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HARRY POTTER
: CAMINHOS INTERPRETATIVOS
enfrentar as diculdades reais, um meio de transformação pessoal, um
modo de lidar com a dor, uma forma de consolação ou até mesmo como
uma rota de fuga. Em vista disso, posto que a literatura torna acessível
aos indivíduos a possibilidade de formulação de suas próprias escolhas,
é possível aos leitores a oportunidade de viver intensamente ou super-
cialmente seus problemas, bem como de ignorá-los.
Contudo, dado que a literatura muitas vezes é classicada como
um phármakon10, esta acaba por ser permeada pela dualidade caracterís-
tica do termo, posto que ela pode, dessa maneira, ser considerada remé-
dio e, também, veneno. Nesse sentido, as estórias passam a apresentar
indícios do caráter nocivo do fármaco, uma vez que como argumenta
Jacques Derrida, em sua obra A farmácia de Platão (2005, p. 45-6):
Não há remédio inofensivo. O phármakon não pode jamais ser
simplesmente benéco. Por duas razões e em duas profun-
didades diferentes. Primeiro, porque a essência ou a virtude
benéca de um phármakon não o impede de ser doloroso. O
Protágoras dispõe os phármaka entre as coisas que podem ser
ao mesmo tempo boas (agathá) e penosas (aniará) (354 a). (…)
Esta dolorosa fruição, ligada tanto à doença quanto ao apa-
ziguamento, é um phármakon em si. Ela participa ao mesmo
tempo do bem e do mal, do agradável e do desagradável. Ou,
antes, é no seu elemento que se desenham essas oposições.
Nesse sentido, as narrativas da série Harry Potter, amplamente di-
fundidas e lidas na atualidade, em meio a universos ricos em questões
que exploram o espaço interior dos leitores e que, desta forma, desen-
volvem sua imaginação, seus sentimentos, conitos e anseios, manifes-
tam-se como uma fonte dual, um remédio e um veneno dependendo do
modo com que os leitores as empregam em suas vidas, pois da mesma
10 Φάρμαγογ, ογ, s. n.: droga, medicamento, medicina; veneno; beberagem mágica; encanta-
mento; enfeite, pintura. Dicionário Grego-Português e Português-Grego. 8. ed. Braga, Portugal:
Apostolado da Imprensa, 1998, p. 607. Em sua origem, o termo phármakon remete a algo “que
tem o poder de transladar as impurezas” (KAWANO, 2006, p. 487), e, ademais, que “poderia
trazer tanto o bem quanto o mal, manter a vida ou causar a morte” (apud KAWANO, 2006, p.
487-488). Já no atual conceito do termo fármaco (phármakon), este se refere a substâncias
químicas de estrutura denida, dotadas de propriedades farmacológicas. Tendo em vistas as
possíveis denições para esse termo, ao entender a palavra phármakon como remédio e, tam-
bém, veneno, nesta pesquisa, embora alguns autores utilizados empreguem o termo de formas
diversas ao seu signicado original, baseei minhas investigações no primeiro sentido diciona-
rizado dessa palavra.