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Os textos inaugurais sobre as Américas, escritos pelos descobridores e
mais tarde pelos primeiros viajantes e colonizadores, têm uma característica
comum: negar uma identidade aos autóctones, insistindo na negatividade,
na carência e cunhando, de certa forma, uma matriz identitária marcada
pela falta e pela privação (BERND, 1992, p. 22).
Essa visão distorcida dos aborígenes ganha amplo respaldo no campo da
Filosofia do século XVIII, que, como explicam Ella Shohat e Robert Stam, estende
essa visão pejorativa e preconceituosa para os negros:
Para John Locke, os indígenas deveriam ser classificados na mesma
categoria das “crianças, idiotas e ignorantes” devido a sua incapacidade de
pensar racionalmente. E David Hume, em uma nota de rodapé de seu
ensaio de 1748 “Sobre as características nacionais”, afirma que “os negros
são naturalmente inferiores aos brancos”. [...] Immanuel Kant também tinha
suas dúvidas sobre a incapacidade intelectual dos negros, pois afirmou em
“Observações sobre o sentimento do belo e do sublime” (1764) que os
americanos “nativos e negros” eram “inferiores em suas capacidades
mentais”. [...] Voltaire, que se opunha à escravidão, também mostrou em
seu Traité de Mataphysique (1734) que acreditava na inferioridade dos
negros. E Rousseau, que afirmava que as desigualdades eram produzidas
socialmente, também acreditava que algumas culturas eram mais
desenvolvidas que outras (SHOHAT;STAM, 2006, p. 132).
Destarte, muitos escritores de renome, em estreita sintonia com uma
visão filosófica questionável, contribuíram com a instauração de um imaginário que
tanto rebaixava os colonizados quanto exaltava a ação do colonizador. Exemplo
disso é a série de narrativas criadas pelo inglês Edgar Rice Borroughs e
protagonizadas pelo protetor europeu Tarzan, cuja
genealogia e (...) história (...) remetem à configuração da modernidade
urbana industrial (centrada nos Estados Unidos da América e na Europa
Ocidental) e do colonialismo como processo histórico transcultural. Tarzan,
suas aventuras e os signos e imagens movimentados em suas narrativas
advêm como textos em que se torna legível o processo de conformação do
Ocidente como fórum cultural mundialmente hegemônico, nos três sentidos
da palavra 'fórum' assinalados por Homi Bhabha (1998, p. 45): “como lugar
de exibição e discussão pública, como lugar de julgamento e como lugar de
mercado”. A escritura da 'África' passa pelo fórum do Ocidente, embora não
esteja restrita a seus regimes simbólicos e envolva outros lugares culturais.
Tarzan habita o limiar entre uma genealogia ocidental e uma história
transcultural, possibilitando pensar a escritura da 'África' como um processo
global de produção de sentidos – o entrelaçamento de múltiplos lugares
culturais e históricos em redes globais amplas, embora irregulares, de fluxos
de comunicação, delimitando o que chamo de economia política do nome
de 'África'. (RIBEIRO, 2008, p. 11)