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Mesmo assim, a terminologia empregada enseja muita controvérsia, especialmente
porque não há apenas Estados no cenário internacional. Embora as organizações
intergovernamentais possam ser entendidas como entes secundários aos Estados, identifica-se
uma crescente presença de outros atores, como organizações não-governamentais e empresas
transnacionais, por exemplo. Poder-se-ia falar, então, em uma “sociedade mundial” ou
“sociedade global”, mas há intensos debates também sobre essa terminologia.
A perspectiva puramente gramatical em nada ajuda na solução. Se é verdade que,
literalmente, uma “sociedade internacional” significa uma sociedade de “nações”, não é
menos correto que, também literalmente, uma “sociedade transnacional” significa uma
sociedade que perpassa a “nação” (ou o “Estado”), e, assim, quer dizer uma sociedade de
outros integrantes além do Estado. Uma “sociedade global”, da mesma forma, poderá
significar que todos os indivíduos e coletividades do globo fazem parte dela como seus atores,
o que é evidentemente negado na perspectiva política, e pelo menos muito discutível na
perspectiva sociológica. Essa sociedade, assim, embora seja mais ampla do que
“internacional”, não pode ser entendida como totalmente “global”, experimentando-se um
momento histórico de intensa transformação.
A identificação dessa sociedade como “sociedade internacional” (LITTLE, 2000, p.
408; BEDIN, 2001, p. 243), “sociedade global” (JUNG, 2001, p. 443), “sociedade mundial”
(BUZAN, 1993, p. 339; BUZAN, 2004, p. 01; BULL, 1977, p. 279), “sociedade
transnacional” (BUZAN, 2004, p. xviii) ou “sistema de Estados” (WIGHT, 1977, p. 21), por
exemplo, envolve muito mais do que um jogo de palavras. Esse debate sobre a terminologia,
em uma perspectiva sistemática, desdobra-se em dois sentidos. O primeiro diz respeito à
natureza e à amplitude da “sociedade”, pensada no ângulo de quem a integra; o segundo tem a
ver com o problema de existir propriamente uma “sociedade” acima e além do Estado.
O primeiro debate diz respeito a como identificar a “sociedade”. Aqui, a preocupação
dos teóricos é a tentativa de retratar o seu âmbito na terminologia, ou, em outras palavras, se
ela é “internacional”, “global”, “transnacional”, “mundial” ou “de Estados”. Há componentes
históricos, epistemológicos e ideológicos nessas denominações.
Do ponto de vista histórico, a emergência da sociedade internacional decorre da atuação
dos Estados de modelo nacional. A celebração de acordos e tratados, a promoção de
atividades comuns, os seus enfrentamentos e embates e a constituição de entidades derivadas
para tratarem de interesses comuns são os exemplos mais notáveis do “internacionalismo” no
sentido mais amplo. Na modernidade, o processo de simultânea emergência, em todo o
planeta, de entidades políticas que se conformavam como Estados, e, ao mesmo tempo, em