INDÚSTRIA CULTURAL E SOCIEDADE PDF Free Download

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TheodorW.Adorno
INDÚSTRIA
CULTURAL E
SOCIEDADE
Seleçãodetextos:JorgeM.B.deAlmeida
TraduzidoporJubaElisabethLevy
Críticaculturalesociedade
TraduzidoporAugustinWerneteJorgeMattosBritodeAlmeida
Tempolivre
TraduzidoporMariaHelenaRuschel
Edição
PAZ E TERRA
3
ColeçãoLeitura
TheodorWAdorno
Produçãográfica:KatiaHalbeCapa:IsabelCarballo
CIPBrasil.CatalogaçãonaFonte
SindicatoNacionaldosEditoresdeLivros,RJ.
Adorno,TheodorW,19031969
Indústriaculturalesociedade/TheodorW.Adorno;
seleçãodetextosJorgeMattosBritodeAlmeida
traduzidoporJubaElisabethLevy...[eta1.].SãoPaulo
PazeTerra,2002
1.ComunicaçãodemassaAspectossociais.
2.IndústriaculturalAspectossociais.
3.Sociedadedemassa.I.Almeida,JorgeMattosBritode.II.Título.III.Série.
020424.CDD306CDU316.7
EditoraPazeTerraS/A
RuadoTriunfo,177
SantaIfigênia,SãoPaulo,SPCEP01212010
Tel(11)33378399
Emailvendasgpazeterra.com.br
HomePagewww.pazeterra.com.br
2009
ImpressonoBrasil/PrintedinBrazil
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Sumário
OILUMINISMOCOMOMISTIFICAÇÃODASMASSAS.........5
CRÍTICACULTURALESOCIEDADE.....................................45
TEMPOLIVRE....................................................................62
5
OILUMINISMOCOMOMISTIFICAÇÃODASMASSAS
MaxHorkheimereTheodorWAdorno
Atesesociológicadequeaperdadeapoionareligiãoobjetiva,adissolução
dosúltimosresíduosprécapitalistas,adiferenciaçãotécnicaesocialeaextrema
especializaçãoderamlugaraumcaosculturalécotidianamentedesmentida
pelosfatos.Aculturacontemporâneaatudoconfereumardesemelhança.
Filmes,rádioesemanáriosconstituemumsistema.Cadasetorseharmonizaem
sietodosentresi.Asmanifestaçõesestéticas,mesmoadosantagonistas
políticos,celebramdamesmaformaoelogiodoritmodoaço.Assedes
decorativasdasadministraçõesedasexposiçõesindustriaissãopoucodiferentes
nospaísesautoritáriosenosoutros.Ospalácioscolossaisquesurgemportoda
parterepresentamapuraracionalidadesemsentidodosgrandescartéis
internacionaisaquetendiaalivreiniciativadesenfreada,quetem,noentanto,
osseusmonumentosnossombriosedifícioscircundantesdemoradiaoude
negóciosdascidadesdesoladas.Porsuavez,ascasasmaisvelhasemtornoao
centrodecimentoarmadotêmoaspectodeslums(favelas),enquantoosnovos
bangalôsàsmargensdascidadescantam(comoasfrágeisconstruçõesdasfeiras
internacionais)louvoresaoprogressotécnico,convidandoaliquidálas,apósum
rápidouso,comolatasdeconserva.Masosprojetosurbanísticosquedeveriam
perpetuar,empequenashabitaçõeshigiênicas,oindivíduocomoser
independente,submetemnoaindamaisradicalmenteàsuaantítese,opoder
totaldocapital.Domesmomodocomooshabitantesafluemaoscentrosem
buscadetrabalhoedediversão,comoprodutoreseconsumidores,asunidades
deconstruçãosecristalizamsemsoluçãodecontinuidadeemcomplexosbem
organizados.Aunidadevisíveldemacrocosmoedemicrocosmomostraaos
homensomodelodesuacultura:afalsaidentidadedouniversaledoparticular.
Todaaculturademassasemsistemadeeconomiaconcentradaéidêntica,eo
seuesqueleto,aarmaduraconceptualdaquela,começaadelinearse.Os
dirigentesnãoestãomaistãointeressadosemescondêla;asuaautoridadese
reforçaquantomaisbrutalmenteéreconhecida.Ocinemaeorádionãom
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maisnecessidadedeseremempacotadoscomoarte.Averdadedequenadasão
alémdenegócioslhesservedeideologia.Estadeverálegitimarolixoque
produzemdepropósito.Ocinemaeorádioseautodefinemcomoindústrias,e
ascifraspublicadasdosrendimentosdeseusdiretoresgeraistiramqualquer
dúvidasobreanecessidadesocialdeseusprodutos.
Osinteressadosadoramexplicaraindústriaculturalemtermostecnológicos.
Aparticipaçãodemilhõesemtalindústriaimporiamétodosdereproduçãoque,
porseuturno,fazemcomqueinevitavelmente,emnumerososlocais,
necessidadesiguaissejamsatisfeitascomprodutosestandardizados.Ocontraste
técnicoentrepoucoscentrosdeproduçãoeumarecepçãodifusaexigiria,por
forçadascoisas,organizaçãoeplanificaçãodapartedosdetentores.Osclichês
seriamcausadospelasnecessidadesdosconsumidores:porissoseriamaceitos
semoposição.Narealidade,éporcausadessecírculodemanipulaçõese
necessidadesderivadasqueaunidadedosistematornasecadavezmais
impermeável.Oquenãosedizéqueoambienteemqueatécnicaadquiretanto
podersobreasociedadeencarnaoprópriopoderdoseconomicamentemais
fortessobreamesmasociedade.Aracionalidadetécnicahojeéaracionalidade
daprópriadominação,éocaráterrepressivodasociedadequeseautoaliena.
Automóveis,bombasefilmesmantêmotodoatéqueseuelementonivelador
repercutasobreaprópriainjustiçaaqueservia.Porhoraatécnicadaindústria
culturalchegouàestandardizaçãoeàproduçãoemsérie,sacrificandoaquilo
peloqualalógicadaobrasedistinguiadalógicadosistemasocial.Masissonão
deveseratribuídoaumaleidedesenvolvimentodatécnicaenquantotal,masà
suafunçãonaeconomiacontemporânea.Anecessidade,quetalvezpudesse
fugiraocontrolecentral,estáreprimidapelocontroledaconsciência
individual.Apassagemdotelefoneaorádiodividiudemaneirajustaaspartes.
Aquele,liberal,deixavaaindaaousuárioacondiçãodesujeito.Este,
democrático,tornatodososouvintesiguaisaosujeitálos,autoritariamente,aos
idênticosprogramasdasváriasestações.Nãosedesenvolveuqualquersistema
deréplicaeastransmissõesprivadassãomantidasnaclandestinidade.Estasse
limitamaomundoexcêntricodosamadores,que,aindaporcima,são
organizadosdoalto.Qualquertraçodeespontaneidadedopúbliconoâmbitoda
rádiooficialéguiadoeabsorvido,emumaseleçãodetipoespecial,por
caçadoresdetalento,competiçõesdiantedomicrofone,manifestações
domesticadasdetodoogênero.Ostalentospertencemàindústriamuitoantes
queestaosapresente;ounãoseadaptariamtãoprontamente.Aconstituiçãodo
público,queteoricamenteedefatofavoreceosistemadaindústriacultural,faz
partedosistemaenãoodesculpa.Quandoumramoartísticoprocedesegundo
areceitadeoutro,sendoelesmuitodiferentespeloconteúdoepelosmeiosde
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expressão,quandooelodramáticodasoapoperanorádiosetransformanuma
ilustraçãopedagógicadomundopormeiodoqualseresolvemdificuldades
técnicas,dominadascomojamnospontosculminantesdavidadojazz,ou
quandoa"adaptação"experimentaldeumafrasedeBeethovensefazsegundo
omesmoesquemadadeumromancedeTolstoiemumfilme,orecursoaos
desejosespontâneosdopúblicotornaseumpretextoinconsistente.Mais
próximadarealidadeéaexplicaçãobaseadanoprópriopeso,naforçadainércia
doaparatotécnicoepessoal,quedeveserconsiderado,emcadadetalhe,como
parteintegrantedomecanismoeconômicodeseleção.Juntaseaissooacordo,
ou,aomenos,adeterminaçãocomumaoschefesexecutivosdeoproduzirou
admitirnadaquenãoseassemelheàssuastábuasdalei,aoseuconceitode
consumidor,e,sobretudo,nadaqueseafastedeseuautoretrato.
Seatendênciasocialobjetivadaépocaseencarnanasintençõessubjetivas
dosdiretoresgerais,sãoestesosqueintegramoriginalmenteossetoresmais
poderososdaindústria:aço,petróleo,eletricidade,química.Osmonopólios
culturaissão,emcomparaçãocomestes,débeisedependentes.Elesdevemse
apressaremsatisfazerosverdadeirospotentados,paraqueasuaesferana
sociedadedemassascujogêneroparticulardemercadoriaaindatemmuitoa
vercomoliberalismoacolhedorecomosintelectuaisjudeusnãoseja
submetidaaumasériede"limpezas".Adependênciadamaispoderosa
sociedaderadiofônicaemrelaçãoàindústriaelétrica,ouadocinemaaos
bancos,defineaesferatoda,cujossetoressingularessãoainda,porsuavez,co
interessadoseeconomicamenteinterdependentes.Tudoestátãoestreitamente
ligadoqueaconcentraçãodoespíritoalcançaumvolumetalquelhepermite
ultrapassarasfronteirasdasváriasfirmascomerciaisesetorestécnicos.A
unidadesempreconceitosdaindústriaculturalatestaaunidadeemformaçãoda
política.Distinçõesenfáticas,comoentrefilmesdeclasseAeB,ouentre
históriasemrevistasdediferentespreços,nãosãotãofundadasnarealidade,
quanto,antes,servemparaclassificareorganizarosconsumidoresafimde
padronizálos.Paratodosalgumacoisaéprevista,afimdequenenhumpossa
escapar;asdiferençasvêmcunhadasedifundidasartificialmente.Ofatode
ofereceraopúblicoumahierarquiadequalidadesemsérieservesomenteà
quantificaçãomaiscompleta,cadaumdevesecomportar,porassimdizer,
espontaneamente,segundooseunível,determinadoaprioriporíndices
estatísticos,edirigirseàcategoriadeprodutosdemassaquefoipreparadapara
oseutipo.Reduzidoamaterialestatístico,osconsumidoressãodivididos,no
mapageográficodosescritóriostécnicos(quepraticamentenãosediferenciam
maisdosdepropaganda),emgruposderenda,emcamposvermelhos,verdese
azuis.
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Oesquematismodoprocedimentomostrasenofatodequeosprodutos
mecanicamentediferenciadosrevelamse,nofinaldascontas,comosempreos
mesmos.AdiferençaentreasérieChryslereasérieGeneralMotorsé
substancialmenteilusória,comosabematémesmoascrianças"vidradas"por
elas.Asqualidadeseasdesvantagensdiscutidaspelosconhecedoresservem
apenasparamanifestarumaaparênciadeconcorrênciaepossibilidadede
escolha.AscoisasnãocaminhamdemododiversocomasproduçõesdaWarner
BrothersedaMGM.Porém,asdiferençassereduzemcadavezmais,mesmo
entreostiposmaiscaroseosmaisbaratosdacoleçãodemodelosdeuma
mesmafirma:nosautomóveis,avariaçãononúmerodecilindros,notamanho,
nanovidadedosgadgets;nosfilmes,adiferençanonúmerodeastros,nafartura
dosmeiostécnicos,mãodeobra,figurinosedecorações,noempregodasmais
recentesfórmulaspsicológicas.Amedidaunitáriadovalorconsistenadosede
conspicuousproduction,deinvestimentoostensivo.Adiferençadovalororçado
naindústriaculturalnãotemnadaavercomadiferençaobjetivadevalor,como
significadodosprodutos.Mesmoosmeiostécnicostendemaumacrescente
uniformidaderecíproca.Atelevisãotendeaumasíntesedorádioedocinema,
retardadaenquantoosinteressadosaindanãotenhamnegociadoumacordo
satisfatório,mascujaspossibilidadesilimitadasprometemintensificaratal
pontooempobrecimentodosmateriaisestéticosqueaidentidadeapenas
ligeiramentemascaradadetodososprodutosdaindústriaculturalamanhã
poderátriunfarabertamente.Seriaironicamentearealizaçãodosonho
wagnerianoda"obradeartetotal".Oacordoentrepalavra,músicaeimagem
realizasemaisperfeitamentequenoTristão,porqueoselementossensíveis
queprotocolamsempretensãoasuperfíciedarealidadesocial,são,namaioria
doscasos,produzidospelomesmoprocessotécnicodetrabalho,exprimindo
tantoasuaunidadequantooseuverdadeiroconteúdo.Esseprocessode
trabalhointegratodososelementosdaprodução,desdeatramadoromance
quetememmiraofilmeatéomínimoefeitosonoro.Éotriunfodocapital
investido.Imprimircomletrasdefogoasuaonipotênciaadoseupróprio
patrãonoâmagodetodososmiseráveisembuscadeemprego,éo
significadodetodososfilmes,independentementedoenredoescolhidoemcada
casopeladireçãodeprodução.
Otrabalhador,duranteseutempolivre,deveseorientarpelaunidadeda
produção.Atarefaqueoesquematismokantianoaindaatribuíaaossujeitos,a
de,antecipadamente,referiramultiplicidadesensívelaosconceitos
fundamentais,étomadodosujeitopelaindústria.Estarealizaoesquematismo
comoumprimeiroserviçoaocliente.Naalmaagia,segundoKant,um
mecanismosecretoquepreparavaosdadosimediatosdemodoquese
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adaptassemaosistemadapurarazão.Hoje,oenigmaestárevelado.Mesmosea
planificaçãodomecanismoporpartedaquelesquemanipulamosdadosda
indústriaculturalsejaimpostaemvirtudedaprópriaforçadeumasociedade
que,nãoobstantetodaracionalização,semantémirracional,essatendência
fatal,passandopelasagênciasdaindústria,transformasenaintencionalidade
astutadaprópriaindústria.Paraoconsumidor,omaisnadaaclassificar
queoesquematismodaproduçãonãotenhaantecipadamenteclassificado.A
artesemsonhoproduzidaparaopovorealizaaqueleidealismosonhadorque
pareciaexageradoaoidealismocrítico.Tudoadvémdaconsciência:em
MalebrancheeemBerkeleyeraaconsciênciadeDeus;naartedemassas,ada
terrenadiretoriadeprodução.Nãoostiposdemúsicadedança,deastrose
soapoperas,retornamciclicamentecomoentidadesinvariáveis,quantoo
conteúdoparticulardoespetáculo,aquiloqueaparentementemuda,é,porseu
turno,derivadodaqueles.Ospormenorestornaramsefungíveis.Abreve
sucessãodeintervalosquesemostroueficazemumsucessomusical,ovexame
temporáriodoherói,poreleesportivamenteaceito,ossaudáveistapasquea
belarecebedamãopesadadoastro,suarudezacomaherdeiraviciadasão,
comotodosospormenoreseclichês,salpicadosaquieali,sendocadavez
subordinadosàfinalidadequeoesquemalhesatribui.Estãoaliparaconfirmaro
esquema,aomesmotempoemqueocompõem.Desdeocomeçoépossível
percebercomoterminaráumfilme,quemserárecompensado,punidoou
esquecido;paranãofalardamúsicaleveemqueoouvidoacostumado
consegue,desdeosprimeirosacordes,adivinharacontinuação,esentirsefeliz
quandoelaocorre.Onúmeromédiodepalavrasdashortstoryéaqueleenãose
podemudar.Mesmoasgags,osefeitoseoscompassossãocalculados,assim
comooquadroondesãomontados.Ministradosporespecialistas,suaescassa
variedadeédistribuídapelosescritórios.Aindústriaculturalsedesenvolveucom
aprimaziadosefeitos,daperformancetangível,doparticulartécnicosobrea
obra,queoutroratraziaaidéiaecomessafoiliquidada.Oparticular,ao
emanciparse,tornaraserebelde,eseerigira,desdeoRomantismoatéo
Expressionismo,comoexpressãoautônoma,comorevoltacontraaorganização.
Osimplesefeitoharmônicotinhacanceladonamúsicaaconsciênciada
totalidadeformal;napintura,acorparticulartornousemaisimportantequea
composiçãodoquadro;ovigorpsicológicoobliterouaarquiteturadoromance.A
tudoissoaindústriaculturalpôsfim.reconhecendoosefeitos,eladespedaça
asuainsubordinaçãoeossujeitaàfórmulaquetomouolugardaobra.Moldada
mesmamaneiraotodoeaspartes.Otodoseopõeimpiedosamenteaos
pormenores,àsemelhançadacarreiradeumhomemdesucesso,paraoqual
tudodeveservirdeilustraçãoeexperiência,enquantoaprópriacarreiranão
passadasomadaquelesacontecimentosidiotas.Assimachamadaidéiageralé
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ummapacadastral;criaumaordem,masnenhumaconexão.Privadosde
oposiçõeseconexões,otodoeospormenoresmosmesmostraços.Asua
harmonia,deiníciogarantida,éaparódiadaharmoniaconquistadapelaobra
primaburguesa.NaAlemanha,apazsepulcraldaditaduraestavapresente
nosfilmesmaisirrefletidosdoperíododemocrático.
Omundointeiroéforçadoapassarpelocrivodaindústriacultural.Avelha
experiênciadoespectadorcinematográfico,paraquemaruadeforaparecea
continuaçãodoespetáculoqueacaboudeverpoisestequerprecisamente
reproduzirdemodoexatoomundopercebidocotidianamentetornouseo
critériodaprodução.Quantomaisdensaeintegraladuplicaçãodosobjetos
empíricosporpartedesuastécnicas,tantomaisfácilfazercrerqueomundode
foraéosimplesprolongamentodaquelequeseacabadevernocinema.Desdea
bruscaintroduçãodatrilhasonoraoprocessodereproduçãomecânicapassou
inteiramenteaoserviçodessedesígnio.Avidanãodevemais,tendencialmente,
podersedistinguirdofilmesonoro.Superandodelongeoteatroilusionista,o
filmenãodeixaàfantasiaeaopensamentodosespectadoresqualquer
dimensãonaqualpossamsemprenoâmbitodaobracinematográfica,mas
desvinculadosdeseusdadospurossemovereseampliarporcontaprópria
semquepercamofio.Aomesmotempo,ofilmeexercitaasprópriasvítimasem
identificálocomarealidade.Aatrofiadaimaginaçãoedaespontaneidadedo
consumidorculturaldehojenãotemnecessidadedeserexplicadaemtermos
psicológicos.Osprópriosprodutos,desdeomaistípico,ofilmesonoro,
paralisamaquelascapacidadespelasuaprópriaconstituiçãoobjetiva.Elessão
feitosdemodoqueasuaapreensãoadequadaexige,porumlado,rapidezde
percepção,capacidadedeobservaçãoecompetênciaespecífica,eporoutroé
feitademodoavetar,defato,aatividadementaldoespectador,seelenão
quiserperderosfatosquerapidamentesedesenrolamàsuafrente.Éuma
tensãotãoautomáticaquenãosequernecessidadedeseratualizadoacada
casoparaquereprimaaimaginação.Aquelequesemostradetalformaab
sorvidopelouniversodofilmepelosgestos,imagens,palavrasapontode
nãosercapazdelheacrescentaraquiloquelhetornariaumuniverso,não
estará,necessariamenteporisso,noatodaexibição,ocupadocomosefeitos
particularesdafita.Osoutrosfilmeseprodutosculturais,quenecessariamente
deveconhecer,tornamlhetãofamiliaresasprovasdeatençãorequeridasque
estasseautomatizam.Aviolênciadasociedadeindustrialoperanoshomensde
umavezportodas.Osprodutosdaindústriaculturalpodemestarcertosdese
remjovialmenteconsumidos,mesmoemestadodedistração.Mascadaum
desteséummodelodogigantescomecanismoeconômicoquedesdeoinício
mantémtudosobpressão,tantonotrabalhoquantonolazer,quetantose
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assemelhaaotrabalho.Decadafilmesonoro,decadatransmissãoradiofônica,
podesededuziraquiloquenãosepoderiaatribuircomoefeitodecadaumem
particular,masdetodosemconjuntonasociedade.Infalivelmente,cada
manifestaçãoparticulardaindústriaculturalreproduzoshomenscomoaquilo
quefoiproduzidoportodaaindústriacultural.Todososseusagentes,desdeo
produtoratéasassociaçõesfemininas,estãoatentosparaimpedirqueasimples
reproduçãodoespíritonãoconduzaàsuaampliação.
Oslamentosdoshistoriadoresdearteedosdefensoresdaculturasobrea
extinçãodaforçageradoradeestilonoOcidentesãoacanhadamente
infundados.Atraduçãoqueatudoestereotipainclusiveoqueaindanãofoi
pensadonoesquemadareprodutibilidademecânica,superaemrigore
validadequalquerestiloverdadeiro,conceitocomoqualosamigosdacultura
idealizamcomoorgânicoopassadoprécapitalista.NenhumPalestrina
saberiatiraradissonânciaimprovisadaeirresolutacomopurismocomqueum
arranjadordejazzeliminaqualquercadênciaquenãoseenquadre
perfeitamenteemseujargão.QuandoadaptaMozartnãoselimitaamodificálo
ondeémuitosériooumuitodifícil,mastambémondeharmonizavaamelodia
demododiversoetalvezmaissimplesdoqueseusahoje.Nenhum
construtordeigrejasdaIdadeMédiateriaanalisadoostemasdosvitraisedas
esculturascomamesmadesconfiançacomqueahierarquiadosestúdios
cinematográficosexaminaumtemadeBalzacoudeVictorHugoantesdeobter
oimprimaturquelhepermiteadivulgação.Nenhumconcílioteriaindicadoàs
carrancasdiabólicaseàspenasdoscondenadososeudevidolugarnaordemdo
sumoamorcomomesmoescrúpulocomqueadireçãodaproduçãoofixapara
atorturadoheróiouparaaminisaiadaatrizprincipal,nolengalengadofilme
desucesso.Ocatálogoexplícitoeimplícito,esotéricoeexotérico,doproibidoe
dotoleradonãoselimitaacircunscreverumsetorlivre,masodominaecontrola
decimaabaixo.Atéosmínimosdetalhessãomodeladossegundoasuareceita.
Aindústriacultural,mediantesuasproibições,fixapositivamentecomoasua
antítese,aartedevanguardaumalinguagemsua,comumasintaxeeum
léxicopróprios.Anecessidadepermanentedeefeitosnovos,quepermanecem
todavialigadosaovelhoesquema,fazacrescentar,comoregrasupletiva,a
autoridadedoquefoitransmitido,aoqualcadaefeitoparticulardesejaria
esquivarse.Tudooquesurgeésubmetidoaumestigmatãoprofundoque,por
fim,nadaaparecequenãotragaantecipadamenteasmarcasdojargãosabido,
enãosedemonstre,àprimeiravista,aprovadoereconhecido.Masos
matadoresprodutoresoureprodutoressãoosqueusamessejargãocom
tantafacilidade,liberdadeealegria,comosefossealínguaque,tempo,foi
reduzidaaosilêncio.Éesteoidealdanaturalidadeemcadaramo,queseafirma
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tantomaisimperiosamentequantomaisatécnicaaperfeiçoadareduzatensão
entreaimagemeavidacotidiana.Percebeseoparadoxodaroutine,disfarçada
emnatureza,emtodasasmanifestaçõesdaindústriacultural,eemmuitaselase
deixaapalpar.Umjazzistaquedeveexecutarumtrechodemúsicaséria,omais
simplesminuetodeBeethoven,começainvoluntariamenteasincopálo,e
comumsorrisodesuperioridadeconsenteentrarnocompassocerto.Essa
natura,complicadapelaspressõessemprepresenteseexageradasdomedium
específico,constituionovoestilo,istoé,"umsistemadeinculturaaoqualse
poderiaconcedercertaunidadeestilística,enquantoaindatemsentidofalarem
barbárieestilizada".1
Aobrigatoriedadegeraldessaestilizaçãosuperaaforçadasproibiçõese
dasprescriçõesoficiosas;hojecommaisfacilidadeseperdoaaummotivonãose
ateraostrintaedoiscompassosouaoâmbitodanona,doqueconteruma
particularidademelódicaouharmônicaestranhaaoidioma,mesmoquesejao
maissecretoidioma.Todasasviolaçõesdoexercíciodaprofissãocometidaspor
OrsonWelleslhesãoperdoadasporqueincorreçõescalculadasfazem
confirmarereforçaravalidezdosistema.Aobrigaçãodoidiomatecnicamente
condicionadoqueatoresediretoresdevemproduzircomonatureza,paraquea
naçãodeleseaproprie,refereseamatrizestãosutisapontodequasealcançar
orefinamentodosmeiosdeumaobradevanguarda.Araracapacidadede
sujeitarseminuciosamenteàsexigênciasdoidiomadasimplicidadeemtodosos
setoresdaindústriaculturaltornaseocritériodahabilidadeedacompetência.
Tudooqueestesdizemeomodocomoodizemdevepodersercontroladopela
linguagemcotidiana,comonopositivismológico.Osprodutoressãoosexperts.
Oidiomaexigeumaforçaprodutivaexcepcional,queéinteiramenteconsumida
edesperdiçada.Satânico,estesuperouadiferençacaraàteoriaconservadora
daculturaentreestilogenuínoeartificial.Porartificialpoderiaserdefinido
umestiloqueseimpõedoexteriorsobreosimpulsosrelutantesdafigura.Mas,
naindústriacultural,amatéria,atéosseusúltimoselementos,temorigemno
mesmoaparatoqueproduzojargãonoqualéintroduzido.Asbrigasentreos
"especialistasartísticos",osponsoreocensorapropósitodeumamentira
demasiadoincrível,nãorevelammenosumatensãoentrevaloresestéticosdo
queumadivergênciadeinteresses.Orenomedoespecialista,noqualumúltimo
restodeautonomiaobjetivaàsvezesencontrarefúgio,entraemconflitocoma
políticacomercialdaIgrejaoudotrustequeproduzamercadoriacultural.Mas
emsuaessênciaacoisaestáreificadacomoviávelantesmesmoquese
aqueleconflitodehierarquias.AntesmesmoqueZanuckaadquirisse,Santa

1F.Nietzsche,UnzeitgemässeBetraclytung(Consideraçõesinatuais),in:Werke,Grossok
tavausgabe,Leipzig,1917,1,p.187.
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Bernadetebrilhavanocampovisualdoseupoetacomoumapropagandapara
todososconsórciosinteressados.Eisoquerestadaemoçãoinerenteàobra.E
eisporqueoestilodaindústriacultural,quenãotemmaisdeseafirmarsobrea
resistênciadomaterial,é,aomesmotempo,anegaçãodoestilo.Aconciliação
douniversaledoparticular,regraeinstânciaespecíficadoobjeto,porcujaúnica
atuaçãooestiloadquirepesoesubstância,ésemvalorporquenãosecumpre
qualquertensãoentreosdoispólosextremosquesetocam:elessão
traspassadosporumaturvaidentidade,ouniversalpodesubstituiroparticulare
viceversa.
Estacaricaturadoestilo,contudo,dizalgumacoisasobreoestiloautêntico
dopassado.Oconceitodeestiloautênticosedesmascara,naindústriacultural,
comooequivalenteestéticodadominação.Aidéiadoestilocomocoerência
puramenteestéticaéumafantasiaretrospectivadosromânticos.Naunidadedo
estilo,nãodomedievocristãocomotambémdoRenascimento,manifestase
aestruturacadavezdiferentedopodersocialemqueouniversalrestava
enclausurado,enãoaobscuraexperiênciadosdominados.Osgrandesartistas
nuncaforamosqueencarnaramoestilonomodomaispuroeperfeito,massim
aquelesqueacolheramnaprópriaobraoestilocomorigor,acaminhoda
expressãocaóticadosofrimento,oestilocomoverdadenegativa.Noestilodas
obrasaexpressãoadquiriaaforçasemaqualaexistênciarestainaudível.
Mesmoasobrasquepassamporclássicas,comoamúsicadeMozart,contêm
tendênciasobjetivasqueestãoemcontrastecomoseuestilo.
Osgrandesartistas,atéSchönbergePicasso,conservavamadesconfiança
paracomoestiloeemtudooqueédecisivodetiveramsemenosnoestilo
doquenalógicadoobjeto.Aquiloqueosexpressionistasedadaístasafirmavam
polemicamente,afalsidadedoestilocomotal,hojetriunfanojargãocantadodo
crooner,naesmeradagraciosidadedaestreladocinema,porfimnamagistral
tomadafotográficadobarracãomiseráveldotrabalhadorrural.Emtodaobrade
arte,seuestiloéumapromessa.Enquantooconteúdo,pormeiodoestilo,entra
nasformasdominantesdauniversalidade,nalinguagemmusical,pictórica,
verbal,devereconciliarsecomaidéiadauniversalidadeautêntica.Essa
promessadaobradeartedefundaraverdadepelainserçãodafiguranas
formassocialmentetransmitidaséaomesmotemponecessáriaehipócrita.Ela
colocacomoabsolutasasformasreaisdoexistente,pretendendoanteciparseu
cumprimentopormeiodosderivadosestéticos.Nessesentido,apretensãoda
arteé,defato,sempreideologia.Poroutrolado,énoconfrontocoma
tradiçãodepositadanoestiloqueaartepodeencontrarumaexpressãoparao
sofrimento.Omomentopeloqualaobradeartetranscendearealidadeé,com
efeito,inseparáveldoestilo,masnãoconsistenaharmoniarealizada,na
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problemáticaunidadedeformaeconteúdo,internoeexterno,indivíduoe
sociedade,massimnostraçosemqueafloraadiscrepâncianafalência
necessáriadaapaixonadatensãoparacomaidentidade.Emvezdeseexpora
essafalência,naqualoestilodagrandeobradeartesempresenegou,aobra
medíocresempresemanteveàsemelhançadeoutraspeloálibidaidentidade.A
indústriaculturalfinalmenteabsolutizaaimitação.Reduzidaapuroestilo,traio
seusegredo:aobediênciaàhierarquiasocial.Abarbárieestéticarealizahojea
ameaçaquepesasobreascriaçõesespirituaisdesdeodiaemqueforam
colecionadaseneutralizadascomocultura.Falardeculturafoisemprecontraa
cultura.Odenominador"cultura"contém,virtualmente,atomadadeposse,o
enquadramento,aclassificaçãoqueaculturaassumenoreinodaadministração.
a"administração"industrializada,radicaleconseqüente,éplenamente
adequadaaesseconceitodecultura.Subordinandodomesmomodotodosos
ramosdaproduçãoespiritualcomoúnicofitodeocupardesdeasaídada
fábricaànoiteatésuachegada,namanhãseguinte,diantedorelógiodeponto
ossentidosdoshomenscomossinetesdosprocessosdetrabalho,queeles
própriosdevemalimentarduranteodia,aindústriacultural,sarcasticamente,
realizaoconceitodeculturaorgânica,queosfilósofosdapersonalidade
opunhamàmassificação.
Assimaindústriacultural,oestilomaisinflexíveldetodos,revelase
justamentecomoameradaqueleliberalismoaoqualsecensuravaafaltade
estilo.Nãoassuascategoriaseosseusconteúdosirrompemdaesferaliberal,
tantodonaturalismodomesticadocomodaoperetaedoteatroderevista;os
modernostrustesculturaissãoolugareconômicoondecontinua,
provisoriamente,asobreviver,comostiposcorrespondentesdeempresários,
umapartedaesferatradicionaldacirculação,emviasdeaniquilamentono
restantedasociedade.Aqui,alguémaindapodefazerfortuna,desdequenão
olhemuitoretodiantedesi,masconsintaempactuar.Aquelequeresiste
podesobreviverintegrandose.Umavezregistradoemsuadiferençapela
indústriacultural,fazpartedesta,assimcomoareformaagráriano
capitalismo.Arevoltaquerendehomenagemàrealidadesetornaamarcade
fábricadequemtemumanovaidéiaparalevaràindústria.Aesferapúblicada
sociedadeatualnãodeixapassarqualqueracusaçãoperceptívelemcujotomos
auditivamentesensíveisnãoadvirtamaautoridadesobcujosignoorévolté
comelessereconcilia.Maisincomensuráveltornaseoabismoentreocoroeo
primeiroplano,e,comtantamaiorcerteza,aquiépostoaquelequesaiba
atestaraprópriasuperioridadecomumaoriginalidadebemorganizada.Assim,
mesmonaindústriacultural,sobreviveatendênciadoliberalismoemdeixar
abertoocaminhoparaoscapazes.Abrircaminhoparaessesvirtuososéainda
15
hojeafunçãodomercado,oqual,noutrasesferas,semostraamplamente
regulado:tratasedeumaliberdadeque,emseusbonstempos,tantonaarte
quantoparaostolosemgeral,eraapenasademorrerdefome.Nãoéporacaso
queosistemadaindústriaculturalsurgiunospaísesindustriaismaisliberais,nos
quaistriunfaramtodososseusmeioscaracterísticos:ocinema,orádio,ojazze
asrevistas.Éverdadequeoseudesenvolvimentoprogressivofluía
necessariamentedasleisgeraisdocapital.GaumontePathé,Ullsteine
Hugenbergtinhamseguidocomêxitoatendênciainternacional;orestantefoi
feitopeladependênciaeconômicaeuropéiaemrelaçãoaosEUA,depoisda
PrimeiraGuerraMundial,epelainflação.Acreditarqueabarbáriedaindústria
culturalsejaumaconseqüênciadeum"culturallag",doatrasodaconsciência
americanaquantoaoestadoalcançadopelatécnica,épurailusão.AEuropapré
fascistaeraarrasadacomrespeitoàtendênciaaomonopóliocultural.Emvirtude
mesmo,porém,dessearraso,oespíritoaindaeradevedordeumrestode
autonomia,assimcomoosúltimosexpoentesdasuaexistência,conquanto
oprimidaedifícil.NaAlemanha,ainsuficiênciadocontroledemocráticosobrea
vidacivilhaviatidoefeitosparadoxais.Muitopermaneciasubtraídoao
mecanismodomercado,desencadeadonospaísesocidentais.Osistema
educativoalemão,inclusiveauniversidade,osteatroscomfunçãodeguiano
planoartístico,asgrandesorquestraseosmuseusestavamsobproteção.Os
poderespolíticos,Estadosecomunas,quetinhamrecebidoessasinstituições
comoherançadoabsolutismo,haviamlhesdeixadopartedaquela
independênciadasrelaçõesdeforçaexplícitasnomercado,aquallhesfora
concedida,apesardetudo,atéfinsdoséculoXIX,pelospríncipesesenhores
feudais.Issoreforçouaposiçãodaartetardoburguesacontraovereditoda
demandaedaofertaefavoreceuasuaresistênciamuitoalémdaproteção
efetivamenteconcedida.Mesmonomercado,ahomenagemàqualidade,ainda
nãotraduzívelemvalorcorrente,setransformaraempoderdecompra.Porela,
dignoseditoresliteráriosemusicaispodiamseocupardeautoresquenão
rendiammuitomaisqueaestimadosespecialistas.aobrigaçãodeinserirse
continuamente,sobasmaisgravesameaças,comoexpertestéticonavida
industrial,sujeitoudefinitivamenteoartista.algumtempoelesassinavam
suascartas,comoKanteHume,comaexpressão"seumaishumildeservo",no
entanto,minavamasbasesdotronoedoaltar.Hojechamampelonomeos
chefesdegoverno,esãosubmetidos,emtodoimpulsoartístico,aojuízodos
seusgovernantesiletrados.AanálisefeitaporTocquevillecemanosfoi
plenamenteconfirmada.Sobomonopólioprivadodaculturasucededefatoque
"atiraniadeixalivreocorpoeinvestediretamentesobreaalma".Aí,opatrão
nãodizmais:oupensascomoeuoumorres.Masdiz:éslivreparanãopensares
comoeu,atuavida,osteusbens,tudoteserádeixado,mas,apartirdeste
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instante,ésumintrusoentrenós.2Quemnãoseadaptaémassacradopela
impotênciaeconômicaqueseprolonganaimpotênciaespiritualdoisolado.
Excluídodaindústria,éfácilconvencelodesuainsuficiência.Enquantoagora,na
produçãomaterial,omecanismodademandaedaofertaestáemviasde
dissolução,nasuperestruturaeleoperacomocontroleemproveitodospatrões.
Osconsumidoressãoosoperárioseosempregados,fazendeirosepequenos
burgueses.Atotalidadedasinstituiçõesexistentesosaprisionadecorpoealma
apontodesemresistênciasucumbiremdiantedetudooquelheséoferecido.E
assimcomoamoraldossenhoreseralevadamaisasériopelosdominadosdo
quepelosprópriossenhores,assimtambémasmassasenganadasdehojesão
maissubmissasaomitodosucessodoqueosprópriosafortunados.Estestêmo
quequeremeexigemobstinadamenteaideologiacomqueselhesserve.O
funestoapegodopovoaomalquelheéfeitochegamesmoaantecipara
sabedoriadasinstânciassuperioresesuperaorigorismodosHaysOffice.3Assim
comoemgrandesépocasanimoueestimuloumaiorespoderesdirigidoscontra
eles:oterrordostribunais.ElessustêmMickeyRooneycontraatrágicaGarboe
PatoDonaldcontraBettyBoop.Aindústriaadaptaseaosdesejosporela
evocados.Aquiloquerepresentaumpassivoparaafirmaprivada,queàsvezes
nãopodedesfrutarporcompletoocontratocomaatrizemdeclínio,éumcusto
razoávelparaosistemaemseutodo.Ratificandoastutamenteopedidode
refugos,eleestabeleceaharmoniatotal.Sensocríticoecompetênciasão
banidoscomopresunçõesdequemsecrêsuperioraosoutros,enquantoa
cultura,democrática,reparteseusprivilégiosentretodos.Diantedatrégua
ideológica,oconformismodosconsumidores,assimcomoaimprudênciada
produçãoqueestesmantêmemvida,adquireumaboaconsciência.Elese
satisfazcomareproduçãodosempreigual.
Amesmicetambémregulaarelaçãocomopassado.Anovidadedoestágio
daculturademassaemfacedoliberalismotardioestánaexclusãodonovo.A
máquinagiraemtornodoseupróprioeixo.Chegandoaopontodedeterminaro
consumo,afastacomoriscoinútilaquiloqueaindanãofoiexperimentado.Os
cineastasconsideramcomsuspeitatodomanuscritoatrásdoqualnão
encontremumtranqüilizantebestseller.Mesmoporissosempresefalade
idéia,novidadeesurpresa,dealgumacoisaqueaomesmotemposeja
plenamentefamiliarsemnuncaterexistido.Paraissoservemoritmoeo
dinamismo.Nadadevepermanecercomoera,tudodevecontinuamentefluir,
estaremmovimento.Poisotriunfouniversaldoritmodeproduçãoede

2A.DeToequeville,DektDémocratieenAmérique,Paris,1864,fl,151.
3NT:órgãoencarregadodacensuracinematográfica.Suaforçafoisensivelmenteabrandada
nofinsdapresidênciadeJohnson(1969).
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reproduçãomecânicagarantequenadamude,quenadasurjaquenãopossaser
enquadrado.Acréscimosaoinventárioculturalcomprovadosãoperigosose
arriscados.Ostiposformaiscristalizados,comoossketch,oscontos,osfilmesde
teseeosgrandessucessosdaparadamusicalsãoamédiaquesetornou
normativadogostotardoliberal,ameaçadoramenteimposta.Oschefesdas
empresasculturaisqueestabelecemacordossemelhantesaosqueum
managerfazcomoseuconhecidodenegóciooudecollegealgum
temposanarameracionalizaramoespíritoobjetivo.Écomoseumpoder
onipresentehouvesseexaminadoomaterialeestabelecidoocatálogooficialdos
bensculturaisqueornabrevementeassériesdisponíveis.Asidéiasestão
inscritasnocéudacultura,ondehaviamsidonumeradas,oumelhor,fixadas
emumnúmeroimutáveletrancafiadasporPlatão.
Oamusement,ouseja,adiversão,implícitaemtodososelementosda
indústriacultural,existiamuitoantesdela.Agoraéretomadapeloaltoe
colocadaaoníveldostempos.Aindústriaculturalpodesevangloriardehaver
atuadocomenergiaedetererigidoemprincípioatransposiçãotantasvezes
grosseiradaarteparaaesferadoconsumo,dehaverliberadoadiversãoda
suaingenuidademaisdesagradáveledehavermelhoradoaconfecçãodas
mercadorias.Quantomaistotalelasetornou,quantomaisimpiedosamente
obrigacadamarginalàfalênciaouaentrarnacorporação,tantomaissefez
astuciosaerespeitável.Eissuaglória:haverterminadoporsintetizarBeethoven
comoCassinodeParis.Seutriunfoéduplo:aquiloqueexpeleparaforadesi
comoverdadepodereproduzirabelprazeremsicomomentira.Aarte"leve"
comotal,adistração,nãoéumaformamórbidaedegenerada.Quemaacusade
traiçãoquantoaoidealdepuraexpressão,seiludequantoàsociedade.Apureza
daarteburguesa,hipostasiadaàcondiçãodereinodaliberdadeemoposiçãoà
práxismaterial,desdeoiníciofoipagapelaexclusãodaclasseinferior,àcausa
daqualaverdadeirauniversalidadeaartepermanecefiel,mesmoem
virtudedaliberdadedosfinsdafalsauniversalidade.Aartesériafoinegada
àquelesaquemanecessidadeeapressãodaexistênciatornamaseriedadeuma
farsaeque,necessariamente,sesentemfelizesnashorasemquefolgamda
rodaviva.Aarte"leve"acompanhouaarteautônomacomoumasombra.Ela
representaaconsciênciasocialdaarteséria.Oqueestaemverdadedevia
perder,emvirtudedesuascondiçõessociais,confereàarteleveumaaparência
delegitimidade.Averdadeseencontranaprópriacisão:quepelomenos
exprimeanegatividadedaculturaaqueasduasesferas,somandose,dãolugar.
Hojemaisdoquenunca,aantítesedeixasereconciliar,acolhendoaartelevena
sériaeviceversa.Éjustamenteissoqueaindústriaculturalprocurafazer.A
excentricidadedocirco,dopanopticumedobordelemfacedasociedadecausa
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aestatantocansaçoquantoSchönbergeKarlKraus.AssimojazzistaBenny
GoodnsanfazseacompanharpeloquartetodeBudapeste,tocandocomum
ritmomaispedantequeumclarinetistadefilarmônica,enquantoosmembros
doquartetotocam,domesmomodomacioeverticalecomamesmadoçurade
GuyLombardo.Característicanãoéacrassaincultura,arudezaouaestupidez.
Aoseaperfeiçoareaoextinguirodiletantismo,aindústriaculturalliquidouos
produtosmaisgrosseiros,emboracontinuamentecometagafesoriundasdasua
própriarespeitabilidade.Masanovidadeconsisteemqueoselementos
inconciliáveisdacultura,arteedivertimento,sejamreduzidosaumfalso
denominadorcomum,atotalidadedaindústriacultural.Estaconsistena
repetição.Queassuasinovaçõestípicasconsistamsempreetãosomenteem
melhorarosprocessosdereproduçãodemassanãoédefatoextrínsecoao
sistema.Emvirtudedointeressedeinumeráveisconsumidores,tudoélevado
paraatécnica,enãoparaosconteúdosrigidamenterepetidos,intimamente
esvaziadosemeioabandonados.Opodersocialadoradopelosespectadores
exprimesedemodomaisválidonaonipresençadoestereótiporealizadoe
impostopelatécnicadoquenasideologiasvelhaseantiquadas,àsquaisos
efêmerosconteúdosdevemseajustar.
Nãoobstante,aindústriaculturalpermaneceaindústriadodivertimento.O
seupodersobreosconsumidoresémediadopeladiversãoque,afinal,é
eliminadanãoporummerodiktat,massimpelahostilidade,inerenteaopróprio
princípiododivertimento,diantedetudoquepoderiasermaisdoque
divertimento.Umavezqueaencarnaçãodetodasastendênciasdaindústria
culturalnacarneenosanguedopúblicosefazmedianteoprocessosocial
inteiro,asobrevivênciadomercado,nestesetor,operanosentidodeintensificar
aquelastendências.Ainterrogaçãoaindanãoésubstituídapelapuraobediência.
Tantoissoéverdadequeagrandereorganizaçãodocinemaàsvésperasda
PrimeiraGuerraMundial,premissamaterialdasuaexpansão,foi,defato,uma
adequaçãoconscienteàsnecessidadesdopúblicocontroladaspelascifrasde
bilheteria,coisaque,notempodospioneirosdocinema,nemsequersepensava
levaremconta.Assimpareceatéhojeaosmagnatasdocinema,quesebaseiam
nomesmoprincípio,enossucessosmaisoumenosfenomenais,enãono
princípiocontrário,odaverdade.Suaideologiasãoosnegócios.Averdadeéque
aforçadaindústriaculturalresideemseuacordocomasnecessidadescriadase
nãonosimplescontrastequantoaestas,sejamesmoocontrasteformadopela
onipotênciaemfacedaimpotência.
Adiversãoéoprolongamentodotrabalhosobocapitalismotardio.Elaé
procuradapelosquequeremsesubtrairaosprocessosdetrabalhomecanizado,
paraqueestejamdenovoemcondiçõesdeenfrentálo.Mas,aomesmotempo,
19
amecanizaçãoadquiriutantopodersobreohomememseutempodelazere
sobresuafelicidade,determinadaintegralmentepelafabricaçãodosprodutos
dedivertimento,queeleapenaspodecaptarascópiaseasreproduçõesdo
próprioprocessodetrabalho.Opretensoconteúdoéumapálidafachada;
aquiloqueseimprimeéasucessãoautomáticadeoperaçõesreguladas.Do
processodetrabalhonafábricaenoescritóriosepodefugiradequandosea
elemesmonoócio.Dissosofreincuravelmentetodadiversão.Oprazercongela
senoenfado,poisque,parapermanecerprazer,nãodeveexigiresforçoalgum,
daíquedevacaminharestreitamentenoâmbitodasassociaçõeshabituais.O
espectadornãodevetrabalharcomaprópriacabeça;oprodutoprescrevetoda
equalquerreação:nãopeloseucontextoobjetivoquedesaparecetãologose
dirigeàfaculdadepensantemaspormeiodesinais.Todaconexãológicaque
exijaalentointelectualéescrupulosamenteevitada.Osdesenvolvimentos
devemirromperemqualquerpartepossíveldasituaçãoprecedente,enãoda
idéiadotodo.Nãoenredoqueresistaaozelodoscolaboradoresemretirarde
cadacenatudoaquiloqueelapodedar.Emsuma,atéoesquemapodeparecer
perigoso,àmedidaquetenhaconstituídomesmoumpobrecontexto
significativo,poiséaceitaaausênciadesignificado.Comfreqüência,chegaa
serrefutadaaprópriacontinuaçãodospersonagensedanarrativaprevistapelo
esquemaoriginal.Emseulugar,comopassoimediatamenteposterior,éadotada
aidéiaaparentementemaiseficazqueosroteiristasencontramparacada
situação.Umasurpresaestupidamenteimaginadairrompenoacontecimento
cinematográfico.Atendênciadoprodutodevoltar,malignamente,aopuro
absurdo,dequeparticipavamcomlegitimidadeaartepopular,afarsaea
comédiaatéChaplineosirmãosMarx,aparecedemodomaisevidentenos
gênerosmenoselaborados.EnquantoosfilmesdeGreerGarsoneBetteDavis
desenvolvemapartirdaunidadedocasopsicosocialalgopretensamente
coerente,aquelatendênciaseimpôsplenamentenotextodonoveltysong,nos
filmesdemistérioenosdesenhosanimados.Aprópriaidéiaé,comoosobjetos
docômicoedohorrível,dilaceradaefeitaempedaços.Osnovelo,songssempre
viveramdodesprezopelosignificadoqueprecursoresesucessoresda
psicanáliseconfinamàesferaindistintadosimbolismosexual.Nosfilmes
policiaisedeaventuraatuaisnãomaisseconcedeaoespectadorassistirà
progressivadescoberta.Devecontentarse,mesmonasproduçõessériasdo
gênero,comofrissondesituaçõesquasesemnexointerno.
Osdesenhosanimadoseramoutroraexpoentesdafantasiacontrao
racionalismo.Faziamjustiçaaosanimaiseàscoisaseletrizadaspelasuatécnica,
pois,emboraosmutilando,lhesconferiamumasegundavida.Agoranãofazem
maisqueconfirmaravitóriadarazãotecnológicasobreaverdade.alguns
20
anosapresentavamaçõescoerentesqueseresolviamnosúltimosinstantes
noritmodesenfreadodasseqüênciasfinais.Oseudesenvolvimentomuitose
assemelhavaaovelhoesquemadaslapstickcomedy(comédiapastelão).Mas
agoraasrelaçõesdetempoforamdeslocadas.Desdeaprimeiraseqüênciado
desenhoanimadoéanunciadoomotivodaação,combasenoqual,duranteo
seucurso,possaexercitarseadestruição:nomeiodosaplausosdopúblico,o
protagonistaéatiradoportodasaspartescomoumtrapo.Assimaquantidade
dedivertimentoconvertesenaqualidadedacrueldadeorganizada.Os
autodesignadoscensoresdaindústriacinematográfica,ligadosaestaporuma
afinidadeeletiva,velamparaqueaduraçãododelitoprolongadosejaum
espetáculodivertido.Ahilaridadetruncaoprazerquepoderiaresultar,em
aparência,davisãodoabraço,etransfereasatisfaçãoparaodiadoprogrom.Se
osdesenhosanimadostêmoutroefeitoalémdehabituarossentidosaumnovo
ritmo,éodemartelaremtodososcérebrosaantigaverdadedequeomau
tratocontínuo,oesfacelamentodetodaresistênciaindividual,éacondiçãoda
vidanestasociedade.PatoDonaldmostranosdesenhosanimadoscomoos
infelizessãoespancadosnarealidade,paraqueosespectadoressehabituem
comoprocedimento.
Oprazerdaviolênciacontraopersonagemtransformaseemviolênciacontra
oespectador,odivertimentoconverteseemtensão.Aoolhocansadonada
deveescapardoqueosespecialistaspuseramcomoestimulante,nãonos
devemosespantardiantedafinuradarepresentação,havemossemprede
acompanhare,porcontraprópria,mostraraquelaprestezaqueacenaexpõee
recomenda.Assimsendoépelomenosduvidosoqueaindústriacultural
preenchamesmoatarefadediversãodequeabertamentesevangloria.Sea
maiorpartedorádioedocinemaemudecesse,comtodaprobabilidadeos
consumidoresnãosentiriammuitosuafalta.Apassagemdaruaparaocinema
nãoconduzaosonho,eseasinstituições,porumcertoperíodo,nãomais
obrigassemaprópriapresençadoespectador,oimpulsoparautilizálonãoseria
muitoforte.4Talfechamentonãoseconfundiriacomumreacionário"assaltoàs
máquinas".Desiludidosnãoficariamtantoosfanáticosquantoosque,deresto,
aliseperdem,istoé,osvencidos.Paraadonadecasaaobscuridadedocinema,
nãoobstanteosfilmesvisaremposteriormenteaintegrála,representaum
refúgioemquepodeestarsentadaporduashorasempaz,comooutrora,
quandoaindahavianoitesdefesta,elaapreciavaomundoalémdasjanelas.Os
desocupadosdasmetrópolesencontramumclimaamenonoverãoecalorno
invernonassalasdetemperaturaregulada.Poroutrolado,mesmoaoníveldo

4NT:Notesepeladatadefeituradesteensaioqueatelevisãonãoestavaentãodifundida.
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existente,osistemainfladopelaindústriadosdivertimentosnãotorna,defato,
maishumanaavidaparaoshomens.Aidéiade"exaurir"aspossibilidades
técnicasdadas,deutilizarplenamenteascapacidadesexistentesparaoconsumo
estéticodamassa,fazpartedosistemaeconômicoqueserecusaautilizarsuas
capacidadesquandosetratadeeliminarafome.
Aindústriaculturalcontinuamenteprivaseusconsumidoresdoque
continuamentelhespromete.Oassaltoaoprazerqueaçãoeapresentação
emiteméindefinidamenteprorrogado:apromessaaquenarealidadeo
espetáculosereduz,malignamentesignificaquenãosechegaaoquid,queo
hóspededesecontentarcomaleituradomenu.Aodesejosuscitadopor
todososnomeseimagensesplêndidosservese,emsuma,apenasoelogioda
opacarotinadaqualsequeriaescapar.Mesmoasobrasdeartenãoconsistiam
emexibiçõessexuais.Masrepresentandoaprivaçãocomoalgonegativo,
evocavam,porassimdizer,ahumilhaçãodoinstintoesalvavam,comoalgo
mediatizado,aquiloquehaviasidonegado.Esteosegredodasublimação
estética:representarasatisfaçãonasuapróprianegação.Aindústriacultural
nãosublima,masreprimeesufoca.Expondocontinuamenteoobjetododesejo,
oseionosuétereopeitonudoheróiesportivo,elaapenasexcitaoprazer
preliminarnãosublimado,que,pelohábitodaprivação,muitotempose
tomoupuramentemasoquista.Nãosituaçãoeróticaquenãounaàalusãoe
aoexcitamentoaadvertênciaprecisadequenãosedeveenãosepodechegara
esteponto.OHaysOfficeapenasconfirmaoritualqueaindústriaculturalpor
simesmaestabeleceu:oritualdeTântalo.Asobrasdeartesãoascéticasesem
pudor;aindústriaculturalépornográficaepudica.Elaassimreduzoamorà
fumaça.Edessaformamuitacoisapassa,inclusivealibertinagemcomo
especialidadecorrenteempequenasdosesecomaetiquetadaring(ousado).A
produçãoemsériedosexorealizaautomaticamenteasuarepressão.Oastropor
quemsedeveráapaixonaré,apriori,nasuaubiqüidade,acópiadesimesmo.
TodavozdetenorsoaexatamentecomoumdiscodeCaruso,eosrostosdas
garotasdoTexasnaturalmenteseassemelhamaosmodelossegundoosquais
seriamclassificadasemHollywood.Areproduçãomecânicadobelo,quea
exaltaçãoreacionáriada"cultura",comasuaidolatriasistemáticada
individualidade,favorecetantomaisfatalmente,nãodeixanenhumlugarparaa
idolatriainconscienteaqueobeloestavaligado.Otriunfosobreobeloé
realizadopelohumor,peloprazerquesesentediantedasprivaçõesbem
sucedidas.Risedofatoquenãonadaparaserir.Oriso,serenoouterrível,
assinalasempreummomentoemquedesapareceumtemor.Anunciaa
liberação,sejadoperigofísico,sejadasmalhasdalógica.Orisoreconciliado
ressoacomooecodeumafugadopoder,enquantoorisoruimvenceomedo
22
enfileirandosecomasinstânciasqueteme.Éoecodopodercomoforça
inelutável.Ofinéumbanhomedicinal.Aindústriadosdivertimentos
continuamenteoreceita.Nela,orisotornaseuminstrumentodeumafraude
sobreafelicidade.Osmomentosdefelicidadenãooconhecem;asoperetas
e,depois,osfilmesapresentamosexoentregargalhadas.
MasemBaudelaireinexisteohumor,assimcomoemHölderlin.Nafalsa
sociedade,orisogolpeouafelicidadecomoumadoença,arrastandoanasua
totalidadeinsignificante.Rirdealgumacoisaésempreescarnecer;avidaque,
segundoBergson,rompeacrostaendurecida,passaaser,narealidade,a
irrupçãodabarbárie,aafirmaçãodesique,numaocasiãosocial,celebraasua
liberaçãodequalquerescrúpulo.Acoletividadedosquerieméaparódiada
humanidade.Sãomônadas,cadaumadasquaisentregueàvolúpiadeestar
dispostaatudo,àsexpensasdosoutrosecomamaioriaatrásdesi.Nesta
harmonia,elasfornecemacaricaturadasolidariedade.Odiabólicodofalsoriso
consisteemqueesteconsegueparodiarvitoriosamenteatéomelhor:a
conciliação.Masoprazerésevero:"resseveraverumgaudium".Aideologiados
conventosnãoéaascese,maséoatosexualqueimplicaarenúnciaà
beatitudeacessívelénegativamenteconfirmadapelaseriedadedoamante
que,cheiodepressentimentoobscuro,dedicasuavidaaoinstantepassageiro.A
indústriaculturalcolocaarenúnciaalegreemlugardador,queépresentetanto
noorgasmocomonaascese.Leisupremaéquenuncasechegueaoquese
desejaequedissoatésedeverircomsatisfação.Emcadaespetáculoda
indústriacultural,afrustraçãopermanentequeacivilizaçãoimpõeé,
inequivocamente,outravezimposta.Oferecerlhesumacoisae,aomesmo
tempo,priválosdelaéprocessoidênticoesimultâneo.Esteéoefeitodetodo
aparatoerótico.Tudogiraemtornodocoito,justamenteporqueestenãopode
acontecer.Admitiremumfilmearelaçãoilegítimasemqueosculpados
incorramnojustocastigoéaindamaisseveramentevetadodoque,por
exemplo,ofuturogenrodomilionárioserumativistanomovimentooperário.
Emcontrastecomaeraliberal,aculturaindustrializada,assimcomoafascista,
podeparecerquedesenhaosconflitosdocapitalismo:masnãopodeparecer
querenunciaàameaçadecastração.Estaconstituitodaasuaessência.Ela
sobreviveaoalinhamentoorganizadodoscostumes,noschoquesdoshomens
divididos,nosalegresfilmesporelesproduzidos,sobrevive,porfim,na
realidade.Hoje,decisivonãoémaisopuritanismo,emboraelecontinuease
fazervalerporintermédiodasassociaçõesfemininas,masanecessidade
intrínsecaaosistemadenãolargaroconsumidor,denãolhedarasensaçãode
queépossíveloporresistência.Oprincípiobásicoconsisteemlheapresentar
tantoasnecessidadescomotais,quepodemsersatisfeitaspelaindústria
23
cultural,quantoporoutroladoorganizarantecipadamenteessasnecessidades
demodoqueoconsumidoraelasseprenda,sempreeapenascomoeterno
consumidor,comoobjetodaindústriacultural.Estanãoapenaslheinculcaque
noenganoseencontraasuarealização,comoaindalhefazcompreenderque,
dequalquermodo,sedevecontentarcomoqueéoferecido.Afugadavida
cotidiana,prometidaportodososramosdaindústriacultural,écomooraptoda
filhanarevistanorteamericanadehumorismo:oprópriopaiseencarregade
deixaraescadanoescuro.Aindústriaculturalfornececomoparaísoamesma
vidacotidiana.Tantooescapequantooelopementsãodeterminados,apriori,
comoosmeiosdereconduçãoaopontodepartida.Odivertimentopromovea
resignaçãoqueneleprocuraseesquecer.
Adiversão,totalmentedesenfreada,nãoseriaapenasaantítesedaarte,mas
tambémoextremoqueatoca.OabsurdoàmaneiradeMarkTwain,comoqual
àsvezesnamoraaindústriaculturalamericana,poderiaserumcorretivodaarte,
quantomaisestalevaasérioascontradiçõesdarealidade,tantomaisvaise
assemelharàseriedadedaexistência,seuoposto:quantomaisseesforçaemse
desenvolverpuramenteapartirdesuapróprialeiformal,tantomaioroesforço
decompreensãoqueelaexige:eissoquandoasuafinalidadeeraexatamente
negaropesodoesforço.Emmuitosmusicais,massobretudonasfarsasenos
funnies,vislumbraseemcertosinstantesaprópriapossibilidadedessanegação;
masnãoélícitoalcançarsuarealização.Alógicadodivertimentopuro,o
abandonoirrefletidoàsassociaçõesvariadaseaoabsurdofeliz,éexcluídado
divertimentocorrente:poisqueéprejudicadapelaintroduçãosubstitutivade
umsignificadocoerentequeaindústriaculturalseobstinaemestabelecerpara
suasproduções,enquanto,poroutrolado,naverdadeelatrataaquele
significadocomoumsimplespretextoparaqueosastrossemostrem.
Ocorrênciasbiográficasesemelhantesalinhamaspeçasdoabsurdoemuma
históriaidiota,ondenãosoamosguizosdobufão,massimomolhodechaves
darazãocapitalista,queaténasimagenssubordinaoprazeraosfinsdo
progresso.Cadabeijonofilmerevistadevecontribuirparaoêxitodopugilista
oudocantordequemseexaltaacarreira.Amistificaçãonãoestáportantono
fatodeaindústriaculturalmanipularasdistrações,massimemqueelaestraga
oprazer,permanecendovoluntariamenteligadaaosclichêsideológicosda
culturaemviasdeliquidação.Éticaebomgostovetamcomo"ingênuo"a
diversãodescontroladaaingenuidadenãoémenosmalvistaqueo
intelectualismoelimita,porfim,ascapacidadestécnicas.Aindústriacultural
écorrompidanãocomoBabelpelopecado,massimcomotemplodoprazer
elevado.Emtodososseusníveis,deHemingwayaEmilLudwig,daSenhora
MinniveraLoneRanger,deToscaniniaGuyLombardo,amentiraéinerentea
24
umespíritoqueaindústriaculturalrecebeconfeccionadopelaarteepela
ciência.Elaretémumaimagemdomelhornostraçosqueaaproximamdocirco,
nabravuraobstinadamenteinsensatadecavalariçasacrobatasepalhaços,na
"defesaejustificaçãodaartefísicaemconfrontocomaarteespiritual".5Masos
últimosrefúgiosdessevirtuosismosemsubstância,quedespersonalizao
humanocontraomecanismosocial,sãoimpiedosamentepolidosporumarazão
planificadoraqueconstrangetudoadeclararsuaprópriafunçãoeseupróprio
significado.Elaatacaemdoisplanos:embaixoeliminaoquenãotemsentido,
emcima,osentidodasobrasdearte.
Afusãoatualdaculturaedoentretenimentonãoserealizaapenascomo
depravaçãodaquela,massimcomoespiritualizaçãoforçadadeste.Éoquese
pelofatodeadiversãoserapresentadaapenascomoreprodução;
cinefotografiaouaudiçãoderádio.Naépocadaexpansãoliberal,oamusement
alimentavasedaintactanofuturo:ascoisasassimpermaneceriameaindase
tornariammelhores.Hojeavoltaaseespiritualizar;tornasetãosutilaponto
deperderdevistatodaequalquermetaedereduzirseaofundodouradoque
seprojetapordetrásdarealidade.Estasecompõedasinflexõesdevalorcom
que,noespetáculo,eemperfeitoacordocomaprópriavida,sãooutravez
investidosotipobacana,oengenheiro,amoçadinâmica,afaltadeescrúpulos
disfarçadaemforçadecaráter,osinteressesesportivoseenfimosautomóveise
oscigarros.Assimacontecemesmoquandooespetáculonãodependeda
publicidadedasfirmasimediatamenteinteressadas.Éoprópriosistemaque
assimdetermina.Mesmoadiversãosealinhaentreosideais,tomaolugardos
benssuperiores,pondosedefrenteparaasmassasàsquaisrepetedeforma
aindamaisestereotipadaasfrasespublicitáriaspagaspelosparticulares.A
inferioridade,aformasubjetivamentelimitadadaverdade,semprefoi,maisdo
queseimagina,sujeitaaospadrõesexternos.Aindústriaculturalareduzà
mentirapatente.Escutaselhesomentecomoretóricaaceitaamodode
acréscimopenosamenteagradável,nosbestsellersreligiosos,nosfilmes
psicológicosenoswomenserials.Talseparaqueelapossadominarcom
maiorsegurança,navida,osprópriosimpulsoshumanos.Nessesentido,a
diversãorealizaapurificaçãodaspaixões,acatarsequeAristótelesatribuíaà
tragédiaeMortimerAdleratribui,defato,aosfilmes.Assimcomonoestilo,a
indústriaculturaldescobreaverdademesmonacatarse.
Quantomaissólidassetornamasposiçõesdaindústriacultural,tantomais
brutalmenteestapodeagirsobreasnecessidadesdosconsumidores,produzi
las,guiálasedisciplinalas,retirarlhesatéodivertimento.Aquinãosecoloca

5EWedekind,GesalmmelteWerke,Munique,1921,Dc,p.426.
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limitealgumaoprogressocultural.Masessatendênciaéimanenteaopróprio
princípioburguêseiluministadadiversão.Seanecessidadedeamusement
foi,emlargaescalaproduzidapelaindústria,quefaziaapublicidadedaobraa
partirdeseuautor,econfundiaaoleografiacomagulodicerepresentadaevice
versa,opudimemcomareproduçãodopudim,podeseentãosempre
constatar,nadiversão,amanipulaçãocomercial,osedestalk,avozdocamelô.
Masaafinidadeorigináriadenegócioedivertimentoaparecenopróprio
significadodeste:aapologiadasociedade.Divertirsesignificaestardeacordo.A
diversãoépossívelapenasenquantoseisolaeseafastaatotalidadedoprocesso
social,enquantoserenunciaabsurdamentedesdeoinícioàpretensãoinelutável
detodaobra,mesmodamaisinsignificante:ade,emsualimitação,refletiro
todo.Divertirsesignificaquenãodevemospensar,quedevemosesquecera
dor,mesmoondeelasemostra.Nabasedodivertimentoplantasea
impotência.É,defato,fuga,masnão,comopretende,fugadarealidade
perversa,massimdoúltimogrãoderesistênciaquearealidadeaindapode
haverdeixado.Alibertaçãoprometidapeloentretenimentoéadopensamento
comonegação.Aimpudênciadaperguntaretórica:"Queéqueagentequer?"
consisteemsedirigiràspessoasfingindotratálascomosujeitospensantes,
quandoseufito,naverdade,éodedesabituálasaocontatocoma
subjetividade.Sealgumasvezesopúblicorecalcitracontraaindústriado
divertimento,trataseapenasdapassividadequesetomoucoerenteparaa
qualelaoeducou.Issonãoobstanteoentretenimentosetornarcadavezmais
difícil.Aestupidezprogressivadevemanteropassocomoprogressoda
inteligência.Naépocadaestatísticaasmassassãotãoingênuasquechegamase
identificarcomomilionárionofilme,etãoobtusasquenãosepermitemo
mínimodesviodaleidosgrandesnúmeros.Aideologiaseescondeatrásdo
cálculodasprobabilidades.Afortunanãoviráparatodos,apenasparaalgum
felizardo,ouantesaosqueumpodersuperiordesignapoderque,com
freqüênciaéaprópriaindústriadoentretenimento,descritacomonaeterna
procuradeseuseleitos.Ospersonagensdescobertospeloscaçadoresdetalento,
edepoislançadospeloestúdiocinematográfico,sãotiposideaisdanovaclasse
médiadependente.Astarletdevesimbolizaraempregada,masdemodoque
paraela,àdiferençadaverdadeira,omanteauparecefeitosobmedida.Ela
assimnãoselimitaafixar,paraaespectadora,apossibilidadedequemesmoela
apareçanofilme,porém,comnitidezaindamaior,adistânciaqueasepara
disso.Apenasumateráagrandechance,somenteumseráfamoso,emesmose
todos,matematicamente,têmamesmaprobabilidade,todavia,paracadaum,
estaétãomínima,queelefarámelhoremesquecêladeimediatoeemse
alegrarcomafortunadooutro,quemuitobempoderiatersidoelepróprioe
que,noentanto,nuncaoserá.Aomesmotempoqueaindústriaculturalconvida
26
aumaidentificaçãoingênua,logoeprontamenteelaédesmentida.Aninguém
maisélícitoesquecêlo.Anteriormente,oespectadordofilmeviaaspróprias
bodasnasbodasdooutro.Agoraosfelizesnofilmesãoexemplares
pertencentesàmesmaespéciedecadaumqueformaopúblico,masnesta
igualdadeécolocadaainsuperávelseparaçãodoselementoshumanos.A
perfeitasemelhançaéaabsolutadiferença.Aidentidadedaespécieproíbeados
casos.Aindústriaculturalperfidamenterealizouohomemcomosergenérico.
Cadauméapenasaquiloquequalqueroutropodesubstituir:coisafungível,um
exemplar.Elemesmocomoindivíduoéabsolutamentesubstituível,opuronada,
eéistoquecomeçaaexperimentarquando,comotempo,terminaporperdera
semelhança.Assimsemodificaaíntimaestruturadareligiãodosucesso,aque,
poroutrolado,estritamenteseprende.Emlugardaviaperasperaadastra,que
implicadificuldadeeesforço,cadavezmaispenetraaidéiadeprêmio.O
elementodecegueiraqueenvolveasdecisõesordináriasacercadacançãoque
setornarácélebre,ouacercadaatrizadequadaparaopapeldaheroína,é
exaltadopelaideologia.Osfilmessublinhamocaso.Exigindoasemelhança
essencialdosseuspersonagens,comaexceçãodomau,atéàexclusãodas
fisionomiasrelutantes(comoaquelasque,aexemplodeGretaGarbo,nãotêmo
jeitodesedeixarinterpelarcomum"hellosister",ocinemapormeiodesse
procedimentoparecetornaravidamaisfácilaosespectadores.Aestesé
asseguradonãosernecessáriodiferenciarsedaquiloquesão,equepoderãoter
omesmosucesso,semquedelessepretendaaquilodequesesabemincapazes.
Mas,aomesmotempo,fazsecomquecompreendamquemesmooesforçonão
serviriadenada,poisaprópriafortunaburguesanãomaistemqualquerrelação
comoefeitocalculáveldoseutrabalho.Eamassaengoleoengodo.Nofundo
todosreconhecemoacasoemquealguémfazfortunacomosendoooutrolado
daplanificação.Mesmoporqueasforçasdasociedadeatingiramtalgraude
racionalidadequetodospoderiamfazeropapeldoengenheirooudo
empresário,tornaseirracionaleimotivadoqueasociedadeinvistana
preparaçãoounaconfiançanecessáriaparaocumprimentodestasfunções.
Acasoeplanificaçãotomamseidênticos,poisemfacedaigualdadedoshomens,
asorteouoazardeumúnico,atéàsposiçõesmaiselevadas,perdeuqualquer
significadoeconômico.Opróprioacasochegaaserplanificado:nãoporque
atingeesteouaqueleindivíduo,masjustamenteporquesecrênoseugoverno.
Issofuncionacomoálibiparaosplanificadoresesuscitaaaparênciaquearede
detransaçõesedemedidasemqueavidafoitransformadaaindadeixalugara
relaçõesespontâneaseimediatasentreaspessoas.Essetipodeliberdadeé
simbolizado,nosváriosramosdaindústriacultural,pelaseleçãoarbitráriade
heróiseocorrênciasmédias.Nasinformaçõesesmiuçadastrazidaspelarevista
sobreacarreiramodestamasesplêndidaorganizadapelaprópriarevista
27
davencedoraafortunada(porsinalumadatilógrafaquetalveztenhavencidoo
concursograçasàsrelaçõescommagnataslocais)espelhaseaimpotênciade
todos.Atalpontoaspessoassãoreduzidasamerascoisasqueaquelesquedelas
dispõempodemcolocálasporuminstantenocéuparalogoemseguidajogálas
nolixo;equevãoparaodiabocomseusdireitoseoseutrabalho.Aindústriase
interessapeloshomensapenascomopelosprópriosclienteseempregados,e
reduziu,efetivamente,ahumanidadenoseuconjunto,comocadaumdosseus
elementos,aestaformaexaustiva.Segundooângulodeterminante,é
sublinhado,naideologia,oplanoouofenômeno,atécnicaouavida,a
civilizaçãoouanatureza.Comoempregadossãochamadosàorganização
racionalepressionadosainserirsecomsadiobomsenso.Comoclientesse
vêemasimesmoscomoilustração,natelaounosjornais,emepisódios
humanoseprivadosdaliberdadedeescolhaecomoatraçãodoqueaindanão
estáenquadrado.Emqualquerdoscasospermanecemobjetos.
Quantomenosaindústriaculturaltemaprometer,quantomenosestáem
graudemostrarqueavidaécheiadesentido,tantomaispobresetoma,por
forçadascoisas,aideologiaporeladifundida.Mesmoosideaisabstratosde
harmoniaebondadedasociedadesão,naépocadapublicidadeuniversal,
concretosdemais.Mesmoosideaisabstratosapressamseemseridentificados
comopublicidade.Odiscursoqueapenasbuscaaverdadelogosuscitaa
impaciênciadequecheguecomrapidezaofimcomercialquesesupõeperseguir
naaçãoprática.Apalavraquenãoémeioapareceprivadadesentido,aoutra
comoficçãoementira.Escutamososjuízosdevalorcomopropagandaou
tagareliceinútil.Masaideologiaassimconstrangidaamantersecomoum
discursovagonãosetornaporissomaistransparente,nemtampoucomais
débil.Mesmosuageneralidade,arecusaquasecientíficadeempenharsesobre
qualquercoisadeinverificável,funcionacomoinstrumentodedomínio.Poisela
setornaadecididaesistemáticaproclamaçãodoqueé.Aindústriaculturaltem
atendênciadeseconverteremumconjuntodeprotocolos,e,poressamesma
razão,desetornaroirrefutávelprofetadoexistente.Entreaalternativa
representadapelafalsanotíciaindividualizadaepelaverdademanifesta,elasai
pelatangente,habilmenterepetindoesteeaquelefenômeno,opondosua
capacidadeaoconhecimentoeerigindoaidealoprópriofenômenoemsua
continuidadeonipresente.Aideologiacindeseentreafotografiadarealidade
brutaeapuramentiradoseusignificado,quenãoeformuladaexplicitamente,
massugeridaeinculcada.Pelademonstraçãodesuadivindadeorealésempree
apenascinicamenterepetido.Essaprovafotológicanãoéprecisa,masé
esmagadora.
28
Quemaindaduvidadopoderdamonotoniaéumimbecil.Aindústriacultural,
poroutrolado,temboassaídaspararepelirasobjeçõesfeitascontraelacomo
ascontraomundoqueeladuplicasemtesespreconcebidas.Aúnicaescolhaé
colaborarousemarginalizar:osprovincianosque,contraocinemaeorádio,
recorremàeternabelezaouaoteatroamador,estãopoliticamentenoposto
paraoqualaculturademassaaindaempurraosseus.Elaestásuficientemente
acondicionadaparaparodiarouparadesfrutarcomoideologia,segundoocaso,
mesmoosvelhossonhosdeoutrora,tantoosdopaiquantoosdosentimento
espontâneo.Anovaideologiatemporobjetoomundocomotal.Elausaoculto
dofato,limitandoseasuspenderarealidade,mediantearepresentação
maisexatapossível,noreinodosfatos.Nestatransposição,aprópriarealidade
setornaumsucedâneodosentidoedodireito.Beloétudooqueacâmera
reproduz.Àperspectivafrustradadepoderseraempregadaaquemtoca,por
sorte,ocruzeirotransoceânico,correspondeavistafrustradadospaíses
exatamentefotografadospelosquaisaviagempoderialevar.NãoéaItáliaque
seoferece,masaprovavisíveldesuaexistência.OfilmepodeatémostrarParis,
ondeajovemamericanapensarealizarseussonhosnamaiscompletadesolação,
para,tantomaisinexoravelmente,empurrálanosbraçosdojovemastuto
compatriotaquepoderiaterconhecidoemseupaís.Quetudoemgeral
funcione,queosistema,mesmonasuaúltimafase,continueareproduziravida
dosqueaformam,emvezdeeliminálos,desúbitoélhecreditadocomomérito
esignificado.Continuar"irlevando"emgeralsetornaajustificaçãodacega
permanênciadosistema,oumelhor,dasuaimutabilidade.Sadioéoquese
repete,ociclonanaturezaenaindústria.Oeternosorrisodosmesmosbebês
dasrevistascoloridas,oeternofuncionardamáquinadojazz.Nãoobstanteos
progressosdatécnicadereprodução,dasregrasedasespecialidades,não
obstanteapressaagitada,oalimentoqueaindústriaculturalofereceaos
homenspermanececomoapedradaestereotipia.Elavivedociclo,damaravilha
justificadaqueasmães,apesardetudo,continuemaparir,queasrodas
continuemagirar.Issoserveparareforçaraimutabilidadedasrelações.As
espigasondulantesnofimdoDitadordeChaplindesmentemaarenga
antifascistapelaliberdade.AssemelhamseàlouraesvoaçantequeaUFA
fotografanavidacampestre,aoventodoestio.Anatureza,emvirtudemesmo
deomecanismosocialdedomíniotomálacomoaantítesesalutardasociedade,
éabsorvidaeenquadradanasociedadesemcura.Asegurançavisívelqueas
árvoressãoverdes,azulocéuepassageirasasnuvensservedecriptogramadas
fábricasedospostosdegasolina.Viceversa,rodasepartesmecânicasdevem
brilharalusivamente,degradadasasituaçãodeexpoentedessaalmavegetale
etérea.Naturezaetécnicasãoassimmobilizadascontraobolor,contraa
imagemfalseadanalembrançadasociedadeliberal,naqual,aoqueparece,se
29
viviaemtornodeaposentosmornosefelpudos,emvezdesepraticar,como
hojesefaz,umsadioeassexuadonaturalismo,ouemquenosarrastávamosem
MercedesBenzantidiluvianosemvezde,navelocidadedeumraio,passarsedo
pontoondeseestavaaumoutro,queéomesmo.Otriunfodotrustecolossal
sobrealivreiniciativaécelebradopelaindústriaculturalcomoaeternidadeda
livreiniciativa.Combateseoinimigobatido,osujeitopensante.A
ressurreiçãodoantifilisteuHansSommenstössernaAlemanhaeoprazer
deixadopeloLifewithFather6sãodamesmamarca.
Umacoisaécerta:aideologiavaziadeconteúdonãobrincaemserviço
quandosetratadaprevidênciasocial."Ninguémteráfriooufome,quemofizer
vaiacabarnumcampodeconcentração",estaregraprovenientedaAlemanha
hitleristapoderiabrilharcomodísticodetodososportaisdaindústriacultural.
Elapressupõe,comastutaingenuidade,oestadoquecaracterizaasociedade
maisrecente:queelasabedobrarmuitobemosseus.Aliberdadeformalde
cadaumégarantida.Ninguémdevedarcontaoficialmentedoquepensa.Em
troca,todossãoencerrados,docomeçoaofim,emumsistemadeinstituiçõese
relaçõesqueformamuminstrumentohipersensíveldecontrolesocial.Quem
nãoquisersoçobrardevenãosemostrarmuitolevenabalançadosistema.De
outromodo,perdeterrenonavidaeterminaporafundar.Queemcadacarreira,
massobretudonasprofissõesliberais,oconhecimentodoramoesteja
geralmenteligadoaumaatitudeconformista,podecriarailusãodequeeste
sejaomeroresultadodeumconhecimentoespecífico.Narealidade,fazparteda
planificaçãoirracionaldestasociedadequeela,bemoumal,apenasreproduzaa
vidadeseusfiéis.Aescaladoteordevidacorrespondeexatamenteaoelo
íntimodascastasedosindivíduoscomosistema.Nomanagersepodeconfiar,
mesmoopequenoempregado,Dagwood,7distoestáseguro,aexemplodoque
acontecetantonaspáginashumorísticasquantonarealidade.Quemtemfrioou
fome,mesmosealgumavezteveboasperspectivas,estámarcado.Eleéum
outsidereesta(seprescindirmos,porvezesdosdelitoscapitais)éaculpamais
grave.Nosfilmes,elesetorna,nomelhordoscasos,ooriginal,oobjetodeuma
sátiraperfidamenteindulgente;namaioriadoscasos,porém,éovilão.Logoa
primeiracenaassimodeclaraparaquenemsequertemporariamentesurjaa
suspeitadeasociedadevoltarsecontraoshomensdeboavontade.Defato,
hoje,serealizaumaespéciedewelfizrestatedeespéciesuperior.Paradefender
asprópriasposições,mantémsevivaumaeconomiaemque,graçasaoextremo

6NT:NoveladeClarenceDay.Baseadaemseutipodeenredofamiliar,leveemediocremente
engraçadogerou,depois,umasériedefilmesparaaTV,aexemplodePapaisabetudo.
7NT:Popularpersonagemdecomics,queencarnaomaridopaspalhão,dominadoporBlondie,
suamulher.
30
desenvolvimentodatécnica,asmassasdoprópriopaíssão,deinício,
supérfluasnaprodução.Aposiçãoindividualsetornadessaformaprecária.No
liberalismo,opobrepassavaporpreguiçoso,hojeeleélogosuspeito.Aquele
quenãoseprovêémandadoparaoscamposdeconcentração,ouemtodocaso
aoinfernodotrabalhomaishumildeeparaasfavelas.Masaindústriacultural
refleteaassistênciapositivaenegativadispensadaaosadministradoscomo
solidariedadeimediatadoshomensnomundodoscapazes.Ninguémé
esquecido,portodososladosestãoosvizinhos,osassistentessociaisdotipodo
Dr.Gillespieefilósofosadomicíliocomocoraçãodoladodireito,que,da
misériasocialmentereproduzida,fazem,comasuaintervençãoafávelde
homemparahomem,casosparticularesecuráveisàmedidaqueadepravação
pessoaldosujeitonãoseoponha.Ocuidadocomasboasrelaçõesentreos
dependentes,aconselhadapelaciênciaadministrativaepraticadaportoda
fábricaemvistadoaumentodaprodução,reduzatémesmooúltimoimpulso
privadosobcontrolesocial,enquanto,emaparência,tornaimediatas,ouvoltaa
privatizar,asrelaçõesentreoshomensnaprodução.Essaespéciedesocorro
psíquicolançaasuasombrareconciliadorasobreastrilhasvisíveisesonorasda
indústriaculturalmuitoantesdeseexpandir,totalitariamente,dafábricaà
sociedadeinteira.Masosgrandesbeneméritosebenfeitoresdahumanidade
cujosempreendimentoscientíficosocinemadeveapresentardiretamentecomo
atosdepiedade,paraquelhescarreieumfictíciointeressehumano
desempenhamopapeldecondutoresdopovo,queacabampordecretara
aboliçãodapiedadeeprevinirqualquercontágio,apósliquidadoatéoúltimo
paralítico.
Ainsistênciasobreaboavontadeéomodopeloqualasociedadeconfessaa
dorqueproduz:todossabemque,nosistema,nãopodemmaisseajudar
sozinhos,eissoaideologiadelevaremconta.Emvezdeselimitaracobrira
dorcomovéudeumasolidariedadeimprovisada,aindústriaculturalpõetoda
suahonracomercialemencarálavirilmenteeemadmitilamantendocom
dificuldadeasuacompostura.Opathosdacomposturajustificaomundoquea
tornanecessária.Estaéavida,assimdura,masporissoassimtambém
maravilhosaesadia.Amentiranãorecuadiantedotrágico,asociedadetotal
nãoabole,masregistraeplanificaadordeseusmembros;assimtambém
procedeaculturademassacomotrágico.Daíostenazesempréstimosdaarte.
Elabuscaasubstânciatrágica,queopurodivertimentonãopodefornecerporsi
mesmo,masquelheocorresequermantersedealgumaformafielao
postuladodereproduzirexatamenteofenômeno.Otrágico,convertidoem
momentocalculadoeaprovadodomundo,tornaseabênçãodomundo.Ele
dependedaacusaçãodenãoselevarmuitoasérioaverdade,quando,aoinvés,
31
elaépraticadacomcínicopesar.Otrágicotornainteressanteotédioda
felicidadeconsagradaetornaointeressanteacessívelatodos.Ofereceao
consumidorqueviuculturalmentediasmelhoresosucedâneodaprofundidade
muitotempoliquidada,e,aoespectadorcomum,aescóriaculturaldeque
devedisporpormotivosdeprestígio.Atodosconcedeaconsolaçãodeque
mesmooforteeautênticodestinohumanoaindaépossível,enecessáriaasua
representaçãosempreconceitos.Arealidadecompactaesemlacunas,emcuja
reproduçãohojeserevolveaideologia,aparecetantomaisgrandiosa,nobree
possante,quantomaisvemmescladadonecessáriosofrimento.Elaassumea
facedodestino.Otrágicoéreduzidoàameaçadeaniquilamentodequemnão
colabora,enquantooseusignificadoparadoxalantesconsistianaresistência
semesperançaàameaçamítica.Odestinotrágicotranspiranojustocastigo,
transformaçãoquesemprefoiaspiradapelaestéticaburguesa.Amoralda
culturademassaéamesmadoslivrospararapazesdeontem,embora
"aprofundada".Assim,nareproduçãodeprimeiraqualidade,omaué
personificadopelamulherhistéricaque,medianteumestudodeexatidão
pretensamenteclínica,procuraprejudicaramaisrealistarivaldobemdasua
vidaeterminaencontrandoumamortebemdiversadateatral.Uma
apresentaçãoassimcientíficatemlugarapenasnosvérticesdeprodução.Mais
abaixo,osgastossãomenores,eotrágicoédomesticadosemseprecisarde
psicologiasocial.Assimcomotodaoperetavienensequeserespeitedeviater,
nosegundoato,oseufinaltrágico,deixandoparaoatoseguinteo
esclarecimentodosmalentendidos,assimtambémaindústriaculturalconcede
aotrágicoumlugarprecisonaroutine.anotóriaexistênciadareceitabasta
paraaplacarotemordequeatragicidadenãosejacontrolada.Adescriçãoda
fórmuladramáticaporaqueladonadecasa,gettingintotroubleandoutagain,
definetodaaculturademassadoswomenserialcomomaisidiotaqueaobra
maisinsignificante.Mesmoopiorêxito,queanteriormenteestavainvestidode
melhoresintenções,reforçaaordemefalseiaotrágico,sejaqueaamante
ilegítimapaguecomamorteasuabrevefelicidade,sejaqueotristefimnas
imagensfaçaresplandecer,tantomaisluminosa,aindestrutibilidadedavida
real.Ocinematrágicosetornadefinitivamenteuminstitutodeaperfeiçoamento
moral.Asmassasdesmoralizadaspelavidasobapressãodosistemaequese
mostramcivilizadassomentepeloscomportamentosautomáticoseforçados,
dasquaisgotejamrelutânciaefuror,devemserdisciplinadaspeloespetáculoda
vidainexorávelepelacontençãoexemplardasvítimas.Aculturasempre
contribuiuparadomarosinstintosrevolucionáriosbemcomooscostumes
bárbaros.Aculturaindustrializadaalgomais.Elaensinaeinfundeacondição
emqueavidadesumanapodesertolerada.Oindivíduodeveutilizaroseu
desgostogeralcomoimpulsoparaabandonarseaopodercoletivodoqualestá
32
cansado.Assituaçõescronicamentedesesperadasqueafligemoespectadorna
vidacotidianatransformamsenareprodução,nãosesabecomo,nagarantiade
quesepodecontinuaraviver.Bastadarsecontadaprópriainutilidade,
subscreveraprópriadesconfiança,eisqueentramosnojogo.Asociedadeé
umasociedadededesesperadose,portanto,apresadoslíderes.Emalgunsdos
maissignificativosromancesalemãesdoperíodopréfascista,comoBerlin
AlexanderplatzeKleinerMann,wasnun?(Eagora,meuamigo?),8essatendência
seexprimiacomomesmovigorquenamédiadosfilmesenatécnicadojazz.No
fundotratasesempredoautoescarnecimentodo"homenzinho".A
possibilidadedesetornarumsujeitoeconômico,empreendedoreproprietário,
édefinitivamenteafastada.Atéaúltimadrogaria,aempresaindependente,sob
cujadireçãoeherançafundavamseafamíliaburguesaeaposiçãodoseuchefe,
caiunumadependênciaparaaqualnãosalvação.Todossetornam
empregados,enacivilizaçãodosempregadoscessaadignidadeduvidosado
pai.Ocomportamentodoindivíduosingularquantoaoracket9firma,
profissãooupartido—,antesoudepoisdaadmissão,comoodolíderdianteda
massa,doamantediantedamulhercortejada,assumetraçostipicamente
masoquistas.Ocomportamentoaquecadauméconstrangidopara,emcada
oportunidade,provarquepertencemoralmenteaessasociedade,fazpensarnos
rapazesque,noritodeadmissãoàtribo,semovememcírculo,comumsorriso
idiota,sobaspancadasdosacerdote.Avidanocapitalismotardioéumrito
permanentedeiniciação.Todosdevemmostrarqueseidentificamsema
mínimaresistênciacomospoderesaosquaisestãosubmetidos.Issoseencontra
nabasedasíncopedojazzqueescarnecedostropeçose,aomesmotempo,os
elevaàcondiçãodenorma.Avozdeeunucodocroonerdarádio,ogalante
cortejadordaherdeira,quecaidesmokingnapiscina,sãoexemplosparaos
homens,quedepersedevemseajustaraoqueimpõeosistema.Todospodem
sercomoasociedadeonipotente,todospodemsetornarfelizes,conquantose
entreguemsemreservas,erenunciemàsuapretensãodefelicidade.A
sociedadereconhecesuaprópriaforçanadebilidadedeleselhescedeuma
parte.Apassividadedoindivíduooqualificacomoelementoseguro.Assimo
trágicoéliquidado.
Antigamente,asubstânciadotrágicoestavanaoposiçãodoindivíduoà
sociedade.Eleexaltava"ovalorealiberdadedeânimodiantedeuminimigo

8NT:RomancedeHansFallada(18931947).
9NT:Adornojoganafrasecomaambigüidadeasseguradapelosentidodapalavraeminglês:
ratketsignificanão"qualquerramodenegócios",comotambémplanofraudulento,chantagem
estabelecidaparaaexploraçãodecomerciantes".
33
potente,deumaadversidadesuperior,deumterrívelproblema".10Hoje,o
trágicosedissolveunonadadafalsaidentidadeentresociedadeesujeito,cujo
horrorsevislumbraaindanaaparênciafraudulentadotrágico.Masomilagreda
integração,opermanenteatodegraçadospatrõesemacolherquemcedee
engoleaprópriarelutância,tendeaofascismo.Tal"milagre"lampejana
humanidadecomqueDöblinpermiteaoseuBiberkopf11encontraruma
sistematização,assimcomonosfilmesdetomsocial.Acapacidadedeescorregar
edesearranjar,desobreviveràprópriaruína,pelaqualotrágicoésuperado,é
própriadanovageração;seusmembrosestãoemcondiçõesdedesempenhar
qualquertrabalho,porqueoprocessodetrabalhonãoossujeitaaumofício
determinado.Issorecordaatristedocilidadedosobrevivente,paraoquala
guerranadaimportava,oudotrabalhadorocasional,queterminaporentrarnas
ligasenasorganizaçõesparamilitares.Aliquidaçãodotrágicoconfirmaa
liquidaçãodoindivíduo.
Naindústriaculturaloindivíduoéilusórionãopelaestandardizaçãodas
técnicasdeprodução.Eleétoleradoàmedidaquesuaidentidadesem
reservascomouniversalpermaneceforadecontestação.Daimprovisação
reguladadojazzatéapersonalidadecinematográficaoriginal,quedeveterum
topetecaídosobreosolhosparaserreconhecidacomotal,dominaapseudo
individualidade.Oindividualsereduzàcapacidadequetemouniversalde
assinalaroacidentalcomumamarcatãoindelévelapontodetornálode
imediatoidentificável.Mesmoomutismoobstinadoouosmodoseleitospelo
indivíduoqueseexpõesãoproduzidosemsérie,comoasfechadurasYale,que
sedistinguementresiporfraçõesdemilímetros.AparticularidadedoEué
umprodutopatenteado,quedependedasituaçãosocialequeéapresentado
comonatural.Estasereduzaosbigodes,aosotaquefrancês,àvozprofundade
mulhervivida,aoLubitschtouch,12quesãoquasecomoimpressõesdigitais
estampadassobredocumentosdeidentidade,entretantoiguais.Coisaemque,
diantedopoderuniversal,setransformamavidaeorostodetodosos
indivíduos,daestreladecinemaatéoúltimocondenado.Apseudo
individualidadeéapremissadocontroleedaneutralizaçãodotrágico:pelo
fatodeosindivíduosnãoseremefetivamenteassim,massimplesencruzilhadas
dastendênciasdouniversal,épossívelrecapturálosintegralmentena

10Nietzsche.arzendlimmerung,(Oocasodosdeuses),in:Werkevm,p.136.
11NT:Personagemprincipal,umoperárioquesetornacriminosodeBerlinAlexandoplarzde
AlfredDóblin(18781957),romancistaemqueOttoMariaCarpeauxdescobreainfluênciadeJoyce
(v.HistóriadaLiteraturaAlemã,Cultrix,SãoPaulo).
12NT:ReferênciaaLubitsch(Ernst)diretorcinematográficoalemão(Berlim,1892
Hollywood,1947),atraídoem1923porHollywood,autordecomédiaseoperetas.
34
universalidade.Aculturademassaassimdesvelaocaráterfictícioqueaforma
doindivíduosempretevenaépocaburguesaeoseuerroestáapenasem
vangloriarsedestaturvaharmoniadouniversalcomoparticular.Oprincípioda
individualidadesemprefoicontraditório.Antesdetudo,nuncasechegouauma
verdadeiraindividualização.Aautoconservaçãonasclassesmantématodosna
condiçãodemerosseresgenéticos.Todocaráterburguêsalemãoexprimia,não
obstanteseusdesviosemesmonestes,umaemesmacoisa:adurezada
sociedadecompetitiva.Oindivíduo,sobreoqualasociedadeseregia,portavao
seuestigma;ele,emsualiberdadeaparente,eraoprodutodoaparato
econômicoesocial.Opoderapelavaparaasrelaçõesdeforçadominantesao
solicitararespostadosquelheeramsujeitos.Poroutrolado,asociedade
burguesa,emseucurso,tambémdesenvolveuoindivíduo.Contraavontadedos
seuscontroladores,atécnicaeducouohomemdesdecriança.Mastodoo
processodeindividualizaçãonessesentidosecumpriuemprejuízoda
individualidade,emcujonomesedava,edestamanteveadecisãode
perseguirtãoesempreasuaprópriameta.Oburguês,paraquemavidase
divideemnegóciosevidaprivada,avidaprivadaemrepresentaçõese
intimidade,aintimidadenarepugnantecomunidadedomatrimônioenaamarga
consolaçãodeestarcompletamentesó,separadodesiedetodos,virtualmente
éonazista,aomesmotempoentusiastaeinjuriante,ouomodernohabitante
dasmetrópoles,quepodeconceberaamizadecomosocialcontact,comoa
aproximaçãosocialdeindivíduosintimamentedistantes.Aindústriacultural
podefazeroquequerdaindividualidadesomenteporquenela,esempre,se
reproduziuaíntimafraturadasociedade.Nafacedosheróisdocinemaedo
homemdarua,confeccionadasegundoosmodelosdascapasdasgrandes
revistas,desapareceumaaparênciaemqueninguémmaiscrê,eapaixãopor
aquelesmodelosvivedasatisfaçãosecretade,finalmente,estarmos
dispensadosdafadigadaindividualização,mesmoquesejapeloesforçoainda
maistrabalhosodaimitação.Seria,entretanto,inútilesperarqueapessoa,
emsicontraditóriaecombalida,nãopossadurargerações,que,nestacisão
psicológica,osistemadevanecessariamenteseestilhaçar,queaenganosa
substituiçãodoindividualpeloestereótipodevatomarseporsiintolerávelaos
homens.oHamlet,deShakespeare,percebiaapersonalidadeunacomo
aparência.Nasfisionomiassinteticamentepreparadasdehoje,semostra
esquecidoque,emalgumtempo,tenhahavidoumconceitodevidahumana.
váriosséculosasociedadesepreparouparaVictorMatureeMickeyRooney.Sua
obradedissoluçãoé,aomesmotempo,umaconclusão.
Aapoteosedotipomédiopertenceaocultodoquetembompreço.As
estrelasmaisbempagasparecemimagenspublicitáriasdeignoradosartigos
35
padrão.Nãoépornadaquesãoescolhidascomfreqüênciaentreasfileirasdos
modeloscomerciais.Ogostodominantetiraoseuidealdapublicidade,da
belezadeuso.Assimoditosocráticoparaoqualobeloéoútil,porfim,achase
ironicamenterealizado.Ocinemafazpublicidadeparaotrusteculturalnoseu
todo;norádio,osprodutospelosquaisexistemosbensculturaissãoelogiados
mesmoindividualizadamente.Por50ceaisseofilme,quecustoumilhões,
por10seobtémochicletequetrazemsitodaariquezadomundoequea
incrementacomasuavenda.Asmelhoresorquestrasdomundo,quenãoosão
absolutamente,sãofornecidasgrátisadomicílio.Tudoissoéumaparódiado
reinodacarochinha,comoa"comunidadepopular''13oédahumana.Para
todos,algumacoisaépreparada.Aexclamaçãodoprovincianoquepelaprimeira
vezsedirigiaaovelhoMetropoltheaterdeBerlim,incríveloqueoferecempor
tãopouco",algumtempofoiretomadapelaindústriaculturaleelevadaà
condiçãodesubstânciadaprópriaprodução.Nãoestaésempre
acompanhadadotriunfoemvirtudemesmodeserpossível,comoatodosfaz
iguais,emgrandeescala,porefeitodessemesmotriunfo.Oshowsignifica
mostraratodosoquesetemeoquesepode.Éaindaavelhafeira,mas
incuravelmenteafetadadecultura.Assimcomoosvisitantesdasfeiras,atraídos
pelavozpersuasivadosvendedores,superavamcomumcorajososorrisoa
desilusãocausadapelosbarracões,poisque,nofundo,deantesconheciamo
queselhesapresentava,assimtambémofreqüentadordocinemaseenfileira
compreensivodoladodainstituição.Mascomaacessibilidadedosprodutos"de
luxo"emsérieecomseucomplemento,aconfusãouniversal,teminíciouma
transformaçãonocaráterdemercadoriadaprópriaarte.Essecaráternadatem
denovo:ofatodesereconhecerexpressamente,eodequeaartereneguea
própriaautonomia,enfileirandosecomorgulhoentreosbensdeconsumo,tem
ofascíniodanovidade.Aartecomodomínioseparadofoipossível,desdeo
início,apenascomoburguesa.Mesmoasualiberdade,comonegaçãoda
funcionalidadesocialqueseimpõepelomercado,permaneceessencialmente
ligadaaopressupostodaeconomiamercantil.Aspurasobrasdearte,que
negamocaráterdemercadoriadasociedadepelofatodeseguiremasua
próprialei,sempreforam,aomesmotempo,tambémmercadorias:eàmedida
que,atéoséculoXVII,aproteçãodospatronosdefendeuosartistasdomercado,
esteseramsujeitos,emtroca,aospatronoseaseuspropósitos.Aliberdadedos
finsdagrandeobradeartemodernavivedoanonimatodomercado.As
exigênciasdestesãotãocomplexamentemediadasqueoartistapermanece
isento,sejaapenasemumacertamedida,dapretensãodeterminada:poissua
autonomia,simplesmentetolerada,foiacompanhada,durantetodaahistória

13NT:Volksgemeinschafrexpressãodosteóricosnazistasdoracismo.
36
burguesa,porummomentodefalsidade,quesedesenvolveuporúltimona
liquidaçãosocialdaarte.Beethoven,mortalmenteenfermo,quelançalongede
siumromancedeWalterScottexclamando:"Esteescrevepordinheiro!",eque,
aomesmotempo,usufruidavendadosúltimosquartetossupremarecusado
mercadorevelaseumhomemdenegócios,aindaqueteimosoenada
esperto,oferecendooexemplomaisgrandiosodaunidadedosopostos
(mercadoeautonomia)naarteburguesa.Vítimasdaideologiasãoaquelesque
ocultamacontradição,emvezdeacolhêla,comoBeethoven,naconsciênciada
própriaprodução.Emmúsica,elerefezacólerapelosoldoperdidoededuziu
aquelemetafísico"Assimdeveser",queprocurasuperaresteticamente
assumindoaemsimesmoanecessidadedomundo,anecessidadedepagar
mensalmenteoaluguel.Oprincípiodaestéticaidealista,afinalidadesemfim,é
ainversãodoesquemaaqueobedecesocialmenteaarteburguesa:
inutilidadeparaosfinsestabelecidospelomercado.Porfim,nademandade
divertimentoedissensão,afinalidadedevorouoreinodainutilidade.Mascomo
ainstânciadautilizabilidadedaartesetornatotal,começaasedelinearuma
variaçãonaíntimaestruturaeconômicadasmercadoriasculturais.Oútilqueos
homensseprometemnasociedadedeconflito,pormeiodaobradearte,é
exatamente,emlargamedida,aexistênciadoinútil:que,entretanto,éliquidado
noatodesersubjugadoporinteiroaoprincípiodautilidade.Adequandosepor
completoanecessidade,aobradearteprivaporantecipaçãooshomensdaquilo
queeladeveriaprocurar:liberálosdoprincípiodautilidade.Aquiloquese
poderiachamarovalordeusonarecepçãodosbensculturaisésubstituídopelo
valordetroca,emlugardoprazerestéticopenetraaidéiadetomarparteeestar
emdia;emlugardacompreensão,ganhaseprestígio.Oconsumidortornaseo
álibidaindústriadedivertimento,acuiasinstituiçõeselenãosepodesubtrair.
PrecisatervistoMrs.Minniver,comoprecisateremcasaasrevistasLifeeTime.
Tudoépercebidoapenassoboaspectoquepodeserviraqualqueroutracoisa,
pormaisvagaquepossaseraidéiadessaoutra.Tudotemvalorsomente
enquantopodesertrocado,nãoenquantoéalgumacoisadeperse.Ovalorde
usodaarte,oseuser,éparaosconsumidoresumfetiche,asuavaloraçãosocial,
queelestomampelaescalaobjetivadasobras,tornaseoseuúnicovalorde
uso,aúnicaqualidadedequeusufruem.Assimocaráterdemercadoriadaarte
sedissolvenopróprioatodeserealizarintegralmente.Elaéumtipode
mercadoria,preparado,inserido,assimiladoàproduçãoindustrial,adquirívele
fungível,masogênerodemercadoriaarte,queviviadofatodeservendida,e
de,entretanto,serinvendável,tornasehipocritamenteoabsolutamente
invendávelquandoolucronãoémaisasuaintenção,masoseuprincípio
exclusivo.AexecuçãodeToscanininorádioé,decertomodo,invendável.
Escutaselhedegraça,eacadapassagemdasinfoniasejunta,porassimdizer,a
37
sublimeréclaineresultantedasinfonianãoserinterrompidapelapropaganda
"Thisconcertisbroughttoyouasapublicservice".Afraudesecumpre
indiretamentepeloganhodeosfabricantesdeautomóveisedesabãoque
financiamasestações,e,naturalmente,peloaumentodenegóciosdaindústria
elétrica,produtoradosaparelhosreceptores.Emtodaparte,orádio,frutotardio
emaisavançadodaculturademassa,trazconseqüênciasprovisoriamente
recusadasaofilmeporseupseudomercado.Aestruturatécnicadosistema
comercialradiofônicooimunizadosdesviosliberais,comoosqueosindustriais
docinemaaindasepodempermitirnoseucampo.Éumaempresaprivadaque,
emantecipaçãoaosoutrosmonopólios,semostradetodosoberana.
Chesterfieldéapenasocigarrodanação,masorádioéoseuportavoz.
Incorporandocompletamenteosprodutosculturaisnaesferadasmercadorias,o
rádiorenunciaacolocarcomomercadoriasosseusprodutosculturais.Elenão
cobradopúbliconaAméricataxaalgumae,assim,assumeoaspectoenganador
deautoridadedesinteressadaeimparcial,queparecefeitasobmedidaparao
fascismo.DaíorádiosetornarabocauniversaldoFührer;easuavoz,nosalto
falantesdasestradas,vaialémdoululardassirenesanunciadorasdepânico,do
qualapropagandamodernadificilmentepodesedistinguir.Mesmoosnazistas
sabiamqueorádiodavaformaasuacausa,comoaimprensaderaàcausada
Reforma.Ocarismametafísicodolíderinventadopelasociologiadareligiãose
revelou,enfim,comoasimplesonipresençadosseusdiscursosnorádio,
diabólicaparódiadaonipresençadoespíritodivino,Ofatodesmedidodeo
discursopenetraremtodapartesubstituioseuconteúdo,domesmomodo
comoaofertadaquelatransmissãodeToscaninitomavaolugardoseu
conteúdo,aprópriasinfonia.Nenhumdosouvintesestámaisemcondiçõesde
conceberoseuverdadeirocontexto,enquantoodiscursodoFührerporsi
mesmoéamentira.Pôrapalavrahumanacomoabsoluta,ofalsomandamento,
éatendênciaimanentedorádio.Arecomendaçãotornaseordem.Aapologia
dasmercadoriassempreiguaissobetiquetasdiferentes,oelogiocientificamente
fundadodolaxativonavozmelosadoanuncianteentreaouverturedaTraviata
eadeRienzisetornouinsustentávelporsuaprópriagrosseria.Porfim,odiktat
daproduçãodisfarçadopelaaparênciadeumapossibilidadedeescolha,a
propagandaespecífica,podeiralémdoabertocomandodochefe.Emuma
sociedadedegrandesracketsfascistas,quesepusessemdeacordosobreaparte
doprodutodestinadoaassegurarasnecessidadesdopovo,mostrarseianofim
anacrônicaaexortaçãoemfavordousodeumdetergenteparticular.OFührer
maismodernoordena,semmaiorescerimônias,osacrifício,assimcomoa
aquisiçãodamercadoriaencalhada.
38
hojeasobrasdeartecomopalavrasdeordempolíticasãooportunamente
adaptadaspelaindústriacultural,levadasapreçosreduzidosaumpúblico
relutante,eoseuusosetornaacessívelatodoscomoousodosparques.Masa
dissoluçãodoseuautênticocaráterdemercadorianãosignificaqueelassejam
custodiadasesalvasnavidadeumasociedadelivre,massimquedesapareceaté
aúltimagarantiacontraasuadegradaçãoembensculturais.Aaboliçãodo
privilégioculturalporliquidaçãoevendaabaixopreçonãointroduzasmassas
nosdomíniosaelasanteriormentefechados,mascontribui,nascondições
sociaisatuais,aprópriaruínadacultura,paraoprogressodabárbara
inconsistência.Quemnoséculopassado,ounoiníciodeste,gastavaparaverum
dramaouescutarumconcerto,tributavaaoespetáculopelomenostanto
respeitoquantoodinheirodoingresso.Oburguês,quequeriaextrairalguma
coisaporsi,podiaàsvezesprocurarrelacionarsecomaprópriaobra.Aassim
chamadaliteraturaintrodutóriaàsobrasdeWagnereoscomentáriosaoFausto
testemunhamessefato.Elaaindanãoeraapenasumaformadepassagempara
overnizbiográficoeparaasoutraspráticasnasquaishojesubmergemasobras
dearte.Mesmonosprimeirostemposdosistema,ovalordetrocanãose
arrastavaatrásdovalordeusocomoummeroapêndice,porémotinha
desenvolvidocomosuapremissa,eissofoisocialmentevantajosoparaaobrade
arte.Aarteaindamantinhaoburguêsdentrodecertoslimites,àmedidaqueera
cara.Issoacabou.Asuaproximidadeabsoluta,nãomaismediadapelodinheiro,
paratodosaquelesaqueméexibida,éocumedaalienaçãoeaproximaumaà
outranosignodacompletareificação.Naindústriacultural,desaparecetantoa
críticacomoorespeito:àquelasucedeaexpertisemecânica,aeste,oculto
efêmerodacelebridade.Paraosconsumidoresnãoexistemaisnadaqueseja
caro.Estes,entretanto,intuemquequantomaisselhesregalacertacoisa,tanto
menorsetomaoseupreço.Adupladesconfiançaparacomaculturatradicional
comoideologiasemisturaàdesconfiançaquantoàculturaindustrializadacomo
fraude.Reduzidasapurahomenagem,asobrasdeartepervertidasecorruptas
sãosecretamenteempurradaspelosbeneficiadosparaomeiodostrastes,com
osquaissãoassimiladas.Osconsumidorespodemsealegrarquehajatantacoisa
paravereouvir.Praticamentepodeseterdetudo.Osscreenseosvaudevilles
nocinema,asdisputasdosmúsicos,oscadernosgratuitos,asgratificaçõeseos
artigosdepresentedistribuídosaosouvintesdedeterminadosprogramas,não
sãomerosacessórios,masoprolongamentodoqueacontececomospróprios
produtosculturais.Asinfoniatomaseumprêmioparaaaudiçãoradiofônicaem
geral,eseatécnicapudessefazeraquiloquequer,ofilmeseriafornecidoa
domicílioconformeoexemplodorádio.14Estetendeaocommercialsystem.A

14NT:Comosenotou,quandoosautoresescreveramesteensaioatelevisãoapenas
39
televisãomostraocaminhodeumaevoluçãoquepoderácolocarosirmãos
Warnernaposição,paraelescertamentenãodesejável,deguardiõese
defensoresdaculturatradicional.Masapráticadeprêmiossedepositouno
comportamentodosconsumidores.Enquantoaculturaseapresentacomo
homenagem,cujautilidadeprivadaesocialpermanece,ademais,forade
questão,asuarecepçãosetornaumapercepçãodechances.Osouvintesse
aglomeramcommedodeperderalgumacoisa.Oquesejaestacoisanãose
sabe,mas,dequalquerforma,sempreumaprobabilidade.Masofascismo
esperareorganizarosrecebedoresdedonsdaindústriaculturalnoseuséquito
regulareforçado.
Aculturaeumamercadoriaparadoxal.Édetalmodosujeitaàleidatroca
quenãoénemmesmotrocável;resolvesetãocegamentenousoquenãoé
maispossívelutilizála.Fundeseporissocomapropaganda,quesefaztanto
maisonipotentequantomaispareceabsurda,ondeaconcorrênciaéapenas
aparente.Osmotivos,nofundo,sãoeconômicos.Éevidentequesepoderia
viversemaindústriacultural,poiséenormeasaciedadeeaapatiaqueela
geraentreosconsumidores.Porsimesmaelapodebempoucocontraesse
perigo.Apublicidadeéoseuelixirdavida.Mas,queoseuprodutoreduz
continuamenteoprazerqueprometecomomercadoriaàprópriaindústria,por
sersimplespromessa,findaporcoincidircomapropaganda,dequenecessita
paracompensarasuanãofruibilidade.Nasociedadecompetitiva,apropaganda
preenchiaafunçãosocialdeorientarocompradornomercado,facilitavaa
escolhaeajudavaofornecedormaishábil,contudoatéagoradesconhecido,a
fazercomqueasuamercadoriachegasseaosinteressados.Elanãocustava,
mastambémeconomizavatempotrabalho.Agoraqueolivremercadochegaao
fim,entrincheirasenapropagandaodomíniodosistema.Elareforçaovínculo
queligaosconsumidoresàsgrandesfirmas.quempoderapidamentepagar
astaxasexorbitantescobradaspelasagênciaspublicitárias,e,emprimeirolugar,
peloprópriorádio,ouseja,quemfazpartedosistema,ouéexpressamente
admitido,temcondiçõesdeentrarcomovendedornopseudomercado.As
despesascomapublicidade,queterminamrefluindoparaosbolsosdos
monopólios,evitamter,acadavez,deesmagaraconcorrênciadosoutsiders
indesejáveis;garantemqueospadrõesdevalorpermanecementresoi,em
círculofechado,nistonãosãocompletamentediferentesdasdeliberaçõesdos
conselhoseconômicosque,noEstadototalitário,controlamaaberturadenovas
agênciasouagestãodasexistentes.Apublicidadeéhojeumprincípio
negativo,umaparelhodeobstrução,tudooquenãoportaoseuseloé

começava.
40
economicamentesuspeito.Apublicidadeuniversalnãoéemabsolutonecessária
paradaraconhecerostiposaqueaofertaestálimitada.indiretamenteela
serveàvenda.Oabandonodeumapráxispublicitáriacorrenteporpartedeuma
únicafirmaéumaperdadeprestígio,e,narealidade,umaviolaçãodadisciplina
queatrincadeterminanteimpõeaosseus.Duranteaguerra,continuasea
propagandearmercadoriasquenãoestãomaisàvenda,somenteafimdeexpor
ededeixaràmostraopoderindustrial.Maisimportantequearepetiçãodo
nomeé,portanto,ofinanciamentodosmeiosdecomunicaçãoideológica.Em
virtudede,sobapressãodosistema,cadaprodutoempregaratécnica
publicitária,elaentroutriunfalmentenagíria,no"estilo",daindústriacultural.A
suavitóriaétãocompletaque,nospontosdecisivos,nãotemsequermais
necessidadedesetornarexplícita:ospaláciosmonumentaisdasfirmas
gigantescas,publicidadepetrificadaàluzdosrefletores,nãotempropaganda,
limitamse,nomáximo,aexpor,sobreascolunasaltas,brilhanteselapidares,
semmaisoacompanhamentodeelogios,asiniciaisdaempresa,enquantoas
casassobreviventesdoséculoXIXemcujaarquiteturaaindasecomrubora
utilidadedosbensdeconsumo,afinalidadedahabitaçãosãobesuntadasdo
chãoaotetodecartazesluminosos;apaisagemnãosendomaisqueopanode
fundodoscartazesedosletreiros.Apublicidadetornaseaarteporexcelência,
comoGoebbels,comseufaro,souberaidentificála."Lártpourl'art",
propagandadesimesma,puraexposiçãodopodersocial.nasgrandesrevistas
semanaisamericanasLifeeFortuneumarápidaolhadelamalconseguedistinguir
figurasetextospublicitáriosdaparteredacional.Saídadaredaçãoéa
reportagemilustrada,entusiásticaenãopaga,sobreoshábitosdevidaesobrea
higienepessoaldoastro,coisaquelhetraznovasfãs,enquantoaspáginas
publicitáriassebaseiamemfotografiaseemdadostãoobjetivoserealistasa
pontoderepresentaremopróprioidealdainformação,aqueaparteredacional
fazaspirar.Cadafilmeéaapresentaçãodofilmeseguinte,quepromete
reuniroutravezmaisamesmaduplasobomesmocéuexótico:quemchega
atrasadoficasemsaberseassisteao"embrevenestecinema"ouaofilme
propriamentedito.Ocaráterdemontagemdaindústriacultural,afabricação
sintéticaeguiadadosseusprodutos,industrializadanãonoestúdio
cinematográfico,masvirtualmente,aindanacompilaçãodasbiografiasbaratas,
naspesquisasromanceadasenascanções,adaptaseaprioriàpropaganda.
queomomentoparticulartornouseseparávelefungível,descartadomesmo
tecnicamentedequalquernexosignificativo,elesepodeprestarafinalidades
externasàobra.Oefeito,oachado,oexploitisoladoerepetível,ligousepara
semprecomaexposiçãodeprodutosparafinspublicitários,ehojecada
primeiroplanodeumaatrizéuma"propaganda"doseunome,cadamotivode
sucessooplugdasuamelodia.Técnicaeeconomicamente,propagandae
41
indústriaculturalmostramsefundidas.Numaenoutraamesmacoisaaparece
emlugaresinumeráveis,earepetiçãomecânicadomesmoprodutoculturalé
arepetiçãodomesmoslogandapropaganda.Numaenoutra,soboimperativo
daeficiência,acnicasetomapsicotécnica,cnicadomanejodoshomens.
Numaenoutravalemasformasdosurpreendenteetodaviafamiliar,dolevee
contudoincisivo,doespecializadoeentretantosimples;tratasesemprede
subjuga!'ocliente,representadocomodistraídoourelutante.
Pelalinguagememqueseexprime,contribuielepróprioparafortalecero
caráterpublicitáriodacultura.Quantomaisalinguagemseresolveem
comunicação,quantomaisaspalavrassetornam,deportadorassubstanciaisde
significado,empurossignosprivadosdequalidade,quantomaispurae
transparenteéatransmissãodoobjetointencionado,tantomaissetornam
opacoseimpenetráveis.Adesmistificaçãodalinguagem,comoelementode
todoprocessoiluminista,inverteseemmagia.Reciprocamentedistintose
indissolúveis,palavraeconteúdoeramunidosentresi.Conceitoscomo
melancolia,históriae,inclusive,"avida"eramconhecidosnostermosqueos
representavamecustodiavam.Asuaformaosconstituíae,aomesmotempo,os
reproduzia.Anítidaseparaçãoquedeclaracasualoteordapalavraearbitráriaa
coordenaçãocomoobjeto,liquidaaconfusãosupersticiosaentrepalavraecoisa.
Aquiloqueemumasucessãoestabelecidadeletrastranscendeacorrelaçãoao
eventoébanidocomoobscuroecomometafísicaverbal.Comisso,porém,a
palavraquedevetãodesignar(bezeichnen)enãosignificar(bedeuten)nada
tornasedetalmodofixadaàcoisaqueseenrijeceemfórmula.Issotoca
simultaneamenteàlínguaeaoobjeto.Emvezdeconduziroobjetoà
experiência,apalavrapurgadaoexpõecomocasodeummomentoabstrato,e
todooresto,excluídodaexpressão(quenãomaisexiste)porumaexigênciade
clarezadesapiedada,perecemesmonarealidade.Opontaesquerdanofutebol,
ocamisanegra,ojovemhitleristaetc.nãosãonadamaisalémdequedesignam.
Seapalavra,antesdasuaracionalização,tinhapromovido,juntocomodesejo,
mesmoamentira,apalavraracionalizadatornouseumacamisadeforçaparao
desejomaisaindaqueparaamentira.Acegueiraeomutismodosdadosaqueo
positivismoreduzomundoatingemmesmoalinguagemqueselimitaao
registrodaquelesdados.Assimosprópriostermossetomamimpenetráveis,
adquiremumpoderdechoque,umaforçadeadesãoederepulsãoqueostorna
parecidoscomseuextremooposto,asfórmulasmágicas.Elesoperamcomouma
espéciedetruques,sejaqueonomedaestrelaéinventadonoestúdio
cinematográfico,segundoaexperiênciadosdadosestatísticos,sejaqueo
welfarestatesejacaluniadopormeiodetermoscomforçadetabu,como
"burocratas"ou"intelectuais",sejaqueainfâmiasetornainvulnerávelpelo
42
nomedaPátria.Opróprionomequemaisseligaàmagiahojesofreuma
transformaçãoquímica.Transformaseemetiquetaarbitráriaemanipulável,
cujaeficáciapodesercalculada,masmesmoporissodotadodeumaforçaede
umavontadeprópriacomoadosnomesarcaicos.Osnomesdebatismo,
resíduosarcaicos,foramelevadosàalturadostempos,sendoestilizadoscomo
siglaspublicitáriasnosastrosmesmooscognomestêmessafunçãoou
sendoestandardizadoscoletivamente.Soacomoantiquado,aoinvés,onome
burguês,onomedefamília,que,emlugardeserumaetiqueta,individualizavao
seuportadoremrelaçãoàsuaprópriaorigem.Issosuscitaemmuitosnorte
americanosumestranhoembaraço.Paramascararaincômodadistânciaentre
indivíduosparticulares,chamamseentresiBobeHarry,comomembros
substituíveisdetimes.Essehábitoreduzasrelaçõesentreoshomensà
fraternidadedopúblicodesportivo,queprotegedaverdadeirafraternidade.A
significação,queéaúnicafunçãodapalavraadmitidapelasemântica,realizase
plenamentenosinal.Asuanaturezadesinalsereforçacomarapidezcomque
osmodeloslingüísticossãopostosemcirculaçãodoalto.
Seoscantospopulares,certaouerradamente,foramconsiderados
patrimôniocultural"arruinado"pelacastadominante,osseuselementos,em
todocaso,assumiamasuaformapopulardepoisdeumlongoecomplicado
processodeexperiência.Adifusãodaspopularsongs,aocontrário,acontece
fulminantemente.Aexpressãoamericanafad,parasignificarmodasquese
afirmamdeformaepidêmicaouseja,promovidasporpotênciaseconômicas
altamenteconcentradas—,designavaofenômenobemantesqueosdiretores
dapropagandatotalitáriajogassemforaaslinhasgeraisdacultura.Sehojeos
fascistasalemãeslançampelosaltofalantesapalavra"intolerável",amanhã
todoopovodirátambém"intolerável".Segundoomesmoesquema,asnações
contraasquaiseraempreendidaaguerrarelâmpagoalemãaacolheramnasua
gíria.Arepetiçãouniversaldostermosadotadospelasváriasdeterminações
tornaestasúltimasdequalquermodofamiliares,comonostemposdomercado
livre,onomedeumprodutoemtodasasbocaspromoviaasuavendagem.A
repetiçãocegaearápidaexpansãodepalavrasestabelecidasuneapublicidade
àpalavradeordemtotalitária.Acamadadeexperiênciaquefaziadaspalavrasas
palavrasdoshomensqueaspronunciavamestáinteiramenteachatada,e
mediantearápidaassimilação,alínguaassumeumafriezaque,atéentão,
caracterizavaascolunaspublicitáriaseaspáginasdeanúnciodosjornais.
Infinitaspessoasusampalavraseexpressõesqueounemmesmomais
compreendem,ouqueempregamsegundooseuvalorbehavioristade
posição,comosímbolosprotetoresquesefixamtantomaistenazmenteaosseus
objetosquantomenosaindaseestáemgraudecompreenderoseusignificado
43
lingüístico.Oministrodainstruçãopopularfaladeforçasdinâmicas,semsabero
queàexpressãosignifica,eascançõesquecantamsemcessarosrevêriee
rhapsodydevemasuapopularidadejustamenteàmagiadoincompreensível,
experimentadacomoofrissondeumavidamaisalta.Outrosestereótipos,como
memoly,aindasãoemcertamedidaentendidos,masfogemàexperiênciaque
deveriamcumulálas.Afloramcomoendavesnalinguagemfalada.Narádio
alemãdeFlescheHitlertaisestereótipospodemsercaptadosnoafetadoalto
alemão(HochDeutsch)doanunciante,quedizànaçãoAufWiederhiirenouHier
sprichtdieHitleliugende,porfim,derFührercomumacadênciaquederepente
setornasotaquenaturaldemilhões.Nessasexpressõescortasemesmoo
últimovínculoentreaexperiênciasedimentadaealíngua,queexerciaainda
umabenéficainfluência,noséculoXIX,pelodialeto.Oredatorcujaductibilidade
deconvicçõespermitiutornarsedeutscherSchrifileiter15vê,emtroca,soba
pena,aspalavrasalemãsenrijeceremseempalavrasestrangeiras.Emcada
palavrapodeseperceberatéquepontofoidesfiguradapela"comunidade
popular"fascista.Éverdadeque,emseguida,essalinguagemsetornouuniversal
etotalitária.Nãoémaispossíveladvertirnaspalavrasaviolênciaqueelas
sofreram.Olocutordarádionãonecessitamaisfalarafetado;poisnãoseria
sequerpossívelqueoseusotaquenãosedistinguissepelocaráterdeentonação
dogrupodeouvintesquelhefoiassegurado.Mas,emtroca,omododese
exprimiredegesticulardosouvintesedosespectadores,chegandoatéa
nuançasquenenhummétodoexperimentalestáemcondiçõesdecaptar,está
maisdoquenuncainfiltradopeloesquemadaindústriacultural.Aindústria
culturaldehojeherdouafunçãocivilizatóriadademocraciadafrontieredalivre
iniciativa,quederestonuncamanifestouumasensibilidademuitorefinadapara
comasdiferençasespirituais.Todossãolivresparadançaresedivertir,como,
desdeaneutralizaçãohistóricadareligião,sãolivresparaingressaremumadas
inumeráveisseitas.Aliberdadenaescolhadasideologias,contudo,quesempre
refleteapressãoeconômica,revelaseemtodosossetorescomoliberdadedo
sempreigual.Omodocomoumamoçaaceitaeexecutaoseudateobrigatório,
otomdavozaotelefoneenasituaçãomaisfamiliar,aescolhadaspalavrasna
conversação,etodaavidaíntimaordenadasegundoosconceitosdapsicanálise
vulgarizada,documentaatentativadefazerdesiumaparelhoadaptadoao
sucesso,correspondendo,aténosmovimentosinstintivos,aomodelooferecido
pelaindústriacultural.Asreaçõesmaissecretasdoshomenssãoassimtão
perfeitamentereificadasdiantedeseusprópriosolhosqueaidéiadoquelhesé
específicoepeculiarapenassobrevivesobaformamaisabstrata:personako

15NT:"Redatoralemão".Naexaltaçãodasvirtudesevaloresgermânicospuros,osnazistas
preferiamaquelaexpressãoàlatina,conquantomaisusual,"Redakteur".
44
significapraticamenteparaelesoutracoisasenãodentesbrancose
liberdadedesuoredeemoções.Issoéotriunfodapropagandanaindústria
cultural,amimesecompulsóriadosconsumidoresàsmercadoriasculturaiscujo
sentidoelesaomesmotempodecifram.
(1947)
TraduçãodeJuliaElisabethLevy,revisãodeLuisCosta
LimaeOttoMariaCarpeaux.Revisãoparaessaedição:
JorgedeAlmeida.PublicadooriginalmenteemTeoria
daCulturadeMassa.(org.deLuizCostaLima)Riode
Janeiro,PazeTerra,1978.
45
CRÍTICACULTURALESOCIEDADE
Asonoridadedaexpressão"críticacultural"deveincomodarquemestá
acostumadoapensarcomosouvidos,enãoapenasporquecombina,comoa
palavra"automóvel",termosdogregoedolatim.Elarecordaumaflagrante
contradição.Ocríticodaculturanãoestásatisfeitocomacultura,masdeve
unicamenteaelaesseseumalestar.Elefalacomosefosseorepresentantede
umanaturezaimaculadaoudeumestágiohistóricosuperior,masé
necessariamentedamesmaessênciadaquiloquepensateraseuspés.A
insuficiênciadosujeitoquepretende,emsuacontingênciaelimitação,julgara
violênciadoexistenteumainsuficiênciatantasvezesdenunciadaporHegel,
comvistasaumaapologiadostatusquotornaseinsuportávelquandoo
própriosujeitoémediadoatéasuacomposiçãomaisíntimapeloconceitoao
qualsecontrapõecomosefosseindependenteesoberano.Masa
impropriedadedacríticacultural,noquedizrespeitoaoconteúdo,nãodecorre
tantodafaltaderespeitopeloqueécriticadoquantodosecreto
reconhecimento,arroganteecego,doobjetodesuacrítica.Ocríticodacultura
malconsegueevitarainsinuaçãodequepossuiaculturaquedizfaltar.Sua
vaidadevememsocorrodavaidadedacultura:mesmonogestoacusatório,o
críticomantémaidéiadeculturafirmementeisolada,inquestionadae
dogmática.Eledeslocaoataque.Ondedesesperoeincomensurável
sofrimento,ocríticodaculturaapenasalgodeespiritual,oestadoda
consciênciahumana,adecadênciadanorma.Namedidaemqueacríticainsiste
nisso,cainatentaçãodeesqueceroindizível,emvezdeprocurar,mesmoque
nãotenhapoderparatanto,afastálodoshomens.
Aatitudedocríticodaculturalhepermite,graçasàsuadiferençaemrelação
aocaospredominante,ultrapassáloteoricamente,emboracombastante
freqüênciaeleapenasrecaianadesordem.Masocríticodaculturaincorporaa
diferençanoaparatoculturalquegostariadesuplantar,aparatoqueprecisa,ele
mesmo,dessadiferençaparapoderseapresentarcomocultura.Épróprioda
pretensãodaculturaàdistinção,pormeiodaqualelaprocurasedispensarda
46
provadascondiçõesmateriaisdevida,nuncasejulgardistintaosuficiente.O
exagerodapresunçãocultural,queporsuavezéimanenteaopróprio
movimentodoespírito,aumentaadistânciaemrelaçãoaessascondiçõesà
medidaqueadignidadedasublimação,confrontadacomapossibilidadede
satisfaçãomaterialouameaçadeaniquilaçãodeincontáveissereshumanos,
tornasequestionável.Ocríticodaculturafazdessapretensãoaristocráticaum
privilégioseu,perdendosualegitimaçãoaocooperarcomaculturacomoum
flagelohonradoebempago.Issoafeta,noentanto,oteordacrítica.Mesmoo
implacávelrigorcomqueestaenunciaaverdadesobreaconsciêncianão
verdadeirapermanececonfinadonaórbitadoqueécombatido,fixadoemsuas
manifestações.Quemseproclamasuperiorsenteseaomesmotempocomo
sendodoramo.Sealguémestudasseaprofissãodecríticonasociedade
burguesa,queavançoufinalmenteatéaposiçãodecríticocultural,encontraria
certamenteemsuaorigemumelementousurpador,comoaquelequeBalzac,
porexemplo,aindapodiaobservar.Oscríticosprofissionaiseram,sobretudo,
"informantes":orientavamsobreomercadodosprodutosespirituais.
Alcançavamocasionalmentecomissoumavisãomaisprofundadaquestão,
permanecendo,contudo,sempretambémcomoagentesdocomércio,em
consonância,senãocomseusprodutosindividuais,comaesferadocomércio
enquantotal.Elestrazemasmarcasdisso,mesmoquetenhamabandonadoo
papeldeagente.Quelhestenhasidoconfiadoopapeldeperito,edepoisode
juiz,foialgoinevitáveldopontodevistaeconômico,emboraacidentalnoque
dizrespeitoasuasqualificaçõesobjetivas.Aagilidadequelhesproporcionava
posiçõesprivilegiadasnojogodaconcorrênciaprivilegiadasporqueodestino
doqueerajulgadodependiaemgrandepartedeseuvotoconferiaaosseus
julgamentosailusãodecompetência.Ocupandohabilmenteaslacunase
adquirindo,comaexpansãodaimprensa,umamaiorinfluência,oscríticos
acabaramalcançandoexatamenteaquelaautoridadequeasuaprofissão
pretensamentepressupunha.Suaarrogânciaprovémdofatodeque,nas
formasdasociedadeconcorrencial,ondetodoserémeramenteumserpara
outro,atémesmooprópriocríticopassaasermedidoapenassegundoseuêxito
nomercado,ouseja,namedidaemqueeleexerceacrítica.Oconhecimento
efetivodostemasnãoeraprimordial,massempreumprodutosecundário,e
quantomaisfaltaaocríticoesseconhecimento,tantomaisessacarênciapassaa
sercuidadosamentesubstituídapeloeruditismoepeloconformismo.Quandoos
críticosfinalmentenãoentendemmaisnadadoquejulgamemsuaarena,ada
arte,edeixamserebaixarcomprazeraopapeldepropagandistasoucensores,
consumasenelesaantigafaltadecaráterdoofício.Asprerrogativasda
informaçãoedaposiçãopermitemqueelesexpressemsuaopiniãocomose
47
fosseaprópriaobjetividade.Maselaéunicamenteaobjetividadedoespírito
dominante.Oscríticosdaculturaajudamatecerovéu.
Oconceitodeliberdadedeopinião,emesmoopróprioconceitodeliberdade
espiritualnasociedadeburguesa,noqualacríticaculturalsebaseia,possuiasua
própriadialética.Pois,enquantoseliberavadatutelateológicofeudal,o
espírito,graçasàprogressivasocializaçãodetodasasrelaçõeshumanas,caía
cadavezmaissobocontroleanônimodasrelaçõesvigentes,quenãoapenasse
impôsapartirdefora,comotambémseintroduziuemseufeitioimanente.Essas
relaçõesseimpõemtãoimpiedosamenteaoespíritoautônomoquantoantesos
ordenamentosheterônomosseimpunhamaoespíritocomprometido.Nãoo
espíritoseajustaàsuavenalidademercadológica,reproduzindocomissoas
categoriassociaispredominantes,comoseassemelha,objetivamente,aostatus
quo,mesmoquando,subjetivamente,nãosetransformaemmercadoria.As
malhasdotodosãoatadascadavezmaisconformeomodelodoatodetroca.
Estepermiteàconsciênciaindividualcadavezmenosespaçodemanobra,passa
aformáladeantemão,deummodocadavezmaisradical,cortandolheapriori
apossibilidadedadiferença,quesedegradaemmeranuancenointeriorda
homogeneidadedaoferta.Simultaneamente,aaparênciadeliberdadetornaa
reflexãosobreapróprianãoliberdadeincomparavelmentemaisdifícildoque
antes,quandoestaestavaemcontradiçãocomumanãoliberdademanifesta,o
queacabareforçandoadependência.Essesmomentos,emconjuntocoma
seleçãosocialdosportadoresdoespírito,têmcomoresultadoaregressãodo
espírito.Suaresponsabilidadetransformase,deacordocomatendência
preponderantedasociedade,emficção.Desualiberdade,oespíritodesenvolve
apenasomomentonegativo,aherançadesuacondiçãomonadológicaesem
projetos:airresponsabilidade.Foradisso,porém,eleaderecadavezmais
firmemente,comomeroornamento,àinfraestruturadaqualpretendiase
destacar.AsinvectivasdeKarlKrauscontraaliberdadedeimprensanãodevem,
éclaro,sertomadasaodaletra:invocarasérioacensuracontraosescribas
seriaexorcizarodemônioapelandoaBelzebu.Masatoliceeamentiraque
florescemsobaproteçãodaliberdadedeimprensanãosão,seguramente,algo
deacidentalnamarchahistóricadoespírito;sãoosestigmasdaescravidãona
qualseencenasualibertação,osestigmasdafalsaemancipação.Emnenhum
outrolugarissosetornatãoevidentequantoondeoespíritoarrancaseus
própriosgrilhões:nacrítica.Quandoosfascistasalemãesproscreveramapalavra
KritikeasubstituírampeloaguadoconceitodeKunstbetrachtung[contemplação
daarte],seguiamapenasoforteinteressedoEstadoautoritário,queainda
temianairreverênciadocolaboradordefolhetinsopathosdoMarquêsdePosa.
Masaarrogantebarbárieculturalquereclamavaaosberrosaeliminaçãoda
48
crítica,airrupçãodahordaselvagemnorecintodoespírito,retrucava,sem
perceber,comamesmamoeda.Naraivaanimalescadocamisapardacontraos
criticastrosnãovivesomenteainvejadeumaculturaodiadaporqueoexclui,
nemapenasoressentimentocontraaquelesquepodemexpressaronegativo
queeleprópriotevedereprimir.Odecisivoéqueogestosoberanodocrítico
encenaaosleitoresaindependênciaqueelenãopossui,epresumeumpapelde
comandoqueéirreconciliávelcomoseupróprioprincípiodeliberdade
espiritual.Issoenervaosseusinimigos.Osadismodestesfoi
idiossincraticamenteatraídopelafraqueza,astuciosamentedisfarçadadeforça,
daquelescujagesticulaçãoditatorialteriasuplantadocomtantogostoados
posterioresdonosdopoder,muitomenossutis.Masosfascistassucumbiramà
mesmaingenuidadedoscríticos:acrençanaculturaenquantotal,agorarestrita
àostentaçãoeaosgigantesdoespíritomaisconvenientes.Elessesentiramos
médicosdaculturaealivraramdoaguilhãodacrítica.Comisso,nãoapenasse
rebaixaramaooficialismo,comotambémdeixaramdereconheceroquantoa
críticaeaculturaestãoentrelaçadas,paraobemouparaomal.Aculturaé
verdadeiraquandoimplicitamentecrítica,eoespíritoqueseesquecedisso
vingasedesimesmonoscríticosqueeleprópriocria.Acríticaéumelemento
inalienáveldacultura,repletadecontradiçõese,apesardetodasuainverdade,
aindaétãoverdadeiraquantonãoverdadeiraéacultura.Acríticanãoéinjusta
quandodestróiestaaindaseriasuamelhorqualidade—,masquando,ao
desobedecer,obedece.
Acumplicidadedacriticaculturalcomaculturanãoresidenamera
mentalidadedocrítico.Éditadasobretudopelarelaçãodocríticocomaquilode
quetrata.Aofazerdaculturaoseuobjeto,ocríticotornaaobjetivála.O
sentidoprópriodacultura,entretanto,consistenainterrupçãodaobjetivação.
Tãologoaculturasecongelaem"bensculturais"enasuarepugnante
racionalizaçãofilosófica,oschamados"valoresculturais",pecacontraasua
raisond'être.Nadestilaçãodesses"valores"termonoqualecoa,nãopor
acaso,alinguagemdatrocademercadoriasaculturaseentregaàs
determinaçõesdomercado.Mesmonoentusiasmoporgrandescivilizações
exóticaspulsaaexcitaçãocomumapeçarara,naqualpodeseinvestiralgum
dinheiro.Quandoacríticacultural,atémesmoemValéry,aliaseao
conservadorismo,deixaseconduzirsecretamenteporumconceitodecultura
queaspira,naeradocapitalismotardio,aumaformaseguradepropriedade,
quenãosejaafetadapelasoscilaçõesdaconjuntura.Esseconceitodeculturase
apresentacomolivreemrelaçãoaosistemaecapazdegarantirumasegurança
universalemmeioàdinâmicauniversal.Ocríticodaculturatemcomomodelo,
alémdocríticodearte,ocolecionadorqueavaliacomdesprezoosobjetosque
49
desejaadquirir.Acríticaculturallembrageralmenteogestodocomerciante
regateador,comonocasodoespecialistaquecontestaaautenticidadedeum
quadroouoclassificaentreasobrasmenoresdeummestre.Desprezaseo
objetoparalucrarmais.Enquantoavaliador,ocríticodaculturatem
inevitavelmentedeseenvolvercomumaesferamaculadaporvaloresculturais,
mesmoquandolutazelosamentecontraamercantilizaçãodacultura.Emsua
atitudecontemplativaemrelaçãoaela,introduzsenecessariamenteum
inspecionar,umsupervisionar,umpesar,umselecionar:istolheserve,aquiloele
rejeita.Justamentesuasoberania,apretensãodepossuirumconhecimento
profundodoobjeto,aseparaçãoentreoconceitoeseuconteúdoatravésda
independênciadojuízo,ameaçasucumbiràconfiguraçãoreificadadoobjeto,a
medidaemqueacríticaculturalapelaaumacoleçãodeidéiasestabelecidas,
fetichizandocategoriasisoladascomo"espírito","vida"e"indivíduo".
Masoseusupremofeticheéoconceitodeculturaenquantotal.Pois
nenhumaobradearteautênticaenenhumafilosofiaverdadeirajamais
esgotaramseusentidoemsimesmas,emseuseremsi,sempreestiveram
relacionadasaoprocessovitalrealdasociedade,doqualsesepararam.
Justamentearenúnciaàrededeculpadeumavidaquesereproduzcegae
rigidamente,ainsistêncianaindependênciaenaautonomia,norompimento
comoreinoestabelecidodosfins,implica,aomenoscomoelemento
inconsciente,areferênciaaumasituaçãonaqualaliberdadeseriarealizável.
Masaliberdadepermaneceráumapromessaambíguadaculturaenquantosua
existênciadependerdeumarealidademistificada,ouseja,emúltimainstância,
dopoderdedisposiçãosobreotrabalhodeoutros.Ofatodequeacultura
européiacomoumtodotenhadegeneradoemmeraideologiaaquiloque
ofereceaoconsumo,hojeprescritoapopulaçõesinteiraspormanagerse
técnicosempsicologia,provémdamudançadesuafunçãoemrelaçãoàpráxis
material,desuarenúnciaaumaintervençãodireta.Essamudançacertamente
nãofoinenhumpecadooriginal,masalgoimpostohistoricamente.Poisapenas
fragmentariamentenorecolhimentoemsimesma,aculturaburguesaalcançaa
idéiadepurezaemrelaçãoaostraçosdeformadoresdeumadesordemquese
expandesobreatotalidadedossetoresdaexistência.Aculturaburguesa
permanecefielaoshomensquandosubtraiasiprópria,eassimaoshomens,da
práxisqueseconverteuemseuoposto,dasemprerenovadaproduçãoda
mesmice,daprestaçãodeserviçosaoclientecomoserviçoaomanipulador.Mas
essaconcentraçãodaculturaburguesaemsuasubstânciaintrínseca,que
encontrousuamaiorexpressãonapoesiaenateoriadePaulValéry,trabalhaao
mesmotempoparaoesvaziamentodessasubstância.Nomomentoemquea
pontadoespíritovoltadaparaarealidadeéafastada,osentidodoespíritose
50
modifica,apesardamaisrigorosapreservaçãodeseusentido.Pelaresignação
diantedafatalidadedoprocessovital,emaisaindaporsuaconsolidaçãocomo
umâmbitoespecialentreoutros,oespíritosealiaaomeroente[blossSeienden]
etransformaseelepróprioemummeroente.Acastraçãodacultura,que
provocaaindignaçãodosfilósofosdesdeostemposdeRousseauedo"século
dosespalhatintas"dodramaDieRäuberdeSchiller,passandoporNietzschee
chegandoatéospregadoresdoengagementporamoraopróprioengagement,é
oresultadodoprocessonoqualaculturatomaconsciênciadesimesma
enquantocultura,opondoseforteeconsistentementeàcrescentebarbáriedo
predomíniodopodereconômico.Oquepareceseradecadênciadaculturaéo
seupurocaminharemdireçãoasimesma.Aculturadeixaseidolatrarapenas
quandoestáneutralizadaereificada.Ofetichismopassaagravitarnaórbitada
mitologia.Oscríticosdaculturaseembriagam,namaioriadasvezes,comídolos
provenientesdaAntiguidadeeatédoduvidosoeevaporadocalordaera
liberal,queexortavasuaorigemnomomentoemquesucumbia.Comoacrítica
culturalselevantacontraaprogressivaintegraçãodetodaconsciênciano
aparatodeproduçãomaterial,masnãoconsegueverparaalémdisso,voltase
paraopassado,seduzidapelapromessadeimediatidade.Élevadaaissoporsua
própriaforçagravitacional,enãosimplesmentepelainfluênciadeumaordem
socialqueseobrigadaaencobrir,comumagritariacontraadesumanizaçãoe
oprogresso,todoprogressonoprocessodedesumanizaçãoporelaconduzido.O
isolamentodoespíritoemrelaçãoàproduçãomaterialcertamenteelevasua
cotação,mastambémotransforma,naconsciênciageral,embodeexpiatóriode
tudooqueéperpetradopelapráxis.Aculpaéatribuídaaoesclarecimento
enquantotal,nãoaoesclarecimentoenquantoinstrumentodadominação
efetiva:daíoirracionalismodacríticacultural.Umavezqueelaretiraoespírito
dadialéticaqueestemantémcomascondiçõesmateriais,passaaconcebêlo
unívocaelinearmentecomoumprincípiodefatalidade,sonegandoassimos
momentosderesistênciadoespírito.Ocríticodaculturaoécapazde
compreenderqueareificaçãodaprópriavidarepousanãoemumexcesso,mas
emumaescassezdeesclarecimento,equeasmutilaçõesinfligidasà
humanidadepelaracionalidadeparticularistacontemporâneasãoestigmasda
irracionalidadetotal.Aaboliçãodessairracionalidade,quecoincidiriacoma
aboliçãodaseparaçãoentretrabalhomanualetrabalhointelectual,apareceà
cegueiradacríticaculturalcomoocaos:paraquemglorificaaordemea
estruturadequalquerespécie,estaseparaçãopetrificadatornaseumarquétipo
doeterno.Queacisãomortaldasociedadepossaumdiaterminaréparaele
sinônimodeumafatalidademortal:épreferívelofimdetodasascoisasdoque
ahumanidadepôrumfimàreificação.Omedodequeissopossaocorrerse
harmonizacomosinteressesdosinteressadosnamanutençãodanegativa
51
material.Semprequeacríticaculturalsequeixadematerialismo,promovea
crençadequeopecadoéodesejodoshomensporbensdeconsumo,enãoa
organizaçãodotodoquenegaaoshomensessesbens:paraocríticodacultura,
opecadoéasaciedade,enãoafome.Seahumanidadedispusesseda
abundância,arrancariaosgrilhõesdessabarbáriecivilizadaqueoscríticosda
culturadebitamnacontadoprogressodoespírito,emvezdedebitálanado
atrasodascondiçõesmateriais.Osvaloreseternosaosquaisacríticaculturalse
refereespelhamadoençaperenizada.Ocríticodaculturasealimentada
teimosiamíticadacultura.
Porqueaexistênciadacríticacultural,qualquerquesejaoseuconteúdo,
dependedosistemaeconômicoeestáatreladaaoseudestino.Quantomais
completamenteasordenssociaiscontemporâneas,especialmenteasdoLeste,
seapropriamdosprocessosdevida,inclusivedo"ócio",tantomaisseimprimea
todososfenômenosdoespíritoamarcadaordem.Sejacomoentretenimento
oucomoedificação,elescolaboramimediatamenteparaamanutençãoda
ordemesãoconsumidosexatamentecomoexpoentesdessaordem,ouseja,
justamenteemvirtudedesuapréformataçãosocial.Conhecidos,garantidose
aprovados,essesfenômenosdoespíritoseaninhamnaconsciênciaregressiva,
recomendandosecomonaturaisepermitindoaidentificaçãocomospoderes
vigentes,cujapreponderâncianãodeixaoutraalternativasenãoadofalsoamor.
Emoutroscasos,osfenômenosculturaissetransformam,porsua
discordância,emraridades,oqueostornanovamentevendáveis.Notranscorrer
daeraliberal,aculturacaiunaesferadacirculação.Odefinhamentopaulatino
dessaesferaacabouafetandoopróprionervovitaldacultura.Comaeliminação
docomércioedeseusrefúgiosirracionaispelocalculadoaparatodedistribuição
daindústria,amercantilizaçãodaculturacompletaseatéàinsâniainteiramente
dominada,administradaedecertaformacultivadaintegralmente,acultura
acabapordefinhar.AdenunciadorafrasedeSpenglersobreoparentescoentre
dinheiroeespíritoprovasecorreta.Massuasimpatiapelasformasimediatasde
dominaçãofezcomqueeledefendesseumaconcepçãodeexistênciadistante
tantodasmediaçõeseconômicasquantodasmediaçõesespirituais.
Maliciosamente,Spenglervinculaoespíritoaumtipoeconômiconaverdade
superado,emvezdereconhecerqueoespírito,pormaisquesejatambémum
produtodessetipoeconômico,implica,aomesmotempo,apossibilidade
objetivadesuperálo.Assimcomoaculturasurgiunomercado,nocomércio,na
comunicaçãoenanegociaçãocomoalgodistintodalutaimediatapela
autopreservaçãoindividual;assimcomoelaseirmana,nocapitalismoclássico,
aocomércio;eassimcomoosseusportadoresseincluementreas"terceiras
pessoas"esesustentamcomointermediários;assimacultura,considerada
52
"socialmentenecessária"segundoasregrasclássicas,ouseja,algoquese
reproduzeconomicamente,restringesenovamenteaoâmbitoemquese
iniciou,odameracomunicação.Suaalienaçãodohumanodesembocana
absolutadocilidadeemrelaçãoàumahumanidademetamorfoseadaem
clientelapelosfornecedores.Emnomedosconsumidores,osquedispõemsobre
aculturareprimemtudooquepoderiafazercomqueelaescapasseàimanência
totaldasociedadevigente,permitindoapenasoqueserveinequivocamenteaos
seuspropósitos.Aculturadosconsumidorespodeporissovangloriarsedenão
serumluxo,masosimplesprolongamentodaprodução.Emconsonânciacom
isso,asetiquetaspolíticascalculadasparaamanipulaçãodasmassas
estigmatizamunanimementecomoluxo,esnobismoehighbrowtudooquena
culturadesagradaaoscomissários.Somentequandoaordemestabelecidapassa
aseraceitacomomedidadetodasascoisasasuamerareproduçãona
consciênciaconverteseemverdade.Acríticaculturalapontaparaisso,
reclamandocontraa"superficialidade"ea"perdadesubstância".Aorestringir
suaatenção,porém,aoentrelaçamentoentreculturaecomércio,aprópria
críticaculturalparticipadasuperficialidade,agindodeacordocomoesquema
doscríticossociaisreacionários,quecontrapõemocapitalprodutivoaocapital
usurário.Namedidaemquedefatotodaculturatomapartenocontextode
culpadasociedade,eladevesuaexistênciaàinjustiçacometidanaesferada
produção.Omesmoocorre,segundoaDialéticadoEsclarecimento,como
comércio.Éporissoqueacríticaculturaldeslocaaculpa:elaéideologia,na
medidaemquepermanececomomeracríticadaideologia.Osregimes
totalitáriosdeambososgêneros,buscandoprotegerostatusquodasúltimas
inconveniênciasquetememdeumaculturareduzidaàcondiçãodelacaio,
conseguemconvencerpelaforçaessacultura,esuaautoconsciência,deseu
servilismo.Elesatacamoespírito,quesetornouinsuportávelemsimesmo,e
comissoaindasesentempurificadoreserevolucionários.Afunçãoideológicada
críticaculturalatrelaàideologiasuaprópriaverdade,aresistênciacontraa
ideologia.Alutacontraamentiraacababeneficiandoomaispuroterror.
"Quandoouçofalaremcultura,destravoomeurevólver",diziaoportavozda
CâmaradeCulturadoReichdeHitler.
Masacríticaculturalsomentepodereprovartãoincisivamenteaculturapor
suadecadência,apontadacomoumaviolaçãodapuraautonomiadoespírito,
umaprostituição,porqueaprópriaculturasurgedaseparaçãoradicalentre
trabalhointelectualetrabalhobraçal,extraindodessaseparação,dessepecado
original",asuaforça.Quandoaculturasimplesmentenegaessaseparaçãoe
fingeumauniãoharmoniosa,regrideaalgoanterioraoseupróprioconceito.
Somenteoespíritoque,nodelíriodeseucaráterabsoluto,seafastaporinteiro
53
domeroexistentedeterminaverdadeiramenteomeroexistenteemsua
negatividade:mesmoqueapenasummínimodeespíritopermaneçaligadoà
reproduçãodavida,eletambémdeficarcomprometidocomela.Odesprezo
dosateniensespelovulgarconsistiabasicamenteemduascoisas:oorgulho
arrogantedequemnãosujaasprópriasmãoscomaquelesdecujotrabalhovive
eapreservaçãodaimagemdeumaexistênciaqueapontaparaalémdacoerção
existenteportrásdetodotrabalho.Aodarvozàconsciência,projetandoa
nasvítimascomo"baixeza",essaatitudedenuncia,aomesmotempo,oestado
emqueasvítimasseencontram:asubmissãodoshomensàsformasvigentesda
reproduçãodavida.Toda"culturapura"temcausadomalestaraosportavozes
dopoder.
PlatãoeAristótelessabiammuitobemporquenãopodiamdeixarvingaressa
concepçãodecultura,preferindodefender,emquestõessobreojulgamentoda
arte,umpragmatismoqueseencontraemsurpreendentecontrastecomo
pathosdosdoisgrandesmetafísicos.Amaisrecentecríticaculturalburguesa
tornouse,semdúvida,demasiadocautelosaparaseguilosabertamenteneste
ponto,emboraseacalmesecretamentecomadivisãoentrealtaculturae
culturapopular,entrearteeentretenimento,entreconhecimentoevisãode
mundodescomprometida.Essacríticaculturalburguesaétãomais"antivulgar"
doqueaantigaeliteateniensequantooproletariadoémaisperigosodoqueos
escravos.Omodernoconceitodeculturapuraeautônomaindicaqueo
antagonismotornouseinconciliável,tantopelafaltadecompromissoparacom
oqueéparaoutroquantopelahybrisdaideologia,queseentronizacomooque
éemsi.
Acríticaculturalcompartilhacomseuobjetooofuscamento.Elaéincapazde
deixarafloraroreconhecimentodesuafragilidade,queéintrínsecaàseparação
entretrabalhointelectualetrabalhomanual.Nenhumasociedadeque
contradigaoseupróprioconceito,odehumanidade,podeterplenaconsciência
desimesma.Paraimpedirqueissoocorranãoéprecisonemmesmooaparato
ideológicosubjetivo,aindaqueeste,emperíodosdegrandesmudançassociais,
costumereforçaroofuscamentoobjetivo.Pelocontrário,aafirmaçãodeque
todasasformasderepressãoforamnecessárias,deacordocomoestadoda
técnica,paraapreservaçãodasociedadegeral,equeasociedadetalcomoelaé
reproduziudefato,apesardetodooseuabsurdo,avidasobascondições
existentes,suscitaobjetivamenteaaparênciadelegitimaçãosocial.Acultura,
enquantoconteúdoessencialdaautoconsciênciadeumasociedadeconstituída
porclassesantagônicas,nãopodelibertarsedessaaparência,comotambém
nãoopodeaquelacríticaculturalquemedeaculturasegundoseupróprioideal.
Emumafasenaqualairracionalidadeeafalsidadeobjetivaseescondematrás
54
daracionalidadeedanecessidadeobjetiva,aaparênciatornousetotal.Ainda
assim,emvirtudedesuaviolênciareal,osantagonismosacabamseimpondo
tambémnaconsciência.Justamenteporqueacultura,paraaglorificaçãoda
sociedade,afirmacomoválidooprincípiodeharmonianasociedadeantagônica,
nãopodeevitaroconfrontodasociedadecomoseupróprioconceitode
harmonia,oquelevaaculturaatropeçaremdesarmonias.Aideologiaque
afirmaavidaentraemcontradiçãocomavidapeloimpulsoimanentedoideal.
Oespírito,quepercebequearealidadenãoseigualaaeleemtudo,massim
estásujeitaaumadinâmicainconscienteefatal,éimpelido,contraasuaprópria
vontade,paraalémdaapologia.Ofatodequeateoriasetransformaemum
poderrealquandoempolgaoshomensfundamentasenaobjetividadedo
próprioespírito,queporforçadocumprimentodesuafunçãoideológicatemde
perderanaideologia.Movidopelaincompatibilidadedaideologiacoma
existência,oespírito,aoexpressaroofuscamento,expressaaomesmotempoa
tentativadeescaparaele.Desiludido,oespíritopercebeacruezadamera
existênciaepassaaresponsabilidadeàcrítica.Então,oueleamaldiçoaabase
material,apartirdosemprequestionávelcritériodeseuprincípiopuro,outoma
consciência,porsuaincompatibilidadecomabasematerial,desuaprópria
questionabilidade.Porforçadadinâmicadasociedade,aculturatornasecrítica
cultural.Estamantémoconceitodecultura,demolindoporémassuas
manifestaçõescontemporâneascomomerasmercadoriasemeiosde
emburrecimento.Umatalconsciênciacríticapermanecesubmissaàculturana
medidaemque,lidandocomela,apartasedohorror,masaomesmotempo
essaconsciênciacríticatambémadeterminacomocomplementodohorror.A
posturaambivalentedateoriasocialemrelaçãoàcríticaculturaléuma
conseqüênciadisso.Oprocedimentodacríticaculturalestá,elemesmo,
submetidoaumacríticapermanente,tantoemseuspressupostosgerais,emsua
imanênciaàsociedadevigente,quantonosjuízosconcretosqueenuncia.Poisa
subserviênciadacríticaculturalacabaserevelandoporseuconteúdoespecífico,
esomenteneleestasubserviênciapodesercaptadademodoconclusivo.
Simultaneamente,porém,ateoriadialéticacasonãoqueirasucumbirao
meroeconomicismoeaumamentalidadequeacreditaqueatransformaçãodo
mundoseesgotanoaumentodaproduçãoestáobrigadaaassumirparasi
mesmaacríticacultural,queéverdadeiranamedidaemquetrazainverdadeà
consciênciadesimesma.Seateoriadialéticamostrasedesinteressadapela
culturaenquantoummeroepifenômeno,acabacontribuindoparaquea
confusãoculturalcontinueasepropagarecolaboranareproduçãodoqueé
ruim.Otradicionalismoculturaleoterrordosnovosdéspotasrussospossuemo
mesmosentido.Ofarodequeambosafirmamseucompromissocomacultura
comoumtodo,aomesmotempoqueproscrevemtodasasformasde
55
consciêncianãoajustadas,nãoéalgomenosideológicodoqueaatitudeda
críticaqueselimitaadenunciardiantedoseutribunalumacultura
desorientada,ouresponsabilizarseualegadonegativismopeloquede
nefasto.Aceitaraculturacomoumtodoéretirarlheofermentodesua
própriaverdade:anegação.Oentusiasmopelaculturaestáemconsonânciacom
oclimaproduzidopelapinturadecenasdebatalhaepelamúsicamilitar.Oque
distingueacríticadialéticadacríticaculturaléofatodeaprimeiraelevara
críticaatéaprópriasuspensão[Aufhebung]doconceitodecultura.
Contraacríticaimanentedaculturapodeseargumentarqueelasonegao
aspectodecisivo:opapelassumidopelaideologianosconflitossociais.Supor,
aindaqueapenasmetodologicamente,algocomoumalógicaautônomada
culturaseriacolaborar,pelodesmembramentodacultura,comoprotonpseudos
ideológico,poisoconteúdodaculturanãoresidiriaexclusivamenteemsi
mesma,masemsuarelaçãocomalgoquelheseriaexterno:oprocessomaterial
davida.Acultura,conformeMarxensinouapropósitodasrelaçõesjurídicase
dasformasdeEstado,nãopoderiaserentendidaa"partirdesimesma[...],nem
apartirdoassimchamadodesenvolvimentouniversaldoespíritohumano".
Ignorarissosignificariapraticamentetransformaraideologianoprópriotemada
discussão,ecomissofortalecêla.Defato,aversãodialéticadacríticacultural
nãodevehipostasiaroscritériosdacultura.Acríticadialéticaposicionasede
mododinâmicoaocompreenderaposiçãodaculturanointeriordotodo.Sem
essaliberdade,semotranscenderdaconsciênciaparaalémdaimanência
cultural,aprópriacríticaimanentenãoseriaconcebível:écapazde
acompanharadinâmicaprópriadoobjetoaquelequenãoestiver
completamenteenvolvidoporele.Masaexigênciatradicionaldeumacríticada
ideologiatambémestásujeitaaumadinâmicahistórica.Elafoiconcebidacontra
oidealismo,vistocomoaformafilosóficanaqualseespelhariaafetichizaçãoda
cultura.Hoje,noentanto,adeterminaçãodaconsciênciapeloSertornouseum
meiodeescamoteartodaconsciênciaquenãoestiverdeacordocomo
existente.Omomentodaobjetividadedaverdade,semoqualnãosepode
conceberadialética,passaasertacitamentesubstituídopelopositivismovulgar
epelopragmatismo,ouseja,emúltimainstância,pelosubjetivismoburguês.Na
eraburguesa,ateoriapredominanteeraaideologia,eapráxisoposicionistase
contrapunhaimediatamenteaela.Hoje,arigor,quasenãomaisteoria,ea
ideologiaécomooruídoproduzidopelasengrenagensdapráxisinexorável.Não
seousamaispensarnenhumafrasequenãoincluagentilmente,emtodasas
áreas,indicaçõesprecisassobreaquemeladeveriafavorecer,oque
antigamenteeratarefadapolêmicadescobrir.Masopensamentonão
ideológicoéaquelequenãosedeixareduziraoperationalterms,procurando,
56
emvezdisso,ajudaraconduziraprópriacoisaàquelalinguagemqueseria,de
outromodo,bloqueadapelalinguagemdominante.Desdequetodaassociação
políticoeconômicaavançadapassouaconsideraróbvioeevidentequeoque
importaémodificaromundo,equeébobagemficarinterpretandoo,tornouse
difícilsimplesmenteinvocarasTesescontraFeuerbach.Adialéticaincluitambém
arelaçãoentreaçãoecontemplação.Emumaépocanaqualasciênciassociais
burguesas,segundoScheler,"saquearam"oconceitomarxistadeideologia,
diluindoonorelativismogeneralizado,operigodesedesconhecerafunçãodas
ideologiasemenordoqueoperigorepresentadopelatendênciadesedispor,
demaneiraadministrativa,classificatóriaeestranhaaoobjeto,sobreas
formaçõesespirituais,enxertandoassimploriamentenasconstelaçõesdepoder
vigentes,quecaberiaaoespíritodesvendar.Comováriosoutroselementosdo
materialismodialético,tambémanoçãodeideologiafoitransformadadeum
meiodeconhecimentoemummeiodecontroledoconhecimento.Emnomeda
dependênciadasuperestruturaemrelaçãoàinfraestrutura,passaseavigiara
utilizaçãodasideologias,emvezdecriticálas.Ninguémmaissepreocupacomo
conteúdoobjetivodasideologias,desdequeestascumpramsuafunção.
Masaprópriafunçãodasideologiastornasemanifestamentecadavezmais
abstrata.Asuspeitadosantigoscríticosculturaisseconfirmou:emummundo
ondeaeducaçãoéumprivilégioeoaprisionamentodaconsciênciaimpedede
todamaneiraoacessodasmassasàexperiênciaautênticadasformações
espirituais,nãoimportamtantoosconteúdosideológicosespecíficos,maso
fatodequesimplesmentehajaalgopreenchendoovácuodaconsciência
expropriadaedesviandoaatençãodosegredoconhecidoportodos.No
contextodeseuefeitosocial,étalvezmenosimportantesaberquaisas
doutrinasideológicasespecíficasqueumfilmesugereaosseusespectadoresdo
queofatodequeestes,aovoltarparacasa,estãomaisinteressadosnosnomes
dosatoreseemseuscasosamorosos.Conceitosvulgarescomo
"entretenimento"sãomuitomaisadequadosdoqueconsideraçõespretensiosas
sobreofatodeumescritorserrepresentantedapequenaburguesiaeoutro,da
altaburguesia.Aculturatornouseideológicanãocomoaquintessênciadas
manifestaçõessubjetivamenteelaboradaspeloespíritoobjetivo,mas,emmaior
medida,tambémcomoesferadavidaprivada.Estaesconde,sobaaparênciade
importânciaeautonomia,ofatodequeémantidaapenascomoapêndicedo
processosocial.Avidasetransformaemideologiadareificação,emmáscara
mortuária.Éporissoqueatarefadacrítica,namaioriadasvezes,nãoétanto
sairembuscadedeterminadosgruposdeinteresseaosquaisdevemsubordinar
seosfenômenosculturais,massimdecifrarquaiselementosdatendênciageral
dasociedadesemanifestamatravésdessesfenômenos,pormeiodosquaisse
57
efetivamosinteressesmaispoderosos.Acríticaculturalconverteseem
fisiognomoniasocial.Quantomaisotodoédespojadodeseuselementos
espontâneosesocialmentemediadoefiltrado,quantomaiseleé"consciência",
tantomaissetorna"cultura".Oprocessomaterialdeproduçãosemanifesta
finalmentecomoaquiloqueeraemsuaorigem,aoladodosmeiosde
manutençãodavida,narelaçãodetroca:comoumafalsaconsciênciadaspartes
contratantesumaarespeitodaoutra,comoideologia.Inversamentecontudo,a
consciênciatornasecadavezmaisummeromomentodetransiçãona
montagemdotodo.Hoje"ideologia"significasociedadeenquantoaparência.
Emborasejamediadapelatotalidade,atrásdaqualseescondeadominaçãodo
parcial,aideologianãoéredutívelpuraesimplesmenteauminteresseparcial;
porisso,decertomodo,estáemtodasassuaspartesàmesmadistânciado
centro.
Ateoriacríticanãopodeadmitiraalternativaentrecolocaremquestão,a
partirdefora,aculturacomoumtodo,submetidaaoconceitosupremode
ideologia,ouconfrontálacomasnormasqueelamesmacristalizou.Quantoa
decisãodeadotarumaposturaimanenteoutranscendente,tratasedeuma
recaídanalógicatradicional,criticadanapolêmicadeHegelcontraKant:todoe
qualquermétodoquedeterminalimitesesemantêmdentrodoslimitesdeseu
objetosuplanta,justamenteporisso,esseslimites.Aposiçãoquetranscendea
culturaé,emcertosentido,pressupostapeladialéticacomoaquelaconsciência
quenãosesubmete,deantemão,àfetichizaçãodaesferadoespírito.Dialética
significaintransigênciacontratodaequalquerreificação.Ométodo
transcendente,quesedirigeaotodo,parecemaisradicaldoqueométodo
imanente,quepressupõedesdeoinícioestetodoquestionável.Ométodo
transcendentepretendeassumirumaposiçãosemelhanteaumponto
arquimediano,quetranscendaaculturaearededeofuscamento,apartirda
qualaconsciênciaconseguissepôremmovimentoatotalidade,pormaiorque
fosseainérciadesta.Oataqueaotodoretirasuaforçadofatodequequanto
maisomundopossuiaaparênciadeunidadeetotalidade,maioréoavançoda
reificaçãoe,portanto,dadivisão.Masaliquidaçãosumáriadaideologia,quena
esferasoviéticasetornouumpretextoparaoterrorcínico,naformade
respeitoao"objetivismo",concededemasiadahonraaessatotalidade.Esta
atitudecompraenblocdasociedadeasuacultura,semlevaremcontaa
maneirapelaqualasociedadeautiliza.Aideologia,ouseja,aaparênciasocial
mentenecessária,éhojeaprópriasociedadereal,namedidaemqueoseu
poderintegralesuainexorabilidade,asuairresistívelexistênciaemsi,substituio
sentidoporelaprópriaexterminado.Aescolhadeumpontodevistasubtraído
daórbitadaideologiaéofictíciaquantosomenteofoiaelaboraçãodeutopias
58
abstratas.Éporissoqueacríticatranscendentedacultura,semelhanteàcrítica
burguesadacultura,seobrigadaaretroceder,conjurandoaqueleidealdo
"natural",queéporsimesmoumapeçachavedaideologiaburguesa.O
ataquetranscendenteàculturafalageralmentealinguagemdafalsaruptura,a
linguagemdo"homemnatural"[Naturbursche].Eledesprezaoespírito:as
formaçõesespirituais,apesardetudo,sãofeitaspelohomemeservemapenas
paraencobriravidanatural.Emnomedessasupostafutilidade,asformações
espirituaisdeixamsemanipulararbitrariamente,sendoutilizadasparafinsde
dominação.Issoexplicaainsuficiênciadamaioriadascontribuiçõessocialistasà
críticacultural:elasfogemàexperiênciadaquilocomqueseocupam.Ao
desejar,comoqueporumgolpedeborracha,apagarotodo,desenvolvem
afinidadescomabarbárie,eassuassimpatiassãoinegavelmentecomomais
primitivo,omenosdiferenciado,pormaisqueissotambémestejaem
contradiçãocomopróprioestágiodedesenvolvimentodaforçadeprodução
intelectual.Arejeiçãoperemptóriadaculturatornasepretextoparapromover
osmaisrudes,osmais"saudáveis",elesmesmosrepressivos,esobretudopara
resolverobstinadamenteafavordasociedadeoeternoconflitoentresociedade
eindivíduoumconflitoquedeixamarcasemambossegundooscritérios
dosadministradoresqueseapoderaramdasociedade.Apartirdesseponto,
bastaumpassoparaareintroduçãooficialdacultura.Oprocedimento
imanente,porseromaisessencialmentedialético,resistecontraisso.Elelevaa
sériooprincípiodequeonãoverdadeironãoéaideologiaemsi,masasua
pretensãodecoincidircomarealidade.Críticaimanentedeformações
espirituaissignificaentender,naanálisedesuaconformaçãoedeseusentido,a
contradiçãoentreaidéiaobjetivadessasformaçõeseaquelapretensão,
nomeandoaquiloqueexpressa,emsi,aconsistênciaeainconsistênciadessas
formações,emfacedaconstituiçãodaexistência.Umacríticacomoestanãose
limitaaoreconhecimentogeraldaservidãodoespíritoobjetivo,masprocura
transformaressereconhecimentoemforçadeobservaçãodaprópriacoisa.A
compreensãodanegatividadedaculturaéconcludentequandodemonstra
seraprovacerteiradaverdadeouinverdadedeumconhecimento,dacoerência
ouincoerênciadeumpensamento,doacertooudesacertodeumaformação,da
substancialidadeounulidadedeumafiguradelinguagem.Quandodeparacom
insuficiências,nãoasatribuiprecipitadamenteaoindivíduoesuapsicologia,ouà
meraimagemencobridoradofracasso,masprocuraderiválasda
irreconciliabilidadedosmomentosdoobjeto.Essacríticaperseguealógicade
suasaporias,ainsolubilidadeintrínsecaàprópriatarefa.Compreendenestas
antinomiasasantinomiassociais.Paraacríticaimanenteumaformaçãobem
sucedidanãoé,porém,aquelaquereconciliaascontradiçõesobjetivasno
engododaharmonia,massimaqueexprimenegativamenteaidéiade
59
harmonia,aoimprimirnasuaestruturamaisíntima,demaneirapuraefirme,as
contradições.Diantedessasformações,perdesentidoovereditodequealgoé
"meraideologia".Aomesmotempo,noentanto,acríticaimanentenãocansade
pôremevidênciaquetodoespírito,atéhoje,encontrasesubmetidoauma
interdição.Elenãotemopoderdesuspender,apartirdesimesmo,as
contradiçõesnasquaistrabalha.Mesmoamaisradicalreflexãoquantoao
própriofracassoélimitadapelofatodequepermaneceapenasumareflexão,
semalteraraexistênciaquetestemunhaofracassodoespírito.Porissoacrítica
imanentenãoconsegueseconfortarcomseuconceito.Elanãoévaidosao
suficienteparaacreditarquesuaimersãonoespíritocorresponderia
imediatamenteàlibertaçãodeseucativeiro,nemésuficientementeingênua
paraacreditarque,porforçadalógicadacoisa,afirmeimersãonoobjetolevaria
àverdade,comoseoconhecimentosubjetivosobreatotalidadenãose
imiscuísseatodoinstante,comoquevindodefora,nadeterminaçãodoobjeto.
Quantomenosométododialéticopodehojepressuporaidentidadehegeliana
desujeitoeobjeto,tantomaiseleestáobrigadoalevaremcontaadualidade
dosmomentos,arelacionaroconhecimentodasociedadeenquantototalidade,
bemcomooconhecimentodaimbricaçãodoespíritonela,comapretensãodo
objetoaserreconhecidoenquantotal,segundooseuconteúdoespecífico.Por
issoadialéticanãopermitequenenhumaexigênciadepurezalógicaaimpeçade
passardeumgêneroaoutro,defazercomqueacoisafechadasobresiprópria
seilumineatravésdoolharvoltadoparaasociedade,deapresentaràsociedade
acontaqueacoisanãoécapazdepagar.Porfim,aprópriaoposiçãoentreum
conhecimentoqueseimponhadeforaeumqueseimponhadedentrotornase,
paraométododialético,suspeitadeserumsintomadaquelareificaçãoqueeleé
obrigadoadenunciar.Àatribuiçãoabstrataaumpensamentoigualmente
administrativo,noprimeirocaso,corresponde,nosegundo,ofetichismodeum
objetoqueécegoquantoasuagênese,quesetomouprerrogativado
especialista.Masseaconsideraçãoobstinadamenteimanenteameaçarecairno
idealismo,nailusãodeumespíritoautosuficientequedispõesobresiesobrea
realidade,assimtambémaconsideraçãotranscendentecorreoriscode
esquecerotrabalhodoconceitoesecontentarcomarotulaçãoprescritaem
geralotermo"pequenoburguês"ecomoucassevindodoalto.O
pensamentotopológico,quesabeolugardecadafenômenomasnãosabeas
característicasdenenhum,possuiumsecretoparentescocomosistema
paranóicodaloucura,queseencontraalheioàexperiênciadoobjeto.Omundo
passaaserdivididoempretoebrancoporcategoriasquegiramemfalso,e
destaformaépreparadoparaadominação,contraaqualosconceitoshaviam
sidooutroraconcebidos.Nenhumateoria,nemsequeraverdadeira,estásegura
dejamaisseperverteremsuposição,sealgumavezrenunciaraumarelação
60
espontâneacomoobjeto.Adialéticatemdeseresguardarcontraessa
perversãotantoquantotemdeseprotegerdoperigodeficaraprisionadapelo
objetocultural.Nãodevesesujeitaraocultodoespírito,nemàhostilidade
contraoespírito.Ocríticodialéticodaculturadeveparticiparenãoparticiparda
cultura.assimfarájustiçaàcoisaeasimesmo.
Atradicionalcríticatranscendentedaideologiaéobsoleta.Porprincípio,
devidoàtransposiçãodiretadoconceitodecausalidadedoâmbitodanatureza
físicaparaodasociedade,ométodosucumbeexatamenteàquelareificaçãoque
temcomotemacrítico,regredindoaumaposiçãoinferioraseupróprioobjeto.
Mesmoassim,ométodotranscendentepodeinvocar,emsuadefesa,que
utilizaconceitosessencialmentereificadosnamedidaemqueaprópria
sociedadeestáreificadaquecomacruezaerigidezdoconceitodecausalidade
colocaumaespéciedeespelhodiantedasociedade,queporsuaveztranspõe
paraoespíritoasuaprópriacruezaerigidez,bemcomoasuadegradação.Mas
atenebrosasociedadeunitárianãotoleramaissequeraquelesmomentos
relativamenteautônomosedistanciados,aosquaisoutrorasereferiaateoriada
dependênciacausalentresuperestruturaeinfraestrutura.Nessaprisãoaoar
livreemqueomundoestásetransformando,nemimportamaisoque
dependedoquê,poistudosetornouuno.Todososfenômenosenrijecemseem
insígniasdadominaçãoabsolutadoqueexiste.Nãomaisideologianosentido
própriodefalsaconsciência,massomentepropagandaafavordomundo,
medianteasuaduplicaçãoeamentiraprovocadora,queopretendeser
acreditada,masquepedeosilêncio.Exatamenteporissoaquestãoda
dependênciacausaldacultura,quelogoressoacomoavozdaquiloquelhe
impõeadependência,contémalgodeprimitivo.Nofimdascontas,entretanto,
atémesmoométodoimanenteéatingidoporisso.Eleéarrastadoporseu
objetoparaoabismo.Aculturamaterialisticamentetransparentenãosetornou
materialisticamentemaishonesta,apenasmaisvulgar.Comaperdadesua
própriaparticularidade,perdeutambémosaldaverdade,queantigamente
consistiaemsuaoposiçãoaoutrasparticularidades.Colocáladianteda
responsabilidadequerecusaéapenasafirmarsuapretensãoderelevância
cultural.Neutralizadaepréfabricada,atotalidadedaculturatradicionalacaba
sendohojeaniquilada:atravésdeumprocessoinexorável,asuaherança,
reclamadapelosrussoscomarvirtuoso,tornousedispensávelesupérfluaem
largaescala,umrefugoparaoqualosmercadoresdaculturademassaspodem,
então,novamenteapontarcomumsorrisoirônico,queelesatratam
exatamentedessaforma.Quantomaistotalitáriaforasociedade,tantomais
reificadoserátambémoespírito,etantomaisparadoxalseráoseuintentode
escaparporsimesmodareificação.Mesmoamaisextremadaconsciênciado
61
perigocorreoriscodedegeneraremconversafiada.Acríticaculturalencontra
sediantedoúltimoestágiodadialéticaentreculturaebarbárie:escreverum
poemaapósAuschwitzéumatobárbaro,eissocorróiatémesmoo
conhecimentodeporquehojesetornouimpossívelescreverpoemas.Enquanto
oespíritocríticopermaneceremsimesmoemumacontemplaçãoauto
suficiente,nãoserácapazdeenfrentarareificaçãoabsoluta,quepressupõeo
progressodoespíritocomoumdeseuselementos,equehojesepreparapara
absorvêlointeiramente.
(1949)
TraduçãodeAugustinWerneteJorgeM.B.de
Almeida.PublicadooriginalmenteemPrismas,São
Paulo,Ática,1998.
62
TEMPOLIVRE
Aquestãodotempolivre:oqueaspessoasfazemcomele,quechances
eventualmenteofereceoseudesenvolvimento,nãopodeserformuladaem
generalidadeabstrata.Aexpressão,deorigemrecente,aliásantessedizia
ócio,eesteeraumprivilégiodeumavidafolgadae,portanto,algo
qualitativamentedistintoemuitomaisgrato,mesmodesdeopontodevistado
conteúdo—,apontaaumadiferençaespecíficaqueodistinguedotemponão
livre,aquelequeépreenchidopelotrabalhoe,poderíamosacrescentar,na
verdade,determinadodesdefora.Otempolivreéacorrentadoaoseuoposto.
Estaoposição,arelaçãoemqueelaseapresenta,imprimelhetraçosessenciais.
Alémdomais,muitomaisfundamentalmente,otempolivredependeráda
situaçãogeraldasociedade.Masesta,agoracomoantes,mantémaspessoas
sobumfascínio.Nememseutrabalho,nememsuaconsciênciadispõemdesi
mesmascomrealliberdade.Atémesmoaquelassociologiasconciliadorasque
utilizamoconceitodepapéiscomochavereconhecemisso,enquanto,como
sugereesseconceitodepapéistomadodoteatro,aexistênciaqueasociedade
impõeàspessoasnãoseidentificacomoqueaspessoassãooupoderiamser
emsimesmas.Decerto,nãosepodetraçarumadivisãotãosimplesentreas
pessoasemsieseusassimchamadospapéissociais.Estespenetram
profundamentenasprópriascaracterísticasdaspessoas,emsuaconstituição
íntima.Numaépocadeintegraçãosocialsemprecedentes,ficadifícil
estabelecer,deformageral,oquerestanaspessoas,alémdodeterminadopelas
funções.Istopesamuitosobreaquestãodotempolivre.Nãosignificamenosdo
que,mesmoondeoencantamentoseatenuaeaspessoasestãoaomenos
subjetivamenteconvictasdequeagemporvontadeprópria,essavontadeé
modeladaporaquilodequedesejamestarlivresforadohoráriodetrabalho.A
indagaçãoadequadaaofenômenodotempolivreseria,hoje,porventura,esta:
"Queocorrecomelecomoaumentodaprodutividadenotrabalho,mas
persistindoascondiçõesdenãoliberdade,istoé,sobrelaçõesdeproduçãoem
queaspessoasnasceminseridaseque,hojecomoantes,lhesprescrevemas
regrasdesuaexistência?".agora,otempolivreaumentousobremaneira;
63
graçasàsinvenções,aindanãototalmenteutilizadasemtermoseconômicos
noscamposdaenergiaatômicaedaautomação,poderáaumentarcadavez
mais.Sesequisesseresponderàquestãosemasserçõesideológicas,tornarseia
imperiosaasuspeitadequeotempolivretendeemdireçãocontráriaàdeseu
próprioconceito,tornandoseparódia;deste.Neleseprolongaanãoliberdade,
tãodesconhecidadamaioriadaspessoasnãolivrescomoasuanãoliberdade,
emsimesma.
Paraesclareceroproblema,eugostariadefazerusodeumapequena
experiênciapessoal.Ementrevistaselevantamentosdedados,sempreseé
questionadosobreoseuhobby.Quandoasrevistasilustradasinformama
respeitodealgumfigurãodaindústriacultural,falardosquaisé,porsuavez,a
ocupaçãoprincipaldaindústriacultural,poucasvezesperdemoensejode
relataralgomaisoumenosíntimosobreoshobbiesdosmesmos.Quandome
tocaessaquestão,ficoapavorado:Eunãotenhoqualquerhobby.Nãoqueeu
sejaumabestadetrabalhoquenãosabefazerconsigonadaalémdeesforçarse
efazeraquiloquedevefazer.Masaquilocomoquemeocupoforadaminha
profissãooficialé,paramim,semexceção,tãosérioquemesentiriachocado
comaidéiadequesetratassedehobbies,portantoocupaçõesnasquaisme
jogariaabsurdamenteparamatarotempo,seminhaexperiênciacontratodo
tipodemanifestaçõesdebarbáriequesetomaramcomoquecoisasnaturais
nãometivesseendurecido.Compormúsica,escutarmúsica,ler
concentradamente,sãomomentosintegraisdaminhaexistência,apalavra
hobbyseriaescárnioemrelaçãoaelas.Inversamente,meutrabalho,aprodução
filosóficaesociológicaeoensinonauniversidade,têmmesidotãogratosatéo
momentoquenãoconseguiriaconsideráloscomoopostosaotempolivre,como
ahabitualmentecortantedivisãorequerdaspessoas.Semdúvida,estou
conscientedequeestoufalandocomoprivilegiado,comacotadecasualidadee
deculpaqueistocomporta;comoalguémqueteveararachancedeescolhere
organizarseutrabalhoessencialmentesegundoasprópriasintenções.Esse
aspectoconta,nãoemúltimolugar,paraofatodequeaquiloquefaçoforado
horáriodetrabalhonãoseencontreemestritaoposiçãoemrelaçãoaeste.Caso
umdiaotempolivresetransformasseefetivamentenaquelasituaçãoemque
aquiloqueantesforaprivilégioagorasetornassebenefíciodetodosealgo
dissoalcançouasociedadeburguesa,emcomparaçãocomafeudal—,eu
imaginariaestetempolivresegundoomodeloqueobserveiemmimmesmo,
emboraessemodelo,emcircunstânciasdiferentes,ficasse,porsuavez,
modificado.
QuandoseaceitacomoverdadeiroopensamentodeMarx,dequena
sociedadeburguesaaforçadetrabalhotornousemercadoriae,porisso,o
64
trabalhofoicoisificado,entãoapalavrahobbyconduzaoparadoxodeque
aqueleestado,queseentendecomoocontráriodecoisificação,comoreserva
devidaimediataemumsistematotalcompletamentemediado,é,porsuavez,
coisificadodamesmamaneiraquearígidadelimitaçãoentretrabalhoetempo
livre.Nesteprolongamseasformasdevidasocialorganizadasegundooregime
dolucro.
Aprópriaironiadaexpressãonegóciosdotempolivre[Freizeitgeschifflestá
tãoprofundamenteesquecidaquantoselevaasériooshowbusiness.Ébem
conhecido,enemporissomenosverdadeiro,queosfenômenosespecíficosdo
tempolivrecomooturismoeocampingsãoacionadoseorganizadosemfunção
dolucro.Simultaneamente,adistinçãoentretrabalhoetempolivrefoiincutida
comonormaaconsciênciaeinconsciênciadaspessoas.Como,segundoamoral
dotrabalhovigente,otempoemqueseestálivredotrabalhotemporfunção
restauraraforçadetrabalho,otempolivredotrabalhoprecisamenteporque
éummeroapêndicedotrabalhovemaserseparadodestecomzelopuritano.
Aquinosdeparamoscomumesquemadecondutadocaráterburguês.Porum
lado,deveseestarconcentradonotrabalho,nãosedistrair,nãocometer
disparates;sobreessabase,repousououtroraotrabalhoassalariado,esuas
normasforaminteriorizadas.Poroutrolado,deveotempolivre,provavelmente
paraquedepoissepossatrabalharmelhor,nãolembraremnadaotrabalho.
Estaéarazãodaimbecilidadedemuitasocupaçõesdotempolivre.Porbaixodo
pano,porém,sãointroduzidas,decontrabando,formasdecomportamento
própriasdotrabalho,oqualnãofolgaàspessoas.Nosboletinsescolares,
haviaoutroranotasparaaatenção.Issocorrespondiaaocuidado,talvez
subjetivamentebemintencionado,dospaisdequeascriançasnãose
esforçassemdemaisnotempolivre:nãolerdemais,nãodeixaraluzacesapor
muitotempoànoite.Secretamente,ospaisfarejavamportrásdissouma
rebeldiadoespíritoou,também,umainsistêncianoprazer,aqualé
incompatívelcomadivisãoracionaldaexistência,Todamescla,aliás,todafalta
dedistinçãonítida,inequívoca,tornasesuspeitaaoespíritodominante.Essa
rígidadivisãodavidaemduasmetadesenalteceacoisificaçãoqueentrementes
subjugouquasecompletamenteotempolivre.
Podemosesclareceristodemaneirasimplesatravésdaideologiadohobby.
Nanaturalidadedaperguntasobrequalhobbysetemestásubentendidoquese
deveterum,porventura,tambémescolhidodeacordocomaofertado
negóciodotempolivre.Liberdadeorganizadaécoercitiva.Aidetisenãotens
umhobby,senãotensocupaçãoparaotempolivreentãotuésumpretensioso
ouantiquado,umbichoraro,ecaisemridículoperanteasociedade,aqualte
impingeoquedeveseroteutempolivre.Talcoaçãonãoé,denenhummodo,
65
somenteexterior.Elaseligaàsnecessidadesdaspessoassobumsistema
funcional.Nocamping—noantigomovimentojuvenil,gostavasedeacampar
haviaprotestocontraotédioeoconvencionalismoburgueses.Oqueosjovens
queriamerasair,noduplosentidodapalavra.Passaranoiteacéuaberto
equivaliaaescapardacasa,dafamília.Essanecessidade,depoisdamortedo
movimentojuvenil,foiaproveitadaeinstitucionalizadapelaindústriado
camping.Elanãopoderiaobrigaraspessoasacomprarbarracasemotorhomes,
alémdeinúmerosutensíliosauxiliares,sealgonaspessoasnãoansiasseporisso;
mas,apróprianecessidadedeliberdadeéfuncionalizadaereproduzidapelo
comércio;oqueelasqueremlhesémaisumavezimposto.Porisso,aintegração
dotempolivreéalcançadasemmaioresdificuldades;aspessoasnãopercebem
oquantonãosãolivresondemaislivressesentem,porquearegradetal
ausênciadeliberdadefoiabstraídadelas.
Seoconceitodetempolivre,emoposiçãoaodetrabalho,écolocadode
maneiratãoestrita,como,aomenos,correspondeaumavelhaideologia,hoje
talvezultrapassada,entãoelesetornaalgonuloHegelteriadito:abstrato.
Exemplaréocomportamentodaquelesquesedeixamqueimaraosol,por
amoraobronzeadoe,emboraoestadodeletargiaaplenosolnãoseja
prazerosodemaneiranenhuma,etalvezdesagradávelfisicamente,ocertoéque
tornaaspessoasespiritualmenteinativas.Ocaráterfetichistadamercadoriase
apodera,atravésdobronzeadodapeleque,deresto,podeficarmuitobem
daspessoasemsi;elassetransformamemfetichesparasimesmas.Aidéia
dequeumagarota,graçasàsuapelebronzeada,tenhaumatrativoerótico
especial,éprovavelmenteapenasumaracionalização.Obronzeadotornouse
umfimemsi,maisimportantequeoflerteparaoqualtalvezdevesseservirem
princípio.Quandoumfuncionárioretornadasfériassemterobtidoacor
obrigatória,podeestarcertodequeoscolegasperguntarãomordazes:"Masnão
estavasdeférias?"Ofetichismoquemedranotempolivreestásujeitoa
controlessociaissuplementares.Queaindústriadoscosméticos,comsua
propagandaavassaladoraeinevitável,contribuaparaissoétãonaturale
evidentequantooéqueaspessoascondescendentesoreprimam.
Noestadodeletargiaculminaummomentodecisivodotempolivrenas
condiçõesatuais:otédio.Insaciáveissãotambémassátirassobreasmaravilhas
queaspessoasesperamdasviagensdefériasoudequalquersituação
excepcionaldotempolivre,enquantotampoucoaquiconseguemescapardo
sempreigual;quenãosedissipamais,comooennui(enfado)deBaudelaire,
comadistância.Gracejosemrelaçãoàvítimasãooacompanhamentodos
mecanismosqueatomamtal.Schopenhauerformuloucedoumateoriasobreo
tédio.Deacordocomoseupessimismometafísico,eleensinavaque,ouas
66
pessoassofrempeloapetiteinsatisfeitodesuacegavontade,ouseentediam
tãoprontoaqueleestejasatisfeito.Ateoriadescrevemuitobemoqueocorre
comotempolivredaspessoassobaquelascondições,queKantteria
denominadosituaçãodeheteronomiaeque,hoje,emalemãomoderno,se
costumachamardeheterodeterminação;tambémoarroganteditode
Schopenhauerdequeaspessoassãoprodutosfabrisdanaturezaatinge,através
deseucinismo,algodaquiloquedeterminanaspessoasatotalidadedocaráter
demercadoria.Seuiradocinismosempreasdignificamaisdoqueassolenes
afirmaçõesdequeelaspossuemumnúcleoimperdível.Apesardisso,ateoria
schopenhaueriananãodeveserhipostasiada,nemserconsideradapurae
simplesmenteválidaou,porventura,serencaradacomocondiçãooriginalda
espéciehumana.Otédioexisteemfunçãodavidasobacoaçãodotrabalhoe
sobarigorosadivisãodotrabalho.Nãoteriaqueexistir.Semprequeaconduta
notempolivreéverdadeiramenteautônoma,determinadapelaspróprias
pessoasenquantosereslivres,édifícilqueseinstaleotédio;tampoucoalionde
elasperseguemseuanseiodefelicidade,ouondesuaatividadenotempolivreé
racionalemsimesma,comoalgoemsiplenodesentido.Oprópriobobear
[Blikleln]nãoprecisaserobtuso,podendoserbeatificamentedesfrutadocomo
dispensadosautocontroles.Seaspessoaspudessemdecidirsobresimesmase
sobresuasvidas,senãoestivessemencerradasnosempreigual,entãonãose
entediariam.Tédioéoreflexodocinzaobjetivo.Ocorrecomelealgo
semelhanteaoquesecomaapatiapolítica.Arazãomaisimportantepara
estaúltimaéosentimento,denenhummodoinjustificadodasmassas,deque,
comamargemdeparticipaçãonapolíticaquelheséreservadapelasociedade,
poucopodemmudaremsuaexistência,bemcomo,talvez,emtodosossistemas
daterraatualmente.Onexoentreapolíticaeosseusprópriosinteresseslhesé
opaco,porissorecuamdiantedaatividadepolítica.Emíntimarelaçãocomo
tédioestáosentimento,justificadoouneurótico,deimpotência:tédioéo
desesperoobjetivo.Mas,aomesmotempo,tambémaexpressãode
deformaçõesqueaconstituiçãoglobaldasociedadeproduznaspessoas.Amais
importante,semdúvida,éadetraçãodafantasiaeseuatrofiamento.Afantasia
ficatãosuspeitaquantoacuriosidadesexualeoanseiopeloproibido,assim
comodelasuspeitaoespíritodeumaciênciaquenãoémaisespírito.Quem
quiseradaptarse,deverenunciarcadavezmaisàfantasia.Emgeral,mutilada
poralgumaexperiênciadaprimeirainfância,nemconseguedesenvolvêla.A
faltadefantasia,implantadaeinsistentementerecomendadapelasociedade,
deixaaspessoasdesamparadasemseutempolivre.Aperguntadescaradasobre
oqueopovofarácomtodootempolivredequehojedispõecomoseeste
fosseumaesmolaenãoumdireitohumanobaseiasenisso.Que
efetivamenteaspessoasconsigamfazertãopoucodeseutempolivresedeve
67
aque,deantemão,lhesfoiamputadooquepoderiatornarprazerosoo
tempolivre.Tantoelelhesfoirecusadoedifamadoquenemoqueremmais.
Adiversão,porcujasuperficialidadeoconservadorismoculturalasesnobaou
injuria,lhesénecessáriaparaforjarnohoráriodetrabalhoaquelatensãoqueo
ordenamentodasociedade,elogiadoporestemesmoconservadorismocultural,
exigedelas.Estanãoéaúltimadasrazõesporqueaspessoasseguem
acorrentadasaotrabalhoeaosistemaqueasadestraparaotrabalhodepois
que,emgrandemedida,elenemnecessitariadessetrabalho.
Sobascondiçõesvigentes,seriainoportunoeinsensatoesperarouexigirdas
pessoasquerealizemalgoprodutivoemseutempolivre,umavezquese
destruiunelasjustamenteaprodutividade,acapacidadecriativa.Aquiloque
produzemnotempolivre,namelhordashipóteses,nemémuitomelhorqueo
ominosohobby:imitaçõesdepoesiasoupinturas,asquais,sobadivisãodo
trabalho,dificilmenterevogável,outrosfazembemmelhorqueosartistasdas
horasvagas[Freizeitler]oqueproduzemtemalgodesupérfluo.Essa
superfluidadecomunicaseàqualidadeinferiordaprodução,ficando,comisso,
estragadaaalegriadotrabalho.
Tambémaatividadesupérfluaesemsentidodotempolivreésocialmente
integrada.Novamenteentraemjogoumanecessidadesocial.Certasformasde
serviços,emespecialosdomésticos,extinguemse;ademandaédespropor
cionalemrelaçãoàoferta.NosEstadosUnidos,somentepessoasrealmente
abastadaspodemmantercriadas;aEuropaseguerapidamentepelomesmo
caminho.Istoobrigamuitaspessoasarealizaratividadessubalternasqueantes
eramdelegadas.Aissosevinculaolema"Doityourself","Façavocêmesmo",
comoconselhoprático;semdúvida,tambémnofastioqueaspessoas
experimentamanteamecanizaçãoqueasaliviadeumacargasemqueelase
essefatonãoécontestável,somentesuainterpretaçãohabitualsaibamfazer
usodotempoganho.Daíque,novamentenointeressedeindústrias
especializadas,sejamencorajadasafazerelasmesmasoqueoutrospoderiam
fazerporelasmelhoremaisfacilmenteeque,nofundo,porissomesmo,elas
têmquedesdenhar.Deresto,pertenceaumacamadamuitoantigada
consciênciaburguesaqueodinheirogastocomserviçais,nasociedadede
divisãodotrabalho,poderiasereconomizado,porobstinadointeressepessoal,
cegoaofatodequeomecanismotodosemantémvivoatravésdastrocasde
práticasespecializadas.WilhelmTell,oabominávelprotótipodeuma
personalidaderude,preconizaqueomachadoemcasaeconomizaocarpinteiro;
assimtambém,dasmáximasdeSchiller,poderseiacompilartodauma
ontologiadaconsciênciaburguesa.
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O"Doityourself",umtipodecomportamentorecomendadoatualmente
paraotempolivre,inscrevese,nãoobstante,emumcontextomaisamplo.Eu
odesignei,maisdetrintaanosatrás,comopseudoatividade.Desdeentão,a
pseudoatividadeampliouseassustadoramente,tambémeprecisamenteentre
aquelesquesesentemcomoquestionadoresdasociedade.Deumaformageral,
podesepresumir,napseudoatividade,umanecessidaderepresadade
mudançasnasrelaçõesfossilizadas.Pseudoatividadeéespontaneidademal
orientada.Malorientada,masnãoporacaso,esimporqueaspessoas
pressentemsurdamentequãodifícilseriaparaelasmudaroquepesasobreseus
ombros.Preferemdeixarsedesviarparaatividadesaparentes,ilusórias,para
satisfaçõescompensatóriasinstitucionalizadas,atomarconsciênciadequão
obstruídaestáhojetalpossibilidade.Pseudoatividadessãoficçõeseparódias
daquelaprodutividadequeasociedade,porumlado,reclamaincessantemente
e,poroutrolado,refreiaenãoquermuitonosindivíduos.Tempolivreprodutivo
seriapossívelparapessoasemancipadas,nãoparaaquelasque,soba
heteronomia,tornaramseheterônomastambémparasipróprias.
Tempolivre,entretanto,nãoestáemoposiçãosomentecomtrabalho.Em
umsistema,noqualoplenoempregotornouseumidealemsimesmo,otempo
livreseguediretamenteotrabalhocomosuasombra.Aindafazfaltauma
penetrantesociologiadoesporte,sobretudodoespectadoresportivo.Todavia,
pareceevidenteahipótese,entreoutras,deque,medianteosesforços
requeridospeloesporte,medianteafuncionalizaçãodocorponoteam,quese
realizaprecisamentenosesportesprediletos,aspessoasadestramsesemsabê
loparaasformasdecomportamentomaisoumenossublimadasquedelasse
esperanoprocessodotrabalho.Avelhaargumentaçãodequesepraticaesporte
parapermanecerfitéfalsapelofatodecolocarafitnesscomofimemsi;
fitnessparaotrabalhoécontudoumadasfinalidadessecretasdoesporte.De
muitasmaneiras,noesporte,nósnosobrigaremosafazercertascoisase
entãogozaremoscomosendotriunfodapróprialiberdadeque,sobapressão
social,nóstemosqueobrigarnosafazereaindatemosqueacharpalatável.
Permitammeaindaumapalavrasobrearelaçãoentreotempolivreea
indústriacultural.Sobreesta,enquantomeiodedomínioedeintegração,foi
escritotantodesdequeHorkheimereeuintroduzimososeuconceitomaisde
vinteanos,quemelimitareiadestacarumproblemaespecíficodequenão
conseguimosdarnoscontanaocasião.Ocríticodaideologiaqueseocupada
indústriaculturalhaverádeinclinarseparaaopiniãodequeumavezqueos
standardsdaindústriaculturalsãoosmesmosdosvelhospassatemposedaarte
menor,congeladoseladominaecontrola,defatoetotalmente,aconsciência
einconsciênciadaquelesaosquaissedirigeedecujogostoelaprocede,desdea
69
eraliberal.Alémdisso,motivosparaadmitirqueaproduçãoregulao
consumotantonavidamaterialquantonaespiritual,sobretudoaliondese
aproximoutantodomaterialcomonaindústriacultural.Deveríamos,portanto,
pensarqueaindústriaculturaleseusconsumidoressãoadequadosumaooutro.
Como,porém,aindústriacultural,entretanto,tornousetotalmentefenômeno
dosempreigual,doqualprometeafastartemporariamenteaspessoas,édese
duvidarseaequaçãoentreaindústriaculturaleaconsciênciadosconsumidores
éprecedente.algunsanos,noInstitutodePesquisasSociaisdeFrankfurt,
realizamosumestudoconsagradoaesseproblema.Infelizmente,avaloraçãodo
materialtevequecederlugaratarefasmaisurgentes.Mesmoassim,umaligeira
vistad'olhosdessematerialpodeserrelevanteemalgunspontosparaoassim
chamadoproblemadotempolivre.Oestudoerarelativoaocasamentoda
princesaBeatriz,daHolanda,comojovemdiplomataalemãoClausvon
Amsberg.Deveríamosverificarcomoopovoalemãoreagiaaestecasamento,o
qual,difundidoportodososmeiosdecomunicaçãodemassase
minuciosamentedescritopelasrevistasilustradas,eraconsumidoduranteo
tempolivre.Dadoomododeapresentaçãoeaquantidadedeartigosqueforam
escritossobreoacontecimento,atribuindolheimportânciaextraordinária,
esperávamosquetambémostelespectadoreseosleitoresoconsiderariam
igualmenteimportante.Acreditávamos,emespecial,queoperariaahojetípica
ideologiadapersonalização,queconsisteematribuirseimportânciadesmedida
apessoasindividuaisearelaçõesprivadascontraoefetivamentedeterminante,
desdeopontodevistasocial,evidentementecomocompensaçãoda
funcionalizaçãodarealidade.Comtodaprudência,gostariadedizerquetais
expectativaseramdemasiadosimples.Oestudooferecediretamenteum
paradigmadecomoumareflexãoteóricocríticapodeaprenderdainvestigação
socialempíricaeretificarsesobreabasedesta.Esboçamsesintomasdeuma
consciênciaduplicada.Porumlado,oacontecimentofoidegustadocomoum
aquieagora,comoalgoqueavidageralmentenegaàspessoas;deviaserúnico
[einmalig],segundooclichêdamodanalinguagemalemãdehoje.Atéaqui,a
reaçãodosespectadoresencaixousenoconhecidoesquemaquetransformaem
bemdeconsumoinclusiveasnotíciasatuaise,quiçá,aspolíticas.Mas,emnosso
questionário,complementamos,paraefeitodecontrole,asperguntastendentes
aconhecerasreaçõesimediatas,comoutrasorientadasaaveriguarque
significaçãopolíticaatribuíamosinterrogadosaooalardeadoacontecimento.
Verificamosquemuitosaproporçãonãovemaocasoagora
inesperadamenteseportavamdemodobemrealistaeavaliavamcomsentido
críticoaimportânciapolíticaesocialdeumacontecimentocujasingularidade
bempropagadaoshaviamantidoemsuspensoanteateladotelevisor.Em
conseqüência,seminhaconclusãonãoémuitoapressada,aspessoasaceitame
70
consomemoqueaindústriaculturallhesofereceparaotempolivre,mascom
umtipodereserva,deformasemelhanteàmaneiracomomesmoosmais
ingênuosnãoconsideramreaisosepisódiosoferecidospeloteatroepelo
cinema.Talvezmaisainda:nãoseacreditainteiramenteneles.Éevidenteque
aindanãosealcançouinteiramenteaintegraçãodaconsciênciaedotempo
livre.Osinteressesreaisdoindivíduoaindasãosuficientementefortespara,
dentrodecertoslimites,resistiràapreensão[Sfassung]total.Istocoincidiria
comoprognósticosocial,segundooqual,umasociedade,cujascontradições
fundamentaispermaneceminalteradas,tambémnãopoderiasertotalmente
integradapelaconsciência.Acoisanãofuncionaassimtãosemdificuldades,e
menosnotempolivre,que,semdúvida,envolveaspessoas,mas,segundoseu
próprioconceito,nãopodeenvolvêlascompletamentesemqueissofosse
demasiadoparaelas.Renuncioaesboçarasconseqüênciasdisso;penso,porém,
quesevislumbraumachancedeemancipaçãoquepoderia,enfim,contribuir
algumdiacomasuaparteparaqueotempolivre[Freizeit]setransformeem
liberdade[Freizeit].
(1969)
TraduçãodeMariaHelenaRuschel.Publicado
originalmenteemPalavrasesinais,Petrópolis,Vozes,
1995
71
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