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Novidades
Wook vamos ler
neste verão
Entrevistas exclusivas
Joël Dicker
Isabel Stilwell
Luís de Camões
Cronologia
ilustrada
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O blogue literário da
WOOK
Gratuita
Bianual
Julho 2024
Número 12
wookacontece
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Cartoon
© Hugo van der Ding
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Wook ler se vibra com
festivais de verão
30
Wook vamos ler
neste verão
2
Entrevista exclusiva
a Isabel Stilwell
Wook se escreve
no México
José Manuel Mendes
Um poema de
Luís de Camões
32
36
40
Leve um livro
de férias
A WOOK faz 25 anos
10
Isabel Rio Novo
de A a W
Camões
Uma cronologia
ilustrada
14
16
18
Palavras Cruzadas
Francisco José Viegas
Em defesa
do mau feitio
29
26
Entrevista exclusiva
a Joël Dicker
20
PROPRIEDADE Porto Editora S.A. DIREÇÃO Luís Morais RESPONSÁVEL PELO PROJETO Vera Dantas
TEXTOS Joel Serrano, Luís Morais, Marta Rocha, Patrícia Freitas, Sara Pais, Vanessa Pereira, Vera Dantas; autores convidados: Francisco José Viegas, Isabel Rio Novo e José Manuel Mendes
DESIGN E PAGINAÇÃO Pedro Ribeiro, Aurora Sant’Ana ILUSTRAÇÃO Aurora Sant’Ana
CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Rosália Teixeira, Graciete Teixeira, Vasco Teixeira, José António Teixeira SEDE DE ADMINISTRAÇÃO E EDITOR Rua da Restauração, 365 · 4099-023 Porto
IMPRESSÃO Bloco Gráfico – Unidade Industrial da Maia Via Doutor Vasco Teixeira, 370; 4470-498 Maia NIPC 500 221 103 PERIODICIDADE Bianual
TIRAGEM 25 000 exemplares CONTACTO wookacontece@wook.pt
Registo da ERC n.º 127305 O estatuto editorial da revista Wookacontece está disponível em wook.pt/revistawookacontece
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wookacontece verão
No desenrolar dos dias longos e lânguidos, as férias de verão
são a melhor altura para pôr a leitura em dia e mergulhar em
novas aventuras literárias. Seja na praia, à beira da piscina ou
no refúgio tranquilo do campo, um bom livro tem a capacidade
de o transportar para mundos diversos e enriquecedores,
tornando as suas férias ainda mais especiais. Não sabe qual
escolher? Siga as nossas recomendações!
Literatura
A Palavra que Resta
Stênio Gardel
Um romance arrebatador sobre re-
pressão, violência e vergonha, mas
acima de tudo sobre a coragem de
lhes resistir. Uma carta guardada
durante mais de cinquenta anos e
jamais lida, que Raimundo Gau-
dêncio traz consigo. Homem anal-
fabeto, que na sua juventude teve
um amor secreto brutalmente in-
terrompido, aos 71 anos resolve
que ainda é tempo de aprender a
ler e, talvez, decifrar essa ferida
aberta do passado. Livro vencedor
do National Book Award de melhor
obra traduzida de literatura.
Leonor Teles
Isabel Stilwell
A autora bestseller traz-nos a fasci-
nante história de Leonor Teles, mal-
tratada pela História, que a apeli-
dou de «aleivosa». Entre as guerras
com Castela, intrigas e conspira-
ções familiares, Isabel Stilwell traça
o retrato de uma mulher sem
medo, que lutou por aquilo em que
acreditava e desafiou um Reino.
Casada, mãe de um rapaz, Leonor
não se deixa ficar presa nem à vida
num paço perdido, nem ao senhor
de Pombeiro, seu marido. Leonor
tem um plano e não olhará a meios
para o concretizar.
Fortuna, Caso, Tempo
e Sorte – Biografia
de Luís Vaz de Camões
Isabel Rio Novo
500 anos depois do nascimento
de Camões, esta biografia é um
avanço decisivo no conhecimento
do homem e do poeta. Reconstitui
a época para reerguer o indivíduo,
revelar aspetos escondidos durante
séculos e restituir a história de uma
personalidade extraordinária. Isabel
Rio Novo, uma das mais reconheci-
das romancistas portuguesas da
atualidade, alia a sua capacidade
de investigação ao rigor e à desco-
berta de informações importantes
sobre a vida e obra de Camões.
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Amor Redesenhado
Lauren Asher
Primeiro livro da nova série Bilioná-
rios de Lake Wisteria. Julian e
Dahlia conhecem-se desde a in-
fância – e odeiam-se apaixonada-
mente. Quando Dahlia regressa a
casa em Lake Wisteria para recu-
perar do seu noivado rompido,
Julian faz-lhe uma oferta sedutora.
Os sentimentos conflituantes, as
discussões acaloradas e a atração
reprimida durante anos atrapalham
a relação entre os dois. Durante
quanto tempo conseguirão resistir
ao desejo? E conseguirão superar
juntos as diferenças do passado?
Binding 13
Chloe Walsh
Johnny Kavanagh nasceu para bri-
lhar no râguebi, e nada pode distraí-
-lo da sua escalada para o sucesso.
Nada, exceto a recém-chegada ao
Colégio Tommen, a misteriosa e
complicada Shannon Lynch. Quem
é realmente aquela rapariga de
olhos tristes? Entre violência, pai-
xão, raiva e segredos indizíveis, sur-
ge uma atração que não conhece
regras e que ameaça alterar irrever-
sivelmente o jogo das suas vidas.
O Efeito Graham
Elle Kennedy
É o primeiro volume da nova série
Campus Diaries, um spin-off da
série de sucesso Off-Campus. Gigi
é uma das melhores jogadoras de
hóquei no gelo da Universidade
Briar, mas quer conquistar uma me-
dalha de ouro olímpica. Para isso, vai
precisar da ajuda do arrogante, em-
bora absurdamente talentoso, Luke
Ryder, cocapitão da equipa universi-
ria. Mas também ele tem objetivos
definidos e problemas para ultra-
passar
Rei da Ganância
Ana Huang
Gentil, inteligente e sensível, Ales-
sandra Davenport desempenhou o
papel de “mulher troféu” durante
anos, mantendo-se em segundo
plano enquanto ele construía um
império. Mas, agora, sente que ele
já não é o homem por quem se
apaixonou, e decide assumir as ré-
deas da sua vida – mesmo tendo
de abandonar o único homem que
amou. Não esperava era que ele se
recusasse a deixá-la ir, e lutasse
pelo casamento de ambos…
Aquorea – Expira: Mundos
Secretos
M. G. Ferrey
O 2.º volume da saga Aquorea re-
vela segredos antigos, inimigos po-
derosos e paixões destinadas a
acontecer. Depois de abandonar
Aquorea, Ara luta para se adaptar
novamente à Supercie. Já Kai,
mesmo com o caos instalado, não
aceita estar separado de Ara.
Quando uma nova ameaça surge,
lembrando que a traição pode vir
de onde menos se espera, enfren-
tarão inúmeros desafios, enquanto
testam as fronteiras do impossível.
Powerless
Lauren Roberts
Nesta trilogia bestseller, apenas os
Elites, extraordinários, pertencem
ao reino de Ilya. Possuem poderes
há décadas, que lhes foram dados
pela Peste, enquanto os que nas-
cem Vulgares são banidos do reino
e afastados da sociedade. Paedyn
é uma Vulgar que se faz passar por
Elite. Até que, sem o suspeitar, sal-
va um dos príncipes de Ilya, Kai
Azer. Ela é tudo o que ele sempre
caçou. Ele é tudo o que ela sempre
fingiu ser.
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O Trono dos Vencidos
Kerri Maniscalco
Depois da conclusão da trilogia O
Reino dos Malditos com O Reino
das Temíveis, no final de 2023,
esta é a muito aguardada estreia
de Kerri Maniscalco na fantasia
adulta. Num mundo de pecado e
magia, o Príncipe Inveja, vilão sem
escrúpulos, é desafiado para um
jogo mortal. Envolvido com Camilla,
mulher virtuosa, embarca com ela
numa jornada perigosa pelo sub-
mundo, enfrentando enigmas e
magia, enquanto tentam evitar a
armadilha mais perigosa: o amor.
A Criada Está a Ver
Freida McFadden
Millie está de volta! Depois de A
Criada e O Segredo da Criada, Frei-
da McFadden regressa ao universo
da empregada mais famosa do
mundo literário. Millie costumava
limpar a casa de outras pessoas.
Nem conseguia acreditar que, ago-
ra, tinha uma casa realmente dela...
Mas a mulher que vive do outro
lado da rua cruza-se com ela, e as
suas palavras arrepiam-na até aos
ossos: «Tenham cuidado com os
vossos vizinhos
Um Animal Selvagem
Joël Dicker
2 de julho de 2022: dois delin-
quentes preparam-se para assaltar
uma joalharia em Genebra. Vinte
dias antes, Sophie Braun prepara-
-se para o seu 40.º aniversário. O
marido oculta grandes segredos. O
vizinho, agente da polícia, é obceca-
do por ela. E um homem misterioso
oferece-lhe um perigoso presente.
Serão necessárias muitas viagens
ao passado para traçar as origens
desta intriga diabólica, da qual nin-
guém escapará ileso. Nem o leitor.
Aria
Alex Michaelides
Sete amigos presos numa ilha gre-
ga, de acesso exclusivo. Um homi-
cídio. Quem, de entre eles, será o
assassino? Uma das mulheres mais
conhecidas do planeta, a ex-estrela
de cinema Lana Farrar, convida um
grupo de amigos para partilhar
umas férias paradisíacas. Dias soa-
lheiros, mar azul a perder de vista e
a oportunidade perfeita para rela-
xar. Este plano tem tudo para correr
bem, mas há segredos que teimam
em vir à tona. Longe das luzes da
ribalta, fora das redes sociais, nada
é o que parece.
Não Ficção
O Eclipse do Tempo
Vítor Cardoso
O que é o tempo? O que é a luz?
Como é que mecânica quântica
mudou a nossa visão do mundo? O
que são buracos negros e ondas
gravitacionais? De que maneira o
nosso conhecimento das leis físicas
poderá mudar no futuro? Como é
que o próprio Universo acaba? –
Vítor Cardoso apresenta os acha-
dos, as histórias e os protagonistas
dos maiores avanços e recuos na
investigação sobre estes temas, in-
cluindo ele próprio, fascinado pela
busca de respostas às grandes
questões.
Navegações
Malyn Newitt
O historiador Malyn Newitt apre-
senta-nos um novo olhar sobre a
História da exploração marítima
portuguesa e a Renascença. Newitt
analisa profundamente as questões
religiosas, políticas, económicas,
culturais e científicas que potencia-
ram este movimento, enquadran-
do-o no contexto da Europa me-
dieval e renascentista. Um processo
que importa redescobrir.
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Red Flags, Green Flags
Ali Fenwick
O psicólogo especialista em com-
portamento Ali Fenwick vai guiá-lo
através dos comportamentos noci-
vos (bandeiras vermelhas) e dos
comportamentos saudáveis (ban-
deiras verdes) das relações huma-
nas e apresentar as explicações
científicas por detrás de cada uma
delas. Melhore a sua inteligência
emocional e aprenda a compreen-
der as suas necessidades e expec-
tativas relacionais. A aplicação da
psicologia moderna a todas as si-
tuações do dia a dia.
Basta de Autocrítica!
Sophie Seromenho
Depois do enorme sucesso de ven-
das que foi o seu primeiro livro, Não
É Loucura, É Ansiedade, Sophie
Seromenho regressa com Basta de
Autocrítica!, um guia poderoso
para acalmar o seu crítico interior,
desenvolver a autoestima e superar
a vergonha. Num livro com vários
exercícios práticos, a autora mos-
tra-nos como podemos desenvol-
ver o antídoto para a autocrítica e
promover uma melhor relação con-
nosco e com os outros.
Tenha Mais Dinheiro
na Carteira
Catarina Brandão
Sente que o dinheiro voa da sua
carteira e não sabe para onde?
Quer organizar as suas finanças? A
criadora do projeto Cat Poupança,
Catarina Brandão, ajuda-o a orga-
nizar e a controlar as suas finanças
para que tenha mais dinheiro todos
os meses e viva com maior estabi-
lidade e segurança financeira. Des-
cubra como consumir de forma
mais consciente, reduzindo despe-
sas mensais e definindo objetivos
financeiros realistas.
Gastronomia
Na Travessa
Rita Nascimento
A chef pasteleira e guru de gulosos
preparou o novo livro em doses
grandes! Doces, sobremesas e bo-
los são todos feitos Na Travessa.
Tem receitas para todos os gostos:
clássicos como a sericaia; bolos e
pudins, como o bolo de cenoura e
queijo-creme ou o cheesecake sem
forno; sobremesas de colher à co-
lher como natas do céu ou tiramisu;
e ainda tartes como a tarte de li-
mão merengada.
Low FODMAP: o Livro
de Receitas Fáceis
Joana Oliveira
Depois do sucesso do primeiro li-
vro, Joana Oliveira traz-nos o livro
de receitas adaptadas à Dieta Low
FODMAP, organizado por grupos
de alimentos. Para simplificar a vida
dos seguidores desta dieta, apre-
senta 11 testes de reintrodução dos
FODMAPS e mais de 70 receitas
deliciosas, rápidas e económicas.
Todas com baixo teor em FODMAP,
sem glúten e lactose, e divididas
por método de confeção.
Para cuidar de si
Energiza-te
Alexandra Vasconcelos
Sente-se cansado, sem forças para
nada e já acorda sem energia?
A causa reside nas mitocôndrias.
Alexandra Vasconcelos revela-lhe
como pode ter uma vida com mais
energia e vitalidade. Através de 7
passos e um plano de 14 dias, vai
conseguir eliminar parasitas e car-
gas tóxicas, equilibrar as hormonas
e reprogramar a mente para uma
vida mais calma e com mais ener-
gia, adotando uma alimentação
antifadiga.
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O Livro que as Pessoas de
Quem Gosta Têm de Ler
Philippa Perry
Com simpatia, humor e conselhos
sábios e práticos, Philippa Perry,
autora d’O Livro que Gostaria que
os Seus Pais Tivessem Lido, ofere-
ce-nos orientação para desenvol-
vermos a autoconsciência de modo
a tornarmo-nos pessoas mais equi-
libradas, enfrentarmos provações
com serenidade, criarmos relações
mais saudáveis com os outros e
connosco mesmos. Aproxime-se
das pessoas mais importantes (e
aprenda a tolerar as restantes).
Sem Ti Não Vais a Lado
Nenhum
Manuel Clemente
Sem fórmulas instantâneas, este li-
vro oferece-nos uma nova perspe-
tiva sobre a vida, fazendo-nos refle-
tir sobre: Quantos sustos precisamos
de apanhar para perdermos o
medo de viver? Quanta frustração
suportaremos até decidirmos mu-
dar? Sem mudarmos algo, como
podemos esperar que algo mude?
Uma leitura profunda para quem
quer ser fiel a si próprio, porque vi-
ver em piloto automático é o que
nos afasta da rota.
Oráculo da Alma
Sofia Rito
Este oráculo é uma ferramenta que
irá trazer a clareza perante qualquer
incerteza ou processo em que se
encontre. Com este livro comple-
mentado por 36 cartas, vai alcan-
çar novos patamares no seu desen-
volvimento pessoal, trazer magia à
sua vida, espalhando-a pelo univer-
so. Permita que os seus guias espi-
rituais comuniquem consigo atra-
vés deste portal mágico, que o vai
fazer mergulhar no lugar mais pro-
fundo do seu ser.
Para os mais novos
Perla, a Cadelinha
Poderosa
Isabel Allende
Allende estreia-se na literatura in-
fantil numa encantadora e como-
vente história sobre a ligação entre
uma criança e a sua cadelinha. A
Perla tem dois superpoderes – fa-
zer com que as pessoas a adorem,
e rugir como um leão. Acolhida no
seio da família Rico, Perla vê Nico
como o seu meio-irmão humano.
Ao saber que ele tem sofrido de
bullying na escola, fará de tudo
para o proteger, mesmo que ainda
não saiba bem como.
Vamos Falar
sobre o Corpo
Jayneen Sanders e Sarah Jennings
Um livro que ensina as crianças a
compreenderem os limites corpo-
rais, o respeito, sentimentos e emo-
ções nas relações, e a identificação
de comportamentos abusivos. Es-
tes conceitos são explorados de
forma adequada e de fácil com-
preensão para as crianças, através
de cenários familiares com os quais
se identificam facilmente. Inclui
também um guia de apoio com
questões importantes para pais,
cuidadores e educadores.
O Grande Livro
das Emoções
María Menéndez-Ponte e Judi Abbot
Este livro aborda 30 emoções fun-
damentais através de histórias nas
quais os pequenos leitores irão re-
conhecer diversos sentimentos, se-
guidas de conselhos úteis para que
pais e educadores as possam tra-
balhar em conjunto. Saber identifi-
car e expressar emoções é uma
mais-valia no desenvolvimento in-
fantil, pois as crianças emocional-
mente inteligentes têm maior pro-
babilidade de serem adultos mais
felizes e bem-sucedidos.
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Not in Love
Ali Hazelwood
Rue pode não ter tudo, mas o que
tem é mais do que suficiente: ami-
gos, estabilidade financeira e uma
carreira de sucesso. Conseguiu fi-
nalmente a vida com que sempre
sonhou, até que um implacável (e
irresistivelmente sexy) homem de
negócios ameaça fazer desabar o
seu mundo. Eli quer comprar a em-
presa onde Rue trabalha a qualquer
custo e está habituado a conseguir
o que quer – com uma exceção: a
própria Rue. Divididos entre a ética
profissional e uma atração incon-
trolável, Rue e Eli acabam por não
resistir e envolvem-se num affair
proibido. A sua relação é secreta,
sem compromissos e tem um pra-
zo-limite: o dia em que uma das
suas empresas vencer. Mas, como
este novo romance da autora de
The Love Hypothesis nos mostra,
no amor e nos negócios vale tudo.
A Photo Finish
Elsie Silver
Cole conhece cada centímetro do
corpo de Violet de cor, mas o que
aconteceu entre eles online deveria
ter ficado… apenas online. No en-
tanto, se o mundo é pequeno, Ruby
Creek é-o ainda mais e, quando o
ex-soldado se muda para a peque-
na cidade, os dois são obrigados a
viver sob o mesmo teto. De cada
vez que os olhos de Violet brilham,
o gelo do coração de Cole derrete.
Ela fá-lo sonhar com o que não
pode (nem merece) ter. Mas Cole
voltou da guerra um homem dife-
rente e as suas cicatrizes são tão
profundas e antigas que podem
arruinar a vida de ambos. O plano
era manter os seus segredos es-
condidos, mas, quanto mais Cole
se abre com Violet, mais precisa
dela. Será que o passado lhes vai
permitir ter um futuro?
The Fiancé Dilemma
Elena Armas
Josie já deu todas as oportunida-
des – e mais alguma! – ao amor.
Depois de quatro noivados falha-
dos, foge de qualquer relação a
sete pés. A simples ideia de um
quinto noivado provoca-lhe náu-
seas, mas, quando o seu pai decide
abrir as portas de casa a uma revis-
ta, a vida amorosa de Josie torna-se
subitamente muito pública e a so-
lução mais fácil parece ser fazer de
conta que está… noiva. O candidato
ideal ao papel de falso namorado é
Matthew, o melhor amigo do seu
irmão, que, sem emprego, precisa
desesperadamente de um lugar
para dormir. Matthew não se im-
porta de passar por mais um noivo
que nunca chegará a marido, mas,
para tudo funcionar, nenhum deles
se pode esquecer que a paixão en-
tre eles é apenas a fingir… certo?
wookacontece verão
este novo romance da autora de
nos mostra,
no amor e nos negócios vale tudo.
se abre com Violet, mais precisa
dela. Será que o passado lhes vai
permitir ter um futuro?
se pode esquecer que a paio en-
tre eles é apenas a fingir… certo?
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Such Charming Liars
Karen M. McManus
Kat sempre viveu sozinha com a
mãe, exceto durante as escassas
quarenta e oito horas em que Ja-
mie esteve casada com o pai de
Liam. Mas isso foi há mais de uma
década e, depois do divórcio muito
rápido dos pais, Kat e Liam nunca
mais se viram. Agora, a mãe de Kat
é uma ladra de joias que planeia
um golpe durante o aniversário de
Ross Sutherland. Kat encontrou
uma forma de entrar na mansão
deste milionário, mas não imagina
que a festa contará com mais dois
convidados-surpresa: Liam e o pai.
Quando um membro da família
Sutherland morre, Kat e Liam de-
pressa percebem que eles próprios
podem estar na mira do assassino.
Só podem confiar um no outro,
mas se há algo que ambos sabem
fazer é… mentir. Afinal de contas,
aprenderam com os melhores: os
seus pais.
The Adventures of Tom
Bombadil
J. R. R. Tolkien
Divertido e enigmático, Tom Bom-
badil é uma das personagens mais
intrigantes de O Senhor dos Anéis,
aparecendo também em versos
supostamente escritos por Hobbits
e preservados no Red Book, junta-
mente com as histórias de Bilbo,
Frodo e amigos. The Adventures of
Tom Bombadil reúne estes e outros
poemas de Tolkien relacionados
com lendas do Shire. Esta edição
revista e ampliada inclui ainda ver-
sões anteriores de alguns versos, o
fragmento de uma história em pro-
sa acerca de Tom Bombadil, para
além de ilustrações de Pauline Bay-
nes e notas dos aclamados estu-
diosos de Tolkien, Christina Scull e
Wayne G. Hammond.
I Want To Die But I Still
Want To Eat Tteokbokki
Baek Sehee
Quando Baek Sehee começou a
gravar as sessões com o seu psi-
quiatra, nunca imaginou que as
suas reflexões chegariam a tanta
gente, sobretudo a tantos jovens,
um pouco por todo o mundo.
I Want to Die but I Want to Eat
Tteokbokki depressa se tornou
num bestseller muito para lá do
seu país, a Coreia do Sul, graças à
forma íntima como a autora abor-
da a sua própria depressão e an-
siedade. A luta de Baek contra a
distimia continua neste segundo
volume. O conflito interno que a
autora experiencia durante o trata-
mento vai-se tornando mais
complexo e desafiante, porque a
cura é um processo difícil, mas,
com este livro, Baek Sehee esten-
de mais uma vez a mão a todos
aqueles que lidam diariamente
com o desespero.
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Faca
Salman Rushdie
O testemunho do ataque de que foi alvo serve de
mote a um ensaio sobre o Ocidente, a tolerância,
o amor e – de caminho – o cânone da literatura
ocidental. Vantagem para férias: lê-se rapidamente.
Desvantagem: dá muita vontade de ir comprar mais
obras dele logo a seguir.
O Fim da Vergonha
Vicente Valentim
Em tempos de cólera, um cientista político procurou
respostas para uma pergunta complicada: como é que
os partidos de direita radical crescem tão depressa nas
suas primeiras eleições? As respostas trazem tanto de
política como de sociologia de comportamentos
e emoções. Indispensável para os dias de hoje.
Um dia na Vida de Abed Salama
Nathan Thrall
Se só me fosse possível escolher um livro para ler este
ano, escolhia este. Poucos conseguiram mudar tão
profundamente a minha maneira de olhar, perceber e
sentir uma realidade. Atenção, este não é um panfleto:
é um retrato da vida na Palestina, aos olhos de um
(excelente) jornalista.
Sobre o Céu (The Overstory)
Richard Powers
Este livro reúne nove retratos de personagens cujas
vidas ficarão entrelaçadas pela chegada de uma
catástrofe natural. Não tendo relação entre si, todas
têm uma relação determinante com uma árvore ou
com a floresta. A história devolve-nos uma perspetiva
sobre a vida terrena e a perceção do planeta como um
todo, organismo vivo e profundamente interligado.
Caruncho
Layla Martínez
Um romance voraz e visceral que nos transporta para
a Espanha rural e franquista, num espectro colectivo
que nos relembra da herança silenciosa e corrosiva das
ditaduras. Uma casa é o elemento agregador das
histórias de uma avó e da sua neta, que retorna depois
de ter sido acusada de um crime. Um testemunho
duro da forma como o rancor e o ódio calcificam,
geração após geração.
Os clássicos
Ex.: D. Quixote de La Mancha
Desde os clássicos gregos às sagas da alma russa,
passando pelo confronto entre um marinheiro e uma
baleia branca, até aos labirintos que deram origem
ao adjectivo “kafkiano, ou à memória enquanto
monumento de Proust, há muito por onde escolher
e qualquer escolha é segura.
David Dinis
Director-adjunto
do Expresso
Joana
Bértholo
Escritora
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Na hora de fazer a mala para ir de férias, algo que
nunca pode faltar: um bom livro. Quer seja grande
ou pequeno, nos conte histórias ou reviva a História,
nos faça sonhar, rir ou até chorar, um livro é aquele
companheiro de viagem com que podemos sempre
contar. E mais quem pense como s
Debaixo da Onda em Waimea
Paul Theroux
Um livro apaixonante e surpreendente mesmo para
quem não é adepto do surf como eu. Tem lugar no
Havai e segue a história de uma velha lenda das ondas,
Joe Sharkey, numa narrativa que sefaz sempre
levemente perfumada pela natureza havaiana, assim
como pelo seu muito sol e tempo passado na praia.
Um livro que nos dá vontade de interromper a leitura
para ir dar um mergulho.
O Conde de Monte Cristo
Alexandre Dumas (volumes I e II)
Para quem aproveita as férias para ler calhamaços e
abstrair-se do quotidiano, só posso recomendar este
clássico dos clássicos. Duvido que haja romance que
se leia de forma mais apaixonante. Uma história que
apaixona gerações de leitores há tanto tempo, basta ler
as primeiras páginas para entender porquê.
A Cicatriz
Maria Francisca Gama
Um livro curto, mas muito poderoso, sobre as decisões
aparentemente inócuas que tomamos e as cicatrizes
que estas no podem deixar para avida toda. Adorei a
forma como está escrito, a sensação de que qualquer
coisa está prestes a acontecer, e as descrições bonitas
do Rio de Janeiro.
Blue Sisters
Coco Mellors
Uma história incrível sobre laços entre irmãs, vício e
luto. Bem sei que pode não ser a leitura mais leve para
o verão, mas as quatro irmãs Blue estão muito bem
construídas e ficarão comigo para sempre.
A Corrente
Filipa Amorim
Um livro de estreia que já revela o incrível potencial da
autora. Especialmente indicado para quem adora
thrillers ou, como eu, a exploração das dinâmicas que
se estabelecem dentro de grupos de amigos.
As sugestões
de leitura de quem
escreve, edita, faz
lmes e até música.
Rita da Nova
Escritora
Martim Sousa
Tavares
Maestro e diretor
artístico
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12
As Intermitências da Morte
José Saramago
Aquilo que se pode esperar de um romance de José
Saramago é sempre uma profunda crítica social,
uma exploração filosófica constante, com personagens
complexas, muitas vezes com dilemas existenciais,
e em As intermitências da Morte, não é diferente.
Nesta obra, o tema da existência é abordado de
uma forma original e surrealista: de um dia para
o outro, ninguém morre. Saramago brinda-nos com
a sua mestria habitual, com muita ironia e, ao mesmo
tempo, com o seu pessimismo característico sobre
a sociedade atual.
Vejo, neste livro, um enorme potencial para ser
adaptado ao cinema e que, apesar de ter sido escrito
há 20 anos, se mantém atual na sua essência. Das
várias adaptações ao cinema das suas obras, destaco
O Ensaio Sobre a Cegueira, por Fernando Meirelles
e O Homem Duplicado, por Denis Villeneuve. Será As
intermitências da Morte o próximo livro de Saramago
a ser adaptado ao grande ecrã?
O Perigo de Estar no Meu Perfeito Juízo
Rosa Montero
Um livro de ensaios sobre criatividade e loucura – ou
outras questões de saúde mental – que me levou a
muitos outros livros, pela sua articulação tão boa entre
histórias e informaçõesfascinantes, desde biografias
como as de Sylvia Plath ou Emily Dickinson, até uma
impostora (ficcional?) da autora.
Canção Derruída
Mar Becker
Becker costura histórias de família, cenários de
naufrágio, desenhos do corpo e da feminilidade como
poucos. Seus poemas mais longos e algo narrativos
são imbatíveis.
Antídoto
José Luís Peixoto
Para escrever este livro, o autor trabalhou junto à banda
Moonspell, e seu álbum Antidote. São 12 faixas no
álbum, 12 “faixas” equivalentes no livro, que parecem
ora poemas em prosa, ora contos, ora capítulos de um
romance. Tudo tão belo quanto o melhor de Peixoto.
Nuno Rocha
Realizador,
argumentista
e produtor
Rafael Gallo
Escritor
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Terceiro Andar Sem Elevador
Susana Moreira Marques
O que este livro nos traz é uma experiência de
deambulação que tem como ponto de partida a janela
de uma casa de Lisboa, terceiro andar sem elevador,
que a autora habita com as duas filhas. Este
deambular não tem como objetivo a descrição dos
espaços da cidade, mas é antes pretexto para nos
abeirarmos de outros lugares, memórias e imagens,
que a autora capta de forma poética e concisa, como
se fossem notas de um caderno pessoal. Lemos as
palavras de Susana Moreira Marques como quem
lê passagens de um diário ou apontamentos que
ficam suspensos no ar e somos desafiados a parar
constantemente. Também nós deambulamos entre
as passagens do texto, para melhor observarmos, para
nos determos num pensamento, para repararmos.
Um livro em contraciclo: tão bom, que só pode
ler-se devagar.
Grandes livros que me inspiraram
a escrever:
Eça de Queiroz – Uma Biografia
A. Campos Matos
Para O Deus das Moscas tem Fome e Assim Falou
a Serpente, os volumes onde conto as aventuras de
Benjamim Tormenta, detetive do oculto da Lisboa
queirosiana, foi fundamental esta biografiasoberba
onde ficamos a conhecer tanta coisa sobre o Eça
autor, mas, ainda mais fascinante, descobrimos as
particularidades do Eça homem, como o bon vivant
excêntrico, o pai extremoso e o marido dedicado.
O Falcão de Malta
Dashiell Hammett
Para o Lisboa Noir, uma realidade alternativa onde
D. Miguel venceu a guerra civil e Lisboa se tornou
na Nova Iorque da Europa, fui buscar as mulheres
fatais, a violência dos becos, o tom preto e branco,
e o dia a dia dos detetives durões a autores como
Dashiell Hammett.
A Guerra dos Tronos
George R. R. Martin
Para o Reinos Bastardos, o meu romance de fantasia,
a inspiração mais significativa veio do maior escritor
vivo dentro do género: George R. R. Martin.
Ele ensinou-nos que nenhuma personagem
é absolutamente boa ou má, e que todas elas
podem morrer na página seguinte.
Isabel Minhós
Editora e escritora
Ls
Corte Real
Editor e escritor
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1999
“Nascemos” no final da manhã
do dia 1 de julho, com o nome
Webboom e com a missão de
sermos a melhor livraria
online do país.
2000
O nosso primeiro fenómeno
de vendas foi o livro Harry Potter
e a Pedra Filosofal.
2003
Passámos a vender livros em inglês
e somos, desde então, a maior
livraria online portuguesa.
Alguns anos mais tarde, passamos
a vender também livros em
espanhol e em francês.
Somos uma livraria internacional!
2008
A marca Webboom é substituída
pela WOOK e, com o novo nome,
vem uma nova atitude e uma nova
forma de comunciar. Wook
procuras está aqui!
2011
Passámos a disponibilizar na nossa
oferta os primeiros eBooks em
lingua portuguesa e em língua
inglesa. Somos digitais!
No nosso 25.º aniversário,queremos agradecer
a todos os que sempre estiveram ao nosso lado.
Desde a primeira hora, fizemos tudo para levar
até si wook procura – conhecimento, romance, thriller,
terror, divertimento, arte, erotismo, ação e aventura.
Como é que esta história aconteceu? Siga a linha
do tempo para descobrir!
2012
O nosso primeiro grande pré-
lançamento, com muitas mas
muitas centenas de unidades
vendidas ainda antes de o livro
chegar às montras das livraias
portuguesas: As Cinquenta
Sombras de Grey. Felizmente,
muitos se seguiram. Somos a
livraria onde as novidades
chegam primeiro!
2014
Lançámos o blog literário
wookacontece, ponto de encontro
dos nossos leitores com os seus
livros e autores favoritos, com
artigos originais e entrevistas
exclusivas.
2016
A WOOK atinge o marco de um
milhão de clientes registados, de
mais de 90 países. Na brincadeira,
dizíamos internamente: somos um
milhão e somosmultinacionais”!
2018
Edição zero da revista literária
wookacontece, um projeto que dá
continuidade ao blog e é oferecido
gratuitamente aos clientes de
literatura da WOOK. Com um
design arrojado e conteúdos
apetecíveis e exclusivos, a nossa
revista é já uma referência em
Portugal, com a impressionante
tiragem de 25.000 exemplares.
2019
A WOOK continua a crescer
e, com o objetivo de
melhorar o serviço prestado
aos nossos clientes e garantir
entregas mais rápidas,
inauguramos em setembro
desse ano o nosso atual
armazém robotizado.

2020
A WOOK inicia a
diversificação da sua oferta
de artigos culturais, de
entretenimento e lazer. Além
dos 9 milhões de livros,
disponibilizamos aos nosos
clientes artigos de papelaria,
jogos e brinquedos, música,
instrumentos musicais,
bilheteira, merchandising e..
gaming! 
2023
A comunidade WOOK
chega a 2 milhões de
leitores em 129 países.
Somos um comunidade
cada vez maior!
2024
A WOOK faz 25 anos!
Obrigado a todos os que
diariamente nos escolhem
e que fazem da WOOK a
maior e melhor livraria
online do país.
A WOOK FAZ
25
ANOS!
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Isabel Rio Novo
de a
Isabel Rio Novo dedicou 5 anos
da sua vida a Fortuna, Caso, Tempo
e Sorte – Biografia de Luís Vaz
de Camões, que se lê com o prazer com
que se folheia um romance da autora,
500 anos após o nascimento de Camões.
Perante as muitas incertezas, Isabel Rio
Novo presenteia-nos com uma visão
abrangente e rigorosa do homem que
Camões foi ao retrato que dele
se foi construindo, com as cores
e as nuances do tempo.
Pedimos-lhe que nos desse um vislumbre
do poeta e soldado, que dizia ter «numa
mão a espada, e na outra a pena».
Saboreie, letra a letra, esta aguarela
da vida camoniana.
A
Amor. O grande tema da
poesia de Camões.
B
Barreto. O apelido do
governador da Índia com
quem Camões
se incompatibilizou.
C
Coutinho. O apelido do
vice-rei da Índia que
favoreceu o Poeta.
Chamava-se Francisco,
tal como o anterior.
D
Desterros. Camões sofreu
vários, ao longo da vida,
por questões de amores
e não só.
© Augusto Brázio
E
Espada. Camões, que foi
Poeta e soldado, dizia ter
«numa mão a espada,
e na outra a pena».
Usou-as bastante.
F
Fortuna, caso, tempo e
sorte». Governavam o
mundo, segundo
Camões. Talvez tivesse
razão.
G
Goa. A capital
portuguesa no Oriente na
época de Camões e uma
espécie de Babilónia,
segundo as palavras do
Poeta.
H
Homiziado. Camões foi
homiziado no Norte de
África, onde combateu e
perdeu um olho.
I
Inês de Castro, a mísera
e mesquinha que depois
de morta foi rainha e
inspirou uma das mais
belas passagens de
OsLusíadas.
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J
Jau. Os biógrafos antigos
referiram-se assim ao
escravo ou escravo
alforriado (talvez javanês),
de nome António, que
Camões trouxe do
Oriente e a quem era
muito afeiçoado.
K
Khan. Adil Khan, Yusuf
Adil Shah ou, na versão
adulterada pelos
portugueses, o Idalcão,
senhor de Goa até
Albuquerque terríbil ter
conquistado a cidade.
L
Os Lusíadas, a epopeia
da chegada dos portu-
gueses à Índia e obra-
-prima de Luís de
Camões.
M
Malcozinhado. Era o
nome que, na época, se
dava aos estabelecimen-
tos noturnos onde se
servia comida barata e se
fazia a festa. Camões
conheceu uns quantos.
N
Ninfas. As numerosas
filhas de Tétis e do
Oceano, segundo a
mitologia pagã. As
Tágides, do Tejo, são
invocadas no início de
OsLusíadas; outras
recebem os marinheiros
portugueses na Ilha dos
Amores, já durante a
viagem de regresso ao
Reino.
O
Olimpo. Júpiter, Vénus,
Baco e os outros
habitantes do Olimpo
acompanham e
interferem na aventura do
Gama e dos
companheiros.
P
Parnaso de Luís de
Camões. Assim se
chamava o livro que
Camões tinha em
preparação na Ilha de
Moçambique e que
perdeu ou lhe furtaram,
no regresso ao Reino.
Q
«Que grande variedade
vão fazendo…». É o
primeiro verso da écloga
que assinala as mortes
de D. António de
Noronha e do Príncipe
D.João, pai de
D.Sebastião, e que
Camões considerava a
«melhor que já tinha
feito».
R
Retratos. Conhecem-se
apenas dois retratos de
Luís de Camões feitos
em vida deste. Um foi
desenhado estando o
Poeta na prisão de Goa.
Do outro só resta uma
cópia fidelíssima”,
realizada no século XIX
apartir do original
(entretanto perdido)
pintado por Fernão
Gomes.
S
D. Sebastião, a
«maravilha fatal» a quem
Os Lusíadas foram
dedicados e cuja morte,
em Alcácer Quibir, foi
devastadora para
Camões e para a
nação.
A ideia: o convidado deve percorrer as letras de A a W
(de WOOK) e dizer… o que bem entender.
O desafio: a ausência de amarras criativas; a criatividade.
O resultado: sempre uma incógnita.
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T
Tronco era o nome que
se dava, na época, à
prisão. Camões conheceu
o de Lisboa e o de Goa,
por onde passou mais
doque uma vez.
U
«Um não sei quê, que
nasce não sei onde,/ vem
não sei como, e dói não
sei porquê». Uma das
definições poéticas do
amor, segundo
Camões.
V
Vénus e o Velho do
Restelo. Ela fez tudo para
que os portugueses
chegassem à Índia. Ele
não concordava com o
empreendimento. Duas
grandes personagens de
Os Lusíadas.
W
WOOK, o melhor lugar
para encontrar
Camões.
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Antes de ser convertido em símbolo da nacionalidade ou
em paradigma do poeta genial, Luís Vaz de Camões foi quase
tudo quanto um homem podia ser no tempo em que viveu.
Isabel Rio Novo, que acaba de lançar Fortuna, Caso, Tempo e Sorte
Biografia de Luís Vaz de Camões, guia-nos pela vida deste icónico
escritor humanista, entre viagens, aventuras e desventuras.
1536-1542
1546-1549
1542
1552
1553
Camões vai viver para
Lisboa, repartindo-se entre
saraus palacianos e uma
existência de boémia.
Nasce Luís Vaz de Camões.
Camões estuda
em Coimbra, sob
a orientação de um tio.
Por causa de amores
inconvenientes, Camões
é desterrado no Ribatejo
e vai depois combater no Norte
de África, onde perde um olho.
Camões agride um
criado do rei e é preso
no Tronco de Lisboa.
Em março,
Camões obtém
o perdão régio
e embarca
para a Índia.
1524-1525
Por Isabel Rio Novo
U
M
A
C
R
O
N
O
L
O
G
I
A
I
L
U
S
T
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1580
1562-1565
1567-1569
1569
1553-1556 1560-1561
Vivendo em Goa,
Camões participa,
como soldado, em
várias expedições
militares.
Procurando regressar ao Reino,
Camões permanece dois anos
na Ilha de Moçambique, onde
conclui Os Lusíadas.
De regresso a Goa, Camões apadrinha
a publicação dos Colóquios dos
Simples, de Garcia de Orta. Camões é enviado para Macau,
com o cargo de provedor dos
defuntos. No regresso, naufraga
perto da foz do rio Mekong.
Camões chega a Lisboa,
no rescaldo da peste.
Em março, Camões publica
Os Lusíadas; pouco tempo depois,
é agraciado com uma tença.
A 10 de junho,
Camões morre
em Lisboa, pobre
e desiludido com
o destino da pátria.
1556
Por causa de umas sátiras, Camões
é preso no Tronco de Goa e depois
desterrado nas Molucas.
1572
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Entrevista
Joël Dicker, o escritor suíço
de thrillers e policiais de maior
êxito a nível mundial, veio
a Portugal para o lançamento
de Um Animal Selvagem. Este
novo romance, que envolve dois
casais e a intrincada teia que
se tece entre eles e os seus
segredos, é uma ode aos nossos
instintos. Para desenredar
a intriga diabólica do enredo,
oleitor é levado em muitas
viagens ao passado, num ritmo de
acelerar a pulsação que nos
mantém em suspense até ao
final, como só Dicker consegue. O
escritor que foi projetado para
o estrelato literário pelo romance
A Verdade Sobre o Caso Harry
Quebert, já adaptado a série
televisiva pelo realizador
de Sete Anos no Tibete, fala-nos
sobre a sua paixão visceral pela
escrita e pela leitura. Perseverante e dedicado, Dicker
conta-nos como ultrapassou os obstáculos para conseguir
ser escritor. Adora criar mundos ficcionais e considera
othriller o género com a maior a variedade possível
de narrativas e reviravoltas. Fundou a sua própria
editora para poder publicar livros que, acredita,
precisam de ser lidos e partilhados. Num quotidiano
em que a liberdade é posta em causa, a boa
notícia, diz, é que todos são leitores, apenas
ainda não o sabem.
Por Vera Dantas
JOËL
DICKER
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novo começo. Nunca precisei de me convencer
a tentar novamente, de me forçar, simplesmente
pensava: «Vamos lá, vamos escrever». Acho que
é porque sempre estive tomado pela excitação
de escrever. É curioso, porque escrevi livros que foram
recusados por todas as editoras e que ninguém leu,
e escrevi livros que foram lidos por milhões de
pessoas. Os sentimentos para mim, como escritor,
são exatamente os mesmos: as dúvidas, o prazer,
a alegria, o desafio de superar todas as dificuldades.
E isso é ótimo porque significa que não se trata
de ter leitores, nem do sucesso, mas do prazer
de contar uma história.
O que te dá a literatura?
Eu diria que é a oportunidade de viver diferentes vidas
numa só. Quando lês um livro, já não estás no teu sofá,
no autocarro, no metro – estás noutro lugar, num
mundo muito específico. Podemos ver um ótimo filme,
mas todos vemos o mesmo. Quando lemos um livro,
é a nossa história, o nosso livro, porque criamos as
personagens e recriamos os cenários. Os livros
parecem-nos tão realistas porque nós, enquanto
leitores, criamos esse mundo, e essa é uma experiência
muito, muito poderosa.
Tentaste a publicação de vários livros e só ao quinto
uma editora apostou em ti. Quais foram os desafios
mais difíceis que enfrentaste nesse processo, e como
os superaste?
Bem, houve momentos difíceis, claro, depois de cada
recusa das muitas editoras para as quais enviei
manuscritos. Ficava triste, deprimido, a pensar: «Nunca
vou conseguir, nunca vou ser um autor!». Ficava muito
desanimado no momento, mas depois era como um
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@Anoush Abrar
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Vários dos teus livros são protagonizados por
escritores. Isso deve-se ao facto de ser o que
conheces melhor?
Talvez, ou também porque é o que está na minha
mente agora e ao longo destes anos. Ser autor não
é realmente uma profissão, não há uma escola que
te dê um título. Se queres ser pintor, podes ir para
Belas-Artes. Mas como é que alguém se torna autor?
Continuo a fazer essas perguntas.
O teu editor acreditou mais em A Verdade sobre o caso
Harry Quebert do que tu próprio, e o livro teve um
êxito estrondoso. Alguma vez sentiste que não
conseguirias superar o desafio de sobreviver a esse
fenómeno (como Marcus, o protagonista do livro)?
Nunca duvidei, porque eu não me questiono.
Questiono as ideias, a qualidade de uma frase, mas
o meu objetivo é escrever com todo o meu coração.
Depois de cada livro, penso: «Nunca mais!». Adoro
escrever, mas é algo que consome todo o meu tempo.
Penso sempre nisso, mesmo quando estou a tentar
fazer algo diferente – esteja a correr, a ver um filme,
a jantar com amigos ou a ler outro livro, estou sempre
a pensar no meu livro. Às vezes, é muito cansativo, mas
também é muito excitante. Um livro de cada vez, um
capítulo de cada vez, uma página de cada vez, já é
muito. Às vezes, as pessoas perguntam-me quantos
livros acho que vou escrever na vida. Eu não sei, porque
cada livro já é um desafio.
Especializaste-te em thrillers. O que te atrai neste
género literário e por que achas que é um dos mais
bem-sucedidos atualmente?
O que me fascina nos thrillers é que têm toda a
variedade possível de narrativas, permitem fazer o
máximo. Têm a história do crime, a investigação –
queé como uma linha que podem seguir, e que põe
sempre a história de novo nos eixos e a faz avançar.
Graças a ela, podemos divergir numa ou noutra
direção, acompanhar as personagens, contar as suas
histórias pessoais, os seus antecedentes, ter subtramas
e subtramas das subtramas.
Em muitos tipos de romances, misturam-se histórias
ficcionais com reais, ou há autoficção, e as linhas não
são muito claras entre o que é real ou não. A ficção
precisa de ser ficção. Acho que as pessoas procuram
histórias de crime ou suspense porque sabem que
vãoencontrar uma história envolvente. E é isso que
querem.
Escreves os teus livros, com um plano, durante 2 ou 3
anos, fazes mais de 50 revisões, porque valorizas esse
processo e escreves «como um leitor». O teu estilo
único e original resulta dessa mistura de planeamento
e criatividade?
Para mim, é o melhor dos dois mundos porque sou
muito disciplinado e crio essa estrutura para escrever.
Mas, dentro dela, que é muito rígida, porque disciplina
é rigidez, sou completamente livre. Ter uma estrutura já
é um bom começo: se não souber para onde estou a
ir, pelo menos sei que estou a ir para algum lado.
Depois, quando já tenho 100 páginas que considero
sólidas, preciso de cortar, mudar e reconstruir tudo
porque a maior parte do que escrevi antes já não
funciona completamente. Mas é ótimo porque, então,
sei exatamente o rumo da narrativa.
Dependendo do livro, fazes a tua pesquisa durante
o processo de escrita, ou antes?
Eu não pesquiso nada, porque sinto que isso tiraria
o prazer de criar o enredo da maneira que eu quero.
A liberdade no romance, para mim, é não verificar
muito, porque quero seguir o caminho que me
convém para a trama. Às vezes recebo uma crítica do
tipo «ele inventou algo que nunca poderia acontecer»,
e fico com um sorriso no rosto, porque isso é ficção.
O objetivo não é estar próximo da realidade, mas antes
criar uma cena com sentimentos e tensões.
Isso faz com que as personagens – o que fazem,
o que pensam e como agem – sejam mais
relacionáveis para os leitores.
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És focado, determinado e metódico. Sempre foste
assim, ou foi um processo de aprendizagem?
Acho que aprendi no momento, tentando, falhando
e tentando de novo. O facto é que precisamos de
tentar. Vivemos numa sociedade onde falhar, ou não
saber o que estamos a fazer, não é aceite, mas, na
verdade, tal faz parte da vida. Há pais que me dizem
que estão preocupados com os seus filhos que têm
20, 25 anos e não sabem o que querem fazer. Eu
digo: «Bom para eles!», porque é uma oportunidade
de descoberta. Quando enfrentamos uma crise,
devemos encará-la como uma oportunidade.
Acho interessante que dês aos leitores «igualdade de
armas», como dizes, desde a primeira página dos teus
livros – cada reviravolta e surpresa estão à vista. Esse
sentido de justiça reflete a tua maneira de ser?
É sempre difícil falar de mim mesmo. A experiência
deler um livro tem de valer a pena. Para mim, o
importante é que o leitor tenha todas as cartas e que
saiba que pode vencer o jogo contra o autor. Dizer:
«Ele enganou-me, porque eu poderia ter descoberto,
mas não decobri». Não se pode, de repente, 5 páginas
antes do final, dizer: «A propósito, naquela noite, um
homem estava a passar, e ele é o assassino»
As personagens de Um Animal Selvagem são
obrigadas a usar os seus instintos, mantendo a sua
identidade, o seu passado. É algo difícil…
Sim, acho que é muito difícil manter o nosso instinto,
ouvi-lo, porque vivemos num mundo muito orientado
para os outros. Procuramos validação, nas redes
sociais, de pessoas que não conhecemos. Esquecer
que temos este instinto poderoso que nos mostrará
sempre a direção certa é um grande erro que todos
cometemos. É um instinto que partilhamos com os
animais, daí o título do livro. Nós temo-lo no nosso
ADN, mas não o usamos o suficiente. Isso é um
pouco o objetivo do livro.
Em criança, passavas férias nos EUA, o que inspirou
o livro A Verdade sobre o Caso Harry Quebert. Tens
uma visão do mundo que não é só europeia, mas
também um pouco americana, certo?
Sim, é uma mistura entre dois mundos, Europa
e América. Talvez isso também explique a questão
que tive quando comecei a escrever Harry Quebert.
A história passa-se nos EUA, Marcus e Harry são
americanos, e no início debati-me para decidir em que
língua falariam. A primeira versão da história era muito
europeia, e eles falavam francês, mas isso complicou
a narrativa. Apaguei tudo e recomecei, mas acho que
o romance, mesmo passando-se nos EUA, tem um
sabor europeu.
Acompanhaste as filmagens da adaptação deste livro
a série televisa. Que participação tiveste no set?
O Jean-Jacques Annaud fez um trabalho belíssimo.
Estive presente nas filmagens porque estava fascinado
por ver partes da minha história ganharem vida. Foi
hipnotizante ver a interpretação que ele fez do livro.
Cada leitor verá a história de forma diferente – os livros
dão a oportunidade a cada um de criar o seu próprio
filme. Fiz algumas participações especiais: numa cena
sou um estudante, noutra sou um polícia.
Foi realmente divertido.
Quais os filmes de que gostaste especialmente
e que te inspiram na tua escrita?
Não tenho um filme específico, mas é interessante
porque me faz pensar no que é a inspiração. Não se
sabe realmente. É tudo o que viste, tentaste, fizeste.
Todos os filmes que vi são uma inspiração, quer eu
queira, quer não. Mesmo aqueles de que não gostei,
porque não quero reproduzir o que vi. Todos os filmes
que vi, todos os livros que li, todas as peças de teatro
que vi, ou pinturas ou experiências de vida, tudo está
em algum lugar no meu cérebro e é uma potencial
inspiração para algo.
«O que me fascina nos thrillers
é que permitem fazer o máximo: têm a
história do crime, a investigação, tramas e
subtramas, e envolvem-nos em pura ficção
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Falas com imensa alegria sobre ler e dizes que não há
nada mais forte do que partilhar um livro. Isso é parte
da razão pela qual fundaste a editora Rosie & Wolfe?
Sim, criar esta editora foi para mim um grande passo.
Queria poder publicar livros porque acredito que
precisam de ser lidos. Acho que é realmente sobre
partilhar histórias e passá-las adiante, pois é o que
conecta as pessoas.
Publicaste recentemente, na tua editora, Guerre Dans
Les Tenebres, sobre a resistência na França ocupada,
na II Guerra Mundial. Oitenta anos depois do Dia D,
estamos a esquecer a História novamente?
Sem dúvida. Nesse livro, um jornalista investiga
e conta histórias inéditas sobre como Londres e a
Resistência Francesa trabalharam em conjunto, e
também como se combatiam, demonstrando ainda
como como, por vezes, o ego e a ambição dos seres
humanos são mais fortes do que os valores pelos quais
lutam. Acredito que há uma urgência em contar
e recordar que, não há muito tempo, a Europa estava
em guerra. Estarmos juntos é um equilíbrio muito fino.
A paz, o respeito e a democracia exigem muito
trabalho. Cada vez mais pessoas dizem não acreditar
no voto, mas isso é não acreditar na democracia,
é cuspir na cara de todos os soldados que morreram
por ela. E, na Europa, sabemos como a nossa liberdade
não é garantida. Precisamos de trabalhar e lutar
por ela, protegê-la.
Sentes que a tua missão é inspirar leitores a escrever?
Que retorno tens tido dos teus esforços?
É muito bonito. Alguns leitores dizem-me que
começaram a escrever e estão a tentar escrever o seu
próprio livro, ou que eu lhes dei esperança para
voltarem a escrever. Ou então contam-me que, graças
a mim, começaram a ler novamente. Entraram na
leitura através de um dos meus livros e tornaram-se
leitores. Para mim, isso é uma recompensa incrível,
é realmente avassalador.
Recomendas ler livros de Roald Dahl, porque a leitura
começa com diversão. O que pensas da censura de
palavras nos seus livros, e de haver cada vez mais livros
banidos nos EUA?
Proibir livros é uma loucura, mostra como as pessoas
estão a ficar completamente doidas. Um dos últimos
livros banidos foi Maus de Art Spiegelman, que
ganhou o Prémio Pulitzer. Foi banido porque, em
algumas cenas, os deportados estão nus antes
de serem enviados para as câmaras de gás. Isso
mostra o nível de estupidez a que as pessoas estão a
chegar, muito graças ao TikTok, Instagram e todas
essas coisas, porque não paramos para pensar.
Estamos a caminhar para o desastre. Perdemos tempo
com discussões sobre palavras, enquanto as crianças
estão a ver pornografia nos seus telefones, a normalizar
a violência. Estamos a perder a noção do que
é importante e a prejudicar a democracia.
Com todas essas distrações superficiais, muita
genteacaba por não ler. E ler dá-nos a capacidade
detomarmos decisões mais informadas.
Isso é absolutamente verdade. Ler constrói o nosso
cérebro, dá-nos as ferramentas para superar desafios,
entender o que está em jogo numa situação, ter
empatia. Quem lê tem mais oportunidades de evoluir
e enfrentar os obstáculos da vida. Nos EUA, usam os
testes de leitura das crianças de 9 anos para prever
o número de prisões necessárias no futuro. Se uma
criança de 9 anos não sabe ler, não vai conseguir
funcionar como adulto e, provavelmente, acabará
na prisão. Precisamos de fazer as pessoas lerem,
especialmente os jovens. A boa notícia é que todos
gostam de ler, só ainda não o descobriram. Basta
encontrar o livro certo para alguém, pedir-lhe que
o leia 5 a 10 minutos por dia, durante 10 dias,
e essa pessoa tornará-se-á um leitor.
O amor e os livros são o que dá sentido à tua vida,
como Harry Quebert disse a Marcus?
No final, vamos olhar-nos ao espelho nos últimos
minutos da nossa vida e pensar nas pessoas que
amámos e que nos amaram. Essa é a resposta. Não
vamos lembrar-nos de sucessos na carreira ou algo
do género. É realmente sobre amar e ser amado.
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do
feitio
mau
A maior parte das pessoas boas tenta, a todo
o custo, salvar a Humanidade. Aliás, com
tanta abundância de pessoas boas, não sei
por que razão está o mundo mais tolo e
aborrecido e cada vez sejam mais repetitivos
os sermões diários, sonsos e onomatopeicos
acerca do assunto. De cada vez que, na
literatura ou fora dela, aparece uma
contribuição generosa para evitar o aumento
da “pegada de carbono” e reduzir o
aquecimento global, ficamos com a
agradável sensação de estarmos a ser
pessoas boas e derretemo-nos, muito felizes.
É por isso que atrizes e “pessoas famosas”
de todo o mundo economizam na água do
autoclismo, na higiene menstrual, no papel
dos livros, no creme para a barba, na adoção
de uma dieta sem carne (0,8 toneladas por
ano de redução nas emissões de carbono, o
que não é grande fartura), na lavagem da sua
roupa em água fria (0,3), na recusa em viajar
de carro (2,4) ou de avião (2,8). Bom, talvez
as “pessoas boas e famosas” não insistam
neste último ponto, até porque têm de se
mostrar em conferências internacionais em
defesa do planeta e contra a “pegada de
carbono” – e viajar para lugares exóticos com
uma dezena de fotógrafos tem os seus
custos. Se isto não bastar, lembro também
uma recente contribuição: investigadores
da Universidade de Lund, Suécia, publicaram
um estudo sobre esta escala de atitudes
amigas do planeta”; nele demonstram que
“não ter bebés” (ou, pelo menos, ter famílias
muito reduzidas, só com um filho, à maneira
chinesa nos tempos de Mao) corresponde
a reduzir as emissões de carbono em 58,6
toneladas, o que é esplêndido para a
“pegada” e para a taxa de ocupação das
esplanadas e dos voos low cost. Vamos
conversar sobre o assunto. Quem não gosta
de pessoas boas?
Em
defesa
P
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s
Quando
alguém ouviu
a frase «oxalá
vivas tempos
interessantes»
estava, de certeza,
a referir-se ao
primeiro quartel deste
século. Uma nova
forma de vandalismo
cultural está para durar
nas nossas vidas;
confunde, propositadamente,
gene e escolha, liberdade
e submissão, verdade
e aparência, evidências
e desejos.
Tenho-me
divertido com
textos publicados na
imprensa portuguesa
por jornalistas “muito da
moda”, com veneração pelas enormes
potencialidades das máquinas geridas por
algoritmos que escrevem romances, música
de elevador, rótulos de manteiga, poemas de
homenagem a ditadores peralvilhos, resumos
de romances escolares, canções parolas –
mas sobretudo livros, que até agora podiam
estar a salvo. E espero pelo momento em
que todos sejam incinerados em conjunto.
Martin Amis dizia que se pode ser rico, ou
famoso, ou qualquer outra coisa, sem se ter
talento – mas que não se pode ser talentoso
sem ter talento. Até estes dias, era
necessário talento. Agora, só é necessário
falar-se de “um mundo melhor
e ser-se papalvo.
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nomeados para Chief Happiness Officer
(CHO) de empresas inclusivas – e que os
autores considerados pessoas más sejam
definitivamente banidos, tal como as suas
personagens, de entre as quais refiro
o Cohen, o Basílio ou o Amaro de Eça,
a galeria de abades e gordos de Camilo,
os malvados de Aquilino, que podem chocar
as crianças mais sensíveis, as maravilhosas
personagens de Molière, que nos faziam rir:
as de Escola de Mulheres ou O Misantropo,
de O Avarento ou O Doente Imaginário,
quando se lembrou de transportar a sátira
mais diabólica para o palco. Retenho Molière
porque era um dos nossos grandes
humoristas europeus; a sua linguagem era
um prodígio de invenção, como uma torrente
pronta para o riso e para enumerar os vícios
humanos (tal como os tiques, medos,
horrores, traumas e hipocrisias da época)
e a mesquinhez, mais do que os mitos
dourados e históricos; tudo tão bem
desenhado que ficávamos a amar as
personagens mais ridículas (Don Juan,
Tartufo, O Burguês Fidalgo, Cornudo
Imaginário), que nos enterneciam. Molière
teve esse mérito, o de nos mostrar que
não somos nem podemos ser virtuosos.
Talvez por isso, a Amazon já pôs à venda
livros escritos com ajuda de chatbots,
máquinas de “inteligência artificial”, e um
deles é mesmo sobre o ChatGPT (além
de romances, ensaios e inanidades sobre
como devemos viver e sermos pessoas
boas). Ao contrário das associações de
escritores que protestaram e veem o futuro
negro por isto poder matar os autores,
acho que o ChatGPT substitui com grande
vantagem de preço os “leitores de
sensibilidade” que censuram livros e
trabalham para as editoras “inclusivas:
um autor (por assim dizer) introduz a carne
picada e, no terminal, sai a salsicha fresca
ou um livro para young adults, ou seja,
pessoas boas que não estão preparadas para
as crueldades do mundo. O algoritmo está
preparado para escrever dez romances
pós-coloniais por hora. Não comete “erros
ideológicos”. Não diz coisas sexistas e evita
que tenhamos de ouvir autores e autoras
Que isto
aconteça na vida
real é um sonho. Dá-nos
uma ideia acerca de como as
pessoas boas são essenciais no nosso
mundo. As “redes sociais” são
o lugar onde há mais pessoas boas: são
aquelas que usam sacolas de supermercado
com frases acerca de salvarmos os mares
e os legumes frescos e que fotografam os
filhos ao lado dos contentores da reciclagem
vestidos de roupa com riscas coloridas ou
a tratar de animais domésticos, mostrando
como preparam as novas gerações para um
mundo de bondade. Nesse mundo, os
vizinhos são amigos dos seus vizinhos, que
lhes emprestam o carro e ramos de salsa.
Um mundo assim é maravilhoso e em breve
isto terá efeitos duradouros na saúde mental.
Na literatura também. Ultimamente tem sido
também piramidal a quantidade de pessoas
boas acrescentadas à galeria de romances
escritos por pessoas boas. Ao pegar em
grande parte desses livros apreciados
pelos tik-tokers e por ativistas, noto uma
extraordinária acumulação de virtudes:
a maior parte das personagens são
igualmente pessoas boas,
empenhadas no
reconhecimento das
minorias, interessadas
na compostagem e na
concórdia universal, no fim do
capitalismo e na utilização de advérbios
de modo, além de haver sempre exemplos
de mulheres que se libertam das grilhetas,
inuítes que deixam de beber, escritores
que deixaram de escrever “esquimós” e
passaram a escrever “inuítes” a meio de um
diálogo em que também se explica que não
são “aleútes”, narradores que explicam o que
é o orgasmo múltiplo e que compõem as
suas personagens de modo a vestirem roupa
sustentável ou a dialogarem com pessoas
que não dormiram durante a madrugada
do 25 de Abril.
A verdade é que há cada vez mais escritores
e mais leitores a gostarem de serem pessoas
boas e a usarem os pronomes adequados.
Prevejo que, em breve, haverá autores
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e autorxs a transformarem-se em ativistas
de pacotilha. Não faz “apropriação cultural”,
trabalhando respeitosamente as metáforas
e inserindo notas de rodapé acerca de como
o mundo deve ser segundo o algoritmo
ideológico e sexual em vigor. Finalmenteuma
solução para a estupidez. Molière sairia
truncado.
Em 2022 foram censurados mais de 1 200
livros nas estantes de escolas e bibliotecas
públicas americanas; ou foram retirados das
instalações, porque o pecado se expande
pelo contágio, como a gripe, ou foram
escondidos lá atrás, onde se conservam
os vírus. Tudo em nome do bem comum: ou
do reacionarismo evangélico e da extrema-
direita moral,ou do analfabetismo. A isto
convém somar a crescente quantidade de
correções, adaptações, perseguições,
cancelamentos e censuras claras que a
geração que agora está na idade da gritaria
exerce sobre palavras, livros, filmes, pinturas
ou conferências – tudo em nome de um
bem maior – a bondade artificial e fictícia do
ser humano. Uma nova forma de
adolescência mimada e frágil, tão intolerante
ao glúten como às ideias, ofendida com
facilidade e sem mérito, tomou conta do
espaço público.
A antecedê-la, os mandarins do costume,
que passaram uma vida inteira a destruir
a ideia de convivência. Esta falsa virtude
do mandarinato também vai acabar mal.
Antecipando os tempos de purga a que
assistimos hoje em dia – ainda não em
Portugal – Nietzsche falava em 1887
de uma “neurose religiosa” que levava
pessoas a cometerem atos de censura,
perseguição e recusa de debate e oposição.
Depois do “caso Roald Dahl” apareceu o
“caso Agatha Christie, e também o “caso Ian
Fleming, cujos livros da série James Bond,
o 007, foram submetidos a um rigoroso
escrutínio a m de serem expurgados
de expressões ou inclinações racistas,
alegadamente misóginas, naturalmente
machistas. A justificação é que “as novas
gerações” não suportam esses crimes e se
sentem ofendidas, tão desprotegidas que
estão. É natural: depois de a geração anterior
ter acabado com a presença da História,
da Filosofia e da História da Literatura nas
escolas, a ideia é fustigar o passado e ensinar
que o mundo começou agora, cheio de
virtudes, quinoa ou leite de amêndoa – e
sem combates, injustiças ou contrariedades.
Tenho um certo receio cómico sobre o que
acontecerá quando começarem a expurgar
os livros de Camilo, Gil Vicente, Agustina
Bessa-Luís ou Aquilino. Desejo que se
apressem. Tenho vontade de promover
o Rastignac, de Balzac, a clarividência
de Calisto Elói, a maldade pura do Meças,
de Rentes de Carvalho, a misantropia
de Ana de Cales, de Agustina.
Em Inglaterra, o Times fez um apanhado
sobre a ameaça de censura nas universidades
locais, e parece que um vendaval de tolice
patológica tomou conta das faculdades de
letras e do seu desejo de proteger o bem-
estar dos alunos em relação a ideias
perniciosas, perturbadoras e discutíveis
que, naturalmente, vêm nos livros. O jornal
conta que em 2022 houve mais de mil
denúncias contra autores que, por serem
maldosos, deveriam ser censurados nas
bibliotecas. Entre eles estão Charles Dickens,
coitado, Jane Austen ou Shakespeare.
Algumas bibliotecas universitárias retiraram
livros de Colson Whitehead (recente prémio
Pulitzer), por causa da sua descrição violenta
da escravatura, A Menina Júlia, de
Strindberg, por falar de suicídio, O Coração
das Trevas, de Joseph Conrad, por ser racista,
Hemingway em geral, por ser machista, ou
títulos de Philip Larkin, por ser misógino e ter
mau feitio. Nos EUA, por exemplo, uma
edição académica das obras de Immanuel
Kant, publicadas no século XVIII, tem uma
nota aos estudantes de hoje informando-os
de que as opiniões do filósofo “sobreraça,
género, sexualidade e relaçõesinterpessoais”
são “produto do seu tempo” eestão erradas
hoje em dia. Não é novidade.Em plena
década de 1980, houve um abaixo-assinado
francês (publicado na imprensa) para
censurar e proibir Flaubert, que irradiava mau
feitio, além de misoginia eoutras fatalidades.
Que saudades do mau feitio.
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Todas as
palavras acabam
por se cruzar na
língua de Camões.
Se precisar de ajuda, peça ao
Poeta aquele «desejo imenso
(…) que faz que leia mais
do que vê escrit.
Não o achando, pode sempre
ver a solução na lateral.
PALAVRAS
CRUZADAS
Soluções:
Vertical:
1. Leda
2. Ceuta
3. Vasco da
Gama
5. Lisboa
8. Calíope
11. Restelo
12. Armas
16. Amor
Horizontal:
4. D. Sebastiao
6. Épica
7. Jerónimos
9. Dez de
Junho
10. Ilha dos
Amores
13. Bárbara
14. Segura
15. Lírica
17. Limão
Horizontal:
4. Rei a quem foram dedicados
Os Lusíadas
6. Os Lusíadas é uma obra de poesia…
7. O túmulo de Camões encontra-se
no Mosteiros dos…
9. Dia e mês em que se assinala
a morte de Luís de Camões
10. Ilha paradisíaca onde descansam os
marinheiros portugueses n’Os Lusíadas
13. Escrava a quem Camões escreveu
endechas, musicadas por José Afonso
14. Numa redondilha de Camões, «Leonor
vai para a fonte formosa e não…»
15. Tipo de poesia a que se dedicou
Camões, para além da epopeia
17. Segundo Camões, «Verdes
são os campos / De cor de…»
Pistas:
Vertical:
1. Num dos seus sonetos mais conhecidos,
a madrugada é simultaneamente triste e…
2. Cidade no Norte de África onde Camões
perdeu o olho direito
3. Navegador exaltado nOs Lusíadas
5. Cidade onde Camões veio a falecer
8. Musa invocada pelo poeta nOs Lusíadas
11. A personagem d’Os Lusíadas que se
opõe à expansão marítima é o velho do
12. Segunda palavra do primeiro verso
d’Os Lusíadas
16. Para Camões, o que é «um fogo
que arde sem se ver»?
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Rock in Rio Lisboa e MEO Marés
VivasTêm sempre os artistas
mais famosos e que estão
nostops no momento, e os
livros que sugerimos não podem
ficar atrás!
Nunca Mintas,de Freida McFadden:
como é que a procura pela casa de
sonho se tornou num mistério
sobre um desaparecimento? Tricia
e Ethan, recém-casados, vão visitar
a mansão da Dra. Adrienne Hale,
uma psiquiatra de renome
desaparecida, quando uma
tempestade de
neve os prende na
propriedade. Com
a descoberta das
gravações das
consultas da
psiquiatra, Tricia
vê-se presa no
emaranhado de mentiras da Dra.
Hale e na terrível verdade sobre o
seu desaparecimento. Quantas
mais gravações ouve, pior se revela
a vida da psiquiatra,
e mais perigo corre Tricia. Será que
a curiosidade vai deixar vítimas?
Seguindo o mote dos seus
bestsellers anteriores, McFadden
envolve-nos na história desde as
primeiras páginas, com reviravoltas
e um final surpreendente.
Outras sugestões: Crime na Aldeia,
de Lourenço Seruya; Uma Boa
História, de Emily Henry; A
Biblioteca da Meia-Noite, de Matt
Haig; Elefante na Sala, de Joana
Marques; Um Animal Selvagem,
de Joël Dicker.
NOS Alive e Super Bock Super
Rock São conhecidos por terem
um cartaz eletrizante e que faz
vibrar do início ao fim, e existem
livros que lhe vão provocar as
mesmas sensações.
Apenas Miúdos,
de Patti Smith:
No seu livro de
memórias, a artista
Patti Smith, leva-o
a viajar até ao
mundo encantado
de Nova Iorque do
final dos anos 60 e início dos anos
70. Descubra o amor livre
e a história de Patti e Robert
Mapplethorpe, e como a artista
começou a ficar conhecida.
Envolva-se na escrita sincera e
conheça esta artista multifacetada,
sem máscaras nem egos, um ser
humano sensível, com um espírito
criativo e lutador.
É uma história comovente sobre
persistência, juventude e amizade,
que explora o universo da poesia,
rock’n’roll, sexo e arte, com uma
beleza incontornável que apenas
Patti conseguiria transcrever para
o papel em forma de arte.
Outras sugestões: Things the
Grandchildren Should Know, de
Mark Oliver Everett; The Storyteller,
de Dave Grohl; Fé, Esperança
e Carnificina, de Nick Cave.
mesmas sensações.
final dos anos 60 e início dos anos
desaparecida, quando uma
emaranhado de mentiras da Dra.
O amor pela música e pelos livros, muitas vezes, cruza-se. E se juntasse
os dois e criasse o casamento perfeito? Com a letra e os acordes certos,
tudo é possível. Percorremos os festivais que o acontecer este
verão e deixamos sugestões que combinam
com cada um.
Por Sara Pais
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EDP Cool Jazz – Um festival com
um cartaz mais relaxado, e que
transmite um ambiente mais
tranquilo, só poderia ser
acompanhado por livros que
parecem um abraço musical
quando os lê.
Música, só Música, de Haruki
Murakami e Seiji Ozawa: a paixão
de Murakami pelo jazz e pela
música clássica não é novidade
para ninguém. Nestas seis
deliciosas
conversas, que
inflamam a paixão
e o prazer de ouvir
música, o autor
partilha com os
leitores os seus
gostos, opiniões
e o desejo de saber tudo e mais
alguma coisa sobre a arte da
música. Numa conversa com Seiji
Ozawa, antigo diretor da Orquestra
Sinfónica de Boston, os dois falam
sobre os mais variados títulos –
como as conhecidas composições
de Brahms e Beethoven, Bartók
e Mahler –, sobre maestros como
Leonard Bernstein e solistas fora
de série como Glenn Gould.
Acompanhados por música,
vão comentando as diferentes
interpretações e partilhando
curiosidades e confidências que
contagiam os leitores e despertam
o entusiasmo e o prazer infindável
de desfrutar da música com novos
ouvidos. Perca-se neste delicioso
diálogo apaixonante entre dois
artistas sobre um dos elementos
de união entre milhões de pessoas
espalhadas pelo mundo.
Outras sugestões: Dança, Dança,
Dança, de Haruki Murakami,
Nocturnos, de Kazuo Ishiguro, Bel
Canto, de Ann Patchett, Dor
Fantasma, de Rafael Gallo, O
Pianista de Hotel, de Rodrigo
Guedes de Carvalho.
Taylor Swift – Não podíamos deixar
de a mencionar porque, para além
de ser a rainha da pop, é a
inspiração para muitos livros.
Depois dos concertos incríveis que
deu em Portugal, um livro é o ideal
para ajudar a ultrapassar a ressaca
criada.
Tudo o que Acontece Depois
da Meia-Noite, de K. L. Walther:
Preparados para começar o jogo
que quebra todas as regras e não
cumpre previsões? Esta história
sobre segundas oportunidades
segue a fórmula a que a autora
jáhabituou os seus leitores,
tornando-se viciante página após
página. A apenas duas semanas
determinar as aulas, Lily sente-se
dividida porque vai finalmente
paraa faculdade, mas acha
quenão se divertiu o suficiente
antes desse grande passo.
Umbilhete misterioso para
participar na partida de final de
ano, com um finalista que usa o
pseudónimo de “Jóquer, vai mudar
esse sentimento.
Jóquer quer
permanecer
anónimo mas, com
a perspicácia de
Lily, o disfarce é
descoberto – é o
seu ex-namorado
Taggart Swell – e os sentimentos
adormecidos regressam à
superfície. Confrontada com
o facto de o alvo da partida ser
Daniel, o seu par para o baile de
finalistas, Lily terá de decidir qual
o jogo que quer jogar, e se dar uma
segunda oportunidade a Taggart
valerá mesmo a pena.
Outras sugestões: Isto Não
Acontece nos Filmes, de Lynn
Painter, The Breakup Tour – A
Canção do Nosso Amor, de Emily
Wibberley & Austin Siegemund-
Broka, O Verão em que Quebrámos
Todas as Regras, de K.L. Walther.
NOS Primavera Sound e Vodafone
Paredes de Coura Estes dois
festivais têm cartazes mais
alternativos, marcados pela arte
e criatividade, e é claro que
os livros têm de primar pelos
mesmos valores!
O Ato Criativo, de Rick Rubin:
O lendário produtor musical,
mestre em ajudar as pessoas
a conectarem-se com o seu lado
criativo, partilha os seus
conhecimentos para que consiga
desbloquear a sua criatividade.
Ao longo de várias décadas, Rubin
teve inúmeras colaborações com
artistas conhecidos por todos
Paul McCartney, Red Hot Chili
Peppers, Metallica, Eminem – e foi
colecionando técnicas e quadros
mentais para superar bloqueios
criativos e
desenvolver as
capacidades dos
criadores. Com 78
reflexões curtas
sobre o que
realmente significa
ser artista, aprenda
a lidar com o fracasso
e a incerteza, e a abraçar a sua
inspiração e paixões. O produtor
leva-o numa viagem pelas suas
experiências, explorando o melhor
da filosofia e psicologia, fatores
decisivos para qualquer ato criativo.
Outras sugestões: Fúria Mortal,
de Bruno M. Franco; Cleópatra
& Frankenstein, de Coco Mellors;
Sobreviver a Esta Noite,
de Riley Sager.
a lidar com o fracasso
e o desejo de saber tudo e mais
pseudónimo de “Jóquer, vai mudar
Taggart Swell – e os sentimentos
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Por Vera Dantas
Desde que entrou no mundo dos romances históricos,
Isabel Stilwell abraça o desafio constante de tornar
a História viva e fascinante para os leitores de hoje.
Em Leonor Teles, o seu mais recente romance,
-nos a conhecer esta rainha retratada
à época como vilã, mas que foi muito
mais complexa e interessante
do que nos fizeram crer.
A autora aceita de bom grado
o nosso epíteto de “cronista
do passado, respeitando
a linha entre o conhecimento
fatual e a ficção.
Revelando a pessoa
por detrás da imagem
pública de figuras como
D. Filipa de Lencastre
ou Isabel de Aragão
à luz de novas fontes,
sente que as conhece
melhor. E convida
cada leitor a
reinterpretá-las
à sua maneira,
enquanto
mergulha
profundamente
no contexto
histórico de
cada narrativa.
E que prazer é
entrar nestas
histórias! Stilwell
wookacontece verão Isabel
@Luciano Reis
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33
Stilwell
wookacontece verão
Escreve sobre temas muito diversos. O romance
histórico é o género que mais a absorve e cativa?
Talvez aplique intuitivamente a tudo o que faço
a mesma enorme curiosidade pelo ser humano
e o desejo de desconstruir ideias feitas. E de o fazer
com rigor e sentido de humor. Os romances históricos
serão a oportunidade de aprofundar o meu
conhecimento sobre o que faz de nós pessoas,
aprendendo e confirmando como ao longo da História
somos sempre os mesmos, embora manifestamos as
nossas emoções de forma diferente, consoante o
tempo e a cultura em que estamos inseridos.
Ao decidir escrever, sobretudo, sobre importantes
figuras femininas da nossa História, pretendeu dar-lhes
a voz e a visibilidade que não tinham tido ainda?
Não parti de nenhuma intenção de cruzada pelas
mulheres. Sendo eu de uma família inglesa, falávamos
da única princesa inglesa que tinha sido rainha de
Portugal. Ao longo dos anos constatei que a maioria
de nós não sabia mais do que aquilo que aprendeu a
correr na escola sobre as nossas rainhas, algumas
delas mulheres extraordinárias e completamente
esquecidas. Era irresistível partir em busca de cada
uma delas.
Retratar essas figuras femininas implica ter menos
documentação a partir da qual trabalhar, originando
romances mais ficcionados?
Depende muito de cada caso, porque quanto
mais próximos chegamos no tempo,
mais documentação se encontra.
Mas quando recuamos no tempo,
as mulheres só surgem nas
crónicas na medida em que
são mães, mulheres, ou filhas
de homens importantes e,
muitas vezes, não merecem
mais do que uma linha.
Apesar de tudo, quando se
pesquisa, e se cruzam fontes,
depressa se conclui que tudo
o que podemos imaginar fica
aquém do que aconteceu.
Ao escrever sobre a Ínclita Geração, colocou o foco em
Isabel de Borgonha, e não nos seus irmãos, como
tantos fizeram. O que descobriu, que mais a
impressionou, quando investigava para este livro?
Quando comecei a “investigá-la”, descobri que é uma
das mulheres mais poderosas do seu tempo. Há teses
de doutoramento em França e historiadores
americanos que escreveram sobre a Duquesa de
Borgonha, mas eles tendem a centrar-se na sua
governação já na Borgonha, a partir dos seus 33 anos.
Há uma vida antes disso, que influencia aquilo que foi,
nomeadamente o facto de ter ocupado o lugar
deixado vago pela mãe ao lado de D. João I,
durante muitos anos.
A sua decisão de escrever sobre Filipe I, um rei “mal
visto, prendeu-se com uma vontade de encontrar
a pessoa por detrás do rei, a humanidade por detrás
da política e do poder?
Não podia dizê-lo melhor. Sou bastante alérgica
a “retratos” simplistas, porque as pessoas são todas
muito mais complexas e interessantes do que aquilo
que aparentam na cristalização que os manuais
ou a ideologia do momento nos querem fazer pensar.
Referimo-nos aos “Filipes”, como se os três fossem um
único, “cancelámo-los”, e apagámos aquele período da
História das nossas cabeças. Pareceu-me que já tinha
passado tempo suficiente para olharmos para essa
época sem (tantos) preconceitos. O rei Filipe I é mal
visto, porque a História dos vencedores – a Dinastia
de Bragança — o quis pintar assim. Além disso, as
mais recentes biografias do rei e a descoberta das
cartas que escreveu às filhas permitiram-nos conhecer
outras facetas do rei.
Visitar o nosso património histórico é como espreitar
para o passado. Estar nesses locais ajuda-a a imaginar
as cenas da intimidade nas quais se movimentavam as
figuras históricas que irão ganhar vida nos seus livros?
Preciso mesmo de visitar esses cenários para inspirar
a minha escrita. Podem já só restar pedras, mas as
pedras, quando as sabemos ouvir, também falam. Não
vale a pena partir sem conhecer previamente a história
do lugar, sem saber de quem é que vamos
à procura, sob risco de não encontrarmos
nada. Temos publicado roteiros literários
associados a cada um dos livros para
Isabel
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ajudar as pessoas a contextualizarem a visita,
nomeadamente com as partes do livro que acontecem
em cada sítio, para descobrirem os detalhes que lhes
poderiam escapar.
Quais são as suas principais fontes de investigação
para os romances históricos? E qual foi o documento
a que teve mais dificuldade de aceder?
Leio tudo o que os historiadores escreveram sobre
as personagens e o tempo sobre o qual vou escrever,
mas também as fontes primárias, como as crónicas,
os diários e as cartas, até porque aquilo que um
romancista histórico procura nelas é diferente. Em
termos de investigação pessoal, orgulho-me de ter
encontrado as cartas, julgo que inéditas, de um
embaixador inglês em Lisboa no tempo de D. Maria I,
e que são muito importantes para perceber a saúde
mental da rainha.
Depois de tanto investigar, consegue mais facilmente
perceber o que de verdade há num documento
histórico, ou o que serve «uma agenda»?
A experiência ajuda, e o que aprendi com as
historiadoras que me acompanharam nos primeiros
livros, também, mas aplico ao meu trabalho para os
romances históricos os mesmos princípios que regem
o jornalismo, a minha profissão: ouvir o máximo de
fontes, cruzar testemunhos, confrontar pontos de vista,
para chegar mais perto da verdade. No caso de Leonor
Teles, este meu último livro, a “agenda” de Fernão
Lopes é descarada, mas apesar disso a sua versão é
repetida literalmente há séculos, e continua em muitos
manuais da escola.
Os cronistas são uma fonte preciosa de relato dos
acontecimentos passados. A Isabel Stilwell sente-se
também como uma cronista desses tempos, mas em
retrospetiva?
Costumo dizer que sou jornalista
do passado, mas sim, cronista do
passado, também gosto. Garanto,
no entanto, que sou bem mais
independente do que muitos
deles, que escreviam o que
lhes pagavam para escrever.
Nesse sentido o tempo que
passou concede-me uma
liberdade que eles não
tinham.
Já lhe aconteceu descobrir algo que tenha mudado
completamente a ideia que tinha de alguma figura
histórica?
Mudei completamente de opinião sobre Leonor Teles.
Também eu aprendi na escola que era uma “aleivosa”,
capaz de matar a irmã, de trair o marido, de nos
“vender” a Castela, e só agora que a estudei mais
a fundo é que percebi que grande parte do que se diz
sobre ela não passa de fake news para difamá-la de
forma a legitimar a Dinastia de Avis, que empregava
o cronista. Mas ao longo destes 12 romances históricos
estou sempre a encontrar pessoas que são muito mais
complexas e interessantes do que aquilo que nos
fizeram crer, a começar em D. Filipe I de Portugal
e a acabar em D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques.
Para construir as personagens com que traz à vida
figuras históricas – das principais às secundárias,
incluindo crianças e todo o séquito que rodeava as
figuras da nobreza – coloca-se na pele delas,
construindo-as como pessoas tal como nós (todos
sonhamos, desejamos, amamos)?
É quase isso, mas como quero fugir aos anacronismos
tenho de mergulhar a fundo na época sobre a qual
escrevo porque, se os sentimentos e as emoções são
os mesmos, a forma como se manifestam é modelada
obviamente pelo tempo em que viviam e pelos
conhecimentos que tinham. Um cometa pode hoje
ser um fenómeno explicado mas, no tempo em que
escrevo, um presságio terrível de uma morte iminente.
O que é mais difícil na hora de começar a escrever um
novo romance histórico?
Mal decido sobre quem vou escrever, a minha cabeça
começa a fervilhar de ideias, noite e dia. Aquela
pessoa, aquela família, passa a estar permanentemente
comigo. Numa primeira fase leio e leio e aos poucos
o “filme” torna-se mais claro, o passado torna-se
quase presente. Enquanto isto, vou construindo uma
grelha rigorosa de factos, de datas, de lugares,
e a criar a história, a forma como se vai desenrolar, as
personagens que vão ficar e as que vou ter de deixar
cair... Há uma parte que se torna mais fácil com a
experiência e outra, mais complicada, porque não me
quero repetir, quero tentar coisas diferentes e tenho,
sempre, medo de desiludir.
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retrospetiva?
Costumo dizer que sou jornalista
do passado, mas sim, cronista do
passado, também gosto. Garanto,
no entanto, que sou bem mais
independente do que muitos
deles, que escreviam o que
lhes pagavam para escrever.
Nesse sentido o tempo que
passou concede-me uma
liberdade que eles não
tinham.
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Filipa de Lencastre e Isabel de Borgonha fazem parte
da Ínclita Geração, e a ambas dedicou um romance.
Ao entrar na vida de uma figura, acaba por descobrir
informação para muitas outras histórias…
Como consegue decidir o que deve ficar num livro
e o que vai separar para outro?
Pode acontecer de duas maneiras: uma, em que
penso «Quero mais tarde voltar aqui»; e outra, que
é muito posterior, em que de repente me lembro
«É verdade, e o que terá acontecido à filha daquela
personagem de que gostei tanto?». No caso de Isabel
de Borgonha, foi a segunda, e só passados alguns
anos.
No seu novo livro Leonor Teles, a narração alterna
entre Aldonça de Vasconcelos, mãe da protagonista,
e a tia desta, Guiomar Lopes Pacheco. Contar
a história pelos “olhos” maternais destas mulheres
permite uma visão mais íntima da menina e mulher
que a rainha Leonor foi?
Acredito que sim. Sinto que tenho facilidade em entrar
na cabeça das mães e, além disso, preciso muito desta
outra voz para ir dando ao leitor um outro ponto de
vista, por vezes, um contraditório do que se está a
passar no primeiro plano. Estas duas mulheres mais
experientes podem, além do mais, explicar ao leitor o
que conduziu à situação presente, e completar a visão
necessariamente infantil da minha personagem
enquanto criança e adolescente.
A vida de Leonor Teles é marcada por tragédias
passadas – o assassínio de Inês de Castro, prima do
pai de Leonor – e futuras. Este livro demonstra, com
paixão e sangue, como os laços entre as famílias da
realeza podem ser fatais, de tão interligados e com
tanto passado comum?
Completamente. Onde há poder, há intriga, paixão
e sangue, e não precisamos de recuar ao século XIV
para o confirmar! E quanto a famílias e nepotismo,
também não faltam exemplos.
É curioso como nomeia de Dramatis personae a lista
das figuras dos seus romances históricos. Imagina-as
como atores num palco, do qual é a dramaturga e
encenadora?
Curiosamente não. São para mim tão reais, tão de
carne e osso e autónomas que sinto que não tenho
mão nelas e fazem o que lhes dá na cabeça! O
objetivo de as enumerar é ajudar o leitor a conhecê-las
melhor e a encontrar a confirmação de que existiram
mesmo, com a transparência de ressalvar onde
começa a ficção. Posso dizer: sabe-se com toda
a certeza que A e B trocaram cartas, estiveram juntos
em circunstâncias estranhas, mas a relação amorosa
entre eles é uma conclusão minha.
Depois de entrar nas vidas de alguns doss nossos
antepassados, sente que os conhece?
Sinto que os conheço muito melhor do que os
conhecia, e acredito que cheguei perto, mas sinto
sempre a necessidade de dizer «a “minha” D. Teresa,
a “minha” Inês de Castro, a “minha” Leonor Teles,
o “meu” D. Manuel». Nunca conhecemos todas as
facetas de uma pessoa e, para um mesmo facto ou
acontecimento, há muitas versões diferentes. Desejo
que o leitor, quando acaba de ler um dos meus livros,
também se aproprie destas personagens de uma
maneira que é só dele, as reinterprete e recrie à sua
maneira. Não há outra forma de conhecermos
os outros.
Tantas figuras marcaram a identidade de que somos
feitos. O que diria às pessoas – crianças ou adultos –
que acham que a História «não serve para nada»?
Dizia-lhes que se não soubermos de onde vimos, não
percebemos o ponto onde estamos e torna-se muito
mais difícil descobrir o caminho por onde devíamos ir,
perdendo tempo a cometer os mesmos erros. E, depois,
tentava a forma mais eficaz de todas: pedia-lhes que
testassem o prazer que dá ler estas histórias, perceber
estas intrigas, entrar num palácio e entender por que foi
construído ali e não noutro sítio, como foi defendido um
castelo e contra quem, e como, confrontado com uma
perda ou um luto, pode encontrar consolo num poema
escrito no século X onde, afinal, a dor e a tristeza se
sentiam com a mesma força. Se há coisa que me faz
feliz é a quantidade de leitores, novos e velhos, que me
dizem que não gostavam de História, porque eram só
datas e tratados, e agora descobriram que, afinal, não
éuma “seca”.
mesmo, com a transparência de ressalvar onde
começa a ficção. Posso dizer: sabe-se com toda
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Por Vera Dantas
Dos clássicos aos contemporâneos,
a literatura mexicana dá-nos uma
visão caleidoscópia de um país que
procura resistir à realidade violenta
e difícil em que se vê mergulhado.
Estes sete escritores impressionam
pela sua capacidade de nos
mostrarem, sem freios, este mundo
tão distante do nosso.
Depois de os lermos, não seremos
certamente os mesmos.
Guadalupe Nettel (n. 1973)
O mais recente livro de Guadalupe
Nettel,A Filha Única, desenrola-se em
torno de três mulheres e do conceito
de maternidade, com os seus esfoços
e fracassos, atos de fé ou renúncia. Alina
e Laura, amigas, são duas mulheres
independentes que não construiram o seu futuro com
a perspetiva de uma família. Laura tomou a decisão
drástica de ser esterilizada, mas Alina acaba por querer
ser mãe. Quando está grávida de oito meses,
é informada de que a filha que tanto desejou não irá
sobreviver ao parto. A par do processo de luto de Alina
e do seu marido, as duas mulheres lidam com a
complexidade das suas emoções e a ambivalênvia
da maternidade. A adensar a narrativa, há ainda Doris,
a vizinha de Laura, mãe de um menino enternecedor,
mas com problemas de comportamento. Nettel tece
uma sinuosa e arrebatadora narrativa de amor,
amizade e sobrevivênvia, lembrando que a língua ainda
não foi capaz de inventar uma palavra para designar
aquele que perde a sua prole.
Inspirando na infância da escritora, O Corpo em que
Nasci éum livro de memórias terno e duro. Nettel
fala-nos sobre uma menina que cresce nos anos
setenta com uns pais que vivem um casamento
aberto, em comunas hippies; Devido ao seu problema
de visão, a criança acaba por se identificar com
os que vivem à margem de modas ou convenções
sociais. Passado entre a América e a Europa, este
romance de amadurecimento percorre um fascinante
caminho em direção à auto-aceitação.
Fervilhantes novas vozes literárias
Fernanda Melchor (n. 1982)
Os livros desta vibrante escritora,
que explora o lado obscuro do ser
humano, podem ser descritos como
uma descida ao inferno, reflexo de
uma sociedade fraturada entre
raças e classes e marcada pela
misoginia, em que a violência se
banalizou. Em Temporada de
Furacões, já adaptado a série de TV pela
Netflix, Melchor traça um retrato fiel desta realidade
sangrenta. Misto de romance policial e história de terror, a
história começa quando um grupo de rapazes encontra
o cadáver em decomposição de uma mulher, conhecida
como “A Bruxa”, num canal de irrigação. Cada capítulo
aproxima-se do crime central com uma escalada de
horror moldada pela superstição, pelo abandono e pela
desesperança, com um lirismo surpreendente.
Não menos duro, Paradaise arranca no rescaldo dos
crimes hediondos cometidos por dois adolescentes:
Polo, um jardineiro nascido numa realidade de pobreza
e violência que trabalha num bairro de gente abastada,
e o seu cúmplice Franco, um pária proveniente de uma
família rica. Polo ensaia uma confissão perversa, quase
negando a sua culpabilidade. A natureza exacta dos
seus actos só será descoberta no final. Mas vemos,
desde logo, um monstro dividido em dois, já que
nenhum deles é capaz de uma violência tão horrenda
sem o outro. Impressiona ver como Melchor consegue
imbuir o “mal” de tal complexidade psicológica. Não
surpreende, por isso, que ambos os livros tenham sido
finalistas do International Booker Prize.
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Silvia Moreno Garcia (n. 1981)
Através de géneros tão diversos
como a fantasia, o terror e o
romance histórico, Silvia Moreno
Garcia pretende dar uma visão
mais ampla do México,
caleidoscópia e distante das
narrativas construídas pela
indústria cinematográfica ou
televisiva, que se centram nos
cartéis ou nos migrantes. O maior sucesso editorial
de Garcia é tico Mexicano, uma novela de terror
passada numa fazenda mexicana, nos glamorosos
anos 50. Quando recebe uma carta da sua prima
contando-lhe que o marido desta tenta envenená-la,
Noemí, uma jovem e ambiciosa socialite, parte para a
isolada mansão de Lugar Alto, na província. Ao chegar,
encontra a prima, outrora alegre, num estado sombrio,
dizendo ouvir vozes vindas das paredes e ver pessoas
mortas. Noemí não tarda muito a aperceber-se de que
há algo muito estranho na mansão e nos que a
habitam, e começa, ela própria a ter visões aterradoras
que lhe vão revelando horrores que se arrastam há
centenas de anos. Em paralelo, torna-se objeto de
desejo dos homens da casa, cujos avanços denotam
uma visão retorcida de racismo, num ambiente
marcado pelo sentimento de domínio patriarcal.
As cenas de suspense envolvem quem lê, à medida
que Noemí se vê puxada pelas garras daquela casa,
sem saída à vista.
O êxito desta novela permitiu à autora escrever o livro
que ela «realmente queria» escrever: A Noite Era de
Veludo, um romance noir histórico-político situado na
sequência do massacre de El Halconazo de 1971, em
que oito mil estudantes foram violentamente
reprimidos pelos Halcones, um grupo paramilitar
apoiado pelo governo, causando 120 mortos e
centenas de feridos. Os protagonistas são Maite,
uma secretária solitária que prefere viver alheada da
realidade, lendo contos românticos e ouvindo as suas
músicas, e Elvis, que anseia escapar à brutalidade dos
Halcones, a que se juntou. Ambos partem em busca
de uma bela estudante desaparecida, numa narrativa
envolvente que só no fim os levará a encontrarem-se.
As personagens são fascinantes, o tom é exuberante
e romântico, e tudo está envolto num mistério com
reviravoltas difíceis de adivinhar. Um retrato pungente
da sociedade mexicana, vencedor do Goodreads
Choice Awards em 2020.
Um doce nome
Laura Esquível (n. 1950)
Será talvez a escritora mexicana mais
famosa, graças a ter adaptado para
livro um argumento que escreveu para
um filme não concretizado por falta de
fundos. Nascia assim Como Água Para
Chocolate, romance belíssimo e
sensorial que conta a história de Tita
de la Garza, no México pré-revolução do despontar
do século XX. Por ser a filha mais nova, a tradição
ditava que tivesse de cuidar da mãe. Não se podendo
casar com o charmoso Pedro, terá de suportar vê-lo
casado com a sua irmã, embora este apenas aceite
a situação para ficar perto de Tita. A paixão entre
ambos não esmorece, invadindo como uma torrente
imparável aquele cenário vívido que mistura
condimentos e sentimentos através da comida, com
um desfecho surpreendente. A escrita de Esquível,
perfumada de beleza poética que funde o mundano
com o místico, tornou esta obra num sucesso mundial,
que acabaria por ser adaptado ao cinema por Alfonso
Arau, marido da escritora, com igual êxito. A saga
continua com O Diário de Tita, que revela os secredos
por detrás do primeiro enredo, e conclui-se com
OMeu Negro Passado,último livro da trilogia. Agora,
aprotagonista é a sobrinha-neta de Tita, María.
Destroçada pelo desabar do seu casamento, vai buscar
forças ao diário da tia-avó, mulher livre e apaixonada,
com quem se identifica e aprende a enfrentar as
adversidades da vida. Ao longo do tempo e de três
gerações, percorremos a alquimia dos sabores e a
capacidade do espírito humano para se elevar.
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Carlos Fuentes (1928-2012)
Fuentes foi um dos
principais expoentes
do chamado boom literário
das décadas de 60 e 70,
juntamente com Márquez
e Llosa, com os quais
formou o “triângulo de
ouro” da literatura latino-
-americana e nos trouxe
o realismo mágico. Deixou
uma vasta obra com romances, contos, teatro e ensaio,
e foi muito acarinhado pelo seu país, que criou um
prémio literário com o seu nome.
A Boneca Rainha,de Contos Sobrenaturais, explora
a fragilidade da memória e o poder do desejo não
realizado de Carlos, ao reencontrar-se com Cecilia –
mulher que idealizava e que é caracterizada através
de elementos sobrenaturais, e que o protagonista
transforma numa figura quase mítica. Além de
escritor, Fuentes é recordado como um grande difusor
da literatura e da cultura da América do Sul, enquanto
diplomata e jornalista, sempre com uma visão crítica
sobre o mundo.
Com um olhar lúcido e sagaz, permeado por vezes
por surrealismo, magia e misticismo, os escritores
mexicanos extraem a luz que subsiste na mais
negra obscuridão, alimentando uma tradição
literária arrebatadora.
As vozes do México profundo
Octavio Paz (1918-1986)
Galardoado com o Prémio Nobel de Literatura em
1990 pela sua poesia – para ele, «a religião secreta
da era moderna» –, Octavio Paz é uma figura basilar
na literatura mexicana e latino-americana. Além de
poeta, escreveu ensaios notáveis como
O Labirinto da Solidão, uma profunda
meditação sobre a identidade mexicana
e como esta é moldada pela História,
política e cultura. Em Vislumbres da
Índia,escrito quando era embaixador
do México naquele país, nos anos 60,
enaltece a força que a cultura e a
sociedade indianas retiram da sua
capacidade de assimilar e transformar as influências
estrangeiras ao longo dos séculos, mantendo a sua
identidade única. Com uma escrita de grande beleza
lírica e rigor intelectual, a obra de Paz é fulcral para
entender o espírito mexicano, na dicotomia entre
a tradição e a modernidade.
Juan Rulfo (1917-1986)
Fotógrafo, argumentista, contista
e romancista, Juan Rulfo deixou
uma obra fundadora de uma
nova forma de literatura latino-
americana que influenciou
decisivamente autores como
Gabriel García Márquez ou Mario
Vargas Llosa. Duas obras foram suficientes para
o consagrar. Pedro Páramo constitui um ponto de
viragem na literatura e no realismo mágico. A narrativa
acompanha Juan Preciado na sua viagem a Comala,
a pedido da sua recém-falecida mãe, para conhecer
o seu pai, Pedro Páramo. Quando um desconhecido
lhe diz ser seu irmão, revelando-lhe que todos os
habitantes de Comala têm o apelido de Páramo,
o leitor vê-se num limbo entre o real e o sobrenatural,
ensombrado pela dureza e pela opressão da vida
no México campestre. Personagens profundas, dos
camponeses que lutam pela subsistência aos caciques
brutais e aos revolucionários sanguinários, coexistem
num cenário árido e pobre, carregado de solidão,
violência e morte. No seu outro livro marcante,
o volume de contos A Planície em Chamas,Rulfo
volta a expor a brutalidade e a resiliência no desolado
México rural, com uma visão sincera e comovente
da Humanidade nas suas formas mais cruas.
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Oh! como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.
Um poema de
Luís de Camões
Um soneto não apócrifo, exímio
nas formas e construções do
pensamento. Sem explícita
convocação petrarquista ou
neoplatónica, que noutros
acontece – «Transforma-se
o amador na cousa amada»
é um exemplo luminoso -, mas
nascido de uma visão
transformacional e criativa da
imitatio como estética, todo
ele é inscrição da passagem
do tempo no sujeito, assumido
nas suas incisões biográficas,
disforias, contrastes,
intensidades.
O engenho da elaboração
textual, nos diversos planos
à luz de uma hermenêutica
impreterível, das regras
canónicas (até na acentuação
dita heroica) ao sábio manejo
morfossintático, rítmico,
semântico, sem esquecer
indicadores fonéticos, atinge um
fulgor incomum. À época e nos
ciclos literários até ao presente.
Renunciando a singularidades de
análise porventura crespas neste
lugar, anotaria quanto, quase
verso a verso, enlaça o leitor
e os marcadores da viagem
vivencial, desengano, cansaço,
esperança exaurindo-se, finitude
constrangida e avessa ao lugar
íntimo do desejo – numa linha
verbal e substantiva (alonga,
encurta, caminha, cresce, etc.;
peregrinação, discurso,
experiência) em que nada surge
jacente ou resignado. Camões,
poeta supremo nas auras do
Renascimento e, afinal, tão
nosso contemporâneo.
Mesmo noutros domínios
que aqui não cabem.
José Manuel Mendes Presidente da Associação Portuguesa de Escritores
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Cartoon
© Hugo van der Ding
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