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e as digressões de pensamento alternam entre o submeter-se, de forma resiliente e
o resistir às condições sociais e culturais para o ser mulher. Ela busca sobreviver,
jogar conforme às condições que lhe eram impostas. A narrativa constrói-se entre o
que era ofertado às mulheres e a leitura que a personagem faz daquele contexto
histórico.
Para Perrot (2005, p. 78), ser mulher nunca foi fácil, especialmente no século
XIX. No período em que a racionalidade trilhava seu caminho de consolidação, a
autora argumenta que a divisão de gêneros, papéis e espaços fortaleceu-se, com
uma definição rigorosa do “lugar da mulher”, respaldada pelo discurso científico. Em
Alias Grace, encontram-se diferentes perfis femininos, como a mãe, a prisioneira, a
patroa, a serva e a prostituta.
Naquele contexto histórico, as mulheres encontravam-se, na maioria das
vezes, frágeis e vulneráveis, pois enfrentavam a omissão social do comportamento
masculino e a insegurança jurídica, que pudesse lhes garantir direitos legais. Cavar
brechas nesse período não era tarefa simples.
Evidentemente, a irrupção de uma presença e de uma fala feminina
em locais que lhes eram até então proibidos, ou pouco familiares, é
uma inovação do século XIX que muda o horizonte sonoro.
Subsistem, no entanto, muitas zonas mudas e, no que se refere ao
passado, um oceano de silêncio, ligado à partilha desigual dos
traços, da memória e, ainda mais, da História, este relato que, por
muito tempo, ‘esqueceu’ as mulheres, como se, por serem
destinadas à obscuridade da reprodução, inenarrável, elas
estivessem fora do tempo, ou ao menos fora do acontecimento.
(PERROT, 2005, p. 9)
O controle social se concretizava em atos de violência contra aquelas que não
respeitavam os limites do entendimento tácito sobre a moralidade feminina imposta
por meio de disciplina de corpos e mentes. “Os princípios antagônicos da identidade
masculina e da identidade feminina se inscrevem, assim, sob forma de maneiras
permanentes de se servir do corpo, ou de manter a postura” (BOURDIEU, 2002, p.
48). Grace Marks também era vítima desse sistema. Como narradora, ela estabelece
os limites do que pretende tornar público de si, organizando suas memórias e
explicando o que lhe convém. Há questões sensíveis, como as dores pela perda de
duas das mais importantes figuras da vida dela – a mãe e a amiga Mary Whitney
(Rebecca Liddiard) – que são abordadas com cautela, mas ajudam a representar as
consequências e as violências (físicas ou simbólicas) sobre o feminino.