
de som
Filtra, aumenta e ampli ca
o som ao redor.
Zoom em textos Ajusta o tamanho do texto utilizando
um controle deslizante sem alterar
a aparência geral da página.
Gemini com
TalkBack para
Android
Integração com IA possibilita
a descrição de imagens.
Legendas
Expressivas
Fornece legendas em tempo real
para conteúdos com áudio.
148
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Site
(Chromebook,
sistemas
Windows e iOS)
ChromeVox Permite alterar o zoom, alto
contraste e modo de visualização
em preto ou tons de cinza.
Selecionar para
ouvir e acesso
com interruptor
Mesmo funcionamento das
ferramentas para Android.
Ditador Permite escrever no Chromebook
por meio da voz.
Legendas
automáticas
Cria legendas utilizando Inteligência
Arti cial (IA) do Google.
Descrição de
imagens
Quando as imagens não
fornecem descrição o Chrome
OS gera por meio de IA.
Cliques
automáticos
Ativa botões e links apenas
com o movimento do mouse,
dispensando cliques.
Reconhecimento
Óptico de
Caracteres
(OCR)
Converte imagens de texto em formato
editável e processável por computadores.
Fonte: adaptado de Google (2022) e Blog.Google (2025).
As Tecnologias Assistivas (TAs) auxiliam a interação de
usuários com diversos comprometimentos ou comorbidades,
acessar funções do smartphone por outros meios como menus
e interruptores permite o acesso de pessoas com mobilidade
reduzida; as opções de ouvir o que está escrito na tela ou leitura
de imagem possibilita que deficientes visuais realizem ativi-
dades nesses dispositivos, inimagivel anteriormente a essas
tecnologias; as opções de leitura de tela também beneficiam
pessoas com comprometimento de leitura como analfabetos
funcionais e pessoas com dislexia; e amplificadores de som
permitem que pessoas com deficiência auditiva acessem a
informação de forma mais clara e facilitada.
149
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Nos últimos anos, diversas pesquisas testaram a eficácia
ou propuseram novas Tecnologias Assistivas (TAs) voltadas para
a melhoria da leitura e escrita de usuários com dislexia. Assim,
selecionamos alguns estudos, conforme apresentado a seguir:
Heuer e Glassman (2023) investigaram TAs que facilitam
a acessibilidade na leitura. Para isso, simularam o uso de fer-
ramentas em três contextos distintos: administração pública,
área médica e cotidiano, analisando a utilidade percebida
pelos usuários das ferramentas nesses cenários. Com base nos
resultados, compilaram as ferramentas em quatro categorias
ou funcionalidades:
Comprimir Texto – conjunto de técnicas para
reduzir o volume de leitura, destacando in-
formações essenciais e oferecendo alternativas
para substituir termos complexos por sinô-
nimos. Esse processo pode ser realizado por
meio de métodos como TextRank e LexRank.
Expandir Texto – métodos para esclarecer
palavras difíceis, melhorar a coesão textual e
estruturar o texto. Esses métodos podem ser
baseados em hierarquias linguísticas estabele-
cidas, como o WordNet (para inglês) e o Ger-
maNet (para alemão), ou aprendidos a partir
de dados, utilizando abordagens como semân-
tica distribucional e word2vec.
• Experimentar Texto – estratégias para otimi-
zar a apresentação visual do texto, incluindo
uso de fontes e contrastes.
Revisar Texto – ferramentas que auxiliam na
veri cação de qualidade textual, ou seja, é
“redigido e apresentado de forma simples
e compreensível” (tradução nossa). Heuer e
Glassman (2023) citam o Grammarly, porém
150
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
reconhecem a complexidade de compactar e
expandir textos.
Imagem 23 – Estrutura das ferramentas de texto acessível
Fonte: traduzido de Heuer e Glassman (2023).
Heuer e Glassman (2023) indicam que as ferramentas de
texto acessíveis beneficiam especialmente pessoas com defi-
ciência cognitiva e leitores não nativos, além daqueles com
dificuldades de aprendizagem, leitura e escrita, incluindo as
pessoas com dislexia.
Já a pesquisa de Niklaus et al. (2023) avaliou a eficácia de
diferentes modelos deguas de leitura digitais, considerando a
melhoria da velocidade de leitura, compreensão textual e prefe-
rências. As réguas de leitura digital, de acordo com os autores,
estão disponíveis nas versões de extensão de navegador ou
aplicativos de desktop como: Claro Software, Immersive Reader,
ReadingLine, BeeLine e ReaderMode. Os autores avaliaram as
réguas que apresentaram as seguintes funcionalidades:
151
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
• Grey Bar (Barra Cinza) - barra semitranspa-
rente que acompanha o cursor do mouse e co-
bre a linha atual do texto;
Lightbox (Caixa de Luz) - cobre todo o texto,
exceto a linha que está sendo lida;
Shade (Sombra) - semelhante ao Lightbox,
mas cobre apenas a parte superior do texto;
Underline (Sublinhado) - destaca a linha atual.
Imagem 24 – Design de régua de leitura no formato físico e digital
Fonte: traduzido e adaptado de Niklaus et al. (2023).
152
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Os resultados indicaram que asguas Grey Bar, Shade
e Underline aumentaram a velocidade de leitura em pessoas
com dislexia. Já o Lightbox, embora não tenha melhorado a
velocidade, foi o mais apreciado. Além disso, as réguas mos-
traram-se eficazes para manter o foco e o posicionamento da
leitura, sem comprometer a compreensão textual, evidenciando
que tanto leitores com quanto sem dislexia se beneficiaram
dessas ferramentas.
No meio digital também é possível encontrar as exten-
sões de navegador, como apontam Enco-Jáuregui, Meneses-
Claudio e Auccacusi-Kañahuire (2023). Essas extensões como
WebHelpDyslexia e Firefixia, possibilitam ajustes no texto, per-
sonalizando o site de acordo com as necessidades individuais
dos usuários, porém foi identificado que essas extensões não
são compatíveis com todos os navegadores, o que dificulta a
sua utilização.
Também foi identificada a discussão sobre as Interfaces do
Usuário Tangíveis (TUI) para pessoas com dislexia nos estudos
de Abdul Aziz, Husni e Hashim (2022) no quais exploraram a
aplicação de interfaces tangíveis para auxiliar a alfabetização de
crianças com dislexia. De acordo com os autores mencionados,
Interfaces do Usuário Tangíveis (TUIs) são interfaces digitais
que conectam o mundo digital ao físico, utilizando o corpo e
manipulando objetos tangíveis dão suporte às atividades de
aprendizagem. As TUIs utilizam os outros sentidos do usuário
para tornar o aprendizado “interessante, interativo e divertido
(p. 2). A seguir as principais TUIs descritas nos estudos de Aziz,
Husni e Hashim (2022):
153
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Imagem 25 – Principais TUIs identificadas:
Fonte: adaptado de Abdul Aziz, Husni e Hashim (2022).
Os recursos analisados sugerem a utilização de letras
tangíveis 3D para facilitar a diferenciação de caracteres; códigos
de cores dinâmicas pois ajudam na aprendizagem de ortografia
adaptando a cor de acordo com a regra dos princípios de orto-
grafia; dicas táteis com o uso da textura; dicas multimídia como
animações de personagens que ensinam a escrever traço por
traço e sugestão para o uso de fontes sem serifa como Comic
Sans MS (tamanho entre 12 e 14pt).
Abdul Aziz, Husni e Hashim (2022) apresentam alguns
exemplos de sistemas tangíveis que relacionam TUIs para crian-
ças com dislexia como SpellBound ( corresponde letras e sons);
Tiblo (foco na habilidade motora fina); PhonoBlocks (muda a
cor da letra com base nos sons); e Letras táteis (corresponde
texturas com letras e sons);
Outra solução de TA é o aplicativo móvel desenvolvido
por Gupta, Aflatoony e Leonard (2021), o Augmenta11y, vol-
tado para melhorar a proficiência em leitura de crianças com
154
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
dislexia. O aplicativo aprimora a prática de leitura por meio de
personalizações visuais e interativas, permitindo a escolha da
fonte preferida, incluindo tamanho e tipo, espaçamento entre
letras , altura da linha, cor de fundo, voz da leitura e velocidade
de reprodução. Basta apenas tirar uma foto da página digita-
lizando o texto e escolher como personalizar o texto com as
configurações de cor e tipografia. A mudança do texto escaneado
do papel para um digital com a melhor tipografia melhorou
a experiência de leitura de 9 em 10 participantes da pesquisa
realizada por Gupta, Aflatoony e Leonard (2021).
Nesse sentido, a experiência de leitura através da perso-
nalização é o recurso principal do aplicativo, porém o usuário
também pode optar por modo de leitura em voz alta, podendo
o usuário clicar em qualquer lugar do texto e converter o texto
em áudio (Gupta; Aflatoony; Leonard, 2021). Também foram
estabelecidas recomendações para o design de aplicativos vol-
tados para a leitura assistida, como demonstra o quadro 28:
Quadro 28 – Requisitos de design para aplicativos de
leitura assistida para auxiliar crianças com dislexia
Recomendação de design Especi cação do
recurso/ interação
Personalização Permitir que os usuários
personalizem suas preferências
de leitura em con gurações
tipográ cas como: tipo de letra,
tamanho da fonte, espaçamento
entre letras e cor de fundo.
Tamanho da fonte e tipo de letra Oferecer outras opções além de
Arial e Century Gothic; e tamanhos
de fonte de 12 a 16 pontos.
Cor Combinação de cores entre fundo
e texto com maior contraste.
155
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Câmera e digitação Considerar formas de escaneamento
em lote para reduzir esforços.
Dicas e sugestões visuais Fornecer dicas visuais como palavras
destacadas e barra de progresso.
Microinterações e opinião Microinterações com o aplicativo
(por exemplo, o recurso de corte)
devem ser complementadas
com dicas textuais/ de voz.
Acessibilidade As alterações nas con gurações de
leitura devem ser propagadas por
todos os componentes do aplicativo.
Tomando uma decisão Cada tela deve incluir no máximo
quatro decisões para evitar sobrecarga
cognitiva de usuários com dislexia.
Fonte: traduzido e adaptado de Gupta, Aflatoony e Leonard (2021).
Embora as dificuldades relacionadas à leitura sejam desa-
fiadoras, as tarefas da escrita exigem maior esforço para a pessoa
com dislexia, pois na construção de um texto é necessário se
expressar, organizar suas ideias, e estruturá-las (Goodman et al.,
2022). O Smart Compose do Gmail é um exemplo de recursos
que já foi implantado e usa a IA para sugerir como continuar
a escrever uma frase. Foi nesse sentido, que Goodman et al.
(2022) desenvolveram o LaMPost, um protótipo de interface de
suporte à escrita de e-mails assistida por IA para usuários com
dislexia. A ferramenta possui um painel principal semelhante
a um editor de e-mail padrão, com campos para destinatários,
assunto e corpo do texto, além de botões de edição. À direita,
um painel secundário oferece três funções baseadas em IA:
Identificação de ideias principais;
Reescrita de trechos e;
Sugestões de reformulação.
156
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
O estudo apontou que a IA pode auxiliar significativa-
mente na organização e estruturação da escrita, mas ainda há
desafios relacionados à precisão, como quando dois partici-
pantes notaram que algumas opções de reescrita removeram
detalhes importantes; e adaptação do sistema às necessidades
dos usuários pois alguns acreditaram perder tempo ou ser
cansativo ter que escolher opções entre resultados imprecisos
ou irrelevantes. Assim, Goodman et al. (2022) concluíram que
os LLMs de última geração (no início de 2022) ainda não estão
prontos para atender às necessidades do mundo real de escritores
com dislexia” (p. 14, tradução nossa ).
As TAs analisadas revelam avanços significativos na
personalização da experiência de leitura, destacando-se o uso
de ferramentas digitais que vão desde leitores de tela a recursos
que facilitam a leitura individual do usuário com dislexia por
meio das réguas de leitura; e um aplicativo móvel com recursos
interativos e visuais personaliveis.
Percebe-se também que entre os estudos analisados, ape-
nas um deles teve como foco na escrita conforme Goodman et
al. (2022), enquanto os demais (seis estudos) concentraram-se
na acessibilidade da leitura. Abaixo, o resumo das Tecnologias
Assistivas (TAs) investigadas nesta pesquisa:
Quadro 29 – Tecnologias Assistivas (TAs) Digitais
Autores/
ano Ferramentas Abordagem Funcionalidade
Heuer e
Glassman
(2023)
Accessible Text
Framework.
Modi car
o texto.
Comprimir, expandir,
experimentar e
revisar textos.
157
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
Niklaus et
al. (2023)
Réguas de Leitura
Digitais: Grey Bar;
Lightbox; Shade
e Underline.
Auxiliar a
leitura no
texto digital.
Grey Bar: barra
semitransparente
que acompanha o
cursor do mouse;
Lightbox: cobre todo
o texto, exceto a linha
que está sendo lida;
Shade: semelhante
ao Lightbox, mas
cobre apenas a parte
superior do texto;
Underline: destaca
a linha atual.
Enco-
Jáuregui,
Meneses-
Claudio e
Auccacusi-
Kañahuire
(2023)
Extensões de
navegador:
WebHelpDyslexia
e Fire xia.
Personalização
da página web.
Possibilitam ajustes
no texto, como
alteração de fonte,
espaçamento e ativação
de régua de leitura.
Enco-
Jáuregui,
Meneses-
Claudio e
Auccacusi-
Kañahuire
(2023)
Text-to-Speech
(TTS).
Conversão de
texto em fala.
Leitura assistida.
Abdul Aziz,
Husni e
Hashim
(2022)
Interfaces
Tangíveis para
pessoas com
dislexia.
Recursos
que unem o
mundo físico
ao digital,
utilizando
os outros
sentidos no
aprendizado.
Letras tangíveis 3D;
Códigos de cores
dinâmicas; Dicas táteis;
Dicas multimídia.
Gupta,
Aflatoony
e Leonard
(2021)
Aplicativo:
Augmenta11y.
Digitalização
de textos
impressos
por meio de
fotogra a.
O aplicativo, voltado
para crianças, aprimora
a prática de leitura por
meio de personalizações
visuais e interativas.
Goodman
et al.
(2022)
Aplicativo:
LaMPost.
Escrita de
e-mail com
auxílio de IA.
Personalização do tom e
estilo da escrita de e-mail;
Identi cação de
ideias principais;
Sugestões de reescrita.
Fonte: desenvolvido pelos autores(2025).
158
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
A personalização e adaptação dos textos são características
comuns das Tecnologias Assistivas (TAs) voltadas para indiví-
duos com dislexia. Buscando atender diferentes necessidades
de forma individualizada, essas tecnologias permitem que os
usuários façam suas pprias escolhas ao modificar, por exemplo,
o layout de um website, alterando a tipografia, as cores do fundo,
o tamanho e o espaçamento das letras. Além disso, incluem
aplicativos e ferramentas que auxiliam na leitura e escrita.
Conforme Gupta, Aflatoony e Leonard (2021) todos os
participantes de sua pesquisa concordaram que escolher a
fonte e as cores da interface melhorou a experiência de leitura.
Enquanto os especialistas em tipografia, entrevistados por
Heuer e Glassmann (2023), também enfatizaram a importância
de personalizar as soluções individualmente, especialmente para
atender adequadamente pessoas com maiores dificuldades de
leitura. Enco-Jáuregui, Meneses- Claudio e Auccacusi-Kañahuire
(2023) também afirmaram que, entre as tecnologias analisadas,
aquelas que despertaram maior interesse entre os participantes
com dislexia foram as que ofereciam opções de personalização.
Além disso, essas tecnologias contribuíram para a melhora do
desempenho de leitura desses usuários nos sites.
As pesquisas analisadas evidenciam que, quando bem
aplicadas, as TAs contribuem para a redução das barreiras
presentes nas interfaces digitais, facilitando a leitura e a escrita,
além de promoverem maior autonomia e engajamento dos
usuários.
159
Considerações finais
A
leitura, em seu sentido mais amplo , é uma atividade que
transcende as páginas dos livros e se estende para dife-
rentes dimensões da vida. Mesmo nos momentos em que não
estamos conscientes dela, a palavra escrita está por toda parte.
Como aponta Niemeyer (2010), essa presença constante não
se limita à leitura formal de textos literários ou acadêmicos,
estamos continuamente imersos em textos sejam os cartazes
nas ruas, as placas de sinalização, os formulários, manuais de
instruções, propagandas, e de modo geral, todos os pequenos
e grandes elementos textuais que encontramos nos ambientes
físicos e digitais.
Com a multiplicação das plataformas digitais, cada texto,
mensagem ou imagem que circula é parte desse imenso fluxo
comunicativo, que se expande em direções imprevisíveis e de
forma acelerada. A disseminação dos microcomputadores e de
diversos dispositivos tecnogicos de interação digital — espe-
cialmente os móveis — em diferentes camadas da sociedade
trouxe aos designers e desenvolvedores o desafio de projetar
interfaces digitais mais acessíveis e usáveis para distintos grupos
de usuários.
A comunidade de interação humano-computador e design
passou a considerar, além dos usuários típicos (ou neurotípicos),
outros perfis, como indivíduos não letrados, pessoas cegas ou
160
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
com baixa visão, surdas ou com perda auditiva, autistas, pessoas
com TDAH, dislexia, discalculia, entre outros.
Assim, apesar do desafio apresentado, essa evolução
também possibilitou uma Transformação Digital eficiente,
promovendo inclusão digital e, consequentemente, social por
meio da valorização da usabilidade e da acessibilidade digital.
O desenvolvimento de interfaces com foco na diversidade tor-
nou-se um aspecto essencial para garantir experiências mais
equitativas e acessíveis para todos.
Como afirmam Santa Rosa, Pereira Junior e Lameira
(2021) no livro Neurodesign: o cérebro e a máquina, o designer
não projeta a experiência do usuário, mas sim projeta para a
experiência do usuário, criando condições favoráveis para que
essa interação com o produto seja rica e memorável. Para tanto,
segundo Santa Rosa, Pereira Junior e Lameira (2021) deve-se
considerar desde aspectos muito específicos relacionados a
cada elemento de interface e seus atributos e comportamentos
e microinterações e modelos de interação até informações de
nível estratégico a respeito dos objetivos, contextos de uso,
necessidades dos usuários, características físicas, cognitivas, e
emocionais dos usuários.
Jakob Nielsen, em suas comunicações, palestras e trei-
namentos, afirma que nós, designers e desenvolvedores, não
possuímos uma chave no cérebro que nos permita alternar
entre a visão de mundo de um usuário e a de um projetista. Ou
seja, não conseguimos simplesmente mudar de modelo mental
entre essas duas perspectivas.
Precisamos ser empáticos, mas não podemos acreditar
que apenas o uso de ferramentas de empatia — como simula-
dores de dislexia, que mostram a indivíduos neurotípicos como
161
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
determinados sites podem ser visualizados por pessoas com
dislexia — garantirá que os desenvolvedores compreendam
exatamente como projetar interfaces digitais realmente acessíveis
e inclusivas.
Nesse sentido, as consultas a especialistas, a implemen-
tação baseada em diretrizes ergonômicas, de usabilidade e
acessibilidade digital, além de pesquisas cienficas, testes de
usabilidade e outras análises realizadas com usuários, são de
grande importância.
Compreendendo a ampla gama de limitações que podem
impedir ou dificultar a participação efetiva de uma pessoa com
dislexia em atividades de leitura e escrita, este livro buscou
analisar diretrizes e recomendações de acessibilidade, com
foco especial no contexto digital. Além disso, foi realizado um
panorama das últimas pesquisas sobre eficiência de leitura con-
siderando variáveis tipográficas, bem como estudos específicos
sobre fontes projetadas para pessoas com dislexia. O objetivo
foi investigar se determinadas tipografias podem facilitar o
processo de leitura, atuando como Tecnologias Assistivas (TA).
Os resultados indicaram que não há um consenso sobre
a eficácia das fontes desenvolvidas para pessoas com dislexia.
No caso das fontes Read Regular e Sylexiad, observou-se que,
além dos estudos que abordam seu desenvolvimento, não foram
encontradas pesquisas adicionais que avaliem seu desempenho,
o que demanda uma análise mais ampla e imparcial. Ademais,
o estudo de Frensch (2003), responsável pela criação da Read
Regular,o apresenta uma análise detalhada dos resultados,
dificultando a compreensão sobre a condução da pesquisa.
Entre as tipografias analisadas, a Dyslexie foi a mais
amplamente explorada na literatura científica. No entanto, os
162
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
estudos sobre essa fonte revelaram melhorias discretas na velo-
cidade de leitura, na redução de erros e na compreensão textual,
sendo a maioria dessas diferenças estatisticamente irrelevante.
Um aspecto notável é que, ao ajustar o espaçamento de fontes
convencionais, como Arial e Times New Roman, para os mesmos
parâmetros utilizados na Dyslexie, as vantagens inicialmente
atribuídas à fonte acessível deixaram de existir. Isso sugere
que a eficácia percebida estava relacionada ao espaçamento
aumentado, e não ao formato da fonte.
Dado que a fonte OpenDyslexic também emprega caracte-
res com uma base mais densa — assim como ocorre na Dyslexie
investigamos se os resultados seriam similares. Curiosamente,
os achados relacionados à OpenDyslexic foram os mais diver-
gentes. Enquanto alguns estudos relataram melhorias na leitura,
outros não identificaram diferenças significativas na velocidade
de leitura ou na taxa de erros. Dessa forma, não é possível
afirmar com segurança se seus efeitos são realmente positivos.
A pesquisa com os resultados mais promissores foi con-
duzida por Bachmann e Mengheri (2018), na qual a fonte Easy
Reading foi avaliada. Esse foi o único estudo que apontou
impactos significativamente positivos na fluência de leitura em
todos os testes aplicados. A pesquisa, amplamente citada na
literatura cienfica, contou com uma amostra robusta, composta
por 533 alunos do 4º ano do ensino fundamental. No entanto,
há limitações importantes. Como apontado pelos próprios auto-
res, a fonte usada como controle não foi ajustada em tamanho
e espaçamento para se equiparar às características da Easy
Reading, o que impossibilita uma avaliação precisa sobre o
que influenciou os resultados positivos. Além disso, quando a
mesma fonte foi testada por Damiano , Gena e Venturini (2019),
163
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
os pesquisadores não identificaram diferenças significativas na
velocidade de leitura e na compreensão textual.
É relevante considerar que os estudos de Bachmann e
Mengheri (2018) foram conduzidos em materiais impressos,
enquanto a pesquisa de Damiano, Gena e Venturini (2019) foi
realizada em meio digital. Essa diferença pode ter impactado
os resultados, já que fatores como qualidade da tela e tamanho
do dispositivo influenciam diretamente a leitura.
Outro aspecto recorrente nas análises é o papel da familia-
ridade e da preferência dos leitores em relação às fontes. Estudos
indicam que o contato prévio com uma determinada tipografia
pode interferir na escolha dos participantes. Com exceção da
Easy Reading, nenhuma das fontes acessíveis analisadas foi
considerada a preferida. Além disso, pesquisas apontam que
nem sempre as fontes preferidas oferecem a melhor experiência
de leitura.
Por fim, em relação às características tipográficas, dife-
rentes estudos destacaram elementos que podem melhorar a
experiência de leitura. Diante disso, enfatizamos a importância
da personalização, permitindo que cada usuário selecione as
opções ideais de tipografia, cores e espaçamentos para suas
necessidades individuais. A personalização também se mostrou
uma aliada fundamental em outras Tecnologias Assistivas
(TAs) abordadas neste livro, reforçando a relevância do desen-
volvimento de soluções que ofereçam opções ajustáveis para
os usuários.
Ao projetar interfaces para neurodivergentes, especial-
mente indivíduos com dislexia, é essencial considerar as ideias
dos autores mencionados. Compreender as especificidades da
interação dessas pessoas com o mundo, a leitura e o ambiente
164
ERGONOMIA VISUAL NA LEITURA EM TELAS:
Tipogra a como Tecnologia Assistiva
digital permite criar interfaces mais acessíveis. Para isso, é
possível utilizar recursos multimídia, como microinterações,
animações, sons, vídeos, áudio, locução e outros elementos,
tornando a interação mais fluida e promovendo uma melhor
compreensão. Dessa forma, reduz-se a sobrecarga cognitiva e se
cria um ambiente digital mais confortável, agradável e inclusivo.
Além de seguir diretrizes e recomendações, é essencial
adotar práticas de design centradas no usuário, que considerem
a diversidade nas formas de ler, perceber e interagir. A perso-
nalização das interfaces, a adaptação às diferenças cognitivas
e sensoriais, e o uso consciente da tipografia e das tecnologias
assistivas são estratégias fundamentais para garantir a acessi-
bilidade digital para pessoas com dislexia.
Ao projetar interfaces digitais com essa visão ampliada,
reafirmamos que a leitura deve ser um direito exercido com
autonomia e dignidade. Cabe a nós — designers, pesquisadores
e desenvolvedores — criar caminhos que possibilitem o acesso
à informação de forma independente e significativa para todos
os usuários.
165
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177
Sobre os autores
José Guilherme Santa Rosa
José Guilherme Santa Rosa é Professor Doutor do Departamento
de Design da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
(UFRN). Atua como docente permanente e colaborador em
Programas de Pós-Graduação com atuação nas áreas de
Ergodesign de sistemas, produtos, serviços e processos para
inovação — com ênfase em interação humano-computador,
ergonomia informacional e cognitiva, experiência do usuário,
acessibilidade digital e usabilidade técnica e pedagógica.
Coordena o Laboratório de Ergodesign de Interfaces, Usabilidade
e Experiência do Usuário (UFRN) e é líder do Grupo Ergodesign
e Interação Humano-Computador, certificado pelo CNPq.
Juntamente com o professor doutor Álvaro José Barbosa de
Sousa (Universidade de Aveiro - Portugal), lidera o grupo de
pesquisa Rede Luso-brasileira de Design e Inovação (RLBDI),
é editor-chefe do periódico científico Revista dos Encontros
Internacionais de Estudos Luso-Brasileiros em Design e
Ergonomia e coordena o evento internacional Ergotrip Design:
Design, Ergonomia e Interação.
É membro dos grupos de pesquisa: Design Centrado no Ser
Humano: uma abordagem interprofissional em projetos
(UDESC), Neuroengenharia (UFPA), Design Ergonômico de
Interfaces (UNESP), Design da Informação (UnB), Direito,
Desenvolvimento Sustentável e Inovação (associado ao Programa
178
de Pós-Graduação em Gestão de Processos Institucionais da
UFRN) e Ergonomia em Processos e Produtos (UFMA).
Publicou outros livros, tais como:
»Avaliação e Projeto no Design de Interfaces (Santa
Rosa e Moraes, 2012, 2ª ed.);
»Design Participativo: técnicas de inclusão de usuários
no processo de ergodesign de interfaces (Santa Rosa
e Moraes, 2010);
»Neurodesign: o cérebro e a máquina (Santa Rosa, Pe-
reira Junior e Lameira, 2021, 2ª ed.);
»Avaliação Heurística de Interfaces: aplicações para
melhoria da usabilidade e acessibilidade (Santa Rosa
e Santa Rosa, 2020);
»Teste de Usabilidade: aprimorando a experiência do
usuário e a interação humano-computador (Santa
Rosa, 2021);
»Grupo Focal: conceitos e aplicações para pesquisa e
desenvolvimento em design (Santa Rosa, 2022);
»Experiência do usuário e design de interfaces para
mobilidade urbana. (Santa Rosa, 2023);
»Design and ergonomics at the frontline to help combat
COVID-19: research and applications (Santa Rosa,
Pinho, Vivacqua, 2023);
»Visual Law Técnicas de Design em Documentos Ju-
rídicos (Pereira, Santa Rosa e Guimarães, 2024).
Atualmente, dedica-se a pesquisas sobre a interação de indi-
víduos neurodivergentes com interfaces digitais, explorando
as particularidades do Transtorno do Espectro Autista (TEA),
Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade ( TDAH) e
dislexia no uso de sistemas. O objetivo é compreender melhor as
necessidades específicas desses usuários e desenvolver aborda-
gens mais acessíveis e intuitivas, promovendo uma experiência
digital mais inclusiva e eficaz.
179
Márcia Yamaguchi
Márcia Yamaguchi é formada em Design pela Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE), onde direcionou seus estudos
para a área de ergonomia e interfaces digitais. Foi premiada
no Desafio LED: Luz na Educação 2024, por meio do projeto
de um aplicativo para disseminação de práticas de inclusão
educacional a crianças com deficiência.
Atualmente dedica-se à pesquisa nas áreas de Experiência do
Usuário e Acessibilidade web, é mestranda pelo Programa de
Pós-Graduação em Design da Universidade Federal de Campina
Grande (UFCG), com bolsa da CAPES, no qual desenvolve sua
pesquisa sobre tipografia acessível para pessoas com dislexia
sob a orientação do professor José Guilherme Santa Rosa. É
colaboradora do Laboratório de Ergodesign Experncia do
Usuário e Usabilidade da UFRN e integrante do grupo de pes-
quisa Ergodesign e Interação Humano-Computador da UFRN.
Yanna Medeiros
Cientista Social formada pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte (UFRN), designer e mestranda no Programa
de Pós-Graduação em Inovação em Tecnologias Educacionais
(PPGiTE) do Instituto Metrópole Digital (IMD/UFRN). Dedica-se
à pesquisa nas áreas de Usabilidade, Acessibilidade Digital e
Tecnologias Educacionais. Atuou como bolsista de iniciação
científica (PIBIC/CNPq), integrando grupos de pesquisa e pro-
jetos de extensão voltados a temas como coletividade, cultura,
micropolíticas e subjetividades, experiências que contribuí-
ram para a construção de uma perspectiva senvel, crítica e
interdisciplinar. É colaboradora do Laboratório de Ergodesign,
180
Experiência do Usuário e Usabilidade (UFRN), integrante do
grupo de pesquisa Ergodesign e Interação Humano-Computador
(UFRN) e membro da equipe executora do projeto de extensão
Usabilidade Pedagógica na Tecnologia Educacional (LEXUS -
UFRN), ambos sob coordenação do professor José Guilherme
Santa Rosa. Atualmente, desenvolve sua pesquisa de mestrado
com foco em usabilidade e acessibilidade digital para pessoas
com dislexia, sob orientação do professor José Guilherme Santa
Rosa.
181
Índice remissivo
A
ABNT NBR 17225 28, 36, 156, 169
Accessible Text Framework 156
Acessibilidade digital 9, 15, 16, 17, 19, 20, 27, 30, 34, 35, 36, 37, 40,
44, 45, 46, 65, 146, 160, 161, 164, 167, 169, 177, 179, 180
Altura-x 71, 72, 73, 82, 95, 156
Analfabetos funcionais 29, 71, 72, 73, 82, 95, 148, 156
Anatomia da tipogra a 71, 72, 73, 82, 95, 156
Aplicativos de leitura assistida 71, 72, 73, 82, 95, 154, 156
Ascendentes e Descendentes 72, 73, 75, 82, 85, 87, 88, 90
Autonomia digital 22, 23, 64, 71, 72, 73, 82, 95, 156
B
Baixa visão 15, 26, 29, 71, 72, 73, 82, 95, 156, 160
Barreiras no acesso às plataformas 71, 72, 73, 82, 95, 156
Barreiras no acesso às plataformas digitais 27
BDA (British Dyslexia Association) 38, 46, 49, 156
Bojo 71, 72, 73, 74, 77, 82, 95, 156
Braço 71, 72, 73, 82, 95, 156
C
Caixa alta 73, 91, 156
Caixa baixa 91, 156
Cegueira verbal congênita 52, 91, 156
Compreensão textual 56, 59, 64, 65, 68, 84, 91, 98, 106, 108, 110, 112,
113, 114, 119, 123, 127, 139, 142, 143, 144, 150, 152, 156, 162,
163
Conexão 71, 76, 91, 156
Consistência 45, 85, 91, 156
Contraste 21, 23, 26, 41, 46, 52, 78, 84, 91, 113, 133, 135, 143, 144,
148, 154, 156
Corredores verticais 62, 91, 156
Critério de sucesso 32, 34, 91, 156
182
D
Densidade informacional 21, 24, 91, 156
Design centrado no usuário 22, 24, 91
Di culdades especí cas de aprendizado 91, 145
Di culdades especí cas de aprendizado (DAE) 145
Diretrizes de acessibilidade 18, 33, 34, 37, 43, 83, 145
Dislexia 4, 15, 16, 17, 20, 21, 22, 23, 26, 36, 37, 40, 44, 46, 47, 48, 49,
50, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 64, 65, 69, 84,
85, 87, 89, 90, 92, 93, 94, 96, 97, 98, 100, 101, 102, 103, 104, 105,
107, 108, 110, 112, 113, 114, 116, 117, 118, 119, 120, 121, 124,
126, 127, 130, 132, 134, 135, 136, 137, 138, 139, 141, 142, 143,
144, 145, 146, 148, 149, 150, 152, 153, 154, 155, 156, 157, 158,
160, 161, 163, 164, 165, 168, 170, 172, 173, 178, 179, 180
Distorções visuais 61, 62, 64, 145
Dyslexia Style Guide 37, 38, 39, 145
Dyslexie 89, 91, 95, 96, 100, 101, 102, 103, 104, 105, 106, 119, 120,
121, 145, 161, 162, 166, 167, 170
Dyslexie FZF 91, 145
E
Easy Reading 92, 93, 94, 96, 112, 113, 114, 117, 119, 120, 121, 126,
130, 145, 162, 163
Efeito de halo 62, 91, 145
Efeito de lavagem 63, 91, 145
Efeito de onda 63, 91, 145
Efeito de redemoinho 63, 91, 145
Eixo 71, 72, 76, 91, 145
eMag 145, 167, 182
Ergonomia 2, 4, 10, 14, 23, 24, 25, 70, 165, 166, 171, 173, 177, 178,
179
Ergonomia cognitiva 24
Ergonomia visual 24, 70, 173
Espaçamento 26, 30, 38, 39, 42, 46, 75, 81, 82, 83, 84, 85, 86, 87, 89,
90, 92, 95, 96, 102, 103, 104, 105, 106, 112, 113, 115, 116, 117,
118, 119, 120, 121, 124, 126, 131, 132, 134, 137, 139, 141, 144,
145, 154, 157, 158, 162
Espacejamento 68, 71, 81, 82, 83, 91, 145
Espaço entre linhas 82, 83, 91, 145
Espaço entre palavras 81, 91, 145
Estilo de escrita 39, 91, 145
183
Estrefossimbolia 52
Estresse visual 52, 61, 91, 98
Experiência do usuário 19, 25, 52, 160, 177, 179, 180
Extensões do navegador 52, 91, 146, 152
F
Família tipográ ca 52, 78, 80, 81, 85, 91
Filete 52, 71, 76, 91
Fluência de leitura 52, 54, 59, 65, 84, 89, 91, 101, 110, 111, 112, 113,
114, 115, 116, 118, 127, 128, 134, 135, 143, 144, 162
Fonte 4, 42, 52, 69, 72, 75, 76, 79, 80, 81, 85, 87, 88, 89, 90, 91, 92, 93,
94, 95, 96, 97, 98, 99, 100, 101, 102, 103, 104, 105, 106, 107, 108,
109, 110, 111, 112, 113, 114, 115, 116, 117, 119, 120, 121, 122,
124, 126, 127, 128, 129, 130, 131, 132, 133, 134, 135, 136, 137,
138, 139, 141, 142, 143, 144, 154, 157, 158, 162
Fontes acessíveis 52, 84, 91, 94, 119, 163
Fontes manuscritas 52, 91, 129, 144
Fontes sem serifa 52, 75, 91, 133, 134, 135, 136, 140, 143, 144, 153
G
Glossário 39, 43, 52, 91
Guia de acessibilidade 52, 91, 169
H
Hierarquia visual 21, 52, 91
Hierarquização dos elementos 52, 81, 91
I
Inclusão 19, 27, 29, 32, 35, 37, 44, 52, 64, 65, 91, 109, 145, 160
Interação 15, 16, 18, 20, 21, 22, 23, 28, 37, 44, 46, 52, 53, 54, 64, 65,
91, 124, 132, 146, 147, 148, 154, 159, 160, 163, 164, 177, 178
Interação humano-computador 18, 52, 91, 159, 177
Interfaces digitais 16, 17, 19, 20, 23, 37, 44, 52, 54, 59, 64, 65, 91, 124,
138, 143, 146, 152, 158, 159, 161, 164, 178
Interfaces digitais inclusivas 23, 52, 65, 91
Interfaces do Usuário Intangíveis (TUI) 52, 91, 152
Itálico 38, 52, 79, 91, 135, 144, 183
184
K
Kerning 52, 71, 83, 84, 91
L
Largura do caractere 52, 75, 79, 91, 144
Legibilidade 21, 26, 38, 41, 52, 69, 70, 72, 74, 76, 82, 86, 90, 91, 93,
106, 107, 124, 127, 128, 129, 130, 133, 134, 140, 144, 172
Leitor de tela 52, 91, 147
Leitura 17, 18, 21, 22, 23, 28, 29, 35, 37, 39, 43, 45, 47, 48, 49, 51, 52,
53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60, 61, 64, 65, 67, 68, 70, 72, 75, 79, 81,
82, 83, 84, 85, 87, 89, 90, 91, 92, 97, 98, 99, 100, 101, 102, 103,
104, 105, 106, 107, 108, 109, 110, 111, 112, 113, 114, 115, 116,
117, 118, 119, 120, 121, 123, 124, 127, 128, 129, 130, 131, 132,
133, 134, 135, 137, 138, 139, 140, 141, 142, 143, 144, 146, 147,
148, 149, 150, 151, 152, 154, 155, 156, 157, 158, 159, 161, 162,
163, 164, 172, 173, 175
Leiturabilidade 21, 52, 70, 91
Lexia Readable 52, 91, 93
Linguagem oral 52, 56, 57, 91
Linha das ascendentes 73
Linha das capitulares 73, 77
Linha das descendentes 72, 73
Linha de base 71, 72, 73, 77, 79, 91, 120
Linha mediana 72, 73, 91
Linhas das ascendentes 91
M
Marcação tipográ ca 73, 91, 123
Memória mecânica 58, 73, 91
N
Navegação 21, 23, 45, 73, 91
Negrito 38, 39, 73, 78, 90, 91, 125, 129, 134, 144
Neurodivergentes 19, 36, 37, 44, 45, 46, 73, 91, 123, 127, 163, 178
Neurodiversidade 44, 45, 73, 91
O
Olho 73, 74, 91
OpenDyslexic 90, 91, 95, 96, 107, 108, 109, 110, 111, 115, 119, 120,
162, 170, 174
185
P
Particularidades da tipogra a 65, 73, 91
Perna 73, 76, 91
Personalização 73, 90, 91, 113, 118, 120, 122, 132, 137, 154, 156, 158,
163, 164
Personalização tipográ ca 73, 91, 120, 122, 137
Peso 73, 76, 78, 79, 81, 90, 91, 132
Postura 73, 79, 91
Processamento de informações 51, 54, 73, 91
R
Read Regular 73, 85, 86, 91, 95, 97, 98, 119, 121, 161
Read Smallcaps 73, 85, 86, 91, 95
Read Space 73, 85, 86, 91, 95
Réguas de leitura digital 73, 91, 146, 150
Retenção de atenção 73, 91, 127, 140, 143
Romana 73, 79, 91
S
Seetype 73, 91, 126, 138
Serifa 38, 71, 73, 74, 75, 76, 80, 81, 87, 91, 92, 93, 95, 98, 115, 119, 133,
134, 135, 136, 137, 138, 139, 140, 141, 143, 144, 153
Síndrome de Meares-Irlen 61, 73, 91
Sylexiad 73, 87, 88, 91, 95, 98, 99, 100, 119, 121, 161
T
Tamanho do corpo 71, 73, 75, 91
TDAH 15, 26, 44, 54, 73, 126, 127, 139, 144, 160, 178
Tecnologia Assistiva 41, 73, 91
Tecnologias digitais 73, 91, 168
Tipogra a 5, 71, 73, 91, 108, 117, 168, 171, 172
Tipogra as acessíveis 67, 73, 91
Toolkit de Acessibilidade 34, 73, 91
Traking 71, 83, 73, 91
Transtorno de Dé cit de Atenção e Hiperatividade 15, 73, 91, 178
U
Usabilidade 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 22, 23, 25, 26, 64, 65, 73, 91,
127, 140, 141, 143, 160, 161, 173, 177
186
V
Voz ativa 39, 45, 73, 91
W
W3C 27, 29, 30, 35, 40, 43, 46, 73, 174
WCAG (Web Content Accessibility Guidelines) 28, 29, 73
gráfica e editora
Composto na
GRÁFICA CAULE DE PAPIRO
Rua Serra do Mel, 7989, Cidade Satélite
Pitimbu | Natal/RN | (84) 3218 4626
www.cauledepapiro.com.br
“Esta obra propõe uma síntese atualizada e indispensável sobre a aplicação da
tipograa em ambientes digitais inclusivos, especialmente no contexto da
dislexia, superando a função meramente estrutural do texto para armar o
papel central que este tem na mediação da compreensão e na promoção da
acessibilidade para pessoas com dislexia.
Álvaro Sousa, D.Sc.
Professor Associado com Agregação em Design da Universidade de Aveiro - Portugal
A obra torna-se referência historiográca convidando o leitor à
compreensão de caminhos em tecnologias, interfaces e tipograa. Uma
‘intimação de reexão aos pesquisadores quanto às possibilidades em
Tecnologias Assistivas.
Ana Bia Andrade, D.Sc.
Docente do Departamento de Design da FAAC/UNESP
A obra aprofunda e promove a difusão do conhecimento sobre uma
questão fundamental do design: promoção da inclusão digital, como
armação da cidadania! Desse modo possibilita a ampliação da leitura do
mundo.
Lucy Niemeyer, D.Sc.
Programa de Pós-Graduação em Design da ESDI-UERJ
“Mais do que uma abordagem teórica, esta é uma obra que estimula a prática
e valoriza os princípios do Design Centrado no Usuário. Uma contribuição
relevante para o desenvolvimento de soluções mais empáticas, ecazes e
inclusivas.
Rodolfo Nucci Porsani, D.Sc.
Pesquisador do LED - Laboratório de Ergonomia e Design - Università degli Studi di Firenze - Itália
ISBN 978-65-5477-104-7
9786554 771047 >
editora